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História

Para sempre pediatra

História de: Alois Bianchi
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/04/2019

Sinopse

Pioneiro na pediatria do Hospital do Câncer, o paulistano Alois Bianchi teve de lidar com muitos casos impactantes em sua carreira. Um deles envolveu uma criança que, por causa de um retinoblastoma, perdeu os olhos, o que causava medo em outros meninos da enfermaria. Para enfrentar essas histórias difíceis, Alois contava com o apoio fiel e carinhoso da mulher, Ana, de quem lembra com saudade. Hoje, morando em uma casa para idosos, enfrenta as mudanças da velhice, em seu corpo e em suas relações. Com tantos amigos que já morreram, levados pelo “Pedrão”, como ele diz, Seu Alois sonha em continuar lúcido e mantém uma rotina diferente da de seus vizinhos de quarto. Sai do lar todos os dias pela manhã e segue para seu consultório, onde, bravamente, continua a exercer a profissão que tanto marcou sua vida.

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História completa

Meu nome é Alois Bianchi. Eu tinha um parente com esse nome, um avô, de origem austríaca. Meu pai era de origem italiana, mas a minha mãe era de origem austríaca. Era um grupo de austríacos-alemães que tinha ali para os lados de Santo Amaro. Ela é brasileira mesmo.

 

Morava num bairro que chamava Santa Teresinha, no Alto de Santana, perto da base da Serra da Cantareira. Naquela época, eu morava numa casinha bem pequenininha, que era geminada. Era um sobradinho geminado e tinha quarto, sala, cozinha e o banheiro lá no fundo do quintal. Dava para criar galinha. A rua se chamava Estrada do Bispo. Naquela época era estrada, tão longe, que desembocava no Lauzane Paulista. Tinha um campo de futebol, e o resto era tudo matagal. Hoje tem prédio. Naquela época, não tinha nada.

 

As escolas ensinavam muito o que era noção familiar. Faziam festas eventuais, de meio de ano, onde os pais eram convidados, ou pequenas viagens que se fazia naquela época até Santos. A gente tomava um ônibus, ia até a Estação da Luz, tomava-se esse trem, ia até lá, lá pegava um bonde. Tinha um bonde que ia até as praias. Depois, voltava o mesmo caminho. Todo mundo tinha que levar lanche. Você passava o dia lá. Conhecia o mar.

 

Entrei na Faculdade de Medicina por uma tendência própria, porque não tinha na família médico. Talvez pelo fato de fazer leituras frequentes, ouvir o rádio, essas coisas. Acho que eu não tinha juízo e continuei sem juízo.

 

Além de você ter a formação básica de seis anos, você tinha mais dois de residência. Foi aí que eu escolhi residência em Pediatria. A minha turma de Pediatria foi a primeira. Nós éramos em seis.

 

A Faculdade de Medicina era aqui na Doutor Arnaldo, em Pinheiros. Para se movimentar, era difícil, porque você tinha que tomar bonde. O bonde ia até o Largo São Bento. Bem trabalhoso. Tanto é que, em algumas ocasiões, quando o curso ficou muito apertado, a gente até morava nuns casebres, nuns buracos, ali perto da faculdade. Eram muitas horas de locomoção.

 

E foi uma época em que pela primeira vez entrou um grande número de mulheres na faculdade. Nós éramos 80, naquela época, e já teve 12 mulheres do sexo feminino. Foi uma raridade aquilo. Até hoje, depois de tantos anos, nós ainda conseguimos nos reunir, uma vez por ano, às vezes até duas. Dos que estão vivos, nós nos reunimos em 60 e poucos. O resto, “Pedrão” levou.

 

Quando eu terminei a residência, eu recebi o seguinte telefonema do professor Binda Guido Filho. Ele era um professor relacionado ao tórax, um atleta, forte, bonito, morava em São Paulo. Ele me deu um telefonema: “Você não quer vir trabalhar aqui como pediatra?”. “Ah, professor, não sei nada de Pediatria.” Ele falou um palavrão e falou: “Ninguém sabe nada. Pode vir!”. Ele que começou a Oncologia. Não existia Oncologia, câncer de criança. E aí eu fiquei dez anos sozinho, toquei muito a vida. Aí, começou a vir mais gente de fora. Não consegui ir para fora estudar a Oncologia Pediátrica, foi aqui mesmo. E fomos apanhando e ganhando lentamente o índice de mortalidade. Acho que 80% morriam porque não tinham recurso. E depois foi aparecendo aos pouquinhos, nem se compara com os dias de hoje, que é o contrário. Hoje, 80% das crianças com câncer são curadas, mais ou menos. O resto é que ainda sofre por causa das dificuldades no atraso do diagnóstico, chegam tardiamente nos centros hospitalares. E hoje o Brasil inteiro tem.

 

Dos pacientes que eu nunca me esqueço, um era uma criança que tinha retinoblastoma, um tumor no canto dos olhos. Mas ele já tinha sido operado, então, não tinha os olhos. Era um menininho pequeno, tinha lá uns três, quatro anos, andava na enfermaria. E nós tínhamos um mongólico junto, ele tinha uma leucose. E era bravo, gritava e batia nos outros. Todo mundo tinha medo dele, mas, quando ele via o pequenininho sem os olhos, ele saía correndo. Tinha medo. Então, isso foi marcante.

 

E eu, aí, tinha consultório, que nós abrimos na Rua Itapeva, até hoje. Nós éramos em quatro, agora só somos dois porque os outros dois, “Pedrão” levou. Então, continuei com uma clínica grande de Pediatria porque, além de tudo, tinha o suporte da Oncologia Pediátrica. Isso ajudou a tocar a vida. Mas valeu a pena, sim.

 

Não era fácil. Tinha dias em que, como eu trabalhava de manhã no Câncer, depois ia para o consultório, depois ia para casa, às vezes, tinha um pouquinho de depressão. Mas deu para tocar a vida. A Ana também ajudava muito. Tanto é que eu sinto falta dela até hoje. Ela já faleceu faz quatro para cinco anos já. Foi um braço direito.

 

A Ana foi assim: ela já trabalhava como professora num colégio de freiras ali no Brás. E ela morava em Santana e ia de bonde. Eu, muitas vezes, descia do trabalho e ia de bonde também. Então, às vezes, o cruzamento era no bonde a partir da Estação da Luz, que ia para lá para o Alto de Santana. A gente se cruzou uma vez, cruzou duas. Uma vez, sentou um do lado do outro. Aí, nasceu a vida.

 

A minha casa é grande, fico sozinho. Por isso que eu moro nesse lugar que chama Lar Santana. Tem mais ou menos dois quarteirões e meio, é grande. E tem lá mais ou menos 100 velhinhos, inclusive eu. Logo de manhã cedo, eu levanto, tem dias que eu vou ao Graacc. De terça e quinta, tem a fisioterapia, que vai lá de manhã. Depois, de tarde, eu vou para o consultório, mas o consultório é um, dois, zero. Às vezes, eu vou lá e não tem ninguém, volto para casa. Leio, ainda leio muito, apesar dos óculos. Durmo. De vez em quando, tem alguma velhinha que xinga a outra. Os idosos são problemáticos. Não é fácil, não. Tem de tudo lá. Idosa e idoso, os dois. Faz xixi. Depois andam. Faz barulho. Alguém grita. Tem uma que grita: “Socorro!”. Ela grita socorro quando ela precisa de gente. Eu vou passando lá.

 

A gente obedece, finge que obedece. Finge que obedece para não obedecer. Mas esse entusiasmo agora é menor. A gente tem 80 e fumaças anos, né? Então, é menor o entusiasmo, você se sente melhor sentadinho, quietinho, lendo.

 

Meu sonho é que o “Pedrão” me leve calmamente. Sabe o “Pedrão”? E eu quero ver se eu não fico gagá. Talvez já esteja um pouquinho. Mas não quero ficar. Porque eu vejo lá no Lar Santana, os idosos, às vezes, eu pergunto: “O que ele foi?”. “Foi isso, foi aquilo.” Eu estou vendo um lá com 60, 70, que se perde lá dentro.


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