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História

Para Francisco

História de: Cris Guerra
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 27/01/2020

Sinopse

Cris Guerra conta, de início, a história interiorana da família de sua mãe, os Werneck de Souza. Em seguida, comenta sobre a família de seu pai e o envolvimento deste com a política do PSD, onde ele se manteve próximo da carreira de Juscelino Kubitschek. Cris conta como, a partir disso, sua família adquiriu a atual Casa JK na Pampulha e de que forma tal feito faz parte de sua infância - envolvendo principalmente a história de sua avó paterna. Depois, conta sobre sua relação com irmãos, pai e mãe, e adentra a vida escolar e profissional, relatando a experiência da UFMG. A partir daqui, fala sobre os desafios de ser uma redatora publicitária e conta a história de sua relação com Guilherme, falecido durante a gestação de Francisco, filho do casal. Por fim, fala como este acontecimento a empurrou para o mundo da moda e das mídias digitais, onde ela discute questões de maternidade, sexualidade, amor próprio e idade.

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História completa

Eu me apaixonei por um colega de trabalho, Guilherme, que trabalhava comigo como publicitário lá na Lápis Raro. Ele também estava separado, tinha mais ou menos o mesmo tempo de casado que eu, também tinha vivido um casamento infeliz e também não tinha filhos. Foi um namoro um pouco conturbado porque a gente trabalhava no mesmo lugar. Quando foi julho de 2006 eu já não queria mais ter filho, achei que não era para mim. Mas, em 2006 a gente teve um término, ficamos um tempo separado e eu parei de tomar pílula. Quando foi em junho a gente voltou a se encontrar e eu engravidei. Engravidei, assim, a gente sabia do risco que a gente estava correndo, mas nós não tomamos uma providência. A gente teve dois encontros e eu era muito apaixonada por ele. Quando eu descobri que estava grávida, a gente já estava mais ou menos voltando. Fui contar para ele - não sabia se ia gostar ou não - e ele ficou completamente apaixonado pela ideia, mas a gente não se casou. Continuamos morando separados, a gente estava muito traumatizado pelo fim, pela maneira como tinham sido os nossos casamentos. Eu comecei a esperar o Francisco e ficamos muito felizes, mas quando eu tinha sete meses de gravidez, estava morrendo de medo da gravidez, de perder o bebê. Ele não podia contar para ninguém que eu estava grávida até eu fazer três meses, mas deu tudo certo, a barriga começou a crescer, bebê tudo ótimo. A gente não morava juntos porque ele falou comigo: “Vamos casar”, e eu falei: “Vamos esperar o Francisco nascer”. Eu já estava com sete meses, estava tendo câimbra direto, então a gente já estava ficando muito junto. Nesse dia, eu fui trabalhar, entrei para uma reunião, mandei um e-mail para ele, só tinha SMS nessa época, mandei um e-mail dizendo que eu o amava, era um dia bonito, maravilhoso, 17 de janeiro de 2007. Aí, quando eu entrei, eu fui ter uma reunião de produção de um comercial: essa reunião durou bastante, quando eu sai da reunião ele não tinha respondido meu e-mail. Eu não sei te explicar, mas alguma coisa muito ruim me veio, uma intuição. Eu tinha um medo dele morrer, eu tinha falado com ele uma semana antes: “Eu tenho medo de você morrer”. Do nada. Ele tinha parado de fumar, começou a fazer aula de squash, eu falei: “Você é louco, você tem que fazer um exame, não sei o quê”. Tentei falar com ele, ele não atendeu o celular e eu já gelei, tentei falar na casa dele, liguei para o trabalho, falaram: “Ele não veio trabalhar”. Eu falei: “Ele morreu”. Olha, que loucura! Assim. Fui para a terapia, falei: “Vou me controlar, calma, ele vai aparecer, isso aí é trauma, já perdi minha mãe, meu pai, já perdi dois bebês”, achando que era uma questão quase minha. Mas, no meio da terapia, eu não consegui. Eu falei: “Preciso ir lá na casa dele”. Fui na casa dele, o carro dele estava parado na porta do prédio. E eu ligava. Isso, umas duas horas da tarde, liguei para a minha diretora, para a diretora de atendimento da agência, porque ela era meu par na diretoria. Falei: “Maria Cristina, estou indo para a casa do Gui porque eu acho que ele morreu”. Ela: “Como assim, Cris?” “Eu acho que ele morreu”. Aí ela falou: “Então, entra aí”. Eu liguei para ela, eu estou ligando de fora, porque eu não tinha a chave do apartamento dele, a gente respeitava muito a privacidade um do outro e tinha uma semana que tinha dado a chave do meu apartamento para ele, porque ele ia mudar para o meu apartamento, até que a gente mudasse com o Francisco. A gente ia fazer as coisas aos poucos e as minhas duas cachorrinhas estavam morando com ele, porque meu médico achou melhor eu não conviver com elas durante a gravidez. Eu ouvia elas latindo desesperadas, eu ouvia o telefone tocando, eu ouvia o celular tocando, eu gritava e nada. Eu falei: “Ele só pode estar morto”. Aí eu toquei a campainha e falei: “Sou a namorada do Guilherme, deixa eu entrar”. Não lembro mais e aí eu vi assim... Eu fiquei diante da porta, as cachorras desesperadas e a porta era bem fina e tinha um olho mágico, eu não sei por que eu fiz isso, eu sei que eu desatarraxei o olho mágico e ficou só um buraco. Quando eu olhei pelo buraco, ele estava caído de bruços, e eu ainda tentei... Eu falo que - depois eu escrevi isso - que acho que a gente tem uma burrice bonita, que é a esperança. Você olha, você vê que a pessoa está morta, mas você não acredita. Aí chegou gente, chegou o irmão dele, aí eles arrombaram a porta, eu só esperei entrarem, o irmão dele gritando, gritou, ou seja, ele tinha morrido, mais ou menos, entre nove e dez da manhã, sozinho. Ele foi para uma aula de squash, porque eu liguei para o professor de squash, consegui entender, ele foi para a aula de squash, voltou, provavelmente morreu por causa do squash. Mas o Gui era assim, ele era intenso em tudo que fazia, então eu falo que ele morreu com 38 anos e, nessa época, tinha uma história de um cometa, que não era o cometa Halley, é um cometa que só passava de 38 em 38 anos, uma história muito louca e eu falei que eu acho que ele viveu por 76, o equivalente a 76, ele era um cara muito intenso. Isso mudou muito a minha vida. Completamente. Porque era uma dor que eu achava que nunca ia passar. Essa história é muito definidora, depois teve outros casamentos, mas essa história é muito definidora da minha revolução pessoal e profissional, porque aí, quatro meses depois, eu comecei a escrever para o Francisco um blog chamado “Para Francisco”, onde eu contava para ele sobre o pai, sobre meus pais e tal. Dois meses depois, Francisco nasceu, super saudável, super lindo, não é? Então eu falo que o Francisco salvou minha vida porque quando eu vi que o Gui tinha morrido, eu lembro de eu perguntar para mim mesma: “Quanto tempo vai demorar para eu morrer também”? De tanta dor que eu senti. Mas aí eu percebi que eu não podia morrer porque tinha um bebê dentro de mim. Eu falo que o coração dele bateu por mim e por ele durante dois meses. Quando o Fran nasceu, foi uma felicidade muito grande, e aí eu sentia as duas coisas ao mesmo tempo: uma alegria muito grande de ser mãe e uma tristeza muito grande de ter perdido um amor. Aí, acho que minha vida se divide entre antes e depois. Sem dúvida, minha vida se divide entre até 2007 e depois de 2007.

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