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Para além da sala de aula

História de: Sérgio
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Sérgio nasceu no Maranhão e desde pequeno gostava de Língua Portuguesa na escola. Teve uma professora querida que lhe fez curioso a respeito da linguagem, da gramática. Cursou faculdade de Letras Inglês-Português, mas mesmo no Ensino Médio já dava aulas de reforço de inglês para os colegas. Durante a graduação passou por períodos difíceis, adoeçeu e sua mobilidade física ficou bastante reduzida. Essa fase passou e, quando se formou voltou, como professor, no colégio onde havia estudado, algo que lhe deixou muito realizado. Entrou no SESI e passou por várias turmas até chegar no EJA (Educação de Jovens e Adultos), onde dá aulas hoje. Entrou no projeto ViraVida, que é um grande desafio, mas muito satisfatório e instigante para ele, como professor e como pessoa. Percebeu, com seus alunos do ViraVida, que ser professor vai muito além da sala de aula. 

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História completa

Sou Sérgio, nasci no Maranhão em 1967. 

 

Em casa somos uma família pequena, composta apenas por cinco pessoas, e a convivência sempre foi muito harmoniosa, sempre fomos muito participativos um com o outro, evitando brigas, sempre tive um lado espiritual muito trabalhado pela minha mãe, pelo meu pai. A gente se criou nesse ambiente de harmonia e até hoje temos um relacionamento muito saudável, muito gostoso dentro de casa.

 

Morávamos eu, meus pais, minha irmã e minha avó, mãe da minha mãe. Avó é segunda mãe. Então, se eu tinha algum problema, mesmo de infância, adolescente, eu me dirigia mais a ela. Os grandes conselhos, realmente, que eu tive, foram por conta da minha avó, que eu considerava como minha segunda mãe. Era uma pessoa super aberta, super amiga, qualquer problema que eu tinha em escola, problema de estudos, sempre me reportava a ela. Foi uma pessoa que sempre me deu grande suporte enquanto viva.

 

A escola que eu estudei na infância era uma escola do bairro, uma escola da rede pública, mas legal mesmo, professores excelentes, mantenho contato com alguns deles até hoje. E foi muito bom, foi um período de aprendizagem muito legal, muito gostoso. 

 

Na época dessa fase do primário, que hoje é o Fundamental I, eu gostava muito de Português. Eu gostava de Português até por conta mesmo da professora, que morava próximo a minha casa, tinha contato, quando eu tinha dúvida fora da escola, ia à casa dela, ela me explicava o que eu não entendia durante as aulas. Passava aquela coisa mais assim, sistemática de sala de aula, e passava a uma coisa mais de brincadeira, de amizade de pessoas do bairro, de vizinhança. Era muito legal. Até hoje mantenho contato com ela, foi minha primeira professora, passei um longo tempo estudando com ela. Antigamente não tinha essa flexibilidade de vários professores para disciplinas diferentes, um professor ensinava várias disciplinas. Então até hoje mantenho contato com ela, tenho um respeito muito grande. E ela me considera demais, fiquei como se fosse um filho para ela. Eu gostava muito, tanto é que me formei em Letras, Inglês e Português.

 

Passando de lá, passei quatro anos estudando em outra escola o Fundamental II. Depois fui fazer o segundo grau, que hoje é o Ensino Médio, em uma escola particular. Minha irmã, como eu falei, já estava me dando um suporte, apesar de ser mais nova, já trabalhava, já me ajudava financeiramente, condução mesmo, transporte, pagar passagem, livros. Eu consegui concluir o ensino médio. Depois, queria fazer um curso de inglês, mas por questões financeiras, minha mãe não tinha condição de pagar. De repente apareceu a oportunidade de a escola fornecer um curso numa determinada instituição, aqueles melhores alunos, no caso de inglês, ganhavam uma bolsa de estudo. Eu ganhei essa bolsa de estudos, passei muito tempo estudando inglês num curso que era do lado da minha escola, onde eu fiz o segundo grau. Após isso, apareceu do próprio curso onde eu estudava um seletivo para professores desse curso. Eu fiz, passei no seletivo, estudava pela manhã no curso e dava aula à noite, passei uns seis anos dando aula de inglês neste curso. 

 

Sempre gostei de trabalhar, sala de aula, mesmo enquanto estudando no primeiro e segundo grau, eu sempre gostei de inglês, eu ia para frente, tirava dúvidas dos meus amigos em sala de aula, nas provas, quando chegava o dia da prova ficava aquele grupo enorme do ladinho, passa para cá, entendeu? E eu fui me criando naquilo, tanto é que eu estava ainda no segundo ano do segundo grau, que agora é o ensino médio, eu comecei a dar aula.

 

O período da faculdade, no início, foi muito bom. O primeiro e o segundo períodos do curso de Letras foram legais. Mas depois, por conta das disciplinas exigirem muito, você tem aquele problema, começa uma disciplina, você para, você reprova, se matricula na outra. Por conta do trabalho. Quando eu entrei na faculdade, eu dava aula numa escola. No segundo e terceiro períodos, eu já estava em três, quatro escolas trabalhando.

 

Mas durante a faculdade eu adoeci, fiquei com enfraquecimento nos músculos, cheguei ao ponto de perder realmente todo o meu movimento. Parei a faculdade por isso, por causa do tratamento. Depois retomei. Já estava quase em fase de conclusão, faltando estágio apenas e monografia, e retomei e consegui concluir. Mas foi um período muito difícil, difícil mesmo para a minha saúde, muito sério, mas graças a Deus eu superei.

 

Eu já estou no SESI há aproximadamente dezoito anos, que trabalho na instituição. Sempre passando por segmentos diferenciados, fundamental, ensino médio, e agora eu trabalho na EJA, que é Educação de Jovens e Adultos. Como surgiu esse projeto e eu tinha essa disponibilidade de horário para trabalhar, e no projeto, no currículo dos alunos, tem a disciplina Inglês, fui solicitado para trabalhar, eu e mais um grupo de professores que fazem parte também da EJA. Eu vim para trabalhar. Não conhecia muito o projeto ainda, falaram algumas coisas, tivemos algumas reuniões a respeito do público que nós iríamos trabalhar, que nós iríamos atender, até um público diferenciado dos demais que eu estou acostumado a trabalhar. 

 

No início, eu particularmente me defrontei, fiquei um pouco assustado, porque até então não tinha trabalhado com esse público, esse tipo de aluno, mas está sendo muito gratificante. Primeiro, porque vemos que ao longo desse tempo que estamos em sala de aula, vemos a mudança desses alunos. E eles têm um carinho muito grande, você vê a mudança de comportamento, vê que muitos desses alunos, na verdade, dependiam de uma oportunidade dessas. E alguns deles agarraram essa oportunidade com unhas e dentes. Pelos depoimentos percebemos a mudança que o projeto causou na vida deles. E graças a Deus, para muitos desses alunos está sendo algo vitorioso na vida deles, porque é muito legal mesmo a oportunidade que o projeto está dando. E a gente criou um elo tão forte com eles, e eles com a gente, com os professores. Ultrapassa a questão de professor-aluno. Na verdade, a gente tem um vínculo de amizade com eles, mesmo. Eles sentem um apoio muito grande na gente enquanto professor, uma confiança, eles chegam a conversar, a dar depoimento da vida deles, a pedir conselhos. Isso requer uma maturidade por parte da gente, uma responsabilidade muito grande de encaminhá-los da melhor maneira possível, o melhor caminho possível para eles seguirem. Até porque daqui a pouco essas turmas se encerram, vêm outros alunos, e com muitos deles vamos perder esse elo. Então enquanto eles estão aqui a gente tenta mantê-los, mantê-los no caminho, sempre orientando, sempre aconselhando, porque sabemos do histórico deles e não desejamos que eles voltem, continuem levando a vida que levavam.

 

Às vezes nos limitamos no mundo, nos fechamos em quatro paredes e de repente você sabe de uma realidade nua e crua que está permeando a sociedade atualmente. Mas quando você lê uma manchete no jornal, você vê na televisão, você assiste a um filme a respeito daquilo, mas aquilo é um momento, você assistiu a um filme, passa, você não se engaja no projeto, não procura saber na sua cidade como anda essa questão de vulnerabilidade social, mas de repente, quando você tem quase um ano de convivência, você diz: “Meu Deus, quanto a gente pode fazer para ajudar essas pessoas”. Porque na verdade eles precisam de ajuda. Porque se a gente não tiver pessoas que os ajudem, eles vão ficar ali nessa vulnerabilidade, nessa marginalidade o tempo todo. Então muda muito, porque o fato de poder dar um pouco de contribuição, não só para eles, mas como para nós, garanto que para todos os professores envolvidos nesse projeto, estão sendo gratificados por isso, porque estamos podendo contribuir não só com a nossa disciplina, mas também como ser humano, ajudando ao próximo. Então como eu digo, aqui o projeto ultrapassa um pouco a questão de professor e aluno. Às vezes nos envolvemos muito com o aluno, participando do problema dele, eles chegam para gente, eles dão depoimento da vida deles, conversam com a gente. E está sendo muito gratificante trabalhar nesse projeto, por conta disso, de poder, além do conhecimento metodológico, a gente tem também essa questão social também que a gente pode contribuir.

 

Eu acho que o maior aprendizado recebido no ViraVida é você achar que você pode fazer muito mais do que aquilo que você vinha fazendo. Então o aprendizado, para mim, no caso, enquanto professor, que sou acostumado a ensinar, fazer com que os outros aprendam, eu acho que é isso, é você saber que você pode doar um pouquinho a mais do seu ser, do seu dia-a-dia, que você pode contribuir não só com o seu conhecimento, mas com a sua paciência, com a sua generosidade, para essas outras pessoas. Eu acho que isso é um aprendizado. É um aprendizado que vai além dos livros, é coisa realmente do teu ser, que mexe com você mesmo. Eu acho isso muito importante.

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