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História

Para refletir: Gestão comunitária da Ilha do Cardoso

História de: Ezequiel de Oliveira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 08/02/2013

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História completa

Ezequiel de Oliveira Eu sou Ezequiel de Oliveira, nascido aqui no município de Cananéia, no dia 17 de novembro de 1939, no próprio bairro do Marujá na Ilha do Cardoso. Minha família veio de Santa Catarina, aproximadamente no ano de 1850. Eles moravam no Vale do Itajaí e numa daquelas enchentes, que dá até hoje, dizem que ficaram sem nada, perderam tudo, e com certeza já conheciam a Ilha do Cardoso e migraram para cá; Ilha do Cardoso no bairro do Marujá, que naquele tempo era chamado de Praia do Meio. Isso teria sido minha tataravó. Ela já era viúva, de descendência italiana, e o marido dela era de descendência espanhola, Rodrigues. E aí eles vieram e ficaram morando lá junto com os mamelucos, os moradores nativos da Ilha, que eram descendentes de índios com portugueses. Família Barbosa, Cardoso, que a Ilha dava o nome, e Mendes, era o pessoal que já estava morando lá desde provavelmente 1600, 1700. Não tenho certeza o porquê da escolha da Ilha. Sempre existiu uma migração dos catarinenses aqui para o litoral paulista. Provavelmente, eles conheciam a Praia do Meio, na Ilha do Cardoso, que era, não, é um lugar muito bom de viver, tem muito recurso natural. Para o lado do Canal tem mexilhão do mangue, tem caranguejo, tem ostra, tem almeja, tem o peixe dentro do estuário. Tem o acesso tranquilo, que é o estuário, do outro lado tem o oceano Atlântico com marisco também nas pedras, têm muitos animais, muita caça. Então muito por isso que eles vieram morar ali. Eu acho que eles não erraram o local. Nesse tempo eles trabalhavam com a agricultura, lavoura, era a fonte de renda, de existência desses moradores. Até quando eu era novo ainda, a gente plantava porque antes de ser parque era livre para se plantar e tinha uma atividade agrícola bem forte na Ilha: Arroz, feijão, cana-de-açúcar, mandioca. O pessoal fazia muita farinha para vender. Basicamente o arroz e a farinha eram as coisas que o pessoal mais vendia para fazer alguma grana, para comprar alguma coisa que precisasse. Era muito pouco o que se precisava do mercado. A pesca não tinha desenvoltura, até porque não tinha mercado de pescado. E por que não tinha mercado de pescado? Primeiro porque era pouco conhecido nos grandes centros urbanos o peixe, e segundo porque havia uma dificuldade muito grande de conservação. Naquele tempo, para conservar tinha que ser salgado, seco no sol porque não tinha gelo, não tinha esse mecanismo de armazenamento de conservação de pescado. Só a partir da década de 50, mais precisamente de 1955 em diante, que começou a ser vendido o peixe. Até então, o único que o pessoal vendia era a Tainha. Isso porque a safra da Tainha é no mês de maio e junho e o pessoal salgava para vender. Daí ia para a zona rural do Vale do Ribeira, para o pessoal que precisava comer algum peixe lá. A Tainha competia no mercado da carne seca, o cara ou comprava a carne seca ou comprava o peixe seco. Mas ninguém salgava outro peixe, só a Tainha, então, a partir de 55 é que começou a aparecer a coisa do gelo e tal e alguns compradores de pescado. Esse mercado ao qual me refiro é do tempo em que eu era bem novo. Participei já de alguma atividade de venda de pescado, mas isso agora, recentemente numa distribuição de peixe fresco dentro do Vale do Ribeira. Através da colônia de pescadores. Quando eu era criança até, desde quando eu lembro, o número de famílias era bem menor do que hoje. Tinha entorno de 20 famílias na comunidade inteira, e família que fazia agricultura e pesca. Não tinha escola. Eu lembro que, já que é para falar da minha infância, eu lembro que entrei na escola com quase dez anos porque eu tinha que ir a remo até aonde tinha escola, que era no Ararapira, hoje é Paraná, naquele tempo era distrito paulista e lá tinha uma escola que tínhamos que ir a remo. E daí a gente só conseguia ir quando aprendia a pilotar a canoa. Nós íamos em três pessoas. Tinha mais três meninos que iam comigo. Um era de uma família de um japonês que estava morando lá meio recente. Iam comigo à escola o Sátiro, Hélio e Hiroshi, os três companheiros. Percorríamos uma trajetória de mais ou menos três quilômetros de estuário até chegar lá em Ararapira. A escola na verdade era a moradia da professora. A escola tinha um salão mais ou menos desse tamanho aqui. Essas escolas do primeiro até a quarta série na zona rural, até hoje é aula para primeiro ano, segundo ano, terceiro ano e quarto ano na mesma sala. Então eles dividem metade da sala olhando para uma lousa e a outra metade olhando para outra, e dá matéria do primeiro e do segundo aqui e do terceiro e quarto do outro lado. Eu estudei nessa escola até o terceiro ano, e daí fiz o quarto ano já quando era adulto no supletivo. Naquele tempo o pessoal não era muito ligado em escola, até porque não tinha, e quando surgiu essa escola e a chance de eu ir, já que eu conseguia ir até lá remando a canoa, me interessei em ir estudar lá. Partiu de mim a vontade e o interesse de estudar. Os meus pais, a minha mãe era descendente desse pessoal que veio de Santa Catarina, que eu relatei, o meu pai era daqui do continente de um sítio chamado Itapanhoapima. Ele ia pescar, no tempo da safra da tainha, que era uma pescaria que atraía muita gente, juntava o pessoal do continente para ir para o Marujá, até a Ilha do Cardoso pescar. Tinha até um intercâmbio entre moradores nativos do continente com moradores nativos da Ilha do Cardoso, tinha gente que ia plantar alguma coisa lá e gente que ia pescar com eles na época da tainha. Aí numa dessas idas do meu pai, ele acabou conhecendo minha mãe e se casando. Tinha muito contato entre as pessoas do continente e da ilha. Tinha esse intercâmbio do pessoal que ia lá ajudar a colher arroz depois iam pescar tainha e tal. Sempre houve vários bairros da região de Ariri, Araçaupeva, Araçauba, Rio Vermelho, Varadouro, bairros do continente, onde dava a maior produção, sobretudo produção de arroz. Mas tudo isso era no passado, quando eu era moleque que tinha esse intercâmbio. Depois a gente plantou muito, fez muita plantação dentro do parque mesmo, plantação de arroz, de milho, feijão, mandioca para farinha. Nós éramos seis irmãos, quatro mulheres e dois irmãos – está todo mundo vivo ainda. O mais velho tem 80 anos e a mais nova tem 68, 69. Tem duas irmãs que estão aqui em Cananéia e duas irmãs e um irmão que moram junto comigo na Ilha do Cardoso. A minha família hoje que é a mais numerosa, tenho dez filhos, tenho cinco mulheres e cinco homens. E todo mundo morando lá perto da gente. Então, um terço da comunidade é parente, é filho, neto. E é muito legal, há sempre muita gente junta, muita festa, aniversário de qualquer um enche de gente porque somos muitos, é bem legal. E isso desde sempre. Quando mais novo, a diversão era o jogo de futebol e baile, um baile que a gente fazia, fandango, que era a música dos caiçaras. Mas eu mesmo, nunca me ajeitei a tocar instrumento de corda. Eu conheço a Ilha inteira, e conheço os moradores da Ilha inteira. Se precisar lembrar o nome de cada cidadão que mora na Ilha do Cardoso, eu conheço todo mundo. Eu trabalhei desde 81 até agora 2008 como agente comunitário da saúde, e o nosso trabalho era muito mais do que agente comunitário da saúde, era tratar os problemas das pessoas. Então eu visitava a Ilha do Cardoso inteira, inclusive, em alguns bairros do continente eu conheço todo mundo pelo nome. Nesse trabalho tive várias passagens interessantes do ponto de vista da recuperação de saúde, como picada de cobra, parto de emergência, nefrite, problema renal grave, tiveram várias coisas, mas eu prefiro ressaltar o que me animava mais que era trabalhar com a saúde preventiva, com a orientação de higiene, saúde das mães etc. Isso era a coisa que mais me empolgava, e fitoterapia, que é a medicina tradicional. Uma coisa muito interessante que mudou bastante a trajetória da comunidade foi a orientação sobre verminose e suas consequências, porque como é que a gente podia repassar para a população como um todo? A gente bolou um teatro, dramatização, mostrando como é que se pegava a verminose e como se evitava. Foi um trabalho muito legal porque desencadeou todo um interesse comunitário pela melhoria da condição sanitária, pelo cuidado maior com a água, com a alimentação. Desencadeou até um projeto de abastecimento de água na comunidade. Em 95 a gente começou a movimentar, a articular isso, a tentar elaborar esse projeto e, em 98 a gente implantou o projeto de Água na Serra, porque até então a água que a gente estava coletando e tomando era água de poços semi-artesianos. Poço semi-artesiano é um cano de PVC com um filtro na ponta, com bombinha em cima para puxar nela, com bomba elétrica ou bomba manual; e essa água que era jogada na caixa para uso total das famílias. Daí a gente detectou que tinha alguns pontos da comunidade em que essa água estava contaminada, por causa da precariedade do sistema sanitário. E assim bolamos esse projeto de abastecimento de água e o implantamos em 98. Implantamos uma rede adutora de seis quilômetros e ligações em todas as casas dos moradores antigos. Eu fui autor desse projeto. Arrumei engenheiro, a gente tinha amizade com ele, para elaborar o projeto técnico, arrumei o agrimensor para fazer o projeto topográfico, e depois corremos atrás porque como é parque tinha toda uma complicação por causa dessa captação de água, desse caminho para levar os canos e tal, então toda essa dificuldade que tinha por questão da preservação do parque precisava ter laudo, tive que correr atrás de técnico para fazer laudo biológico, botânico, geológico, e correr atrás dos técnicos para fazer isso para nós na “faixa”, de graça, e conseguimos. Esse projeto de saúde foi desenvolvido no Vale em 81 e a ideia era treinar agentes de saúde para que eles fossem capazes de tratar dos problemas de saúde dessas comunidades isoladas. Porque a Ilha era super isolada em 81, ninguém tinha barco, tinha um barco que hoje é do Departamento Hidroviário, naquele tempo era da Sorocabana, o barco que ia de Iguape até Ariri uma vez por semana, então isso não servia para nada. Então por conta disso foram treinadas pessoas em pontos estratégicos para tratar da saúde da comunidade. E eu tratava 85% dos problemas de saúde dos comunitários, tratava lá. A filosofia do projeto orientava para que as comunidades escolhessem uma pessoa, votassem numa pessoa para ser treinada. E por que eu fui votado para ir para o treinamento? É porque eu já fazia esse trabalho de saúde, eu já mexia com algum remédio alopático e já conhecia algumas ervas. Enfim, de certo modo eu já vinha tratando das pessoas, e daí eles votaram, meio que me aclamaram para eu ir para o treinamento. O treinamento durou um bom tempo na Regional da Saúde, em Registro. Tinham técnicos e coordenadores muito gabaritados para esse trabalho, para treinar a gente, para capacitar, para cuidar. Eu fiquei vários meses em Registro fazendo o treinamento. A gente saia na segunda-feira cedo ia para o treinamento e voltava na sexta-feira à noite para Cananéia, e no sábado partia para o Marujá. Nós éramos um grupo de 19 agentes que foram treinados, eles escolheram meio que a nata das lideranças comunitárias para levar para esse treinamento, e nós éramos em 19. A gente ficava numa pousadinha em Registro, o cara nos cobrou muito barato para podermos ficar, porque todo mundo tinha pouco recurso e o projeto não previa custeio de deslocamento e de alimentação, tínhamos que bancar com recurso próprio, e como a comunidade era bastante pobre se tornava difícil angariar fundos comunitários, você tinha que se virar. E foi assim para todo mundo que fez esse treinamento, foi dessa forma. E veja a ironia, o projeto aconteceu no final do governo Maluf, que não tinha nada de social, nada de democrático, mas ele nomeou um secretário da saúde que era o Jatene, e ele desenvolveu isso. O Jatene era... É um cara de mente muito aberta, bastante social, e ele implementou esse projeto no Vale do Ribeira. Pensando na dificuldade, no isolamento do Vale do Ribeira, tinha um pessoal muito bom no treinamento: Maria Cecília de La Torre, Lídia, Eduardo Nakamura, esse era o pessoal que treinava a gente. De Cananéia nós fomos em dois, eu e a Neusa. Participaram também pessoas de Iporanga, Apiaí, Sete Barras, Miracatu, Itariri, enfim, tiveram representantes do Vale inteiro, pessoas que foram chamadas para a formação. Eu também já conhecia um pouco de fitoterápicos, esse conhecimento é tradicional, conhecimento que minha avó e meus pais já usavam, tratavam problemas de saúde com esses chás. Então, eles já sabiam um pouco e depois a gente incrementou um pouco mais. O que a gente aprendeu foi vendo eles fazerem. Não tem muito essa coisa no meio caiçara de dizer “olha a receita é assim ou assado”. É vivendo, vendo e aprendendo. O jeito do aprendizado é assim. E até hoje é assim. O filho do morador caiçara ele aprende a fazer artesanato ou aprende pescar indo junto, vendo e começando a fazer, é mão na massa. E havia outros que conheciam também, mas eu estava mais voltado para o tratamento comunitário, enquanto que os outros usavam mais no âmbito familiar. Eu sempre me guiei a partir do conhecimento dos mais antigos, nunca inventei, experimentei coisa nova a não ser quando chegava alguém ou alguma leitura que eu lia, que ia experimentar. A variedade de chás é enorme, a questão do chá caseiro, na maioria dos casos é coisa que pude experimentar. Vou dar o exemplo de uma coisa que aprendi depois, quando fui treinado e achei fantástico, que é o chá de cajueiro com folha de goiabeira para amigdalite, ele é bom para cicatrizar pele de ferimento, mas, sobretudo para amigdalite. Eu comecei a tratar a amigdalite da comunidade sem antibiótico, comecei a tratar com gargarejo com esse chá de cajueiro com goiabeira. Então, mas só indicava isso quando era dentro da comunidade, quando era fora, que eu não ia acompanhar, então eu optava pelo antibiótico. Então, cada caso era um caso não dá para generalizar. Antes de entrar para a saúde eu pescava. Porque mesmo quando dava para plantar mais, para ter maior produção agrícola, eu sempre pesquei. A gente fazia agricultura e pescaria, depois a gente ficou só com a pesca porque houve muita restrição com a legislação de parque, e a gente só aguentou, todas essas comunidades, porque começamos a trabalhar na atividade pesqueira... A partir da década de 70 teve uma repressão maior em cima dos comunitários no que diz respeito ao manejo florestal, então a gente optou mais pela pesca e fazia pequenas roças, pequenas coisas, mas a fonte de renda maior era da pesca, é o que a gente fazia mais. A Ilha virou parque em 1962, e me lembro bem de como foi. Não chegaram pessoas aqui, naquela época o processo era totalmente antidemocrático. Eram os técnicos no gabinete que determinavam tudo. Foi no governo Carvalho Pinto que eles estabeleceram o decreto de parque e só mais tarde que a gente ficou sabendo e começamos a sofrer as consequências da restrição. Mas foi legal porque no início a gente viu que era uma coisa bem negativa, restringia muito a atividade dos comunitários, tanto é que esse pessoal da parte interna da Ilha do Cardoso saiu fora, todo mundo coagido pela repressão da Polícia Florestal porque não podiam fazer mais roças, não podiam derrubar os troncos de árvore para fazer as canoas, que era o único meio de locomoção deles. Então muitos saíram, migraram. E o Estado não ressarciu ninguém, não pagou nada, era do jeito que eles tinham escritura da terra inclusive, e tiveram que ir embora meio que forçados. Nós seguramos a peteca porque a gente vivia mais da pesca então dava para equilibrar e conseguimos ficar. Mas a partir de 78, 79 a gente começou a se aliar ao Estado na manutenção do parque porque a gente via que a especulação imobiliária era pior do que a legislação do parque, então a gente começou a optar por se aliar ao Estado, tanto é que em 77 a Marinha queria encampar na Ilha do Cardoso e a gente fez uma movimentação em favor do Estado muito grande, fez uma assembleia com quase 100% dos moradores da Ilha do Cardoso, aqui em Cananéia, assessorado pela Igreja, com o padre João. Depois em 82, também quando o Governo Montoro ganhou a eleição em São Paulo, a União queria também tomar o Parque e a gente também se manifestou a favor do Estado, como aliado pela manutenção do Parque; fizemos um grande movimento, angariamos documentação, tudo para ajudar a consolidar o Parque porque nessa altura do campeonato vimos que ele era uma coisa boa para evitar que a especulação imobiliária detonasse a Ilha, porque víamos o que estava acontecendo no resto do litoral paulista. Eu me lembro da presença da Polícia Ambiental, Florestal, embargando o roçado ou qualquer coisa assim. Não teve um aviso prévio, naquele tempo não tinha isso. Lá na comunidade do Marujá a atuação da Polícia Florestal foi muito pouca porque eles tinham pequenas roças... Eu lembro quando um morador bem antigo lá queimou uma pequena roça, porque o sistema era queimar para preparar o solo. Eles viram a fumaça da queimada e foram lá embargar, aí o velho veio me contar que eles tinham ido lá e disseram: “Já queimou?” “Já.” “Então planta e vamos ver, se eles voltarem a gente vai entrar com recurso”. Então, eles acabaram não indo mais. Lá não teve uma batida muito forte deles porque a coisa que a gente fazia era de pequeno impacto. E tinha muito conhecido dentro da estrutura do Estado, sobretudo no Instituto de Pesca em São Paulo tinha bastante gente aliada a nós, que também dava certa cobertura para os moradores. Muitas pessoas que frequentavam o Vale do Ribeira, que desenvolviam algum projeto, o pessoal da SUDELPA, por exemplo, que era Superintendência do Desenvolvimento do Litoral Paulista, nós fizemos amizade com alguns deles. Eu cito um que depois ficou compadre meu, o Sérgio que era um elo muito forte entre a comunidade e o pessoal de Cananéia e o Estado. Eram pessoas que passavam figurinhas para gente, nós passávamos as coisas para eles e eles faziam o meio de campo. Então a Ilha virou Parque, mas só na década de 70 que eles implantaram a sede dele aqui, no Núcleo Perequê. Até então não tinha nada do Estado lá. Hoje tem a base de apoio de Cananéia, da Secretaria de Meio Ambiente, e tem lá no Núcleo Perequê dentro da Ilha. Lá no nosso bairro, só agora em 2000 que eles implantaram um núcleo de fiscalização que quase nunca funcionou. A gente ocupa muito para fazer assembleia, desenvolver fandango e tal, porque eles não ocupam. O Estado é muito omisso. Criou o Parque e só depois de muito tempo que veio para cá, tanto é que para se ter uma ideia o Parque foi criado em 62 e só teve um plano de gestão do Parque, da gestão com os moradores só em 97. Eu lembro que em 93, nós já estávamos cansados de solicitar que fosse feito o plano de gestão para determinar o que se podia fazer lá, porque com a legalização do Parque não podia fazer nada, não devia nem ter morador lá e a gente solicitava que fosse implantado um plano e que dissesse quem pode, onde e o que pode. Então, como eles não fizeram, em 93 nós fizemos um plano comunitário, um plano de gestão comunitária. Botamos no papel o que era legal, o que podíamos e o que não podíamos. Daí em 97 quando começou a ter as reuniões temáticas para a elaboração do plano, nós entregamos esse documento e foi inserido no plano oficial e está valendo até hoje, todas as coisas que a gente tinha colocado lá; manejo florestal, reformas e construções, enfim toda a vida do comunitário. Em 62 a gente não sabia por que estavam decretando o parque. Primeiro porque não havia essa preocupação ambiental no país, e em lugar nenhum, como hoje. E foi muito estranho, pois a região estava extremamente bem conservada, a atividade do morador caiçara dentro do parque, apesar de ser um número muito maior de pessoas morando do que hoje - muita gente saiu fora, eu estimo que um terço da população saiu do parque dessa parte interna - o parque estava extremamente conservado. E por que estava extremamente conservado? Porque a tecnologia e a cultura caiçara é muito parecida com a cultura indígena, o pessoal fazia as atividades para comer, ninguém extraía uma montanha de marisco, ninguém ia pescar mil quilos de peixe, a preocupação era o próprio consumo, coisa muito pequena. Pequenas roças, derrubada de uma madeira nossa, que a cada dez anos, vinte anos que é o tempo que a canoa de madeira dura, então era pouco corte de material, de vegetal dentro da unidade. E roça era tudo muito pequena, por isso que estava conservada. A Ilha do Cardoso hoje tem menos de cinco por cento do seu território desmatado e ocupado por moradores. A área desmatada é menos de cinco por cento, então o impacto sempre foi muito pequeno por causa dessa cultura. Não se justificava decretar um parque naquele momento, então existem duas ideias, dois pontos de vista sobre isso que o pessoal defende. Um é porque naquele tempo o Adhemar de Barros, que era o Governo do Estado de São Paulo, e o Lupião Mendonça do Paraná, tinham grandes latifúndios, formavam enormes latifúndios. É sabido que eles trocavam arame farpado velho, de fazendeiros antigos, por arame novo, para assim pegarem aquele velho e fazerem o latifúndio ter uma cara mais antiga; palanque de cerca eles trocavam. Então tinha essa coisa do Lupião Mendonça lá no Paraná e do Adhemar de Barros aqui, porque este era e é o núcleo mais conservado do Estado de São Paulo. Outra visão é que criaram o parque por conta das guerrilhas que surgiram, a Guerrilha do Lamarca no Vale do Ribeira. Seria para marcar presença nesses pontos estratégicos para evitar uma possível guerrilha. Tem essas duas ideias. Eu pessoalmente tenho uma terceira que seria retomar esses pontos estratégicos, muito bonitos, para fins imobiliários de alto nível, porque houve uma pressão muito grande nesse sentido. Em 1981, por exemplo... A partir de 55, tinha uma família lá que comprou umas glebas de terra e loteou um pouco da restinga do Marujá - porque lá é uma restinga, de um lado é um estuário e do outro é o Oceano Atlântico, e para cá tem o pé da Serra e no final tem o estuário saindo para o mar, o final da ilha. E lá eles lotearam um trecho muito grande, venderam lotes a partir de 55, mas aí com o decreto do parque em 62 eles pararam de vender e pararam de pagar quem estava pagando. E depois houve toda uma pressão para liberar aquilo para fins imobiliários. Aí, posteriormente em 81, o Takaoka construiu uma casa lá, e ele era o cara do Alphaville, muito aliado ao Governo do Estado, Paulo Maluf, era a mão da especulação dentro da comunidade. Eu lembro que a gente denunciou para todos os órgãos, mas o cara construiu mesmo assim; era poderoso. Depois em 84, o Eduardo Melão, primo do João Melão construiu um casarão também um pouco para baixo, lá na restinga um pouco ao sul do Marujá. E até em 95, o André Beer, que é o cara da General Motors, tentou construir no final da restinga, lá no Pontal do Leste, também uma mansão que a gente denunciou e essa daí ele recebeu uma reprimenda do juiz e teve que demolir, teve que tirar o material quando estava ainda no alicerce. Mas as outras duas casas, a do Eduardo Melão foi demolida agora, no ano passado e essa outra está de pé até hoje. Então todos esses caras estavam entrando lá para fazer pressão, pressionaram aqui na Prefeitura de Cananéia, na Câmara de Cananéia. Os vereadores são um grupo de desavisados, com pouco esclarecimento jurídico, votaram um projeto de expansão urbana dentro da Ilha do Cardoso que foi derrubado pelo secretário Feldman do Meio Ambiente. Então, tinha toda uma pressão para abrir a Ilha para construção, em todos esses momentos, e foi ai que nós nos aliamos ao Estado na manutenção do parque, para frear a especulação imobiliária, porque sabíamos que esta especulação era o nosso fim. Nós já havíamos visto o que aconteceu em todo litoral, quando eles chegaram lá o morador caiçara foi para Vila Socó, para as encostas do morro. Vila Socó que eu falo é a aquela que pegou fogo lá em Cubatão. Então, foi uma história de luta, muito longa, para a manutenção do Parque. A pressão era enorme para liberar a Ilha para fins imobiliários. Lembro que eles traziam pedreiros de fora. No caso do Takaoka, ele levou uma balsa dessas de travessia aqui cheia de material dele para lá. Tirou a balsa, que é um serviço público daqui, por vinte horas para levar o material dele para a Ilha. Em 81, a comunidade como um todo não tinha clareza do risco. Era a gente mesmo que tinha que dar a cara. Por que eu digo que era a gente? Porque eu comecei a ver o histórico do que estava ocorrendo no litoral norte paulista e no litoral sul carioca, Trindade, no litoral sul carioca, Picinguaba, no litoral norte, Toque-Toque, enfim toda aquela região ali eu acompanhei. Tive pequenas chances de ir até lá e ver, e eu queria passar isso para os comunitários. “O bicho está vindo, o rolo compressor.” Mas o pessoal não levava muito a sério, não tinha clareza do risco. Então a gente tinha que lutar muito para evitar que essas coisas acontecessem. E a especulação acontecia na área que aquele cara loteou, ele tinha o direito de vender, e nem era morador nativo. O loteamento foi antes do Parque, então eles estavam vendendo os lotes lá para o caras. E essa pressão que estou citando do Takaoka e do Melão é introdução de gente poderosa para tentar aliar-se a eles para tentar excluir aquela restinga do Parque. O morador caiçara é extremamente pacato, ele é pacífico e é até passivo. Então a gente que tinha visão da coisa que dava a cara para bater, porque a gente estava vendo, entendendo o mecanismo, e não tinha como ficar quieto. Então tentávamos mobilizar os comunitários, mas até agorinha tinha muita gente da comunidade que tinha grande vínculo com essas pessoas de fora. A casa do Eduardo Melão era um ranchão, um casarão que ele vinha para pescar, ficar lá e tal com os companheiros dele. E o processo demolitório o obrigou a demolir e retirar o entulho, e estão até hoje tirando o entulho... A do Takaoka ainda está de pé. Ele já faleceu e ficou para os amigos dele, mas está no processo. Vai ser demolida também. Então, eles estão demolindo todas as casas de ocupantes não tradicionais, de veranistas. Vai ficar só casa de morador tradicional. Hoje a gente tem uma ligação muito forte com o parque, com o Estado, porque quando se criou o plano de gestão se criou também um conselho, que se reúne mensalmente ou até mais de uma vez por mês quando há necessidade, onde se discute as questões do parque, das famílias dentro dele, da questão ambiental, das pesquisas, além da vida dos comunitários. Viver hoje na Ilha está diferente. O turismo, que começou a chegar em 80, modificou muito a cara dos comunitários, porque aumentou a visão de consumo e modificou bastante os modos de vida, chegou a televisão... Mas é a dinâmica, a população, a sociedade é dinâmica, você não pode impedir que tenha esse consumo alterado. Que cria problemas, claro que cria, porque imagina você estar consumindo meia dúzia de coisas e daí você amplia para sessenta? Você tem que capitalizar mais, tem que trabalhar mais para poder se satisfazer. E eu sempre falo nas minhas conversas, que o cerne do ser humano é o grau de satisfação de onde ele vive. Então você pode estar muito satisfeito com pouca coisa, ou não estar satisfeito com um monte de coisa e sempre correndo atrás do novo, do que está na moda (risos). A primeira vez que vi televisão lá não faz muito tempo, essas coisas eram da cidade. A primeira televisão na Ilha não tem mais do que 15 anos. Era do meu sobrinho. Eu lembro que a primeira vez que chegou a televisão nós fomos ver o futebol, a Copa do Mundo. Porque não davam bola para os outros programas, para os jornais, a gente via mais era o futebol. No regime militar por aqui não tinha muita ação, a única coisa que eu me lembro é dos militares vasculhando as casas lá no tempo do Lamarca, da guerrilha. Eu lembro que eles vasculharam casa por casa, e aquela que era forrada, que tem aquelas embocaduras no forro para subir, eles subiam para olhar lá, vasculhavam tudo. Eles andavam dizendo que havia um bando de terroristas que podia estar por ali, e entravam na casa e vasculhavam. O povo por sua vez comentava muito pouco, porque a gente sabia da guerrilha que estava no Vale do Ribeira, mas sabia muito pouco da política... E a gente usava a expressão Ditadura. Falava. Isso falava porque eu era super atuante politicamente. Nunca tive medo. Eu via o pessoal que não abria a boca em certos assuntos, eu nunca tive esse problema. Sempre falei, sempre achei melhor correr o risco do que ficar quieto. Mas era comentado dentro da comunidade. E era comentado, assim, a maioria a favor da repressão, a favor dos militares (risos) o que é pior. Porque quanto mais subdesenvolvido, mais conservadora a população, e mais submissa também. Desde os dezoito anos de idade eu já exercia uma liderança dentro da comunidade. Eu sempre achei e entendi que veio por conta da necessidade, por conta das coisas que tinha de fazer. Aqui tinha bastante problema. Só para ter uma ideia, nós fizemos, no tempo quando eu comecei a trabalhar em 84, uma ficha epidemiológica que era o nome do paciente, onde mora, idade, qual o problema de saúde e qual o encaminhamento, procedimento a ser feito. Eu peguei esse material e depois de um ano e meio fui tabulando e fui vendo quais eram os problemas de saúde da Ilha, e tinham muito problemas de saúde. Tinha piodermite, que é ferida infectada, tinha amigdalite, tinha um índice de verminose altíssimo, tinha IRA que é Infecção Respiratória Aguda, tinha um monte dessas coisas, tinha muita diarreia e vômito. Tinha pouca diabetes e hipertensão. Hoje é o contrário, tem mais diabetes e hipertensão, mas a qualidade de vida da comunidade melhorou violentamente. Hoje você não vê caso de diarreia, fica cinco seis meses sem um caso de diarreia e quando tem é aquela viral que não tem nada a ver com o ambiente. Então, tudo por conta dessa orientação de saúde e higiene e por causa desse trabalho de saneamento etc., foi o que fez essa melhoria. Mas é evidente, quando você olha aquele passado e olha hoje. Hoje quase ninguém sai da comunidade, ninguém quer migrar porque tem uma condição de vida legal por aqui. Atualmente, a minha principal preocupação tem sido elaborar e melhorar o plano de gestão do parque. Caça, por exemplo, não pode porque dentro do plano a gente não previu caça. A gente deixou... deixa o bicho. Mas fazem... Fazem caça clandestina. Alguns moradores fazem. Tem gente que mora encostado ao pé da montanha, então, isolado, ele não tem acesso a mercado para comprar carne, assim, de vez em quando ele mata uma queixada, uma paca, eles fazem isso. Mas a maioria é sossegada, está bem harmônica a relação dos animais com a comunidade. Estão trabalhando com roça, com pesca, com algum manejo florestal porque tem esse cerco fixo que é uma armadilha de pesca que você precisa tirar a estaca de madeira da mata para fazer, então essa coisa acontece, mas está tudo previsto no plano, toda essa gestão. A Juréia tem muito mais problemas porque a Juréia é mais restritiva, lá não é parque, é uma unidade restritiva, Reserva Ecológica. A Ilha do Cardoso é um Parque Estadual, tem uma legislação um pouquinho mais branda. Lá na verdade, só podiam ir alguns pesquisadores em algumas áreas, e o resto é tudo preservação permanente. Quando começou a entrar o turismo, a gente sabia do risco, do perigo, é entrada de pessoas do mundo urbano dentro de uma comunidade tradicional bastante pacata e a gente sabia que tinha risco do ponto de vista cultural, do ponto de vista da contaminação, da poluição etc. Começamos a trabalhar com a comunidade discutindo sobre que grupo que nós queríamos que viesse, porque turismo é uma grande massa, mas não é um bloco só, eles são várias categorias. Então, a gente começou a tentar detectar essas categorias. Eu me lembro que a gente descobriu cinco categorias diferentes de turistas. O pescador de lazer é uma categoria. O que ele traz? Quase nada, vem matar os filhotes de peixe da gente, vem brincar com a profissão do pescador. O turismo de iate, esses barcos enormes que vêm fazendo aquela marola provocando erosão nos barrancos do rio, ele chega lá, ancora lá de frente, não gasta nada com a comunidade, atravessa a praia e vai jogando latinha vazia. Até que é bom porque os caras catam e vendem, mas vão jogando lixo nos caminhos, nas trilhas, não deixam dinheiro, não deixam nada. Têm os veranistas, os caras que adquiriram casas, o que eles trariam? De repente pagam um caseiro para ficar cuidando lá, mas sabe que quando eles estão na casa deles, é um comunitário a menos que você tem para mutirão ou para qualquer atividade, está preso lá; e é um salário irrisório que não vai levar a lugar nenhum. Por último, tem os campistas. Iam muitos universitários no começo, ficavam nas barracas, e também os caras que se alojam nas pequenas pousadas, quarto de aluguel. Então, a categoria que nós pretendíamos trabalhar eram essas duas últimas. Evidente, são pessoas que trazem recursos para a comunidade. Já que vão estragar um monte de coisa, que pelo menos deixem alguma recompensa financeira. E a gente organizou isso no decorrer do tempo, eu digo que nós tivemos sorte porque, se trata de uma comunidade isolada, eu mesmo levei uma hora e vinte de motor à gasolina para chegar aqui. Então de barco, nas escunas, leva três horas para chegar lá. É longe, e isso foi o fator bom, o fator legal para nós porque dificultou à chegada do turismo. Ele foi chegando devagar e a gente foi se organizando para a chegada dele. A maioria das casas se adaptou, fizeram um quarto para aluguel e a gente posteriormente, começou em 93, implantamos esse plano de gestão da comunidade. Uma das coisas fundamentais que nós fizemos foi uma visão de distribuição de renda, da receita do turismo para a comunidade inteira, porque já que eles vão chegar, e vão criar problemas para a comunidade inteira, nada mais justo do que a grana ser distribuída na comunidade inteira. A gente começou a pegar as cotas das barracas e repassar para todos os moradores, criar infraestrutura sanitária mínima e levar um número X de barracas para o quintal deles como forma de distribuir renda. E quem tinha cinco quartos ou mais dentro da comunidade foi proibido de construir mais, e a gente liberou para quem não tinha nada para poder construir. E isso está valendo até hoje. Foi um passo fundamental, do ponto de vista da organização do turismo, a socialização do recurso para criar um elo de unidade dentro da comunidade. Junto com isso a gente estipulou um grupo, um número de suporte: tem tantos quartos, tem tantos leitos, definimos um número X de barracas e acabou. Se você quiser ir lá na alta temporada, tem que ligar em outubro para agendar, no máximo no começo de novembro para achar vaga para o réveillon, porque os caras ligam lá antes e reservam. Hoje tem limite estabelecido e é rígido, chega lá e não tem vai ter que voltar. Junto com isso nós implantamos uma coisa muito interessante que é uma contribuição de cada morador com o caixa da Associação para gerir a comunidade. A Prefeitura não faz nada, o Estado não faz nada. Para não perder a dinâmica de reivindicar nós também não cruzamos os braços esperando que eles fizessem, então a gente inventou, bolou essa contribuição. Daí cada barraca que está nos quintais ou donos do camping paga um real por dia e cada hóspede cinquenta centavos, isso vai para um caixa da comunidade para fazer coleta seletiva de lixo, agendamento, pagar o telefonista do agendamento, limpeza de trilha, enfim, toda atividade da comunidade. A gente vai melhorando gradativamente. Recebemos bastantes escolas. Turmas de quarenta, pode ser de oitenta, pode ser de vinte dependendo da escola. Nós temos vários jeitos de trabalhar. Eu particularmente até desenvolvi roteiros para as escolas. A escola dizia que queria vir, então eu bolava um roteiro, passava por fax, e eles escolhiam o roteiro que fosse mais aplicável para a realidade deles. E é assim que funciona. Outros já vêm com roteiro pronto já. Tem escola que vem e fica um dia, outras ficam dois, ficam até quatro dias, aí depende da atividade... Um dos roteiros era assim, eu pegava um dia cachoeira, outro dia tem piscinas naturais, outro dia era estudo de restinga e costão rochoso. Isso cabe num dia, sítio arqueológico que é dos sambaquis, o reconhecimento da comunidade, passar e ver a comunidade, um dia de palestras de conversas do que estamos fazendo aqui, um dia para ver a pesca do cerco. Cheguei até a fazer uma coisa que foi muito melhor, levar a turma um dia para ver a roça de mandioca, tirando a plantação, ver a fábrica de farinha e vê-la sendo fabricada. Bolamos o roteiro de acordo com a demanda, coloca no papel uma série de atividades e eles escolhem o que eles podem fazer, qual o interesse deles e o tempo que terão. Tem escola que vem com agência e com roteiro pronto. O agendamento é responsabilidade da Associação, feito por esse telefone comunitário mesmo. Então, o que eles fazem, se for nominal, você liga e fala: “Oh, eu quero ir pra casa do seu João, então dá o recado para o seu João, por favor.” O cara liga e deixa o número lá, o seu João vem e liga pra agência e fecha. Quando vem sem nome, aí ele escolhe a bola da vez; passa uma vez para uma pousada e outra vez para outra. Porque tem várias pousadinhas. Ali no Perequê, na Ponta Ilha Norte, lá tem uma coisa que é muito interessante que nós implantamos. Nós enxotamos todos de fora para fora da Ilha, ninguém faz comércio lá a não ser os nativos (risos). Isso é uma dinâmica de muito tempo. Nós fomos perseguindo, perseguindo, colocamos na reunião do conselho para discutir ganhando o conselho em favor da ação nossa. Porque nós temos a Ilha do Mel, vizinha nossa lá. Não tem nenhum nativo dono de pousada, é só gente de fora, e aqui nós queríamos fazer o inverso. Aqui não, aqui tem que ser para os comunitários. Nós organizamos tudo até agora, e agora que o bolo está pronto os caras vão comer? Não é justo. Nós tivemos várias situações de confronto, eu não gostaria de citar nomes, mas teve o caso de um cara que tinha um bar de forró, e que fazia um lixo desgraçado lá, muito uso de droga, e nós botamos ele para fora da Ilha. A justiça cassou o direito dele e ele foi embora. Teve outra mulher, outro casal, que tinha uma pousada lá, também já arrebentamos, já não pode levar mais gente, está lacrada. O único que ainda faz comércio, de pequeno porte, é um que serve uns bolos ali, ainda tá lá, mas já está com os dias contados também. A gente entra no conselho, o conselho entra na justiça e a justiça manda fechar. Tivemos um momento difícil, de transição, mas agora está tranquilo porque ninguém mais vai tentar, até porque ninguém pode entrar lá. Os que estão... Só entra quem casa com comunitários, com morador. Hoje é totalmente impossível comprar uma casa lá porque é parque. Algo que me preocupa, que eu vejo um pouco ameaçada, é a cultura tradicional por causa do turismo, por quê? Porque tem gente lá que está virando hoteleiro e o meu discurso é que nós não sejamos hoteleiros, que se mantenha a atividade pesqueira, a atividade tradicional, o artesanato, a pequena agricultura, e que faça dessas coisas, dessas atividades o produto turístico, que o turista vá lá para ver a pesca, ver o cerco, ver a casa da farinha, para ver o artesanato, comprar o artesanato e não para ver só o recurso natural que é muito belo também, mas eu defendo que esse produto seja o mais forte. Eu nunca me opus a essa dinâmica, a transformação do jovem. Eu acho que a sociedade é dinâmica, você não vai criar mecanismos para deixar estáticas as coisas. Vai mudar sim. Entrou a televisão, vai ter mais consumo, vai mudar o caráter da música, nós temos um bando de pessoas que não gosta do fandango, que é a música tradicional caiçara. Temos muito mais turistas que gostam do que comunitários, mas tem que lidar com isso, não tem outro caminho. Eu não entendo que tenha outro procedimento que não seja aceitar que a sociedade é dinâmica. Hoje, os jovens não estão saindo mais. Nesses últimos dois anos, tivemos dois ou três que saíram, e teve um que saiu e voltou em seguida. Nós colocamos uma regra no regimento interno do parque, e estamos até escrevendo agora um termo de referência, onde está escrito que quem sair por mais de dois anos perde o vínculo com a comunidade e ele não pode voltar a ter moradia, ele pode voltar para casa do pai, mas não pode tocar comércio, não pode construir coisas para ele. Somente por questão de educação e saúde que ele pode ficar vinte anos fora e voltar, porque nós entendemos que se o Estado não dá chance do cara fazer, ter o direito do cidadão é dever do Estado. Agora arrumar o pé-de-meia fora, procurar outro rumo na vida dele, ele tem o direito de sair, pode fazer a experiência curta, mas se não voltar em dois anos já perde esse vínculo. Por quê? Porque nós não vamos ficar organizando a comunidade para o cara que vai experimentar lá fora e depois voltar na hora em que a comida está pronta, para ele sentar na cadeira na mesa. Em 1979 eu comecei a conhecer outros lugares, a visitar para ter referência. Eu tentei em 79 até 82, 83, um fundo de intercâmbio caiçara. Por sinal, agora nós fomos a Parati três vezes, e acho que iremos de novo, fizemos vários contatos e visitas nas ilhas do Paraná, Ilha das Peças, Superagui, Ilha Rasa, Guaraqueçaba, tudo para trocar experiências. Então, o que acontecia naquele tempo, eu estava vendo o que acontecia, mas não conseguia levar muita gente para ver o que estava acontecendo lá e para passar para os comunitários. Então, fizemos várias intervenções, várias idas nesses lugares e tal para acompanhar como estava indo o processo de ocupação. Lembro de um episódio muito interessante lá em Trindade. Tinha uma companhia lá que queria lotear tudo e estava pressionando e comprando a posse dos moradores para desocupar. Eu lembro que os comunitários de lá tinham um cerco flutuante, que é uma armadilha de pesca deles, o cerco era tudo o que eles tinham para pescar para a manutenção da vida deles lá. E a companhia contratou jagunço, e no temporal cortaram as amarras do cerco para irem embora e eles ficaram sem nada. E isso estava acontecendo lá e eu tinha que contar para os comunitários: “Olha, não vai ser nosso cerco que eles vão cortar, mas eles vão chegar aqui, porque isso daqui é um filé-mignon, imagine só quando eles chegarem aqui, então eles vão querer isso daqui de qualquer jeito. E vão pressionar, comprar sua casa, vão oferecer grana e tal.” Então, esse era o trabalho que eu fazia de conscientização, de tentativa de conscientização dos comunitários. O morador podia vender suas terras antigamente porque até 97 não tinha plano, até 97 os caras faziam o que bem entendiam com o imóvel dele. E venderam, muitos comunitários venderam... E foram embora. Até alguns mais no sul da Ilha que venderam a casa e fizeram outra e fizeram outra, fizeram outra, e partilharam dessa coisa ruim aí que é a entrada de estranhos. E a gente orientava na assembleia comunitária que ninguém fizesse isso, que não participasse desse jogo. Todas as viagens que participei foram para olhar o que estava ocorrendo fora da comunidade. Eu citei no meio da conversa a Vila Socó. O que era? Era uma vila de favelados, uma favela em cima do manguezal que até deu aquele incêndio que vazou coisa da Petrobras e deu incêndio no barraco dos caras. Aquilo lá que morador que é? É morador nativo de área segura que vendeu seu terreno, foram espoliados. Eu vou contar um exemplo bem drástico que foi lá em Picinguaba. Eles começaram a comprar, a comprar, os especuladores, e tinha uma senhora de idade lá que tinha uma merceariazinha lá que vendia tudo para os moradores, era um ponto muito bonito, um ponto estratégico, e eles começaram a oferecer grana para ela vender. Ela começou a resistir e aí o que eles fizeram? Eles pegaram um sargento reformado e levaram para lá, montaram um supermercado para ele, compravam mercadoria lá no Eldorado, no Carrefour, lá não sei aonde, o mais barato possível e vendia muito mais barato que ela. Quebrou a senhora em um ano de vida e ela saiu oferecendo a casa para eles. Isso acontecia e a gente estava vendo isso e dizíamos: “Isso vai chegar aqui se não nos cuidarmos.” Hoje não temos mais a pressão de antigamente, de vez em quando a gente tem algum desconforto na gestão com o parque por causa do caráter inoperante do Estado, mesmo porque o plano tem tudo que está no papel, mas é como a constituição federal. A constituição federal é bela, é ótima, agora pra você tirá-la do papel e por na prática você tem que convencer o Congresso Nacional, convencer o Senado e depois ainda fazer pressão para o Presidente homologar o que eles colocaram no papel. Então aqui acontece a mesma coisa, tem coisa que eles rejeitam tirar do papel, eles são morosos ficam empurrando com a barriga, então temos que fazer pressão. Tem, acontece isso. Nós tivemos um diretor muito bom, o primeiro diretor que veio, esses aí eu vou falar o nome porque eu assino embaixo o que faço com eles, eu falo isso pra eles olho no olho, nós tivemos o Marcos Campollim que foi excelente, foram nove anos de gestão compartilhada, muito boa, que ficou servindo de exemplo para o Estado de São Paulo, depois tivemos o Mário que foi um cara que ficou dois anos emperrando nossa vida, que não deixou nada acontecer, e hoje nós temos Thiago que é um cara que está começando a estruturar, a reestruturar as coisas, mas que tem uma gestão bem participativa pra mim. Estes que citei são todos funcionários da Fundação Florestal, diretores do Parque do Cardoso. Nomeados, esse daí é concursado. Os outros eram nomeados, mas são técnicos que vêm administrar o parque. Daí esse técnico marca as reuniões mensais, tem o conselho que tem membros de todos os moradores, dos núcleos de moradores tradicionais. Aí tem representantes dos pesquisadores, da Prefeitura Municipal, da Secretaria de Educação, da Colônia de Pescadores, da Polícia Ambiental, das ONGs locais, enfim. E tem quinze, dezesseis... hoje tem catorze representantes, catorze conselheiros que se reúnem mensalmente para lidar com toda essa dinâmica, tanto no plano da pesquisa como no plano da vida dos comunitários. A participação dos jovens aqui varia. A comunidade é dinâmica também nisso, tem altos e baixos. Então você pega, por exemplo, a Associação de Moradores que cai na mão de uma diretoria que vai para frente, que busca, que reivindica, que faz mais coisa e corre atrás. E outra é aquela mais acomodada, mais passiva. Então são altos e baixos. Temos parceiros do terceiro setor, a rede Cananéia, por exemplo, que eu sou membro, que tem uma dinâmica não só com Marujá, mas com várias comunidades, o IPEC (Instituto de Pesquisas Cananéia) que desenvolve aqui um trabalho dentro da pesquisa, mas atinge muito pouco as comunidades mais tradicionais, e é isso. Tinha a SOS Mata Atlântica que nunca fez nada, aliás, a SOS Mata Atlântica é um cabide de emprego, e é isso. Com a rede Cananéia a dinâmica é a seguinte: eles assessoram as comunidades membros. Então têm membros dos quilombolas, do Marujá, que sou eu, do Pontal da Enseada, da Baleia, enfim, da SINTRAVALE (Associação de Trabalhadores da Agricultura Familiar do Vale do Ribeira e Litoral Sul de São Paulo – Sub-Sede Cananéia) que é aqui no continente, tem vários membros de várias comunidades que participam, que são membros da assembleia e que elaboram junto com ela projetos para essas comunidades, para essas entidades comunitárias. A questão das barragens eu não participei ativamente das reuniões, mas teve uma movimentação muito grande das várias organizações, da sociedade civil organizada do Vale, que participaram. Eu mesmo participei várias vezes, mas de forma isolada, não como uma entidade comunitária. Aqui existe uma pressão para sair a barragem do Tijuco Alto e uma pressão das organizações comunitárias, sobretudo dos que vão ser atingidos. Eu citava assim um bairro mais organizado que é Ivaporunduva, quilombola, que tem as pessoas muito politizadas e sabem o risco que isso representa, batalharam muito. A questão das enchentes mobilizou todo o Vale, essa comunidade, Ivaporunduva, é super atuante, mobilizou bastante as outras entidades. Eu imagino que a tendência é melhorar cada vez mais aqui na Ilha do Cardoso, não só no âmbito do plano de bem estar social, de qualidade de vida, mas também de respeito com a unidade, está tendo cada vez mais uma visão mais clara... Até porque com a entrada da receita do turismo se criou mais atividade para ganhar a vida, então há uma possibilidade muito maior de conservação. O que eu defendo é o seguinte, se você vai extrair caranguejo, só caranguejo, você vai devagarzinho esgotando a fonte. Se você faz caranguejo, marisco, artesanato, turismo, mais não sei o quê, você vai diversificando e vai tendo menos impacto em todos os setores, então a sustentabilidade está garantida. Eu acredito que no futuro essa sustentabilidade vai melhorar ainda mais. Nós vendemos para fora, mas todas essas questões são pauta da assembleia comunitária, cada uma no seu tempo certo, mas fazem. No Estado de São Paulo inteiro, o que a gente vê é que há um atrito, um conflito entre Estado e morador tradicional em área de conservação. Nós sempre tivemos o discurso de que éramos aliados do Estado na manutenção dos moradores nativos locais e na manutenção da conservação do parque, e nós queríamos mostrar e garantir que isso era possível. Então, há dois fenômenos que aconteceram que eu gostaria de retomar, uma é essa assembleia de 77 que era lá no tempo que quase ninguém estava pensando na preservação do Parque, ninguém tinha muito claro essa visão conservacionista e nós batalhamos contra a Marinha do Brasil em favor do Parque, foi um momento que nós trouxemos quase cem por cento dos comunitários para a assembleia aqui em Cananéia. A Marinha dizia que era para colocar um estudo de energia nuclear no Cardoso, mas por trás da cortina a gente via que era claramente a especulação imobiliária de alto nível que estava presente fazendo essa pressão. O tenente, o cara que tinha mandado a intimação para as comunidades, tentou desmembrar esse espírito de união e nós o surpreendemos colocando uma assembleia com todos os comunitários no mesmo local. E daí a Igreja daqui do Padre João ficou com a incumbência de arquitetar a vinda dos técnicos, daí veio três Deputados Estaduais, veio pessoal da Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo, e então pegamos o tenente lá e pregamos ele na parede. Esse dia foi o seguinte. Nós bolamos esse esquema, o padre ficou arquitetando para os técnicos virem e eu sai - Naquele tempo não tinha embarcação, o meio de locomoção era só aquela lancha do Departamento da Sorocabana - Eu fui a pé daqui de Itacuruçá, convidando casa por casa marcando o dia, até o Pontal do Leste da Ararapira. Claro que eu não fiz num dia só, dormi no Marujá e no outro dia retomei e fiz tudo, todo o entorno da Ilha convidando todo mundo para vir no dia tal e todo mundo veio. Foi muito legal, a gente tinha muita gente e o tenente ainda tentou distorcer, tentou levar para o salão da colônia, para fazer algo mais individual, mas nós não concordamos. Eu lembro que colocaram uns fiscais, um na subida do CEAGESP (Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo), e outro aqui na rampa do píer municipal do Porto do Bacharel para evitar que os comunitários subissem, sem contato, fazendo contato com todo mundo e mandando todo mundo para o salão para fazer a assembleia lá, e o tenente não teve alternativa e teve que ir para lá. E aí estava a imprensa lá. Chamamos a imprensa; esse meio de campo foi o padre que fez, e eu fiz o trabalho de contato com os comunitários. Esse foi um momento muito bom, muito forte em favor do morador, e também em favor da manutenção do parque. Para deixar claro nós estamos na atitude de aliado do Parque. E em 1982, quando o Governo Montoro ganhou o Governo do Estado, a gente tinha uma ligação muito forte com o pessoal do Instituto de Pesca em São Paulo, e eles perceberam que essa ligação com a comunidade tradicional não era benéfica para aquela visão de especuladores. Então a União pegou e disse que ela era a dona da terra, porque a terra é patrimônio da União mesmo, e queria retirar o Estado do Parque. E nós juntamos força, com documentação, pressionando o Governo Federal na manutenção do parque. Então, foram dois momentos que a gente esteve ajudando o Estado na manutenção do Parque. Isso para mostrar que a gente nunca foi esse adversário, que sempre esteve em conflito. Temos divergências porque o Estado é muito omisso mesmo e muito lento para tirar as coisas do papel e implantar. Mas isso não quer dizer que fomos contra o parque, muito pelo contrário. Eu acho que contar... Eu fiquei mais de sete anos pescando sozinho no mar aberto, pescaria de canoa, de remo, não era motorizada, acampando nas ilhas, pegando temporal à noite. Peguei vários temporais. E eu tinha sete filhos para criar pescando, pegando peixe lá. Então, tinha que ter muito cuidado, muita responsabilidade com a atividade pesqueira também, mas foi legal. Superei as dificuldades que a gente tinha no meio do caminho.

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