Busca avançada



Criar

História

Palmas: um banco social

História de: João Joaquim de Melo Neto Segundo
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 13/10/2008

Sinopse

Nesta entrevista, João fala da composição atípica de sua família, envolta com as viagens constantes que seu pai aposentado os obrigava a fazer pelo Brasil. Depois, fala sobre o contexto da ditadura militar e sua entrada para o Movimento de Libertação dos Presos do Paraguai, em 1979, no bojo de seu catolicismo e vida em seminários. Em seguida, João conta os princípios da teologia da libertação e fala de sua militância política. A partir daqui, narra a experiência rica de sua vida: o Conjunto Palmeiras, em Fortaleza. Ali foi responsável, junto com a comunidade, por implantar o Banco Palmas, um dos mais bem sucedidos bancos comunitários do país, responsável por urbanizar a região, produzir empregos e fazer o capital circular pelo bairro. Ao fim, João fala sobre a importância da memória para a comunidade de Palmeiras e fala sobre sua parceria com a Ashoka.

Tags

História completa

Nem dei para ser padre, nem dei para guerrilheiro, fui ser banqueiro, aliás, briguei com a minha família, com meus amigos. Eu fiz várias vezes treinamento de guerrilha, no meu fim de semana a gente ia para o mato, com um fusível, espingarda para fazer o treinamento porque nós acreditávamos que pelo menos ia chegar o dia que íamos invadir o quartel e libertar os padres, queria o quê? Então a gente fazia treinamentos de guerrilha na selva e tudo mais, mas tudo clandestino e até hoje eu conto essa história e dizem que é mentira! Ninguém me vê no meio do mato com um rifle na mão, comendo porcaria, mas assim, era uma vida de dupla face, eu era um seminarista puro, bom de batina e o guerrilheiro lá no meio do mato, comendo mato para libertar os padres. E era uma dupla riqueza! Aí enfim, a minha vida foi isso até o dia que eu fui embora para Fortaleza. Eu peguei a mala, enchi com as minhas poucas coisas que eu tinha, coloquei na cabeça, dentro do ônibus, consegui o dinheiro da passagem do ônibus com os padres lá e foi uma cena linda porque todo mundo chorava, eu me lembro como se fosse hoje, era o povo da pastoral, as senhoras, a juventude, que era o meu lado alegre da coisa e os militantes também vieram na rodoviária, todo mundo me deixou lá, eu estava um ano para virar padre, então todo aquele povo queria o padre da comunidade e eu era muito querido também, é isso, aí foi todo mundo para a rodoviária deixar o padre, aquela coisa bem, isso era o quê era janeiro de 84, e eu lá dentro do ônibus e todo mundo chorando e eu lá: “Tchau, tchau, eu volto!”, aquela coisa toda de despedida de rodoviária e meus amigos todos...Mas era importante, uns cantavam músicas da igreja mais tradicionais “Maria de Nazaré, Maria me cativou!”, o outro: “Na terra dos homens pensando em pirâmide há ricos em cima e pobres na base, e o povo da base ia fazer cair a velha pirâmide!”, uns cantavam música revolucionária, outros cantavam música de igreja. Botei a mala e vim embora, imagine, liso, não tinha um centavo, enfim, tinha uma mala e eu.

 

Chegando, fui designado para cuidar de uma comunidade, e o bispo disse: “Lá você define a tua vida como um todo! É lá na rampa que você decide se você desiste de ficar ali ou você define para o resto da vida militar contra aquilo ali!”, e eu fui ali morar em cima do lixo, no meio do lixão, com as outras pessoas que moravam lá, os outros rampeiros, morar no lixão e você não saber a diferença das pessoas humanas, lixos e bicho, é uma coisa só, lá nós somos todos iguais. Eu pensei: “Olha, o resto da minha vida eu vou fazer isso, vou militar, vou trabalhar pelos pobres, vou me engajar nessa sociedade e não tem outra, fora isso não tem espaço na minha vida, mais nada!”.Posso fazer mil coisas, mas a militância aqui já vinha de lá, já vinha de Belém, mas ali que foi que eu defini a minha fé, digamos assim, existe aquela fase que você escrever poesia, que você chora o dia todo, imagine, você vem de Belém, deixou a família deixou os amigos, deixou tudo e você se vê no meio do lixão, então eu fazia muitas poesias, no fundo do poço, não sei o que, agora que eu conhecia minha fé, aquelas coisas, também é o negócio da idade, eu tinha o que, 84, eu tinha 20 anos, então estava no auge da coisa no ponto extremo da pobreza, numa cidade desconhecida e com a grande missão de fazer coisas interessantes.

 

O Bispo me pagava um salário por quatro anos, me trás para Fortaleza por ser padre e eu vou dizer para ele que não vou ser mais padre? Agora estou frito era o mesmo que a morte, mas eu tinha que dizer, não ia mais ser padre, para o Cardeal, né, e eu fui lá, tremendo de medo: “Se eu sair daqui vivo já está bom demais!”. O Cardeal era um cara tão sábio que quando ele me viu ali ele me disse: “Não diga nada não, eu sei, você veio me dizer que não quer ser mais padre? Mas eu vou dizer uma coisa para você, não tem uma forma só da gente trabalhar com Deus, não, não é só sendo padre não, você pode trabalhar com Deus de várias maneiras, só lhe faço um pedido: Nunca deixe de trabalhar pelos pobres! Se você fizer isso já está bom demais, vai embora, eu lhe abençôo!”. Sai de lá, morto de feliz da vida, aí eu tinha liberdade já.

Ver Tudo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+