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História

Pataca não dá em árvore!

História de: Artur Leite
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 14/11/2003

Sinopse

A tranquila viagem ao Brasil envolve uma jornada de 17 dias e um barco em chamas. O clima do país lhe traz brotoejas, e a saudade da família o perturba. Mesmo com todos os problemas, os sonhos sustentaram seus pés em terra firme. “Não pense que chega, balança a árvore e as patacas caem. Tem que trabalhar”. Seguiu o conselho à risca. Acordava às três da madrugada para comprar produtos para abastecer sua mercearia. O esforço e ajuda dos amigos e familiares levaram-no ao mercadão de Madureira, onde pôde, além de se realizar, acompanhar e participar de todas as mudanças daquela região comercial.

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História completa

P/1 – Boa tarde, senhor Artur. Vamos começar essa entrevista, então. Para começar essa entrevista, eu gostaria que o senhor dissesse pra gente o seu nome, o nome dos seus pais, seus avós – se o senhor lembrar – e a cidade em que o senhor nasceu.

 

R – Artur Leite. Pai: Frutuoso Leite; mãe: Gracinda de Souza; avô: Joaquim de Souza; avó: Rosa de Magalhães.

 

P/1 – Certo! Senhor Artur, onde o senhor nasceu?

 

R – Eu nasci no Distrito de Braga, Concelho Celorico de Basto. O lugar, Souto Freguesia de Fervença.

 

P/1 – E quais são suas lembranças da infância, desse local onde o senhor nasceu? Como era a cidade que o senhor nasceu e passou sua infância?

 

R – Bom, a cidade era uma aldeia, onde eu nasci era uma aldeia. As lembranças são ótimas, porque a gente criança ou adolescente... Sempre tem muita coisa que a gente guarda desse tempo, embora seja de lugares que, digamos, há sessenta e poucos anos atrás, não eram o que são hoje. Mas dentro daquilo que na época a gente tinha condições, eu acho que tem muitas coisas, muitas recordações. Porque de acordo com os tempos... As coisas mudaram muito, e é claro que até em papos com amigos ou com parentes a gente lembra muita coisa daquele tempo. Inclusive não tínhamos luz elétrica, então, sabe como é, tinha que andar com a lamparina – um gasômetro, que chamamos –, que era carbureto e etc. Então a coisa era completamente diferente do que é hoje, mas muitas recordações boas a gente tem, não tem dúvida, porque sempre se... Nessa época ou nessas épocas, nessa idade que a gente tem, ou de criança, ou o que seja, a gente sempre adapta umas coisas que a gente gosta, que é brincadeira, é tudo nesse aspecto que, de acordo com aquilo que a gente tem em mão, a gente sempre adapta pra aquilo que gosta, com a melhor condição ou a menor, mas a gente sempre têm recordações boas do tempo de criança, de onde nasceu.

 

P/2 – Qual é a data de nascimento do senhor?

 

R – Vinte e um de dezembro de 1934.

 

P/1 – É, o senhor falou aí das recordações boas, de criança, tal. O que ficou, pro senhor, dessa época, mais marcado? O que o senhor lembra, dessa época, o que marcou mais, que o senhor lembra até hoje?

 

R – Olha, você diz em termos até de brincadeira ou de...

 

P/1 – É, pode ser, brincadeira, os amigos.

 

R – Tem uma história que eu sempre conto, sempre conto até entre amigos, e que conhece... Que eu acho que vocês vão achar até engraçado. Existia – porque hoje quase não existe; até existem alguns lugares só pra manter tradições – o cultivo de linho, o linho para fazer tecidos mesmo, e só cultivava o linho. O linho tem uma série de passagens até chegar ao ponto de ser tecido, que é: semeia, depois colheita, depois ele passa por um sistema de água; uma série de coisas pra ele chegar ao ponto, e tem... Existe uma parte, quando ele já vira uma estopa, que era feito num... A gente chamava de cortiço, que era realmente uma coisa tipo, pra dar um tipo ________, que era feito da cortiça do sobreiro mesmo, tinha que dar a cortiça. As mulheres colocavam o linho já na estopa, botavam a mão dentro, segurando a estopa, e do outro lado tinha uma espadela – não sei se a gente chamava espadela –, que é tipo um negócio feito em madeira, que batia do lado, que era pra tirar toda casca do linho e virar uma estopa, realmente, pra depois ir pra... Bom, e sempre aquilo. Esse trabalho era feito de noite, e era um tipo de empreitada, assim, de comunidades. Juntava, hoje ia se fazer a espadelada na casa do senhor José, lá do lado; depois era do Seu Antônio, depois era na do meu avô, ou coisa assim...

 

P/1 – Como era o nome desse...

 

R – Joaquim.

 

P/1 – Não...

 

R – Espadelada.

 

P/1 – Espadelada?

 

R – Espadelada. Então, quando era à noite – isso sempre era feito, até desse tipo de trabalho se fazia, era um tipo de brincadeira para namorados, para as moças irem namorar, então (purtiam?) aquilo, porque o rapaz ficava do lado da moça que estava lá espadelando, né, namorando, batendo papo e tal, e coisa. Aí, no fim daquilo, tinha uma festa, tinha um comes e bebes e etc., e quando juntava, eles saíam, era tipo mutirão: juntava aquele pessoal todo e ia pra casa do fulano hoje, que era a espadelada lá na casa do seu fulano, da família lá, ou sei lá como se desse o nome. As garotas, que geralmente eram moças novas e algumas também já casadas, mas era sempre a preferência, porque o negócio era a farra, então saíam todas de braços dados com a cortiça debaixo do braço e a espadelada, que era pra espadelar o linho na mão. Juntavam todas, e aquela tradição de aldeia, elas iam cantando, aquilo que a gente vê em folclore ainda, que ainda tem alguma coisa aí, folclore português às vezes ainda aparece isso, alguma coisa nesse aspecto. Elas se juntavam todas enfileiradas e iam cantando, então meu avô e eu (risos). [Ele] gostava muito, ele era muito, muito brincalhão, muito moleque, digamos. Ele ficava de um lado da rua e eu do outro, a gente escondia, se escondia um de cada lado e ele botava uma corda na rua (risos), quando vinham aquelas mulheres todas, uma dúzia delas, ou sei lá, que iam passando, iam andando e coisa, a gente levantava a corda (risos) e elas caíam todas, então era um xingamento só (risos). Bom, então algumas coisas assim, desse tipo, aconteciam, que eram coisas de garoto. Quer dizer, meu avô não era mais garoto, mas também gostava. Algumas coisas nesse tipo que se usava muito – que hoje quase não se usa –, por exemplo, as vindimas eram feitas em... Hoje são máquinas, tudo é maquinário, mas tudo era na mão, cortar o cacho da uva, carregar nas costas ou na cabeça e depois pisar a uva no tanque, essa coisa no lagar, essa coisa toda, tudo isso era feito em ritmo de festa, a vindima era feita em ritmo de festa, namorar e coisa, tinha aquelas... Combinavam os namorados e aquela coisa, e era colheita de trigo, colheita de milho, tudo como hoje ainda se faz, desfolhada por aí. Vocês já devem ter escutado falar que a gente, às vezes... Eu faço parte também de uma casa, de uma associação portuguesa, que é Casa Aldeias de Portugal, e a gente faz... Ainda domingo passado fez uma desfolhada, que era desfolhando o trigo, aquela coisa, ou quem achar primeiro a moça, achar primeiro a espiga-rei, que é vermelha... Então tudo isso é feito em ritmo de brincadeira, de dança. E tem o sujeito que vai colher o linho, por exemplo, no campo, e vai uma orquestra lá, um rancho com meia dúzia de sujeitos tocando é tudo feito nesse ritmo, então essas passagens hoje não têm mais, mas a gente realmente sente saudades, porque era saudável. Eram muitas outras coisas nesse aspecto, nesse sentido, aconteciam e era muito bom.

 

P/1 – O seu avô, qual era a ocupação dele, ele trabalhava?

 

R – Era comerciante.

 

P/1 – Comerciante?

 

R – Comerciante, vim dos meus avós, deu segmento os meus pais, e hoje é um irmão que continua com o mesmo...

 

P/1 – Com o mesmo comércio?

 

R – Com o mesmo comércio.

 

P/2 – Com o mesmo nome do comércio?

 

R – É Casa do Caminho, que era o apelido do meu avô. Era o ‘vendeiro do caminho’, vendeiro do caminho, então veio agora meu irmão e colocou Casa do Caminho pra continuar dando o nome conhecido do Caminho, então ele colocou Casa do Caminho.

 

P/2 – O que ele vendia?

 

R – Ele vendeu, era ramo de cereais e tudo. No interior, na aldeia, tem tudo o que você imaginar. É agulha, é... Sei lá, o que você imaginar, vai lá e tem.

 

P/1 – E por que ele tinha esse apelido, “vendeiro do caminho”? Qual a história disso?

 

R – Bem, vendeiro eu acho que é vendas, o sujeito que trabalha com vendas. O lugar... Ele nasceu na Casa do Caminho, que era o lugar da casa que usa muito... Acho que aqui no Brasil ainda tem também alguns lugares conhecidos pela fazenda de tal, ou com o nome conhecido – o lugarejo ou até as pessoas, as famílias, aquela coisa. Então o caminho veio, era o vendeiro porque era a venda, e o caminho, que era o lugar de onde ele veio, Joaquim do Caminho, vendeiro caminho.

 

P/1 – Certo. E nessa época de infância o senhor, havia algum parente seu que já havia vindo para o Brasil, você conhecia pessoas que vinham pro Brasil, já tinham vindo pro Brasil?

 

R – Bom, tinha parentes sim, primos só, primos em segundo grau.

 

P/1 – E por que eles vieram, o senhor sabe, conhece essa história da vinda deles pra...

 

R – Não, eles, eu acho que vieram por aquela... Acho que tem certas coisas que às vezes, digamos assim, há um... Tipo uma febre de que as pessoas começam a querer emigrar, e o português sempre teve muito essa coisa de imigrante, de migrar, então eles vieram mais acho que por isso, porque resolveram vir pro Brasil. Acho que eles não tinham parentes nenhum aqui, vieram por carta de chamada que era feita na ocasião, tinha que ser, na época, só por carta de chamada, e aí foi por intermédio de amigos. Mas em parentesco acho que foram os primeiros que vieram pra cá, e eu vim depois, não foram nem eles que mandaram a carta de chamada, foi um amigo do meu avô que estava aqui no Brasil, tinha um restaurante na Rua São José naquele tempo, porque hoje já foi demolido tudo, é o fórum hoje. Era um restaurante que tinha ali, e ele é que mandou minha carta de chamada, aonde eu vim pro Brasil, e daí passei a conviver e viver com os meus primos, esses primos meus de segundo grau.

 

P/1 – Voltando um pouquinho essa entrevista, o senhor pode descrever pra gente como era a casa onde o senhor morava, como que era a relação entre a família, como era a casa, o que tinha, como era, de um modo geral?

 

R – Você diz o comércio ou a casa?

 

P/1 – A casa onde o senhor morava.

 

R – A casa era uma casa de interior, uma casa simples, com conforto, mas casa de interior. Era um tipo de construção que, inclusive, naquela época usava-se muito; era tudo em pedra, acho que diz pedra assentada, ou sei lá como é, era um tipo de pedra só, não era tijolo. A parede era assim, larga, e que a gente vê que em alguns lugares ainda existe esse tipo de coisa. Eles pegam a pedra, fazem uma face e vão colocando uma pedra em cima da outra. Aquilo, assim, quer dizer, era uma casa antiga, nesse estilo antigo, mas com conforto. Tinha adega, tinha dois pavimentos, embaixo era o comércio, em cima eram os quartos da residência, sala, e tudo, e era como a gente vivia. Família era na aldeia, e até por tradição, também, portuguesa, havia muito aquela coisa de conservar a família, eram todos... Era difícil que os domingos as pessoas, os filhos e pais etc., não visitassem uns aos outros, ou festas de Natal, etc., que não houvesse aquela confraternização que era uma coisa que antigamente se dava muito valor. Eu acho que hoje, pelo progresso, por muitas coisas, as pessoas falam por telefone “oi, tudo bem, até logo” e coisa, mas eu acho que essas dificuldades, então, havia necessidade de mais contato, de estarem mais juntos, então graças a Deus a convivência e a família sempre foi muito unida, muito bem.

 

P/2 – Você se lembra de quando criança, se o senhor visitava a loja embaixo...

 

R – Visitava, visitava.

 

P/2 – Como é que é isso, marcou alguma coisa pro senhor, na escolha da sua profissão?

 

R – Sim! Olha, nós, como crianças e moleques, minha avó era muito boa, e o meu avô que era mais duro, então a minha avó deixava a gente fazer o que queria, o meu avô já, claro, tinha que ser assim mesmo senão... Mas ela ficava sentada lá num banco, e a gente descia do sobrado por uma escada e, sei lá, ia lá e roubava, roubava entre aspas, mais aqueles doces, alguma coisa assim de... E como tinha brinquedos, aquela gaita de boca, que foi um dos instrumentos que eu comecei logo... Roubar um e comecei a tocar. Mas aquilo, quer dizer, a gente ia e roubava, e a avó fazia que não via, aí o avô vinha lá e dava uma bronca em todo mundo, mas ela acobertava todos nós, dizia: “Teu avô vem aí, não sei o que lá”, mas ela mesmo... Então a gente nunca esquece essas coisas de garoto, e que ela, até com freguês, até isso ela... Vinha um pessoal lá, às vezes, mais pobre, e escolhia uma hora que meu avô não estava pra pegar e dizer que pagava depois, e esse depois não vinha nunca mais, mas ela não dizia que não, coitada, ela era, sei lá, diziam que ela era uma santa, e ela era (riso).

 

P/2 – O senhor falou das outras crianças. O senhor tinha irmãos, quantos eram? Essas outras crianças iam brincar com o senhor na sua casa, como é que era isso?

 

R – Nós éramos nove, e fomos criados todos juntos, brincadeiras a gente sempre tinha. Os vizinhos, a gente juntava pra jogar pião, jogar, fazia uns carrinhos, aquelas brincadeiras de criança sempre, mas só que hoje tem aqueles carrinhos que a gente compra prontinho, aqueles a gente fazia mesmo, com pedaços de tábua, uma roda e tal.

 

P/2 – O senhor pode lembrar pra gente o nome das brincadeiras? O senhor falou pião, carrinho...

 

R – Pião, aquele... Uma roda que é feita em arame, a gente tinha um gancho, fazia enfiado num pau, um gancho com uma alça que então você colocava a roda e fazia um... Rodava com aquilo, tinha... Como é que se chama, que a gente vê aí? Era... Ai, eu, agora... Bom eram dois paus com... Aqui eu já vi isso, até num folclore tem, que a gente bota o pé em cima, bota aqui num degrauzinho, um pedaço de pau e sai andando em cima daquilo, não sei agora o nome.

 

P/2 – Perna-de-pau.

 

R – É, eu acho que era perna-de-pau, esse tipo de coisa que a gente criava, criava porque não tinha. O que mais acontecia era quando tinha uma festa, uma feira, usava muito flautas feitas em barro, e o presente que a gente ganhava era uma flauta daquelas, era um galo com assobio, aquele galo que a gente vê por aí, tradicional de Portugal que é... Tem o símbolo do turismo, e tinha um assobio embaixo, então a gente ganhava, trazia aquele galo com assobio. E era esse tipo de coisa simples, brinquedos simples e que não tinha outra coisa também, não tínhamos muito mais do que isso.

 

P/1 – Como que era o dia a dia na família do senhor: a sua casa, o senhor, os seus nove irmãos, sua mãe, seu pai; como era esse dia a dia?

 

R – Bom, em princípio era bom, a gente convivia muito bem. Íamos... Estudamos todos, todos para o colégio, o colégio lá, a escola, não era meio expediente, era desde manhã até à noite, então você tinha praticamente o dia todo tomado, tinha a hora do almoço, do recreio, e ia até à noite, e todo o tempo que estava no colégio, naquela época, era o dia todo estudando.

 

P/2 – Como era a educação nessa época, o que se aprendia no colégio?

 

R – Tudo aquilo que hoje... Só que naquele tempo eu acho que era muito mais, eu não sei se era pelo problema, inclusive, da própria campanha do governo, de educar mais rápido, então sei que nós, até a quarta classe nós estudávamos praticamente o que hoje você fica oito anos aí, talvez, num colégio, que é pra estudar aquilo que a gente na quarta classe já. Quarta classe, que era o... Como é que a gente dava o nome? Era quarta classe, bom, então eu acho que pela ansiedade de educar mais rápido, então não ficava meio expediente, era o expediente todo. A gente andava muito mais com os estudos em pouco tempo do que, no caso, agora. Tanto lá como aqui mudou completamente, e praticamente é isso. Na escola a gente sempre armava umas, isso não tem dúvida, porque sempre a gente marcava no fim da escola... Bater gazeta [cabular aula] não, porque aí havia uma coisa que a professora ou o professor – porque eu tive professora, tive professor –‘caguetava’ a gente aos pais, e ai o pau comia, não tinha esse negócio, então era difícil, mas senão a gente armava, aprontava mesmo, tem até umas briguinhas... Às vezes a gente aprontava de ir lá pra um terreno e via qual é que ganhava, depois chegava em casa e levava outra surra do pai, e pronto. Normal isso, não tem dúvida, acho que criança e adolescente sempre arma alguma coisa pra preencher o tempo.

 

P/1 – E esse tempo do colégio e tal se falava... Os professores falavam muito sobre o Brasil, sobre as colônias, como que...

 

R – Sim, tinha toda história, era a história toda, muitas coisas que a gente aprendeu lá que aqui, às vezes, você diz: “Poxa, mas não...”, a gente vê às vezes algumas coisas, mas não sabe. Mas a gente sabia, lá era severo mesmo, deve continuar, mas era severo, toda a história de descobertas, de tudo. Eram batalhas, era tudo isso, era bem trabalhado para que o aluno conhecesse bem.

 

P/1 – E entre as pessoas, assim, na vila, se falava do Brasil, assim? O que se falava a respeito do Brasil nessa época, o senhor lembra?

 

R – Ah, é...

 

P/1 – Fora aquilo que já se aprendia na escola, falando sobre a história do Brasil e tal, o que as pessoas falavam do Brasil, de um modo geral?

 

R – Não, só havia os comentários, quer dizer, pra você ver que, se tratando mais de uma aldeia, não havia certos comentários em certos conhecimentos que deviam ter. Por exemplo, na cidade de Lisboa, Porto, que tivesse até uma condição de informação mais de imprensa, de jornal e até já rádio... Então não houve tanto essa coisa. Todo mundo achava que, até no caso, por exemplo, se falava que quem viesse, se quisesse trabalhar, era um local de gente conseguir progredir, conseguir... Porque era um país novo, mas com trabalho. Até havia um ditado, que diz: “Vocês não estejam pensando que vão chegar lá, que tenha uma árvore das patacas e balança, cai, pega e vai embora; não, tem que trabalhar mesmo”.

 

P/2 – O que é pataca?

 

R – Pataca era a moeda, tipo moeda, moeda é pataca. Quer dizer, digamos, na ocasião, era muito mais dinheiro em moeda do que em papel, então era, numa gíria, pataca. “Então não pense que chega, balança a árvore e as patacas caem, você pega e vai embora; não, tem que trabalhar”. Era o que se comentava, geralmente, pra isso, até porque [se] a gente viesse ou pra outros lugares, era porque realmente, havendo vontade de trabalhar, honestidade etc., aquilo que é o principal, era o lugar ideal pra que a gente imigrasse.

 

P/1 – E como foi a sua... O senhor já falou da infância, das brincadeiras, tal, não sei o que. E a juventude, como era a juventude? Que locais, por exemplo, o senhor costumava frequentar, com seus amigos, tal, qual era a diversão da galera?

 

R – Diversão, bom, só tinha o domingo, principalmente festejam muito, nas aldeias, principalmente, qualquer festa de qualquer santo... Sim, porque tradicionalmente Portugal é católico, então havia muito, festas, arraiais e coisas. A brincadeira era você ir pra essas festas... Como é aqui no interior também, que a gente vê essas pelo nordeste. Então o lugar que a gente tinha pra se divertir era ir pra essas festas e aquelas brincadeiras, aqueles trabalhos, como eu acabei de falar. E também aos domingos, por exemplo, o lugar que a gente tinha... Trabalhava a semana toda, e onde a gente tinha um pouco de tempo de se divertir e até compensar a semana era, digamos, ir à igreja à tarde, era o terço, que era rezar o terço, onde geralmente os namorados e as namoradas combinavam e iam todos ao terço, depois cada um saía com a sua e ela com seu namorado, e acompanhavam, saíam andando da igreja até a casa da namorada, geralmente, quer dizer, ela não ia pro namorado, o namorado que ia com ela até em casa, então era esse, praticamente, o divertimento que a gente tinha, era praticamente ir pra igreja e fazer esse tipo... Que a gente usava dessa coisa pra isso. Tinha muitas coisas, muitas épocas. Bom, já que a gente está falando, vou contar algumas coisas que você vai achar graça. Tem datas que fazem umas certas brincadeiras com as pessoas, coisas de interior mesmo, coisa, digamos assim, de roça, sei lá. Há uma época que as pessoas roubam, ‘roubam’ não é em termos... Não é roubar, eles tiram, digamos, determinadas coisas de certas pessoas, que é um dia no ano, é dia de... Esqueci o nome que eles dão, eles tiram as coisas das pessoas sem ele saber e é, geralmente, de um sábado pra domingo. Então quando você vai domingo pra igreja, pra missa, que todo mundo vai pra missa, o sujeito não sabe, vai chegar perto de determinado lugar ou perto da igreja e as coisas dele estão lá, aí todo mundo encarna, todo mundo faz. Tinha um sujeito lá que tinha um moinho, como os que têm no interior. Alguns têm moinho de fazer fubá, tocado a água, e lá tinha, nessa época tinha esses moinhos. Nós também tínhamos, os meus pais. Ainda existe lá, mas eu acho que nem funciona, que era tocado à água, tinha aquela queda de água, batia numas penas em roda e uma pedra na outra, então vai fazendo a farinha, ou o fubá, e além de ele fazer pra ele, nós fazíamos só pra vender no comércio. Mas tinham outros que faziam e cobravam para moer determinada quantidade de milho, e ele tinha um jumento pra depois pegar o fubá, a farinha, e ir entregar àquelas pessoas. Aí um dia roubaram o jumento, num dia desses do ano, roubaram o jumento dele pra igreja pro adro – chama adro, que é aquele muro que faz em volta da igreja, que chama adro –. Conseguiram chegar na torre do sino, pegaram uma corda bem grande e amarraram no badalo do sino. Aí, quando botaram capim pro jumento, quando o jumento – isso tarde da noite, de madrugada –, quando o jumento ia puxar pra comer o capim, o sino “bam” (riso).

 

P/2 – Ninguém dormiu.

 

R – Não deixou ninguém dormir. Aí tocava o sino e ninguém dormia. Um dia pegaram também uma porção de ovelhas de uma mulher lá e prenderam as ovelhas todas no adro. Quando a mulher chegou pra missa, as ovelhas dela estavam todas em volta da igreja, soltas. Esse tipo de brincadeira que a gente criava, porque não tinha cinema, não tinha teatro, não tinha nada, fazer o que, a gente criar o próprio teatro deles. Então eram essas brincadeiras que a gente fazia.

 

P/1 – E aí vocês praticavam algum esporte, assim...

 

R – Esporte era o trabalho mesmo.

 

P/1 – Trabalho mesmo?

 

R – Trabalho mesmo.

 

P/1 – Qual era a moda da época, como o pessoal andava, como que o pessoal se vestia?

 

R – Ah, era chapéu que se usava muito, como hoje se vê em folclore, todo mundo de chapéu, paletó, colete, aquele negócio de lencinho no bolso. Usavam cravo, que é mais arrumado, mais coisa, era... Mas sempre paletó, chapéu e o lencinho no bolso, e sempre, mais ou menos, nesse aspecto, quando era, digamos, num dia de mais... No trabalho não, não andava de paletó, colete, não andava, era camisa mesmo, calça e tamanco. Quando fosse no trabalho pesado era o tamanco mesmo, isso até por causa do frio e tudo, porque calçado solo que ia no gelo ninguém aguentava, então o tamanco, a madeira suporta muito mais o frio do que qualquer outro tipo de calçado.

 

P/2 – Essas roupas eram fabricadas, comprada pronta, alfaiate...

 

R – Não, também tinha alfaiate. Isso, naquela ocasião, era tudo alfaiate.

 

P/2 – Tudo alfaiate?

 

R – Camisas e tudo.

 

P/2 – As crianças se vestiam diferente? Como é que era, tinha calça curta...

 

R – Sim, tinha calça curta, um tipo de brincadeira que a gente arrumava também e que a gente fazia muito folclore: se juntava sempre três ou quatro amigos do lugar, assim, cada um tocava um instrumento. Iam lá pra um lugar perto, geralmente a gente lá, por exemplo, a gente tinha um espaço plano, íamos todos pra lá e tocavam, cantavam. Tinha, ainda dentro daquele negócio do linho, dizia, não sei se vocês viram alguma vez que o linho, depois de passar por aquilo tudo que eu já falei, ele vai passar por uma roca. Não sabe o que é, não? É um negócio que as mulheres ficam puxando o linho, assim, e torcem com um negócio, um fio chamado parafuso, e as mulheres ficam puxando aquilo. Nunca viram isso? Nem em filme, nem em uma casa? Nunca viram isso? Um dia vocês... Eu tenho, até trouxe. A última vez que fui lá trouxe, tenho lá em casa pra... Guardado lá numa... Mas aquilo geralmente era feito à noite, também de noite, depois do trabalho. Era a mesma coisa que os namorados e as namoradas, então a mulher ficava lá puxando, fiando o linho, e o cara do lado, batendo papo e, sei lá, tirando a sua casquinha, coisa e pronto (riso). E aí é o seguinte, quando juntava essa meia dúzia que tocava um instrumento qualquer, tinha o serão, que é uma seresta, serão ou a seresta é a mesma coisa, então a gente saía, o grupo ia lá: “hoje vamos fazer uma seresta na casa lá de uma moça”, que um deles ou mais do que um deles ia, mais de um lugar, aí iam lá pra debaixo da janela e ficavam lá cantando e tocando coisa.

 

P/2 – Como eram essas músicas?

 

R – Essas músicas... É isso que você vê às vezes mesmo, que toca aí alguma... Sei lá, alguma... Pelo jeito vocês não estão muito acostumados a frequentar nada desse tipo, de casa portuguesa, folclore, nem nada. Mas era aquilo que se procura ainda recordar nessas casas portuguesas, que têm esses clubes que mantém tradições.

 

P/2 – Mas eram músicas tradicionais, né?

 

R – Tradicionais.

 

P/2 – Tinha composições também?

 

R – É, hein?

 

P/2 – Eles compunham músicas próprias também?

 

R – Também, é, exato. E dançavam. Ficava sempre aquela pretensão do namorado, de que quem não tinha ia arrumar, outros iam perder, ou sei lá, às vezes saía um cacetório porque tinha aquela também que às vezes tinha dois disputando uma e acabava... Às vezes dava algum negócio, mas o negócio lá não era tiro, era no cacetório mesmo, era no pau mesmo, e pau na moleira (riso).

 

P/1 – Seu Artur, olha só, vamos falar um pouco agora, começar a falar um pouco agora da sua vinda aqui para o Brasil. Como se deu isso, por que o senhor resolveu vir?

 

R – Olha, eu trabalhei na casa dos meus pais, depois eu estive numa cidade perto, em Fafe – depois, claro, já era uma cidade um pouco mais evoluída –, aí os meus pais e meus avós queriam que eu ficasse com eles lá no comércio, mas eu já estava em outra... Como diz? Quer dizer, eu já não queria ficar mais naquilo lá, então ali estava na ocasião da gente se alistar pro exército. Eu coloquei na balança: “vou ficar, vou ter que ir para o exército, vou ter que ficar não sei quantos anos... Eu vou pro Brasil”. Foi quando eu não quis ficar, o lugar lá já não dava pra mim, porque eu já estava habituado a mais alguma coisa, com mais conforto, e disse: “Oh, não vou ficar mais aqui não”, mesmo porque éramos nove, eu era o primeiro a sair, nós íamos ficar os nove ali fazendo o quê? Alguém tinha que procurar outra coisa, porque todos tinham trabalho. Porque tinha a fazenda – ainda tem –, e o comércio, e tudo, todos tinham trabalho, mas eu acho que para nove filhos, depois casarem, depois netos e depois não sei que lá, alguém tinha que sair para algum lado. Aí sai o primeiro, acaba saindo outro, depois vieram mais dois pra cá, pro Brasil, foram três pro Canadá e os outros ficaram em Portugal, uns em Lisboa, outros no Porto. Quer dizer, fora, agora, de Portugal, só tem um no Canadá e dois aqui no Brasil, o resto voltaram todos à Portugal.

 

P/1 – O senhor era o filho mais velho?

 

R – Eu sou o mais velho.

 

P/1 – Mas aí o senhor resolve vir aqui pro Brasil...

 

R – Sim, eu resolvi colocando na balança essas coisas todas. Ficar lá era, pra mim... Era uma coisa que eu já queria, sei lá, a gente já tem uma visão que queria crescer, queria ter até a vida da gente, não ficar ali debaixo da – como diziam eles mesmo –, debaixo da saia da mãe. Eles diziam muito isso, quer dizer, os pais e os avós. Eu achei que não levado isso eu queria ter a minha vida, queria ter o meu futuro, fazer o meu futuro, isso fez com que eu optasse por um lado, então eu escolhi vir pro Brasil, que, sei lá, eu acho que havia uma simpatia, até de vir pro Brasil mais do que pra outros lugares mesmo, como Angola, Moçambique etc. Mas havia uma simpatia muito grande da gente vir pro Brasil, aí já tinha também muitos conhecidos, vizinhos que estavam aqui, então isso tudo deu mais uma força pra que eu optasse pra vir pro Brasil, e assim foi.

 

P/2 – O senhor pode descrever essa viagem pra gente, como foi, o processo todo da viagem?

 

R – Bom, essa viagem eu tive que sair num dia, de madrugada, sem dar muito até logo, porque a família e tudo, era o primeiro... Vim num navio chamado North King, acho que foi a última viagem ou a penúltima viagem que ele fez, pegou fogo três vezes (riso).

 

P/2 – Antes do senhor chegar aqui?

 

R – Sim.

 

P/2 – O senhor subiu com coragem nesse navio?

 

R – O... Não, tinha outro, era o que estava marcado, levou dezessete dias de lá aqui.

 

P/1 – E o senhor embarcou nele aonde?

 

R – No Porto, levou dezessete dias de barco.

 

P/2 – Viagem tranquila ou enjoada?

 

R – Não, enjoada, e com esses três dias que pegou fogo a gente teve que andar correndo, pegar colete. Pegou, um dia, fogo na chaminé; outro dia pegou fogo não sei do que lá, e aqueles treinos que a gente teve que pegar o colete e tudo, e eu não sei até hoje nadar, já pensou? (riso) Aí foi, quer dizer, o navio era fraco, era um navio até misto, ele era de carga, depois acho que colocaram um misto de carga e passageiros, mas era um navio fraco, já tinha outros navios que vieram depois, um navio chamado Vera Cruz, e tinha uns outros, um francês que era... Me esqueço o nome dele, mas uns navios melhores, aquele era bem fraco.

 

P/2 – Que ano foi essa viagem?

 

R – Em 1952.

 

P/1 – E o senhor veio sozinho ou veio com algum amigo, algum parente?

 

R – Eu vim com um primo, desses primos, tinha um aqui e eu vim com o outro, porque eles mandaram eu vir. Vim com ele, já falecido, inclusive.

 

P/1 – Bom, aí o senhor ficou dezessete dias no mar, né, três incêndios depois o senhor chega ao Rio de Janeiro. E como foi isso? O senhor chegou viu o Rio de Janeiro, qual foi, assim, a primeira sensação?

 

R – Não, olha... Sei lá, a primeira sensação é de quem está perdido, não tenha dúvida. Isso aí eu, até quando saltei do navio, quando eu desci do navio, a pessoa que me mandou a carta não foi lá me esperar, aí não sei se ele pediu, eu não me lembro bem, a um sujeito que estava aí, que tinha um restaurante também e que tinha andado no exército com o meu pai, e ele me viu e me perguntou: “Você não é o filho do Frutuoso?” eu disse: “Sou”, “Não tem ninguém aí?” eu disse: “Não sei” – eu nem conhecia o sujeito que me mandou a carta por intermédio lá do meu avô, eu nem conhecia, aí ele: “Não, vem cá que eu te levo”. Ele me levou, eu peguei lá minha malinha na mão e me levou pro restaurante desse outro sujeito que me mandou a carta de chamada. Agora a gente vai, tem tempo, vai continuar aí a contar a história...

 

P/1 – Vamos.

 

R – Porque ele me levou nesse restaurante, que é como te falei já, era onde derrubaram aquilo tudo pra fazer o fórum a Rua Dom Manuel, acho que nem existe mais Rua Dom Manuel.

 

P/1 – Não, acho que não.

 

P/2 – É onde tinha o mercado ali, né?

 

R – É, era em frente ao antigo mercado, era um restaurante até bom, daqueles restaurantes de nome antigo, bom. Cheguei lá, ele me recebeu, jantei lá, e quando foi no final, quase, de fechar o restaurante, eles perguntaram uns pros outros onde é que eu ia dormir (riso). Eu só fiquei parado, ia dizer o que? Eu estava vendido ali, não sei onde é que eu vou dormir. Aí, por acaso, tinha um rapaz que tinha vindo antes de mim e que era de um outro lugar perto do meu, e ele namorou uma moça que eu também andei lá namorando, vizinha, então a gente já se conhecia lá do namorisco, naquele... Era diferente desse namoro que hoje é aqui, não, era uma brincadeira, namorar, mas era...

 

P/2 – E não tinham brigado, o senhor e ele? Não, né?

 

R – Não.

 

P2 – Ainda bem...

 

P/1 – O senhor deu sorte então, né?

 

R – Aí eles: “Não, não tem problema não, vai dormir lá com a gente”. Eu, naqueles primeiros dias, dormi eu e ele numa cama de solteiro, uma pra cabeça outro para os pés, e fiquei... Era ali na Rua dos Inválidos, naquela época tinha umas vilas feito cortiços, mas eram vilas de quartos, tinha vilas com uma porção de quartos só mesmo pra esse tipo de... Juntava quase todos esses portugueses que vinham daí, todos, um puxava o outro, e já tinha ali, às vezes, vinte, trinta, todos conhecidos, um mais perto outro mais longe, mas todos ali conheciam os lugares. Então acabei ficando, e foi quando vim pro primeiro trabalho, então pro... Onde eu citei aí, pro Largo do Sapia, aí já continuei...

 

P/2 – Largo do...?

 

R – Sapia.

 

P/2 – Ficava onde?

 

R – Isso pertence à Madureira, ali perto do nono batalhão, uma coisa assim.

 

P/2 – Então o senhor dorme no centro da cidade...

 

R – A Rua Santana, ali na...

 

P/2 – E já parte pra Madureira.

 

R – Logo pra zona norte.

 

P/1 – Quanto tempo o senhor fica ali, morando na Rua Santana?

 

R – Ali foi pouco tempo, acho que uma semana ou dez dias, no máximo.

 

P/1 – E como é que o senhor chegou nessa mercearia, na Rua do Sapé? Através de quem?

 

R – Foi a pedido de um irmão desse primo meu que veio comigo, ele arrumou por intermédio. Porque naquela ocasião usava-se muito... Tinha aqueles vendedores que saíam vendendo mercadorias nas mercearias, e geralmente o dono do armazém já falava até com ele: “Olha, se tu souberes de alguém assim, assim, tal, estou precisando”, então havia muito esse tipo de coisa, e esse rapaz que estava aqui, esse meu primo, por intermédio de um vendedor, disse que esse sujeito − eu nem lembro mais o nome dele − lá no Largo do Sapé estava precisando de um rapaz, um sujeito pra trabalhar lá, aí eu fui pra lá e foi assim que eu consegui. Muitas vezes fugi para o fundo do armazém pra arrumar garrafa vazia e tudo, chorei pra caramba, mas aguentei a pressão, né.

 

P/2 – O senhor tinha quantos anos quando chegou aqui?

 

R – Dezessete, fiz dezoito aqui.

 

P/2 – Algum momento quis voltar?

 

R – Ih, querer... A vontade dava, mas eu acho que até o brio não deixava. Mas que vontade dava...

 

P/1 – Mas era comum as pessoas voltarem?

 

R – Família? Não, muito difícil.

 

P/2 – O pessoal que ficava aguentava firme?

 

R – Famílias, a gente viveu que era aquele negócio, a gente viveu sempre junto ali, a família, irmãos, primos, tios, pai, mãe, e sair sozinho pra um lugar sem ninguém, sem conhecido, só esse primo ou dois primos e mais nada, você não tinha... É bravo, é bravo mesmo, só com o tempo mesmo que a gente...

 

P/1 – Consegue, né?

 

R – É.

 

P/1 – Ali, nessa questão do isolamento, pro senhor, de repente se viu sozinho e tal, não sei o que. O que mais mudou na sua vida quando o senhor saiu de Portugal e veio aqui pro Rio?

 

R – Bom, mudou... Em que aspecto? No aspecto sentimental mudou tudo, porque sair do seio da família, ter conforto que a gente... Conforto em termos, não conforto de diversão, mas conforto de alimentação, de não faltar roupa, dinheiro, nunca tínhamos, graças a Deus, esse problema. E você se vê num local sem família, sem parentes, sem dinheiro, e dormir num quartozinho aí dentro do que foi também Turiassu, num lugar lá meio fraco, meio ruim e isolado, quer dizer, a diferença eu acho que é por aí, a diferença que a gente sente logo sentimental mesmo, e o lado econômico também, porque a gente chega a um ponto que onde você tira e não bota começa faltar. Eu fiquei pouco tempo nesse trabalho onde eu fui então − já estou pulando aí −, mas, indo pra Vale Lobo, aí a coisa já melhorou um pouco. Também por intermédio de um vendedor, porque eu já fui morar com a família do dono do armazém, o senhor Francisco Valente, morando já nos fundos, um quarto e banheiro que pertenciam a ele, já a alimentação era lá também, que era... Tinha comida e cama, e dormia e tudo com a coisa. Se o dinheiro já não fosse muito, pelo menos já estava garantido que ia dormir, ia ter comida, e o salário. Quer dizer, o salário que recebia tinha que ser guardado no fim do mês, porque eu, pra vim do Vale Lobo, tinha nessa ocasião aquele bonde elétrico pra vir do Vale Lobo à Turiassu, até a casa do meu primo, pra gente bater um papo, esquecer um pouco. Eu vinha a pé, porque era cinquenta centavos ou quarenta centavos, e eu não podia gastar os quarenta centavos, eu ia a pé mesmo.

 

P/2 – E as mudanças, assim, de cultura? A comida, o clima, essas coisas, o senhor sentiu muito?

 

R – Os primeiros meses, assim, o clima a gente sente. Eu, por exemplo, tive uma dificuldade muito grande, porque o calor me dava um tipo de uma alergia no corpo que eu ficava com “virtueja”, não era, acho que era “virtueja”...

 

P1 – Brotoeja?

 

R – Brotoeja, mas era um negócio que eu ficava... Parecia uma cortiça, tudo cheio, vermelho, com aquela... Mas aquilo dá uma coceira, parece sarna, entendeu? Eu levei uns dois ou três meses até me habituar a isso, acho que é derivado do suor ou o que... Mas aquilo, quando a gente começa a suar, aquilo dá uma coceira que às vezes a gente estava atendendo a freguesa e tinha que sair pra dar uma coçada. Então isso eu senti uma diferença grande. Alimentação a gente mesmo, quer dizer... Esse patrão, que eu já tinha comida lá, era mais ou menos uma comida tipo... Não tinha nada de especial, era o feijão que a gente gosta − não tem quem não goste de um feijão, não é −, feijão, arroz, e alguma coisa acompanhado. Está muito bom, acho que é o tipo da alimentação que agrada a todo mundo.

 

P/2 – O resto, o senhor vai dizer, “a comida da mãe”, né?

 

R – Ãh?

 

P/2 – O resto é saudade da comida da mãe...

 

R – Exato, porque aí, aquela comida que era feita lá, isso aí né, digamos... Aquele arroz de forno, aquele cabrito assado no forno, que não é assado do forno fogão, aqui é forno de lenha, aquele forno de fazer pão. Eu acho que isso nem lá eles usam mais isso, mas aquela comida que a gente estava habituado. Mas isso aí não mata, isso a gente supera. Só quando eu já fui trabalhar por minha conta, com um sócio... Faz parte daquele trabalho a gente evitar, economizar. A gente fazia a comida, tinha um lugar lá, uma cozinhazinha, a gente fazia a comida e servia o freguês. Um corria lá e voltava, lavava a panela e botava lá o feijão. Gostávamos muito de feijão manteiga, um tipo de comida que se fazia muito lá, e aqui eles chamam-no “arroz de Braga”, que é o feijão manteiga. Arroz e carne de porco, mas é feito junto, entendeu? Aquilo é gostoso pra caramba, só que a gente já não pode, eu pelo menos já não posso, na idade que eu estou não posso comer uma comida dessas, pesadas que não aguenta. Mas que é gostoso, é. Carne de porco feita ali, junto com tempero bom, salsa, não sei que, aquilo é... Bom, mas era coisa mais fácil, porque a gente misturava tudo, ia lá, servia o freguês e voltava. Só quando a gente estava atendendo a dona, o freguês; o feijão lá às vezes esquecia e queimava, começava a queimar. “Ih, tem um feijão queimando”, aí o que estivesse mais à mão, ia lá e botava uma água. Um dia a gente, na pressa, lavou a panela com Bombril e tal, aí chegou uma hora lá que não sei por que cargas d’água, um lavou a panela, esqueceu o Bombril, e o outro foi e botou o feijão (riso). Quando foi à noite, fechamos o armazém e fomos sentar lá pra comer. Começamos a tirar comida, servindo o prato eu e ele, quando, no meu prato, tinha alguma coisa lá que eu comecei a, com a faca, cortar. E nada daquilo... Eu disse: “Eu estou bem, aqui o pedaço de carne, no meu, está bom”, aí eu cortava, aquilo esticava e nada, quando fui ver, era o Bombril (riso). O Bombril que ficou na panela com o feijão e tudo, mas a gente não ficou com fome não, tirou o Bombril e foi embora (riso).

 

P/1 – Bom, seu Artur, então o senhor chega em Turiassu, né, chega no Rio e tal, fica uma semana na Rua dos Inválidos e vai pra Turiassu, ali na região de Madureira. E o senhor vai pra Turiassu pra trabalhar aonde, exatamente?

 

R – No armazém mesmo, em frente à estação de Turiassu.

 

P/1 – E esse armazém vendia o quê?

 

R – Comestíveis, secos e molhados, que era como a gente chamava nessa ocasião, né, antigamente.

 

P/1 – Exatamente, o que vende um armazém de secos e molhados?

 

R – Ali era cereais, limpeza, salgados, era o que se dizia, menos legumes e frutas, então tudo isso era secos e molhados.

 

P/2 – Lataria vendia também?

 

R – Lataria, conservas, azeites, essas coisas todas. O que não incluía, no caso, nem açougue, nem hortifruti, isso é o que era definido como secos e molhados.

 

P/1 – Nessa época, no caso, o senhor morava aonde?

 

R – Nos fundos do armazém, mesmo.

 

P/1 – E como era esse armazém, descreve ele pra gente?

 

R – Era uma... Naquela data não se usava esse tipo de shopping, hoje os supermercados que têm aquelas prateleiras, aquelas gôndolas, aquilo era prateleiras laterais de cima em baixo, que você enchia tudo de latas... Era diferente. Muitas das vezes, pra gente dar um toque, pra impressionar mais o freguês, chamar o freguês, a gente criava, fazia pilhas de determinados produtos, de azeite, de goiabada, a gente fazia umas pilhas trabalhadas de... Que colocava essas latas numa forma que elas faziam uma curva feito um caracol, e chamava atenção, a gente botava aquilo perto da porta pra chamar o freguês. Quer dizer, naquela época o armazém era dessa forma, não era nada que hoje você vai num supermercado. São só aquelas prateleiras, aqueles mostruários ali, não tem maior, naquela época era isso, digamos, esse espaço aqui, prateleiras de um lado e do outro e só tinha a frente. E era tudo cheio de latas, tudo latarias.

 

P/2 – O senhor era vendedor?

 

R – Não, eu era... Já era o sócio do... Tinha uma sociedade já com outro sócio, parente meu.

 

P/1 – É, e o que se vendia mais, assim, nessa época, lá?

 

R – Olha, naquele tempo havia muito... Se consumia muito, principalmente, arroz, feijão, açúcar, carne seca e salgados, esse era a compra que toda família fazia, a primeira coisa, que vinha a encabeçar a lista era isso: arroz, feijão, farinha, açúcar, salgados, carne seca. Comia-se muita carne seca, naquela ocasião a carne seca vinha, era colocada − acho que vocês nunca viram − numa pedra. Era meio boi, o boi fica ao meio, curtido, a carne era curtida, e cada peça daquela metade do boi tinha uns sessenta, setenta quilos. Ela era pendurada numa pedra daquelas, e tinha freguês que chegava e levava quase metade de uma peça daquelas, porque era o dia... Todo dia era a feijoada, que hoje se fala: “Vamos comer uma feijoada”, aquilo era feijoada diária. Eu não sei, depois, com o andar das coisas, e até por recomendações médicas, eu acho que esse tipo de... Hoje uma feijoada, um salgado, uma carne seca, já é só um dia especial pra isso, naquela época era principalmente isso.

 

P/2 – Em relação a esses grãos, não se vendia em saco? Como era a venda?

 

R – Não, era tudo em saco de sessenta quilos, vinha tudo em embalagens de sessenta quilos, e existia umas tulhas, uns depósitos que a gente despejava ali. Depois era pesado na frente do freguês, sacos de papel, então pesava, tinha saco de um, de meio, de cinco quilos, de dez, e era pesado na hora.

 

P/1 – Quanto tempo o senhor fica nesse armazém em Turiassu?

 

R – Eu fiquei ali até, acho, que uns quatro anos, acho que foi uns quatro anos, foi 1954 a 1957, acho que foi.

 

P/1 – 1954 a 1957. Em 1957 o senhor sai e...

 

R – Ficou o meu sócio com o irmão dele, que abriu sociedade, e eu saí pra ter um comércio sozinho, comprei uma mercearia lá em Marechal Hermes. Daí a uns meses eu comprei outra em Guadalupe, e aí, nesse intervalo, eu casei. Foi até o motivo mais de eu ficar sozinho, porque aí já fiquei eu com a minha esposa, a minha mulher, ela tomava conta de uma mercearia e eu ia pra outra. Levantava três horas da madrugada pra comprar no mercado de Madureira, o antigo, porque ia de bicicleta, não tinha... Era bicicleta a condução, porque não tinha, só tinha lotação, que não sei se vocês escutaram falar no tempo de vocês, não existia ônibus, eram lotações, caminhonetes que tinham, acho que, no máximo, vinte passageiros que andavam, uma coisa assim. Depois que veio essa época do Lacerda é que veio, mais tarde, ele acabou com as lotações e vieram os ônibus. E só tinha depois de seis ou cinco horas, essa hora o mercado abria, três horas ou três e meia da madrugada, três ou três e meia, então se eu fosse esperar pra ir de condução, eu ia chegar lá, já não teria mais mercadoria, então eu tinha que ir de bicicleta. Comprava e ainda tinha, atrás da bicicleta, um porta-embrulhos desse tamanho onde eu trazia ali coisas que eu às vezes precisava já pra vender, que estava à zero. Eu trazia ali três caixas, quatro caixas, caixa tipo de tomate, aquelas caixas de tomate grandes, eu equilibrava ali atrás e vinha, de Madureira até Marechal, com quatro caixas no equilíbrio, e todo dia era isso.

 

P/1 – E como é que o senhor conhece sua esposa?

 

R – Em Turiassu, no armazém, primeiro comércio que eu tive ela trabalhava numa padaria logo após, num quarteirão logo a seguir ao meu. Ela trabalhava lá com os tios nessa padaria, aí nos conhecemos e ali mesmo nós casamos também.

 

P/1 – E como foi o casamento?

 

R – O casamento? O casamento foi, casamos na igreja lá na São Luís Gonzaga, né, e pedi a um desses meus primos pra ficar na mercearia pra mim e peguei um bonde em Madureira com ela, vim até o campo de Santana e batemos um papo por ali, passamos um tempo, pegamos um bonde de novo até Madureira, depois pegamos lotação e viemos pra casa.

 

P/2 – Qual o nome da sua esposa?

 

R – Irene. Esse foi a lua de mel e o casamento. Padrinhos, claro, teve padrinhos e coisa, mas foi essa...

 

P/2 – Ela é de origem portuguesa também?

 

R – É portuguesa.

 

P/2 – Portuguesa! De que região de Portugal que ela é?

 

R – Ela é de Avergo.

 

P/2 – É longe da sua terra?

 

R – Não, não é longe, mas já é Beira Alta.

 

P/2 – Vieram a se conhecer no Brasil?

 

R – Viemos nos conhecer no Brasil, isso aí.

 

P1 – O senhor então está aí com, no caso... Se casa e fica com duas mercearias, uma em Marechal Hermes e a outra em...

 

R – Guadalupe.

 

P/1 – Guadalupe?

 

R – É.

 

P/1 – Que ano, isso?

 

R – Isso foi de 1957 a 1961, mais ou menos. Foi em 1961, em 1961 foi que eu... Em 1959 fui para o mercado, o Mercadão já, o novo, ainda fiquei com as duas mercearias, mas como eu já não podia ficar nos três lugares e ela não poderia ficar sozinha, aí eu vendi as duas mercearias e fiquei só no mercadão. Daí pra lá, até hoje estou no Mercadão.

 

P/1 – E por que o senhor vai pro Mercadão? O que leva o senhor a comprar a mercearia no Mercadão e depois resolver manter somente ela e fechar as outras duas?

 

R – Eu, como eu comprava todo dia, frequentava o mercado antigo, e tinha um senhor lá, que está na revista José Pereira Ribeiro, que era praticamente um líder que tinha ali, ele já tinha ido daqui do mercado Cadeg que tem hoje, ele era aqui na...

 

P/2 – Cadeg?

 

R – Cadeg, que é lá em São Cristóvão. E ele era... Porque ali na Praça XV, onde tem o mercado do peixe, aquela parte toda que tem ali, das barcas, e tem o restaurante lá, que aquilo acho que faz parte até. Antigo aquilo, deve estar tombado também, acho eu que faz parte de algo de história. Ali tudo era um mercado, o mercado todo era aqui, mas depois, também na época do Lacerda, ele quis acabar com isso tudo pra fazer esse viaduto a perimetral, então ele acabou com aquela parte toda pra construir esse viaduto. Então criaram, deu uma força pra o Mercadão ser criado, o Cadeg e também o mercado de São Sebastião, porque houve uma divisão muito grande de uns pra um lado, outros pra os outros, e foram criados esses três pontos de vendas. Quer dizer, então... Eu até acho que fugi à sua pergunta.

 

P/2 – Por que o senhor escolheu ficar com a mercearia no Mercadão?

 

R – Ah, sim, então. Quer dizer, como eu cheguei lá? Então, como eu conhecia esse José Pereira Ribeiro, comprava com ele, e ele foi o idealizador do Mercadão junto à Cibrasil [Companhia Brasileira de Financiamento Imobiliário]. Conversávamos muito, e ele estava à frente da construção daquilo tudo e do mercado, ainda. Chegamos à conclusão de que ele tinha lá, acho que, onze lojas, e ele me propôs pra eu ir trabalhar e abrir junto com ele as lojas que ele tem lá pra funcionar. Com isso, então, eu fui, e ele era do ramo de frutas e legumes, mas acabou aderindo pro meu tipo de comércio. Depois eu fui em frente, e tinha... Fiquei ali direto, até hoje estou lá no Mercadão, foi esse... Eu acompanhei a construção, lembro muito bem de quando aquilo tudo era... Onde é o Mercadão, ali era tudo residência, ele não era campo vazio nem nada, era tudo residências antigas. Mas aquele pessoal, aqueles moradores mais antigos de Madureira, eles compraram aquelas casas, essa Companhia Cibrasil comprou todas as casas daquele espaço todo, demoliram e construíram, então, o mercado, que na época, na década de cinquenta, sessenta, foi considerado... Só tinha um mercado desse tipo, na França, e o nosso era maior do que o da França. Que se comparava com o nosso, só na França, mas o nosso ainda estava... Entendeu? Ele foi planejado pra abastecer feiras, supermercados, mercearias, tudo. Era um movimento enorme, ali entrava, por dia, não sei, devia entrar mais de quinhentos caminhões de mercadorias, de legumes, tomate. Aquilo tinha... Eram feiras de tudo se abastecendo. Ali era um movimento, chegou aquele ponto que até não teve mais condição, não tinha mais condição pelo... Aquele problema de trânsito, de carros, e já teve que ser criado, o governo criou o CEASA lá em Irajá, porque nós não tínhamos mais condições de atender ao público, abastecer mais feiras, supermercados e tudo, então houve, nessa época, uma transformação aí.

 

P/2 – Senhor Artur, o senhor falou do mercado antigo. O senhor pode explicar pra gente a diferença desse mercado antigo, aonde ele se localizava, a quem ele atendia, o nome do mercado...

 

P/1 – Quando ele foi criado?

 

R – O mercado, digamos que não era o nome do mercado, mas era um mercado onde se reuniam compradores e vendedores que eram os próprios produtores. Chacareiros, aquelas chácaras e aquelas plantações que existiam por aqui, em volta aqui, naquela época quase todo o Rio de Janeiro era abastecido de roças, de agricultura, tudo de Jacarepaguá. Aquela parte toda ali de Campinho, pra lá já era... Itaguaí, Manguaratiba, Bangú, Campo Grande, essa parte toda, tudo vinha: banana, chuchu, tudo. Tudo era dali, tudo vinha daqui, então começou em casca dura, a começar esse movimento das pessoas se juntarem, o que compra e o que vende, mas houve um progresso de que ali também já não dava certo, então foi quando... Ali onde é o Império Serrano, hoje, era um espaço que tinha grande... Ali, que não existia... Era um largo, não existia aquele negócio de Rua Oliver Meyer, Carvalho de Souza, Portela, aquelas coisas assim. Era uma praça enorme, onde tinha mais espaço, e ali já tinha... Já foi criado um pavilhão pequeno no centro desse terreno todo, que era mais a administração do... Porque esse espaço era do Estado, e tinha uma administração, tinha uma fiscalização da agricultura, da Secretaria da Agricultura etc. Então ali eles começaram... Convenceu aquele pessoal todo que estava em Cascadura e tudo, pra vir todo mundo. Ali começarem a fazer o trabalho, aí começou Mercado de Madureira, esse mercado de Madureira foi desde 1929 − acho que 1929 −, ele ficou até 1959, quando também chegou em cinquenta e pouco aí já começou a ter problema. Era ao ar livre, só tinha um pavilhão no centro, então quando chovia, ninguém podia andar ali dentro, que era pior do que um chiqueiro de porco, porque as folhas das verduras e tudo caindo no chão, você pisando e chuva era um chiqueiro, aquilo virava um chiqueiro. Eu, para frequentar, pra fazer compra, eu tinha uma bota daquela de borracha até aqui em cima, porque não dava pra... Era bravo mesmo. Bom, então chegou a essa conclusão também de que não dava mais pra manter aquela situação ali. Foi quando esse José Pereira Ribeiro entrou em conversa com esse pessoal da Cibrasil, que era um tal de doutor João, e um tipo grande, porque eles tinham a empresa muito grande de investimentos, tinha bancos, tinha navios, uma empresa muito grande, consórcios de carro e tudo. Bom, então foi quando também já não dava mais condição. Quando foi construído o Mercadão de Madureira, o que é atual, então ele começou realmente em Cascadura, naquela ocasião ali na praça de Cascadura, onde tem hoje tem o Banerj. Parece tudo... Tinha um lado que eu acho que vocês só devem ter escutado isso, acho eu, mas a retirada do lixo, naquela época, da prefeitura, era por carroça, com mulas, e ali era onde tinha uma cobertura e uns lugares, não sei se era cavalariço, como que era...

 

P/2 – Estábulo.

 

R – Estábulo, sei lá. Mas era dividido ou não, eu não me lembro bem, eu vi isso mas não lembro. Então ali é que ficavam as carroças, as mulas e aquilo tudo, então saíam aquelas carroças com dois eixos, quatro rodas, o sujeito sentado na frente, e carregava. E pegar o lixo por aí, em tudo que era lugar, em tudo, quer dizer, naquela ocasião também não era o tanto de lixo que é hoje... E era um lado essa situação da prefeitura, da retirada do lixo, e do outro lado era o mercado que, pelo movimento, fizeram naquela praça essa centralização do vendedor e comprador. Só com o progresso então foram resolveram que iria pra Madureira, lá em frente à Portela, onde hoje é o Império Serrano, e depois com o progresso resolveu ir...

 

P/2 – E esse Mercadão, na sua origem, ele tem um dono, uma associação de comerciantes? Conta pra gente como é essa organização administrativa do último Mercadão, de 1959.

 

R – Mercadão atual, aquilo é um condomínio que foi construído por essa empresa particular, é a mesma coisa que um prédio onde você compra um apartamento, e outro, e outro. Ali também foi a mesma coisa, construíram, venderam ainda em planta, ainda no projeto lojas. As pessoas, a maioria que aderiu à ideia, foram comprando lojas ainda na construção, outros não quiseram, não acreditaram, mas 80% acreditou, e foram comprando. Ele é inteiramente particular, não tem nada a ver com nada de governo, é totalmente particular, é administrado por um condomínio, por uma administração, e a associação é uma entidade, só que trata dos interesses... Defende os interesses tanto dos proprietários como dos comerciantes, é uma entidade pra esse fim, que, aliás, foi criada exatamente em 1956, quando começou a surgir uma obrigatoriedade de notas fiscais, de contabilidade, livros fiscais, porque até aí não existia nota fiscal nem nada, era “dá cá e toma lá”. Toma o dinheiro e está pago, toma um papel... Não tinha, então ele... Houve, no tempo de Lacerda mesmo ele começou a cobrar um controle melhor para arrecadação de impostos e etc., um controle pra poder pagar impostos e, claro, o Estado não vive sem impostos. Foi quando criaram a associação, que ela foi criada com a finalidade de ela mesma prestar serviços de advogados, contadores, despachantes para os associados, para aqueles que... Tanto era, que a associação, o primeiro nome... Eu, de cabeça, não lembro, mas não sei se era ALPEBREM [ALPREMM - Associação dos Locatários, Prepostos e Representantes do Mercado de Madureira], ou alguma coisa assim, que era de produtores, lavradores e produtores de hortifrúti, uma coisa assim. Então ela foi iniciada com um outro nome, depois é que mudou pra... Porque a finalidade era exatamente pra cuidar desses interesses dos associados.

 

P/1 – Seu Artur, olha só, como era Madureira em 1959? Quando o senhor vai pra lá, compra a loja, tal, descreve como era o bairro?

 

R – Olha, em 1959 ele já tinha alguma coisa, mas bem antes, no princípio da década de cinquenta – 1951, 52 –, ele tinha poucas casas comerciais, tinha um restaurante e bar, que era um nome... Tinha até o nome de Bar dos Lavradores, porque se identifica uma coisa com a outra, que era o único bar e restaurante que tinha ali. Tinha, na saída do mercado mesmo, uma loja grande de frutas, e frutas importadas, porque lá dentro não podia fazer. Ele fez cá, fora, e toda fruta: maçã e pera, etc.; vinha tudo, principalmente... Oitenta ou 90% era argentino.

 

P/2 – Dentro do Mercadão só produtos...

 

R – Não, do mercado, não Mercadão.

 

P/2 – Ah, do mercado?

 

R – Do mercado, só tinha uma loja fora do mercado já cá fora na entrada ali em frente a Portela, só tinha ali uma loja, eu não sei se era isso a pergunta que você me fez, o que era Madureira no início...

 

P/1 – Como era o bairro?

 

R – O bairro em si ou o comércio do bairro?

 

P/1 – O bairro, em si.

 

R – O bairro, na ocasião era... O meio de condução era o bonde, primeiro puxado por burro, depois elétrico. Muito poucas casas boas, era tudo casa simples ali, a Avenida Edgar Melo, que era, na ocasião, Marechal Rangel, ela também era uma rua um pouco fraca, depois é que veio a ser construída de outra forma, que hoje talvez seja... Ela tem uma altura de concreto desse tamanho, aquilo pra quebrar... Quando eles andaram lá querendo botar gás, a rua ali foi... Eles gastavam concreto – a mesma coisa que aconteceu no Mercadão –, e pra quebrar aqueles pilares que tinha lá foi um Deus me acuda. Gastavam ferro, era cada vergalhão... E cada pilar tinha dezoito, vinte varas de ferro, então se gastava realmente concreto, cimento e ferro. Era um lugar com muitas chácaras, muitas roças, coisa assim, não é nada daquilo que...

 

P/1 – Cinema.

 

R – Cinema não, cinema veio depois. Tinha, na década de cinquenta, um teatro, que é um dos teatros na parte dos subúrbios. Era o único que tinha, só aqui embaixo na Praça Tiradentes, naqueles antigos ali, era o Teatro Zaquia Jorge.

 

P/1 – Onde é que ele ficava?

 

R – Ele ficava numa rua ali, acho que é na Almereida Freitas, era quase em frente ao mercado, o Império Serrano, ali em frente à estação mesmo, na rua que tem ali. Era Teatro Zaquia Jorge, eu acho que naquela revista eu falo disso. E essa Zaquia Jorge inclusive morreu afogada na Barra da Tijuca. Mas o primeiro teatro do subúrbio foi lá.

 

P/1 – E ele existiu até que ano?

 

R – Eu acho que... Data certa eu não sei, mas ele deve ter... No início de 1960 deve ter acabado. Aquilo era cinquenta e pouco até sessenta, eu acho que ela morreu mais ou menos nessa data, e ela morreu, aí acabou.

 

P/1 – Então o senhor classificaria Madureira, nesse princípio, como uma localidade rural, como um bairro rural?

 

R – Sim, é, e só mudou depois que o mercado evoluiu. O mercado antigo começou tendo essa centralização de compra duas e vende duas, começou a vir gente de tudo que era lado, porque era gente daqui... Até parte da zona sul iam lá comprar, e toda baixada... Era parte de zona oeste, essa coisa toda, tudo se abastecia aqui. Então houve uma centralização de pessoas e o comércio começou a surgir; comércio de armarinhos, roupas, sapatos, essas coisas que onde tem muita concentração de pessoas o comércio, por si, flui. Então um começa a chamar o outro “Não, ali está bom, então vamos lá. Ali está bom, então vamos também”, até que houve essa concentração de lojas de comércio e tudo, de todo o comércio que é hoje. Mas foi depois que o mercado... O mercado que deu a vida a tudo isso. O mercado de Madureira que foi o berço de tudo isso.

 

P/1 – Quando o senhor fala o “mercado”, é o mercado antigo?

 

R – Mercado antigo. E depois também o atual Mercadão, também ele é a referencia de Madureira, do comércio de Madureira. Todos aí sentiram que o problema da falta do Mercadão, já no Mercadão, foi um incêndio que ficou quase dois anos sem atividades. O pessoal do comércio de Madureira sofreu, e ninguém mais torcia, talvez, para que o mercado... Até [mais] do que nós, torciam mais, até, talvez, do que nós, para o mercado voltar. Porque isso até em conversa com a outra Associação, que tem a Associação Comercial de Madureira, foi fundada após a nossa, ela é de 1957 a nossa é de 1956. Bom, então o Mercadão ainda é o ponto de referencia de Madureira.

 

P/1 – O senhor falou que o Mercadão começa com o sócio do senhor, que o Mercadão vendia hortifrúti. Como é essa divisão do comércio do outro Mercadão, o que se vendia mais, o que mudou com o tempo?

 

R – O problema é o seguinte, o Mercadão – já estou me referindo ao Mercadão –, foi feito e planejado só para o comércio de hortifrúti, ele foi planejado só pra isso. Até as instalações nós andamos tendo algum problema, problema de força, esgoto etc., porque o mercado não estava preparado para receber, por exemplo, peixaria, lanchonetes, açougues. Vários açougues e assim, esse tipo de comércio que usa muita água, que dá muita limpeza e até gorduras, isso nós não tínhamos um sistema. Legumes e... Ainda mais naquela época. O problema é seguinte, os legumes e as frutas chegavam hoje, e hoje mesmo elas são despachadas. Elas não ficavam de um dia pro outro mesmo, porque apodreciam, é mercadoria perecível, ela tem que rodar rápido. Então não havia estoques, e não havia lixo gorduroso, com gordura. Então não havia um esgoto à altura para receber sei lá quantas lanchonetes que tem hoje, quantos açougues tem, peixarias, lojas de animais vivos, essas coisas todas. Então nós estávamos, mesmo que não houvesse incêndio, nós estávamos pensando em fazer uma obra, de fazer nova situação de esgoto ali, tudo pra poder superar isso. Veio o incêndio, resolveu o problema em parte, a gente já fez o trabalho, pra agora não termos esse problema.

 

P/1 – Esse comércio se insere ao Mercadão como? De forma gradual, logo no inicio...

 

P/2 – Como é que muda esse perfil?

 

R – Sim, é fácil. Como teve esse movimento grande da parte de hortifrúti e a centralização do freguês, do revendedor, do comerciante e tudo, o que é que faz? Acontece de chamar outro tipo de comércio, que é aquilo: “Não, está bom lá, vamos botar lá também”, então veio comércio de cereais, veio comércio de laticínios. Porque o freguês estava lá dentro pra comprar legumes e frutas e também ia comprar uns cereais, queijo, e principalmente... Não é isso? O sujeito ia comprar pra mercearia e armazém dele também, ia comprar outras coisas. Eu mesmo recebia, tinha semanas de eu receber quatro, cinco caminhões de carne seca, por semana. Quer dizer, são quarenta toneladas de carne seca por semana. Então, quer dizer, por quê? Porque o freguês vinha no mercado, vinha no Mercadão. Então, se tem o produto que vende lá, ele não precisava depender de ir na Rua do Acre – que na ocasião era o rua do Acre –. Existia uma dificuldade na Rua do Acre, vendia... Os vendedores ali só vendiam por amostras, eles usavam um tipo de papel que a gente sabia fazer, amarrava uma amostra de feijão ou de arroz ou um produto, por exemplo, em grãos, de que você comprador... “Olha, eu estou com um açúcar aqui, quer ver?”, então ele abria e ficava aquilo, e você comprava ali. Mas a mercadoria ou ia ser encomendada pra vir lá, direto, ou ela estava aqui num trapiche, usava muito trapiche.

 

P/1 – O que é trapiche?

 

R – Trapiche é um galpão grande, onde você pode depositar determinada mercadoria. A lei permitia com a nota fiscal e tudo, e paga uma armazenagem, paga o aluguel do depósito daquela mercadoria... Então isso a gente chama mercadoria disponível, ou para embarque. A disponível era essa que estava armazenada no trapiche, então você não via a mercadoria original, via uma amostra. De repente ela era diferente, a que ia pra tua casa. E ali [no Mercadão] você ia lá, você ia lá comprar no Mercadão, furava, tinha aqueles furadores, ia lá na pilha do arroz, furava: “marca este, marca aquele”, então você tinha até a certeza do que estava levando, facilitava as coisas. O freguês começou a dar preferência, a comprar no Mercadão de Madureira do que ter que vir aqui embaixo, a não ser que fosse aquele que você comprava um caminhão fechado, porque aí vinha direto lá do sul, Goiás, ou qualquer coisa descarregava no depósito deles mesmo.

 

P/1 – O senhor sai do comércio final e vai pra esse, agora, que é atacado? Anteriormente, antes do Mercadão, o senhor trabalhava com mercearia, vendia para o consumidor final.

 

R – Sim, o meu início.

 

P/1- Como é que é essa mudança pro Mercadão, como é que foi essa mudança, pro senhor?

 

R – Eu acho que é uma questão de visão comercial, e o problema é que a gente vê que dá certo. Então a gente sentiu e começou, lá eu comecei com uma lojinha só, deu certo. A primeira compra que eu fiz, eu fiz pra experimentar, e em dois, três dias eu fiquei sem mercadoria de roupa, então aqui é o lugar pra eu comprar mais e expandir, não é isso? Eu comecei... Tive umas cinco lojas. Não são lojas daqueles boxes não, eram grandes, devia ter o que, uma média de uns oitenta metros quadrados, mais, de oitenta a cem metros quadrados cada uma. Uma era só frigorifico com salgados e charque, outra era com cereais, outra... Naquela ocasião se vendia muita banha de porco, aqueles pacotes, uns pacotes, eu acho que nem existe mais isso, mas ela vinha. Pouco óleo, não existia quase óleo de soja, óleo de milho, essas coisas todas.

 

P/1 – Margarina, mesmo?

 

R – Margarina veio depois, essa gordura vegetal, tudo isso veio aparecendo, mas...

 

P/1 – Era banha?

 

R – Era banha de porco mesmo, então eu comprava as mil caixas de banha de porco, tinha uma loja mais especificamente com esse tipo, porque ocupava muito lugar. Outra comprava mil sacos de feijão, porque o feijão vinha sacos de sessenta quilos e assim por diante, então cada loja... Tudo foi um princípio, e como deu certo, foi chegando até onde eu cheguei.

 

P/2 – Certo. E o que mudou, assim, no Mercadão? O que mais mudou, o que o senhor aponta, a principal mudança do Mercadão?

 

R – Eu acho que pulei essa aí. O problema... Como ele foi idealizado e construído na ideia de legumes e frutas e cresceu muito, chegou uma hora que – eu já dei um detalhe rápido disso aí – como havia... Porque Madureira ficou muito... Aquela linha de trem, mais movimento de muitos carros, caminhões, ônibus e etc., não havia mais como movimentar duzentos, trezentos, quatrocentos caminhões ali, só, praticamente, na rua Conselheiro Galvão. Como é que ia fazer uma movimentação daquela? Não tinha como, então começaram a aparecer as dificuldades até pra isso, para abastecer, para descarregar, para transitar, para o trânsito, para o governo coordenar aquilo e tudo, aí começaram a pensar em central de comércio, que foi a CEASA de Irajá, CEASA de São Gonçalo, que então [foi] centralizar todo o comércio, também de legumes e frutas, no CEASA. Quando eles construíram o CEASA, houve um esvaziamento todo de Madureira, do Mercadão, que quase ele bate a bota, porque aí ele teve que começar a criar alternativas, aí foi quando começou a surgir outro tipo de comércio de doces, comércio de... Artigos especializados, lojas especializadas em limpeza. Depois – isso na área de atacado – vieram outros artigos como a (terra?) loja, centralizou lojas de artigos religiosos, que têm vinte e tantas lojas só desse comércio. Agora mudou mais um pouco, porque deve ter mais de cinquenta lojas, deve ter umas cem lojas, talvez, só de artigos de brinquedos, papelaria, festas e essas coisas. Quer dizer, mudou o perfil daquele comércio com a característica que ele foi construído e todo aquele comércio que era. Imaginava-se, naquela ocasião, que não dava mais condições. Passou pra Irajá e nós tivemos que criar outras alternativas, que hoje, graças a Deus, está dando certo, está bom.

 

P/1 – E o senhor, com essa mudança aí, como é que o senhor reagiu?

 

R – Sofri, sofri muito.

 

P/1 – Explica pra gente.

 

R – Sofri muito, porque eu não quis, eu ainda cheguei a ter uma loja no CEASA, mas eu tinha patrimônio próprio no mercado, eu não queria abandonar, e também queria lutar pra erguer o Mercadão. Então foi aí que, em um ano ou mais de um ano, o mercado teve lojas ali que o pessoal alugava só pra pagar o condomínio, entendeu? Não dava pra pagar mais nada. Agora, com movimentos que foram feitos... Associação, nessa altura, também já assume que havia necessidade de assumir a Associação, foi quando eu também comecei a fazer movimento com mais alguns companheiros para a gente fazer o movimento junto. Associação porque é uma entidade representativa, e com isso a gente começou a fazer vários trabalhos e várias coisas, e começou a trazer outros tipos de comércio.

 

P/1 – Em que ano isso, mais ou menos?

 

R – Isso foi em 1975, mais ou menos.

 

P/1 – Nesse meio da década de setenta é que o comércio vai para o CEASA?

 

R – É, setenta, oitenta, não sei bem... 1975, qualquer coisa assim, é que vai para o CEASA. E houve ali um esvaziamento muito forte, que quase o mercado fecha... Que dizer, não fechou a porta principal, mas muitas lojas fecharam, e eu, é o caso, fiquei ali. O movimento caiu, eu tive que correr até pra algumas vendas, na ocasião, em rua né, tinha vendedor na rua.

 

P/1 – Você manteve o comércio de secos e molhados ainda?

 

R – Sempre, sempre fiquei no mesmo comércio, nunca mudei de comércio. Então, para poder ter ajuda lá fora, até estamos sem abrir, eu tinha uma equipe de doze vendedores na rua, vendia aí por todo, favelas, tudo. Naquela ocasião podia se vender em favelas, e vender, entregar e receber dinheiro vivo não havia problema. Hoje que não pode de jeito nenhum, mas naquela ocasião tinha, e os melhores fregueses eram aquelas tendinhas que tinha na favela, eram os melhores fregueses, pagavam no dinheiro, compravam bem e tudo. Bom, e com isso eu consegui trazer de fora cobertura para poder não fechar. E havia muitos boatos de que iam fechar o mercado e fazer um presídio. Aí surge de tudo, entendeu? Mas o problema eram os boatos, porque alguém que achava que o mercado era do Governo... Entendeu? O mercado não era do Governo, o mercado era totalmente particular. Mas aí veio criando, veio crescendo, crescendo até que hoje, depois do incêndio mudou mais um pouco, porque esse comércio de brinquedos, de papelaria, de artigos de festas e tudo... Foi agora, mais após a reinauguração do incêndio é que aumentou esse tipo de comércio, porque é interessante. Esse comércio se centraliza, ele não se divide, eles acham que quanto mais comércio tiver no local, mais freguês. E é verdade, não adianta fazer aquela história do cara que tem um comércio “Tomara que morra todo mundo pra eu ficar sozinho”, aí ele vai comerciar com quem? Eles têm a ideia totalmente diferente, acham que quanto mais centralizar, mais freguês vem, porque tem opção, tem escolha, tem preço, tem mercadoria, tem isso. Então, com essa volta, agora, o funcionamento da reinauguração houve uma mudança maior ainda, radical mesmo. Nos ramos de secos e molhados, cereais e coisa, tem agora legumes e frutas, pode ser uns 10%, o resto tudo é comércio novo, numa linha completamente diferente.

 

P/1 – Qual é o horário de funcionamento do Mercadão?

 

R – Bom, o Mercadão funciona das seis da manhã até às sete da noite. Domingos e feriados até meio dia.

 

P/2 – E as lojas, de modo geral, seguem esse horário de funcionamento?

 

R – Não, algumas que... Aí é opcional, eles não são obrigados, então alguns resolvem abrir nem ao domingo, e aqueles que abrem às 6 da manhã são aqueles que ainda têm um comércio que atende a parte de quitanda, desse comércio menor, lanchonetes etc. Tem muita gente que vem aí da região dos Lagos, da baixada, tudo isso que se abastecem ali ainda, com doces, com cereais, com diversas coisas desse tipo, ainda pega um atacado, então esses abrem às seis horas da manhã, mas seis horas também eles estão fechando, porque não adianta que a clientela dele já foi. Mas no varejo fica até sete da noite, e também não abrem às seis, abre, normalmente,  às oito. Oito horas porque o freguês, consumidor, também só vem depois das oito horas. Então houve uma... O horário é das seis às sete, mas nem todos obedecem. Domingo também nem todos abrem, uns abrem, outros não.

 

P/2 – E qual a época do ano de maior pico, de maior movimento no Mercadão?

 

R – O Mercadão tem uma característica diferente de qualquer um, não sei se existe algum no Brasil... Não, mas acredito que até no exterior não tenha. Porque ele atende a todas as datas festivas do ano. Então você vê, começa em janeiro, começa o Carnaval, que tem tudo para o Carnaval, até fantasia, sei lá, tudo pra você... É bola, é não sei o que, são os artigos que têm muita loja pra fazer negócio de churrasquinho, cachorro quente, eles têm lojas especializadas pra isso, pra revendas, pra bebidas, pra refresco, etc. Então isso tudo que se diz que é necessário no Carnaval. Depois vem dia dos namorados que tem tudo, tem presentes, tem tudo. Depois – eu já estou pulando aí – tem Páscoa, tem peixe, tem muitas lojas que se especializam em bacalhau. Tem uma loja lá que ela é importadora, inclusive tem o escritório dele lá no mercado São Sebastião. Quando é nessa época, no Natal e na Semana Santa, ele chega a fazer fila a semana toda, uns quinze dias, fila o dia todo, porque ele tem preço, e o que ele vende de bacalhau ali, castanha, coisa, não está no gibi não. Então tem... Chega a uma característica engraçada, que é problema de aulas. Pião, o que vende de pião quando é época de pião! Agora, vai lá agora que o movimento de pipa, o que tem de movimento de pipa no Mercadão de Madureira...

 

P/1 – Nas férias, né?

 

R – Aquilo ali tem lojas vivendo só de vendas de pipa.

 

P/1 – Mas nas férias isso aí aumenta?

 

R – É, agora, nas férias, isso aí aumenta. Mas é um movimento de pipa enorme, e lá é o seguinte, tem a venda... O mercado vende a linha, vende a vareta, vende o papel. Porque tem lojista que fabrica, tem a fábrica do papel, vende a cola... Bom, ele vende tudo que você queira comprar, dividido por item, pra você fazer uma pipa. Tem até uma escola lá, tem uma escola, como é que ele diz... Tem, o mercado está pagando lá, patrocinando uma “Ensine seu filho fazer uma pipa”, tem um espaço lá que foi colocado esses dias agora, que é promoção do mercado “A pipa tem no Mercadão de Madureira”, a pipa, ensinando como é que você leva teu filho lá e como é que você faz a pipa, entendeu? E é um patrocínio até de linhas e de coisa, porque há interesse na ajuda. Então o sujeito faz as pipas lá no fundo do quintal, ele com a família toda, todo mundo ajuda a fazer pipa. Ele compra o papel, compra a linha, compra a vareta, compra tudo lá, e até o modelo que tem lá cortado, o modelo da pipa, leva tudo. E faz, depois traz pro mercado pro lojista vender a pipa pronta, entendeu? Então é um movimento... Quer dizer, é um negócio, o mercado tem umas características diferentes de qualquer tipo de comércio. Chega agora no Cosme e Damião, é venda de brinquedos, é venda de doces. Chega no dia das crianças, é brinquedo e doces também, mais não sei o que. Então ele tem... Todas as datas do ano tem coisas que interessa e que o mercado atende com uma certa linha e um atendimento muito bom, que não tem, em lugar nenhum tem, mercado nenhum tem, não tem coisa nenhuma, então é isso o movimento.

 

P/1– Seu Artur, além dessas datas, eu queria saber do senhor três figuras que são características do nosso comércio de rua. Qual a importância do mercado de Madureira ou a importância que essas pessoas têm para Mercadão? São dos mascates as sacoleiras e os vendedores de bala, essas pessoas têm um papel ou tiveram um papel preponderante na história do Mercadão?

 

R – Olha, eles têm sim, têm. E eles, até quando houve esse problema do incêndio, eles mesmos reclamavam na imprensa quando eles eram entrevistados e tudo. Ia reclamar porque não tinham onde comprar as balas, sei lá, esse pessoal todo, essa comunidade que faz esse tipo de trabalho e vendas, e é lá que eles se abastassem. Eles estavam com dificuldade de como se abastecer, porque além de tudo isso, o mercado tem um preço muito baixo para todos os revendedores, pra tudo isso, porque você chega no Mercadão e você compra todo o tipo de mercadoria, seja qual mercadoria fosse. Se você quiser comprar pro teu filho uma dúzia ou meia dúzia de pipa, tem lá meia dúzia de pipas amarradas que você compra. E se você for comprar uma pipa aí na mão não sei de quem lá, você vai pagar o preço da meia dúzia. Então você chega e quer comprar uma dúzia de latas de salsicha ou quer comprar... Você compra meia dúzia, que vai te custar quase o preço de uma lata no supermercado, e aí por diante. E vêm umas embalagens de uns determinados produtos com cem unidades. Eles abrem aquela caixa, ou fazem dúzias, ou então, se for outro produto, eles fazem cartelas. Então faz cartela com dez ou com doze, e você leva uma cartela pelo preço de que... Você chega no supermercado, uma ou duas unidades custa quase tanto como uma cartela daquela. Então é um tipo de comércio, um tipo de atividade completamente diferente de qualquer atividade que a gente tenha noção, conheceu, não sei, isso é em tudo que você possa fazer.

 

P/1 – Seu Artur, principalmente, quem são os clientes do Mercadão? Pegando carona aí na pergunta do Evaldo.

 

R – Eu acho que são os camelôs, as lanchonetes, hotéis, mercearias. O consumidor... Consumidor também é uma parcela muito grande, e eu acho que sei lá, só não abastece ali supermercados, por quê? Porque eles têm outra escala, mas de resto, todo mundo se abastece no mercado.

 

P/1 – Que bairros?

 

R – Bairros, eu acho que até de Minas tem. Há tempos eu fui a Búzios – isso no verão – e, quer dizer, eu estava numa casinha que eu tenho em Cabo Frio, e fui até Búzios dar uma volta. Fomos lá comprar não sei o que numa mercearia, pedimos e não tinha. Aí o homem lá da loja disse, o rapaz da loja disse pro patrão: “Ô patrão, ô seu fulano, tem que comprar isso assim, assim”, “Ah, não deu tempo de eu ir lá no Mercadão”. Em Búzios, quer dizer, o cara disse que não teve tempo de vir no Mercadão.

 

P/1 – Não era nada que o senhor vendia, não, né?

 

R – Não, era artigos de doces e coisa. E aí tem fregueses que vem de Minas. Quer dizer, mais perto essa divisa do estado do Rio com Minas, mas que vêm se abastecer nessas lojas, porque têm grandes lojas de distribuidoras de doces, chocolates e tudo, tem umas lojas lá que têm uma distribuição séria.

 

P/2 – Certo. Com relação, né, principalmente no ramo que o senhor tinha negócio lá, que era secos e molhados, como eram as embalagens, como os produtos eram embalados? O que mudou nessa...

 

R – Bom, no princípio, que eu comecei o meu trabalho lá mesmo, era... Bom, que eu vendia no atacado, era tudo embalagem de 60 quilos, sacos de 60 quilos. Depois veio se modernizando e começou a vir o empacotamento. Eu mesmo tinha empacotamento, tinha máquinas de empacotar, embalagens de arroz de um quilo até cinco, feijão de um até cinco, farinha, fubá etc., eu já embalava tudo. Hoje, quer dizer, hoje tudo, feijão... Feijão manteiga, por exemplo, era pacote de dez quilos, que era um metro por quilo, não vende pra comprar sessenta quilos. Então a gente já usava uma embalagem de dez quilos. Feijão manteiga, feijão fradinho, ervilha, essas coisas mais em grãos que não era embalagens pequenas e que havia necessidade de diminuir a embalagem de sessenta quilos. Mas isso também veio com o tempo, que hoje você tem embalagem de meio quilo, né, quinhentos gramas, qualquer feijão de cor, ervilha etc., milho, pipoca, tem tudo isso, tudo embalagem. Hoje salsicha, isso tudo que era a granel, hoje a salsicha vem toda empacotada à vácuo. A carne seca vem empacotada a vácuo, e assim por diante. Quer dizer, tudo mudou totalmente do que aquilo que era, digamos há vinte e poucos anos atrás. Acho que não tem muito mais do que isso.

 

P/1 – O senhor tem uma sacolinha personalizada também? Quando é que começou a adotar...

 

R – Não, tinha, tínhamos tudo isso.

 

P/1 – Tem um logotipo?

 

R – Tenho.

 

P/1 – Como é o logotipo?

 

R – Não, isso quando eu andei fazendo pela Associação. Teve uma época, nessa maré brava mesmo, do mercado estar indefinido, o Mercadão com o tipo de comércio... A gente fez, eu fazia as embalagens, nós temos a marca Mercadão de Madureira que é registrada, é marca registrada, marcas e patentes e GMM, que é Grande Mercado de Madureira, porque esse é o nome original do mercado, inclusive o condomínio é...

 

P/1 – A sacola é de todo o Mercadão?

 

R – É, eu mandava fazer pela Associação e depois repassava para os lojistas.

 

P/2 – Seu Artur, a gente já vai encaminhando pro final da entrevista, já vai... Por mim também a gente ficava aqui a noite inteira. O senhor é casado?

 

R – Sim.

 

P/2 – Ainda é casado?

 

R – Com a mesma mulher (risos).

 

P/2 – Isso é importante. Tem filhos?

 

R – Uma filha. Prestes a [ter] uma neta.

 

P/1 – Qual o nome dela?

 

R – Patricia. Prestes a uma neta, Ana Clara – já tem até nome.

 

P/2 – Vai ter quando?

 

R – Daqui a dois meses, agora, em setembro.

 

P/2 – E ela chegou a se interessar alguma vez por esse ramo de atividades, se interessar pelo Mercadão?

 

R – Não, ela fez... Está acabando de fazer fisioterapia.

 

P/2 – O senhor gostaria que ela se ligasse ao comércio, seguisse essa...

 

R – Olha, eu gostaria, se eu tivesse mais filhos, ou até um filho homem, eu torceria. Mas pra eu ficar lá e ela sozinha não dá, eu teria que ficar ali, e eu não estou a fim disso não, então realmente eu acho que ela está melhor em seguir a carreira dela, que se encaixa melhor pra mulher e pra coisa do que comércio, que é barra. Sempre é, por mais que... Mesmo que não passe por aquilo que eu passei, comércio é sempre aquele negócio, não é sempre assim não, ele tem seus altos e baixos, então se a pessoa não estiver preparada, não tiver garra pra isso, é difícil. Então eu acho que ela escolheu... Eu até, primeiro, queria que ela fizesse medicina e se especializasse em alguma coisa, mas ela quis... “Então faça o que você quer, não vou contrariar o teu gosto, tudo bem”. Mas é assim.

 

P/2 – Seu Artur, o que o senhor achou de ter participado desse projeto Memórias do Comércio, de estar aqui, expondo a sua...

 

R – Eu participei muito, só que é pena que já está acabando. Só peço desculpas se eu perturbei muito, me deram corda e pediram, eu fui mesmo.

 

P/1 – A gente agradece o senhor. Está ótimo, eu agradeço a presença do senhor aqui.

 

P/2 – Seu Artur, muito abrigado pela sua participação, viu.

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