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História

"Para o sírio a porta ao mundo todo está fechada"

História de: Eliaho Zagha
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 26/03/2021

Sinopse

Em seu depoimento, Eliaho conta da sua família judaica, as festas, costumes e das tradições religiosa de sua família; a comunidade judaica de Damasco; sua situação familiar; sua falência econômica. Relembra de sua saída da Síria, em 1937, sua passagem pela França, e em alguns países da África, as dificuldades de trabalho e reestruturação de vida nesses lugares, e sua migração para o Brasil em 1960.

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História completa

P/1 - Vamos começar do começo? Onde o senhor nasceu, que dia, como?

 

R - Eu nasci em Damasco, capital da Síria.

 

P/1 - O seu nome como escreve?

 

R - Eliano, e, l, i, a, h, o.

 

P/1 - I?

 

R - A, h, o.

 

P/1 - E o sobrenome?

 

R - Zagha. Z, a, g, h, a. Nasci no dia seis de abril porque minha carteira... Minha mãe... Depois que faleceu meu pai em 32, não sei como chama a nacionalidade de nós, somos da Turquia, ocupação da Turquia... Da Espanha, espanhol. Depois faleceu o meu pai em 32 (Republique?) sírio, nacionalidade sírio. Republique sírio, ele falou que quem [tem] nacionalidade estrangeira agora pode resolver porque está vivendo dentro do seu país, poder resolver, acertar, ter a nacionalidade dele. Bom, minha mãe resolveu, ela ficou nossa... Nasceu aqui na Síria, ficou síria. Já não tem mais o espanhol, nesse tempo.

 

P/1 - Isso foi em que ano?

 

R - Isso foi em 32.

 

P/1 - Em 32. Agora, seus pais eram da Espanha?

 

R - Tudo da Síria. Trezentos anos antes, isso que já foi para Síria.

 

P/1 - E o senhor tem a história dessas viagens?

 

R - Não, não, não. Conhece do meu avô. Dois avôs, pai de minha mãe e pai de meu pai, esse que eu conheço velho, uma que faleceu com 95 anos, outro 115 anos.

 

P/1 - E eles eram espanhóis ou...

 

R - Eram tudo... O pai dele, o avô dele (ancore?) sírio, isso. Tia, tio da Turquia já o que, quatrocentos anos. Bom, eu nasci [dia] seis de abril de 1916. Minha mãe já doou para o deputado da religião israelita que tem o nome das famílias israelitas do grupo, ele dá um (soldo?) e só. A minha idade… Só tenho um ano e quatro meses, menos, porque ela já botou trinta de agosto [na] minha carteira, trinta de agosto de 1917. Tenho um irmão menor que eu, dezoito, dezesseis de agosto, porque tenho a carteira aqui de nacionalidade brasileira, meu irmão que trabalhou, porque trabalho com construção (_____), esses dois edifícios na Rua Constituição, número sessenta, isso, eu trabalho aqui, com meu L.E- Esse é um assunto... Bom, eu, meu pai, o chefe de tecelagem da Síria, uma dE- seria tudo primeiro ele.

 

P/1 - Ele era dono de uma fábrica?

 

R - Não, era tecelagem manual esse tempo, isso não tem fábrica, isso tudo na mão. Tecelagem é que faz o...

 

P/1 - Os panos....

 

R - A Europa, isso de fio, linho, etc.

 

P/1 - E ele era o dono de uma tecelagem?

 

R - É, dono, dono. Faz cortinas, faz sofá, faz panos.

 

P/1 - E era a maior tecelagem de Damasco?

 

R - É, meu pai, um dos deputados da Síria, meu pai é deputado.

 

P/1 - Era deputado?

 

R - Meu pai, deputado.

 

P/1 - Qual era o nome de seu pai?

 

R - Nissim.

 

P/1 - Nissim Zagha?

 

R - Nissim Zagha, meu pai.

 

P/1 - E da sua mãe?

 

R - Nazira.

 

P/1 - Então, ele era deputado?

 

R - É, deputado meu pai.

 

P/1 - E ele ficou quantos anos como deputado?

 

R - Eu nasci em 1916, eu conheci amigos deles, ele convidava para nossa casa para conversar, 1926. Esse é o tempo, assim que eu conhece que ele é deputado, homem de valor.

 

P/1 - E a sua mãe não trabalhava, ficava em casa?

 

R - Em casa. Minha mãe em casa.

 

P/1 - Vocês eram quantos irmãos?

 

R - Nós éramos em nove. Nove, seis irmãs e três irmãos. Três meninos e seis meninas e perdeu minha mãe, três: uma menino e dois meninas.

 

P/1 - Eram doze, então?

 

R - Doze. Mas perdeu duas meninas e um menino, perdeu. Agora é F.E- .

 

P/1 - E o senhor na escada é qual?

 

R - O quê?

 

P/1 - Qual número o senhor? Primeiro, segundo, quinto, décimo?

 

R - Décimo, sou décimo. É décimo, têm dois atrás de mim, um irmão e uma irmã, atrás de mim.

 

P/1 - A sua irmã que mora em frente...

 

R - É a segunda. Ela é a segunda. Vou mostrar um retrato da minha irmã primeira, Ester.

 

P/1 - Seu pai era influente, vivia numa casa, como diria?

 

R - Casa, casa boa, casa não é só mármore, tem bar, tem piscina, casa de valor, casa boa, bonita.

 

P/1 - Porque as casas naquela época eram casas maravilhosas.

 

R - É, maravilhosa.

 

P/1 - Então conta um pouco mais como eram essas casas.

 

R - Nós moramos numa casa maravilhosa. Nesse tempo minha irmã mais velha, que nasceu em 1900 e casou em 1920. Quando ela casou, em 1920, meu pai falou com meu cunhado, chama Joseph Dan, para depois de um ano atrás ela na Síria. Bom, depois que ele casou ele levou? Não.

 

P/1 - Levou aonde?

 

R - Aqui. Casou na Síria, casou na Síria e veio aqui pro Brasil. Não voltou mais, não voltou mais.

 

P/1 - Por que, o seu cunhado morava aqui?

 

R - É, morava, tem irmãos aqui, tudo casado. Meu cunhado teria uma irmã pequena depois ele trás ancore no Líbano, ele é libanês, meu cunhado é libanês, ele trouxe pai, mãe aqui, faleceu tudo aqui.

 

P/1 - Ah, ele era libanês.

 

R - Tem quatro irmãos, tem duas irmãs, parece, conheço uma irmã e conheci um irmão dele que estava aqui, porque chegou aqui em 1960.

 

P/1 - Mas quando ele casou ele ainda não conhecia o Brasil?

 

R - Não, aqui ele já fez uma fortuna, ele foi para casar, para casar, ele foi lá.

 

P/1 - Ele não conhecia a sua irmã antes?

 

R - Não, não, ele foi pra Síria, ele é libanês, ele foi pra Síria. Daqui ele foi pra Síria.

 

P/1 - Foi casamento arranjado?

 

R - Isso, com minha irmã, isso. Meu pai que lidou, mas ele casou, casou com minha irmã. Bom, esse tempo passou.

 

P/1 - E trouxe ela para cá?

 

R - Para cá. Bom, depois disso... Meu pai está zangado porque não trouxe mais meu cunhado, minha irmã, não trouxe. Bom, conhece agora o costume da Síria que a mulher precisa do dote para homem, o dote, precisa dar isso. Meu pai atrapalhou nesse tempo de 1926 e 1927, que esse o Japão [corte de gravação] mercadoria, meu tataravô quebrou tudo, na Inglaterra, na França, na Alemanha, tudo ele quebrou. Muita gente que-.. capitalista, comerciante grande não tem mais capital. Meu pai tá resistindo, já perdeu uma parte e já tem um pouco para viver. Ele é sócio com meus dois tios. Bom, 1929, 1929...

 

P/1 - ... o crack?

 

R - Isso, passou. 1929 meu pai foi para passear aqui em Teresópolis, na montanha, clima bom, não veio para ficar zangado aqui.

 

P/1 - Damasco?

 

R - Damasco.

 

P/1 - E qual o nome desse lugar que ele foi em Damasco?

 

R - Bludan, como aqui é Teresópolis, o ar, o comida, [era] tudo bom. Estava zangado com meu pai esse tempo. Escorregou o pé; ficou, coitado… Teve que estar sozinho. Escorregou por estar andando, passeando, caiu. Foi aquele lugar que tem… Espinha. Bom, ele caiu agora. A gente que está trabalhando, que mora lá, que está falando desse lugar que vai e volta viu ele e eu.

Desse tempo quanto ele tirou, desceu para casa dele, Damasco, 1929. Isso [em] 1929. Nisso que caiu, meu pai pegou câncer. 1929, era esse o tempo porque 1929 F.E-, É porque [em] 16 eu nasci. Botou tefilin em 1929, ano que já completou isso, com isto. Bom, [em] 29 que ele [ficou] doente; trinta e 31 esses três anos que o capital que ele já tem…

Mon pére [se] separou das irmãs dele, ele está sozinho com minha mãe, que tem seis filhos porque tem minha irmã. Essa minha irmã Laura, ele mandou para [a] irmã mais velha que está casada. Ela veio solteira aqui [em] 1924, outra casou [em] 1920 e tenho outra irmã que foi para Argélia onde meu tio, irmão de minha irmã, tem...

 

P/1 - E ele mandou por quê? Por que ele estava sem dinheiro?

 

R - Dinheiro para dar esse... Tem muita mulher. Tem Zaicie, tem outra que eu ia mostrar à você o retrato, tem outra Rosie, tem Porline, tem Rachel, depois dessas duas têm mais quatro mais. E todo os três ancore meninos. Bom, esse tempo durou pouco. Em 1919 mandou minha irmã, onde? Para Argel, ela tem dezonove anos, eu mostro à você. Ela tem, nesse tempo, dezenove anos, mandou ela, mandou para Argel. Bom, ficou nós com minha mãe, e minha mãe, coitada, está sofrendo com meu pai e capital ele já tem tudo, já tem. F.E- porque aqui no Brasil minhas duas irmãs aqui para minha irmã mais velha, Ester, e outra nora que chama… Já foi no consulado, aqui, sírio quando ele falou o nome de meu pai, levantou L.E- assim respeito, com muito respeito, porque o nome de meu pai é conhecido na Síria, é isso. Bom, nesse tempo...

 

P/1 - Mas aí vocês ficaram passando dificuldade? Tinha problema para comer, para...

 

R - Não, não, estava difícil porque tem o parte da minha mãe... O pai dela tem um lugar que tem um loja para trabalhar com bandejas que faz F.E- trabalha nisso e vai mostrar agora, bandeiras é seu trabalho. É, seu trabalho bonito, muito, muito bonito. Pouco a pouco, a vida começa dura, dura. Bom, tempo que antes que estava sem meu pai… Não tem sete, oito, um ano eu já termino meu primeiro na escola, eu não pude continuar na escola. Eu saí da escola para aprender alfaiate.

 

P/1 - O senhor estudou em que colégio? Francês?

 

R - Israelita, israelita école, israelita-francês, École Israelita-francês, em Damasco, israelita-francês, isso aí.

 

P/1 - Aí o senhor aprendeu a ser alfaiate?

 

R - Antes dos dezesseis anos, eu já tinha saído da escola nesse tempo, começou a fazer...

 

P/1 - Fez até que ano?

 

R - Onde?

 

P/1 - Equivalia a que série?

 

R - Ao ginásio.

 

P/1 - Fez o Ginásio?

 

R - Não, não fiz. Só cheguei no Ginásio, mas eu não fiz. Porque para nossa escola mais forte que essa: tem que aprender israelita, tudo, escrever, a ler, tudo [em] hebraico, tudo [em] francês, árabe e inglês. O Ginásio ensina a saber tudo isso, escrever e ler tudo e saber todo capital do mundo inteiro, no dictionnaire tudo isso, inteligente de nós, inteligente, não é burro, muito inteligente. Eu... Judeu que estão lá na Síria com a idade de quinze, catorze, quinze anos, eles como aqui de vinte anos que coisa que não sabe, lá sabe tudo já. Tem gente inteligente lá.

 

P/1 - Então a escola era muito puxada?

 

R - Muito, demais, porque [eram] oito horas, quatro de manhã, quatro de tarde.

 

P/1 - E era paga a escola?

 

R - Paga, pobre não paga, meu pai é que paga. Só rico que paga, pobre não paga. Nem comida, nem roupa e nem estudo, isso não paga, não. Quem já sabe isso para medida com estudo, isso tem: pobre não paga. Tudo de graça para o pobre. E rico, ele paga tudo, paga bem forçado.

 

P/1 - Para também poder ajudar a pagar quem não pode pagar.

 

R - Esse tempo _________________ , chegou agora, meu pai faleceu em 32.

 

P/1 - Aí o senhor já era alfaiate?

 

R - É, faleceu em 32, 32 já passou. Chegou 1934 uma israelita, nesse tempo se chamava Israel Palestina, [em] 1934. Chegou, viu minha irmã que chama Fortunée, essa é dois anos mais velha que eu, ela nasceu em 1914 e eu em 1916. Bom, minha mãe que fez acordo com ele, ela deu a mão para ele e casou minha irmã. Casou em Israel, não, Palestina, Palestina, Tibéria. Bom, esse tempo eu trabalhei três anos como alfaiate. Começava o trabalho sete hora de madrugada, de manhã, até uma hora de madrugada sem ganhar um tostão. Para aprender a profissão de alfaiate precisa [de] sete anos de luta, luta, trabalha. Já é homem, não é mais uma criança, quer dinheiro, quer para... Ainda como menino, agora dezesseis, dezessete, dezoito, não é mais criança.

Bem, quando minha irmã casou eu já quis estar trabalhando com... Ser advogado, datilógrafo que chamavam, assim ela voltou. O depósito no consulado inglês, oito libras, isso é ouro, como aqui agora é oito mil, oito mil agora é assim, botou depósito, já fez passaporte para mim, ela fez passaporte para mim.

 

P/1 - Por que precisava depositar esse dinheiro?

 

R - Consulado inglês.

 

P/1 - Para o senhor poder sair...

 

R - Não, isso da Síria para a Palestina. Isso quando minha irmã casou, isso já foi com minha mãe para [o] casamento da minha irmã, já foi com [a] minha mãe porque ela já fez passaporte, fez só para poder passar da Síria para a Palestina. Esse passaporte dura um ano, cada três meses tem que passar na fronteira para carimbar, a cada três meses.

 

P/1 - Esse da Palestina?

 

R - Da Palestina para a Síria.

 

P/1 - Isso naquela época?

 

R - Naquela época. Eu saia da Síria às oito horas da manhã, capital daqui. Eu chegava quatro horas da tarde em Haifa. Seis hora, não está longe com ônibus que anda mais que F.E-, mais que qualquer ele anda, oito horas no ônibus especial. Lá eu trabalhava para ele, com ele. Já tenho idade de dezoito anos, estou forte, com saúde, trabalhava como operário.

 

P/1 - Que tipo de trabalho?

 

R - Haifa, Haifa.

 

P/1 - Sim, mas que tipo de trabalho operário?

 

R - Operário. Carregar cimento, fazer massa. Trabalho duro, duro, duro, mais duro que esse não existe. Eu carregava saco [de] cimento sozinho. Levava do chão cinquenta quilos montados nas costas, sobe três andares para o edifício e é esse o trabalho duro, trabalhei aqui [durante] seis meses, depois eu não aguentei esse trabalho. Bom, isso [em] 1934, já estava na Síria.

 

P/1 - Voltou para a Síria?

 

R - Voltou para a Síria. Minha mãe já fez uma viagem para Argélia, na casa de meu tio, irmão dela na Argélia, isso foi minha mãe. Foram seis meses assim, depois ela voltou. Quando ela voltou... Ela sofreu muito na Síria para trabalhar, para ganhar, não adianta, de uma profissão para outras, para outra, não adiantou, muito, muito duro! Quando minha mãe chegou, isso no começo de 37, e falou: “Escuta, eu não [vou] aguentar aqui, essa vida, é duro, não pode fazer nada aqui, não posso ganhar minha vida. Quero viajar”. Coitada. Isso minha mãe. Ela tinha irmãs que estava na França, Paris. Eu era o único. Então foi pra França na casa de meu irmão, chama Marco, mais velho sete anos que eu. Ele não estava trabalhando, e esse tempo tem a Exposição Internacional que foi como [uma] escola, foi lá como escola. Eu fui à Paris, ele não estava trabalhando e me mandou para Argélia, [na] casa do meu tio. Foi lá na casa de... Na Argel meu tio tem antiquité que trabalha com bandejas de valor, tapete persien, coisa de valor, perfume, coisas de valores, antiquité, gente rica, [na] loja do meu tio. Ele tem essa parte de antiquité e outra parte pâtisserie, pâtisserie que faz bolo, doce, que faz pavê, doces, chá. Ele não voltou por isso. Bom, esse tempo...

 

P/1 - O senhor tinha quantos anos nessa idade?

 

R - [Com] 21 anos [eu] estava lá. Saí da Síria [com] 21 anos. Saí [dia] seis de julho da Síria, cheguei [dia] treze de julho, Marseille e quatorze de julho fiquei em Paris.

 

P1 - Quatorze de julho, é?

 

R - Quatorze de julho [e] cheguei. É isso, quatorze de julho em Paris.

 

P/1 - Mas seu irmão vivia de que em Paris?

 

R - Fazia compra em Marrocos, e vendia na França.

 

P/1 - Compras de cereais?

 

R - Não, não, não, não, é de bolsa, cintos, bolsa de couro.

 

P/1 - E o senhor não quis ficar lá?

 

R - Não, não, não ele não estava bem, ele me mandou para Argélia. Não consegui, meu tio não me deixou trabalhar porque governo é contra judeus, governante de Argélia é contra judeus. Não consegui [ficar com] meu tio, para ficar e aprender, porque só assim faz lucro, faz aprender sua profissão. Bom, de lá eu volto. Bom, meu irmão, ele já tinha uma capital pequeno, comprou mercadoria, mercadoria como roupas, de homem tudo...

 

P/1 - Isso em Damasco?

 

R - Não, não, Paris, é Paris, isso. Comprou mercadoria e ele conseguiu porque o... Quando ele saiu da Síria não tenha direito, foi para outra nação, outra cidade. Só [na] França que estava marcado no passaporte, Paris, Paris, Argel, Argélia. África não, não pode. Bom, esse tempo...

 

P/1 - Me explica uma coisa: na Argélia que eram contra os judeus. O seu tio vivia lá?

 

R - Não, tem não, antiquités isso tem.

 

P/1 - Mas ele tinha restrições?

 

R - Tudo, tudo, tudo. Eu mesmo trabalhei lá com ele, meu irmão que está... Trabalhou com ele. Depois saiu da casa dele e foi para Paris.

 

P/1 - Mas porque o senhor não podia viver lá, aprender uma profissão lá?

 

R - Não me deixaram. O governo não me dá visto para ficar.

 

P/1 - Mas lá eles podiam frequentar sinagogas, podiam…?

 

R - Não, tudo isso, esse tempo, [em] 1937 F.E- tem esse rancor, tem isso para mim, como para operário o gouverneur, o gouverneur não deixa ficar os estrangeiros que vêm trabalhar [como] operário lá. Eu sou contra isso.

Ele voltou, fez compras de mercadoria e fui com ele para África, no Senegal. Tem um amigo que ele conhece, sírio, conheceu lá na França, ele faz doce sírio, assim, comida síria. Ele é conhecido do meu irmão, esse meu hermano é muy israelita, é conhecido dele.

Bom, levou esta mercadoria em 1937, já fui com ele e fomos para a África. Vendeu sua mercadoria e ganhou uma fortuna nesse tempo, que ele já sabe, que ele já fez essa compra barata, sem pagar alfândega, levou da graça quase e vendeu, nesse tempo ele ganhou trinta mil. Trinta mil consta nesse tempo de 1937, comprou um edifício na Saens Pena isso [em] 1937. Trinta conto, era dele, ficou só um mês, depois que ele voltou e me deixou; como é...

Bom, antes ele saiu da França com depósito para estrangeiro, para nós, tinha que botar depósito, Cz$800 na volta tinha isso. Para se fazer qualquer coisa que não serviria a nação, isso francesa, na África, que todo dinheiro que está depositado ele manda para para você nascer. Ele botou depósito para mim, ele voltou para França, isso em 1937. Bom, isso, não tinha dinheiro, não tinha conhecidos, sou judeu e lá tem muçulmanos F.E- homem feliz, ah! Senegal! Eu lutei, tinha malária nesse tempo... Sofri, sofri, sofri muito. De 1938 até 44, eu fiz vinte mil, vinte mil contos, vinte mil vezes trinta, quanto dá isso? ________, 38, 339, 40, 41, 42, 43, 44, sete anos, [em] sete anos eu fiz quarenta contos.

 

P/1 - Fazendo o quê?

 

R - Trabalhando, trabalhando. Comecei vendendo frutas, depois [fui para] fazenda, era só o que dava para mim, no tempo [de] guerra. Esse tempo que estou falando é [durante a] guerra, Segunda Guerra, porque estava na África, eu estava lá e meu irmão já estava na França, [durante] essa guerra.

 

P/1 - Seu irmão te deixou sem nada?

 

R - Nada, sem um tostão em débito, só depósito.

 

P/1 - Só depósito...

 

R - É porque o alemão está pegando este dinheiro, não pode pegar esse dinheiro. Se eu pega, eu faço fortuna com [a] minha capacidade, com [a] minha inteligência, faço fortuna. Sem dinheiro o que eu vou poder fazer? Nada. Comecei com pouco, caixa... Arrumava capital mixuruca que tenho e comecei com fruta, depois com mantille, depois começou com fazenda, comprei fazenda, tudo [eu] comprei no câmbio negro, muito difícil. Nesse tempo, se [o] governo me pegasse, me expulsaria.

 

P/1 - E o senhor só conhecia...

 

R - Não, é gente que conhece você, mora aqui muçulmanos e judeus, conhece você, compra com você, paga [o] preço que você quer.

 

P/1 - Tinha muitos judeus lá?

 

R - Não tem não, muito não tem. Mais ou menos, sete ou oito, só.

 

P/1 - E o senhor conhecia todos?

 

R - Não, tem um libanês, dois libaneses e um sírio, eu. Depois tem outro keynesiano, marroquina, isso.

 

P/1 - Judeus?

 

R - Judeus.

 

P/1 - Mas os senhores se encontravam?

 

R - Encontrar só no Kipur e fazemos jejum em cada Kipur, porque tem calendário isso... Como chama?

 

P/1 - Calendário cristão e calendário hebraico.

 

R - É, não é que nem na França para três religiões: católico, muçulmano, israelita.

 

P/1 - Naquela época só faziam calendário de...

 

R - Isso, três religiões que vem da França para nós, para África... Bom, trabalhou, trabalhou bem. 1944..

 

P/1 - Até 1944 foi com fazenda, né?

 

R - É, fazenda. Esse tempo de fazenda, 1944 só permitiam fazenda, não é mais nem fruta, nem mantille, outro, outro trabalho. Trabalho é muito, muito perigoso, fiscalização demais, demais. Bom, recebi uma carta da Síria de minhas duas irmãs que estão em Israel, escrevem à Damasco, onde está minha irmã caçula, eu até ia mostrar à você agora, ela quer casar com um conhecido de um libanês que trabalhou com ele, com... Trabalho é duro, duro. E falei com ele, ele tem palavra, ele é homem, ele me dá mercadoria; se vende, eu pago, se não vender eu devolvo para ele, então é assim, comigo ele é assim. Bom, eu perguntei para ele, ele já falou em 1944: “Escuta, chama Yeshua Politis, ele falou que manda metade do meu capital para minha irmã casar. Que está pensando? Pode mandar”. Ele me falou, pode mandar. Mandou, mandou dez, vinte para ela casar. Bom, passou 1944, chegou 1946, meu capital que estava por dez saltou para sete mil, sete mil em um ano, lutou muito, fazenda e tudo perigoso, tudo conforme o metro que estava marcado por dez, vende para grossista para... Vende no atacado vinte, ele leva dez de fora. Agora, compra isso que diz que está marcando e paga vinte e vende por cem, por cento e vinte.

 

P/1 - Não havia nada...

 

R - Ah! Essa é a luta. Começou por causa do ágio da minhas irmãs. Bom, direito de libanês para ajudar, manda para a família dele que estão no Líbano, [eles] tem direito a seis mil, seis mil e seiscentos, nesse tempo, em 1946. O sírio tem direito a três mil, três mil; o libanês seis, todo mundo são seis porque vão... Com o tempo que o libanês está mandando, dava para ele... Mandou para minha irmã uma vez, segunda, terceira, cada vez seis mil, seis mil, seis mil e graças a Deus estava trabalhando, Deus me salvou, Deus me salvou. Mandou seis vezes. Depois minha mãe deixou ela em 38, 37, com saúde, depois - emoção demais para mim, já sou [o] quarto filho dela. A filha dela, essa quarta que está com duas irmãs, uma que está perto, que está casada, dois que estão aqui. Dois, Lora e este, meu irmão Marco que tem dezenove, ele já saiu 21 anos. Sentiu mal, hemorragia chegou para ela, jogou sangue da boca, triste, porque o mínimo com que ele me de deixou na África, então já escreveu cartas à ela: “Estou sofrendo, malária, febre, ou…”

 

P/1 - O senhor chegou a pegar malária?

 

R - Malária. Uma mês inteiro sem poder sair lá fora, quarantine, no quarto todo dia, quarenta de febre, de noite não tem nada, quarentena.

 

P/1 - E o senhor ficou de quarentena?

 

R - Malária, sofri demais, demais. Bom, depois eu trabalho sozinho.

 

P/1 - E a sua irmã, o senhor mandou dinheiro para ela casar, ela casou?

 

R - Casou, casou.

 

P/1 - Mas ela não veio para casar com o libanês amigo do senhor, não? Ela casou com quem?

 

R - Casou com um iraque que está em Israel, Tel Aviv, 1944. Iraque, ele é estudante da universidade e faltou um ano para ficar diplomado, [a] família dele não mandou dinheiro. [É um] homem inteligente demais, professor, professor de Inglês, hebraico, francês, sírio, ele é professor.

 

P/1 - Ela casou onde?

 

R - Em Tel Aviv.

 

P/1 - Ela foi para Tel Aviv.

 

R - Ela foi para Tel Aviv, meu irmão que levou da Síria para Tel Aviv... Uma tia que estava morando lá em Tel Aviv, minha tia, mora em Tel Aviv. Ela casou, graças a Deus, ela já tem dois casais: dois homens e duas meninas, tudo casado agora, tem filho dela da idade do meu filho quase, o neta dela teve filho. Ela casou numa casa bem grande. Ela casou E-) de 44 a 46 ela casou aqui. Chegou a idade de 46 aqui, com 22 anos.

 

P/1 - Com 22 anos no Senegal?

 

R - É, há 21 anos eu tive que sair, 43 e três anos aqui que já passou 46 anos, casou há 46 anos.

 

P/1 - O que fez o senhor resolver sair do Senegal?

 

R - Meu cunhado, como ele trabalha [com] relógios, tem joalheria, meu cunhado e meu irmão mais caçula… Ele chegou como turista aqui em 1958 e nos mandou dinheiro para passagem dele e para trabalhar ele não tinha dinheiro, esse meu irmão caçula. Ele fez [um] contrato com meu cunhado, ele me mandou tudo para o Senegal, eu fiz, tudo que ele já mandou com o meu… Como se diz... Profissão? Joalheiro, joalheiro e comerciante, comerciante, joalheria. Chegou aqui em sessenta. Porque para [o] sírio a porta ao mundo todo está fechada, porque não é sério. Na Europa, falar com ladrão, porta tudo... Todas as portas estão fechadas. Eu, em 1838, estava sofrendo que minhas duas irmãs [tinham se] casado, tiveram filho, escrevi para ela, ela me escreveu. E já tinha ido ao consulado nesse tempo, e me pediu trinta mil cruzados, esse tempo que vem aqui como turista de primeira classe, no navio para três meses e vai e volta e não tem um tostão, em 1938, ficou lá.

 

P/1 - E o consulado pediu tudo isso?

 

R - É, brasileiro, isso, no Dacar.

 

P/1 - Porque o senhor é da Síria ou...

 

R - Não, não, não, não tenho dinheiro, isso é para depósito. Tem que dar o dinheiro para pagar o bilhete de primeira classe de navio, primeira classe [é o] mais caro e vai como turista. Vai e volta. Eu não tinha um tostão em 1938, não tinha dinheiro, não tinha nada. Depois, aqui chegou, aqui chegou...

 

P/1 - E o senhor conseguiu o dinheiro para...

 

R - Dinheiro de meu trabalho, eu e meu irmão trabalhou comigo, o mais velho, trabalhou nove anos, eu fiquei treze anos trabalhando sozinho, depois ele chegou e tem loja na capital, de mercadoria.

 

P/1 - Esse irmão veio da onde?

 

R - Da França.

 

P/1 - Esse que estava na França?

 

R - Que estava na França, chegou, ele veio com nacionalidade francesa.

 

P/1 - Ah! Ele voltou?

 

R - Porque aqui ele não pode entrar. Ela já tem nacionalidade francesa, ele chegou para mim... Começou, então meu loja, ele chegou e pegou ele. Ele trabalhou junto comigo, ele trabalhou comigo.

 

P/1 - E depois dele deixar o senhor sem nada? Sem dinheiro, o senhor aceitou de volta?

 

R - Recebi ele com muito prazer porque ele sofreu ocupação de nazistas na França. Ele sofreu, sofreu de outra maneira, e sem dinheiro para fazer uma vida, sofreu de outra maneira. Eu ajudei ele, mandei coisas para café, savon, óleo, isso tudo e diversas, ele não quer nada, ele graças a Deus, trabalho está ganhando minha vida.

 

P/1 - E ele sobreviveu a ocupação nazista?

 

R - Depois que ele trabalhou, trabalhou na França atendendo às lojas, o depósito dele, pegou o jogo de colocar vinho, quase ele botou trinta mil na bolsa, foi ao jogo e perdeu. Pouco a pouco perdeu o dinheiro [pelo qual] ele já trabalhou, isso na guerra, ele já não tem nada. Chegou com... Um amigo tem emprestado a ele quinhentos mil, quinhentos mil emprestado para devolver. Chegou com esse capital. Tem que devolver, ficou acima de meu capital na loja, não é trabalho meu conhecido que já fiz é com sofrimento. Porque se você chegar agora, dentro de um mês, dois meses, não pode o que é dado, o que é vero, o que é mal, o que você pode falar ou não trabalha. Ele morou lá. Sabe tudo e trabalha com tudo, com população. Bom comerciante. Ele levou esse tempo todo que meu irmão nada, não tem nada para não pagar imposto, tudo em meu nome, tudo meu.

 

P/1 - Ele ficou nove anos com o senhor?

 

R - Comigo, é, de 51 até sessenta. De sessenta ficou para a liquidação, mercadoria que nós temos e dinheiro que tenho eu fiz a nossa construção deste edifício.

 

P/1 - Trouxeram esse dinheiro?

 

R - Dinheiro aqui é dólar, 120 mil dólares.

 

P/1 - Compraram dólar lá?

 

R - Lá é dólar, mandar despistar para cá.

 

P/1 - Vieram de quê? De avião, de navio, de...?

 

R - Não, não, não. Não, não o dinheiro era um cheque.

 

P/1 - Não, não veio direto da...

 

 

R - Da Suíça para cá.

 

P/1 - Do Senegal o senhor foi para a Suíça e da Suíça para...

 

R - Da Suíça para cá.

 

P/1 - Da Suíça o senhor veio para cá como? De avião?

 

R - Dinheiro... o quê?

 

P/1 - De avião ou de navio?

 

R - Dinheiro, dinheiro.

 

P/1 - É, mas o senhor?

 

R - Ah, não! Eu, da África, peguei um navio... Ah, navio, cheguei de navio, fiquei no navio seis dias. Vim de Dacar para o Rio, vim direto, levou seis dias, [de] avião são seis horas daqui. Tem avião internacional agora.

 

P/1 - Foi em que ano que o senhor veio, 62? O senhor veio em 60?

 

R - Cheguei aqui [em] 1960.

 

P/1 - E o seu irmão também, o senhor trouxe seu irmão?

 

R - Não, não, ficou lá, ficou lá.

 

P/1 - Ah, ficou no Senegal?

 

R - É, ficou no Senegal.

 

P/1 - Com suas coisas, suas lojas?

 

R - Lojas, lojas, está liquidado, está liquidado. O dinheiro que teve foi uma quantidade, chegou aqui e começou [uma] construção. Comprou terreno, começou a construção e mandou o restante. Dinheiro para trabalhar aqui complica, é difícil isso, construção.

 

P/1 - Isso, o senhor chegou aqui...

 

R - Eu aqui, em sessenta tem um ano, começou, esta trabalhando, estou com meu irmão, isso mais é que tem...

 

P/1 - O senhor chegou aqui, tinha seu cunhado, tinha família?

 

R - Ah! É claro que tem família, tem outro… Tem um que é falecido, a minha cunhada mais velha, ela, com três... Meu sobrinho está falecido, agora, o mais velho...

 

P/1 - Dos irmãos do senhor, quantos vieram para o Brasil?

 

R - Hã? O quê?

 

P/1 - Quantos irmãos?

 

R - Aqui? Dois. Lora e Ester estão aqui no Brasil. A primeira, a Ester, casou em 1920, a outra, Lora, noivou em 1924.

 

P/1 - E a sua mulher, o senhor conheceu como?

 

R - Aqui. Tenho recordação com a [minha] mulher aqui, no tempo que eu cheguei. Tem gente que não me... Não me quer por causa da amizade que tem e como eu nunca, não gosto de mulher, até chegou com essa minha esposa. Vi ela [em] uma consulta, porque ela faz jogo de brincar, brincadeira na casa do pai dela e ela me mostrou, marcou comigo mas não mostrou, ela teve com o pai dela, na casa dela, em Salvador, e foi lá que eu a vi, gostei. Veio aqui dois anos antes, estava frequentando, moça.

 

P/1 - O senhor namorou?

 

R - Namorei, isso é coisa à toa, coisa à toa. Até cheguei com Gabriela, gostei dela, ela era mais nova.

 

P/1 - Ela tinha quantos anos?

 

R - Vinte, eu tenho 46.

 

P/1 - Vocês casaram logo ou levaram um tempo entre namorar e...

 

R - Não. Começou em Purim, eu conheci ela com o pai, conheci ela no Purim, em dezembro, Natal, casou comigo. Depois isso, comida… Até espera-lá, [pois] estava trabalhando. Ela… Porque a gente é pobre, ela não tem dinheiro, [o] pai dela é só... Família grande, família bem grande, sete homens e dez mulheres.

 

P/1 - E eles são nascidos no Brasil?

 

R - Aqui, aqui, tudo nascido aqui. Não, não, tem três nascido lá fora, uma irmã.

 

P/1 - A família da sua esposa é da onde?

 

R - Aqui, ela nasceu aqui.

 

P/1 - Sim, mas a família dela vinha da onde?

 

R - Dela, dela? Antakya, Síria.

 

P/1 - Mas ela antes não te conhecia?

 

 

 

R - O pai dela chegou aqui em 1929. Chegou aqui no Brasil com três filhos, três meninos, o restante, [os] sete, nasceram aqui. Ela é a décima filha, minha esposa.

 

P/1 - Décimo também?

 

R - Décimo, como minha mãe tem dez filhos, isso, ela décimo.

 

P/1 - E o senhor com ela, teve quantos filhos?

 

R - Tivemos quatro, uma menina e três meninos. Quatro e depois parou e não… Hoje Deus me livre. Não aguento mais… É muito sofrimento ter filho. É uma fortuna para educar [os] filhos, não é brincadeira.

 

P/1 - Como se chamam? Nome deles e idade.

 

R - Nissim, nome de meu pai, Nissim é o mais velho.

 

P/1 - Ele tem quantos anos?

 

R - Agora? Ele nasceu [em] 1965, seis de abril de 1965. 22 [anos]. Abril mesma coisa... Eu já perdi para [o] meu filho… Ela já teve uma fibroma grande, minha mulher, depois teve no hospital [durante a] gravidez, jogou o fibroma nas costas, fez operação na barriga, tirou e deixou filho depois faleceu com uma anestesia, faleceu. Perdeu sangue, perdeu sangue. E fez [uma] segunda operação que tirou o filho e três meses de... E era menino.

 

P/1 - E o segundo filho?

 

R - Nazira, Nazira [é o] nome da minha mãe.

 

P/1 - Ela nasceu quando?

 

R - Ela nasceu [em] 21 de julho de 1966.

 

P/1- Terceiro?

 

R - Terceiro? Marco, nome de meu irmão, Marco, nasceu em três de dezembro de 1967.

 

P/1 - Treze ou três?

 

R - Três.

 

P/1 - Um por ano, né?

 

R - É sim... Quatro, nasceu quatro de fevereiro de 1969.

 

P/1 - E qual o nome?

 

R - Jack, nome de meu tio mais velho, irmão de meu pai mais velho - é Jack, Yaacov.

 

P/1 - Ele está na escola, então?

 

R - Não, ele não está estudando aqui.

 

P/1 - Mas ele já está formado?

 

R - Vai fazer vestibular, esse mais velho.

 

P/1 - O mais velho vai fazer vestibular?

 

R - Não, mais novo.

 

P/1 - E o mais velho...?

 

R - É, mais novo está na escola de… Como se chama isso? Federal, Economia, economia.

 

P/1 - Quem?

 

R - Marco.

 

P/1 - O Nissim...?

 

R - O Nissim está estudando Turismo.

 

P/1 - Estudante da Faculdade de Turismo?

 

R - É. Faculdade de Turismo.

 

P/1 - A Nazira?

 

R - Santa Úrsula, vai terminar agora, estuda Administração.

 

P/1 - E o Jack vai fazer vestibular?

 

R - Vestibular.

 

P/1 - Para quê?

 

R - Não sei o que ele vai fazer da vida dele.

 

P/1 - Algum deles trabalha?

 

R - Só dois. O mais velho e Nazira. Marco e Jack não.

 

P/1 - E trabalham em quê?

 

R - Banco. A Nazira trabalha no Bradesco, o outro só como... Está morando nesse edifício brasileiro... Mecânica, carro, compra carro e vende carro, esse é o mais velho, Nissim.

 

P/1 - Esse prédio é do senhor?

 

R - Minha. Nossa incorporadora.

 

(corte na gravação)

 

R - Aqui tem dois que não servem. Aqui mais velha e mais caçula.

 

P/1 - O senhor começou a explicar a... Não é linda esta foto?

 

R - Isso é em 1920.

 

P/1 - 1920?

 

R - Esse que está aqui. Porque ele casou minha irmã Ester...

 

P/1 - Cadê a Ester aqui?

 

R - Nesta [foto ela] não está.

 

P/1 - Ah, não está porque ela casou aqui.

 

R - Casou, ela foi com o marido dela. A caçula não está aqui, a Rachel, caçula não está aqui, está no berço.

 

P/1 - Ah, estava no berço. Aqui tem sete?

 

R - Um que trabalhou na construção, ele nasceu em dezesseis de agosto de 1918, faleceu agora, faz um ano e meio, faleceu, casado mas não tem filho.

 

P/1 - Ele estava no Brasil?

 

R - É, aqui em construção, tenho carteira dele. Quer ver? [Quer que eu] mostre para você? Nacionalidade tem na carteira, o retrato dele, a nacionalidade é brasileiro. Depois ele viajou, viajou daqui para Israel.

 

P/1 - Para morar lá?

 

R - Casou lá. Não tem filho. Outro mais velho, esse Marco...

 

P/1 - É esse aqui?

 

R - Esse [é] aquele que trabalhou comigo.

 

P/1 - Esse é o que ia na França e...

 

R - Na França, depois ele foi pra África. Ele é mais velho que eu, aqui ele tem treze anos.

 

P/1 - E o seu irmão foi pra onde depois da África?

 

R - Depois de estar na África ele vem aqui dois meses e volta, vai para Israel... Como eu e minha família fomos… Está mais velha que no Brasil, irmãos dele aqui.

 

P/1 - Ele está vivo ainda?

 

R - Não, faleceu.

 

P/1 - Há quanto tempo?

 

R - Faleceu agora, faz dois anos, dois anos e meio.

 

P/1 - Ele tem filho, ele casou?

 

R - Ele não tem filho, nem casou.

 

P/1 - Ficou na África?

 

R - Na África, faleceu na África.

P/1 - Ele faleceu na África?

 

R - Sem negócio, sem negócio, sem motivo, não tem, conhecido só tem que tempo que estou lá, conhecido de gente comerciante.

 

P/1 - Ele morreu no Senegal?

 

R - Senegal, e o corpo dele foi para Israel.

 

P/1 - Foi enterrado lá?

 

R - Foi enterrado em Israel.

 

P/1 - Esse é o Marco?

 

R - Marco.

 

P/1 - A gente repara nesse aqui...

 

R - Esse sou eu.

 

P/1 - Repare o traje de marinheiro que era moda, todo menino se vestia assim. Uma família muito rica...

 

R - Rica, é.

 

P/1 - Roupas de seda.

 

R - Seda pura, seda francesa, tudo isso, tudo francesa, meu pai é rico, nesse tempo [ele] era rico.

 

P/1 - Isto atrás é o quê?

 

R - Fotografia tem essa colagem, tirou um pedaço e fotografou assim.

 

P/1 - Essa aqui?

 

R - Essa é minha irmã, esta que está de lado mais velha que ela.

 

P/1 - Como ela chama?

 

R - Zaira.

 

P/1 - E ela mora onde?

 

R - Zaava, Zaara, Tel Aviv. Viva, [está] viva, a mais velha viaja muito.

 

P/1 - Essa que F.M. que o senhor casou F.M.?

 

R - Não, não, não, casou em Israel, isso faz dez anos, casou velha, ela não tem filho, o marido já faleceu, ela não tem filho.

 

P/1 - E ela? A que foi para Israel foi aquela?

 

R - Não, não, essa que foi minha irmã Lora, essa que tem dois meninos e uma menina.

 

P/1 - Essea aqui é a Lora?

 

R - Essa é Lora. Ela é falecida, ancore mesmo F.E-, esse.

 

P/1 - E o que estava no Brasil?

 

R - Esse é o mais velho.

 

P/1 - Essa ruivinha, ela foi para onde?

 

R - Para Israel encore, casou, teve um filho, um menino só.

 

P/1 - E está lá ou ela faleceu?

 

R - Ela faleceu, ela e marido dela faleceram. Tem o filho dela, Jacob.

 

P/1 - Veio aqui?

 

R - Aqui, faleceu agora.

 

P/1 - Quem?

 

R - Fortuné, agora tem onze mais dez meses faleceu.

 

P/1 - Estava em Israel?

 

R - O mais velho estava em Israel, tem uma menina, uma menina sim, faleceu. Já foram três meninas falecidas e dois meninos. Faleceu esse, faleceu essa, faleceu esse, mas a mais velha que está nesse lado, já falecida.

 

P/1 - Ester. Ester está viva?

 

R - Mais velha. Não, faleceu aqui com marido e três filhos, faleceram todos aqui.

 

P/1 - Filho também?

 

R - Filho, três filhos.

 

P/1 - Foi o que, um acidente?

 

R - Não, não, não é isso. Na vida, a vida ruim que acontece com marido dela. Faleceram três: dois meninos e uma menina, agora tem só uma irmã.

 

P/1 - E o marido dela também faleceu?

 

R - Primeiro marido. Primeiro faleceu o filha dela, a Viola, ela chama Viola, o nome de minha mãe na F.E- está chamando Viola. Bom, esse primeiro que faleceu, depois faleceu o pai dela, chamava José Dana, José, depois faleceu o meu sobrinho, o Eduardo, faleceu.

 

P/1 - Então ele morreu...

 

R - Depois, não tinha dez meses e faleceu Victor, o mais velho.

 

P/1 - Mas de que modo ele morreu?

 

R - Dez...

 

P/1 - Cada um de uma coisa diferente?

 

R - Tinha doença, não é doença, isso é uma sina. Novos, tudo novo. Filhos porque quem está velho é o marido, meu cunhado, 87 anos quando ele faleceu e a minha irmã faleceu agora, faz nove anos que está falecida, de 87, 68 anos, é... Tinha 78 anos [quando] faleceu minha irmã mais velha.

 

P/1 - Mas os filhos tinham que idade quando sua irmã faleceu?

 

R - Ah, hemorragia isso, minha irmã.

 

P/1 - A sua irmã foi de hemorragia?

 

R - Hemorragia, depois...

 

P/1- Como a sua mãe, né?

 

R - É, hã?...

 

P/1 - Sua mãe também morreu de hemorragia?

 

R - Também, hemorragia até porque depois que ela me largou foi para a França e depois da França não conseguiu ficar lá. Minha mãe mandou trabalho para meu irmão, ele não estava trabalhando, meu irmão já tinha ido com meu outro irmão para África, ele me falou para o... Voltar para a Síria, ele falou: “não, não quero para Síria. Antes Minha mãe que vai ajudar”. Foi para Síria, me falou sobre a Palestina e mandou F.E- eu não quero, seria sofrer demais um pouco. É, esse tempo de sofrimento. Entre 1934 até 1937 teve muito sofrimento em Israel.

 

P/1 - Como era esse sofrimento? A gente gostaria que o senhor contasse mais...

 

R - É, não tem dinheiro, não tem capital. Para viver pra despesa, comida, roupa...

 

P/1 - Muito trabalho…? Mas quais dificuldades o senhor passou para viver lá?

 

R - Onde?

 

P/1 - Na Palestina, nesses tempos ruins.

 

R - Ah, Palestina é trabalho operário, isso. Eu não consegui quando tinha esse trabalho forçado. Eu vou sozinho para carregar um saco de cimento nas costas, volta nas costas, sobe três andares, sobe dez, oito horas, eu não conseguia esse trabalho, depois faz massa. O quê? Ninguém, ninguém, meu irmão, esse, o caçula, esse não conseguiu.

 

P/1 - Os senhores trabalhavam para quem?

 

R - Trabalharam para mim.

 

P/1 - Em Israel era só vocês mesmos?

 

R - Não, trabalhavam para F.M. Trabalho para mim, para minha despesa.

 

P/1 - Não, eu digo, patrão em Israel.

 

R - Não tem patrão, é só o...Como chama? Le Poalim (Hapoalim), irmão de Poalim, isso...

 

P/1 - O que é Poalim, eu não...?

 

R - É... Poalim em 34, Porf, Porf. Como o que já está cheio esse tempo, tinha operário, F.E-, isso em 34, ele é cheio, golda meio... Chegou nesse tempo. Trabalho para ganhar o quarenta cruzados. Quarenta cruzados, isso era dinheiro nesse tempo. Mas é trabalho duro, duro!

 

P/1 - A sua mãe queria que o senhor voltasse para a Palestina, era isso?

 

R - É isso, antes deu viajar para a França, ela me pedir para M.F.

 

P/1 - F.E- tinha família, inclusive, tinha a irmã casada...

 

R - Não dá para mim. M.F. outro, não tem nada, cada uma separada para F.E- separado. Irmã está casa e tem marido que...

 

P/1 - E aí a sua mãe ficou triste?

 

R - Triste, triste, largou ela em 1937, nove meses depois, desapareceu, sem doença, sem nada.

 

P/1 - Ela não queria que o senhor estivesse na África?

 

R - O chefe da comunidade israelita falou: “Como larga o teu filho? Aguentou até 21 anos, que está um homem a frente da casa do de você, e agora largou você, foi longe, você pode ver, não pode ver”. Ela levou um susto muito grande, muito bem. Esse tempo que eu saí da Síria. F.E- e M.F.. E aqui ano e quatro meses mais pequeno que...

 

P/1 - E o seu irmão?

 

R - Por favor… Nesse tempo ele já tinha saído, ele já foi em 1927, eu em 37, diferente. Esse era Simon que já pagou essa, da Síria. Eu já mostrei isso para o consulado sírio, ele me falou muito, muito bom: “Eu respeito você para quem vai na África na volta daqui, para África. Ele não mandar o visa para vai. Falou: “Pode ir para Síria, te obrigar a ter carteira, carteira essa para nacionalidade”.

 

P/1 - O senhor se naturalizou brasileiro?

 

R - Me naturalizei.

 

P/1 - Mas o senhor queria ir para a África, voltar para a África?

 

R - Não, não, não. É só para liquidar esse assunto, teria gostado de liquidar.

 

P/1 - Não pode ir?

 

R - Aqui que não pode, chegou, não pode. Ela ficou aqui quatro anos, nesse tempo.

 

P/1 - Aí o senhor voltou depois de quatro anos?

 

R - É, é, é, para não… não foi ele não querer que F.E- negócio. Esse recibo aqui, dessa carteira.

 

P/1 - Tinha que pagar isso para tirar?

 

R - Tudo, é... Esse recibo.

 

P/1- E quanto foi que o senhor pagou?

 

R - 37, tempo que eu saí de lá, da Síria, é isso.

 

P/1 - Isso aqui era quanto, mais ou menos, em dinheiro de hoje em dia?

 

R - Esse tempo... Como agora 120 contos, 120 cruzados. Foto da minha irmã mais velha, Ester, é essa. Com meus filhos.

 

P/1 - Hum, hum, caçulas?

 

R - São, meus filhos, Minha irmã é essa.

 

P/1 - ___________, né?

 

R - É, [a] mais velha [é] essa aqui. Eu tenho retrato, aqui mostra... Olha, agora. Esse meu cunhado faleceu agora, não tem um mês. Esse meu irmão que faleceu na África. Olha como o Marco... Esse [é o] Marco, esse, ele...

 

P/1 - Essa foto é onde, é aqui?

 

R - Não, [em] Israel. Tirada não há muito tempo. Este meu filho que esteve estudando lá em Israel, ele trouxe... Agora veja, essa é [a] minha irmã caçula.

 

P/1 - Rachel?

 

R - Rachel essa, caçula. Agora tem 67 anos. Não está aqui.

 

P/1 - Estava no berço.

 

R - No berço, esse tempo é. Aqui ela não está. Aqui [sou] eu e meu filho Marco, esse é meu filho maior. Eu e minha filha, Nazira.

 

P/1 - Isso aqui foi quando, onde?

 

R - É, aqui, aqui.

 

P/1 - Em 1982?

 

R - 1982.

 

P/1 - Dia dos _____________ (alteração na gravação.)

 

R - Aqui.

 

P/1 - _______ da formatura?

 

R - Não era formatura, não.

 

VOZES - Nazira

 

R - É, olha, Talmud Torá, formatura. Jack, o meu caçula, depois Marco, depois Nazira.

 

P/1 - Formatura de escola?

 

R - É.

 

P/1 - F.E- outro retrato também, é? São retratos seus da Síria e de outros lugares antes de sua vinda ao Brasil, além desses o senhor não tem mais nenhum?

 

R - Não, da Síria só esses.

 

P/1 - Daqui do Brasil não tem nada? Da viagem de navio para o Brasil, o senhor tem...?

 

R - Está escondido. Tem uma no navio, que [eu] estou [no] navio, isso passou...

 

P/1 - Como é o nome do navio que o senhor veio?

 

R - Júlio César, italiano.

 

P/1 - Júlio César. E o senhor veio em que classe?

 

R - Terceira classe, dezesseis dias.

 

P/1 - Terceira. Deixa eu ver o retrato, se o senhor arranjar retrato do navio seria interessante a gente ver...

 

R - Está bom, isso. Faz tempo… Um retrato do navio, observando, sou garçom

 

P/1 - Tem tempo... Estava chovendo... Depois disso o senhor já saiu do Brasil? O senhor já voltou para a África?

 

R - África, não. Fui, em 1980, lá para Israel, cinco meses e meio depois eu voltei.

 

P/1 - E o senhor foi só com a sua mulher, deixou os filhos?

 

R - Deixei mulher e filhos.

 

P/1 - O senhor estava contando para a gente, quando o senhor chegou aqui fez dois prédios...

 

R - Dois prédios. Vendi metade...

 

P/1 - Isso que eu queria saber, os apartamentos foram vendidos?

 

R - Está vendido, e depois... Tem sócio, tem sócio Moshe, metade para ele e [a outra] para [o] meu irmão que está [com o] edifício. Vendeu metade porque [o] dinheiro para completar não chegou.

 

P/1 - O seu irmão não mandou de lá?

 

R - É, uma parte que não chegou. Vendeu [o] apartamento a preço de custo...

 

P/1 - Para poder pagar..

 

R - Aqui, é, para completar obras, para completar obras.

 

P/1 - E depois disso o senhor fez o quê?

 

R - Nada, nada. Tive que trabalhar com meus dois irmãos. Um aquele que trabalhou comigo na construção e outro que trabalhou na África, não quiseram, nem esse nem o outro.

 

P/1 - O senhor ficou... Alugou [o] apartamento?

 

R - Apartamento, viver de apartamento.

 

P/1 - De rendas?

 

R - De rendas.

 

P/1 - E o senhor… A vida toda nunca mais trabalhou?

 

R - Nada, nada. Não consegui.

 

P/1 - Já tinha trabalhado muito?

 

R - Não consegui, não consegui, queria trabalhar e não consegui, como um provérbio que fala que duas melancias não podem pegar uma, só duas. Agora, uma F.E- uma pode pegar dois pode pagar duas melancias... Segurar, não pode, duas melancias podem... Agora teve filho, a irmã dela não conseguiu... Claro, é isso (corte na gravação)... Nada, com filhos, trabalhou com filhos, sozinha, sozinha.

 

P/1 - Quer dizer que cada irmão ficou trabalhando na sua e...

R - É, não trabalhou... Tempo depois que terminou a obra aqui… Meu irmão de Israel está vivendo de renda, porque o aluguel eu mando para ele, mando para ele aluguel. Compro o dólar aqui no banco oficial e mando para ele.

 

P/1 - Qual?

 

R - Esse, esse.

 

P/1 - Ah, esse que quando o senhor chegou aqui fez esses...?

 

R - É, ele, é ele, dez anos mais novo que eu, mais novo e agora...

 

P/1 - E aqui, antes, ele trabalhava...

 

R - … Dezesseis de agosto de 1926 (inaudível).

 

P/1 - Aqui entende árabe?

 

R - É, fala. Mas fala, fala.

 

P/1 - E vocês falam entre vocês em árabe? Os filhos aprenderam?

 

R - Alguma coisa.

 

P/1 - Queria que o senhor me contasse como são as festas em Damasco?

 

R - Muito bonitas, não tem no mundo como essas festas que...

 

P/1 - Então conta para a gente uma a uma.

 

R - Festa de rico, uma alto, mais, mais que palhaço ter mais F.E- o violino... diretamente... Vinte horas que está a canção, a alegria, essa comida, isso é coisa que não tem no mundo, essas festas que acontecem.

 

P/1 - E era na sua casa?

 

R - Muito, muito... Não há no mundo... Damasco nasceu... Ontem, porque a gente tem o... Como fala como na Polônia.. Aqui?

 

P/1 - Gueto.

 

R - Gueto, nosso gueto. Na Síria, gueto, não tem nem catholique nem muçulmano, tudo judeu.

 

P/1 - Tudo judeu? Ricos e pobres juntos?

 

R - Tudo junto, tudo.

 

P/1 - E as festas? Se faziam juntos?

 

R - Tudo, tudo junto. As famílias eram muito grande dos dois lados. Meu avô [por] parte do meu pai tem seis meninos e três meninas, isso [por] parte do meu pai. E [por] parte da minha mãe tem seis meninas e dois meninos. A família [é] muito grande dos dois lados. Agora tem primos deles, esse meu avô tem primos dos dois lados.

 

P/1 - Como conseguia fazer essa mesa de Pessach, por exemplo?

 

R - Tudo F.E- melhor igual no mundo não existe. Come muito, come filho, come avô com Pessach. Ele botou o filho dele e o neto tudo numa mesa. Tem homem que ele está rezando ou comendo, alegria para sem nome.

P/1 - E as mulheres ficavam na mesma mesa?

 

R - Tudo, tudo, tudo. Uma vida muito, muito bonita, muito, muito, muito.

 

P/1 - E isso é o que o senhor nos conte. Tinha empregados na casa?

 

R - Tem, tem, tinha uma... Chama Mãe, para mim [era] Mãe. Conhece ela porque ela já está casada, irmã.. Como chama Bagada... (Iraque?) Iraque, Bagada Iraque. Porque ela vem, ela ainda moça casou, não tem filho, se chama Havina e depois trabalhou com... Na casa de meu pai, ele dá a cada mês um livro de ouro. Trabalhou vinte, 25 anos.

 

P/1 - Ela era judia?

 

R - Judia, judia, cem por cento. Olha, minha mãe me botou... Saiu de corpo dela e...

 

P/1 - Ela amamentou?

 

R - Tudo, tudo.

 

P/1 - Todo mundo?

 

R - Não, não, só eu na vida dela...

 

P/1 - Ela teve filhos? Ela não pode amamentar se não teve filhos.

 

R - Conheci agora em F.E- (vozes) mas o nome dela eu não sei, F.E- dela o mesmo que meu pai e minha mãe.

 

P/1 -Quando o seu pai perdeu tudo ela continuou a sua...?

 

R - Continuou, continuou. Chegou um sobrinho dela do Iraque e ele voltou com dinheiro, que ela tinha trezentas fichas de ouro nesse tempo. Não conhece, ela não conhece ele. Ela vem com moço que ele chegou porque o religioso da Síria escrever para religioso de Iraque e aparece este sobrinho. Levou o que ela trabalhou na vida dela toda, trezentos libras de ouro.

 

P/1 - Ele roubou?

 

R - Não, levou, levou.

 

P/1 - Levou para quem?

 

R - Para ele. Herança, herança.

 

P/1 - Família dele?

 

R - Família dela. O sobrinho levou, nesse tempo, trezentas libras de ouro que isso tudo de meu pai que ele-.. para ela estar trabalhando, cada mês ela ganha uma libra de ouro, cada mês uma libra.

 

P/1 - Aí ela ficou sem o dinheiro?

 

R - Sem dinheiro, não, faleceu. Ela faleceu. Duas irmãs porque não tem nem capital, nem nada, tem casa para morar, só. Casa para morar, para minhas irmãs que estão na Síria esse tempo. Nesse tempo que ela faleceu chegou o sobrinho dela e levou [o] dinheiro todo.

 

P/1 - Como que era o Shabat na sua casa? Vocês faziam o Shabat?

 

R - Cem por cento, cem por cento. Aqui quando está falando rabinato, assim, todo: o jovem, o grande, mesma coisa que rabinato aqui, que pega a religião cem por cento.

 

P/1 - Era muito religiosa sua família?

 

R - Nós da Síria, tudo, tudo nós.

 

P/1 - Mas aí como é que vocês faziam, me conta como era o Shabat, havia preparação?

 

R - Prepara, chalá, tudo, tudo. Acordava sete horas da manhã, nove horas volta na casa tudo, comida, tudo.

 

P/1 - Era isso que eu queria saber. As comidas, que comidas vocês comiam, como era preparada a comida?

 

R - Síria, comida síria de primeira, já sabe o que, comida de primeira.

 

P/1 - Quero saber qual é a comida.

 

R - Tem galinha, tem carne, tem tudo.

 

P/1 - Mas o que eu quero saber...

 

R - Tem galinha, tem carne, é assim.

 

P/1 - Mas deixa eu justificar: em Shabat não se pode cozinhar.

 

R - Oh, não! Está feito isso na sexta-feira.

 

P/1 - Não ficar... Não ter a tradição de ficar cozinhando no fogo...

 

R - Não, não, essa era uma massa, massa de... Como chama? De terra. Chama massa de terra vermelha.

 

P/1 - Argila?

 

R - Isso, aí ela bota carvão e cinza. Sempre deixa isso, sexta-feira está feito, deixa para sábado, tudo está preparado, tudo... Quem está falando aqui? Que tem agora, agora vim até aqui como eu, faz [a] mesma coisa que o rabino, cem por cento religião. Isso, na Síria, que estou falando, foi na Síria, agora não sei.

 

P/1 - Vocês pegavam assim a argila, vocês faziam como se fosse uma cuia em argila, botavam brasa dentro, enchiam de cinza, botavam no fogareiro ou como?

 

R - Bota em cima do fogo, com cinzas. Compra o carvão grande e cinzas em cima da costela, recoberto...

 

P/1 - Abafado com o quê?

 

R - Pano. Agora, para tomar nosso café, a gente chama os musulman, tem musulman. Nós pegamos ele para acender o carvão porque é tempo que tem carvão para F.E- carvão, no tempo esse na Síria era carvão.

 

P/1 - Aí vinha muçulmano?

 

R - Muçulmano para fazer café, o leite ferver, paga ele, uma gorjeta, ele é criança, criança musulman.

 

P/1 - Mas no gueto podia entrar muçulmano?

 

R - Não entra não.

 

P/1 - E como é que ele ia até lá?

 

R - O quê? De criança?

 

P/1 - O caminho.

 

R - Não, ele já sabe isso, ele já sabe sábado, ele...

 

P/1 - Aí faziam todos os sábados?

 

R - Sábado, ele sabe, ele sabe porque tem gorjeta e ele ganha, ele vem, tem gorjeta que ele ganha, é L.E- o grande chama não, criança só. É, criança.

 

P/1 - Gente grande não podia entrar?

 

R - Não, não entra não.

 

P/1 - Não entrava?

 

R - Não entrava porque a M.F.

 

P/1 - ...

 

R - Não, não, F.E-, muito, muito. Para nós, sim, para nossa religião não, nem muçulmano nem católico, casa de judeu não entra.

 

P/1 - E nem vocês saiam do gueto?

 

R - Não, saia, trabalha com ele, trabalha. Agora tem o açougue israelita, legume, tudo, frutas. Tudo isso, sinagoga, grande, pequena.

 

P/1 - Dentro do gueto?

 

R - Dentro do gueto, isso, dentro de gueto.

 

P/1 - Mas, por exemplo, a tecelagem do...?

 

R - A tecelagem sempre trabalhava com muçulmano.

 

P/1- Fora do gueto?

 

R - É, fora, fora disso F.E- e paga. Gente para homem e mulher, dá mercadoria que ele faz trabalho e pagar ele leva domingo e trás sexta-feira e receber o trabalho dele, entrega mercadoria e receber. F.E- Ele pega mercadoria domingo e entrega [na] sexta-feira e ele paga nesse tempo em ouro.

 

P/1 - O seu pai tinha, por exemplo, amigos que não pertenciam... Amigos nos negócios? E esses não frequentavam a casa?

 

R - Negócio dele era de grão. Manda mercadoria porque ele trabalha na Síria, manda para a Jordânia, manda para a Palestina, manda para Mecque, para três lugares: Jordânia, Palestina e Mecque, mercadoria que ele manda. Esse comerciante mandou dinheiro com... Nas cartas todas, ele ganha dez por cento nesse tempo, que ele estava trabalhando no metro, dez por cento que ele ganhava nesse tempo.

 

P/1 - Os amigos que ele fazia, que não eram judeus...

 

R - Os amigos F.M. nos consideram nós por pouco porque (para nós?) só agora tem seu safado, musulman muito safados, safado tem com meu pai, comerciante faz muito respeito para ele, muçulmanos muito respeito com ele.

 

P/1 Dos que eram amigos, eles vinham, eles podiam visitar a casa?

 

R - Não, não, minha vida, eu... Em 1926 ele convidou esse deputado, deputado onze que está em meu pai, um fica doze. Convidou ele para tomar [um] chá gostoso e depois saiu. Fora disso não tem não, não tem nada, nada, judeu não tem nada.

 

P/1 - Convívio nenhum, né?

 

R - Nada, nada, só trabalho, assim para comércio.

 

P/1 - Mas ainda voltando às festas, no Shabat não tinha nenhuma comida especial em todo Shabat, não? Todo sábado a mesma comida, não?

 

R - Não, diferente a comida, eu comia...

 

P/1 - Porque tem algumas famílias que costumam ter as mesmas comidas, por isso...

 

R - Não, não, escuta: agora comida de rico é diferente de comida de pobre, porque pobre está recebendo a carne de graça, sem pagar, e o rico compra de primeira, outras coisas.

 

P/1 - O que o senhor se lembra de tão gostoso que seja…?

 

R - Toda comida é boa, toda comida que você come é... Come com o tempo lá saúde, aqui, tudo veneno, aqui não conhece doença nem nada, comida de primeira, [a] Síria [é] melhor que [o] Líbano mil vezes, melhor que Alepo. Síria tem sete rios, sete rios, água.

 

P/1 - Dentro de Damasco?

 

R - Damasco, sete vezes melhor.

 

P/1 - E tinha restaurante?

 

R - Tem na cidade, [na] capital da Síria, isso tem tudo.

 

P/1 - Mas dentro do gueto tinha tudo isso?

 

R - Não, não, fora. Isso não, isso é só para muçulmano. Agora tem gueto só para catholique, que está indo agora... Digo, tem gueto com católico, então trabalha... Não trabalha com muçulmano com... Para eles.

 

P/1 - Mas para passear...

 

R - Passear é à vontade, qualquer lugar, qualquer lugar você vai.

 

P/1 - Essa bandeja é uma bandeja de casamento?

 

R - Essa é o casamento. Pai da minha mãe isso, ele trabalha com essa...

 

P/1 - Isso aqui é bronze? Bronze machucado, né?

 

R - É.

 

P/1 - Agora, me explica, porque não aparece nas costas?

 

R - É só botar asfalto grosso, asfalto, é, aqui, asfalto. Isso da rua, isso.

 

P/1 - Piche.

 

R - É, exato, preto, piche ou é aqui a mulher que faz isso [com] martelo pequeno que é para fazer desenho, [como] este, é especialista. Agora tem hebraico, essa tem, para nome de meu pai Nissim, olha, nome de meu pai.

 

P/1 - A dos filhos.

 

R - Nissim.

 

P/1 - Nissim aqui em hebraico.

 

R - É, aqui [em] hebraico, Nissim.

 

P/1 - Isso aqui é em hebraico?

 

R - Árabe, árabe, isso é Nissim. Nissim é o nome de meu avô Murad Nissim Murad. Murad é o nome de meu avô, meu pai era...

 

P/1 - Ah, não chama...

 

R - É Marco, chama Marco. Nissim Murad.

 

P/1 - Murad também?

 

R - É, isso de casamento.

 

P/1 - Ah, isso aqui é bandeja de casamento?

 

R - Bandeja de casamento que está… meu avô, pai de minha mãe trabalhou essa...

 

P/1 - Bandeja de casamento servia para que? Servia para alguma cerimônia de casamento ou era presente de casamento?

 

R - Não, não, minha mãe escolheu essa. O pai dela faz essas bandejas, esconde ouro dezoito quilates, de pratas que é mais bonito, mais caro. Ela escolheu essa, escolheu essa.

 

P/1 - De presente?

 

R - Presente de casamento.

 

P/1 - E também tinha... Alguns contam que tinha cerimônia que levava nas bandejas as roupas da noiva.

 

R - É...

 

P/1 - É isso que eu quero que o senhor me conte, essa...

 

R - Purim, isso, mas isso é para criança, Purim para criança, esse Purim para criança… É tipo uma bandeja... É para noiva isso, faz bandeja de flores, comida, bota isso, comida assim, mas lá fizeram pouco isso, não é muito meu tempo isso, isso é coisa de Líbano, coisa de Líbano. Agora, outra coisa aqui é o relógio, agora é do casamento de meu pai, do tempo que meu avô estava trabalhando, 1890, parece que ele...

 

P/1 - É isso que eu queria perguntar, o seu avô trabalhava em quê? O pai de seu pai.

 

R - O pai do meu pai [trabalhava com] tecelagem.

 

P/1 - Também tecelagem?

 

R - É, como o meu pai.

 

P/1 - E ele já F.M.?

 

R - Faleceu aos 115 anos.

 

P/1 - E ele era rico também?

 

R - Rico, rico, rico, rico, rico.

 

P/1 - O pai de sua mãe fazia isso?

 

R - É, é, o pai dela é lá de...

 

P/1 - Ele ganhava muito dinheiro com isso?

 

R - Era um trabalhador. Não, é com um trabalhador dele que ele faz isso.

 

P/1 - Ah, certo.

 

R - Trabalhador dele. Esse relógio tempo a mesma coisa desse. Quando ele casou, o meu avô, esse, ele ia chamar o nome dele, nome de meu avô… Relógio de casamento, isso tem noventa anos, esse relógio aqui tem noventa anos, no casamento.

 

P/1 - Ele também fez... Foi o pai da sua mãe?

 

R - É, foi na Argélia, ele tem loja na Argélia, ele está trabalhando para essa...

 

P/1 - Quem é? Seu tio?

 

R - Meu avô, meu avô.

 

P/1 - Pai de sua mãe?

 

R - Pai de minha... Isso mesmo, tem loja na Argélia.

 

P/1 - Na Argélia. O senhor esteve lá, não foi?

 

R - Foi, isso em 1937.

 

P/1 - Isso ele era quem tinha isso, uma loja dele?

 

R - Uma loja. Isso foram os filhos dele ancore dois tios que ele foi lá, trabalhou de outra maneira, de outro... Como chama isso...

 

P/1 - Esse que tinha uma loja de antiguidade?

 

R - É, esse é o meu tio.

 

P/1 - Era irmão da sua mãe?

 

R - É, são dois: Rafael e David.

 

P/1 - O relógio ainda funciona?

 

R - Funciona, funciona.

 

P/1 - Lindo, né? Muito bonito, uma beleza….. (fez alguma pergunta)

 

R - Noventa anos.

 

P/1 - Deixa eu ver.

 

R - Olha lá, Argélia.

 

P/1 - B.F. incrível, muito, muito bonito. O relógio mais lindo.

 

R - É, não tem mais algo assim.

 

P/1 - Não existe. Depois a gente vai fotografar esse relógio, realmente está muito bonito. Isso, então, ele deu para o seu pai?

 

R - É, deu para meu pai isso, que casou. Pouco tempo antes do meu pai falecer minha mãe deixou com meu irmão. Meu irmão mandou para meu irmão Marco, que vive na França, na França ele guardou. Quando ele chegou na África, chegou lá e ele levou com ele esse relógio. Meu irmão Marco trouxe da África com ele, queria me vender, isso do meu pai.

 

P/1 - Certo, aí ficou com o senhor?

 

R - Não, com ele. Depois, quando ele chegou aqui, me deu para guardar, guardar ele e casou. Quando ele casou me pediu esse relógio para devolver à ele e falou uma palavra: você casa, trás ele de meu pai, ele vai. Eu estava casado, eu tenho filho, eu F.E- que você, você é solteiro, eu sou casado, você casa trás meu F.E- relógio de meu pai F.E-, ficou comigo.

 

P/1 - E essa bandeja?

 

R - Essa é do casamento de F.M., ele trouxe aqui. Ele trouxe aqui em 1958, trouxe meu irmão F.E-

 

P/1 - Esse relógio, sua mãe mandou para seu irmão, esse irmão da França?

 

R - É, é, isso, meu irmão, para o mais velho isso. Pouco de… (corte na gravação)

 

P/1 - Que lindo!

 

R - Não tenho mais isso agora. Faz trinta anos que está F.E-, caiu aqui, está quebrado desse lado.

 

P/1 - Divino isso!

 

R - Uma corda pequena, olha, funciona. Agora ele tem noventa anos.

 

P/1 - É de uma beleza! Isso é o quê, bronze?

 

R - Não, ouro, ouro.

 

P/1 - Não fecha. Não, melhor fechar por causa do F.M. água.

 

R - É sim.

 

P/1 - Muito bonito, realmente. Deixe eu lhe perguntar uma coisa. Quando o seu pai... Aconteceu aquilo que ele ficou doente...

 

R - Ficou três anos [com] câncer, perdeu capital, tudo...

 

P/1 - E continuaram morando no mesmo lugar?

 

R - Cada dia uma despesa de libra de ouro, fora dinheiro da família, todos os filhos, para ele só uma libra de ouro, libra de ouro...

 

P/1 - Mas e a casa que vocês moravam?

 

R - Ficou, ficou em casa. A casa ficou.

 

P/1 - E vocês continuaram lá?

 

R - Não, não, não consegui. F.E- para vender isso, em 1947, para fugir para Israel.

 

P/1 - Ela vendeu a casa?

 

R - Não, não vendeu, alugou dois anos e fugiu. Alugou, levou aluguel de dois anos e fugiu sem nada e alugou um apartamento.

 

P/1 - Isso em 1947?

 

R - É, 1947.

 

P/1 - Quando ela fugiu não tinha mais ninguém?

 

R - Nada, não tem isso, perdeu tudo lá, na Síria perdeu tudo. Em 1946 ela ofereceu minha irmã mais velha, a segunda F.E- ela pediu para mim para encontrar esses dezesseis libras de ouro, nesse tempo. Falei: “Não pode porque nós, os nove filhos…” Eu não podia comprar isso, não tem como, ficou perdido na Síria.

 

P/1 - E sua mãe faleceu em que ano?

 

R - 1938. Pequeno.

 

P/1 - B.F., em venderam a casa.

 

R - F.E- 52 anos faleceu.

 

P/1 - F.M....

 

R - Eles faleceram novos, ela e ele, novos, novos. Ele faleceu com 56 anos, em 1932, e ela [com] 38 anos, morreu em 1938. Ele em 32, faleceu. Ele já sofreu demais, três anos de câncer, ficou diferente, esclerose.

 

P/1 - É muito duro.

 

R - É, câncer.

 

P/1 - Quando o senhor veio para o Brasil como o senhor imaginava que era o Brasil?

 

R - Porque meu irmão, esse mais velho que ele chegou aqui em 1955, 55 aqui.

 

P/1 - O Marco?

 

R - O Marco, viu que [dava para trabalhar com] construção.

 

P/1 - De empregado da construção?

 

R - Não, nós queríamos comprar o... Nós trabalhamos na loja... O terreno para construir lá. Não conseguiu, complicado, não conseguimos comprar lá na África. Ele chegou aqui...

 

 

P/1 - Ele veio para cá por quê?

 

R - Para ver se a irmã mais velha, esse... F.E- 1920 até 1940, a 55, dia 25 de F.E-, quantos anos tem?

 

P/1 - 35 anos.

 

R - Não vi ela antes de F.E-, não vem lá, não vem aqui, construção que ele dá renda. Depois meu irmão chegou aqui, chegou aqui em 1958, comprou o terreno de todos os lugares e vivia aqui. Nós começamos a mandar dinheiro para ele aqui.

 

P/1 - Qual? Esse?

 

R - Esse, esse. F.E- com ele, estou com ele, isso na África, ele...

 

P/1 - Ele estava aqui procurando terreno?

 

R - É, terreno. Aí nesse terreno aqui. Depois fechou negócio aqui em sessenta. Depois que ele já tinha comprado esse terreno ele começou [a] construção. Bom, na construção ele não conseguiu meu irmão para dinheiro que ele está emprestado com meus primos nesse negócio, perdeu dinheiro lá com eles, 34 mil cruzados, nesse tempo, e perdeu aqui metade de nossa construção, que já tendo começou mandar dinheiro para ele aqui.

 

P/1 - Qual, esse...?

 

R - Esse, esse. F.E- com ele, estou com ele, isso na África.

 

P/1 - Ele estava aqui procurando terreno?

 

R - É, terreno. Aí nesse terreno aqui. Depois fechou [o] negócio aqui em sessenta. Depois ele um ano, depois que ele já comprou aqui esse terreno. E começou a construção. Bom, na construção não conseguiu meu irmão para dinheiro que ele está emprestado com meus primos nesse negócio, perdeu dinheiro lá com eles, 34 mil cruzados nesse tempo e perdeu metade de nossa construção. Que já tendo aqui quase-.. cinquenta por cento ficou com vinte e sete, é meu irmão esse- E outro ficou com 27.

 

P/1 - Isso foi em sessenta e...?

 

R -

 

P/1 - Dois.

 

R - Sessenta e o quê? Construção sessenta e... Acabou no fim de 64. 1964 acabou essa construção aqui. Quatro anos, 62 no fim casou com ela. Estava alugado o apartamento com a Rua Dona Delfina, Dona Delfina.

 

P/1 - E o senhor quando chegou aqui foi morar onde?

 

R - Em Dona Delfina com meu irmão, na casa de minha irmã Lora que está com os filhos todos solteiros, nesse tempo que chegou aqui. Depois eu aluguei um apartamento e trouxe meu irmão, esse que está na casa dela, trouxe comigo. Ficar no apartamento alugando ele, paga aluguel, aluguel esse na Rua Dona Delfina. Eu já fiquei lá seis anos, seis anos, Dona Delfina ficou seis anos, 1960 até 66. Quando nasceu minha filha Nazira, quando ela tinha vinte dias eu aluguei esse apartamento, ficou meu irmão e eu aqui. Esse apartamento ficou com meu irmão, mudou para cá, em agosto de 1966, é sim.

 

P/1 - E aquele outro apartamento, a outra cobertura, o senhor deu para sua irmã ou cada um tem a sua parte?

 

R - Tem, tem parte dele, está separado, cada um tem.

 

P/1 - Não tem necessidade de construção com o Marco?

 

R - É. O Marco vendeu [a] parte dele, ele vendeu [a] parte dele...

 

P/1 - Vendeu para quem?

 

R - Para brasileiro, vendeu tudo que ele já tem metade, metade que ele fez, vendeu tudo.

 

P/1 - O senhor é sócio do Senhor Isaac também?

 

R - É, ele é sócio de nós, isso na construtora.

 

P/1 - Queria que o senhor tentasse se lembrar um pouco das festas, talvez o senhor possa se lembrar através do que os seus pais lhe contaram. Pessach, qual é o ritual? Vocês tinham comida...?

 

R - O ritual é assim, reunia a família toda, netos, tios, primos.

 

P/1 - Vocês tinham louça separada para Pessach, ou não?

 

R - O quê?

 

R/2 - Meus pais tinham.

 

P/1- A louça sempre toda separada?

 

R - É, é.

 

P/1 - Isso o senhor mantém aqui, não?

 

R/2 - Eu comecei, mas depois, com empregada você vai...

 

P/1 - Vai eliminando, né?

 

R/2 - Mas eu lavo, eu...

 

R - É, faz tudo.

 

R/2 - Eu não sei, eu lavo tanto a minha louça, sei lá, tem horas que eu começo a F.M. Olha, eu fiquei bem uns dezoito anos F.E. eu estava desesperada para poder acender um...

 

R - É, foi fogo.

 

R/2 - Tinha que esperar o pessoal vir F.M. à cidade.

 

R - É, de fora. É, esta pegando, religião.

 

P/1 - Vocês moravam onde?

 

R/2 - Na rua da Alfândega. Nasci lá, morei dezoito anos, então tinha um pessoal F.E. já conhecia, contrata, festas, essas coisas, levantava cedo, F.E. segundo andar acho que o que me pegou foi isso, foi em 56, 57 que eu subia aquilo vinte vezes por dia F.E. era de manhã ou de tarde depois B.F. Aí ficava a minha mãe no portão lá atrás, aí ficava, o primeiro que ela via da rua puxava e trazia. Teve uma vez que ela trouxe um garoto, ele chegou lá dentro e ficou assim todo assustado, ele disse: “O que eu? Que história é essa? O que a senhora, o que a senhora não acende?”

 

R - ... caçula já...

 

Voz. F.M.

 

R - F.M.

 

Voz. F.M. o que que é tradição.

 

R - Pois é, ele estavo no, estudante.

 

(corte na gravação)

 

Voz. ... liberdade, meu pai estava se arrumando para sair, para sinagoga, era tudo que eu queria, né? Não precisa comprar café. Ontem eu fui para não podia na escola ficava desesperada, ficava louca, ficava completamente B.F.

 

P/1 - Estudava em que escola?

 

Voz. Ah, eu estudei em colégio, público também estudei...

 

P/1 - E não podia falar que era judeu?

 

Voz. Chegava na merenda, eu tinha vergonha de dizer, falava porque… Não podia. Meu pai só dizia que quem comer morre, apodrece e não pode, não pode, não pode, não pode falar com goy, não pode. Depois é que eu fui entendendo que cada um é uma coisa.

 

R - Que lindo isso, né?

 

Voz. Sexta-feira era sopa, ficava F.E. coordenadora, ficava ali para eu catucar o outro para passar, trocar de prato, eu morria. Era sopa, quando era mingau F.E- mas quando era salame F.E. para poder desfazer. Ficava F.E. da noite eu tomava o leite, ia para a rua, aí eu dizia que estava com a garganta doendo e ela: Ô B.F. está demorando, até ela se distrair para eu poder cata o prato dela.

 

P/1 - Mas não tinha colégio judaico para você poder frequentar?

 

Voz. Acho que tinha mas depois pediram...

 

R - Dinheiro para pagar esse... A gente que não pode.

 

Voz. Todos nós.

 

Voz. ... F.E. falar a língua, era um... F.E.

 

(corte na gravação)

 

R - Isso, é, tudo...

 

Voz. É uma perda muito croché, muito bordado mas ao mesmo tempo F.E.

 

P/1 - É.

 

R - É.

 

Voz. Não adianta.

 

P/1 - Tem alguma coisa que você tem que ela usasse para... Especificamente para festa, que ela guardasse, não, F.M. guardar, especialmente, não?

 

Voz. Não, não. Tinha as F.E. de ver até trabalho de...

 

R - Mãe dele, mãe dele.

 

P/1 - Nos retratos da época, da terra, nada? Circuncisão, vocês tinham alguma cerimônia especial para circuncisão?

 

R - Não, mesmo do casamento. Circuncisão para nós de Damasco [é o] mesmo que casamento. Agora, para filha, ninguém abre a boca. Setenta mil pessoas que viviam lá nesse tempo, no gueto. Setenta mil F.E. porque eu contei uma mulher que...

 

Voz. M.F. menina ninguém sabia.

 

R - Ora, não sabe. Agora, o menino, setenta mil já sabe. Ah, mulher, né? Mulher... Se é homem já tem filho, filho... Tem um profeta que nasceu.. oh, não, Síria isso para nós... muito festa bonita.

 

P/1 - Aqueles tinham uma porção de docinhos, coisas bem específicas...

 

R - Não, isso [é na] Síria. Comida síria, doces cristalizados...

 

Voz. Tem o F.M.

 

R - Tudo faz na casa...

 

P/1 - Isso já ouviu reclames e F.E. vamos lá.

 

R - Faz tudo isso, doce de primeira, fartura demais, é gostoso se você come, opa, você quer mais. Com saúde, come com saúde, gostoso... Muita fruta, muita comida, carne de carneiro F.E. come. De boi não, é só para fazer quibe, só isso, o boi pequeno, porque a carne fica fofa demais.

 

P/1 - De bezerrinho, né?

 

R - É, fazer kukebe. Comida para nós, bom para saúde, carne de carneiro.

 

P/1 - Em casa vocês falavam francês, árabe?

 

R - Não, não, árabe, tudo árabe. Agora, estuda na escola para francês. Árabe ou francês, sabe sim. Porque estuda francês na escola.

 

p/1 - Mas em casa é árabe?

 

R - Árabe, sírio, árabe.

 

P/1 - Na época dura vocês chegaram a passar fome, na época da guerra?

 

R - Não, não, nada.

 

P/1 - Nunca passaram fome...

 

R - Nada. Tem gente que passou fome, na Turquia isso, Segunda Guerra. Meu pai salvou trinta homens que não pagaram imposto anual. Esse imposto anual é trinta libras de ouro, cada pessoa por ano. Ele salvou, meu pai, o nome dele como governador da Turquia, salvou trinta homens que não faziam serviço militar. Porque esse tempo o governador da Turquia que levou ordem para o soldado, ele não volta mais, ele foi na fronteira da Rússia F.E., longe, que ele vai não volta mais, acabou, já perdeu. Meu pai, nome dele como o governador da Turquia, depois com o governo de Síria nome de meu pai grandou muito, muito, salvou trinta pessoas.

P/1 - Para não irem no exército?

 

R - É, exército não paga imposto anual. Cada ano [são] trinta libras de ouro, isso é... Trinta libras é uma fortuna, trinta libras de ouro, isso.

 

P/1 - Para ficar fora do exército tinha que pagar esse imposto?

 

R - Imposto, paga imposto quem não faz serviço militar, é isso.

 

P/1 - Quer dizer que quem tinha muito dinheiro não ia ao exército, os filhos, seus irmãos...

 

R - Não, que paga imposto? Que pagar imposto, o que está falando? Quem pagar imposto não vai, quem não pagar é que vai.

 

P/1 - Vai para o exército.

 

R - Vai, governo (de Turquia?) que deva ir e quem paga imposto não vai. Meu pai que salvou que estou falando, não porque ele pagou para a gente porque ele está trabalhando com o governador da Turquia. Fazenda isso que está trabalhando, negócio. Salvou trinta pessoas, sem pagar imposto meu pai, é isso que está falando. Gente pobre que não pode pagar imposto, meu pai salvou, salvou trinta pessoas. Que já... entender esse assunto do meu pai, ele... Porque meu pai, minha mãe não paga. Para nós, filhos, não paga, já tem um tio, irmão de meu pai e Moisés - não conheço. Tem tio que chama Moisés, esse irmão de meu pai, tem primo que chama Moisés, esse eu conheço da Síria, faleceu esse. Agora, tio não conheço, nunca falou, nem minha mãe nem meu pai que tem tio na América do Norte que eu F.E., Moisés.

 

P/1 - Por que?

 

R - Não fala, não fala.

 

P/1 - Mas por que que...

 

Voz. M.F. assim.

 

R - Assim que tenho na cabeça.

 

P/1 - Quantos irmãos ele tinha, seu pai, quantos tios são no total?

 

R - Meu pai?

 

P/1 - É.

 

R - Nove, seis meninas e três meninos.

 

P/1 - Não, os irmãos dele.

 

R - Irmãos, seis meninos, três meninas.

 

P/1 - Nove também?

 

R - Nove. Isso, [da] parte do meu pai.

 

P/1 - E sua mãe?

 

R - Minha mãe, seis meninas, dois menino, oito. Aqui nove, aqui oito.

 

P/1- E tem alguém da família que está no Brasil?

 

R - Não, não, eu e minha irmã.

 

P/1 - Não, não, eu falo da família do pai e da mãe, seus tios.

 

R - Não, aqui, não, Brasil não, só eu que estou aqui, só eu. Só eu que estou e duas irmãs e outra que faleceu F.M.

 

P/1 - Mas os seus tios...

 

R - Eles não vêm aqui, não têm nada, não, não, não.

 

P/1 - América do norte...

 

R - América do Norte que ele está. Ele ia assistir meu casamento. Recebeu carta de convite de meu casamento, ele chegou aqui...

 

P/1 - O Moisés?

 

R - O Moisés. É, de meu casamento ele.

 

P/1 - Como você descobriu que o Moisés existia?

 

R - Na África, o meu irmão já sabia que tinha o Moisés. Quando eu viajei, em 1954, da África para Israel, ele já sabe que tem [o] tio Moisés. Já recebi cartas. Da França ele mandou dinheiro esse tempo não melhorar, o nome dele, ele ia receber depois que ele me mandou para Israel. Pagou dinheiro esse franco francês. Na França, em Paris e depois foi à Israel. Ficou F.E. cinco meses e meio, em 54.

 

P/1 - Foi ele para conhecer?

 

R - Não, não conheço meu tio, eu não conheço, só [por] carta, cartas só. Vou conhecer quando ele chegar aqui.

 

P/1 - Para o casamento?

 

R - Para o casamento. Mandei carta de convite, no meu casamento ele chegou com mala, antes. 24 horas de casamento civil ele chegou.

 

P/1 - Veio com mulher, com filho?

 

R - Não, veio sozinho, sozinho.

 

P/1 - O senhor não conheceu ninguém, nem mulher...

 

R - Tem teve o filho dele, veio aqui mostrar o filho dele. Esse caçula chama o nome de meu pai, Nissim, do meu pai. Esse é o filho dele, o caçula. Ele ligou para a mulher dele. Esse casou com segunda mulher e chegou aqui, tem no retrato dele, está na Los Angeles.

 

P/1 - Ele mora em Los Angeles?

 

R - Los Angeles, tem loja de confecção.

 

P/1 - E o senhor não quis ir para os Estados Unidos, não quis?

 

R - Que...

 

P/1 - Não deixam entrar?

 

R - Não, não eu brasileiro tem ao mundo pode vai. Muito dinheiro, grande dinheiro. Aluguel de graça, tudo que tenho... Como [eu] ia pagar e despesa dos meus filhos, a comida não dá, não dá.

 

P/1 - Mas devia tentar a sorte...

 

R - Agora, para viagem pode. Vender apartamento, poder viajar, pode, pode, assim tem dinheiro. Vender apartamento poder viajar.

 

P/1 - Eu falo antes de vir para o Brasil, o senhor nunca foi tentado a...

 

R - Não, não, não. Isso de Dacar já foi uma vez só, lá em Israel, em 54, e depois voltou de lá e ficou dois meses Côte d'Azur, Nice, ficou em Nice, Cote d' Azur, depois de Israel, ficou dois meses lá e depois voltou para Dacar.

 

P/1 - E na França o senhor não quis ficar?

 

R - Não, não, não tem negócio, não tem nada, não tem negócio, não tem nada, não tem nada, não tem negócio.

 

P/1 - E Marco que é mais aventureiro não teve vontade de ir para os Estados Unidos?

 

R - Não, a cabeça dele tá África, África, África.

 

P/1 - Ele gostou da África?

 

R - Não... Sei que já tá na cabeça dele, não sei. Ele é [um] homem muito, muito... Ele é inteligente demais, é... A cabeça dele não está certa. África é o destino, ele quer [a] África.

 

P/1 - Era muito ruim a vida na África?

 

R - Não, para comerciante não, comerciante não. Come, trabalha e dorme, só isso, não tem outra coisa.

 

P/1 - Não tem outra coisa?

 

R - Nada, nada. A gente vê que dois anos passaram e é só sofrimento.

 

P/1 - Fazendo isso.

 

R - Nada, nada, trabalha, come e dorme, só isso. Ora, não tem nem família nem ninguém conhecido, comerciante lá.

 

P/1 - E fazia as festas lá, seguia as festas na África?

 

R - Na África só [tinha o] Kipur.

 

P/1 - Só o Kipur?

 

R - Só o Kipur, a parte nada, nada, trabalha, só trabalhar dia e noite.

 

P/1 - E aqui o senhor faz todas as festas?

 

R - Faço. Aqui é festa como judeu. Porque eu religioso, da Síria, eu gosto, eu [sou] religioso.

 

P/1 - Como Kosher, tudo Kosher, é...

 

R - Não, por enquanto não. Agora até quase três anos não come a carne de açougue que ele está fazendo, moída, de quarta que ele já mudou, fez F.E- isso, não gostei dessa carne, desse tempo de três anos para cá não. De antes, 23... [Durante] vinte anos eu comi Kosher, depois esses três anos não, três anos para cá não. Eu compro carne de primeira, chã de primeira e limpa aqui, tem aqui, ela faz com sal, tudo, limpa e come...

 

P/1 - F.M.?

 

R - É, porque tem, já vi no açougue, ele me dá, não é carne certa não, com gordura, não é certa não, é...

 

P/1 - E entre aqui e a Síria?

 

R - Diferente, não tem em uma como em outra, kosher, kosher. Estou falando do kosher, para nós é kosher.

 

P/1 - Mas para viver, o senhor gostou mais de viver... O senhor gostaria de estar vivendo lá?

 

R - Não, viver vive sim e trabalhar não. Ora diferente. Para viver cem por cento, agora, trabalhar não, está duro, muito, muito duro, duro demais. Agora que estou... na Síria ser F.E. aqui. Que estava ontem em guerra F.E. setenta mil, cadê? Tudo já foi para a Argentina, para o México, para Los Angeles, New York aqui, para Egito, para Israel, tudo isso. Agora, F.E. mesmo que Rússia, todo mundo já saiu. Para católico sai, meus irmãos saem, judeu não sai.

 

P/1 - Não pode sair?

 

R - Não sei, government não deixa. Está muito difícil, demais. Em trinta, se separar para mim eu já sofri... Seis meses para fazer passaporte e conseguir sair da Síria. Seis meses [de] sofrimento.

 

P/1 - E como sua mãe fugiu de lá?

 

R - Não, faleceu na Síria.

 

P/1 - Ela faleceu...?

 

R - Minha mãe faleceu em 1938, [na] Síria. Quem fugiu foram duas irmãs e outro irmão mais caçula que casou. Meu irmão esse, esse que levou o caçula, meu irmão, e na fronteira para F.E. casou em 44. Esses dois fugiram. Esse que alugou apartamento essa saiu essa nua, nua mesmo que já sai nua assim, ela sai nua, coitada. Nú com aquela... para sai nua só aluguel dois anos meus irmãos. Uma meus irmãos levou dinheiro de aluguel dois anos e fugiu, fugiu, para Israel, 48, 47.

 

P/1 - Ah, no caso esse era muçulmano?

 

R - É, para muçulmano mas não poder, não poder vender.

 

P/1 - Não tinha mais gueto?

 

R - O governante da Síria não deixava judeu vender, o bem dele. Isso para judeu.

 

P/1 - Mas o gueto então, já...

 

R - Não, o gueto outra coisa. Gueto é gueto, tem. Agora, o governante não deixava o judeu vender o bem. Tempo de F.E.de Israel que vai com... Existir em 48, em 47 isso. O governo sírio pegou todo o bem do judeu. Não pode vender.

 

P/1 - A gente podia ver o...

 

R - Você não pode impor nada e não pode dizer: “Você vai fazer”. Te mostra um caminho. O certo é seguir esse, agora o resto é na mão de Deus. A gente cria - Vamos nessa! A gente F.E., apostou, o resto é só na mão de Deus. Agora, já está melhorando.

 

P! - E a senhora morou na casa deles?

 

L.Z. É.

 

P/1 - Quem vem da Síria?

 

L.Z. Ashkenazi.

 

P/1 - Ashkenazi

- Vamos ver o... Ah, ele está gravando?

 

P/1 - Está gravando isso agora. O filho fica em Israel, passando uns tempos em Israel?

 

R - É.

 

Voz. Três anos.

 

P/1 - Três anos?

 

R - Nissim, três anos.

 

L.Z. O caçula, três anos.

 

P/1 - O seu pai se aposentou, o senhor falou que tinha apartamento lá. Ele foi em que…?

 

L.Z. Pela classe brasileira.

 

P/1 - Ah, certo. E ele não se entusiasmou por lá?

 

R - Não.

 

L.Z. No começo sim, depois F.M. saudade.

 

P/1 - A vida é muito dura?

 

R - É.

 

Voz. Começa a sentir falta.

 

P/1 - Exato. Ele ficou três anos lá direto ou voltava?

 

Voz. Direto há três anos.

 

R - Direto.

 

P/1 - Estudando?

 

R - É.

 

L.Z. Estudando, terminou o científico lá.

 

R - Científico, né? Vai entrar no segundo ou terceiro F.M. ao norte perto de Tel Aviv, perto de Tel Aviv.

 

P/1 - F.M. a gente pode conversar com ele, mas o importante foi quando nós estávamos na geração anterior. O outro filho foi para Israel também?

 

R - Isaac, ficou dois anos.

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