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História

Passarinho sem alpista não canta

História de: Sérgio Pinto Soleiro
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 17/11/2003

Sinopse

Em sua entrevista ao Museu da Pessoa, Sérgio nos conta sobre a sua juventude, as travessuras de criança, a sua amizade com um porco de estimação, o Francisco, e os bailes que frequentava, especialmente no carnaval. Sérgio chegou a trabalhar com serviços administrativos, mas quando seu sogro, Ernani, ficou doente, teve de ajudar a cuidar de sua loja e acabou tomando gosto pela coisa. Hoje, é o sócio majoritário da Casa Colibri, loja especializada em produtos para animais, e nos fala sobre como foi aprendendo a trabalhar no ramo, o que torna a loja tão famosa e o porquê gosta tanto da sua profissão.

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História completa

P/1 – Senhor Sérgio, fala para mim, por favor, o seu nome todo e a data de nascimento, por favor.

 

R – Sérgio Pinto Soleiro. 16/01/54.

 

P/1 – O senhor nasceu aonde?

 

R – No estado do Rio de Janeiro.

 

P/1 – Rio de Janeiro. Qual bairro?

 

R – Bonsucesso.

 

P/1 – Bonsucesso no Rio de Janeiro. E eu queria saber para o registro o nome dos seus pais.

 

R – O nome dos meus pais? É Antenor Pinto Soleiro e Rosa Galindo Soleiro.

 

P/1 – E de seus avós?

 

R – Ah, não me recordo. (riso)

 

P/1 – Não recorda? Fala um pouquinho para a gente aqui qual era a atividade dos seus pais? O que seus pais faziam?

 

R – O meu pai era pedreiro. A minha mãe era do lar.

 

P/1 – Do lar. O seu pai trabalhava aonde? Em qual...

 

R – Trabalhava em uma escola.

 

P/1 – Em Bonsucesso?

 

R – Era ali que hoje em dia, é em Bonsucesso. Que hoje em dia é Nova Associação Brasileira de Ensino. Que praticamente ele que construiu aquela escola ali. Que tem até hoje.

 

P/1 – E foi a escola...

 

R – E ali que eu fiz o Segundo Grau também.

 

P - ... Ah, que vocês estudaram.

 

R – É, aí já no caso já é o Ginásio, né?

 

P/1 – E o senhor sabe a origem do nome da sua família? O senhor tem alguma...

 

R – O que eu sei por alto é italiano. Sou descendente de um italiano.

 

P/1 – Por parte de mãe.

 

R – É. Por parte de mãe.

 

P/1 – Os pais da sua mãe...

 

R – Eram.

 

P - ... eram italianos?

 

R – Eram italianos.

 

P/1 – O senhor lembra a época que eles vieram? O ano?

 

R – Não, não. Isso aí eu não lembro mesmo.

 

P/1 – A sua mãe falava italiano?

 

R – Não. Mais ou menos.  Arranhava um pouquinho.

 

P/1 – E o senhor tem irmãos?

 

R – Temos. Oito irmãos.

 

P/1 – Oito irmãos.

 

R – Somos oito. Comigo oito. Somos em sete. Quatro mulheres e quatro homens.

 

P/1 – Meio a meio.

 

R – Meio a meio. Então é bom, né?

 

P/1 – Conta para a gente um pouquinho então como era a convivência de vocês?

 

R – Convivência como, assim, a gente vivia bem. Vivia em uma casa ali em Bonsucesso. Era até inclusive atrás do campo do Bonsucesso. Mas a gente vivia bem. Era, a gente era pequeno. Que o pessoal antigo que conhecia a gente falava que era escadinha, né? Que eles só via quando via aqueles oito tudo andando.

 

P/1 – E o senhor é o mais velho?

 

R – Não, sou o mais novo. Dos homens eu sou o mais novo. Com 49 anos eu sou o mais novo. Todos eles são vivo. A gente se dá bem. Todo mundo se dá bem. A gente, entendeu?

 

P/1 – Não tem nenhum irmão que o senhor implicava um pouco? Briguinha?

 

R – Não, ah, tinha, sempre um de vez em quando sai aquela briguinha, né?  Isso é normal. Que hoje em dia também tem, né? Então a gente não era aquela briga que, mas aquela briga de momento. Na hora de soltar uma pipa, jogar uma bola e saía aquela briga. Um jogava contra o outro e aí dava confusão. Mas isso era normal. Depois passava.

 

P/1 – E com as irmãs?

 

R – Não, com as irmãs não. Mais ou menos. Tem uma que é mais agarrada comigo que é a Diva. Que é mais, ela é a do meio. Ela é mais, mas o resto é tudo a mesma coisa. Era aquele ritmo só, entendeu? Era só de uma maneira. Não tinha, ah, que um era melhor do que o outro. Era tratado tudo a mesma coisa. _______

 

P/1 – E como é que era a rua que vocês moravam?

 

R – Era...

 

P/1 – O senhor lembra como é que era, para fazer uma descrição?

 

R – Não, assim, ela não tem assim, no caso nos fundos onde tinha a casa era uma rua. Era calçada já e era o campo, o muro no campo do Bonsucesso. Que ainda existe até hoje. Mas agora fizeram os prédio lá. Um, tem uns galpão. Fizeram uns galpão lá tudinho. E aquela casa onde eu morava _____ era tipo uma avenida. Uma vila. Mas era só que era na, não era na vila assim para dentro. Era na beira da, do meio-fio. Quase na beira do meio-fio. Tinha a calçada e o meio-fio e era a rua. Normal.

 

P - E vocês brincavam de quê? O que é que vocês faziam?

 

R – Jogava bola ali perto do, tinha um galpão. Jogava bola ali perto do galpão. Soltava pipa ali e ficava mais ali, entendeu? Ou ia para a escola, lá em Bonsucesso na estação. No Primário, né? A gente ia para a escola. Aí de tarde que a gente ficava jogando bola, soltar pipa, jogar peão. Essas coisas todas.

 

P/1 – Qual era a brincadeira favorita?

 

R – Era jogar bola, né? Jogar bola e soltar pipa quando estava de férias.

 

P/1 – Juntava você e os seus irmãos?

 

R – É, juntava com os meus irmãos, os colegas. Aquela turma dali da rua. Aí depois foi se separando, né? Foi crescendo aí não...

 

P/1 – E o senhor fazia as pipas, comprava?

 

R – A gente comprava.

 

P/1 – Comprava.

 

R – Comprava rolo de linha. Fazia cerol. Antigamente fazia cerol. Moía na hora ali e fazia. Comprava cola de madeira e derretia. Era mais fácil. Hoje em dia tem tudo mais fácil, né?

 

P/1 – É.

 

R – Ali era mais difícil naquela época. Bastante coisa. Então somos oito irmãos. Até hoje estamos aí todos eles.

 

P/1 – E o bairro era tranquilo?

 

R – Ali era tranquilo.

 

P/1 – Vocês brincavam até tarde?

 

R – Ali era tranquilo. Ali não tem, tinha, era tranquilo. Era. Hoje está muito mais violento. Mas aí não tem, não tinha muita violência não. Tinha mais ali por parte da – não sei se você conhece ali – da parte da Planalto. Aquela frente do Bonsucesso. Ali que ficava mais uma rapaziada ali. Até na época do Lucio Flávio, aquele bandido que fugia. Mas era do outro lado da... Aí a gente não se metia para aquelas bandas não. Ficava mais do lado de cá. Deixava eles para lá. Aí...

 

P/1 – E a sua mãe ficava em casa o dia todo?

 

R – Ficava em casa. Ficava em casa.

 

P/1 – E o seu pai trabalhava fora?

 

R – Trabalhava fora. Só. E a gente. Ficava a gente. Ela levava a gente para a escola, entendeu?

 

P/1 – Ia todo mundo junto?

 

R – Ia todo mundo junto. Aquela...

 

P/2 - Todo mundo estudava na mesma escola?

 

R – Era.

 

P/1 – Quanto tempo, a escola era longe?

 

R – Era mais ou menos. Levava o quê? Uns cinco  a dez minutos até chegar na escola. Mais ou menos isso, cinco a dez, a quinze minutos para a gente chegar na escola.

 

P/1 – Foi a mesma escola que você estudou até a...

 

R – É, a mesma escola. No Ruy Barbosa.

 

P/2 - Que o seu pai trabalhou?

 

R – Que hoje em dia ela fica atrás da SUAM [Centro Universitário Augusto Motta]. Vocês conhecem a SUAM?

 

P/1 – Da SUAM.

 

R – Ali atrás. Lá tem essa escola até hoje ainda. É isso.

 

P/1 – E você tem alguma lembrança especial a escola? Do período que você estudava, algum professor, algum?

 

R – No Primário?

 

P/1 – É.

 

R – Não, não. Eu tenho fotos em casa. Do Primário eu tenho. Mas assim...

 

P/2 - Não tem nenhum amigo que sente saudade, que...

 

R – Não. Mas de lá não tenho. Pior que não tenho mesmo. Me lembro deles, assim. De lá assim, eu só lembro desse outro que aí já era na parte do Ginásio. Aí já era mais diferente. Mas agora do outro não me lembro, não me recordo mesmo. Nem da professora. Eu acho que só tinha uma que era de Matemática. Uma tal de Telma se não me engano. Que era a mais rígida. Era de Matemática. Mas o resto...

 

P/1 – E você gostava de estudar?

 

R – Mais ou menos. De vez em quando a gente fugia da escola, sempre mais ou menos.

 

P/1 – E quando vocês fugiam vocês iam para onde? Tinha algum lugar?

 

R – Não. Aqui, no caso, no Ginásio ou no Primário que você está falando?

 

P/1 – Pode ser no Primário.

 

R – No Primário eu ia para casa. Voltava. Minha mãe me deixava aqui, quando ela dava a volta por um lado eu saía pelo outro. Já estava lá em casa quando eu lá chegava. Agora não...

 

P/1 – E no Ginásio então, você estudou até?

 

R – Até o Segundo Grau.

 

P/1 – Então você pegou a adolescência toda, né?

 

R – Toda. Segundo Grau foi esse caso mais, que ficou mais assim foi esse, né? Fomos matar aula, cismamos de matar aula. “Vamos matar aula?” Reuniu aquela turma. Eram uns dez mais ou menos. As garotas, os meninos e vamos embora. Aí pulamos o muro. Da linha do trem. Aí foi onde chegamos na estação. Quando o trem chegou que ele foi, o trem andou, ele caiu ali. Aí o trem passou e cortou o braço dele. É Marlon o nome dele.

 

P/1 – Era amigo de vocês

 

R - Era, estudava. Era da mesma sala. Aí já viu, né? Aí deu uma confusão do caramba. A diretora, veio tudo. Suspendeu todo mundo. E era a brincadeira lá era só essa: matar aula, né? Aí jogava. Tinha uma quadra a gente jogava bola também. Fazia Educação Física. Tipo, ainda existe essas coisas.

 

P/1 – Quando sua mãe descobria que o senhor matava aula o que acontecia?

 

R – Não, aí ela teve só, não, ela não descobria. Mas esse aí ela teve que descobrir. Esse aí não teve como correr. Inclusive meu pai estava trabalhando. Ele viu aquilo tudo, né? Aí deu uma encrenca. Fui suspenso.

 

P/1 – Ficou de castigo? (riso)

 

R – Fiquei. (riso) Ah, isso aí é o normal, né? Mas deu uma confusão. Que os pais dele foram lá saber como que ele... A gente nem chegamos a entrar na escola. Se reunimos na esquina. Ali juntou aquelas meninas: “Vamos embora.” A gente ia para a Quinta. Mas aí aconteceu aquilo...

 

P/1 – Vocês jogavam bola também na Quinta?

 

R – Jogava. A gente ia e ficava jogando bola lá na Quinta. Depois quando dava a hora mais ou menos a gente voltava para a escola. Para dizer que, aí voltava para casa. Aí ia embora. Mas esse dia deu azar. Porque a gente... (riso)

 

P/1 – E qual foi o castigo que a sua mãe deu para você?

 

R – Não sair de casa, nada. Fiquei em casa. Não ia a baile, não ia fazer mais nada. Ficava em casa. Que eu ia, a gente ia baile às vezes tudinho, mas...

 

P/1 – Ah, isso que eu quero saber: como é que era um pouco então a diversão de vocês a noite? O que é que vocês faziam?

 

R – Era baile ali no Bonsucesso. A gente ia muito no baile ali no Bonsucesso.

 

P/1 – Isso é um clube?

 

R – Hein?

 

P/1 – Bonsucesso é o que, um clube?

 

R – É clube. É o clube do Bonsucesso que ele agora joga na Segunda Divisão. Já foi da Primeira Divisão.

 

P/1 – O senhor torce?

 

R – Não, sou flamenguista. (riso) sou flamenguista. Aí mas era ali. A gente ia para lá aos domingos. Sábado às vezes tinha baile, tinha jogos também pelo campeonato. Aí a gente ia para lá jogar, ficava vendo os jogos. Ia para a piscina. Teve uma parte que eu fui, fiquei ali na piscina. Fiquei sendo salva-vidas. Fiz o curso de natação. Aí eu fiz, ficava lá na piscina tomando conta. Era eu quando o Jarbas, que ele já até faleceu, ele não podia ir então o Eduardo me chamava para mim ficar no lugar dele senão, se não tivesse um salva-vida a piscina não funcionava. Aí como eu estava ali eu ficava ali. Durante o dia às vezes de bobeira.

 

P/1 – E os bailes eram o quê? Final de semana? Sexta? Sábado?

 

R – É, sexta. Mais sábado e domingo.

 

P/1 – Qual o horário? Matinê?

 

R – Ah, era mais nos domingo. Das oito à meia-noite. É, era mais nos domingos. No sábado só quando tinha show de algum artista assim que a gente ia no sábado. O resto era só no domingo. Das oito...

 

P - E você foi em algum show, tem algum show que você lembre assim de algum artista?

 

R – Ah, tem. Tem do Roberto Carlos, Tim Maia. Teve vários artistas lá, entre eles.

 

P/1 – E as roupas assim, os trajes, você lembra como é que eram? (riso)

 

R – Ah, ____ (riso) completamente diferente do de hoje, né?

 

P/1 – Você gostava de se arrumar, se vestir?

 

R – Gostava, gostava. Na época gostava. Quando eu trabalhava na Franco mesmo.

 

P/1 – Ah, aproveitava as roupas.

 

R – Né, porque a gente estava, mesmo que a gente não pegava ali – que ali era só calça – mas a gente pegava pelo, do outro lado, entendeu? Porque era o sócio então a gente apanhava lá. Porque lá a gente tinha que trabalhar com camisa social, entendeu? Então a gente apanhava lá na outra fábrica. Depois descontava aqui. Mandava o vale para a gente, entendeu? Então a gente sempre tinha roupa. Agora ali não, ali a gente tinha que andar meio assim. E também não pode se vestir muito não porque hoje em dia como é que está as coisas aí a gente tem que ficar meio, andar meio esculachado assim, vamos dizer, né? (risos) Para não, porque às vezes ficar chamando muita atenção os caras ficam logo de olho. Então a gente fica meio assim.

 

P/1 – E na época dos bailes assim, na sua adolescência, era tranquilo? Não tinha...

 

R – Era, era tranquilo.

 

P/1 – Vocês iam como? Iam a pé?

 

R – É, porque era só assim, quase um quarteirão. Nem um quarteirão. Saía daqui, dava a volta aqui, já estava no clube, entendeu? Já estava dentro do clube. Para tu ver, eu sou conselheiro. Sou sócio remido do clube. Sócio remido é que eu paguei vinte anos, mais de vinte anos. Agora não pago mais. Entro lá a qualquer hora.

 

P/1 – O clube tem quanto tempo?

 

R – Ah, tem bastante tempo. Tem mais de cinquenta anos o Clube Bonsucesso.

 

P/1 – Então você já é um sócio bem antigo.

 

R – Eu sou sócio bem antigo. Inclusive o Ernani ele é proprietário de lá. Ele tem a carteirinha, ainda tem a carteirinha dele guardada até hoje. Lá no Bonsucesso.

 

P/1 – Legal. E como é que eram as paqueras? Os namoros na adolescência?

 

R – Não, era normal. Tinha muita, era normal.

 

P/1 – Tem alguma história?

 

R – Não, não. Não tem história não. (riso) Não tem não. Não, não.

 

P/1 – O senhor conheceu sua esposa nessa época?

 

R – Conheci a minha esposa nessa época. Conheci ela no Carnaval. Eu era noivo. Mas aí minha noiva quis viajar. Eu falei para ela que não ia, que ia ficar ali. Aí ela foi, quando ela voltou encontrou a outra. E que eu estou até hoje. 23 anos de casado. (riso)

 

P/2 - Foi no baile lá do clube? Baile de Carnaval?

 

R – É, no baile de Carnaval. São 23 anos. É mole? Hoje em dia não se tem isso mais, né?

 

P/2 - É.

 

R – É fogo, mas está tudo bem.

 

P/1 – E os Carnavais, o senhor sempre passava nesse clube mesmo ou?

 

R – Sempre passei lá. Sempre brinquei ali.

 

P/2 -  Algum Carnaval de rua, alguma?

 

R – Não, só olhava só. Só passava, olhava. Ficava um, era mais antigamente era o Bafo da Onça, o Tigre. O Bafo da Onça. O Cacique de Ramos. Era mais isto. Não era como hoje que tem escola de samba. Na época era mais essa, né, bloco. O Cacique...

 

P/2 - O senhor não se fantasiava?

 

R – Não, não. Eu não ligava para fantasia não. Nunca liguei não. Meu sonho é sair só na Mangueira. Flamenguista tem que ser Mangueira. O resto não...

 

P/2 – O senhor nunca desfilou em escola de samba?

 

R – Não, não. Pretendo antes de morrer desfilar. Vamos ver se o ano que vem saio.

 

P/2 - Ah, legal. Então quanto tempo o senhor ficou noivo, para casar? Foi quanto tempo essa história?

 

R – Conheci minha esposa em fevereiro, em novembro eu casei, do mesmo ano. 79. No mesmo ano e até hoje. Aí minha filha nasceu no dia 08/05 a mais velha. E a outra nasceu no dia 12/05, um ano depois. Aí eu parei, chega. (riso) Tem uma com 22, não, 23 e outra com 22. Então chega senão não dá não. Botar filho aí para quê?

 

P/1 – E vocês foram morar, continuar morando em Bonsucesso?

 

R – Não, aí eu quando eu me casei eu me mudei para Olaria. Que é lá onde moro até hoje.

 

P/1 – Já está há quantos anos?

 

R – Há 23 anos ali. Que o pai dela tinha uma casa nos fundo aí ele reformou, fizemos a reforma e eu fiquei lá até hoje.

 

P/1 – O senhor sente saudade de Bonsucesso?

 

R – Não, eu passo todo dia ali, né, que eu... Mas eu passo ali não, porque está completamente diferente. Completamente diferente. Já, sei lá, o ambiente já é outro. aonde eu passo ali a rua que ele entra eu morava bem na esquina. Então ver ali aquilo ali está praticamente abandonado. Abandonaram muito ali.

 

P/2 - E os seus irmãos, a sua família continuam lá?

 

R – Não. Meus irmãos um mora lá em Santa Cruz. Aí está todo mundo assim.

 

P/2 - Espalhado.

 

R – Santa Cruz. Um mora ali em Ramos. Três mora em Ramos. Outro mora na Vila da Penha. Outro mora em Quintino, é tudo... Mas de vez em quando a gente reúne tudo. Está todo mundo reunido.

 

P/1 – Legal, e vamos puxar um pouquinho agora para a parte do comércio, né?

 

R – (riso) Do comércio.

 

P/1 – Memórias do Comércio você tem alguma loja especial que você lembra lá de Bonsucesso? Uma lanchonete? Alguma coisa?

 

R – Olha, tem uma ali, eu não sei o nome dela não. Eu sei que ela é na Rua Baturité. Essa foi uma dali de Bonsucesso, é uma das mais antigas também. Ali na Rua Baturité.

 

P/1 – Ela é o quê? Loja de quê?

 

R – É loja também de animais e bichos. É também essa loja é antiguíssima ali. Ali que eu às vezes eu ia ver os bichos ali. Mas eu também nunca imaginei de trabalhar nesse ramo, nunca.

 

P/2 - O senhor, vocês tinham animais? Cachorro, gato em casa?

 

R – Não, sempre tive cachorro. Sempre tive. Mas nunca, entendeu, assim, eu imaginei trabalhar nesse ramo. Quando eu conheci a minha esposa nem sabia que ele era dono de loja. Depois que quando eu ia ver os jogos aí que o porteiro ficava me encanando: “Ó, o teu sogro vai chegar aí.” Eu falei: “Quem é meu sogro?” Não tinha conhecido ele ainda. Aí quando ele veio que ele me amostrou. Aí que eu fui sabendo quem ele era. Depois que fomos, não teve nem um ano eu casei. Meus irmãos até falaram: “Pô, não vai dar certo, não vai dar certo.” Não dá certo, estou aí até hoje. (riso)

 

P/1 – Legal. E essa loja lá de Bonsucesso de animais como é que era? O senhor lembra?

 

R – Ó, ela fica em uma rua pequena. Eu sei que ela fica em uma rua pequena. Que ela entra, eu não sei se começa ou termina. Eu sei que pega pela Cardoso de Morais e sai na Rua de Bonsucesso, entendeu? Então é uma rua pequena. Não chega nem, não tem nem dez mais ou menos _____.

 

P/1 – Mas ainda existe?

 

R – Existe essa loja ainda. E se eu não me engano do lado dela ainda tem uma fábrica de gelo. Não sei se, que eu não tenho ido para aqueles lados. Essa também é antiguíssima. A loja que a gente via mais ali era essa. Que a gente comprava ração era nessa loja. Eu sei que é Baturité. Também não sei o número. Mas ela é bem antiga.

 

P/2 - E o tipo de comércio? Era muito movimentado o comércio em Bonsucesso?

 

R – Era. Era mais ali na parte da Planalto. Ali na parte da Planalto ali era mais movimentado. E pelo outro lado não era. Porque antigamente ainda era muito assim, ainda estava construindo aqueles edifícios que tem hoje. Então era mais ali mesmo na Planalto. Na Planalto ou em frente o Bonsucesso. Que tinha um bar que tem até hoje lá. Um bar lá do Bandinha. Que até então era mais movimento ali. Na época a rua ainda não era nem asfaltada, né? E agora é. Aí era mais ali só.

 

P/1 – Certo.

 

P/2 - Que tipo de lojas que tinham?

 

R – Ah, tinha mais era bar, padaria. Tinha uma padaria. Que até essa padaria já até acabou. Tinha um armazém de esquina. Ali onde tem uma padaria hoje era um armazém. Aqueles armazéns antigos, sabe? Que vendia aquelas coisas naqueles latão. Era tudo sacado na hora, né? É e ali era só mais isso. Tinham mais agora se não me engano é uma churrascaria, era uma fábrica de sabão, entendeu? Ali onde é o Sendas também era um terreno vazio. Tipo um estacionamento, sabe? Aí agora é Sendas. Então mudou muito aquilo lá. Muito mesmo.

 

P/1 – E dessas lojas, alguma loja de roupa? Alguma coisa que você...

 

R – Não, não. Não tinha não. Tinha, mas era lá para o lado da estação. Lá do outro lado. Bem mais distante. Aí tinha. Mas era muito poucas também, muito poucas.

 

P/1 – Nenhuma loja especial assim que você lembre? Que não existe mais?

 

R – Aqui era, que não existe mais tinha a Colegial e a, me esqueço o nome da outra agora, Majestade se não me engano. Majestade. Que era aonde eu comprava roupa. Mas aí ela já não ficava em Bonsucesso. Ela ficava ali em Ramos. Que era mais para o lado de Ramos. Era a Majestade e a Colegial. É as mais antigas que, que a Majestade acabou. A Colegial também acabou, né? Só essas duas. Que eu mais eu me lembro mais é essas duas.

 

P/1 – Tá.

 

P/2 - E o senhor lembra, o senhor falou agora em Ramos, o senhor chegou a frequentar a praia com seus amigos?

 

R – A praia de Ramos?

 

P/2 - É.

 

R – Ah, frequentei ali. Mas ali antigamente era bom. Antes do piscinão. Falavam muito mal dali, mas não era tão assim ruim não. Não era tão ruim não. Agora não fui lá. Só fui lá uma vez nesse piscinão foi no dia que foi inaugurado. Foi no dia primeiro. Aí que eu fui lá, dei uma volta lá e fui embora. Também até hoje nunca mais fui. E moro perto. Só atravessar a Avenida Brasil e praticamente já está lá. Anda um pouco. Anda uns cinco minutos só para chegar ali no piscinão.

 

P/2 - E como é que era antes a praia?

 

R – Ah, antigamente era aqueles barraco, né? Tipo aquelas viela que para passar tinha que andar naquelas madeiras. Aquilo ali era, mas ali tinha até um clube lá que era um tal de Bambu que tinha forró lá. Às vezes a gente ia para lá para o forró. Mas aí também agora acabou. Agora já fizeram tudo de tijolo, né? Agora ali tudo é tijolo. Mas antigamente era aqueles barraco mesmo de madeira. Mas era antigo. Mas ali agora não dá nem para ir lá. Nem passar perto. Tenho pavor agora de passar ali perto. (riso) Ali é muito bravo.

 

P/2 - Tinha algum outro lugar na cidade do Rio que você gostava de ir, você falou da Quinta da Boa Vista? Tinha algum outro lugar especial?

 

R – A Quinta, o Maracanã. O Maracanã. O Maracanãzinho, entendeu? Isso aí tudo era mais o esporte que a gente praticava e via, né?

 

P/2 - O senhor assistia sempre jogos no Maracanã?

 

R – Via, sempre via. Agora não vejo.

 

P/2 - Tem algum jogo especial?

 

R – Ah, ter tem vários, né?

 

P/2 - Um que o senhor tenha visto? Final de campeonato que o senhor ficou emocionado? Tem alguma história que o senhor lembra?

 

R – Não, tem só aquele do Leandro. Foi contra o Fluminense. Que ele fez aquele gol do meio-de-campo. Que tem vários jogos, né? Mas o que mais assim, foi aquele gol que ele fez do meio de campo. Quase no meio-de-campo, foi um pouquinho. Foi contra o Fluminense. Foi até a noite. O resto jogos normais, não tem nenhum outro. Só esse mais que ficou _____, fora a seleção, né? Mas agora não vou nem mais no Maracanã. Para quê? Só tem aborrecimento, né?

 

P/2 – O senhor chegou ver jogos da seleção assim?

 

R – Quem?

 

P/2 - No Maracanã?

 

R – Eu vou...

 

P/2 - Se o senhor já assistiu jogos da seleção?

 

R – Não. No Maracanã não. Nem vou. Uma seleção dessa não vale nem a pena gastar tempo. Gastar tempo e dinheiro. Aí eu não vou não. Nem agora estou indo. Tem o quê? Bastante tempo que eu não vou no Maracanã. Porque agora no Maracanã só tem violência. Tu sai dali não sabe nem o, tu vai para se divertir tu acaba se aborrecendo, entendeu? Ainda tomando os prejuízo pior. Acaba indo para uma cadeia. Pô, aí dá uma confusão à toa. Aí eu prefiro ver em casa. Que é melhor. Fico em casa, fico a vontade. Pego uma cervejinha geladinha. Fico ali não me aborreço. Tranquilo. Mais a vontade. Lá daqui a pouco vem um, joga um negócio em você, tu não sabe o que é que é, joga outro. Vira uma bagunça. Aí tu não vê nem o jogo direito.

 

P/2 - É verdade. O senhor falou que começou a trabalhar com dezessete anos?

 

R – É, mais ou menos. Dezessete anos.

 

P/2 - Você lembra aonde foi? Pode contar um pouquinho para a gente?

 

R – Não, ali na Flávia Fornese se não me engano o nome da rua. Flávia Fornese. É ali mesmo em Bonsucesso.

 

P/2 - Em Bonsucesso.

 

R – É ali perto daquele quartel ali da Avenida Brasil. Ali hoje que é a Baixa do Sapateiro.

 

P/1 – Era fábrica de quê?

 

R – Era até uma transportadora. Que fazia, entendeu, transporte. Uma transportadora. Ali eu fiquei pouco tempo. Eu saí porque não dava não. Muita, muito pesado.

 

P/2 - O que o senhor fazia lá?

 

R – Era expedição. Arrumava as embalagens. Fazia as embalagens direitinho. Falar nisso eu tenho uma outra que eu trabalhei na Higrotec. Lá no Mercado de São Sebastião. Eu esqueci. Agora eu me lembrei da Higrotec. Também trabalhei lá no Departamento Pessoal. Foi dessa daí que eu saí, da Cinco Estrelas, que fui para lá. Depois que eu fui para a Franco. Eu tenho na carteira anotado. É que na carteira de antigamente tinha Carteira Profissional. Aí agora que eu me lembrei da Higrotec.

 

P/1 – Nessa Higrotec quanto tempo o senhor trabalhou?

 

R – Ali eu fiquei o quê? Uns dois anos mais ou menos. Ali era um negócio de navio. Fazia aqueles negócio de navio. Eu não sei se essa fábrica existe ainda. Trabalhei lá também no Departamento Pessoal.

 

P/1 – Foram dois anos.

 

R – Fiquei lá mais ou menos uns dois anos.

 

P/1 – E depois?

 

R – Aí depois que eu fui para a Franco. Fiquei dez, mas na Franco eu saí porque eu pedi, né? Eu entrei no acordo com eles. Porque o Ernani estava, tinha caído muito doente, né? Aí ele não estava podendo ir. E não tinha quem. Aí houve uma reunião deles, a diretoria deles e eles ligaram no trabalho me avisando. Eu cheguei, conversei com a minha chefe, né? Falei com um diretor lá. Eles pegaram e me liberaram. Me deram tudinho como se estivesse a firma me mandando embora, está entendendo? Depois de dez anos sair assim, pô, os caras. Eu nunca tinha faltado. Só faltei quando meu pai faleceu. Pôxa, então eles fazia isso. O cara me liberou tudinho para mim.

 

P/1 – Qual era o nome da empresa toda só para a gente ter?

 

R – Indústria e Comércio de Roupas Franco-Brasileiro.

 

P/1 – Franco-Brasileiro. O senhor ficou dez anos?

 

R – É, eu fiquei dez anos ali.

 

P/2 - O senhor pode falar um pouco como era a sua rotina nessa empresa?

 

R – Nessa empresa?

 

P/2 - É, assim, a atividade que o senhor fazia.

 

R – Não, é porque a rotina ali era eu que abria a fábrica. Eu tinha que chegar lá umas sete horas, seis e meia assim mais ou menos que era eu que tocava. Eu que recolhia o cartão. Fazia o cartão de ponto. Era eu. Fazia folha de pagamento. Tinha que estar lá seis horas, seis e meia. Que eu tinha que correr os relógios todos. Ver se os relógios estavam funcionando, entendeu? Para todo mundo. Aí dava o primeiro toque. Depois entrava todo mundo. Tinha que recolher os cartões de ponto. Fazia o ponto. Tinha que levar para o seu Gomes. Aí como todo mundo que já estava ali que eu tinha, ia tomar café. Era mais assim para, porque era muito puxado. Às vezes eu saía de lá oito, nove horas da noite. Pegava seis horas estava lá dentro da fábrica. Aí saía. Aí não era, depois que foi mais calmo. Mas era mais, só sábado e domingo. Às vezes até domingo eu trabalhava. Tinha que trabalhar. Que era oitocentas, mais ou menos oitocentas mulheres. Que tinha o escritório central. Antes de o escritório vim para cá era lá na, lá no Jacaré. Então tinha que mandar tudo para lá para depois vir folha, fazer pagamento aqui. Então essa era uma rotina que, aí depois que juntou tudo aí que melhorou um pouquinho. Mas no início foi bravo. (riso)

 

P/1 – O expediente na fábrica era o qual? Que o senhor controlava? De sete...

 

R – Eu controlava o da parte da produção e do, da parte administrativa também, entendeu? Da Contabilidade, da Cobrança, entendeu? Dessa parte para a frente eu que cuidava de tudo. E eu que mandava lá para o escritório central para eles poderem fazer o ponto. Se eu não mandasse quem faltou, quem não faltou aí, entendeu? Então quem fazia isso tudo era eu para mandar para lá. Lá para o Jacaré. Aí eu mandava tudo para lá. Depois vinha pagamento, tudo, eu tinha que pagar todo mundo. Não era fácil. No início era bravo. Dez anos e só ter uma falta? Eu não podia faltar que todo mundo dependia de mim. Ali naquele caso era eu. Se eu não estivesse ali ninguém fazia nada.

 

P/1 - E como era a relação com os colegas de trabalho?

 

R – Ah, não, era boa. Sempre foi. A gente saía sexta-feira às vezes para, sempre tinha a sexta-feira para tomar cerveja. Isso aí era normal. A gente saía para tomar cerveja. Cervejinha aqui, reunia ali em frente mesmo. Na casa que tinha ali antigamente, que hoje tem também. Que aquelas birosquinhas ali a gente ficava ali jogando sinuca. Aí então a gente, mas dez anos assim só nessa luta. Aí depois que eu vim para a Franco, ô, para o Ernani.

 

P/2 - Então conta um pouquinho para a gente como é que foi essa transição. Como é que surgiu a oportunidade de o senhor trabalhar na...

 

R – Na...

 

P/2 - Com o seu sogro.

 

R – É, foi que ele começou. Ele caiu doente, né? Aí que ele não tinha uma pessoa assim para cuidar, né? Que tenha...

 

P/2 - O Ernani é o seu sogro?

 

R – É o meu sogro. Que é o dono. Aí eu tive que largar. Sair de lá para vir para cá. Tive que ir porque ele tinha que fazer hemodiálise aqui na Santa Casa e não tinha quem vim com ele. Porque ele tem uma filha que tem problema, entendeu? Problema mental. Que inclusive quem cuida dela é a gente. Eu e a irmã dela. Então a gente fica, daí eu vim. Tive que vim. Tive que trazer ele para o hospital. Quem fazia tudo com ele era eu. Aí que depois, eu chegava na loja tarde. De primeiro eu ia ver o caso dele. Ia levar ele no médico, ______, levar ele para casa. Depois que eu vinha. Às vezes voltava aqui na Santa Casa de madrugada. Vinha trazer janta para ele porque ele não queria comer aqui. Saía daqui ia em casa, voltava aqui para depois ir para casa. Aí foi aí. Ele depois faleceu. Eu fiquei direto. Mas tem a minha esposa, tem a filha dele, tem a parte dela ali tudo.

 

P/1 – No começo o senhor chegou a conciliar os dois trabalhos na...

 

R – Não. Um pouco, porque lá eles estavam assim que, no início eles estavam precisando de mim lá. Aí eles ligavam para a minha casa para mim ir para lá. Para eles fechar folha. Porque eles não sabiam fechar. Eu que tinha que ir lá. Eu falei: “Pô, não dá.” Aí eu parei. Eu falei: “não venho mais.” Que eu tinha que ficar aqui. vim para cá e fiquei aqui direto. Eles pararam. Aprenderam. Tinha que aprender.

 

P/1 – O senhor já sabia alguma coisa de animais, de?

 

R – Nada. Nada, nada. Não sabia nada de bicho. Só de ver. Só o de casa mesmo que eu tinha em casa. Mas assim para, era vamos dizer, ceguinho, ceguinho. Não entendia nada. De ração, de medicamento. Depois fui pegando. A gente vai aprendendo. É o jeito.

 

P/1 – Na prática.

 

R – É, na prática. Agora entendo. Entendo bem.

 

P/2 - A Colibri fica no, qual o endereço da loja?

 

R – Largo de São Francisco de Paula, 25 – Centro.

 

P/2 - E o senhor está lá há quanto tempo?

 

R – Uns quê? Dez a quinze anos. Até mais.

 

P/2 - Mais?

 

R – Até mais.

 

P/2 - E o senhor assim, o senhor observou algumas mudanças ali na, no Largo de São Francisco? Por ali, assim?

 

R – Ah, teve, teve. Teve muita mudança ali. Teve até...

 

P/2 - O que o senhor observou?

 

R - ...ali do lado inclusive onde é a Colegial, onde hoje é a 1,99, ali era a Colegial. Ali também tinha uma Colegial. Era grande. Fechou. Tem a igreja ali que fizeram aquela obra também. Cercaram tudo. Teve aquela, não sei, que eu não me lembro bem o nome dessa loja. Sei que é de noiva. Acho que é Casa das Noivas que pegou fogo. E tudo isso. Calçaram ali, tiraram aqueles trilhos. Mudou. Teve a mudança dos ônibus que eram ali. Daquele 397, 393 Campo Grande, Bangu. Aí tiraram tudo. Era tudo ali. Antigamente ficava os camelô vendendo, né, por causa dos ônibus. Ali a freguesia era muito maior. Porque muita gente que ia para casa passava ali às vezes estava aberto passava, comprava. Uma ração, medicamento. Então era muito mais movimentado do que agora. Mas ela sempre teve movimento. A Colibri sempre teve movimento. Tu chegou lá e tu viu. De repente a agitação. Hoje mesmo, para mim vir sair daqui saí, vir embora. Falei: “não, tenho que ir.” Ainda vim atrasado. Falei: “Não, tenho que ir embora.” Vim correndo. Ainda procurar o endereço. (riso) Que eu não sabia bem onde era. Eu estava querendo me localizar depois, ______.

 

P/2 - Mas o senhor acha que em relação às outras lojas da região diminuiu com o fim das linhas de ônibus?

 

R – Diminuiu. Eu acho muito. Teve na época que quando saiu os ônibus daí ela teve uma caída muito grande. Ali antigamente não tinha muitas lojas como tem hoje. Porque agora tem uma ali na Sete de Setembro, tem duas na Buenos Aires. Aquela outra mais no fundo. Só ali agora tem umas quatro ou cinco. Mas a Colibri ela não perde. Porque ela já tem a tradição dela, se está entendendo? Então todo mundo vai ali.

 

P/1 – Em que ano que a loja foi fundada?

 

R – Ih, assim eu não sei não. Mas tem acho que naquele Colibri que eu falei eu acho que tem a data dela ali. Eu vou trazer...

 

P/2 – Mas o senhor lembra mais ou menos há quanto tempo? Se tem trinta, quarenta, cinquenta anos? O senhor lembra?

 

R – Tem mais ou menos cinquenta anos. Mais ou menos. Que é desde, a Presidente Vargas não tinha nem na época não era nem asfaltada. Para tu ver como é antiga, né?

 

P/1 – A loja originalmente ficava na Presidente Vargas?

 

R – É, ali que é do lado onde tem aquele prédio do Detran [Departamento Estadual de Trânsito]. Que, ali na Rua da Conceição. Ela ficava ali do lado. Que hoje é um estacionamento, né? Uma parte do estacionamento. Que eu acho que é da Prefeitura, se não me engano. Era ali. Aí pegou fogo. Aí que foi lá para o Largo. Aquele, era na época o deputado Negrão de Lima ele era o governador, o deputado, aí ele que cedeu. Arrumou essa loja para ele. Teve um outro cara que deu uma força. Eu não me lembro o nome dele. E ficou até hoje está ali.

 

P/1 - E qual a história do nome?

 

R – Ih, agora eu não sei. (riso) Ele que acho que ele que inventou. O nome...

 

P/2 - Quem que criou a loja?

 

R – O Ernani.

 

P/2 - O Ernani.

 

R – É, o Ernani. Acho que ele que, não sei qual é o, não sei porque ele botou Colibri.

 

P/1 – Porque o nome da loja mesmo é?

 

R – Ernani Ferreira de ______. Agora o Colibri eu acho que ele imaginou assim que o colibri ele é um pássaro, é o beija-flor, né? Ele inclusive tem a foto da colibri. Deve ter sido por causo da cor, ou da rapidez dele. Aí agora eu não sei. Agora eu não sei te dizer.

 

P/2 – Bom e o senhor assim, o seu sogro na casa da sua esposa tinha pássaros, essas coisas?

 

R – Ah, tinha.

 

P/2 - Para ter esse gosto pelo colibri?

 

R – Tinha, tinha muitos pássaros. Inclusive era até proibida a venda. Mas ele tinha. Ele tinha tipo uns viveiros. Até macaco ele já levou para casa. Ele tinha uns viveiros. Tinha muito passarinho. Ele levava para casa arara. Tudo, arara, papagaio. Tudo passarinhos que são proibidos ele tinha. Curió, poleiro. Tudinho. Tinha uns quatro ou cinco viveiro se não me engano. Viveiro grande. Ele levava os bichos tudo para lá.

 

P/2 - Tinha mais algum outro bicho que ele tinha?

 

R – Ele tinha vários. Mas acho que ele inspirou mais foi no beija-flor. Porque ele fica voando e aqui ele pára, né, fica voando. Batendo as asas. Então eu acho que ele se inspirou mais nisso. Foi no beija-flor.

 

(pausa)

 

P/1 – Bom, seu Sérgio, o senhor já falou que conheceu a sua esposa no baile de Carnaval. Eu queria que o senhor contasse mais essa história para a gente.

 

R – Não, foi assim, como assim? A gente estava ali brincando normal, brincando o Carnaval. Aí que nós conhecemos. Ela ficou olhando, eu olhando. Aí na volta fomos, aí nós assim ficamos. Depois acabou o Carnaval. Quarta-feira nós se encontramos. Minha noiva chegou. Aí deu uma confusão do caramba.

 

P/1 – Como é que foi esse... (risos)

 

R – (risos) Não, que ela descobriu. Não sei como ela descobriu. Porque uma colega dela tinha visto eu no baile com ela no domingo. Eu estava no, estava na casa da minha noiva mesmo. Eu comecei a passar a mão para ir embora porque eu tinha que encontrar com ela. Fui embora. Mas não sabia que a colega dela estava lá. Quando eu cheguei lá então ela viu. Aí chegou e falou para ela. Na segunda-feira ela me telefonou me falando. “Você, ah, tal.” Eu falei: “O que é que é?” Ela falou: “Então, tu já leu o jornal hoje?” Ela perguntou isso. Eu falei: “Não, por quê?” Ela falou assim: “Não, porque – como é que ela falou? – negócio de dois amores no horóscopo está dizendo que negócio de dois amores não dá certo.” Eu fiquei, falei: “Ué, o que é que está havendo?” “Tu vai vim aqui?” Eu falei: “Não, não é bem aqui.” Então foi aí que ela descobriu. Porque a colega dela, até o nome dela é Isabel, parece até muito contigo. (riso) Parece mesmo, você parece muito com ela. Eu falei: “Não.” Aí acabou. Acabou em uma boa também.

 

P/1 – Isso porque ela tinha ido viajar, né?

 

R – É, porque ela foi viajar no Carnaval. Ela foi e eu não quis ir. Eu falei: “Não, eu vou brincar aqui.” Porque tinha aquela turma, né? Então eu e aquela turma brincando. Porque hoje em dia que o pessoal vai viajar muito, né? Antigamente não. Reunia aquela turma e ficava ali. Brincando ali no salão todo mundo.

 

P/1 – Ela tinha ido viajar para onde?

 

R – Eu não me lembro para onde ela foi não. Aí quando ela voltou já era.

 

P/1 – (riso)

 

R – (riso) É fogo. Nem tanto. É, mesmo meus irmãos falavam: “Pô, isso não vai dar certo.” Porque um ano, em fevereiro, novembro casei. Não é nem um ano, né?

 

P/1 – E como é que foi, conta para a gente como você conheceu seu sogro?

 

R – Foi como eu falei. Que eu ia vê os jogos. Foi até em um sábado à tarde.

 

P/2 - Lá no clube...

 

R – No clube de Bonsucesso.

 

P/2 - ... de Bonsucesso.

 

R – Bonsucesso Futebol Clube. Aí eu cheguei lá o porteiro começou a brincar até eu com ele. Acho que ainda é vivo. É, ainda é vivo. O Amaral começou a dizer: “Não conhece teu sogro?” Tal, não sei o quê. Porque não tinha nem um mês ainda que a gente não sabia se, mas ele ficava encarnando. Aí um sábado eu estava vendo o jogo, ia ver o jogo, e ali na portaria conversando com ele. Quando ele veio atravessando a rua ele falou: “Olha lá. Tu está vendo?” Eu falei: “Estou. Quem é?” Ela falou: “Aquele que vai ser teu sogro.” Eu falei: “___________ brincadeira?” Ele: “É.” Ele até inclusive tem um defeito na mão. Aí eu falei: “É mesmo?” Ele passou ele falou: “Está vendo? Eu vou te caguetar.” Eu falei: “O que é isso.” Ele conhecia a minha esposa. Depois eu tive que, fui na casa dele mesmo e ______.

 

P/2 - Ela não ficou assim desconfiada que o senhor já tinha deixado a outra no Carnaval? lá sempre continuou  com o senhor no Carnaval?

 

R – Quem?

 

P/2 - A sua esposa.

 

R – Não, ela ficou.

 

P/2 - É.

R – Ela confiou em mim, né? Ela confiou em mim por tanto que nós estamos 23 anos. Que hoje em dia. Foi até, eu cheguei a pegar nessas fotos para trazer. Mas eu não sei o que é que houve que ao me distrair se não me engano eu deixei em cima da mesa hoje de manhã. Ela estava até vendo: “Pô, a gente como é que está diferente.” Tu vai ver como eu estou diferente. Eu vou trazer a foto que tem o Ernani, que é o pai dela. Tem a foto dele com ela. Que é o fundador da Colibri. Aí eu vou trazer para fazer o negócio aí.

 

P/1 – E como foi que o senhor pediu a mão dela em casamento?

 

R – E aí é...

 

P/1 – Foi formal?

 

R - ... aquela época, né? Ah, foi formal sim. Porque eu cheguei lá. Eu, minha mãe, meu pai. Ficou um montão de gente tudo em volta. Fofoqueiro em volta. (riso) Ah é, tem, fica. Todo mundo. Já ajuntou, tem lá, a outra não. Coitada, que ela é doente, ela não entende, né? Mas aí ficou a outra. Já ficou o namorado da empregada junto, que era a Dedê. Morava aí, pronto. Juntou, já juntou a outra vizinha que também já veio olhar para a minha cara para ver como é que eu era. Aí já viu, né? E ficou todo mundo ali e tu fica sem graça ali. (riso) Aí tinha uma tia dela que também ficou lá. Apareceu na hora também. Aparece todo mundo nessas horas. E foi normal. Não deu problema. Que é até hoje. Graças a Deus estamos...

 

P/1 – E vocês se deram bem logo de...

 

R – É, né? Se demos bem, entendeu? Sempre tem aquelas brigas. Fica meio desconfiado. “Ainda está com ela, não está.” Fica aquela dúvida, né? Mas aí começamos logo a comprar as coisas e foi rapidinho.

 

P/2 - E o casamento como foi?

 

R – Bom, foi uma surpresa. Para mim foi surpresa. Porque foi, eu casei ali na igreja de São Geraldo ali em Olaria mesmo. Quase na estação de Olaria. Quando, não ia ter nada. De repente chegamos lá tinha três salão alugado. Que lá tinha três divisão, sabe? Tinha a área da frente, tem a sala e tem a outra área que é a outra parte que eu moro. Aí a mãe dela com o pai dela lá fizeram um negócio. Quando nós chegamos lá já estava assim. Tinha pagode lá no final, tinha valsa aqui na frente. Eu falei: “Caramba, o que é que arrumaram aí?” Mas nós não sabíamos, entendeu? Nós saímos da igreja para ir lá pegar as coisas que a gente ia para o sítio. Mas aí acabou que ficamos ali. Só fomos no domingo. Nós fomos viajar no domingo. Chegamos lá tinha todo mundo lá, todo mundo escondido. A gente não sabia de nada. Aí ficou uma festa lá e normal.

 

P/1 – Conseguiu reunir a sua família toda?

 

R – Todo mundo. Foi todo mundo. Naquela época, tranquilo.

 

P/2 - E a sua esposa, quando criança assim, ela conta que ela gostava de animais?

 

R – Ela sempre gostou.

 

P/2 - E ela...

 

R – Ela ia viajar com o pai dela. Ia para Minas, São João Del Rey, para trazer canário com ele. Ela, minha cunhada, aquela que é boa, né? Ia para com ele. Ela sempre se deu com isso. Ela brincava. Tinha a hora dela brincar e estudar. Mas ela também se dava, ela gosta. A gente tem cachorro até hoje em casa. Às vezes ela tem cachorro, tem passarinho. Tem uma sabiá. Tem um casal de periquito. Tem um canário. Tem cachorro. Tem tartarugas. Isso tudo ela tem em casa. Ela que cuida. A gente que cuida assim, não tem. Quando eu chego, pô, não dá tempo de eu tratar dos passarinhos, ela que trata. Tem isso tudo em casa. E ela sempre se deu com bicho. Ela sempre trabalhou com, sempre conviveu com isso, entendeu? Sempre com isso. Aí acostumou. Acostuma. Tudo é o costume também, né?

 

P/2 - E o senhor também sempre gostou?

 

R – Ah, no início a gente estranha. Mas depois pega, e aí gosta. Eu gosto de bicho, eu já gostava de bicho. De ter em casa. Que eu sempre tive, quando era solteiro. Aí depois, no início é aquela dúvida. Se vai dar certo ou não vai.

 

P/1 – O senhor lembra da sua infância algum bicho especial que o senhor tinha? Cachorro? O senhor lembra de alguma história?

 

R – Ah, tem. Tem o, era o Francisco. Era o porco que a gente tinha. A gente dava banho no porco e tudo com sabonete. Era o Francisco. Quando matou, era rapaz. A gente dava banho no porco. (riso) Tudo. A gente montava nele, pegava a orelha aí saía correndo. Que lá onde eu morava tinha um quintal grande. A gente montava ele. Ele não vivia no chiqueiro não. Era dentro assim do quintal. Dava o banho com sabonete e tudo. A gente dava. Sério, não é brincadeira não. (riso) Incrível. Era o Francisco. O nome dele a gente botamos de Francisco. Quando ele morreu (risos) é sério, quando ele morreu, puxa, deu um trabalho em casa. Mataram ele foi até no casamento da minha irmã mais velha. Mataram ele. Pôxa, não deixaram nem eu ver, ninguém ver. Nesse dia estava até um temporal. Faltou até luz quando o Chico morreu. O Francisco. (risos) Sério mesmo. Esse foi engraçado. Francisco. Era o porco que a gente tinha. Porco bonito ele. A gente brincava de cavalinho com ele às vezes. A gente era pequeno. (riso) ________. Dava banho nele com sabão e tudo. Ele não vivia no chiqueiro não. Porque tem, bota o porco no chiqueiro. Ele não, ele vivia assim com a gente assim solto. Não fugia. Ficava ali. Era divertido mesmo.

 

P/2 - Quanto tempo ele viveu?

 

R – Ah, ficou um bom tempo. Ele cresceu. Ele era pequenininho assim, ficou um grandão. Ficou grande.

 

P/1 – Você lembra quando ele chegou na sua casa?

(pausa)

P/1 – Bom, o senhor continua contando para a gente como é que o senhor ganhou? O senhor lembra o dia que ganhou?

 

R – Não, não. Não lembro não. Acho que meu pai que ganhou se não me engano. Meu pai que ganhou. Aí ficou lá com a gente.

 

P/2 - A sua mãe reclamou?

 

R – Ah, reclama. Porque ela, sempre sobra para ela.

 

P/1 – Ele veio pequenininho? Qual o tamanho?

 

R – Ele veio pequeno mais ou menos desse tamanhozinho assim. Aí nós esperamos criando. A gente também era pequeno. Nós ficamos brincando com ele.

 

P/1 – Quem deu o nome de Francisco?

 

R – Eu acho que foi o meu irmão. Acho que foi meu irmão.

 

P/1 – Por quê? Tinha algum Francisco que ele conhecia?

R – Não sei, fia. Eu não sei se foi o meu irmão ou meu pai. Assim, o nome da pessoa que botou não me lembro. Às vezes até quando a gente se reúne a gente até comenta sobre ele. Sobre Francisco porco.

 

P/1 – (riso)

 

R – Ele é engraçadinho ele. Foi crescendo ali com a gente, quando mataram ele foi uma, faltou até luz. Choveu foi o maior pé d’água. É sério. Caiu o maior pé d’água quando mataram ele. Uma pena. É a vida.

 

P/2 - Tinha mais algum outro bicho de estimação que vocês...

 

R – Não, depois tem cachorro, né? _______ um cachorro. Mas o mesmo que chocou mesmo foi o Francisco. O Francisco que era...

 

P/1 – Marcou.

 

R – Marcou mesmo foi ele. Que era um, que é um bicho assim que todo mundo fala, mas não. Aí depois foi só cachorro. Aí cachorro, cachorro até hoje eu tenho cachorro. Eu tenho um. Mas o que marcou mesmo foi o Francisco.

 

P/1 – Quando você era pequeno você imaginava já que um dia ia trabalhar com animal, com bicho?

 

R – Não.

 

P/1 – Tinha algum sonho assim de fazer alguma coisa?

 

R – Nunca, nunca.

 

P/2 – Teve algum sonho assim de ter alguma profissão?

 

R – É, né? A gente sempre sonha ter uma profissão, né?

 

P/2 - Mas o que o senhor queria ser quando era criança?

 

R – Não, eu tinha, eu poderia ter seguido a carreira de militar. Que quando eu servi eu estive aqui no, aqui no Panteão de Caxias, então eu era ordenança do general. Quando ele foi lá inaugurado Brasília ele foi para lá. Aí ele queria que eu fosse para lá. E já como sargento. Eu falei com meu pai e minha mãe eles falaram: “Não, você é que sabe.” Aí eu não quis ir. Falei: “Não, eu não vou.” Ele queria que queria me levar. General Estevão. Eu era o ordenança. Fazia tudo aqui para ele. Para ele, para a esposa dele, para as filhas dele. E ele queria, quando a diretoria que eu servia foi transferida para lá, ele queria me levar. Eu não quis ir. Era mais militar, né, mais depois que a gente está lá dentro que a gente sabe o que passa lá dentro. Aqui fora: “Quero entrar, quero entrar.” Mas depois que tu entra está doido para sair. (risos)

 

P/2 - Mas o que acontecia lá dentro?

 

R – Acontecia muita coisa.

 

P/2 - Eles botavam o senhor para ralar?

 

R – É, ralar a gente antigamente ralava. Agora hoje em dia não. Antigamente não era como hoje. Antigamente saía do serviço 24 horas e depois voltava de novo. Fazia ginástica de manhã. Não era fácil.

 

P/2 - Como era um dia no quartel?

 

R – Ah, dia de serviço ou dia...

 

P/2 - É. O dia-a-dia assim, como era a rotina? De manhã, à tarde?

R – Não, de manhã a gente acordava, quem estava de serviço saía do serviço pegava a vassoura, a enxada e ia capinar. Ou então fazer ginástica. Correr em volta de campo. Até quatro, cinco horas da tarde. Aí que tu ia ser liberado. Tu sai de um serviço, a noite toda em claro, para depois pegar uma vassoura, uma enxada ou fazer ginástica? Chega quatro horas da tarde tu está, né? Aí tu vai para casa, volta no dia seguinte, tu olha na escala está de serviço de novo. Então é uma coisa muito puxada. Ou lavar banheiro. Tem isso tudo. Lá não tem __________, não. A escala lá: vai lavar banheiro. Aí tem que lavar. É muito puxado. Quando eu vim para cá é que melhorou, porque aí eu não fazia nada. Quando eu vim aqui para o coisa aqui, o Panteão de Caxias ali eu não fazia nada. Ali eu chegava de manhã só fazia o café do general e esperava ele chegar. Ele, o major, o tenente e o capitão. Fazia o café e ficava lá esperando ele. Chegava ele, chegava mandava pegar o motorista: “Ó, vai lá na minha, vai pegar minha esposa e vai para Petrópolis, vai para Teresópolis.” Aí eu peguei moleza. Daí para cá. Quando ele foi embora eu fui para um outro quartel em São Cristóvão. Ali também peguei dureza. Ali também teve um lance ali foi muito engraçado. Ali só ficava três soldado. Um cabo, um sargento e dois soldado. Trocando a hora, né? Foi em um sábado, ficamos, ficou eu, o cabo Nunes e o Muller. O nome desse cara é até Muller. Nós três no serviço. Chegou de noite o cabo de repente mandou a gente abrir a porta para ele sair de carro. Nós estamos, pô, a gente nem atirava com FAL, atirava de pistola. Servia. Estranhamos. Eu estava dormindo. O soldado foi lá me chamou: “Pô, Soleiro.” “Que é que é?” Meu nome de guerra era Soleiro. “Aí, o cabo Nunes saiu.” O cara, saiu o responsável, deixou a gente ali, sozinho dentro do quartel. O quartel apesar que não era muito grande. Nós ficamos. E daqui a pouco está – até era na Quinta, acho que do lado do vigésimo quarto batalhão. Brigada ali na Quinta - aí nós ficamos sozinho. Daqui a pouco ele buzinou do outro lado da Quinta assim é ele. Nós olhamos é ele. Abrimos a porta ele entrou. Ele trouxe quatro garrafas de cachaça. Nós enchemos a cara (riso) todo mundo bêbado. Bebemos as quatro garrafas de cachaça. Quando fomos trocar o serviço chegou o sargento. Que ele viu, falou: “Meu Deus, o que é que vocês fizeram.” Mas bebemos todas elas. E antigamente era aquela Pitu. Ele foi lá, não sei o que é que deu nele “Ninguém vai tirar mais serviço.” Tinha sobrado comida que ele, desse quartel que trazia comida para a gente. Para tu ver como o quartel era pequeno. Tinha sobrado carne lá para tira-gosto. Nós preparamos lá e caímos na cachaça e fomos embora. Cheguei em casa minha mãe: “Tu estava de serviço ou tu estava o quê?” Caí, tum, caí para um lado e dormi o domingo todo. (riso) Também foi assim. O quartel às vezes tem coisa boa, mas é muito puxado.

 

P/1 - Quantos anos foram? De serviço?

 

R – O que, eu entrei com dezoito anos. Um ano.

 

P/1 - Ficou um ano.

 

R – 1 ano.

 

P/1 - E nessa história alguém descobriu e vocês foram pegos ou não?

 

R – Não, ninguém descobriu. Só quem soube foi o sargento. O sargento soube tudo, mas ficou quieto. Não falou nada. Aí nós ficamos na nossa também. A gente, ninguém falou nada não.

 

P/2 - O senhor disse que foi salva-vidas na piscina.

 

R – É, fui.

 

P/2 - Conta como é que era a história lá de salva-vidas.

 

R – Em um clube. Não, primeiro eu fiz o curso. Mas antigamente fazia o curso pela, o curso de treinamento era pela Polícia Civil. Hoje em dia é pelo Corpo de Bombeiros. É muito mais fácil. Antigamente aqui na Copacabana a gente fazia na arrebentação. Tem uns quinze a dezesseis anos mais ou menos. Ali era, o cara, a gente fazia ginástica. Chegava lá na praia às cinco horas da manhã. A gente fazia ginástica e depois, vamos dizer, tinha vinte, ele mandava dez para dentro da água e tu ia ter que ir lá buscar os dez. Cada um ia buscar um. Aí ia fazendo esses treinamentos. Sobe, desce. Eu fiz, o curso ali. Fiz um curso também ali no Sesi. Ali no Sesi que é rua ali na quase em frente à Leopoldina. Não tem negócio do Sesi ou Sesc ali? Há muito tempo. Em frente à Leopoldina, não sei se vocês conhecem?

 

P/2 - No Centro?

 

R – Depois daquela rua ali que entra, que vira, não sei que do Açu, não. Eu sei que é ali. Ali onde tem aquela fábrica do Açúcar União.

 

P/1 – Hum, hum.

 

R – É ali. Eu não sei se era  Sesc ou Sesi. Eu fiz um curso ali também. Ali naquele Sesi. Não sei se é Sesi ou Sesc. Eu tenho até o diploma lá em casa também.

 

P/2 - E no clube, o senhor salvou alguém? Teve algum caso de afogamento?

 

R – Ah, já salvei, já fui parar no Getúlio Vargas. Aconteceu. Aconteceu não, eu mesmo deixei. Questão de brincadeira eu deixei ela primeiro ela beber um pouco d’água.

 

P/2 - Conta como é que foi a história?

 

R - Não, que eles estavam brincando, então é liso.

 

P/1 – A piscina estava cheia?

 

R – Estava. Estava todo mundo tomando banho. Eu estava do outro lado sentado olhando. Na arquibancada. Estava lá no último degrau sentado. Eu desci e falei com os cara: “Ó, rapaz, isso aí escorrega.” Tinha o quê? Umas quatro garota e uns três rapazes. Eu falei: “Isso aí escorrega e vocês vão acabar escorregando e vão bater com a cabeça aí no chão. Vai dar trabalho.” Tá e tal, jogou ele na parte funda. Eu pensei: “Esses caras vãoe. Não vai demorar.” Aí a garota foi e caiu. Eles jogaram, empurrando ela foi. Eu estou lá do outro lado da piscina eu estou vendo. Ela subiu, desceu. Mas quando ela queria pegar a borda ela descia, não segurava a borda. Aí eu deixei ela descer três vez. Quando ela desceu a terceira vez eu fui lá pegar ela. Ela já tinha bebido muita água, deu problema, foi parar lá no Getúlio Vargas. O seu Eduardo que era o administrador: “não, não tem problema não.” Aí não deu problema. Era bom ali também. Muito divertido. Era bom. Mas aí saí. Comecei, aí fui para o quartel, entendeu? Depois comecei a trabalhar, não frequentei mais. Larguei.

 

P/1 – Não tem vontade de continuar sendo salva-vidas?

 

R – Eu acho que agora eu não sei nem mais nadar. (riso) Eu sei, né? Mas não, agora não dá não. O fôlego não dá mais. É muito cansativo. É muito puxado. Já pensou trazer uma pessoa? Então, em uma onda de Copacabana que ela arrebenta, passar por ali? Tinha que passar. Agora não, hoje em dia é mais fácil lá pelo Corpo de Bombeiro. Antigamente era pela Polícia Civil. Era muito mais difícil.

 

P/2 - O curso era quanto tempo de curso?

 

R – Ah, uns sete, oito meses, um ano. De acordo, entendeu? Quando via que era pessoa que já tinha mais preparação, uma preparação melhor eles já iam separando. Aí já era bem melhor. Quem já era mais, tinha, tem sempre aquele o cabeça dura. Tem sempre um mais. Aí, mais como se diz? Assim que fica mais atrasado. Aí vai separando. É mais ou menos um ano, um ano e pouco, entendeu? Mas é bom.

 

P/2 – O senhor acordava cedinho todo dia?

 

R – Acordava cedo todo dia.

 

P/2 – Que horas o senhor acordava?

 

R – Quatro horas da manhã.

 

P/2 - E ia como para Copacabana?

 

R – A gente ia de ônibus. Se reunia todo mundo ali na esquina e, era uma turma que ia. Uma turma. Ia uns sete ou oito só dali. Dali, era de Bonsucesso. Era uns sete ou oito. Aí juntava aquela turma, ia todo mundo.

 

P/1 – Você chegou a trabalhar na praia mesmo?

 

R – Não, não. Na praia não cheguei a trabalhar não. Não cheguei não. Aí eu fui me afastando, a gente se afastou, um foi do outro e... Tinha uma turma boa. Mas agora nem penso. Nem vou à praia. Só vou para olhar.

 

P/1 – Bom, então vamos retomar a loja, né?

 

P/2 - A loja.

 

R – A loja.

 

P/1 – Você sabe se tem alguma loja no mesmo estilo ali pelo centro? Quais são os endereços das lojas de ração que existem, que não existem mais? Que é que você...

 

R – Ali de ração que tinha antigamente?

 

P/1 – É, antigamente.

 

R – Não, antigamente não tinha nenhuma. Só tinha a Colibri.

 

P/1 – Foi a primeira.

 

R – Que eu saiba só tinha a Colibri. Foi a primeira. A que começou nesse ramo ali foi a Colibri.

 

P/1 – E hoje em dia tem mais alguma loja?

 

R – Ah, tem. Tem ali na Sete de Setembro que é o Alçapão 81. Tem na Sete de Setembro a, na Galeria 88, tem a Agronova que é na Rua Buenos Aires, número 100. Tem outra na Buenos Aires que é a Chamon. Não, a Chamon acho que fica lá na Miguel Couto. Miguel Couto, 104. Agora tem várias. Ali nessa Agronova, acho que é Agronova se não me engano, na Buenos Aires tem duas. Tem a número 100, o outro número que eu não me lembro. É mais para cá. Tem duas só ali deles. Mas não é como eu te falei. Ela não é, não tem, eles não têm experiência em bicho, entendeu? Eles não têm uma experiência que nós temos de bicho. Eles só tem mais negócio de ração, negócio de pesca. Só isso que eles têm. Vendem esses outros objetos de cachorro. Coleira, ossos para cachorro brincar. Negócio de bebedor, banheiras tudo, para passarinho. Só mais essas coisas assim que eles têm. Agora de bicho mesmo é muito difícil. Ali no Centro da cidade de bicho só tem a Colibri e a Guará que fica mais na frente. Fica na rua do teatro. Só ela que tem experiência que inclusive esse que era sócio nosso, que está nessa Guará, entendeu? Ele que entende de bicho também.

 

P/2 - E como é que foi para o senhor quando o senhor começou a trabalhar, não conhecia nada? Como é que foi isso?

 

R – Não, tem aquela dificuldade, né? A gente, tu não sabe, você não sabe como começar. Você fica naquela, aí vem um, vem outro e fala: “Não, calma, tal. Não sei o quê.” Aí tu vai aprendendo. A pesar um quilo, meio quilo. Não tem noção, né? O que é que é vamos dizer um alpiste, um milho alvo, entendeu? Um tipo de ração. Tu não sabe. A gente não sabe o que é alpiste. Aí fica meio perdido. Aí tu vai aprendendo, vai olhando, vai olhando, aí pega. No início tem sempre aquela dificuldade. Como se pega um passarinho, como é que tu conhece um passarinho. Aí agora a gente sabe. Também mais de quinze anos ali dentro. Dez a quinze anos, bastante tempo.

 

P/1 – E teve alguma ocasião, alguma situação que o senhor não sabia o que é o que o cliente queria?

 

R – Não, isso aí não. Que isso aí sempre a gente tem um que está do lado ele já fala logo. Nesse ponto não tem problema. Esse aí não tem...

 

P/1 - O senhor pode descrever para a gente como é a fachada da loja? E o interior também?

 

R – Bom, ali a fachada é como, só tem aquele paredão, né? Que aquilo ali foi, quando ele, o Ernani pegou aquilo ali era, só tinha aterro ali dentro. Ali dentro era, ali era uma farmácia. Acho que desabou também. Tiveram que tirar, inclusive agora não, que nós fizemos o chão há pouco tempo. Ali era fundo assim. Porque o caminhão ia lá dentro buscar o entulho. Ali tinha o nome da farmácia. Então ele fez, e só tem aquela fachada ali na frente. E as porta, né?

 

P/1 – Hum, hum.

 

R – As duas e a lateral onde a gente entra e sai.

 

P/1 – É um andar só?

 

R – Oi?

 

P/1 - Um andar?

 

R – É só um andar. Não, tem lá trás que nós fizemos depois. Que é uma parte, mas é pouca coisa. Mas é só um andar só. É só no caso o térreo, né? É só ali. E vai até lá em baixo. Era bem comprido, né? Era bem comprido.

 

P/2 - E por dentro como é? Como estão arrumados os produtos, os bichos? Você pode descrever aqui para a gente?

 

R – É assim, no caso, pela posição que eu estou quem entra na loja os remédios, os medicamentos fica do lado esquerdo. Aqui logo na entrada no coisa, ficam os animais. As galinha. Mas também do outro lado fica a parte das galinha. E as rações fica, de cachorro, fica no centro da loja.

 

P/2 - Sei, e além de galinha quais os bichos que o senhor vende na loja?

 

R – Ah, tem faisão, entendeu? Tem pinto, tem coelho, tem codorna. Tem porquinho da índia. Tem peruzinho. A gente tem vários. Tem pato.

 

P/2 - Cachorro?

 

R – Tem cachorro. Também tem gato siamês. Cachorro, periquito. Agaporne, calopsita, tem esses bichos todos.

 

P/2 - Peixe, vende?

 

R – Peixe. Tem a sessão do, de aquário que fica no meio, fica mais é, no meio da loja. Que aí depois da sessão de aquário é que fica tipo o depósito aonde a gente guarda as coisas. É ali. Tem um tanque onde tem a geladeira que é aonde a gente guarda as vacina. Que tem as vacina para, as vacina tem que ficar dentro da geladeira. Que não pode ficar fora da geladeira. Quando a gente vende uma vacina tem que ir em um saquinho com gelo. Se não ela perde o efeito. A geladeira fica depois da sessão de aquário. Aí para lá tem aonde tem que a gente tem os viveiro também. Que às vezes a gente bota os bicho lá dentro, entendeu?

 

P/2 - Então o senhor armazena, guarda os bichos ali no viveiro lá atrás, à noite? À noite quando a loja fecha, como fica os bichos?

 

R – Não, porque a noite eles dorme. Porque a luz a noite quando apaga-se tudo eles não come e não bebe nada. Eles só come e bebe se tiver uma, mesmo de dia, se tiver uma luz, se eles estão em uma parte fechada, escura eles não come. Se não tiver uma luz eles não come. Mesmo dando uma claridade do sol, né? Eles não come. Só se tiver luz, entendeu? Já é do bicho mesmo. Aí a gente tem, tem a luz ali quando a gente apaga, apaga tudo. Antigamente tinha vigia. Agora não tem mais vigia. Daí...

 

P/1 – E tem algum produto diferente que vocês vendem hoje que não vendiam antigamente?

 

R – Ah, tem. Tem muito.

 

P/1 – Quais são as novidades?

 

R – Tem, tem muitas novidades. Ainda mais contra pulga, carrapato. Frontline, um remédio que é muito procurado, entendeu? Tem o Prêmio. Agora tem vários...

(Fim do CD 01)

R - ... remédios. Tem o que, eu acho que deve ter ou dez ou quinze mais ou menos, remédio de verme. Tipo de verme. Tem que saber o peso do animal para tu dar o remédio de verme. Não pode dar às vezes remédio, menos de quinze quilos a gente tem que dar uma dose, tem que dar outra, entendeu? Tem isso tudo. Tem vários. Agora a vacina que é mais antiga. É a vacina. Que é para não pegar cinomose. Essas doenças todas. Que aí é aplicada em, é a mais antiga. Agora tem muito remédio, muito remédio novo. Muito mesmo. Quantidade muito grande.

 

P/2 -  os bichos também sempre...

 

R – É, os bichos também quase os mesmos. Antigamente tinha mais. Era mais os bichos assim como uma arara era mais procurada. Um curió, um melro. Isso tudo é proibido. Na época, antigamente era, mas se vendia escondido. Apesar que hoje também se vende, né? Mas agora ficou mais, ainda vende, você tem. Inclusive Xuxa ganhou uma arara de presente. Já fui na casa do Ney Matogrosso levar um casal de faisão. Lá na casa dele. Várias outras. Teve aquela Regina Casé, também estive na casa dela. Um cara mandou eu entregar um canário lá para ela. Isso tudo. Várias pessoas a gente conhece nesse ramo. E todo tipo de bicho. E é só bichos aquele que faz aqui essa cirurgia aqui na casa que até ele falou lá o Robson, Pitangui, né? Tivemos na casa dele aqui em Botafogo também. Entregamos, também ganhou um de presente. Eles ganham tudo de presente. O pessoal vai lá e encomenda, entendeu? Daí paga no...

 

P/1 – Mas eles ligam, pedem bicho, vocês vão entregar? Ou eles vão na loja?

 

R – Não, ligar esses bicho assim a gente não pode fazer como se diz, vender por telefone. A gente vende para a pessoa pessoalmente. É porque se no caso a gente vender por telefone às vezes pode ser um fiscal, você está me entendendo? Então a gente não sabe quem é que está do outro lado da linha. Então assim, chega você, ou ela, ou ele: “Ah, eu quero tal e tal.” “É tanto.” Dá tal, está aqui. Agora pelo outro lado tu não sabe com quem. Aí tal, encomenda que a pessoa vem... Outro dia aconteceu um caso com a gente, comigo e com o outro sócio. Geraldo o nome dele. A gente estava trabalhando aí chegou um rapaz, chegou lá e pediu um remédio chumbinho. Não tem esse remédio? Aí o Geraldo falou: “Não, não pode.” Aí legal. “Passa aí amanhã que eu trago. Te arrumo.” Tá legal. Ele chegou no dia seguinte, estamos trabalhando. Chegou de tardinha. Lá para as quatro, cinco horas mais ou menos. Chegou o cara, aí eu tinha falado com ele de manhã. “Pô, Geraldo, tu me arruma, tu tem chumbinho aí?” A gente tinha, mas a gente não dá na hora não, porque a gente não sabe. Falei: “Tem.” Falei: “Olha, amanhã eu vou querer um que eu vou levar que apareceu um rapaz.” Chegou no dia seguinte, aí o cara já não veio, cara. Veio outro cara. Ele não guardou a fisionomia do cara e nem eu. O cara chegou, pediu. Ele falou assim: “Eu vou aproveitar e vou pegar o chumbinho dele e vou pegar o teu para tu botar no bolso para logo mais.” Eu falei: “Tá legal, apanha logo.” Aí botei. Nisso ele saiu para atender um freguês no salão, eu fiquei no caixa. O cara veio, o cara me meu uma carteirada federal. Estava preso. Eu falei: “Ih, cara. O que é que é? Eu não estou entendendo.” O cara falou: “Não mexe no teu bolso não porque tu está com flagrante no bolso.” Eu falei: “Que flagrante que eu estou no bolso?” Aí eu falei assim: “Ô, Geraldo, chega aqui.” O Geraldo veio ele falou: “O que é que é Sérgio?” “Pô, eu não estou entendendo esse cara está me enquadrando aí. Está me prendendo dizendo que eu estou preso.” O cara “tum”, deu a carteirada nele também. “Também está preso.” Aí falei: “Pô.” Ele: “Vou ligar, vou ligar para a Polícia Federal para vim buscar vocês.” Aí já viu. Nós: “O que é isso, o que é isso, o que é isso.” E leva, e leva, e leva. Foi uma mão-de-obra que o cara deu: “não, vou levar você, vou levar. Pode fechar a loja.” Os empregado, naquela época tinha mais empregado. Não entendendo nada. “Pode fechar a loja que vocês vão embora. Vou ligar lá para a Praça Mauá para pegar vocês e tal.” Eu falei: “Caramba.” E o cara, eu queria andar daqui ali, o cara não deixava eu sair. “Não sai daí não que tu tem.” Eu estava com o flagrante no bolso. Estava com o vidro de chumbinho no bolso. Com muito custo o cara: “Eu não quero dinheiro não, não sei o que.” __________ o cara não levou a gente e tal. Sabe que agora o cara é nosso amigo para caramba. Vai lá pedir favor a gente e tudo? Mas na, no momento ali, pô. Dali para cá nós nunca mais. “Tem chumbinho?” “Não tem.” Mesmo que a gente tenha: “não tem.” Isso é um rolo. E o cara estava disposto. Não queria dinheiro, não queria nada não. Ele queria levar a gente de qualquer, mas lá não conseguiu atender lá. Eu não sei o que é que deu. Ou às vezes ele que devia estar ameaçando a gente. Mas ele falou que não queria dinheiro. “Eu não quero dinheiro. Eu quero só levar vocês dois.” Aí passou e depois, aí levamos na conversa. Ele foi, foi, aceitou a conversa. Agora ficou nosso amigo. Ele às vezes aparece lá. É, né? (riso) Coisas que acontecem em comércio é isso. É por isso que eu estava te falando, então a gente não pode chegar e vender para uma pessoa que a gente não sabe quem é. Chega ali de repente dá uma carteira na gente, pronto. Estamos com um fiscal. Aí a gente não sabe. Então a gente, e só com sinal também. Porque aí depois a pessoa a gente compra, vamos dizer, a gente compra um negócio, chega na hora a pessoa não gosta. Ah, não gostou. Vamos dizer que a gente que deu o dinheiro. Então não. Ela já deu o sinal fica por isso mesmo.

 

P/2 - E como é que é o transporte dos animais?

 

R – Normal. Vai no transporte, vai em uma caixa de papelão, entendeu? Vai furadinho para ter ar para eles. Vai tranquilo. Caixa de sapato.

 

P/1 – Desculpe interromper, pode continuar.

 

R – Não, pode ir.

 

P/1 – E os animais vêm da onde assim? Vocês é, ou vocês criam? Como é?

 

R – Não, não. Tem vendedores. Tem criadores disso. Tem uma senhora que até ela é japonesa. Ela morava em Petrópolis, ela sempre trás para a gente. Traz faisão. Agora quem comprou um faisão é um cara aqui na, eu sei que ele é padre. Ele é padre. Foi ontem. Ele comprou um faisão. Um casal de faisão. A gente vai entregar ele sábado de tarde. Ele mora aqui _____, eu sei que ele é padre. Mas ele vai padre, mas ele anda sem batina sem nada. Paisano como se diz. Ele esteve lá ontem para comprar um casal de faisão, comprou mais uma fêmea de faisão. Uma coisa assim. Ontem.

 

P/2 - E como é que, como que as pessoas ficam sabendo da loja? Vocês divulgam ou tem alguma propaganda?

 

R – Não, a gente não divulga não, filha. É mais o pessoal que às vezes que compra aí um vai passando para o outro. Ou passa por ali: “Poxa, vai em tal lugar.” Como ela é antiga então já, como se diz, ela já marcou o ponto dela ali. Aí então já é muito famosa. Às vezes vem gente lá da Tijuca para comprar aqui. Vem de Copacabana tudo para comprar aqui. Aí, entendeu? Já tem aquele ponto dela formado. Mais de cinquenta anos em um lugar só não é fácil. É uma, muita coisa.

 

P/2 - E quais os dias e o horário de funcionamento?

 

R – É das nove às seis e meia. E de sábado é das nove ao meio-dia e meia. Agora estamos indo até uma hora.

 

P/2 – Mas sempre foi esse horário ou o senhor...?

 

R – Sempre foi esse horário. Até as 18:30.

 

P/1 - Sábado dá movimento?

 

R – Dá, tem sábado que dá. Às vezes tem sábado que dá mais na sessão de aquário. Mais na sessão de aquário que dá muito movimento.

 

P/2 - Por que será?

 

R – Oi?

 

P/2 - Por que será? Sabe explicar isso?

 

R – Mais porque, assim no nosso modo de pensar, é porque sábado os pais têm mais tempo e as crianças não estão na escola. Ou então o pai não está trabalhando então tem mais tempo para ele poder vim na cidade, trazer para ver. Então eu acho que é por causa disso. Isso nós já pensamos. Porque no caso o pai está trabalhando, o filho está na escola então ele não vai ter tempo de sair do trabalho ou o filho largar para vim ali. Então no sábado ele já tem mais tempo. Ele pode vir com a esposa, ele pode vir só ele e o garoto. Aí ele tem mais tempo para ele ver, para ele examinar o que é que é. Então é bem mais fácil.

 

P/2 - E as crianças costumam frequentar então a loja aos sábados?

 

R – Frequenta.

 

P/2 - E elas gostam dos bichinhos?

 

R – Gostam. Gostam dos bichos. Tem uns que gostam. Tem outros que tem medo, né? Tem uns que vão para a parte do aquário e ficam lá. Mas tem sempre um que tem medo.

 

P/2 - Mas qual o bicho que elas mais gostam assim?

 

R – Ah, do coelho. Do coelho e do porquinho da índia. São o que mais gostam.

 

P/2 - Nunca teve caso de alguma criança que arrumou alguma confusão na loja? Chorou?

 

R – Não, não. Não, sempre chora, né? Elas gosta também de gato, de cachorro. Quando vê os cachorro sempre chora. Tem criança que sempre chora.

 

P/2 - Mas nenhuma derrubou nada? Gaiola, alguma coisa?

 

R – Não, não. Que as gaiolas ficam no alto. Que a gente pendura para evitar isso. (riso)

 

P/1 – E tem alguma época do ano que vende mais, ou...

 

R – Olha, a época do ano que vende mais é difícil te dizer. Mas é mais também lá para o final do ano. Não, final do ano minto. Final do ano ela cai muito. Dezembro, janeiro cai muito, sabe por quê? Porque a pessoa ela quer mais comprar presentes. Esse negócio de final de ano. Presentes, essas coisas. Depois vem janeiro, depois vem logo o Carnaval. O pessoal com fantasia, então a pessoa fica. Então janeiro, fevereiro. Dezembro, janeiro. De novembro em diante, novembro, dezembro, janeiro e fevereiro até março é os piores meses que a gente tem aqui. Cai a venda, cai de modo geral. Cai mesmo. É por causa de Carnaval, é por causa de Natal, final de ano. E porque tem muito feriado, muita gente está viajando. Então quando, entendeu, passar o Natal fora. Então isso a venda cai muito. A queda cai muito.

 

P/1 – E os clientes assim, vem muita gente de fora? Falou que vem do Rio de Janeiro inteiro?

 

R – Ah vem, do Rio de Janeiro inteiro. Tranquilo, tranquilo. E o pior que só vai lá. Pode ter as outras, mas ninguém. Ou pode ir, mas vai, tem que comprar ali. Tem que passar na Colibri. Já é, parece que já é mania, né? Aí não tem jeito. Poxa, muito tempo ali.

 

P/1 – E quem trabalha no Centro também sempre dá um pulinho ali?

 

R – Ah, dá. Sempre dá. Toda vez dá. Quem vai ao Centro, se for por ali perto passa lá. Não tem como não passar, você está me entendendo? Não tem como. Tem que passar de qualquer jeito.

 

P/2 - O senhor vende animais para cultos religiosos?

 

R – Vende. Mais para negócio de Umbanda, né? É mais para isso aí. Um pombo branco, galinha preta. Vende que porque está ali está para vender. Apesar que a gente sabe que é para sacrificar o bicho, né? Mas a gente depende daquilo. Agora cabrito também, isso a gente não vende não. Vende porque ali é galinha, né, essas coisas assim. Ontem mesmo uma mulher levou uma acho que lá para Niterói. Para Niterói. Mas agora a gente também não sabe se é para criar, se é para fazer trabalho. Então por isso que a gente tem que vender. Mas quando é pombo branco é certo. Mas galinha não. Às vezes a pessoa tem um terreno quer criar uma galinha, ou um pato, entendeu? Mas a gente vende.

 

P/1 – E para outras lojas vocês vendem também?

 

R – Não, não.

 

P/1 – Veterinário?

 

R – Não, não. Só se assim como aconteceu a semana passada, a casa Alçapão ela não tinha. Aí ela ligou para o vendedor, o vendedor falou: “Poxa, eu não tenho. Vai ser difícil eu te arrumar. Mas liga para o, fala com o Eduardo lá na Colibri que ele tem. Ele te empresta. E quando tiver tu devolve a ele.” Aí foi que o cara do Alçapão foi lá e pediu a gente, entendeu? Nós fomos e cedemos a ele as coisas. Para ele não perder o freguês nós cedemos para ele. Que tinha outro, só esse aqui. Só em um remédio que ele ia perder a freguesia dele, o freguês dele. Aí nós cedemos. Não crescemos o olho grande não. Não vamos vender para o freguês vim aqui. Aí nós cedemos nosso remédio para ele. Dois dias depois, ou três dias depois ele veio. Agradeceu muito a gente. A gente não tem negócio de briga. Porque a gente sabe que ali, concorrendo com a gente, concorrência com a gente é muito difícil. Eles não trabalham com bicho. Nós trabalhamos. Aí não _____, tudo bem.

 

P/1 – E os clientes são exigentes? Eles têm algum tipo de exigência assim que eles pegam um pouco no pé? Querem alguma coisa?

 

R – Não, sempre tem uns que é mais grosso. Às vezes que não passa, está certinho ele acho que tem que passar um pouquinho. Se está faltando, ele: “Pô, está faltando.” Aí já chia. Mas isso é normal. Tem às vezes alguns que já chega estressado ali e já está estressado vem estressar mais a gente. Mas a gente fica calmo.

 

P/2 - Mas geralmente é o que? É questão de peso, preço?

 

R - É questão de peso. Às vezes que demora a ser atendido. Porque às vezes você está atendendo, final de semana passada mesmo, chegou uma senhora, ela me pediu o nome de um remédio. Aí falou: “Eu vou ali e já volto.” Acho que ela foi na outra loja procurar preço. É um direito dela, tudo bem. Aí chegou um casal, eu estava atendendo o casal ela voltou, ela achou que eu tinha que largar o freguês para atender ela. Eu falei: “Pô”, todo mundo ficou olhando. Eu falei até _____. O rapaz falou: “Ué, tem que largar para atender ela?” Ela falou, como é que ela falou para mim? “Aumenta o salário ou você manda o empregado embora.” Eu olhei para a cara dela e não falei nada. O rapaz, o casal que eu estava atendendo falou: “Puxa, mas ela acha que tem que parar de atender a gente para atender ela?” Eu falei: “Ela já esteve aqui. Ela só veio pegar os valores do remédio e foi embora. Agora ela acha que eu tenho que largar vocês para atender ela. E eu não vou largar.” E deixei ela esperando. Aí o outro rapaz que desocupou foi e atendeu ela. Poxa, não é, eu acho que é uma coisa que não tem nada a ver, né? Eu estou atendendo, tem que esperar, né?

 

P/1 – O senhor acha que hoje as pessoas compram mais ou menos do que antigamente?

 

P/2 - Bichos, né?

 

R – Compra menos.

 

P/1 – Menos?

 

R – Compra menos.

 

P/1 – Até bicho de estimação antigamente as pessoas compravam mais?

 

R – Menos. Antigamente uma pessoa comprava, vamos dizer assim, cinco quilos de mistura para periquito, para canário. Agora hoje em dia leva um quilo, meio quilo. Então tu vê que caiu muito. Muitas pessoas fala mesmo: “eu não aguento mais ficar com os passarinho.”

 

P/2 -  Por que será? Por causa da despesa?

 

R – Porque o alpista e a mistura é tudo, o alpista é no dólar, né? Então uma pessoa comprar um quilo de alpiste pagar seis reais? Tem gente que fala: “Poxa, o cachorro está comendo melhor.” Uma ração lá que tem a Pequenas Campeões da Pedigree, ela está cinco e vinte o quilo. Um quilo de ração. Então a pessoa agora pensa duas vezes. Ao invés de levar um quilo, leva meio, entendeu? Por causa disso. Então caiu e cai muito. Não compra mais como antigamente. Podendo levar meio quilo ele vai levar meio quilo. Antigamente levava dois, três quilos. Agora eles diminuiu bem. Agora só quando é assim caso de remédio que o cachorro ou o bicho que for que aí ele compra. Mas de ração ele já leva meio quilo de uma coisa ou de outra. Agora remédio ele tem que dar aquele remédio para uma infecção e tudo. Aí ele tem que comprar. Aí ele compra.

 

P/1 – Ele compra obrigado.

 

R – Medicamento é uma coisa que é mais, tem saída, e é caro. Mas o resto, se ele puder levar 250 [gramas], ele leva 250. É uma coisa, antigamente ele levava um quilo, dois quilo. Agora ele leva 250. Agora parte do remédio ele tem que levar aquele remédio. Ele tem que dar remédio para o bicho à noite ou um remédio para verme. Qualquer, uma vacina. Aí ele tem que comprar aquilo para ele não perder o cachorro.

 

P/1 – Então de repente o que sai mais na loja é o remédio, medicamento?

 

R – É o remédio. Nesse ponto é o remédio.

 

P/1 – Que ração em si ou bichinho?

 

R – É, porque aí no caso ele compra menos, ele pode. Agora o remédio é aquele preço, se a tabela é aquele preço ele tem que levar. Aí se torna, nessa parte se torna mais que a venda cai.

 

P/1 – O senhor acha então que antigamente as pessoas tinham mais animais de estimação em casa?

 

R – Também tem isso, né? Tinha mais porque você tinha mais facilidade de comprar as coisas. Então é por isso que as pessoas tinha mais bichos em casa porque era mais fácil de ele comprar meio quilo ele comprava dois, três. Então agora ele, vamos dizer, ele só pode comprar meio quilo, que é que ele faz? Então ele vai diminuir os bichos dele, está entendendo? Aí se torna uma coisa mais, não aperta para a gente, né, que...

 

P/1 – E você acha também que por causa de tempo? As pessoas antigamente tinham mais tempo para cuidar, para se dedicar?

 

R – É, também. Que as pessoas antigamente se dedicava mais. Que hoje em dia, essa rapaziada, essa juventude não quer ficar em casa tratando passarinho. Não sabe o que é um passarinho, não conhece. Só, como se diz, é o pessoal da velha-guarda, né? (riso) Que gosta, que às vezes ainda aparecem lá. Pergunta, falam do Ernani. Muitos deles que às vezes ainda aparecem lá na Colibri.

 

P/1 – Tem muito cliente antigo assim?

 

R – Antigo, porque aparece, pergunta. “Ô, seu falecido mãozinha.” Chamavam ele de mãozinha. Que ele tem um problema na mão. Aquele que era, até hoje ainda perguntam dele. O pessoal da velha-guarda. Hoje em dia o pessoal não sabe quem é ele. Quem foi ele.

 

P/2 – E, assim, como a maioria dos clientes chegam à loja? Tem estacionamento?

 

R – Não. Tem aquele ali que fizeram agora, né? Ali do lado da faculdade. Mas chega muito a pé mesmo, entendeu? Às vezes a gente dá um jeito, arruma um lugar para estacionar. Às vezes quer para botar o aquário dentro do carro. Que aí às vezes a gente fala com o guarda: “Pôxa, quebra o galho aí, tal.” O cara quebra o galho para a gente. O cara para e deixa ou às vezes para a gente mesmo descarregar.

 

P/1 – O senhor, assim, tem alguma época que tem modismo de animais? Por exemplo, tem um ano que as crianças ou as pessoas preferem criar determinado tipo de bicho? Depois muda?

 

R – Não, mais é na Páscoa o coelho, né? Nessa época é o que sai mais. Sai mais na época coelho. Pode botar cinquenta coelho que tu vende os cinquenta coelho. É o mais procurado na época. O mais procurado é o coelho mesmo. Ou gato, cachorro. Mas assim, é de acordo. Uma pessoa passa ali às vezes vê um gato siamês ali, _____ vê gosta e leva. Vê um cachorro ali, leva. Agora o coelho não. Chegou nessa época é a febre. É uma febre aquilo ali. “Eu quero um coelho. Vou levar um coelho para o meu filho. Vou levar um coelho para não sei para quem.” É certo. O mais procurado e o coelho.

 

P/1 - E, mas de uma maneira geral assim ao longo do ano o que sai mais: é o cachorro, o gato, ou peixe?

 

R – Não, aí assim é difícil eu te dizer.

 

P/1 – É difícil, né? É equilibrado.

 

R – É equilibrado. Aí vai ser, mesmo assim _______ eu acho que é mais o coelho. Eu acho que mais o coelho.

 

P/2 - Qual o bicho que dá mais trabalho assim para você criar?

 

R – Não, nenhum deles dá trabalho. Eu acho que nenhum deles dá trabalho. Só tu tendo água e comida para o bicho, dar o banho nele e está, entendeu? Não te incomoda em nada. Passarinho. Ele está preso na gaiola. Só tu chegar ali, dá trabalho. Não é. Às vezes tu faz aquilo por distração. Para passar um tempo. Tu está aí, tu pega, vai dar um banho no cachorro. Está ali a comida dele, então eu acho que não tem trabalho. Para mim nenhum deles dá. Eu tenho uma tartaruga lá em casa fica lá. A esposa bota comida lá, ela está lá. Ela está sumida. Eu estou procurando ela, eu não sei onde ela se meteu. Ela tem épocas que ela some. Tem época que ela...

 

P/1 – É grande?

 

R – É. Ela foi para lá desse tamanhinho. Já está desse tamanho. Ela some. Tem época que ela some. E agora a gente está procurando, ela sumiu. Não sei onde ela está. Está para lá.

 

P/2 - Voltando a falar dessa questão de bicho se tem modismo ou não, uma coisa que eu queria colocar: tem assim principalmente em relação a cachorro, tem uma determinada época que as pessoas procuram mais uma raça? Por exemplo, chegou uma época que as pessoa procuraram mais ter poodle. Outra época procuraram ter mais...

 

R – Certo. Um cocker spaniel, certo.

 

P/2 – Exatamente, isso acontece?

 

R – Não. É relativo. Às vezes chega uma pessoa quer ver, agora o que está na febre assim é o pit bull. É aqueles mais procurado. O rottweiller, pit bull. “Tem pit bull aí?” Um cachorro que nem... Antigamente tinha aquela do dobermann. Um cachorro também muito procurado também era o dobermann. Todo mundo tinha o sonho de ter um dobermann. Agora é o pit bull. Relativo. Isso aí não tem uma previsão certa.

 

P/2 - Mas assim, quem procura mais esse tipo de cachorro, são raças mais agressivas, né?

 

R – É uma raça mais agressiva. Elas são o pastor, isso tudo é raça agressiva. Mais essa garotada como se diz, de quinze a vinte anos que quer. Eu não sei se é para se exibir. Sair com o cachorro daqui na rua, entendeu? É mais esse pessoal que procura. Não é uma pessoa já de, como eu falei da velha-guarda para botar em um sítio. Não, é só para chegar e se exibir. Sair por aí com um cachorro. A gente nem vende esse cachorro, esse tipo de cachorro.

 

P/2 - Não vendem.

 

R – Só trabalhamos com porte pequeno. Cachorro com porte pequeno.

 

P/1 – E quais raças assim que o senhor trabalha?

 

R – É o cocker, poodle. Todos eles. É o pinscher, chihuahua. O basset. Tem os gatos siamês. Persa. Isso tudo.

 

P/2 - Quando o senhor começou a trabalhar na loja qual a raça assim que vendia mais?

 

R – Era o dobermann. Na época era o dobermann. Que era mais, o dobermann e o pastor alemão. Era os cachorro mais procurado. Hoje em dia não se procura mais um pastor alemão e um dobermann. É muito difícil. Procurar procura. Mas é muito difícil.

 

P/2 - Porque tem muita gente já que mora em apartamento também.

 

R – Também tem isso. Aí também tem, quer cachorro pequeno. Tem condomínio que não aceita. Também tem esses casos todos.

 

P/1 – Tem alguma raça que você goste assim em especial?

 

R – Não, o meu é mais pastor.

 

P/1 – Pastor.

 

R – É pastor. Sempre tive pastor. Agora que eu tenho um cocker lá por causa dos meus filhos. Agora que eu tenho. Mas o meu sempre foi pastor.

 

P/2 - E o senhor quando era criança já tinha pastor na época do Francisco?

 

R – Não, antigamente era vira-lata mesmo. (riso)

 

P/2 - Vira-lata. (riso)

 

R – Era meu pai que arrumava os cachorro e levava para casa.

 

P/1 – Depois que está na loja o senhor já pegou essas crises, essas mudanças de moeda, esses planos econômicos. Como é que era quando isso acontecia?

 

R – É, dá uma caída, né? Dá uma caída muito grande.

 

P/1 – Mas tem um assim que tenha, que chamou atenção, o senhor lembra de algum? Ou governo, alguma coisa?

 

R – Não, que para mim todos eles são a mesma coisa. (riso) Que chegou ali, entrou ali todo mundo vira. Ele está aqui fora ele fala que vai fazer, que vai fazer. Entrou ali, entrou na panelinha acabou. Eu, meu modo de pensar é esse. Chegou ali dentro não tem para ninguém mais. É que eu vou fazer, vou acontecer. Vamos ver se o real está dando. Se o dólar continuar abaixando, né?

 

P/1 – É.

 

R – Pode ser que o real chegue. Falou que o real era igual ao dólar, né? Mas vê a diferença. (riso)

 

P/2 - Para vocês interessa, né? Por causa dos produtos importados?

 

R – Não, interessa não. Mas aí também se torna caro. Por causa do nosso, que o real está desvalorizado. Então a gente compra no dólar, como eu estava te falando, agora abaixou. Mas o alpiste, o alpiste estava seis reais o quilo. Então a pessoa chega lá, pôxa. “Me dá um quilo de alpiste. Quanto é?” “Seis reais.” E o alpiste está no dólar. Então o cara, pôxa. “Seis reais? Eu vou comprar um quilo de carne. Dá para comprar um quilo de carne.” Então nosso dinheiro está desvalorizado. Então se a gente comprar no dólar para a gente se torna talvez até prejuízo também. Porque aí ele já não vai levar um quilo. Ele vai levar meio quilo. Ao invés de seis ele vai ter três. Tem isso o dólar. Então não era bom o dólar disparar. Em um certo ponto é bom. No outro é uma coisa que a gente fica dividido, né?

 

P/1 – E a loja tem, vocês trabalham com cartão de crédito, prestação?

 

R – Não.

 

P/1 – Então...

 

R – Tiramos o cartão de crédito.

 

P/1 – Por quê?

 

R – Por um motivo que eu não posso falar. (riso) Me desculpe.

 

P/2 – Não, tudo bem. Mas é possível a pessoa comprar um bichinho de maior valor assim em prestação? Dividir?

 

R – Quando a gente tinha o cartão dividia. Dividia em três, quatro vezes, dividia. Quando a gente tinha cartão.

 

P/2 - Hoje?

 

R – Daí nós tiramos o cartão porque houve uns problemas aí nós tivemos que tirar. Mas a gente vai voltar com o cartão. Porque ...

 

P/1 – Aceita cheque?

 

R – Aceita. É, às vezes a pessoa está passando até cheque pré-datado. Compra e, vamos dizer, divide em duas vezes, três vezes no cheque. E o cartão nós tiramos. Porque com esse cartão mesmo, com esse cheque mesmo a gente passa até esse cheque já para a frente. Então a gente aceita, mas o cartão não. A gente vai voltar com o cartão, mas estamos dando um tempo. Até resolver uns problemas que está acontecendo lá. Daí a gente paramos.

 

P/2 – Voltando aqui um pouco em relação aos produtos o senhor observou se de uns anos para cá surgiu muito objetos, brinquedos para animais? Para cachorro, para gato?

 

R – Apareceu muito. Tem aqueles...

 

P/2 - Quais assim que o senhor acha interessante? Conta um pouco para a gente.

 

R – Assim, ______ com o meu eu não uso. Tem pessoas que procura aquelas galinha de plástico, osso para eles roerem, bola.

 

P/2 - Roupa também?

 

R – Roupinha. Até calça higiênica também procura. Tem isso tudo. Eles procura isso tudo. Tem várias modalidades de, tem a escova também. Pente. Tem, até agora saiu até pasta de dente, escova para cachorro. Nunca via cachorro escovar dente. (riso) Tem a gente tem lá. Até creme dental para cachorro.

 

P/2 - Quando começou essa moda assim desses produtos? Pouco tempo?

 

R – Deve ter o que? Deve ter uns três anos para cá mais ou menos. Tem uns três ou dois anos para cá que começou isso, e lá tem, entendeu? Tem tudo. Roupa. Tem coleira. Tem de tudo. Tudo que um objeto, é tipo, vamos dizer assim, como uma criança que tem antigamente ia para um chiqueirinho que a criança brincava. Aí tu jogava um montão de brinquedo ali. Aí então é a mesma coisa. Vem a pessoa que tem um cachorro que fica só dentro de casa então compra aquilo e dá para ele brincar. Para ele roer. Porque às vezes ele rói, fala que está roendo o pé do sofá. Aí compra para ele se distrair. Tem vários tipos. Todo tipo de brinquedinho tem para o cachorro. Que tu imaginar tem. Qualquer um.

 

P/1 – E antigamente as pessoas improvisavam esses brinquedos?

 

R – É, antigamente improvisava mais.

 

P/1 – Esse negócio de roer como é que, era osso mesmo?

 

R – Antigamente se comprava muito aquele osso de, osso de boi. Aquele era bem ali o mais usado. Joelho de boi que falava naquela época. “Ah, vai no açougue ali e compra um joelho de boi.” Era o mais usado. Hoje em dia agora é tudo na, é tudo pronto. Aí já é difícil. Encontrar o açougue, é difícil.

 

P/1 – E brinquedo antigamente para cachorro, tinha?

 

R – Não, era muito difícil. Antigamente era muito difícil ter brinquedo, muito mesmo. Aí depois foram inovando. Fazendo esses ossos, imitando o joelho de boi. E aí que foram inventando e foram fazendo os brinquedinhos. Antigamente era muito difícil. Era mais na improvisação mesmo. Você improvisava um brinquedo ou uma bola de papel, brincava com o cachorro, entendeu? Aí era mais improvisação da pessoa. Agora não, agora tudo que tu imaginar tem.

 

P/1 – E a loja está fornecendo esses produtos? Tem que correr atrás?

 

R – É, tem que ter, né? Se não perde o freguês para outro. (riso) Mas tem. Todos eles, graças a Deus temos todos eles.

 

P/1 – Vamos falar um pouco da sua experiência, primeiro que o senhor já trabalhou, já foi empregado e hoje o senhor é patrão, né? Na loja. Então qual a sua experiência tanto na relação patrão, quanto empregado no comércio? Como o senhor pode...

 

R – É a mesma coisa. Eu trato as pessoas iguais. Não é só porque eu sou mais _____, eu vou humilhar uma pessoa. Porque quando eu trabalhei nessa mesmo, eu era tratado como um, entendeu? Os donos mesmo tratava a gente como um, só tinha uma das filhas dele que era mais assim. Mas ela também me tratava como empregado normal, nunca. E aqui também, só temos um que é o Robson, a gente trata ele normal.

 

P/1 – Só tem um empregado?

 

R – Só temos um agora.

 

P/1 – Tem algum treinamento assim? Como é que é?

 

R – Não, não. Tem só a experiência prática que aí um pouquinho tu vai pegando a prática. Que os outros dois que tinham quiseram sair. Eles estavam pensando uma coisa, mas deu outra. Por causa que deu aqueles problema e agora eles estão querendo voltar. Mas nós estamos só com o Robson que esse segurou com a gente.

 

P/1 – O Robson está há quanto tempo?

 

R – Ele trabalha já há muitos anos com gente. Trabalha muitos anos mesmo com a gente. Mais de dez anos, não é. Tem o quê? Uns quatro, seis anos. Ele já saiu, já voltou. Já saiu umas três vezes. Ele também aqui não sai mais dali.

 

P/2 - O senhor disse que tem um sócio. Quem é o seu sócio?

 

R – Tem agora no caso que é o, eu no caso sou o majoritário, né? Então tem o Duda e o Cido. Que são irmãos. Que o pai dele era sócio do Ernani. E faleceu também, deixou as parte para os filho. Então ficou tudo em família. Que no caso eles são primo meu. Então ficou, só tiramos esse que não é primo. Que aí no caso também tem a minha esposa que tem a parte dela, minha cunhada também. E só esse que era o ovelha negra da família. Agora não. Ficou só tudo entre família. De novo. Porque começou como família. Mas os esse que entrou que nós afastamos pelos problema que houve nós afastamos ele, agora só ficou a gente. Estamos aí, estamos com uns problema aí eles estão resolvendo.

 

P/2 - E a sua esposa e a irmã dela, as filhas do Ernani, elas frequentam, elas vão? Gostam?

 

R – Elas vão lá de vez em quando elas estão lá. Vão lá, fica lá um pouco lá. Passam lá. Aí sempre ali, não tem. Agora só ficou a família mesmo. Que era os dois, o primo da minha esposa que também era sócio. Que deixou para os filhos. E eu com uma parte do Ernani. Que ele deixou uma parte para mim e deixou uma parte para as filhas dele. Então ficou tudo em família. Tiramos o...

 

P/1 – Quem está lá no dia-a-dia é o senhor?

 

R – É os quatro. Nós três e mais um. Às vezes um chega mais tarde, o outro folga. “Ah, hoje eu não vou.” “Dá para segurar três? Dá, não dá.” De acordo com o movimento a gente segura.

 

P/2 - O senhor falou das suas filhas, são?

 

R – São duas.

 

P/2 - Duas. E o que elas fazem?

 

R – Uma agora atualmente está trabalhando. A outra está em casa lá.

 

P/1 – Qual é o nome delas?

 

R – Patrícia e Paula.

 

P/2 - Quantos anos?

 

P/1 – Qual a idade delas?

 

R – Tem 22 e 21.

 

P/1 – E o senhor gostaria que elas ajudassem o senhor na loja? Que desse continuidade?

 

R – Não, não. Eu acho que porque não. Até outro dia eu estava falando com  a minha esposa sobre isso. A gente ah, tal. Eu falei: “Não, _____________________ que já faleceu, eu acho que ali não é lugar para elas trabalhar.” Porque ali tem muita poeira, tem muita sujeira, entendeu? Tem rato. Tem bichos, né, tudo. E não é coisa para elas. Isso é mais para a gente mesmo. Que elas tem o estudo delas, elas faz. A minha outra trabalhava no Mc Donald’s. Mas ela quis sair. Eu falei: “Quer trabalhar você trabalha. Não quer trabalhar então não vai trabalhar, o problema é teu.” Aí a outra tal, está trabalhando. A outra não, saiu e está em casa. Parada em casa.

 

P/2 – Nenhuma quis ser veterinária, nada?

 

R – Nada, nada. Nadinha, nadinha.

 

P/1 – Mas o senhor gostaria que elas continuassem trabalhando no comércio? Independente de ser da sua loja ou não?

 

R – Não, que...

 

P/1 – Tem alguma preferência assim de profissão?

 

R – Não, não. Elas que sabem.

 

P/1 – Algum sonho para elas?

 

R – Eu deixo na mão delas. Eu entrego. “Vocês é que sabem” Se não der certo não é o pai que não deu certo. Eu já falei para elas assim, quando a minha filha foi trabalhar no Mc Donald’s eu falei para ela: “Ah,” “Não, pai” “você não vai”, ficou um ano e pouco lá ainda. Ficou um ano e pouco “Ah pai, eu vou sair.” Pediu demissão. Eu falei: “Ah, até agora tu não morreu de fome. Tu não vai morrer se continuar trabalhando ou não, não vai ter...” Aí foi pediu demissão. Depois de um ano e pouco pediu. Saiu, está lá em casa. A outra é que está, e a menor é que está trabalhando. Aí uma estava, agora a outra está. Mas ela está lá em um escritório lá em Bonsucesso. Recepcionista.

 

P/2 - Moram os quatro?

 

R – Oi?

 

P/2 - Vocês moram juntos?

 

R – Mora.

 

P/1 – E o senhor exerce alguma atividade, ou um outro trabalho ou uma atividade de lazer? Além da loja?

 

R – Ah, não tem. Não tem nem tempo, sabe? Não tem nem tempo. De sete da manhã às sete da noite, chego em casa não quero mais nada.

 

P/2 - E domingo? Que é que você gosta de fazer? (riso)

 

R – Ah, domingo durmo. Acordo tarde. Acordo meio-dia, meio-dia e meio. É a hora que eu acordo. Aí fico, ali como eu falei, vou lá fora tal. Fico ali em casa, fico tratando dos passarinho. Às vezes lavo logo o quintal. Fico tomando a minha cerveja, quando vai ver já vai começar o jogo aí, entendeu? Aí já vou descansar para segunda-feira pegar a semana. Pô, de sete horas da manhã às sete horas da noite? Não é fácil. Em pé, entendeu? Mas eu acostumo. Aí domingo acordo mais tarde. Aí eu fico em casa. Vou lá fora, fico tranquilo. Volto. Trato dos bichos. Vou lavar o quintal. Quando vai ver a hora já passou. Já tem que preparar para segunda-feira. Então não tem, não dá para se divertir. O comércio prende muito a gente, sabia? Prende muito a gente. Não tem uma atividade assim como você trabalha até sexta-feira ou até sábado. Que dá, você trabalha sentado. Pô, trabalhar em pé de sete da manhã a sete da noite. Eu acordo cinco e meia todo dia. Chego em casa, entendeu? Não dá para tu ter uma outra atividade. Não tem como. Muito cansativo.

 

P/2 - E o senhor gosta de fazer compras?

 

R – Eu vou com a minha esposa. É bom que eu controlo o dinheiro. Senão ela mete o pau no dinheiro tudo, aí não dá, né? (riso)

 

P/2 - Aonde o senhor gosta de fazer compras?

 

R – A gente vai sempre na Sendas.

 

P/1 – E de roupa, essas coisas? O senhor costuma comprar a suas roupas aonde?

R – Ah, eu não compro não. Eu deixo para ela comprar.

 

P/2 - (riso)

 

P/1 – Ela gosta?

 

R – Para tu ver, eu não tenho nem, quero, nem ligo para isso não. (risos) Sabe que agora eu nem ligo para isso? Mais é trabalhar. Antigamente não, agora eu não ligo mais para isso aí. Eu não ligo mesmo.

 

P/2 - Mas o senhor, assim, como consumidor o senhor é exigente? Gosta de pechinchar? De produto de qualidade? O senhor exige bastante?

 

R – Não, o que elas comprarem assim eu não esquento não. Não tenho esse negócio de marca, né? Que agora todo mundo: “Ah, que a marca, que a marca.” Ih, para que isso? Não leva a nada. Às vezes o cara vai ali no camelô compra uma coisa que não tem nada a ver e às vezes sai melhor que uma de marca. Quer etiqueta, quer essas coisas. Eu não ligo para isso não. Não ligo mesmo.

 

P/2 - E vocês têm quantos bichos então de estimação em casa?

 

R – Em casa eu tenho sabiá, tem um canário, tem um casal de periquito, tem a tartaruga e tem o cachorro.

 

P/2 - Qual é o nome do cachorro?

 

R – O cachorro é Scooby.

 

P/2 - Scooby. (riso)

 

R – Scooby. (riso) Ele é triste.

 

P/2 - A tartaruga tem nome?

 

R – Não, tem nome. A gente chama ele de Chiquito.

 

P/2 - Está perdido.

 

R – Está perdido, eu não sei onde ele se meteu. Já procurei em baixo da cama, tudinho. Eu não acho ela. Não, ela some. Tartaruga é assim, sabia? Ela passa um tempo que ela some. Esse tempo frio ela some. Tu não acha em lugar nenhum. Eu não sei o que acontece. Lá é cimentado, é tudo, eu não sei aonde ela se mete. A gente procura em tudo que é lugar, de repente ela aparece. Ela fica parada no sol. Onde está batendo sol ela fica parada ali um tempão no sol. Fica esquentando. Eu não sei como é que pode. Mas passa tempo mesmo sem ela comer, sem beber água sem nada. E ela vai lá beber água em uma coisa na cumbuca do cachorro. Do Scooby. Mas o Scooby deixa.

 

P/2 - Eles não brigam?

 

R – Não, não brigam não. Ele fica olhando, mas não faz nada não. Porque também se ele for morder ela bota a cabeça para dentro, ele morder não vai adiantar nada (riso) que ela vai encolher o pescoço. Aí ele nem, eu acho que ele até adivinha, que ele fica olhando, mas não faz nada não. Nele não, no Chiquito.

 

P/1 – Bom, se o senhor pudesse mudar alguma coisa da sua vida a sua trajetória o que o senhor mudaria?

 

R – Como assim? Não tem nada para mudar.

 

P/1 – Não, se o senhor tivesse...

 

R – Só se eu ganhasse na loteria. Aí eu mudava. Ficava parado em casa.

 

P/1 – Se arrependeu de alguma coisa que fez ou não?

 

R – Não, não, não me arrependo de nada que eu fiz. Só ganhar na loteria. Se eu tivesse ganhado na loteria, aí sim. Aí ia mudar. Ia mudar, ia ficar em casa aí.

 

P/1 – (riso)

 

P/2 - O senhor ia ampliar o negócio ou ia desistir? Aposentar?

 

R – Não, ia ampliar o negócio e ia melhorar o negócio, claro. Mas depois também ficava descansando. Ia ampliar, ia ter mais empregados, ia ter mais, entendeu? Aí era diferente. Mas do contrário não me arrependo de nada não.

 

P/1 – Mas o senhor continuaria trabalhando com animais?

 

R – Continuaria.

 

P/1 – Gosta muito?

 

R – É bom. A melhor coisa que tem. Também faz uma higiene mental. A mesma coisa que tu ter um aquário dentro de casa, tu chega do serviço estressado, para ali em frente aquele aquário tu perde a noção. Senta ali, fica olhando para aqueles peixinho ali, perde a noção. Faz a maior higiene mental. Às vezes eu faço isso em casa. Chego em casa cansado, fico ali olhando aqueles peixinhos. Aí, entendeu, distrai. Distrai completamente. Muito bom ter um aquário. Não é querendo que vocês vão comprar lá não. Só estou falando, se quiser ir lá tudo bem. (riso)

 

P/1 – Terapia. (riso)

 

R – Sei. (risos) Não, o pior é que é bom mesmo. Muito bom.

 

P/1 – Tem alguma história que você lembrou e não contou que queria contar?

 

R – Não, não. O que vocês me perguntaram está tudo certo.

 

P/2 - É que as vezes tem alguma coisa que o senhor tenha vontade  de falar uma coisa engraçada que aconteceu na loja?

 

R – Não, só aquela mesmo do porco. Aquela que foi a melhor. Mas é verdade. (riso) A do porco é verdadeira. Aquilo ali é legítimo, sem dúvida. Aquela ali foi, só aquela. Agora depois me lembra que eu tenho que botar aquele nome da Higrotec, da outra firma que eu esqueci no início de falar. Só isso.

 

P/1 – Então, o que o senhor achou de ter participado do Projeto Memória do Comércio da Cidade do Rio de Janeiro? Falando da sua experiência como comerciante?

 

R – É bom. É mais uma experiência que a gente aprende na vida. Mais uma coisa. Porque eu também nunca tinha entrado assim em um estúdio. Aí a gente quando entra fica meio assim, fica meio inibido, né? Mas depois a gente vai soltando aos poucos. As perguntas...

 

P/2 - Você gostou de lembrar?

 

R – É de, a gente tem umas lembranças, né, então... Ó, mas não pode botar isso não que eu conheci a minha esposa eu era noivo. Senão ela vai me pegar, hein? (risos)

 

P/1, P/2 - (risos)

 

R – Não pode deixar ela ver isso não? (riso) Pelo amor de Deus. Não faz isso não. Ela vai falar: “Pô, tu ainda foi lembrar desse negócio?” Olha o que vocês vão me arrumar, hein? (risos)

 

P/2 - Será que ela fica chateada?

R – Não, ela, é bom nem botar. (riso)

 

P/2 - Ah. Essa é uma história legal para a gente contar no livro. (riso)

 

P/1 – (riso)

 

R – É bom não botar não. Brincadeira, se quiser botar pode botar. Não esquenta não. Mas se não botar é melhor. Foi bom.

 

P/2 - Então tá. Obrigada.

 

P/1 – Muito obrigada senhor Sérgio. Foi um prazer tê-lo aqui.

 

R – Nada. Qualquer coisa.

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