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História

Parlez-vous français?

História de: Nanete Rocha Pereira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 30/10/2018

Sinopse

Antes de ingressar no BNDES, Nanete trabalhava em uma empresa francesa. Tinha estudado francês, mas não considerava que entendia o idioma. Com a prática de ouvir seus chefes e de assistir a filmes franceses, sua compreensão aumentou, até que um dia respondeu a uma conversa entre os chefes, sem querer, e foi repreendida. Nesta entrevista, ela nos conta sobre essa e outras histórias de sua carreira.       

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História completa

P/1 – Bom dia, dona Nanete.

 

R – Bom dia.

 

P/1 – Eu gostaria de começar o nosso depoimento pedindo para que a senhora nos dê o seu nome completo, o local e a data de nascimento, por favor.

 

R – Bom, o meu nome é Nanete Rocha Pereira. Eu sou nascida em 4/2/1931, na cidade de Colatina, Estado do Espírito Santo.

 

P/1 – O nome dos seus pais e a origem, por favor?

 

R – Oscar Ferreira da Rocha, natural de Raul Soares e Nair Rodrigues da Rocha, minha mãe, natural também de Raul Soares, estado de Minas Gerais. Ambos, né? E meu pai tem como origem um lado turco, isso foi interessante para nós.

 

P/1 – O que você sabe dessa origem familiar? Qual é a origem do seu... Era o avô paterno que era de origem...

 

R – É. Bom, me parece que, naquela época, eles eram tipo mascates, vendiam coisas de porta em porta. E [meu avô] conheceu a mãe do meu pai, que era de origem indígena. Daí nasceu papai, que tinha um tipo bem exótico.

 

P/1 – O nome dos avós, você sabe?

 

R – Não, não me recordo.

 

P/1 – Você conheceu eles?

 

R – Só materno. Os avós paternos ficaram muito distantes, nós nos afastamos. Viemos para o Rio de Janeiro por uma questão de saúde do meu pai, que foi recomendado sair daquele clima. Ele tinha tido uma febre, uma coisa assim, grave, então ele largou, perdeu tudo para vir para o Rio de Janeiro, trazendo três filhos. E o quarto, então, nasceu no Rio de Janeiro.

 

P/1 – E as suas lembranças dos avós maternos, quais são?

 

R – Ela é uma pessoa muito interessante. Ela morreu bem jovem. Ela tinha umas brincadeiras… Era vascaína doente e gostava de brincar conosco. Era uma pessoa muito simples, uma excelente cozinheira de forno e fogão. Tinha como formação... Uma formação muito simples, mas era muito séria, muito dura em relação às coisas. Mas em relação a nós, netos, é curioso. Ela já fumava naquela época. então ela colocava dentro da nossa boca aquela fumaça que ela soltava para nós brincarmos de fumar também com ela. Era uma pessoa interessante. Morreu jovem.

 

P/1 – E em relação à vinda para o Rio de Janeiro, vocês foram morar em que bairro da cidade?

 

R – Mamãe foi morar em Vila Isabel justamente com vovó. Depois é que mudamos para Maria da Graça, onde eu cursei a Escola Pernambuco, que era dirigida por um homem. Naquela época era bastante comum professores e diretores homens. E fiz cinco anos de escola primária. Agradeço às professoras, professores daquela época [pela] minha base matemática e a minha base de linguagem também. Estudávamos muito. Foram cinco anos.

 

P/1 – Como era o seu ambiente de casa, a sua infância no bairro de Maria das Graças?

 

R – A minha infância era interessante porque como meus pais vieram trabalhar em outras áreas e a minha mãe não ficou mais [trabalhando como] professora porque não foi aceita, meu pai teve que procurar emprego na Companhia Light. Então mamãe ajudava; era muito habilidosa, ela costurava e nós tínhamos tarefas - as moças principalmente, os homens sempre privilegiados.

Eu estudava, ia a pé para o colégio porque naquela época era tudo muito perto. Voltávamos, tínhamos que lavar as nossas roupas, fazer os nossos deveres de casa. Era tudo muito organizado. E à noite... À tarde, tínhamos que fazer trabalhos de agulha; crochê, bordado e ponto de cruz, bordado em ponto cheio nas roupinhas que ela trabalhava. Eram duas casas famosas aqui, no Rio de Janeiro da época. Aprendi muito. À noite, então, eu podia dar uma chegadinha no portão para brincar com as coleguinhas de pique, queimadinho, rodinha. Era uma vida muito rígida.

 

P/1 – Quais eram as casas para quais a sua mãe costurava?

 

R – Ela costurava para a Casa Boneca. Na época era um sucesso e ela costurava para a Casa Valentim, que também era um sucesso.  [A] classe alta comprava na Casa Boneca e os vestidos, nós ficávamos com água na boca porque fazíamos e não usávamos. (risos) Mas restou muita coisa bonita dessa época.

 

P/1 – Onde é que eram essas casas? No centro do Rio?

 

R – No centro, na [Rua do] Ouvidor, [Rua] Gonçalves [Dias].

 

P/1 – E vocês se vestiam como?

 

R – Ah, nós nos vestíamos com roupas feitas por ela, aliás, na época era assim, de um modo geral - as mães ou costureiras faziam as nossas roupas. Não existia esse estilo de prêt-a-porter. Existiam as grandes lojas de roupa de criança, mas eram lojas muito caras, dirigidas a um público que tinha um poder executivo bem alto.

 

P/1 – Mas como eram as roupas de vocês? Algodão, de...

 

R – Não, era roupa de boa qualidade porque quem lida com tecido de boa qualidade também começa a comprar o tecido, então eram roupas muito bonitas. Eu era muito magra, então usava muitas anáguas para começar a aparecer o corpo que eu não tinha. Eram roupas boas, usava-se muito um tecido de nome tafetá, faille, que eram tecidos da época. Eles ficavam armados, eram muito bonitinhos. Isso para festas, mas para o dia a dia comprava muito tecido de que? É piquet, né? A Nova América Tecidos era grande, então ia-se à Nova América ou [ao] varejo, comprava-se tecidos. Toda roupa de baixo e de cima, era produzida domesticamente. (risos) Engraçado isso.

 

P/1 – Engraçado. E para os meninos, a sua mãe costurava também?

 

R – A mesma coisa. A roupa de escola, por exemplo. Geralmente, a calça para os meninos era azul marinho. Usava-se muito casimira, que era o chique. Usava-se a tricoline para blusa, sapato preto e meia branca. E as meninas, era saia pregueada também de casimira e as blusas de... Bastante blusas de tricoline - um tecido que até hoje é bem nobre.

 

P/1 – E o seu pai, ele trabalhava com o que?

 

R – O meu pai foi trabalhar na Light, [uma] companhia de carris, e ele era um marceneiro. Quer dizer, o marceneiro não é o carpinteiro. Ele tem um trato com a madeira acima do carpinteiro. Seria ele o mestre e o carpinteiro, o auxiliar dele. Ele mudou totalmente de... Mas como o pai dele também era muito hábil em madeira, ele trouxe isso. Além de ser vendedor, ele aprendeu, ele via, então ele trabalhou nessa área. Foi convidado várias vezes para ser mestre, mas nunca quis. Não se sentia bem comandando, devido ao temperamento dele.

 

P/1 – Como era o sistema de transporte na cidade nessa época?

 

R – Bonde. (risos) Tinha um que era o taioba. (risos) Taioba era para carregar mudanças, coisas ou então sacas de mantimentos, então chamava o taioba. À frente ia o bonde de passageiros e o bonde e o taioba. Em último caso, quando lotava o bonde de passageiro, algumas pessoas não se importavam de ir ali, no taioba, misturado com tudo.

 

P/1 – E o bonde passava perto da sua casa? Você lembra?

 

R – Não, nós andávamos para pegar o bonde em duas posições: a pé para pegar o bonde para cidade, de um lado do bairro de Maria da Graça, que se chama o bairro de Jacaré. De outro lado foi o Cachambi. Então, o ônibus era a uns quinze minutos a pé e não havia calçamento. Na lama mesmo, pisando ali, laçando lama. (risos)

 

P/1 – E como era a vizinhança?

 

R – Ah, a vizinhança era muito boa. Muito solidária, interessante. Mudou muito com a verticalização, os edifícios, isso hoje é diferente. Naquela época todo mundo se dava, todo mundo se conhecia, um ajudava o outro. Se uma criança ficava doente o vizinho vinha tomar conta, ajudar a colaborar. Era uma vida assim, bem...

 

P/1 – Vocês faziam comemorações juntos? Festejos, festa junina?

 

R – Muito...

 

P/1 – Alguma coisa?

 

R – Olha, era diferente. Não havia clube e a rua toda… Tinha festa de casamento, aniversário, tudo era motivo de festa. Batizado, casamento, noivado, quinze anos. As festas juninas eram belíssimas. Mas tudo patrocinado por famílias, não tinha esse negócio de ratear, não. A família fazia a festa e convidava.

E tinha uma coisa interessante, às vezes diziam... Mamãe, dona Nair: “As meninas não podem faltar. As meninas são muito graciosas.” E lá íamos nós para festa, embelezar ou sei lá o que, participar da festa. Era muito bom! Eu gostei.

 

P/1 – E quem morava na sua casa? Seus pais, irmãos? A sua avó morava junto?

 

R – Não, vovó morava... Continuou morando em Vila Isabel com as outras filhas. Mamãe e papai, ficamos em Maria da Graça.

 

P/1 – E em termos de formação religiosa, vocês tiveram essa orientação...

 

R – Primeiro houve um misto de... Evangelização, porque éramos amigas das moças evangélicas, então frequentávamos os cultos e os cultos eram em residências. Não estavam ainda surgindo igrejas, então famílias de grande poder financeiro abriam um espaço. E ali ficávamos, mas nós éramos católicas. Nós frequentávamos os dois, mas ficamos com a igreja católica. Não ficamos evangélicas.

 

P/1 – Você fez primeira comunhão?

 

R – Eu fiz.

 

P/1 – Lembra?

 

R – Lembro. A minha mãe fez a roupa, fazia tudo. E é muito bonito, uma lembrança boa.

 

P/1 – Onde foi?              

 

R – Foi [na] Igreja Nossa Senhora da Aparecida, no Cachambi.

 

P/1 – E em relação a... Quer dizer, a senhora frequentou essa Escola Pernambuco, no primário, foi isso?

 

R – Primário.

 

P/1 – E o Ginásio foi cursado onde?

 

R – Primeiro a gente fazia um preparatório para admissão, então foi no Externato Treze de Maio, também no Cachambi. Foi um ano. Era uma coisa que se usava. Depois eu prestei concurso para [o Colégio] Pedro II e eu caí num quartil altíssimo, mas devido ao número de alunos concorrentes eu fiquei, sobrei.

Foi paixão da minha mãe. Ela queria que eu cursasse o Colégio Pedro II e eu não consegui, então eles remanejaram. Fui para o Ginásio Todos os Santos, em Todos os Santos, perto do Méier, onde eu moro. Bom ginásio.

 

P/1 – Quais são suas lembranças dessa época ginasial?

 

R – Tenho uma lembrança até boa. É, eu sou alta... Quer dizer, média-alta, não sou alta. Tinha umas paradas, a Parada da Juventude que o Getúlio Vargas praticamente... É uma festa em homenagem à própria política de governo dele, que seria o que chamamos, entre aspas, Parada da Raça. Nós, as escolas, desfilávamos; entrei para o centro da Presidente Vargas e só era dado ser porta-bandeira às alunas da quarta série ginasial. Quando eu surgi, eu ganhei um posto de posto de porta-bandeira. Isso gerou uma comoção. O quarto ano todo se recusou. “Ela não é ainda da quarta série. Ela não pode desfilar como porta-bandeira.” E aí foi engraçado porque eu fiquei naquele entusiasmo de querer ser porta-bandeira. Era muito dignificante, para mim seria uma homenagem. Os dois professores de Educação Física se debateram com a diretoria e impuseram que eu fosse uma porta-bandeira. Eu vibrei durante todos os anos porque eu sempre... Eu não conseguia carregar o mastro, de tão magra que era, mas carregava e botava assim, a meio pau. Isso daqui [aponta para o antebraço] não quebrava não sei por que!

A outra é que eu logo me dediquei muito e mamãe tinha muitos filhos, então [ela] foi conversar com o diretor. A mensalidade era pesada. O Pedro II não era um colégio pago e esse era um colégio pago, então ele disse que se eu me colocasse no primeiro grupo, ele me dava uma bolsa de estudos. Quer dizer, a bolsa de estudos para mim é uma coisa muito antiga. Ganhei uma participação em bolsa de estudos e passei quatro anos com bolsas de estudos no Ginásio Todos os Santos, fora coisas belíssimas que acontecem quando a gente é muito jovem, muito dedicado. Foi muito bom o Ginásio Todos os Santos.

 

P/1 – Ainda em relação a essas paradas, vocês vinham de trem do subúrbio até o centro, até a Central?

 

R – Até a Central. Ali já formávamos e toda escola tinha sua banda. Era muito bonito, era muito emocionante. Era uma coisa muito... Ficou! Nós tínhamos que ir num traje especial de parada - solidéu, era muito difícil, mas a gente fazia.

 

P/1 – E o presidente Getúlio Vargas ficava num palanque...

 

R – Num palanque com toda... Com os seus ministros.

 

P/1 – Perto da Central, ali perto do...

 

R – Nós passávamos e depois dispersava. Era uma confraternização. As escolas começavam a brigar: “Quem foi melhor, quem foi pior.” (risos) Era uma briga geral da garotada, né? “Você desfilou mal.” Mas eu acho que a gente, todos faziam o melhor para não ter furo. Era perfeita aquela marcha.

Na hora de hastear a bandeira todo mundo sabia. Porque hasteavam a bandeira nacional, oito ou nove [bandeiras], e a da escola não, a da escola passava assim [faz o gesto de carregar a bandeira]. Eu só ganhei o da escola. (risos) Brasileira não sobrou para mim, mas foi muito [bom] ser o da escola.

 

P/1 – E você continuou nessa escola até...

 

R – Terminar o ginásio. Terminado o ginásio, apareceu a necessidade de trabalhar. Eles se reuniram, queriam que eu... Porque teria que fazer, ou a escola técnica profissionalizante ou não, o Científico. Eu teria que ter feito o Científico porque dava uma base para o futuro... Futura profissão, mas a situação ficou tão desequilibrada em casa, que os mais jovens... Os mais velhos patrocinavam alguma coisa para mim, mas chegou um momento que eles também tinham que patrocinar a vida deles.  aí eu fui estudar na Casa Prates, nessa máquina de... Deste tamanho, um carroção, né? Para mim era tudo muito pesado porque eu pesava quarenta e poucos quilos. E então já era o preparatório para entrar no setor de Contabilidade. Meu irmão era chefe de departamento pessoal na Line Material.

 

P/1 – Conta um pouquinho para gente como é que era esse cursinho nessa máquina Remington e na Casa Prates, que foi...

 

R – Famosa.

 

P/1 – Foi famosa no Rio.

 

R – É. O curso era... Primeiramente você aprendia a trabalhar na máquina menor, aí você já ficava datilógrafa. A outra era uma máquina cheia de manejos, também possante, deste tamanho. Aí então era difícil, era tudo manual; nada automático virar aquelas… Para colocar um papel enorme, cheio de tabelinhas dentro, com valores para você deduzir. Enfim, era já um treino - olha o que aconteceu depois, quando eu vim para o banco. Foi em 1951 que me diplomei. Um ano nessa Casa Prates,  especialmente em datilografia - máquina Remington, para contabilidade.

 

P/1 – Como era esse curso específico e... Quer dizer, por que seu interesse nessa área?

 

R – Eu não sei, eu ainda não trabalhava. Escolhi aleatoriamente, mas vai ficar explicado no final porque já é uma coisa que está intrínseca. Você olha, gosta: “Número, ah, que bom. Vou ficar por aqui.” Fiquei. Esse curso terminou em 1951;   tem diploma, tudo como se fosse uma diplomação oficial hoje de bacharel, isso ou aquilo. Era bonito também esse curso. [Tinha] gente que não conseguia fazer, gente que parava no meio do caminho, que achava difícil. Mas foi fácil.

 

P/1 – E o seu primeiro emprego qual foi, Nanete?

 

R – Meu irmão era chefe de departamento pessoal e eu precisava trabalhar. A minha opção não era trabalhar, era estudar, fazer o Científico, mas a vida começou a ficar muito cara e eles começaram a trabalhar fora. Eles tinham os interesses deles. A moça mais velha e o rapaz mais velho. Aí o meu irmão disse: “Deixa que ela tem o curso e vai fazer o teste.” Eu fiz o teste e fiquei no departamento de contabilidade, já levantando balancete. Eu já... Eu não sabia, não tinha formação, mas o contador chefe - eu me lembro o nome dele muito bem -, ele me ensinou. Os balancetes tinham que ser muito bem batidos, dar numa folhinha pequenininha, depois ia para ser passada no copiativo, que era tudo feito com água com papel carbono especial, uma prensa enorme. Lá fui eu trabalhar ali. Mas eu trabalhei em quase todos os setores da Line Material. Fui faturista.

 

P/1 – A empresa era de que ramo?

 

R – Material elétrico para transformadores. Hoje ela é Hitachi Line, deve ter capitais estrangeiros, japoneses. Ela era voltada para grandes e pequenos fornecimentos de transformadores. Material elétrico, algumas peças.

Trabalhei, depois da contabilidade, no setor de faturamento e de emissão de duplicatas, de correspondência. Eu fiquei muito eclética nessa empresa. Ela me deu uma visão muito grande. O curioso é que, na época da emissão das duplicatas, [ao] invés de você comprar os selos tinha uma máquina carimbadora, [em] que você colocava o valor daquela duplicata com esse selo. Não podia errar, mas o defeito era da máquina e quando a gente já está com medo… Porque errar pagava uma multa na Receita. “Pá”, quando eu carimbava, olhava que não saiu, eu chorava, aí vinha o desenhista... Isso é um pouco complicado para falar. (risos) E acertava a falha. Se o oito estava só com a bolinha de cima ele fazia a de baixo; era um perfeccionista nessa área, mas me assustou um pouco. Eu não queria, mas tinha que trabalhar ali. E trabalhei ali [por] muito tempo. Depois me aborreci por questão de salário. Eu achava que valia muito - e disseram que eu valia muito. Então, não quis mais. Eu pedi as contas.

 

P/1 – Mas quais eram os seus anseios, ou profissionais...

 

R – Era ganhar mais, ganhar muito e conhecer outros... Outras áreas. Eu queria sair daquilo. Aquilo ali para mim já não tinha nem interesse. Estava ganhando pouco, trabalhava muito. Eu queria achar um lugar em que eu trabalhasse bem, mas ganhasse muito. É coisa de jovem mesmo, que... Agora, é a mesma facilidade, né? Emprego à vontade. Era só você ter, se encaixar naquela qualidade.

 

P/1 – Mas você tinha alguma expectativa em relação a uma carreira profissional? Nessa época você já era uma jovem de vinte anos?

 

R – É, foi [com] dezoito, dezenove.

 

P/1 – Quer dizer, você tinha algum anseio em termos profissionais? Você já estava almejando que gostaria...

 

R – Não, antes eu queria, mas não pôde ser, porque quando eu estava pretendendo o Científico era para buscar uma carreira mais nobre. Embora eu não visasse a contabilidade como uma carreira nobre. É também, mas eu tinha mais ambição. Eu queria melhorar mesmo, mas não tinha condição de melhorar se eu trabalhava o dia inteiro. Olha quando eu fui conseguir melhorar. Mais tarde, né?

 

P/1 – E quando você sai da Line, você vai trabalhar aonde?

 

R – Saí da Line porque quis. Aí o contador, que também tinha saído porque quis, me levou para uma outra empresa porque já me conhecia. O contador da Line saiu e me encaixou num grupo, aí já fiquei no outro tipo de cadastramento de clientes. Se o faturista faltava, eu assumia. Eu assumia as coisas que as pessoas entravam de férias [faziam], fazia aquele trabalho e fui começando a ver mais qualidade de trabalho, mais diversificação. Mas também não deu certo.

 

P/1 – Que empresa foi essa?

 

R – Foi a Laminação Federal de Metais. Foi a empresa número dois. Não deu certo, mas um dos dirigentes era um italiano e gostou muito do meu trabalho. E ele estava montando a empresa Casaluce Importações e Exportações, que estaria importando e exportando. Eu me lembro que eles ganharam uma caixa com uns óculos mais lindos da Itália para fazer demonstração nas grandes aqui. Fiquei querendo ganhar um e não ganhei nenhum, só fiquei namorando aqueles óculos italianos belíssimos! Fiquei muito tempo com os italianos e aprendi italiano diretamente.

 

P/1 – Onde era essa empresa?

 

R – Era na Avenida Rio Branco, 642, décimo-segundo andar. Eu fiquei três anos com eles. Aí um dos diretores foi assassinado; eles tinham pedreiras, né? O outro morreu de câncer. O comendador, que era... Eu era a menina dos olhos do comendador porque ele era idoso, ele tinha mais ou menos uns oitenta anos.

 

P/1 – Como era o nome da família, você lembra?

 

R – O Casaluce é sobrenome, Giacinto Casaluce, e [o outro] era Comendador Giovanni Massoni. A mulher dele está aí, existe.

Depois dessa infelicidade, uma outra pessoa que tinha me visto lá me levou para trabalhar com uns franceses. (risos) Os franceses eram curiosos. E foi quando eu já... Estou em 1956, me preparando para casar e fui trabalhar com os franceses. Era Metalúrgica Metamex, então fazia naquele trabalho de anodização. Mas eu, ali era uma espécie de faz-tudo também. Eu me senti escravizada.

O setor privado é belíssimo, você trabalha diretamente com o dono. Os sócios eram o barão Guy Pirmé, que era belga, e o outro grupo era o senhor Armand Frucot, e madame Margueritte Frucot. Eles eram encantados pelo meu nome, Nanete. E tinha uma curiosidade: quando eu estudava no ginásio, eu levei a sério o  francês, foi muito interessante. Entrevistaram, perguntaram se eu sabia línguas. Eu disse que não sabia, só sabia o português. Não sabia porque que estavam perguntando tanto e fui trabalhar com monsieur Lamote, que era o chefe do escritório, a madame e eu, e a diretoria na outra sala.

Bom, teve um dia [que] foi muito curioso. Eu fazia de um tudo: folha de pagamento, borderô, aquela coisa de escritório, né? E atendia os clientes, eles estavam muito encantados com o meu jeito. Mas um dia aconteceu que eles falaram em francês sobre um filme da época...

Quando eu estava com os visitantes italianos, eu só via filme italiano, só comia em restaurante italiano. Quando eu fui para os franceses só via filme francês, Nouvelle Vague, então fiquei muito… Já trazia o francês meio aperfeiçoado porque no ginásio estudava-se latim, francês e inglês. E o meu francês era bom porque eu gostava. E pelo dia a dia deles falando em francês, eu fiquei com o ouvido bem...

Um dia, a madame falou para o seu Lamote: “Monsieur Lamote, vous avez vu le film “La tour de Nesle”?” Aí, eu lá do meu canto: “Eu vi também!” (risos)

Olha, [me chamaram de] mentirosa para baixo. Nunca mais teve reunião na minha presença. Eu não falava, mas eu entendia tudo. Fui chamada lá dentro. O belga é ótimo, de bom humor, gostou muito, achou uma piada, mas os franceses, eles são durões com a gente. Então não podia fazer isso, era uma mentira. Eles falavam coisas que não eram para eu saber. Eu disse: “Mas eu não considero que eu saiba francês.” Foi o título do filme e me pegaram. Mas foi o ano do BNDES.

 

P/1 – Primeiro algumas perguntas: em relação a origem do nome Nanete, você sabe por que que tem esse nome?

 

R – Veio a ser uma escolha conjunta, que eu sou… Papai, titia trouxeram um nome à tona e tinha já uma tradição [de] todos [os nomes começarem por] “N”. Minha mãe Nair, o filho mais velho Neuto, a outra Né. Disse: “Bom, esta é a Nanete, que é conhecido o nome.” Então sou eu. Foi isso que eu ouvi.  

 

P/1 – Além da vida profissional, como era a sua vida de lazer como jovem? Bailes, grupo de amigos? Conta um pouquinho, por favor, Nanete?

 

R – Muitos bailes. (risos) Porque tudo era motivo de festa. Às vezes, numa rua tinha duas, três festas. E nós escolhíamos uma festa. Aí que surge o momento: “Dona Nair! Suas meninas têm que ir para a nossa festa.” E a mamãe: “Elas podem ir para a festa que elas quiserem. Elas só não podem chegar depois das 22:00.” E nós ficávamos pulando de festa em festa, eu e minha irmã, porque eles eram muito rígidos. A educação mineira foi de um padrão muito alto, puxando para cima: “Você tem que estudar, entendeu? Você tem que ser decente! Você não deve rir muito alto!” Coisas que quase não existem mais hoje, a não ser... Acho que existe alguma coisa, mas não tanto. E as brincadeiras eram as mais simples possíveis. Brincadeira de roda, pique-amarelinha, aquele da... Caracol. Não se brincava de namorar, não. Não podia. Nem olhar! (risos)

 

P/1 – Mas quando você começou a namorar?

 

R – Ah, sim. Aí já foi no ginásio, já estava “de rapazinho”. Surpreendente para mim, porque eu me achava muito feia, horrorosa! Magra, um palito, me achava feia, então nunca imaginei que alguém fosse olhar para mim. A primeira vez que recebi um bilhete de amor foi uma decepção para uma colega porque o menino mais interessante mandou o bilhete para mim. (risos) Ela era tão linda, branca. Eu não. Não entendi. Quando eu recebi o bilhete - lembro do garoto, Cardoso -, eu digo: “Isso é para mim. Mas eu? Que é isso?” Dobrei e guardei e a menina chorava. (risos) Porque eu também, eu contava com ela, aí veio para mim. Foi o primeiro... Foi no ginásio que veio esse primeiro... Aí comecei a me achar interessante: magra, horrorosa, mas se eu recebi um bilhete é porque eu agrado alguém. (risos) Dizem que não, mas acho que eu era feia.

 

P/1 – E como você conheceu o seu marido?

 

R – Em Maria da Graça tinha um time de futebol, Maria da Graça Futebol Clube e já tinha nessa época o clube Maria da Graça. Eu dançava muito e muito bem. Meu irmão jogava no time e esse rapaz, que é o meu marido, primeiro namorado e marido, ele jogava também. Ambos eram excelentes jogadores e ele começou a me ver lá torcendo. Ele, então, fazia o seguinte: ele também pegava o bonde. Ele estudava no Colégio Piedade e eu no Todos os Santos. Ele, então, fazia o caminho que aquela hora eu fazia para me encontrar, mas eu não estava sabendo porque outros faziam também. Aí eu ia conversando... Mas tudo sem... Mas ele já estava com maldade de me namorar, né? (risos) Foi nesse encontro de futebol, olhando. Quando começou o namoro, [a] primeira coisa que ele fez [foi dizer]: “Você não pode mais ao futebol.” E eu não fui mais. A minha irmã ia. Que coisa, né? Era assim e eu não fui mais ao futebol. Aí me chamaram para ser madrinha do futebol. “Não pode.” Eu não podia nada. Estava namorando aquela figura, aquele rapazinho.

 

P/1 – Como é o nome dele?

 

R – Valdir. Muito mandão, muito autoritário, ele está aí. E eu... Ele começou a me cercear.

Eu namorei [por] nove anos. Quando estava [namorando por] um certo período, mamãe começou a criar problema. Ela dizia assim, coisa de mineira: “Ou casa ou coisa.” Coisa é mandar o rapaz embora. Eu digo: “Acho que ele vai embora.” Porque quando eu cheguei aqui na cidade para trabalhar, abriu-se um panorama novo para mim, entendeu? Eu comecei a conhecer muita gente, muita moça, muito rapaz. Eu comecei a ser observada e aí mudei um pouco. Saia justa não podia. Tinha história de pintar o olho de gatinho. Eu chegava, ele limpava. Enfim, eu disse: “Eu não vou casar. Eu vou ficar namorando a minha vida toda.” Aí a minha mãe: “Não, acaba ou vai casar com esse rapaz.”

Foi o ano de 1956.  Apareceram rapazes… Eu me lembro que pareceu um rapaz da aeronáutica que era irmão de uma colega de um escritório do lado que se interessou por mim. Eu já fiquei toda... Mudei a cabeça: “O que é isso! Eu não sou tão feia assim, né? Espera aí! Tem mais gente olhando para mim.” (risos) Aí comecei a achar que aquilo era uma coisa muito minha. Talvez muito magra, muito revoltada, porque a minha irmã era belíssima. Cheinha, dava gargalhadas, expansiva e eu tímida. Ainda...

 

P/1 – Como era essa coisa que você está falando, a moda na época? Quer dizer, o que se considerava? Você diz: “A minha irmã era mais cheinha, bonita.” Nessa época, a beleza da mulher estava nisso, de ser um pouco mais cheinha?

 

R – Era cheinha. Ela usava tomara-que-caia, sabe? Ela tinha um corpo belíssimo. E ela é expansiva, ela jogava para fora muito charme e eu era para dentro porque sou feia, sou magra. Ela usava roupas ousadas, eu até hoje não uso.

 

P/1 – Como você se vestia, Nanete?

 

R – Ah, muito seriamente. Preto, ora cinza, lilás e quatro cores. Eu era fechada para o mundo. Eu não via. Eu tinha uma coisa que não sabia, que só descobri no banco: era míope de um grau terrível. Naquele tempo ia dentista na escola primária, mas não iam oculistas, então vivi a vida toda vendo o mundo sombreado, tanto é que no concurso do banco fui reprovada no teste. Eu não lia nada. Ele disse: “Volta aqui com óculos. A senhora foi aprovada em tudo, menos nesse.” Aí voltei de óculos. Quando eu voltei, aí eu vi o mundo. Achei o mundo lindíssimo. Eu não via nada porque na escola eu sentava na frente, logo... Aí passei a usar óculos e corrigi, né? Usei tanto, gostava de usar óculos e vi o mundo na cor que o mundo tinha.

Também comecei a mudar as cores da roupa. Entrou um amarelo porque naquele tempo as roupas eram bem longas. Calça comprida era proibida. Quando entrou... Quando entrou, foi o Jango, né? Jango não. O outro, Quadros. Ele colocou um uniforme safári e aí nós podíamos usar calça comprida. Foi uma guerra no banco, principalmente se a calça fosse branca. Aquelas teimosas começaram a usar calça branca, mas foi uma guerra para entrar a calça. Era saia.

 

P/1 – Vamos voltar um período… Do seu casamento: casou em que ano e como foi o seu casamento, Nanete?

 

R – O meu casamento foi um casamento engraçado, diferente. Foi nas duas casas. Uma parte foi na casa da minha mãe e a outra... Porque era perto. Ele também era de Maria da Graça e a gente era tão simples que não teve esse negócio de carro, não. Só para levar a noiva à igreja, né? Durante o dia fomos casar no civil e de carro voltamos. Depois me arrumei e fui a pé para a festa da casa dele, para me arrumar de noiva. Saí... Aí, então, foi na festa da casa do rapaz.

[O casamento] foi na Sagrado Coração de Maria no Méier. Mas era aquele casamento que era um atrás do outro. Não tinha aquela pompa de você ter só aquele... Aquela hora para você, não. Casava uma, saía, entrava outra. Meu casamento foi assim. Eu gostaria que tivesse sido como é hoje: uma noiva entrando pela nave.

Espera-se muito, né? Não, saía uma noiva, entrava outra. Era uma coisa muito assim... Mas tudo no padrão de qualquer noiva. Vestido riquíssimo. Papai se admirou. Papai deu tudo e mamãe também. A festa foi uma coisa absurda. Mais de 300 pessoas e não teve negócio de convite, não. O convite [era] para os padrinhos. Quem era amigo aparecia.

 

P/1 – O que tinha de comida?

 

R – Ah, tudo! Muito farto.

A minha sogra tinha um hábito de esconder umas coisas. (risos) Então, ela escondeu umas coisas para o dia seguinte; foi o estragou a festa. Numa determinada hora, não tinha mais nada, então a minha irmã e um namorado e meu irmão, os rapazes pegaram o carro, foram ao Méier, num chamado Bar Imparcial, famoso, e compraram coisas prontas. Chegaram em casa, começaram a fazer sanduíches, porque a minha sogra, naquela coisa dela, tinha escondido coisas. Escondia até moela, então, faltou.

Que vexame, né? Meu pai e minha mãe mineiros, pô!  O porco, um senhor matou lá no quintal da minha casa. Um porco inteiro, grandão. Aquela festa meio antiga, mas houve essa falha: faltou.

 

P/1 – E qual é a origem do seu marido? Também era do Rio?

 

R – Não, o pai dele… Ele era riquinho. (risos) Filho de pais... Ele tem uma coisa interessante: apesar de rico, o pai dele era da GE, era chefe de um departamento. A General Eletric é do lado da casa dele e ele não quis estudar, um garoto. “Eu vou trabalhar na fábrica!” E foi trabalhar na fábrica. Então deram os trabalhos pesados e ele começou entusiasmado. Depois ele pensou: “Poxa, eu estou aqui, todo sujo, macacão...” Isso ele me contando: “Posso estudar, posso ser um doutor. Não, não.” Aí ele não quis mais saber do dinheiro. Voltou para estudar porque primeiro trabalhou na fábrica; ele queria também dinheiro.

A gente sempre... Não sei. O jovem quer sempre dinheiro, né? Tem, precisa. Ele estudava no Todos os Santos, tem três títulos. Foi um dos maiores desenhistas do departamento de estradas de rodagem, desenhava as... Foi chefe do departamento de estrada de rodagem. Teve vinte chefias, se especializou. Fez Administração de Empresas e depois fez Direito. O macacão para ele... Ele diz: “Foi um bom exemplo.” Ele precisava aprender que aquilo era muito pesado [para] uma pessoa que tinha posses, possibilidades. Ele era um... Tanto que o meu irmão dizia: “Casa com aquele rapaz. Ele tem herança.” (risos) O meu irmão sempre dizia assim: “Arrumou um bom partido.” (risos)

 

P/1 – Vocês foram viver onde?

 

R – Ah, eu fui viver no Del Castilho, num conjunto residencial. Foi uma decepção para mim porque aí eu estava numa fase já no banco. Casei, fiz o concurso, fui trabalhar com os franceses. Eu fiquei com os franceses um período curto. Em outubro o banco me nomeou, mas eu já estava recém-casada e lá era [um] bairro muito simples, popular demais. Eu estava destoando porque eu era muito elegante em termos de trajes; sapato salto sete, cabelo por aqui [aponta as costas], entende? Então, quando eu passava, eu ouvia coisas muito desagradáveis. “Miss Brasil”, não sei-que-lá. E aí eu fui começando a ficar aborrecida. “Poxa, isso não é para mim.” Mas ele ainda ganhava menos do que eu porque quando eu vim para o BNDES eu vim ganhar metade do que eu ganhava com os franceses.

 

P/1 – Agora conte um pouquinho como se deu o seu ingresso no BNDES, por favor, Nanete?

 

R – Ah, olha só: quando eu estava com os italianos, o italiano tinha um vínculo com uma pessoa importantíssima do BNDES, não me recordo bem. Ele recebia o boletim de serviços e esse boletim dizia [sobre] concursos para as carreiras tais, tais. Aí eu perguntava: “Comendador, o que é esse banco?” “Muito importante, muito importante.” Mas não me dizia o que que era...

 

P/1 – Que ótimo.

 

R – Mas eu fiquei... Eu tinha feito um concurso para o IAPI [Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Industriários] na época - o INPS era o IAPI -, eu tinha passado em quarto lugar. Eles não deixaram eu ir, dobraram o meu salário. E você sabe: salário compra a gente. Mas a minha mãe quase morreu. Ela disse: “Nanete, emprego público! Você vai para um gabinete.” Eu dizia: “Eu tenho horror de gabinete.” Nem sabia como é que se trabalhava em gabinete.

 

P/1 – O que representava o emprego público naquela época?

 

R – Estabilidade, segurança. E no BNDES, pelo que eu ouvi dizer, a mentalidade estava pela troca, substituição de pessoas que tenham… Vamos dizer, não é currículo, mas uma formação.

Eu tinha ginasial, tinha um curso e muita experiência. Eu não sabia o que ia fazer no banco, mas eu vi lá: auxiliar de administração. Horário... Opa!

 

P/1 – Qual era o horário?

 

R – Horário era uma beleza. Era de 11, 8, 10... Eu, recém-casada, unia interesses. Ficar em casa, arrumar as coisas, deixar tudo arrumado, ir para o banco e ainda ganhar um salário que não era melhor do que os franceses, mas por trás eu tinha garantia da estabilidade.

Quando eu dei a notícia aos franceses... Ah, olha, veja só: tomei posse no dia dez de outubro. Sabe que dia que eles me liberaram, os franceses? Dia nove de outubro. Quer dizer, eles me seguraram até o último momento e fazendo as propostas mais decentes. (risos) Eu balancei, inclusive dentro do BNDES. Eu quase fui com os franceses. Gostava da língua, gostava do trabalho e o salário era bom. Conversei com mamãe. Aí chegou o telegrama do doutor Alberto dos Santos Abade, que eu não sei, deve estar aí na relação. Para eu comparecer em tantos dias, se não eu perderia aquela...

 

P/1 – Mas como você se inscreveu, onde era? Conte um pouquinho como era esse processo para se inscrever no banco naquela época?

 

R – Eu acho que a gente se inscrevia no... A gente se inscreveu... Eu trouxe o cartãozinho, está lá escrito, mas deve ter sido no DASP, que era o Departamento da Administração do Serviço Público. Era o DASP, tenho certeza. Eu fui lá, muitos sem condição. Eu achei que eu não tinha condição, por que? Eu estava fazendo enxoval, trabalhava até tarde com os franceses. Eu não estudei nada. Entrei com a cara e a coragem e fui. Se passar, passou! Mas eu estava respaldada pelo… Passei no quarto lugar [no concurso do IAPI]. Digo: “Ah, se eu passei no quarto naquele, passei num outro ali, da Álcade, esse eu tiro de letra.” Não foi, não. Eu passei, mas passei insegura. Passei assim, tumultuada: enxoval, franceses... Eu fiz a prova...

 

P/1 – Enxoval de que?

 

R – Enxoval para casamento.

 

P/1 – Para casamento?

 

R – É. Fazendo enxoval. E era muita coisa. Eu fui lá, acho que [me] inscrevi. Seja o que Deus quiser e fiquei [esperando]. Quando eu passei, pronto. Não falei nada para os franceses.

 

P/1 – Você lembra da sua prova? Alguma questão que tenha sido, talvez, um pouco mais difícil para você, alguma coisa?

 

R – Na prova de conhecimentos gerais entrou matemática. O que a gente chamava antigamente de linguagem, que é o português. Aí eu já estava um pouco... O meu peso maior foi na tal máquina. E já era máquina elétrica. (risos) Nos primeiros cinco minutos eu não bati nada. O barulho assim, tão ensurdecedor de todos aqueles bons batendo, que eu não conseguia. Eu estava dura. Não bati! Fiquei escutando, olhando todo mundo. Quando eu comecei, tive um “notão” altíssimo. E o peso era alto. Jogou para cima.

 

P/1 – Quer dizer, era prova escrita de conhecimentos gerais e prova prática?

 

R – E depois prova de nível mental e prova... Saúde, última de saúde.

Aí eu desembaracei na máquina. Bati o que eu sabia e tinha que bater texto, tabelas. Tabela em prova não é brincadeira. Você tem que milimetrar muito bem, sair tudo com perfeição, jogar os números dentro. Realmente, tem que estar muito preparado para aquilo. O mínimo que me exigiram é o mínimo que eu podia dar. Então fui classificada e fiquei firme em casa.

Falei para mamãe. Ela disse: “Esse você vai!” Minha mãe era firmíssima. Cabeça avançada, professora, para frente. “Esse você vai! Não tem marido, não tem namorado, não tem ninguém.” Antes do outro [concurso], [do] IAPI, era o namorado. Meu marido tinha uma visão da época, de homem, que não vou nem falar o que era serviço público. Quem... “Você vai ficar misturada”, não sei o que. Os italianos te dando dinheiro e você fica muito mexida, né? Jovem, mas quando chegou a época de casamento, do horário, dos franceses...

Quando eu falei, olha! Foi uma facada, eles detestaram. “Você já sabia disso há muito tempo!” Os franceses, eles não nos aceitam, sabe? Nós temos uma imagem, passamos uma imagem ou eles formam... Acho que eles formam. Quando eles encontram uma pessoa assim, lutadora, batalhadora, correta, eles querem ficar com aquela pessoa, mas não dava mais.

Eu detestava… Eu senti que eu era máquina. Tanto era máquina, que quando eu fiz [o concurso] para o BNDES, o que eles ainda me fizeram? Uma proposta: “Não vai, eu dobro! Eu dobro outra vez.” Aí eu já estava com cabeça feita. Horário, estabilidade e mamãe atrás: “Você não vai perder esse emprego porque casamento não é eterno, marido não é eterno, você não sabe o que vai acontecer. É este banco que é a sua vida e você vai para lá.” Eu ouvia muito mamãe porque era educação, né? E gostei dela ser assim. Porque ela perdeu no IAPI, quem ganhou foi o noivo. Eu não fui para o IAPI, mas para o BNDES eu vou.

Aí a passagem dos franceses é incrível. Em primeiro lugar, eles [me] fizeram selecionar uma moça para ficar no meu lugar. Tive que ficar lá até o dia nove para tomar posse no dia dez; trabalhei até o dia nove e vim. Eles lamentavam e ficavam...

Quando eu chego no banco é que dá-se o choque. Eu entrei em choque porque eu queria aquele ritmo, eu queria aquela importância que eu tinha; não tinha [lá]. E aí eu balancei. Aí começou a competição, não foi brincadeira.

Estou falando muita bobagem?

 

P/1 – Não! Está ótimo! Bom, Nanete, você estava contando…  Você entra no dia dez de outubro de 1957 no BNDES. Você vai trabalhar em que setor do banco?

 

R – Eu fui trabalhar no setor de escrituração da divisão de pagamento do departamento de controle das aplicações. E fiquei logo me sentindo pouco valorizada, mas eu estava fazendo aquilo que me propus no concurso. Numa dessas coisas da vida, eu comentei que gostava de contabilidade e já tinha um currículo de setor privado; o chefe de setor era professor de Universidade de Contabilidade e chefe de setor de escrituração.

 

P/1 – Quem era?

 

R – Professor Amaro Ferreira de Oliveira, hoje falecido. Foi o chefe imediato. E houve uma coincidência de um contador, Hélio Muylaert... [Ele] se afastou do banco e fazia o controle das liberações dos financiamentos do banco nas tais máquinas -  [aquelas] que eu tinha aquele curso da Casa Prates. Eu não chegava lá, mas quando ele saiu, o chefe do setor de escrituração disse: “A senhora não sabe, não é de contabilidade?” “Eu sou, mas eu era auxiliar.” “Vamos passar a senhora para fazer os controles.”

Era um trabalho interessantíssimo porque eu dei um pulo - um pulo funcionalmente, porque a minha categoria continua a mesma. Cogitou-se, na época, de eu ganhar uma gratificação, mas foi uma coisa complicada. O que é o orçamento…

Eu já tinha visto alguma coisa nesse 1957, 195... Foi na década de 60 que eu substitui o chefe do setor de escrituração, mas eu antes já tabulava os dados da liberação das parcelas por trecho. E os engenheiros de cada área, energia elétrica, siderurgia, metalurgia, todos iam lá me cumprimentar para pedir a verba daquele trecho, então eu informava e eles mandavam autorização. A divisão de pagamentos autorizava uma AP - autorização de pagamento. Olha aí, uma visão muito fechada de orçamento e aquilo ficou. Eu substitui esse chefe num período. Ele foi para a Sumoc [Superintendência da Moeda e do Crédito].

Eu ganhei um dinheiro muito bom. Pude comprar um carro para levar os meus filhos para a casa de mamãe. Fiquei também muito conhecida porque todos os engenheiros que precisavam conhecer a verba alocada naquele trecho iam no setor de escrituração para ser informado, para eu emitir autorização de AP.

 

P/1 – Você sistematizava essas informações, é isso?

 

R – Não, eu informava, eles tinham a sistemática. Eu só dizia: “Trecho tal tem tanto.” Aí debitava, tinha o saldo. Trabalhei bastante tempo nessa divisão, nesse departamento. Assim, da minha visão, praticamente era quase o banco todo porque tinha os técnicos em áreas setoriais: química, energia elétrica, siderurgia. Eram os que iam lá apanhar os saldos. Depois, futuramente, o banco foi se reestruturando, crescendo muito e começaram a surgir os departamentos específicos para aquelas áreas operacionais setoriais. Fiquei um período bom ali. Gostei.  

 

P/1 – Qual era a área que recebia maior empenho financeiro? Nessa época qual era... Algum projeto grande que estava em andamento no banco...

 

R – Olha, os grandes projetos tinham estágios e também o fundo de reaparelhamento econômico e também as empresas de... Tipo Central do Brasil, Estrada de Ferro Leopoldina, as grandes estradas, estavam todas ali. Já os iniciais da Cosipa, da Usiminas... Eram Estágio Um: os grandes setores siderúrgicos estavam todos ali, Vale Rio Doce etc. Então era assim, um enfoque bem dirigido, porque o banco naquela época tinha umas 300 pessoas, aproximadamente. Todo mundo se conhecia e aquele setor de orçamento existia, mas eu não tinha acesso, só tinha acesso àquelas liberações. E aí é muita empresa, até tenho no orçamento... São as mesmas porque tem projetos como indústrias hidroelétricas que são muito grandes para desovar, então levam anos. Eles continuaram muitos anos dentro do banco, sacando, depois o retorno, que é o retorno do financiamento voltando, mas aí eu já estou no outro setor, não mexia mais com aquilo. Fui ao departamento financeiro, com o mesmo chefe.

 

P/1 – Em que ano foi isso, Nanete?

 

R – Eu acho que foi... Em 1962, eu tive uma filha. Acho que foi 1961, por aí. 1961, eu tive um filho, 1962 eu já estava no Financeiro.

 

P/1 – Como é o nome dos filhos?

 

R – Renê Rocha Pereira e Márcia Maria Pereira.

Neste departamento financeiro fui trabalhar na divisão de contabilidade, que foi também muito importante porque ali era a finalização de tudo que tinha acontecido. Os processos vinham para o setor de classificação, setor de análise, setor de registro e arquivo. E passavam pela minha mesa para fazer a triagem. E eu muito avançada; eu lia o projeto de ponta a ponta. Tinha audácia de dar o despacho para o setor A, B, C e D, e submeter ao chefe da divisão de contabilidade, que era o professor contador.

 

P/1 – Por que audácia?

 

R – Eu não sei porque. Eu só teria que dar uma olhada e ele ler tudo. Mas ele diz: “Leia que a senhora aprende.” E eu aprendi. Aí já era finalização de que? De tudo que o banco fez em termos financeiros. Mais uma vez eu tive contato com as liberações de parcela de financiamento e outros dados, aquilo era para mim muito enriquecedor.

Por ser secretária de divisão eu exercia uma função gratificada de secretária taquígrafa, mas tem sempre um dia que se põe à prova. Isso até chega a ser cômico, não sei se é para ser levado. Teve uma reunião, chefia de departamento, e disse: “Ela não é taquígrafa?” “É.” “Então ela virá para a reunião.” Eu era taquígrafa que tem curso e não faz porque o chefe não exigia. O trabalho na contabilidade não exigia ditado. Ele, às vezes, dizia: “Faz a carta tal, tal.” Fazia a carta, eu já vinha enriquecida do setor privado.

Aí eu fui para a reunião gelada. Sentei e começou o debate. Improvisei à beça. Eu fazia sinais, eu fazia palavras em inglês, eu falava algumas palavras em francês, taquigrafia, o que eu sabia. Quando acabou a reunião, ele pediu: “Agora, a senhora leia.”

 

P/1 – Na frente de todo mundo?

 

R – Todo mundo. Ele não sabia mais o que se passou na reunião, tenho certeza. Aí eu improvisava, né? “Tarará, tarará, doutor Fulano…” Depois, então, batia. Duvido que ele ia se lembrar do que eles falaram na íntegra. Os sinais eram só para mim. Rasgava aquilo tudo, batia a ata, entregava. (risos)

Houve algumas reivindicações porque eu não pertencia ao grupo das taquígrafas. Taquígrafo [era] assistente técnico. Assistente técnico, economia, estatística [eram técnicos]. Eu era ainda auxiliar de administração.

Gostei, foi muito bom. Aí nasceu diretamente a vontade de fazer o técnico em contabilidade. Foi enriquecedor esse período porque lendo um projeto passa tudo, processo com projeto. Tudo que tem que passar e se você se interessar você aprende mesmo, né? E não era utilizado porque eu não era da carreira. Não tinha... Aquilo não era função para mim. Eu era secretária. Eu tinha função. Fazia e...

Bom, então, fui técnica em contabilidade. Foi só levar o diploma ginasial, não precisava teste de vestibular. Vestibular só para a faculdade. Fiz.

 

P/1 – Aonde você fez, Nanete?

 

R – Na Escola Técnica de Comércio Cândido Mendes.

 

P/1 – Mas o banco incentivava esse tipo de curso? Ele apoiava financeiramente? Como era?

 

R – Não, não. Isso [foi] iniciativa própria. O incentivo maior mesmo veio do contato com o professor, que via que eu tinha um potencial para contabilidade. Eu já vinha lá de fora, do setor privado. E aí fiz o técnico em contabilidade à noite, de 19:00 às 22:00. Morando no subúrbio, chegava tarde em casa, mas aí eu já tinha um carrinho, daquela substituição saiu um carrinho. Mas não era grande dinheiro, tanto é que a gente teve que fazer empréstimo no que era o Banco do Povo, que tinha dois diretores do banco e me arrumaram qualquer coisa. Eu comprei o carro mais barato na época. Chamava Dauphine; não foi nem Gordini, nem Volks, tal a falta de grana. E foi um carro que deu certo, né?

 

P/1 – Mas você ia trabalhar de carro?

 

R – Não. Carro era para levar as crianças na casa da minha mãe e à noite meu pai ia na faculdade, aí ele vinha. Às vezes vinha com as crianças. Esperava na porta, chegava aquela hora e ia lá eu com as crianças para casa.  

 

P/1 – Como era a sua jornada de trabalho no BNDES nessa época? De que horas a que horas você trabalhava?

 

R – Era muito puxada porque o banco teve vários horários. Esse departamento financeiro até teve um horário específico, mas tivemos horários muito diferenciados. As épocas eu não me lembro. A que eu gostei mais foi de 11:00 às 19:00, que em casa eu ficava mais tempo: fazendo coisas, arrumando casa, arrumando comida, arrumando tudo para poder chegar no banco. Foi a que eu gostei mais, mas houve de 10:00 às 18:00, houve de 9:00… Com os intervalos de almoço, mas eu preferia quando foi esse de 11:00 às 19:00. E se trabalhava muito.

Eu não sei porque acho assim, numa instituição naquela época tinha um ritmo alucinante, mas eu tinha o ritmo, o setor privado não é brincadeira. Realmente, se você não der conta... Porque havia muita mão-de-obra para ser substituída no setor privado - [se] você não serve, colocava outra no lugar. E assim também eu procurava outros  ________ do setor privado. Só que eu saturei. Eu sabia que não levava a nada. Eu vinha em busca da estabilidade e fiquei.

No setor do departamento financeiro, eu fiquei alguns anos lá porque sou muito conservadora. Eu me adapto, mas trabalhei muito. Época de balanço, por exemplo. Eu estava em casa de férias, [alguém] telefonava: “Vem dar uma força aqui!” Aí eu ia ajudar a conferir porque eu não tinha a função de contabilidade, mas ajudava a conferir. Depois, quando fechava o balanço, tinha uma solenidade de fechamento de balanço. Nós fizemos depois no orçamento. Eu era encarregada de visitar alguns restaurantes e a garotada pedia que eu investisse muito na sobremesa porque todo mundo ganhava pouco, aí o mestre dava uma prova, uma degustação e a bebida, limitada. E a sobremesa ele sempre pediu morango com creme, era muito caro. (risos) Aí convidavam duas personalidades; o chefe de departamento financeiro, da divisão de contabilidade, fechava o orçamento e a auditora. Aí fazíamos aquele almoço bonito, né? Sempre que tinha o fechamento do balanço tinha uma solenidade para comemorar. Aí o pessoal ficava alegre. Era legal. Gostei.

Naturalmente, o banco começou a crescer muito. Reestruturações, sistemas de melhoramento da qualidade, até do pessoal, porque o banco é... Quando começou a investir em concurso foi para substituição de pessoal com escolaridade. Aí entramos os concursados, pois realmente alguns ainda eram contratados, [tinha] algum conflito. Ninguém não quer perder um bom emprego. Mas foram saindo aos poucos. Foi dando entrada, então, o pessoal concursado. O banco primou por isso.

 

P/1 – De que forma isso afetou o departamento que você trabalhava na época, por exemplo? Houve muita mudança de colegas, entrou muita gente nova?

 

R – Eu via chegar muita gente nova, mas eu era muito isolada, muito fechada, num quadradinho atrás de uma pilastra. Eu via as pessoas, mas chegaram mais do que saíram. Os que saíram, naturalmente, já começaram a se movimentar por conta própria. Não esperavam o ‘dia D’, [a] pessoa não ficava esperando. Correram atrás dos seus empregos.

Chegaram muitos, muitos contadores para trabalhar. Conhecem a época dos grandes contadores desse departamento? Era a era que eu trabalhava. Nesse departamento entrou uma elite muito boa. Eu gostei muito do chefe do departamento, do assessor dele e de todos que estavam ali conosco.

 

P/1 – Como era o grau de hierarquia nesse departamento? Como funcionava, para a  gente...

 

R – Bom, o setor era o menor, era de hierarquia mais subordinada. Outro setor [acima] era de chefe de divisão, [depois] chefe de departamento, com assessores - dois assessores de ponta, por causa das áreas. Um praticamente controlava uma área, era [a] área financeira dos contadores, autorização de pagamento, o setor de escrituração. Isso eu estou falando lá atrás no DCA, do financeiro. Aí era já um desdobramento muito grande, né? Eu só fazia parte da divisão de contabilidade, mas tinha divisões importantíssimas: divisão de cobranças, divisão de pagamentos. Aí já era outra visão, eu não saía muito da minha divisão de contabilidade. Eu entendi como um todo, mas fiquei um pouco fechada dentro da divisão de contabilidade. Dentro do departamento financeiro eu não fui para outra divisão, não. Eu fiquei só na divisão de contabilidade que...

 

P/1 – E quando se dá o interesse de você fazer um curso universitário?

 

R – A gente já começa a ver a beleza do trabalho nas áreas operacionais porque eu via por dentro os processos. As análises de projetos, coisas que indicavam alguma coisa. É bonito e aí eu disse: “Gente, eu não vou ficar só técnica em contabilidade porque você fica restrita.” Assistente técnica, quando eu fui promovida. Assistente técnico, eu já com técnico em contabilidade.

A motivação era do chefe da divisão, que era professor universitário. Era um apaixonado por contabilidade, só fazia aquilo, tanto é que ia escrever um livro. O livro estava pronto quando ele faleceu. Ele fez tese, ele defendeu teses, doutorado. Ele é um cara assim, dentro dessa área. Então, na divisão de contabilidade do departamento financeiro já foi 1971... 1970 mesmo, graduei em bacharel.

 

P/1 – Você fez que faculdade?

 

R – Eu fiz a [Faculdade de] Ciências Políticas e Econômicas do Rio de Janeiro, Cândido Mendes.

 

P1/ - E isso também quer dizer… Volto a perguntar, havia um incentivo do banco para que se fizessem esses cursos?

 

R – O que o banco incentivou foi muito bom. Ele tinha cursos específicos dentro do banco, de melhoramento pessoal interno. Quer dizer, interno se a política de... Não era interno dentro da casa. Era uma política interna, tem alguns cursos que nós fizemos fora do banco, mas numa outra fase. Já estava no Departamento de Estudos Econômicos e quando um contador tarimbado em orçamento administrativo porque orçamento administrativo é aquele que trata do custeio. E orçamento de investimentos é que trata dos financiamentos, dos desembolsos, da captação de recursos.

Esse rapaz já estava o máximo, o maioral em orçamento administrativo e queria entrar na área operacional, que é a área que te dá a visão de dentro da empresa, que vai em grupos de trabalho para fazer análise de projeto para ver a viabilidade. Eles estavam e não aguentavam. Tinha que ser testado uma pessoa e eu caí lá, naquele departamento. O doutor Jardicelos Correia disse para mim: “Olha, a senhora vai ser testada aqui. Eu conheço a sua ficha, já examinei e conheço mais ou menos como a senhora se comporta. Se a senhora for aprovada, a senhora vai ser a nova responsável pelo orçamento administrativo.” Eu nunca tinha pegado em orçamentos. Em contabilidade pega os custos, o orçamento de custos que não tem nada a ver. Mas só... Você tem só o que? O teórico, né?

Eu fui, fiquei com o contador, excelente por sinal, e me treinava. Eu comecei a fazer alguma coisa e ele... Bom, ele queria sair. Aí, fica... Fica assim no ar (risos): “Será que eu fui aprovada mesmo ou ele...” Porque tinha outros funcionários que poderiam ser, mas não sei por que... Aí ele disse: “Doutor Celos, chegou a pessoa. É essa moça. Ela tem condição.” Aí fui aprovada no tal teste profissional e comecei a incomodar todo mundo. (risos) O orçamento administrativo, ou orçamento de custeio, é uma coisa que você tem que dizer: “Quantas cadeiras, quantas pessoas você vai precisar para aquele exercício.” E tem o formulário próprio. Enfim, lá ia eu com papelzinho. Nem sempre... Papelzinho, né? O tipo de rubrica, o tipo de móveis, cadeiras, mesa...

 

P/1 – Isso no banco todo? Isso era do banco todo?

 

R – Tinha que fazer em todo lado, ou então você pedia a alguém de uma área para preencher e aceitava. Você... Mas eu ia. (risos) Às vezes acontece de dar certo, às vezes não, mas... Neste aconteceu uma coisa curiosa; o banco sempre crescendo, reestruturação. Esse orçamento administrativo, eu mal manuseei, mal burilei, [veio uma] nova reestruturação. O banco sempre crescendo, aí que começa o plano de ação: eu entro no departamentos dos Estudos Econômicos e doutor Celos fica num outro departamento. Esses se transformam, então, [na] Área de Planejamento, vários departamentos - Departamento de Prioridades e Orçamentos, onde eu já estava trabalhando, assistindo... A pessoa já tinha sido promovida a assistente técnico e como eu era assistente técnico, que é dentro do grupamento técnico em contabilidade, aí eu poderia mexer no orçamento administrativo porque o banco, no sistema de promoção por antiguidade… Agora eu não sei, mas só pode ser assim, por mérito ou por antiguidade. Quando você não conseguia na banca ser por merecimento, vai uma ficha… Eu sempre fui por merecimento até hoje. Nunca fui por antiguidade.

 

P/1 – O que isso significa para você, Nanete?

 

R – Acho [que] significa que eu valorizo muito o que eu faço. Respeito muito as pessoas e aceito comando - comando de quem tem o direito de comandar, senão é um pouco complicado. (risos) Aí é a fase mais rica, maior desafio, maior vontade de acertar.

 

P/1 – Quais eram os grandes desafios?

 

R – Porque eu, contadora não do quadro, que é o assistente técnico e a política do banco realmente, de melhoramento do nível era... Por exemplo, eu não podia exigir do banco pagar um curso para mim de administração orçamentária que eu fiz. Eu fiz vários cursos de administração. Fiz na ESPEG [Escola de Serviço Público do Estado da Guanabara, atual ESP-RJ – Escola de Serviço Público do Rio de Janeiro], fiz um curso na FESP [atual Fundação CEPERJ - Centro Estadual de Estatísticas e Pesquisas e Formação de Servidores Públicos do Rio de Janeiro], ali em frente ao [Shopping] Rio-Sul. Eu fiz um com o professor José Machado Teixeira Júnior, que é o papa o orçamento administrativo de custeio e comecei a me especializar no conceito.

O orçamento de investimento do banco não é um orçamento comum. Ele é um orçamento específico ao banco de desenvolvimento. Aí eu reporto aquelas fichas grandes, que substituía um contador, liberando. E numa inteligência, numa capacidade muito grande de interpretação do que é o orçamento de investimento, o doutor Armando Fabiano Casal de Alencar, economista, graduado, pós-graduado, com todas as graduações possíveis e dinâmico, sabe?

Numa reunião, ao invés do banco aprovar o que seriam as prioridades, tanto de aprovação para o setor de siderurgia…. Não, o orçamento tem que ser olhado pelo lado dos desembolsos, é o que faz a pressão de caixa. Ênfase em que? Nos desembolsos. Foi uma grande virada no conceito de orçamento de investimento do banco. Continuam as aprovações, prioridades. Vai ser aprovado um ‘x’ por cento para o setor de siderurgia, mas vai ser desembolsado o que? O setor está dentro do banco, a empresa está dentro do banco? É viável, está aprovado ou não, isso é o setor da análise. Eu não estou lá dentro, estou no orçamento. Eu vejo números e empresas. Eu não tenho acesso à empresa. O orçamento é fechado dentro de uma sala, busca números, recebe números, burila números, tabela números, critica números e não tem nenhum contato com empresa.

 

P/1 – Mas, então, o que você... Você trabalhava esses dados, é isso?

 

R – Aí sim.

 

P/1 – Para gente entender.

 

R – Nessa mudança de política teve que haver uma mudança de mentalidade nos diretores das áreas operacionais. Eles também tiveram que fazer engrossamento com departamento de prioridade, pessoal de orçamento, para começar a falar a mesma linguagem: compromissos assumidos, compromissos a assumir, demanda em perspectiva - aí já é o economista, eu já estou falando… E dividir isso muito bem, quantificar isso muito bem.

E as programações de desembolsos eram de uma lisura perfeita, não tinha envolvimento com apadrinhamento. Isso eu achei fantástico. Aquela empresa que tivesse uma ligação importante não tinha nada a ver. Importância era o projeto. A fase concluída, a fase seguinte, que exigia aquele recurso, sabe? Então era tudo escalonado. Compromissos assumidos até o ano tal, compromissos assumidos até o ano ‘x’ mais um e as empresas subordinadas a cada setor, esses grandes setores - siderúrgico, mineração e por aí afora, a gente recebia. Era o contato da equipezinha que estava sendo montada pelo doutor Armando. Chegaram os estagiários, que eu achei uma grande sacada do banco. O estagiário chega no banco, alguns já vinham com formação profissional; outros não, vinham da faculdade direto. O jovem quer aprender. Foi uma equipe muito boa. Alguns concursados, alguns estagiários e de todas as carreiras; estatísticos, economistas, administradores de empresas, Elizabete, e um ou outro auxiliar de administração para a parte burocrática e de apoio.

 

P/1 – Mas eram subordinados a você?

 

R – Eram. E eu, subordinada ao doutor Armando. Agora, diga-se de passagem, que doutor Armando Alencar foi um dos chefes que alavancou esse trabalho e também acima dele um presidente, doutor Marcos Vianna, de uma capacidade administrativa, de visão de banco, para mim, importantíssima. Porque a cada mês nós tínhamos que preparar um orçamento, a execução e até em nível de projeto, de empresa regional, setor público, setor privado.

 

P/1 – Havia essa separação também?

 

R – Esses grandes números desdobrados dentro das variáveis possíveis: regionais, área operacional, subsidiárias. Então se fazia um caderno imenso tabulado de todas as formas. Acho um trabalho numérico, mas bonito porque ali expressava tudo e se fazia na época uma reunião. Doutor Marcos fazia mensalmente. Ele chegou num momento que o banco estava em ebulição e até nesse período da década de 70 comentou-se que os desembolsos do banco superaram os do banco Mundial, tal o aporte de recursos do banco. Foi um crescimento fabuloso.

E esse presidente, eu falo dele porque foi o único que eu tive acesso. Ele fazia uma reunião, mas era importantíssimo. Todos os diretores das áreas, das subsidiárias, os assessores, os superintendentes, o departamento de recursos, o departamento de prioridades de orçamento e eu. Eu ia para aquela reunião preparada para qualquer coisa. E para ter números de cabeça, papeizinhos escritos para passar para... Ele fazia uma sabatina geral. Ele era tão importante no trabalho dele, tão envolvido e sabia tanto, que ele pensava... Uma empresa lá, por exemplo: “Eu quero saber a situação da Aço Villares. Por que está aqui com essa dotação orçamentária?” Ele pinçava todas, sabia de tudo: 300, 400, 500 empresas. Os bancos regionais eram fechados, não dá porque eram pequenas e médias empresas, ele via o programa. Então, isso foi uma escola. Ali eu vi, eu aprendi tudo o que me faltava. E sempre que acabava uma reunião, ele dava os parabéns ao pessoal do orçamento. Quer dizer, era um esforço sobre-humano. Por que? Nós éramos envolvidos com as áreas operacionais. Nós tínhamos que buscar dados, insistir. Eles davam, não davam, acabavam dando - tinham que dar, era documento de gestão e tomada de decisão importantíssimo em todos os níveis porque ali ele sabia quem estava beneficiado em que, como, por que. Ali, então, ficava tudo definido naquela reunião. Saíamos aliviados.  

 

P/1 – Vocês já trabalhavam com computador?

 

R – Não.

 

P/1 – Como é que se contabilizava? Como eram as máquinas, como...

 

R – Não, a contabilidade se passava lá embaixo. Nós trabalhávamos com máquinas manuais - [de] somar, de calcular, tudo manual. Era tudo no manual e tudo datilografado. Aí já tinha o setor de mecanografia, nós mandávamos tudo para lá. Eu tinha um secretário e ficou esse trabalho; ele marcou muito porque mudou toda uma direção, prioridades importantes, dar prioridades a setores. Mas quanto é que ele está levando? Quanto é que ele está pressionado o caixa do banco? É o desembolso. É a liberação, é a aplicação efetiva direta. Foi assim, eu acho que o doutor Marcos Viana, doutor Guerreiro, da área de planejamento, doutor Armando de Alencar e outros técnicos reunidos fizeram uma conclusão perfeita para o banco.

 

P/1 – Em relação aos estagiários, alguns deles deram continuidade no banco?

 

R – Aí é que está a grande coisa. Quando eu dei a resposta que eu aceitava ser gerente de orçamento, eu disse a você que foi um desafio. Eu custei a dar, mas eu tive de dez a quinze minutos para dizer: “Aceito.” Foi angustiante. Você ter dez a quinze minutos para dizer que é gerente. Gilda estava presente, me deu uma sacudidela. Eu disse: “Eu aceito.” Doutor Armando me chamou e fez uma coisa que eu achei muito bem feita: “Olha, a senhora vai ser a gerente. Daqui para frente não existe segredo. A senhora vai treinar uma equipe para qualquer momento lhe substituir. Nós vamos ter muitos gerentes.”

Vocês já entenderam o que é que acontece com o orçamento; orçamento é uma peça que quem faz é o dono. E aí acabou. Eles foram treinados por forças até da organização do trabalho. Dois já foram gerentes de orçamento, não são mais e o que era meu secretário hoje é o gerente de orçamento.

 

P/1 – Quem é?

 

R – Antônio Carlos Risso, ele é o atual gerente de orçamento. A pessoa que sobressaiu muito foi, logo inicialmente, Elizabete Maria de São Paulo, que foi logo chamada para uma coordenação e hoje ela... Eu só quero dizer [que] 90% dos que saíram daquela equipe foram assessores, gerente, contador, coordenadores de serviço. E a Zafira, que agora é gerente com a Elizabete. Um ou outro se aposentou, mas todos tiveram cargo de chefia, não em orçamento. Dois gerentes de orçamento e um atual gerente de orçamento. Então, aquela mentalidade de você ser o segredo,  escolher tudo, acabou. E eu cumpri rigorosamente o que o doutor Armando colocou. Eu não quero segredos, tanto é que agora, para recuperar um exemplar, eu tive que voltar ao banco. Eu não levei [sequer] um papel do banco. Eu disse: “Não são meus. Não me pertencem.” E ele me cedeu aquele, o atual gerente. Fez um comentário que muito me envaideceu e está aí, o documento. Mas eu não posso falar em números porque documento de orçamento é uma peça que mexe muito com tomada de decisão. E eu não posso revelar os números porque eu não estou mais dentro do orçamento. Se vier alguém...

 

P/1 – Mas qual foi o comentário?

 

R – (risos) Do atual? Ah, não posso [falar] porque tem um chefe de departamento acima dele, tem um diretor de área. Ele mandou me emprestar, até mandou minha reguinha que eu trabalhava com ela. Está toda quebrada, está na amostra. Em termos de banco, destaques de coisas boas, eu gostei muito da ida para seminários, para congressos.

 

P/1 – Você representava oficialmente o banco?

 

R – Só um, o oficial.

 

P/1 – Qual foi ele?

 

R – Eu acho que foi o SENOP, que eu fui... Participação, deve estar no meu currículo, sendo que lá discutiam mais o custeio e o nosso é específico. Entrar dentro do nosso foi uma outra ideia que o doutor Armando ou outra pessoa [teve], mas ele me trouxe: colocar equipes mistas de orçamento com equipes de área operacional, engenheiros e químicos. Saíamos para os bancos regionais para explicar a metodologia, falar a mesma linguagem para o retorno ser idêntico ou pelo menos palatável, fácil de se compreender. Então nós fomos a alguns bancos de desenvolvimento regionalizado.

Bete foi comigo em Natal, [ao] BDRN. O diretor fazia um almoço, sentava as estagiários, sentava os gerentes, os técnicos e aí se falava de tudo. Depois, uma outra hora, íamos para uma sala para conversar com os que elaboravam os orçamentos dos bancos regionais. Fomos ao Banest, Banco do Espírito Santo. Fomos assim. Eu achei isso uma troca muito importante para o banco, para nós, BNDES e para eles também porque abria-se uma forma de diálogo em termos de orçamento muito igual, muito facilitadora dos contatos. Essa coisa para mim foi brilhante.

Outra também foi que nós não tínhamos acesso a nenhum pedido de verba. Nenhuma empresa nos falava nada. A coisa chegava através da área operacional e era avaliada. O departamento de orçamento, doutor Armando, fazia uma investigação, uma crítica e dizia: “Esse orçamento vocês têm que burilar.” A gente tinha que aplicar critérios, não prejudicar A, B, C, D, E e aí era difícil, porque nós não estávamos dentro do projeto, estávamos dentro da dotação global. Aí fazíamos vários critérios: fazemos um, fazemos outro, proporcional... (risos) Chegávamos a mais alguns cortes. Assim, matava praticamente o diretor daquela área. Aquele projeto dele era [um] projeto importantíssimo. A gente pode rever, realoca aqui, mas era sem influência.

 

P/1 – Vocês não tinham contato com essa pessoa...

 

R – Com as empresas.

 

P/1 – Com as empresas e com o feitor do projeto, por exemplo?

 

R – Não. Ninguém. Era só ali. Nós éramos trabalhadores de números. Agora a gente ri quando ia buscar dado, a gente sempre tem aquela troca: “É esse projeto.”

 

P/1 – Cabia vocês irem?

 

R – Ah, íamos...

 

P/1 – Vocês iam lá pegar o material.

 

R – Primeiramente, nós íamos. Tem uma menininha lá agora, uma senhora agora. Menininha é no meu tempo, desculpa. A Lígia disse: “Ah, Nanete, eu ia com aquele papelzinho na mão lá para AP-3 pedir dados. Ficava o dia inteiro coletando dados, feito que a gente estava pedindo alguma coisa de favor.” E não era. Depois eles passaram a mandar.

 

P/1 – Quer dizer, era o subsídio para o seu...

 

R – É, mas depois eles passaram. Eles foram todos treinados, aí já tinha rotina de mandar até aquele dia, mas nisso houve muito contato bom. Muito aprendizado, novas amizades. Quer dizer, algumas coisas assim. Às vezes, a gente não se sente bem. Quando a gente [diz]: “Não posso recusar, estou em reunião.” Poderia estar ou não em reunião, mas a gente volta depois. Essa persistência foi boa porque... “Está bem. Depois a gente volta outra hora.” A gente voltava. Depois passou a vir, até o dia ‘x’ tem que chegar os dados do orçamento.

E outra coisa também, que era importante naquela reunião que eu falei lá em cima, é que o Departamento de Recursos tinha que chegar com o quadro de recursos esperados para aquele ano, para aquele orçamento. Era interessante, eles tinham que ter uma visão também de como poderia ser. Eles trabalhavam de fora do orçamento. Eles traziam quadro, justificativa, retorno de financiamento, que era uma parcela significativa. Eu administrava o PIS-Pasep, também era outra parcela significativa. E o aporte de recursos estrangeiros ainda não tinha muito peso dentro do banco, não, ainda era uma parcela menor. As maiores absorções de parcelas foi a Finame. A Finame realmente era uma subsidiária que precisava trabalhar com uma fatia muito interessante do orçamento. E algumas áreas também, outras, mas cabia a direção do banco direcionar o que, para quem e por que. Quando burilávamos o número, nós tínhamos que aceitar.  

 

P/1 – Nanete, a sua equipe de trabalho, quer dizer… Apesar de vocês não terem poder para decidir numericamente, vocês discutiam sobre essas alocações de verba? Você discutia que era bom, poderia ter mais verba para um projeto aqui, ali?

 

R – Nós não tínhamos ideia porque nós não acompanhávamos o projeto. A gente tinha a ideia de setor. “Pô, esse setor aqui é um setor que precisa.” Mas na nossa visão. Ao técnico operacional daquela área, o diretor, o presidente, estes sim, conforme eu disse, ele buscava, pinçava ‘n’ empresas e sabia exatamente o que estava acontecendo. Quer dizer, era uma reunião muito bem-feita por um grande administrador que tornou-se... Mais uma vez, esse instrumento de gestão administrativa e tomada de decisões seriíssimas. Porque o banco crescia assustadoramente, né? Foi a década de 70, da explosão que eu falei, que ultrapassou o Banco Mundial em termos de desembolso. Quer dizer, a gente não pode... Eles não poderiam alocar qualquer recurso sem uma análise profunda, sem acompanhamento de uma etapa de projeto já concluída.

 

P/1 – Tinha algum projeto que recebeu maior…

 

R – É difícil dizer isso.

 

P/1 – Difícil falar?

 

R – É. Porque também a importância dele. Naquela fase pode ter sido aquele, [em] uma outra fase um outro, não é? Dependendo da fase em que ele se encontra, porque de um modo geral empresas grandes, de grande porte, demandariam naturalmente, segundo o projeto, mais recursos. Por exemplo, não sei como é que está, mas a Usiminas... Eu me lembro muito da Usiminas: Estágio Um, Estágio Dois, Estágio Três. Cosipa: Estágio Um, Estágio Dois… Projetos grandiosos para nós porque também teve problema de substituição de importações. Quer dizer, tudo isso voltou ao banco; voltou-se para determinados setores que não competiam. Os orçamentistas, a garotada e eu, dizíamos: “Esse setor aqui não está sendo beneficiado.” Não era a nossa função. Isso aí era de outro nível, de outra responsabilidade.

 

P/1 – Bom, Nanete, você... Em que ano você se aposenta e por que pede aposentadoria?

 

R – Antes de falar da aposentadoria, eu acho importante falar das coisas boas. Eu gostei muito no banco, desse sistemas todos de treinamento, de participação em congresso, seminário, cursos avulsos, cursos de gerentes porque isso aproximava as pessoas e também dava uma dimensão daquilo que o banco queria de nós. Foi importante e eu gostei porque também não só eu ia, como também ia um elemento da equipe, um funcionário [de] cada vez; fazia-se um rodízio. Quem foi em determinado curso ou no congresso não irá no próximo, então esse momento foi muito enriquecedor. Eu acho que o banco prima por isso também. Ele busca o pessoal dele, mas dá condição de estágios: o pessoal de fora fazia dentro do banco e também nós fazemos cursos patrocinados pelo banco lá fora. Acho que eu tenho que agradecer a todos os meus dirigentes, que todos foram importantes na minha formação e, finalmente, na minha gerência, porque eu cheguei num banco com... Sem apoio de ninguém, como auxiliar de administração, que se chocou um pouco com a sistemática do banco. Porque você... É impessoal, praticamente. [No] setor privado, você é pessoa ligada diretamente ao empresário e ali fica um pessoal mais... Depois eu me acertei. As oportunidades que eu tive, eu me agarrei a todas. Algumas, de até trabalhar fora com dirigentes que saíram, eu não quis ir. Eu recebi [o convite], não aceitei. Fiquei no banco. Houve duas propostas e essa finalmente, essa gerência de orçamento, ela veio num momento realmente importante para mim. Uma formação que eu busquei também por conta própria. Só quero dizer que foi muito importante pelo espírito que tinha. Era uma espécie de rolo compressor. Ninguém parava. Trabalham-se muito, muito nessa época.

 

P/1 – E tinha esse espírito de equipe, como você disse?

 

R – Um chefe do departamento é muito importante - no departamento de informações e orçamentos, o doutor Armando de Alencar, porque o ritmo dele era um ritmo de grande executivo. Ele exigia, ele cobrava, ele acertava. Enfim, você tinha que estar no ritmo dele e o pessoal acertou também. Não quer dizer que todo mundo gostasse de fazer orçamento, trabalhar ali. Isso é impossível, mas eu acho que hoje todos já tiveram a sua oportunidade. Já foram alguns gerentes, né?

Mas as pessoas importantes para mim, que eu citei naquela primeira, são as mesmas. Não tem espaço para citar todos, mas todos foram muito importantes. Era espírito de equipe. Eram pessoas que hoje demonstram que souberam crescer no banco tão mais do que eu. Elizabete, por exemplo, ela realmente tem uma carreira brilhante. Já era esperado. Eu não sei se já era esperado, mas uma vez me cobraram. Um rapaz saiu do banco para exercer um cargo no Banco Central; me encontrou e disse para mim: “Até que enfim você chegou lá. Custou, né? Mas você vai… Não sabe quantos anos.” “Dezessete.” Foi [de] 1957 a 1974. [Em] 1974 eu estava na gerência, já comecei a exercer, não-oficialmente. Em 1975, então, fui nomeada gerente de orçamento.

1980 é uma situação que eu não gostaria de falar. Eu não gostaria de ter saído.

Eu cavei a minha saída porque na minha carteira faltava tempo de serviço para eu completar. Eles, naquela época - não sei se até hoje - não assinam, às vezes, a carteira. E eu consegui provar com dados de registro de razão, registro de diário numa empresa que tinha pegado fogo e o contador que... Contador, ele é bem solidário. Caçou lá, encontrou alguns livros com a minha letra e eu levei para o IAPI na época, então eles constataram que aquele período eu trabalhei e não assinaram a carteira. Eu ganhei em média três anos para poder, então, me aposentar. Eu me aposentei pela idade - jovem, ainda não tinha cinquenta anos, mas fui... Foi necessário me aposentar, vamos dizer assim, porque eu também poderia ter ficado. Mas foi necessário.

 

P/1 – Você se aposenta em que cargo?

 

R – Gerente de orçamento.

 

P/1 – E como foram os anos depois da aposentadoria? Sentiu falta do trabalho, do ambiente do BNDES?

 

R – [Em] primeiro lugar você começa a perder a referência das coisas do banco. Você começa a ler sobre o banco, mas você começa a perder, até [a] identidade. Em jornal, na mídia etc, a coisa já vem muito trabalhada numa visão particular. Você dentro do banco é um enriquecimento. Essas reuniões são verdadeiras aulas. Perdi muito, fiquei muito...

Eu não saía de dentro de um quarto. Eu estava adaptada a ar refrigerado: fazia uma coisinha, corria para o quarto. Comecei a procurar cursos. Fiz francês na Aliança Francesa, fiz até [curso de estudos superiores, diplomado pela Universidade de] Nancy. Um curso regular.

Muito bem, volto a fazer o que? O tempo está passando, está pouco, não tem aquele ritmo. Aí fui trabalhar numa empresa... Ah, muito ruim. Em São Cristóvão. Não deu certo. Empresinha pequena. Aí disse: “Vou procurar um curso de atualização cultural.” Encontrei em 1987, 1988… [Em] 1992. Encontrei um curso de atualização cultural. Comecei novamente a entrar em contato com palestrantes de todas as áreas: economia, área esotérica, turismo, cardiologia. Veio dois palestrantes, fazem dois períodos e começa aí uma nova ebulição na minha vida: cria-se um coral. Eu dirigi o coral. (risos)

 

P/1 – Que bacana!                                             

 

R – Dirigi o coral, compus uma música para o coral. Até então, não tinha... Do coral, compus uma música para o curso.  

A minha formação musical é mínima. Compus uma música, aceitaram como oficial, dediquei. É muito simples, mas dizem que é uma música bonita. Fiz alguns sambas, fiz algumas marchas. (risos) É porque dá motivação, passou a ser...

 

P/1 – Dá uma palhinha para gente?

 

R – Do sambinha?

 

P/1 – Do sambinha.

 

R – Ah, o sambinha é grande. Eu estou rouca. Eu gosto mais...

 

P/1 – Só um trechinho, que a gente já está encerrando. Só um trechinho.

 

R – Eu gosto mais do hino. Meu neto tinha mais ou menos quatro ou cinco anos, estava na piscina e o maestro... Porque a partitura, a letra e música é minha, mas a partitura eu não tenho formação. Então fiz uma marcha porque é fácil, convocando as mulheres a virem para curso. Então é assim. Eu estou com a voz horrível hoje.

 

P/1 – Só um trechinho.

 

R – “Avante, mulheres/ cultura também traz felicidade/ Como traz amigas/ podemos confraternizar/ Lalalá/Melhor qualidade de vida/ agora repensar atualidades, palestras, viagens/ tudo é festa/ como é que nós vamos ficar/ Parará

Adiante/ unidas nesta política diferente/ Com psicologia nossa filosofia é participar/ Maturidade assumida/ Boa fase da vida/ Adotamos esses temas/ O direito é o nosso lema/ Como é que nós vamos ficar/ Lalalá.”

 

P/1 – Que bárbaro.

 

R – Estou emocionada. E os sambas contam a história da criação do coral. Não vou cantar. É muito bonitinha.

 

P/1 – Como é o nome do coral?

 

R – O coral é Coral Canto Feliz do Áquima. O curso é [de] atualização cultural para mulher atual.

 

P/1 – E onde é o curso?

 

R – O curso é no Tijuca Tênis Clube, na [Praça] Saenz Peña.

 

P/1 – Então, para a gente encerrar, você é avó?

 

R – Eu sou. (risos)

 

P/1 – O nome dos netos, por favor?

 

R – O mais velho chama-se Rafael Silveira Pereira, tem dezessete anos. O outro, da filha, é Pedro Henrique Pereira Rendeiro e o outro, do filho, é Leonardo Silveira Pereira. Três meninos. Está faltando mais um. (risos)

 

P/1 – Você curte estes netos?

 

R – Olha, um eu criei, né? O da filha, quando eu parei um pouco. Tem um período que eu parei. Quando ele ficou maiorzinho, eu já fui para o curso de atualização cultural. [Ele] foi para a escolinha, aí eu já comecei. Mas esse período foi bom também, foi muito bonito. A gente é daquele estilo de criar e não colocar em creche. Eu sou também.

 

P/1 – Então, Nanete, para finalizar: se você pudesse mudar alguma coisa na sua trajetória de vida, o que você mudaria?

 

R – Eu só mudaria ter começado, ter tido oportunidade de fazer o curso que eu pretendia de nível superior, quando jovem. Eu era candidata a números mesmo, mas não era contabilidade.

 

P/1 – Em relação a roupa hoje, você está vestindo verde. Qual é a explicação de ter vindo hoje com uma roupa verde, Nanete?

 

R – O verde, pelo menos eu comprei que me disseram: que o verde é a cor do BNDES. Isso aqui é para homenagear o banco.

 

P/1 – O que que significa o BNDES para você?

 

R – Tudo: crescimento, bom relacionamento, reconhecimento, um fundação de assistência importantíssima. Eu não tenho queixa do banco. Eu sou grata [por] ter tido essa inspiração de ler um boletim de serviço e me interessar pelo banco, sem saber o que o banco era. O banco é muito mais do que a gente imagina. A importância do banco é fundamental para o país, para nós todos porque o que o banco apoia até hoje no social é muito importante.

 

P/1 – E o que acha desse projeto “50 anos do BNDES” e de ter dado o seu depoimento para o projeto de memória?

 

R – Bom, esse projeto vem nessa hora, né? Acho que é sempre aquela hora que se tem que aproveitar o momento. Eu acho que um cinquentenário é digno realmente de um registro - registro oficial, bem-feito, como está sendo feito aqui. Queria agradecer de estar nesse projeto grandioso porque o banco foi tudo para mim e continua sendo. E esse projeto está me levando a continuar no banco, nem que seja numa frase.

Eu acho o projeto importantíssimo para registrar pequenos, pequenos depoimentos porque o banco é grandioso demais. O que se faz dentro do banco, o que se faz pelo banco, pelas empresas e até no social pelas pessoas é de uma grandeza muito grande e de uma forma muito correta, muito... Não tem lisura quanto a atuação do banco. Para mim, né? Eu acho que para todos nós. Então o banco é tudo. Para mim é tudo, nem que seja numa frase só:  “O banco é tudo.”

 

P/1 – Eu agradeço a sua participação. Muito obrigada.




 

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