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História

Paixão por mecânica

História de: Henrique de Oliveira
Autor:
Publicado em: 16/10/2015

Sinopse

Henrique de Oliveira conta no depoimento sua paixão por autómoveis desde de menino. Descreve seu trabalho de mecânico na Companhia Vale do Rio Doce: seu ambiente de trabalho, seus afazeres, os projetos da empresa que acompanhou, as brincadeiras com os colegas. Além disso, Henrique conta sobre sua família, a começar pela sua infância, em Itabira, Minas Gerais, até o nascimento de suas netas.

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História completa

P/1 – Senhor Henrique, vamos começar a entrevista? O Senhor por favor me diga o seu nome, o local e data de nascimento.  

 

R – Meu nome é Henrique de Oliveira, nasci em 21 de dezembro de 1929. Sou filho de Itabira. Casado, com cinco filhos. 

 

P/1 – E o nome de seus pais?

 

R – José Caetano de Oliveira e (Assamira?) de Omilton Oliveira. 

 

P/1 – O Senhor sabe a história da família, a origem deles? 

 

R – A origem é de gente humilde, né? 

 

P/1 – Nascidos aonde?

 

R – Em Itabira. São nascidos em Itabira.

 

P/1 – Todos os dois?

 

R – Todos os dois. 

 

P/1 – E o Senhor nasceu em Itabira e passou toda a infância lá?

 

R – Toda a infância em Itabira, a juventude e... e mais alguma coisa (risos).

 

P/1 – E o Senhor teve quantos irmãos?

 

R – São três irmãos e uma moça, são quatro irmãos no total.

 

P/1 – E como é que foi a infância em Itabira, a casa que o Senhor morava?

 

R – Bom, a minha infância é, infância muito simples, né? A gente morava no centro da cidade mas, porém, a cidade naquele tempo era parada, porque não tinha serviço, não tinha nada, né? Nós estudamos, na cidade existia um ginásio, Sul-americano que chamava, e o colégio Nossa Sra. das Dores, e os grupos. A minha irmã estudou no colégio Nossa. Sra. das Dores, o outro irmão mais velho também chegou a estudar, eu não cheguei a estudar porque, à época eu tinha só em mente ficar acompanhando os Ford 29 dentro de Itabira, aqueles carro antigo, né? E foi passando o tempo, passando o tempo, até que foi implantada a Vale Doce em Itabira - foi em 1942 que começou a implantar a Vale Doce, em 1943 já estava implantada a Vale Doce em Itabira, e aí eu fui, vendo aqueles caminhão chegando lá, aqueles equipamento, aquelas coisa, fui me emocionando com aquilo e até que eu consegui entrar, pra mim começar a aprender alguma coisa de oficina, né? Embora que naquele tempo não existia oficina, mas a gente saía acompanhando os motorista, os mecânicos, por caminho afora, pelas ruas, pelas estradas, né? E até que, fui evoluindo, evoluindo, e chegou ao ponto de a Vale ser essa potência, igual ela é. Mas eu acompanhei, não dizer 100%, mas 90, 80 por cento dela eu acompanhei a evolução da Companhia, né? 

 

P/1 – De dentro?

 

R – De dentro. 

 

P/1 – Seu Henrique, o que seu pai fazia?

 

R – Meu pai, o princípio dele era sapateiro. Ele tinha uma sapataria em Itabira. Depois ele foi admitido dentro da Vale do Rio Doce, trabalhava como apontador, fazia ponto do pessoal. Mas isso se fazia no campo, né?

 

P/1 – Ponto de horário?

 

R – De horário, é. A pessoa ia naquelas minas, eram várias minas dentro do complexo do Cauê. E ele ia naquelas minas, via o pessoal que estava trabalhando, contava, pra no fim do mês levar pro escritório e fazer os pagamento, né, do pessoal. 

 

P/1 – Então o pessoal ficava bonitinho quando ele estava por lá? 

 

R – Eles conheciam o véio todo (risos). Tanto é que, ele entrando a cavalo, eles chamavam, que entrando a cavalo aí vem, né? Era o meu pai, né, que andava num cavalo.

 

P/1 – Fazia o serviço a cavalo? 

 

R – É, naquele tempo era a cavalo.

 

P/1 – E o Senhor sempre foi apaixonado por carros, então?

 

R – Sempre fui. Mecânica pra mim era, eu vivia brincando com carrinho e madeira, esse negócio, né? Nunca fiz outra coisa sem ser mecânica. Nunca, nunca, nunca. Tentaram uma época de me pôr no almoxarifado, escritório, foi negativo. Não deu mesmo. Toda a vida foi mecânica.

 

P/2 – O Senhor entrou na Vale praticamente junto com o seu pai, né? 

 

R – Não, meu pai entrou antes, meu pai entrou em 1942.

 

P/2 – Em 1942? E o Senhor entrou em 1943?

 

R – Em 1943. Comecei em 1943 e fichei em 1944. 

 

P/1 – Mas em 1943 o Senhor entrou como?

 

R – Eu entrei como aprendiz, ajudando, acompanhando os mecânicos, ficava ali, mas não tinha horário, não tinha nada. Depois que eu fichei, aí tinha horário. 

 

P/1 – Mas o Senhor conseguiu entrar na empresa através do seu pai?

 

R – É, através dele.

 

P/1 – Bom, mas aí o que o Senhor achava da vale do Rio Doce?

 

R – A gente não tinha, no princípio, não tinha noção do que era, assim. Eu tinha noção de que eu estava na mecânica, eu gostava daquilo. Aí foi evoluindo depois, né? Chega um certo ponto que você vê que a firma é uma potência mesmo, né? Agora no princípio, nos anos anteriores, o negócio foi, não foi fácil não, foi muito difícil. 

 

P/1 – Mas como é que funcionava no princípio?

 

R – No princípio era o seguinte: a Companhia começou com os caminhões de 3.500 toneladas, puxando minério. E o minério era quebrado com marreta e picareta, né? 

 

P/1 – No braço?

 

R – É, no braço. E certas minerações transportavam minério de uma área onde elas extraíram minério, do pé de uma mina, era transportado através de carroça, puxada por animais. Ia pro “chute” de minério. 

 

P/1 – Como? 

 

R – Ia pro “chute”: o “chute” era um lugar que você depositava o minério, e o caminhão chegava embaixo, que era mais baixo, abria a comporta e carregava o caminhão. Mas, na parte superior, o minério era transportado por carroça, do princípio era isso. Depois foi modificando, evoluindo, né? 

 

P/2 – Eram cavalos que puxavam?

 

R – Eram animais, burro. E o minério era quebrado com marreta, e picareta, alavanca, esse negócio. E o pessoal enchia as carrocinhas com garfo, esses garfo, tipo de alimentação, “mas, porém” grande, né? Era chamado garfo: pegava assim, e jogava dentro das carroças. 

 

P/1 – Quem era o seu chefe, logo que o Senhor entrou?

 

R – Olha, eu comecei com um mecânico que chamava Joaquim de Castro. Ele é falecido, ele ficou pouco tempo dentro da Vale, né? Depois, aí ele saiu e tinha outros encarregados, mecânicos, tudo. E no princípio a Vale era administrada por americano, né? 

 

P/1 – O Senhor convivia de perto com eles?

 

R – Convivia. 

 

P/1 – E como era?

 

R – Eles procurava entender a gente e nós entender a eles, né? Era aquela coisa, mas era mais fácil, o americano era muito simples, eles não tinham muito problemas, não, eram muito simples. Eram cinco americano que tinham lá.

 

P/2 – E qual era o trabalho deles?

 

R – Um era superintendente, Mr. (Read?) que ele chamava; o outro, o outro americano não me lembro o nome dele, mas era chefe administrativo; tinha o Mr. Valmer, que era chefe da mecânica; e tinha o Frank, que era o chefe da mina do Cauê, era o engenheiro da mina. 

 

P/2 – E havia algum interlocutor entre vocês e os americanos?

 

R – Havia um intérprete lá, mas a gente procurava entender um pouco, sinais, etc. Então entendia o que eles queria, né? E eles também um pouco entendia a gente, e ia bem. Foi depois que saiu os americanos, que o Israel Pinheiro assumiu a Vale, mesmo, né, e que saiu os americanos.

 

P/1 – Mas e os equipamentos, os manuais?

 

R – Os manuais, alguns eram em inglês, né? Outros já vinha com uma traduçãozinha, muito simples, mas vinha. Mas, no princípio, o equipamento era muito simples, não tinha muito equipamento. Naquele tempo, no começo tinha uma escavadeira, parece que um trator, tinha sete carretas que puxava minério, logo após a primeira evolução. E mais eram ferramentas manuais tudo, mecânica, etc, já era mais fácil esse troço. Mas todo o equipamento da Vale era todo importado, sempre foi todinho importado. Aí foi mais fácil, mais tarde, você procurar dicionário, e via os termo técnico, quem conhecia mais fazia a tradução. 

 

P/1 – Tinha que saber um pouquinho, pelo menos, de inglês, né? 

 

R – Tinha. Tinha alguma coisa que saber. Alguns termos técnico a gente já sabia, né? A gente mais novo é muito mais fácil gravar, assimilar as palavra e tudo. 

 

P/2 – E o equipamento vinha todo ele dos Estados Unidos...?

 

R – Todo importado, todo importado. No Brasil antes não se fabricava nada, né? Pouco equipamento era montado no Brasil, tudo era importado, não tinha jeito, não. Nessa época o país estava meio paralisado, né? 

 

P/1 – Seu Henrique, a gente ouvia alguém contar que o pessoal de Itabira, da Vale, conversava, inventava uma outra língua, que era assim, meio pra disfarçar com o inglês. O Senhor sabe dessa história? (risos)

 

R – Existiam esses, tipo termo, assim, você: a palavra é, vamos supor assim uma palavra, deixa eu lembrar uma das palavra... Isso chamava-se linguagem macaco, a turma lá usava.

 

P/2 – Linguagem macaco?

 

R – É, linguagem de macaco. Mas um comunicava com a outra pessoa, realmente, e tinha uma turminha que entendia o que o outro falava.

 

P/1 – Como que era, mais ou menos, pra gente conhecer?

 

R – Ah, eu não me lembro assim, os termos, não. Mas a turma entendia, que a malandragem sempre tem em todo lugar, né? 

 

P/1 – Inventaram, vocês inventaram uma língua?

 

R – É, misturava o português com o inglês, saía uma língua meio disfarçada lá (risos). Era pouca gente que entendia aquilo. A turminha, a malandragem do serviço entendia, né? 

 

P/2 – Mas isso era pra quê? Era pra vocês...

 

R – Não, era brincadeira da turma, tipo brincadeira, não era nada de sacanear, nada, não. A turma que trabalhava eles agarrava, vestia a camisa da Companhia, como diziam, né, vestia a camisa. Mas havia assim, esses termozinhos assim.

 

P/1 – E as ferramentas, tinham apelidos?

 

R – Algumas tinham. Outras a pessoa usava os nomes mesmo, porque não adiantava mudar nome de uma ferramenta, se aquilo era chave de fenda, era chave de fenda mesmo, não adiantava mudar o nome. 

 

P/1 – Mas tinha algum apelido que o senhor se lembra?

 

R – Não, não me lembro assim que tinha alguma coisa, não.

 

P/1 – O senhor ganhou um apelido?

 

R – Eu ganhei um apelido.

 

P/1 – Qual era?

 

R – O meu apelido era “Contrapino”.

 

P/1 – E por quê? 

 

R – Porque numa época estava desmontando um carburador num caminhão lá, e tinha uma porção de peças, né? Aí, tinha um baiano e ele começou a falar: “Isso chama isso, isso e isso...” Aí, ele pegou o contrapino, que é o tipo de uma ____ que prende uma pecinha, e ele falou: “Olha, é do seu tamanho.” Eu era tão pequeno que ele: “É do seu tamanho, olha aí.” Aquela pecinha assim. Aí a turma pegou nesse apelido e foi embora. 

 

P/2 – O senhor ficou conhecido como “Contrapino”?

 

R – Não sei se foi bom ou se foi ruim, acho que foi bom (risos). Aí fui conhecido na companhia toda. Aqui no ____ administração me conhecia por esse, se falasse meu nome era difícil, mas pelo apelido eles me conhecia demais. 

 

P/1 – Outras pessoas tinham apelidos?

 

R – Tinham. Eram vários apelidos. Isso lá, apelido em oficina pega mesmo. Você passou assim, um cara tá brincando ali, solta um apelido ali, e espalha. Apelido em oficina pega. Sempre foi isso. Negócio interessante mesmo. 

 

P/1 – Seu Henrique, como é que era o convívio entre vocês, entre os empregados, o dia todo ali juntos na oficina?

 

R – Brincava demais a turma, né? A turma brincava demais. Agora, tinha que ter um respeito administrativo: a pessoa obedecia, não tinha problema, não tinha briga em oficina, não tinha nada disso. Era fácil isso. Porque era, a turma era gente só da região ali, não tinha essas maldade que hoje se tem, hoje se tem maldade por todo lado, né? Não tinha problema não, era muito fácil. Eu quando passei a administrar, e quando eu trabalhava com ferramenta mesmo, como mecânico, nunca tive dificuldade: com motorista, operadores, com pessoas, nunca tive problemas. A gente na hora de conversar sério, conversava sério; na hora de brincar, brincava. Mas nunca teve bobajada, não. Sempre foi, a gente se dava bem. 

 

P/2 – E eram só pessoas da região que trabalhavam ali, ou vinha....

 

R – Não, vinha gente de fora, tinha bastante gente de fora.

 

P/2 – Isso já logo no início?

 

R – No princípio mesmo. 

 

P/1 – E depois que seu pai entrou pra Vale, e o senhor também, vocês continuaram morando na mesma casa ou foram pra alguma casa da empresa?

 

R – Na mesma casa. Não, nós mudamos pro Campestre, onde era a casa da Vale, né? Nós moramos lá.

 

P/1 – A partir de que ano?

 

R – Ah, parece que a partir de 1945, 1946, por aí.

 

P/1 – A casa que o senhor morava antes era alugada?

 

R – Era alugada, era alugada. 

 

P/1 – Aí passou pra essa casa da empresa, não pagou aluguel mais?

 

R – Não.

 

P/2 – Foi o senhor e toda a sua família?

 

R – Toda. Essa época a gente era solteiro, todo mundo solteiro. E sempre nós moramos na mesma rua: mesmo depois de casado, nós moramos na mesma rua.

 

P/2 – E como era a casa da Vale?

 

R – A casa, era uma casa boa de telhado, alvenaria, tudo, com banheiro. Uma casa iluminada, forrada, não tinha problema, não. 

 

P/1 – O senhor ficou um ano como aprendiz?

 

R – Ah, fiquei mais, né? 

 

P/1 – Mas, mesmo fichado, o senhor foi fichado como aprendiz?

 

R – Hum, hum. Foi. Eu passei a mecânico depois de quatro anos, foi em 1948, se não me falha a memória. 

 

P/1 – Mas o salário que o senhor ganhava era razoável, como era?

 

R – A época que eu era menor de idade, eu não tinha 18 anos, eu ganhava o salário que uma pessoa de 18 anos ganhava. Eu sempre (tive?) um salário mais alto. E foi o esforço da gente pelo serviço. Eu sempre tive um salário mais alto. Mesmo como ______ também eu tive salário sempre mais alto. E quando eu saí da Vale, quando eu aposentei, eu era o mecânico mais velho lá dentro das oficinas, de todas oficinas. 

 

P/1 – O senhor passa a mecânico em 1948?

 

R – Em 1948. Eu já era considerado como mecânico.

 

P/1 – E na cidade de Itabira, o que o senhor percebeu de mudança com a implantação da Vale lá? 

 

R – É uma coisa interessante: a implantação da Vale cresceu a cidade, é lógico, muitos empregados, tinha mais de quatro mil empregado lá dentro de Itabira, o comércio melhorou e etc. Mas o povo de Itabira, os filhos de Itabira mesmo, alguns é lógico com exceção, não adaptaram bem com a Vale, não. Não se dava bem, não gostava, achava que a Vale estava retirando tudo da cidade, né? Realmente retirou tudo mesmo, né? Mas eles não se dava muito bem a cidade com a Vale, não. Principalmente político, então, não funcionava, não coordenava os dois, não. A Vale e a Prefeitura não se davam bem.

 

P/2 – Ah é?

 

R – Não: se dão bem agora, mas antes não. 

 

P/1 – O senhor e outros, que eu imagino, itabiranos que eram funcionários da Vale tinham algum problema com o pessoal da cidade?

 

R – Não, a gente não tinha não, não tinha problema não. Mas a gente sentia que quem não era funcionário da Vale não gostava da Vale, não. É porque, às vezes, não era empregado, é porque não gostava. Os antigo que tinha aqueles comércios, aquelas coisas lá, não gostava muito. E por causa de política também, né? 

 

P/1 – E o que eles falavam, o senhor lembra? Assim, pra reclamar?

 

R – Eles falavam que a Vale estava desmanchando “tudo a cidade”, desmanchando isso, que a Vale encareceu a cidade, por causa que o salário da Vale era maior, né? O custo de vida da cidade subiu e quem não era empregado tinha dificuldade, é lógico. Qualquer lugar é assim, né? Mas havia aquela rixa de política, né? Principalmente depois que Israel Pinheiro foi ser presidente da Vale, com o negócio de política, etc. Sempre atrapalha a política, né? Sempre avacalha o negócio todo. 

 

P/2 – E vocês tinham consciência que a Vale estava ali, que ela foi criada como parte de um acordo, de um esforço de guerra e tudo?

 

R – É, sabia, eu sabia disso, sabia. 

 

P/2 – E como as pessoas viam isso: essa coisa de estar contribuindo para...

 

R – É mas isso já foi após guerra, né? 

 

P/2 – Sei, eu digo logo no início...

 

R – Não, início não, porque inclusive chegou a estrada de ferro lá, que não tinha estrada de ferro, a gente ia até ______________, né, em Drummond, e aí a estrada de ferro foi pra lá, quer dizer: a cidade cresceu, mas não foi uma coisa. Eles só pensavam que a Vale tirava minério lá e mais nada. 

 

P/2 – Não havia um sentimento nacional de estar contribuindo?

 

R – Não, não. 

 

P/2 – Um esforço de guerra? Não, né? 

 

P/1 – E o que o senhor fazia além do trabalho? Como era a diversão, as folgas? 

 

R – Jogava futebol, né? No juvenil do (Valer?), né? 

 

P/1 – O senhor jogou no (Valer Rio Doce?)?

 

R – Não, no juvenil do (Valer?). Eu não cheguei a jogar no titular, não. Eu prezava mais o serviço do que assim, o esporte, né? Cheguei até uma certa época só, depois também parei. Ia pro cinema, etc. Lazer era cinema... festa, essas coisas. 

 

P/1 – Tinha muita festa?

 

R – Tinha. A cidade tinha muita. Tinha três clube, né? Tinha sempre festa, muita festa lá. 

 

P/1 – Como eram essas festas?

 

R – Baile, né? Tinha muito baile, festa junina, era bom. Bem melhor do que atualmente aquelas festa. Mais simples, né, mais respeitado. Muito bom mesmo. 

 

P/1 – E os namoros?

 

R – Eu tive uma namorada só, né, a que eu casei (risos). 

 

P/1 – Ah, e como vocês se conheceram?

 

R – Conhecemos assim, de “foot de rua”, né? A gente fazia o “foot” na cidade, tinha as moça pra lá e os rapaz pra cá, né? Cidade pequena sabe como é. Aí conhecemos e começamos a namorar e foi.

 

P/1 – Em que ano isso?

 

R – Ah, quer ver: fui começar a namorar em 1946... por aí. Eu fiquei muitos anos de namoro, viu?

 

P/1 – Foram casar em que ano?

 

R – Eu casei em 1957, né? 

 

P/1 – Namoraram bastante!

 

R – Ah, sim, namoramos. 

 

P/1 – O senhor viajava pela empresa?

 

R – Viajava. Viajei muitas vezes pro Rio, vim aqui pro Rio de Janeiro, Vitória, viajava para Vitória também. Eu vinha em BH também, que a gente estava em Itabira, tinha problema de material, muita coisa, a gente vinha. Vinha mais no Rio também, a gente vinha muito no Rio. Viajava assim: “Olha, você vai ter que ir no Rio hoje.” E só: falava só isso e a gente vinha, e pronto. E depois que acertava as diárias lá. 

 

P/1 – Mas vinha para realizar trabalhos?

 

R – Trabalho.

 

P/1 – O quê? Algum conserto? 

 

R – Não, não. A gente vinha mais comprar material e peças de carro, de equipamento, aqui. E nas firmas de representações, a gente vinha muito nelas aqui. 

 

P/1 – Ao longo do tempo, seu Henrique, que foi mudando esses equipamentos, foi facilitando o trabalho do senhor ou a dificuldade era a mesma? 

 

R – Não, dificuldade sempre teve porque, às vezes, dez, 15 faz evolução e outros não, né? A mecânica é uma coisa muito difícil porque a pessoa, às vezes, uns crescem e outros não, né? Você tem que de vez em quando ficar puxando os outro com o (pé?), pra recuperar a corda lá de trás, que está atrasada. Era muito difícil.

 

P/1 – O senhor passou a administrar esse setor quando?

 

R – Olha, eu comecei a administrar a oficina depois de 26 anos de idade que eu tinha. Foi logo, logo que eu casei que eu comecei a administrar a oficina.

 

P/1 – Aí o senhor era responsável pelos outros mecânicos todos?

 

R – Eu recebi um convite de um engenheiro, esse engenheiro era até um engenheiro civil, ele era chefe da mecânica, bom administrador. E ele me fez o convite da seguinte maneira: “Henrique, eu tô precisando de organizar a oficina.” Eu disse: “Ó, não é difícil organizar a oficina, não.” Ele falou assim: “Eu queria que você organizasse a oficina pra mim, montasse, uma oficina aí, e tal.” Eu disse: “Ó, eu posso dar a resposta em oito dias, antes eu.... Eu vou estudar primeiro o que eu vou fazer, pensar ...” Porque era muito cheio de problema, né? Aí, passa oito dias ele chegou lá: “Como é que é? Você vai topar o negócio comigo?” Falei: “Topo.” Aí eu fiz uma série de exigências minhas. E ele falou: “Não, as exigências suas, concordo com tudo que você tá falando.” Essa época em diante passaram a me dar força, né? Acima desse engenheiro só existia o superintendente, era muito mais fácil a gente lidar, né? Aí fomos tocando o negócio pra frente, separando o pessoal, começando a treinar, etc, orientando no meu método de trabalho, que alguns já conhecia, né? Aí nós fomos levando pra frente o negócio. Fiquei com uma equipe muito boa, a equipe minha era muito boa. 

 

P/1 – E quais eram essas exigências que o senhor fez? 

 

R – A primeira exigência era ferramentas, tinha que comprar umas ferramentas, é lógico que, né? A segunda exigência – essa era positiva, essa eu não cedia mesmo – quem ia mandar no pessoal era eu, mais ninguém envolvia com os homens que estavam entregue à minha pessoa, toda a responsabilidade era minha. Não admitia que ninguém chegasse e chamasse a atenção de um homem meu, a responsabilidade era minha. Embora que eu peguei um peso danado com isso, né? Mas pra mim organizar tinha que ser assim, do contrário... E ter uma área pra trabalhar, né, aí era melhor, né? Aí ele topou: “A área eu arrumo, e os homens você escolhe aí e faz o que você quer. Fica na responsabilidade sua, eu não vou chamar a atenção de um homem seu. E material e ferramenta você me dá uma relação a gente de acordo com a possibilidade vai comprando.” 

 

P/2 – Quem dava os treinamentos era o senhor mesmo?

 

R – Era eu mesmo, in loco, né? Chegava pra desmontar um motor, montava, com a pessoa aí junto. E qualquer problema que a pessoa tinha, me chamasse, qualquer lugar que eu tivesse, que eu vinha e orientava, trocava ideia, discutia, fazia qualquer coisa, porque ninguém nasceu sabendo, né? Era difícil. 

 

P/1 – O senhor falou que foi organizando a oficina de acordo com o seu método de trabalho.

 

R – O meu método de trabalho. 

 

P/1 – Como é que era esse método?

 

R – O meu método (risos), era muito rígido, demais sabe? Eu dava todo o apoio ao mecânico, ajudante ou quem fosse lá, mas eu exigia dele a responsabilidade para comigo. E não admitia brincadeira dentro da área de trabalho, ninguém encostava a mão no outro, essas brincadeira de encostar a mão eu não admitia mesmo, a pessoa quando chegasse e me pedia: “Olha, tô precisando de ir lá, porque um parente deu qualquer coisa, vizinho, etc...”, “Vai e resolve seu problema lá, e volta pro serviço depois.” Era assim. Mas, era muito – o horário era: se era sete horas, era sete horas; se era quatro horas, era quatro horas; se fazia hora extra pagava, mandava pagar, não tinha problema. Se falava que não tinha ferramenta, arrumava. Eu dava todo o apoio à equipe minha, mas também exigia deles. Quando eu queria um equipamento: “Olha, tô precisando disso pra amanhã, que a mina tá precisando.” A pessoa não tinha hora de trabalhar, né? Podia ser à noite, domingo, feriado, ia mesmo.

 

P/2 – Ia de acordo com a necessidade.

 

P/1 – Não tinha turno, então?

 

R – Não, não.

 

P/1 – Depois veio a ter?

 

R – Depois é que veio a ter. Mas minha turma sempre ficava de dia só não trabalhava à noite, não. Não tinha condições de trabalho, e não havia necessidade. 

 

P/1 – Como é que funcionava a oficina? 

 

R – Tem três fases de oficina: a primeira oficina, que era numa área que chamava, numa _________________ que chamava Jacutinga, que nós chamava, essa oficina não tinha condições muito boa de trabalho, porque era logo no princípio, né, logo no início, onde nós tínhamos uma frota de caminhões muito grande. Essa frota, já existia uma frota de caminhão de 40 toneladas rodando, isso foi na década de 1950, nós já tínhamos essa frota rodando. Os caminhões nossos eram todos hidramático, né, era todos com caixa hidramática. Em 1950 nós já tínhamos, existia isso na Vale do Rio Doce, em Itabira. E essa fase aí, foi uma fase muito difícil, porque o treinamento era muito difícil, porque se você solicitasse um treinamento em São Paulo, Rio, onde é que fosse, não encontrava. Não tinha condições. Esse foi o equipamento que a gente tinha em Itabira, em outro lugar não tinha. Ele vinha importado. A gente tinha que se virar, né? 

 

P/2 – Tinha que decifrar lá....

 

R – Decifrar manuais e etc. Alguma coisa que a gente não sabia, a gente procurava o superintendente, que era o doutor Francisco Fonseca, Dr. Fonseca. Alguém deve ter falado o nome dele aí, né? Ele fazia a tradução pra gente, nós tínhamos um rapaz que era chefe do serviço de compra, também, o Zé (Gazili?), ele também fazia a tradução pra gente, coisa e tal, a gente discutia aquilo, tal. Porque, às vezes, a pessoa traduz a gramática, mas o termo técnico, às vezes, não sabe o que é, e a gente já tinha um conhecimento daquilo. E foi levando, a situação foi muito difícil no princípio. Essa década de 1950 foi uma época muito difícil dentro da Vale. Eu acho que pra todos os setores dela.

 

P/1 – Por que?

 

R – Porque era uma época em que a companhia estava em princípio de expansão, equipamento novo, e no Brasil não se encontrava esses equipamentos, não tinha nada. Hoje é muito fácil, mas antes era difícil. Todas peças, acessório à reposição, era importado. Tudo, tudo era importado.

 

P/1 – Tudo, em todos os setores, era uma coisa nova?

 

R - Tudo era importado, você tinha que importar tudo, um parafusinho você tinha que importar. E a importação era difícil: eram dois anos, um ano e meio de importação, porque tinha que passar aquilo no Rio, na (Casecs?), esse negócio todo aí, naquela confusão de importação difícil, e a gente ficava esperando aqui. A gente tinha que, às vezes, fabricar certas peça, a gente fabricava lá.

 

P/1 – Improvisava, né? 

 

R – Improvisava, a gente fabricava lá. A Companhia tinha uma fundição pequena, tinha uma área de usinagem, de tornos e mecânica, fresa, etc, etc, muito bem equipada, e tinha uma equipe que se virava, né? Se virava, eles faziam mesmo. Se via quebrado, aí tinha solda, tinha tudo, se virava. A turma fazia mesmo. 

 

P/2 – Quando dava algum defeito vocês mesmos reparavam...

 

R – É, apareciam os técnicos, os técnicos vinham aqui do Rio de Janeiro, mas eles pouco conheciam do setor, porque eles também não, no Brasil não tinham equipamento, vinha importado, coisa e tal. Era muito difícil, no princípio na parte de mecânica era muito difícil mesmo. Não foi fácil, não. E você, pra treinar os mecânico também, foi mais difícil, porque alguns assimilava bem, outros não. Aí você tinha que pegar: “Não, esse aqui adapta esse tipo de máquina, aquele adapta naquele tipo...” A variedade de máquina era muito grande, que a gente tinha. 

 

P/2 – E havia alguma resistência a esse tipo de comparações?

 

R – Não, não. A pessoa queria aprender, mas a dificuldade é a pessoa ter alguém que ensinasse eles assim, rápido, e ensinar dentro da área de trabalho é muito difícil. É mais fácil você estar dentro de uma sala de aula, etc, conversa, bate um papo, slide daqui, filme dali, coisa e tal, discute, é mais fácil. Mas, dentro da área, que você está precisando desse equipamento pra ontem, aí é complicado, né? A mina fala: “Ó, tá parando lá. Tem que botar equipamento na mina.” Era muito difícil. Então, no princípio, na década de 1950, em 1949, 1950, a época em que nós tínhamos umas carretas rodando, essa época era a época mais difícil que foi. Nós tínhamos sete carretas rodando, pra puxar minério, e eram só elas mesmo, não tinha outras não. E os caminhões pequenos para puxar limpeza de mina, etc. Era uma época de poucos tratores, pouca escavadeira. Aquilo tudo tinha que rodar. Aí, da época de 20 milhões anuais passou, pra depois foi crescendo. Quando nós chegamos a 20 milhões foi uma festa danada.

 

R – O pessoal vibrava, né? 

 

R – Nossa Senhora, essa época aí foi...

 

P/1 – Vocês comemoraram?

 

R – Foi um festão danado.

 

P/1 – A empresa deu uma festa?

 

R – Deu. 

 

P/1 – Vocês cuidavam também de outros equipamentos, além dos carros, caminhões e tratores? Quando chegaram outros equipamentos, por exemplo, pra mina, correias?

 

R – Não, essa área de correia, transportador e o britador, na minha área não dava assistência não.

 

P/1 – O senhor ficava mesmo com a mecânica de ...

 

R – De equipamento de mina. 

 

P/1 – De equipamento de mina e de carros? Carros _________ caminhões....

 

R – É, caminhões nós tínhamos de 15 toneladas, de 20, de 30, de 35, 40 e de 50. Depois, na segunda fase, é que foi, em 1970, que foi a fase dos caminhões de 100 toneladas, 100, 120. Já foi uma outra fase, aí a Vale já tinha tudo, estava toda esquematizada. Foi o projeto que chamava Projeto Cauê. Esse aí foi, derramaram um dinheirão danado lá, e fizeram muita coisa. Comprou equipamento novo, etc. Aí foi, a meta da produção foi preparada para 80 milhões de toneladas/ano.

 

P/1 – 80 milhões.

 

R – Foi preparada pra isso, a mina. A mina e a Vale toda, né? Inclusive a extrativa também foi preparada pra isso. Mas antes não. Antes a produção era menos. 

 

P/1 – Na oficina, vocês tinham um esquema de manutenção ou só consertava o que precisasse? 

 

R – Não, no princípio, o que quebrava a gente arrumava. Mas depois, com os problemas que estava acontecendo, nós começamos a fazer uma estatística, vendo os defeitos que davam em equipamento, o que era: se era constantemente aquilo ou se era outro, o motivo daquilo. Aí a gente tinha, abria uma marca, um motor, a gente via: tinha esse, esse defeito, sabe? Anotava. Abria outro motor e tinha esse e esse defeito. Aí a gente ficava sabendo a conclusão daquilo, se era poeira demais, se era sistema de óleo, se era operação, se era má manutenção, etc. Aí nós fomos estudando isso, pra depois fazer uma estatística completinha, e trabalhar em cima daquilo. 

 

P/1 – Aí já trabalhava com a manutenção?

 

R – Trabalhava com a manutenção preventiva e corretiva. 

 

P/1 – Aí já dava pra definir também o tempo que aquele caminhão ia precisar de manutenção?

 

R – É, o tempo a gente, depois de anos que a gente ficou sabendo que tantas mil horas que o equipamento daquele motor tinha que tirar, aquele outro equipamento tinha que fazer isso, fazer aquilo, coisa e tal. Isso, a estatística que, às vezes, as fábricas mandam pra gente não adapta naquela mina que você está operando. A nossa mina era uma mina muito, minério muito duro, muita poeira, muito abrasivo demais. A gente tinha que julgar a nossa estatística dentro da nossa mina, uma estatística feita por nós mesmos, pela equipe da mecânica mesmo.

 

P/2 – E com a modernização nos anos 1950, a partir dos anos 1950, o tempo de trabalho diminuiu? 

 

R – Não, ficou a mesma coisa, mesma coisa. Porque quanto mais a mina vai expandindo, mais aumenta o serviço seu, né? 

 

P/2 – O serviço acompanha a evolução.

 

R – Acompanha. Aí, os caminhões começaram a trabalhar 24 horas. E a manutenção acompanha.

 

P/2 – Ah, eram jornadas de 24 horas? Quer dizer, não parava?

 

R – Não parava.

 

P/1 – Tinha revezamento.

 

R – É. A gente falava assim: “Antes do motorista subir, antes de um descer, o outro já subiu.” (risos) Não parava o equipamento. Às vezes, o negócio foi meio apertado.

 

P/2 – Mas isso desde o início já era? 

 

R – Não, não, isso começou depois da década de 55, que começou assim. 

 

P/2 – As minas não paravam.

 

R – Não. Não paravam. 

 

P/1 – Seu Henrique, na época da construção do porto de Tubarão, teve uma exigência da empresa de se produzir mais, para grandes exportações. Vocês sentiram esse esforço conjunto lá nas oficinas também? 

 

R – O esforço era o seguinte: a Vale tinha um ___________. Aquela disponibilidade do equipamento, 75% do equipamento, 80% à disposição da mina. O problema da gente era esse: a gente tinha que pôr o equipamento à disposição da mina. Eu punha a área de motores à disposição, o outro, o encarregado da manutenção do chassis do caminhão punha também, etc, aí formava aquilo. Mas, a gente sentia que foi apertado o negócio, porque sempre eles pediam: “Neste mês, no trimestre próximo, vai ser 87%. O outro vai ser 88%.” Aí você tinha que apertar a situação e pôr o equipamento à disposição deles, da mina.

 

P/1 – E aumentou o número de funcionários? 

 

R – Não. 

 

P/1 – Com a mesma quantidade...

 

R – Com a mesma quantidade, porque a Vale era muito difícil admitir gente.

 

P/1 – É? Por quê?

 

R – Porque era uma empresa do governo, e não admitia fácil a pessoa, não. Podia admitir na área administrativa, coisa e tal, política, etc. Mas na área de pegar na ferramenta, era muito difícil.

 

P/1 – Mas o que era exigido para ser contratado?

 

R – Não, é porque era estatal, né?

 

P/1 – Mas o que pedia da pessoa? O que a pessoa tinha que apresentar, tinha que saber, para ser contratado para oficina, por exemplo? 

 

R – A oficina era assim: quando abria concurso pra oficina, a gente pegava a turma da própria empresa para disputar o concurso, em vez de buscar pessoa de fora. 

 

P/1 – Como assim?

 

R – Ah, em vez de buscar, no caso, precisa de, abriu uma vaga para quatro mecânicos. Você pra pegar quatro mecânicos de fora, que não conhece o equipamento, era difícil. Aí você pegava aqueles ajudante, auxiliar mais prático, eles já tinham conhecimento daquilo. Então...

 

P/1 – Porque tinha na oficina gente que trabalhava com vocês que não era empregado?

 

R – Não, que não era classificado naquela vaga que, às vezes, havia. E a gente empurrava eles lá dentro, pra buscar pessoa estranha fora, punha a pessoa... Abria o concurso normalmente: se fazia inscrição, tudo, a prova era toda feita, tudo certinho. 

 

P/2 – Mas era tudo interno, né, esse concurso?

 

R – Interno. Fazia um concurso interno. Era muito difícil fazer concurso externo, porque fazia interno. Agora o externo ficaria para que: ficaria para serviço braçal, qualquer coisa, etc. Mas pra você pegar um mecânico que não conhecia o equipamento, você buscar de fora, era muito difícil. E vinha com o preço muito alto também, né? Ainda tem esse detalhe. A gente pegava a própria equipe, da própria oficina, eles já participavam de vários cursos, muita coisa ali, já conhecia a matemática do serviço nosso lá, era mais fácil. Abria concurso interno e punha aqueles. Não só você estava ajudando o pessoal, como a própria empresa ficaria satisfeita, por causa de produzir a mesma coisa. E isso era uma das sistemática nossas que a gente fazia. Pelo menos na minha área eu fazia isso mesmo. 

 

P/2 – Isso foi durante todo o tempo, né? 

 

R – É. 

 

P/2 – Ou esse critério mudou com o passar do tempo?

 

R – Não, mais tarde mudou, mas a gente fazia sempre concurso interno primeiro. Sempre, qualquer área, era feito assim: concurso interno primeiro. O mais viável, né? Para uma empresa que estava com 4 mil homem lá dentro dela, fazer inscrição fora... Fazia interno. Às vezes, um mecânico da minha oficina não passava no concurso, mas de outra oficina passava. Porque nós éramos 11 oficinas. 

 

P/2 – E como era a avaliação prática? 

 

R – A gente fazia o questionário, tudo certinho, eles respondiam aquilo, e a gente fazia uma avaliação daquilo. E como a pessoa, a gente sabia o que a pessoa era também: se era um cara meio malandro, etc, então esse aí ficava na dele mesmo, né? Se o cara era trabalhador, não falhava no serviço, pontual, etc, esse sim passava.

 

P/2 – Contava ponto.

 

R – Contava ponto, é, você tem que contar ponto pra tudo. O cara que não tinha, que no caso brigou no serviço, ou suspensão de serviço, etc, esse cara já era um problema, né, é problemático. Eu, pelo menos, não admitia essa pessoa na minha área. Se a pessoa já teve suspensão num outro lugar, pra que é que eu vou tirar o abacaxi da mão do outro pra ir pra minha mão? É difícil, né? 

 

P/1 – O senhor disse que tinham 11 oficinas? Como é que elas eram localizadas, espalhadas?

 

R – Eram... no Campestre tinha oficina de usinagem, tinha oficina de (cadearia?), oficina de torno, eletricidade alta tensão, baixa tensão – que ela mexia com automóvel – tinha uma fundição, a mecânica de campo (Caue?), a mecânica de campo Jacutinga, a mecânica de campo da Conceição, a mecânica de campo da... tinha a mecânica de campo... tinha mais uma, são onze. 

 

P/1 – Olha, de mina o senhor falou (Caue?), Conceição, Jacutinga.

 

R - Bom, vamos repetir, vamos começar de baixo pra cima. Campestre tinha oficina de usinagem, caldeiraria, eletricidade alta tensão, eletricidade baixa tensão, oficina de motores – era o motor que ficou – motor, fundição - tinha a oficina com uma fundição - tinha mecânica de campo do (Caue?), mecânica da Jacutinga - que olhava o equipamento – tinha Conceição, mecânica de campo da Conceição, mecânica de manutenção dos caminhões. Dez, faz dez, né? Tá faltando um aí...

 

P/1 – Não tem problema, se o senhor lembrar depois...

 

R – Ah: mecânica de automóvel, de carro pequeno.

 

P/1 – E o senhor cuidava de todas essas?

 

R – Não, eu era responsável pela oficina de motores. No final fiquei com a oficina de motor, mas eu trabalhei em outras oficinas. 

 

P/2 – Em quais o senhor trabalhou?

 

R – Trabalhei na usinagem uma temporada, trabalhei na oficina de automóvel também uma temporada, muito pequena. Trabalhei na Jacutinga, no equipamento de campo. Essa é que era a pior, essa eu trabalhei muitos anos nela.

 

P/1 – Era pior?

 

R – É, porque o serviço lá era pesado mesmo. Essa eu trabalhei de mecânico nela, na Jacutinga. Essa não tinha condições assim de você, era uma oficina de equipamento muito pesado, pra te falar, a ponto de _______ nós tínhamos que suspender equipamento, era manual, né? Na corrente, você subia na corrente, era manual. Depois é que foi mudando as coisa, né? Mas no princípio era essa oficina. Essa que eu trabalhei muitos anos nela.

 

P/2 – Foi de quando a quando? Qual o período?

 

R – Ah, essa eu trabalhei uns seis a oito anos nela. Essa eu trabalhei essa temporada nela, fixo nela. 

 

P/2 – Mas o senhor transitou, né? 

 

R – Ah, eu fiquei em “vários lugar”. 

 

P/1 - Seu Henrique, o senhor fez cursos de treinamento pela empresa? 

 

R – Fiz, fiz vários curso. Inclusive, em 1970, em 1969, 1970 eu fiz um curso nos Estados Unidos. Eu fiquei 60 dias viajando dentro do Estados Unidos e mais 11 Peru e Chile, vendo equipamento. 

 

P/1 – E como é que foi ir para os Estados Unidos, sair de Itabira e ir pros Estados Unidos? 

 

R – Ah, pra mim não teve muita dificuldade não, porque eu já rodava o Brasil quase tudo: de São Paulo, Rio, Rio, São Paulo, Itabira, etc. Não tive muito problema assim, não. 

 

P/1 – O senhor foi com uma turma?

 

R – Não, fui eu e um engenheiro só. 

 

P/1 – E o que o senhor achou dos Estados Unidos?

 

R – Bom, a época que eu cheguei lá era muito evoluído, né? A gente pensava, fazia o pedido de peça na ponta do lápis, lá usava o computador há muitos anos, né? Você chegava, a mina também era muito bem equipada, as oficinas eram muito bem montadas, né? 

 

P/2 – O senhor chegou a ver alguma mina lá? 

 

R – Nós fomos pra rodar mina mesmo. Nós rodamos nove estados, dentro dos Estados Unidos, nove estados. Toda mina grande nós fomos. Inclusive estava a Companhia em comprar os caminhões de 100 toneladas e não sabia qual o tipo de motor que viria os caminhões: nós fomos pra ver isso, os tipos de motor que viria, como é que ia ser os caminhões, etc. Foi pra esse projeto (Caue?). Nós saímos em março de 1969 pra lá, e em 1971 começou o projeto (Caue?), onde que foi comprado equipamento, comprado tudo. E pensando que ia comprar tantos equipamentos compraram o dobro, e o negócio foi uma venda de minério muito grande, né? Teve que sustentar a venda.

 

P/1 – E que tipo de caminhão, no final, foi comprado?

 

R – A Vale comprou (Electra Hall?) e (Roll Pack?), de 100 tonelada.

 

P/1 – Definido, isso foi definido pelo senhor e um engenheiro?

 

R – Não, a definição do equipamento, do tamanho do equipamento, foi a mina que definiu, por causa de produção. Agora, nós opinamos sobre o tipo de motor que deveria vir.

 

P/1 – E qual era?

 

R – Naquele tempo só existia lá o motor Detroit Diesel. Esse motor rodava lá 3500 horas, o máximo, não rodava mais, não tinha mais equipamento, mais motor que desse essa potência para os caminhões. E a Vale precisava de rodar, né? O negócio foi bravo. A gente sabia que os motores rodavam pouco lá. 

 

P/1 – Precisava rodar mais do que isso na mina aqui?

 

R – Nós passamos eles a rodar mais, né? Pela manutenção nossa eles de 3500 foram para 5000 e quando eu saí eles estavam com 18000. 

 

P/1 – Com o mesmo motor?

 

R – O mesmo tipo de motor.

 

P/1 – Mas aí, requeria uma manutenção?

 

R – É, a manutenção do brasileiro é bem melhor do que a do americano, porque o americano sabe trocar peça, e o brasileiro sabe remendar, né? 

 

P/2 – Sabe dar um jeitinho, né? 

 

R – O jeitinho, aí “nós rodava” mais mesmo. 

 

P/1 – E nessa viagem para os Estados Unidos o que mais, o senhor aprendeu alguma coisa...

 

R – Nós fomos lá, a missão nossa era ver esses motores, ver esses equipamentos, ver como que eles funcionavam nas minas. Então, o engenheiro estava batendo papo lá, eu estava debaixo do caminhão olhando, né, onde é que tinha alguma trinca, o que era o equipamento. Pra gente saber, pra num falar bobagem. E fazer o relatório à noite, no hotel, né? Máquina fotográfica não podia usar mesmo, eles não deixava entrar nas minas, de jeito nenhum. E aí nós fomos, olhava isso. E fomos ver oficinas também, oficina deles. 

 

P/1 – O senhor viu muita diferença da oficina daqui?

 

R – É, havia um projeto em Itabira já de fazer oficina grande. E nós pegamos alguns dados deles lá, principalmente “os dado errado”, os erro que eles tinham lá, nós trouxemos para mostrar. Tinha oficina lá que quando eles suspendiam o basculante não podia ficar em pé, a caçamba não podia ficar em pé, porque a oficina é baixa. Tinha uma oficina que eles fizeram lá que o caminhão não dava pra entrar, entrava apertadinho. E os caminhões, a intenção da Vale era ter o equipamento bem maior, né? Intenção era essa. Não tinha segredo lá dentro da companhia: a intenção era ter equipamento maior. E aí nós fomos anotando esses detalhes todos, etc, tipo de piso de oficina, tipo de guindaste dentro de oficina, de claridade dentro da oficina – que era um problema sério, pra pessoa não ficar com iluminação acesa o dia inteiro - e uma série de coisas que a gente via lá. Agora, lá era diferente, porque tempo de frio lá tem que fechar as portas todas e acender “os aquecedor”, né? Nosso caso não precisava disso. E a oficina foi feita bem maior do que a deles: altura, comprimento, bem maior, bem maior. Eu tenho alguma coisa da oficina e vocês pode ver, por fora assim. 

 

P/1 – E o senhor viajou também pelo Chile e Peru?

 

R – É, Chile e Peru. Mas não estava no programa, mas como a companhia estava em comprar uns tratores de pneu, pra empurrar minério, e umas carregadeira, eles pediram pra gente vê lá como é que funcionava isso. Porque nós já tivemos uma época, um trator de pneu empurrando minério que não funcionou, né? Aí nós fomos ver esses que tinha lá. E demos os dados, orientamos o que as máquinas era, e eles andaram comprando alguns, né? Compraram 12 cada um só. Naquele tempo, só pra começo eles compravam 12 cada um.

 

P/1 – O senhor disse que não gostava muito de estudar quando pequeno, corria mais atrás dos carros.

 

R –Não, é porque eu não tive oportunidade, assim, não tive oportunidade.

 

P/1 – Mas depois o senhor estudou?

 

R – Aí eu comecei a estudar. Eu pensei até uma época em estudar Engenharia, né? Mas o problema é que a distância não dá. 

 

P/1 –Onde é o curso?

 

R – É em BH, e eram oito horas de viagem, de carro, né? Se não chovesse, né? Se chovesse era mais, porque era estrada de terra. Era difícil. E depois, a gente vai ficando mais velho um bocadinho, idoso, a gente perde aquela vontade de fazer as coisas.

 

P/1 – Mas o senhor estudou até o segundo grau? 

 

R – Isso eu estudei.

 

P/1 – Pela empresa?

 

R – É, eu estudei, eu fiz supletivo, né? Porque havia exigência da empresa. Embora que eu tinha aquele monte de curso, coisa e tal, mas tinha que ter o supletivo. Eu fiz o supletivo, não teve problema nenhum. 

 

P/1 – Fazia à noite?

 

R – Fazia à noite. À noite, às vezes, saía até durante o dia também, tinha alguma prova, não tinha problema. Ela apoiava, a Companhia sempre apoiou a pessoa estudar, nunca travou, não. 

 

P/2 – Ela financiava os estudos, como era?

 

R – Não, financiar não financiava, não. A única coisa que ela financiou uma época pra mim foi inglês, ela financiou.

 

P/2 – Ah, o senhor fez curso de inglês?

 

R – Fiz. Fiz uma temporada de inglês. Mas aquilo vai passando, se você não pratica vai...

 

P/2 – Perde tudo, né?

 

R – Perde tudo.

 

P/2 – Isso foi antes de o senhor ir pros Estados Unidos ou foi depois?

 

R – Antes de eu ir eu estudei muito inglês. E também depois eu estudei também. 

 

P/1 – Senhor Henrique, como é que era a relação de trabalho dos empregados, seus colegas de trabalho, seus subordinados com a empresa? O pessoal reclamava muito, estava satisfeito?

 

R – Não, porque a Vale pagava bem, né? Ela sempre pagou bem, e pagava em dia, né? Tinha hospital, tinha tudo, não faltava, não tinha reclamação. Alguém, sempre há reclamação, sempre tem, mas não havia motivo pra isso não.

 

P/1 – E vocês tinham benefícios?

 

R – Tinha.

 

P/1 – O que que tinha?

 

R – A Vale, na época que eu estava lá, ela pagava os doze meses, mas em junho você tinha uma gratificação, em dezembro você tinha outra gratificação. Você tinha a gratificação de férias, você tinha o quinquênio, né, de cinco em cinco anos você tinha uma ajuda no seu salário. Não havia motivo pra gente reclamar, não. Não havia motivo pra isso, não. Tinha motivo, porque o serviço era apertado. Muita gente fala que estatal não trabalha, coisa e tal, mas é conversa. A estatal lá da Vale Doce trabalhava mesmo. Pode ser que alguém, alguns funcionários de escritório e tal era diferente, mas na área de mina o negócio era severo. Pegava porque você tinha que ter responsabilidade pra frente, você sabia que dependiam de você botar o minério no vagão, né? E o pessoal da estrada de ferro sabia que tinham que botar o minério em Vitória, no cais, né? E aí por diante, né? Era uma engrenagem. Pra você ver que onde um britador parava lá, era um problema sério.

 

P/2 – Parava tudo?

 

R – Parava. Se um britador, quebrasse alguma coisa de um britador, aquilo tinha que ser feito em menos de quatro horas, pra botar pra rodar outra vez, né? Porque ficava frota de caminhão parada lá, e a mina com minério todo exposto, pra tirar fora, pra limpar a mina, né? Mas não havia razão de reclamação. Tinha alguma, tem sempre exceção, né? Tinham algumas injustiça, alguma coisa, que não é pela empresa, era algum administrador, algum engenheiro, um chefe lá. 

 

P/1 – E com a entrada dos sindicatos, mudou alguma coisa?

 

R – Sindicato em Itabira, eu não lembro de ter tido greve assim. Não lembro, não.

 

P/1 – Mas eles não exigiam alguma coisa, talvez fazer um acordo?

 

R – Exigia, acordo de salário sempre exigia, exigia sempre um aumento. Às vezes, eles pediam 20% de aumento, a Companhia _______________________ aumentava em cima. Havia esse problema. Às vezes, eles pediam 80 e a Companhia aumentava 75. 

 

P/2 – Geralmente atendia as exigências?

 

R – Atendia, não tinha muito problema, assim, não. 

 

(troca de fita)

 

R – Sempre há alguma coisinha pra pedir, sindicato sempre tem, né? Mas nunca vi problema sério, não.

 

P/2 – Quando os sindicatos passaram a atuar?

 

R – Hen?

 

P/2 – Quando surgiram os sindicatos?

 

R – Os sindicatos lá surgiram em 1945, por aí.

 

P/2 – Por aí, anos 1940 né?

 

P/1 – Seu Henrique, e as condições de segurança no trabalho? Vocês tinham alguns cuidados especiais?

 

R – Tinha. Depois da década de 1950 é que teve. Começou a funcionar a segurança dentro da própria empresa, mas antes não, não tinha não. 

 

P/1 – E o que era, o que eles colocaram como medida de segurança?

 

R – A segurança, cada supervisor de área de trabalho ele é responsável pela segurança de sua equipe. Agora, usava bota, usava óculos de proteção, usava chapéu, onde precisava de usar. Havia aqueles quadro de acidente, você ia anotando ali: a oficina tal tá com tantas horas sem acidente... e você acompanhava aquilo. E tinha uma influência danada pra gente, que a gente queria que a oficina da gente sempre estivesse no topo, não que um machucasse, pra cair a zero, assim. Se arrancasse uma unha do dedo, caía a zero. A pessoa nunca queria que aquilo acontecesse na área dela. E a gente ficava, e tinha uma equipe de segurança. Você tinha, abaixo dos supervisores, tinha uma pessoa ali, entre a turma você escolhia uma pessoa ali, e ele estava sempre vendo se precisava daquilo, se precisava daquilo outro, se estava suja a oficina, se escorregava caía, alguma coisa. Ali ficava material de segurança, como um guindaste, um cabo de aço, alguma coisa. Uma banca suja, uma banca estava estragada... Sempre tinha uma pessoa que levava ao conhecimento do supervisor, que tomava a providência. E tinha a equipe de cima, né, que supervisionava tudo. A oficina minha sempre recebeu um troféu de boa limpeza e segurança, nunca houve acidente na minha área, não.

 

P/2 – E nas oficinas onde eram freqüentes os acidentes, o que acontecia com elas?

 

R – Ah, fazia reuniões, fazia curso, etc. Era muito sério, eles levavam a sério o negócio, muito a sério mesmo. Eles chamavam a atenção da pessoa, se a incidência de acidente com aquela pessoa, tinha um erro qualquer, né? Ou ele não prestava atenção, ou não estava adaptando ali, tinha alguma coisa que não estava funcionando bem ali.

 

P/2 – Aí, essa pessoa ou passava para um curso de reciclagem, ou então era posta pra fora? 

 

R – Não, aí ia pra uma outra área de trabalho qualquer. Nunca se dispensava ninguém. Pelo menos não lembro de ter dispensado não. Entrava às vezes, mas dispensar não.

 

P/2 – Sempre aproveitava a pessoa pra alguma coisa?

 

R – Fazia sempre a reciclagem, trocava muita gente. Pra gente já era normal. Se a pessoa não adaptava na minha oficina, eu emprestava ele pra outra oficina e ia emprestado. Ficava três meses, quatro meses, aí adaptava lá, ficava lá, não voltava. Era bom pra ele e tirava o peso da gente, né? Isso houve vários casos assim. Às vezes, a pessoa não adaptou na oficina X, veio pra minha oficina deu certo, e vice-versa, né? Mas era normal isso. 

 

P/2 – E havia algum gerente geral, supervisor geral que coordenava todas essas disciplinas...

 

R – As oficinas?

 

P/2 – As oficinas?

 

R – Ah, tinha. Ih, tinha engenheiro lá, mais do que três. Da década de 1970 pra cá tinha engenheiro, 1970 não, da década de 1950... 1960, da década de 1960 tinha engenheiro demais lá. 

 

P/2 – Mas eu digo: alguém que supervisionava, quer dizer...

 

R – Cada grupo de oficina tinha três engenheiro. 

 

P/2 – Sei. Mas havia alguma instância superior que supervisionava todas essas oficinas?

 

R – Tinha, tinha, tinha. Tinha o superintendente geral, que era o topo, abaixo do superintendente geral tinha a administração, e na mecânica tinha o gerente geral, abaixo do gerente geral ainda tinha mais uma divisão, que era um engenheiro, e eu comandava dois, três engenheiro. E eles olhava as oficina.

 

P/1 – Aí, abaixo deles tinha os encarregados de oficina?

 

R – Eram os supervisores. 

 

P/1 – Supervisores, e abaixo dos supervisores...

 

R – Tinha, aí tinha o supervisor geral, supervisor de oficina e encarregado.

 

P/1- O senhor chegou até qual ponto?

 

R – Eu cheguei a supervisor técnico de equipamento de mina, de manutenção de mina. Eu tinha quatro supervisores normais abaixo de mim.

 

P/2 – Manutenção de mina?

 

R – É, chamava equipamento. Mas a minha área era área de motores, né? Eu recebia um motor e entregava um motor pronto, recondicionado. Um motor pesava 5000 quilos, 6000 quilos. Motor de 1000 HP, 1200 HP, 1500. E tinha os motores pequenos também, que a gente fazia recondicionamento, a mesma coisa.

 

P/2 – Como era esse recondicionamento?

 

R – Você desmontava o motor todo – primeiro você lavava: lavava o motor todo, desmontava e as peças iam, por exemplo, em cada setor, fazer o recondicionamento. Entregava e o mecânico só montava, tinha mecânico que só montava. Tinha seis, oito mecânicos montando os conjuntos, fechando os motores. Ia tudo no suporte, ele não fazia nada no chão, não ficava agachado nem nada, tudo no chão.

 

P/2 – Trabalhando em pé.

 

R – E a oficina mais ou menos limpa, sim. Não tinha óleo no chão, não tinha nada. Trabalhava em pé. E tinha as talha pra pegar peso, etc.E você pegava o motor com aquele suporte, girava ele. Não tinha problema de fazer força, de trabalhar agachado. Isso depois da década de 1960, né, 1965 pra cá. Antes não, antes o negócio era na terra mesmo. Porque aí foi evoluindo o pessoal, né? 

 

P/1 – Desculpe, pode falar.

 

R – Os cabeças foi me facilitando as coisa (risos).

 

P/1 – O senhor lembra algum caso interessante ou engraçado da oficina, nesses anos todos que o senhor trabalhou lá na Vale ?

 

R – Olha, é algo de interessante, se eu falar que na minha área não tinha brincadeira, a turma não brincava. Eu tinha uma equipe muito boa, eles respeitavam assim. Tinha uma piadinha, umas bobagem, mas não tinha essas brincadeira que tem em certos lugares.

 

P/2 – E nas horas de folga, não tinha nenhum tipo de brincadeira, de diversão?

 

R – Nas horas de folga eu não ficava perto, porque, às vezes, saía pra almoçar e eles também saíam. Era muito difícil. A gente sempre encontrava com um bocado da turma da gente no campo de futebol: se encontrava, sentava junto, batia papo, coisa e tal. Às vezes, ia tocar em serviço com a gente, a gente falava: “Ó, aqui não. Aqui ______, acabou ali, já.”(risos). Mas a oficina, o conjunto era muito sério. Agora, em outras área podia ter, mas na minha oficina era muito difícil assim, ter essas piada e brincadeira demais, porque o tempo era meio curto pra gente, lá o negócio era meio apertado.

 

P/1 – E o senhor trabalhou até que ano?

 

R – Eu saí em 1969, né? 

 

P/1 – O senhor se aposentou?

 

R – Aliás, em 1979. Eu saí parece que em julho de 1979.

 

P/1 – E aí o senhor foi fazer o que, depois de aposentado?

 

R – Aí eu fiquei à toa uma temporada. Depois eu fui convidado pra trabalhar na Cumes, em BH. Fiquei lá uma temporada.

 

P/1 – Qual é essa?

 

R – Cumes que chama, é uma marca de motores. Tinha uma representação em BH, eles me convidaram pra eu ir pra lá.

 

P/1 – Pra fazer o que lá?

 

R – Pra ser supervisor lá.

 

P/2 – De motores?

 

R – De motores. Depois eu fiquei uma temporada, vi que não estava me adaptando bem lá, coisa e tal, e saí. Depois eu fui pra, depois me convidaram, me chamaram lá em Itabira. Me chamaram e queriam que eu fosse pra Carajás. Aí me pediram pra mim fazer, em Carajás estava iniciando a mina, sabe? Tinha meia dúzia de equipamento. Aí me perguntaram quais as condições que eu queira ir pra lá, eu fiz, eles não aceitaram. Se eu fosse eles também, não aceitaria.

 

P/1 – O que o senhor exigiu? (risos)

 

R – Bom, eu ia ficar lá o seguinte: eu falei que eu só ficaria lá se eles, de 30 em 30 dias eles me dessem condução pra mim vir em casa. Aí era avião, não tinha condições. Aí eu falei que, no momento, era meio cedo pra mim ir pra lá , coisa e tal, até um – esse engenheiro não está na Vale mais, acho que saiu. Aí, depois, passada uma temporada ligaram pra mim perguntando se eu topava ir pra lá, eu falei: “Não, não vou pra lá.” Aí passou, esqueceram. Depois eu fiquei uma temporada parado em casa, lá, não queria mexer com oficina, com serviço. Mas aí você, chega um certo ponto você esgota. Depois me convidaram pra ir pra Itabira, pra trabalhar numa oficina lá, uma retífica. Aí eu fui pra lá, fiquei uma temporada lá, tentei organizar a oficina, mas o dono era cabeça meia dura, mais dura do que a minha, não deu pra nós ficar. Depois eu fui pra uma representação da Fiat, em Itabira também. Fiquei lá uma temporada, também saí. Depois, em 1991, me fizeram uma proposta pra eu ir pra Carajás. Aí voltaram a mesma novela de Carajás. Aí eu falei com, aí já estava em expansão lá, coisa e tal.

 

P/1 – Quem fez a proposta pro senhor?

 

R – Foi um engenheiro de Carajás, da Vale lá.

 

P/1 – O senhor lembra o nome?

 

R – Lembro. (Dr.?) Sinésio ele chama. Aí ele falou assim: “Vem pra cá, coisa e tal.” Ele não me conhecia, foi por informação. Eu falei: “Ô doutor, o senhor não me conhece, não vai dar certo, eu não vou aí não.” “Não, vem, coisa e tal. Experimentar aqui, ao menos a passeio...” Isso foi logo que o Collor entrou no governo, foi 1991.

 

P/1 – 1991.

 

R – Aí eu falei: “Ah, não vou aí, não.” “Não, vem sim.” Quem tinha me indicado, ligou pra mim: “Ô Henrique, você não quer vim cá, não? Vem cá dar uma volta, senão eu vou ficar com uma cara grande aqui, rapaz. Eu fiz, falei que você vai acertar esse troço aqui, coisa e tal.” Eu falei: “Ah, não vou aí não. Mas daqui a uns dia eu ligo pra aí.” Aí passou uns dia eu liguei pra lá. Liguei, aí falei assim – ele chama Benê, o rapaz – “Ó Benê, não vai dar pra ir pra aí, não.” “Não, Henrique, vem, porque eu falei com o engenheiro aqui, rapaz, eles estão me chateando, eles estão me gozando aqui, já.” “Ah, vou ver.” Dali a uns dia ele ligou pra mim outra vez: “Ô Henrique, você não quer vir pra cá, não? Venha pra cá, experimenta aqui. Ou ao menos você vem a passeio.” Falei: “Ah, então eu vou aí.” Aí eu fui. Cheguei lá foi um susto danado. O negócio lá estava meio embananado mesmo. Cheguei lá e conversei com o engenheiro, ele não me conhecia, não. Conversa vai, conversa vem, coisa e tal. Ele falou: “Deve ter alguém aqui que você conhece.” “Ah, eu conheço uma turma que tem aqui.” O superintendente de lá era um engenheiro que tinha passado em Itabira, ele não sabia que eu estava lá, não. Eu ia ficar 30 dias lá, só. Encontrei com o engenheiro na oficina, (Mozer?). Encontrei com o (Mozer?) lá, ele falou assim: “Uai, o que você está fazendo aqui? Está passeando?” “Não, eles estão querendo que eu fico aqui.” Ele falou: “Quem te trouxe pra aqui? Aí você acerta isso pra nós aí.” Eu falei: “Ah, o negócio aqui tá meio difícil” “Não, experimenta aí.” Aí eu fiquei.

 

P/ 1 – E quais eram esses problemas lá? 

 

R – Ah, problema de motores, uma série de coisas de oficina, né? 

 

P/1 – A oficina não estava funcionando direito?

 

R – É. Eles queriam que eu organizasse a oficina. Aí eu peguei e falei: “Ó, primeiro eu vou ficar 30 dia aqui.”Fiquei os trinta dias. Aí quando venceu os trinta dia eu fui e encontrei com o Sinésio. Eu fiquei os 30 dia só olhando o movimento como é que estava lá, o negócio estava meio, me assustando demais. Aí eu falei com o Sinésio: “Ó Sinésio, pra mim ficar aqui vai ser uma coisa: você vai me dar passagem pra mim ir 30 dia em Itabira e em BH?” Ele falou: “De 30 em 30 dia você pode vir buscar uma passagem aqui. Não tem problema nenhum, não. Se você acertar aí pra mim não tem problema nenhum, não. É só isso que você quer?” Eu falei: “É.” “Então, não tem problema nenhum.” Daí eu fiquei.

 

P/1 – E lá o senhor ficou morando onde?

 

R – Eu fiquei num hotel, fiquei num hotel lá deles. Eu fiquei dois anos lá.

 

P/2 – (Tudo?) em hotel?

 

R – É, no hotel da Vale. Eu fiquei dois anos lá.

 

P/1 – O que o senhor achou da cidade?

 

R – Carajás é uma cidade dentro da selva, né, é uma vila. Tinha todo o conforto possível lá dentro, pra ser uma vila num lugar daquele. Tinha telefone, um hospital muito bem montado, um teatro muito bem montado, com cinema, as ruas eram todas asfaltadas, toda ajardinada, tinha quatro tv a cabo, canais de tv. Tinha, às sexta-feira e sábado eles levavam conjunto de música pra lá, tudo, pra fazer lá pro pessoal. As casa muito bem arrumadinha, muito arrumada. Não tinha, o pessoal que morava lá sentia o problema era ficar num núcleo só, né? Que o problema de núcleo, vai indo, né, cansa a pessoa. Tinha uma linha de ônibus lá dentro do núcleo, era muito grande a vila lá. E aí eu fiquei lá essa temporada. Eu pegava ___________ no hotel e ia lá pra mina, voltava. E organizamos a oficina pra eles lá, treinamos o pessoal lá, botamos o equipamento pra rodar. Fiquei dois anos. Depois do final de dois anos eu vim embora.

 

P/1 – O senhor achou muito diferente Carajás de Itabira?

 

R – Ah, é Nossa Senhora! 

 

P/1 – Falo em tudo, mesmo a mina?

 

R – Tudo, tudo. A mina então, era completamente diferente. E outra que a rivalidade que havia, hoje eu não sei, havia rivalidade. Você falava em mina do Cauê lá, eles falavam: “Não, aqui é Carajás, aqui é diferente.” Eu falava: “Mas aqui não funciona assim. Lá sempre funcionou.” 

 

P/1 – O senhor teve dificuldade, então?

 

R – O negócio não foi fácil, não, muito difícil. Mas eu cheguei, a oficina lá tinha um supervisor, um encarregado, um supervisor geral e um supervisor... era um encarregado, um supervisor e um supervisor geral. Eram três. Com 14 homens lá dentro. Chegava oito horas da manhã eles estavam sentado na banca, lá. Nos primeiro dia, né? Eu ficava, achava aquilo esquisito, né, uma brincadeira, um agarra o outro, e conversa: “Namorei fulana, e fui pro tal de, assim...” Mas o serviço, estava aquele monte de motor arrebentado no chão, lá. E tinha um técnico da Cumes lá. Mas ele não podia brigar, né, porque o problema dele é vender peça, né? Os motor todo come, né? Ele não podia brigar. Aí eu chamei o engenheiro, com 60 dias eu chamei o engenheiro e falei: “Ó, nós fizemos um contrato de palavra aqui, tal, mas eu não vou ficar aqui não.” Ele falou: “Por que, Henrique?” Falei: “Ah, não. Os homens seu aqui não trabalha, não.” Ele falou: “Mas não trabalha por quê?” “Não: sete horas, sete e meia tá todo mundo aí. Olha a quantidade de motor que tá aí. Ninguém resolve nada, você manda um fazer, um ri pro outro e não resolve.” Ele falou: “E o que você quer que eu faça?” “Que quero que você me dá uma passagem pra mim ir embora, e mais nada!” (risos). “Não é problema meu.” Aí ele falou: “Mas eu vou te dar uma resposta.” No outro dia ele chegou cedo lá: “Você quer ficar com quantos homem aqui?” “Quero ficar com quatro homem só.” “Só quatro, é? E esses homem?” Eu falei: “Esses homem você bota em outra oficina, aí. Pra mim quatro dá.” Porque se eu precisava de mais mecânico, a gente pedia do Pará, da Cumes do Pará, eles tinham mecânico lá.  

 

P/2 – Prestavam serviço pra Vale?

 

R – Prestavam, prestavam. Aí ele falou: “Mas quatro homem, e daí?” Eu falei: “Não: um vai ser o encarregado aqui. Um deles, eu vou escolher. E os outros três vai ajudar. A hora que nós tiver apertado, nós buscamos um mecânico lá no Pará. Liga, passa um rádio pra lá e eles veem no outro dia. E eles trabalham com uma orientação nossa, aqui.” Ele falou: “É, mas será que vai funcionar?” “Vamos tentar?” Aí tentamos, né. E fizemos. 

 

P/2 – E deu certo?

 

R – Peguei um rapaz que estava encostado lá. Aqueles rapazes estavam completamente... pisaram na cabeça dele lá, encostaram o rapaz lá. Aí eu peguei o rapaz e comecei a falar: “Ó, você vai ser encarregado meu aqui. Você que vai assinar as coisa, você que vai fazer tudo. Eu não vou fazer nada, vou ficar atrás de você aqui. O que estiver errado eu te mostro, o que estiver certo, está certo.” “Então tá bom.” Mas ele falou: “Aí como é que vai ficar o negócio...” “Não, não tem problema. A responsabilidade é minha. Pode...” Aí ficamos. A primeira coisa que nós fizemos é arrumar a oficina, limpar, né, que estava uma imundície danada, tal. Fizemos lá uma arrumação, cercamos a oficina e começamos a organizar as coisas lá dentro. E motor arrebentado por todo o lado, né? Eram 20 carros lá, que tinha, rodava cinco, 15 parado, né? Começamos a desmontar motor e a montar, e pôr o troço pra rodar lá, né? Eu saí com o equipamento todo rodando, e com os motores de ________, todos pronto lá, não teve problema. E o rapaz ficou lá. 

 

P/1 – Qual o nome do rapaz? 

 

R – Eu chamava ele de Carlos. Hoje eu não sei, não sei se ele está lá ainda. Tem uns três a quatro anos que eu perdi o contato, ele sempre ligava pra mim. E sempre ele vinha em BH e encontrava comigo lá. Depois eu perdi o contato, não sei se ele aposentou, o que ele fez. Mas deixamos engrenado lá. Agora a mina lá era uma potência, o negócio lá era. Hoje os caminhões lá é de 250 toneladas, que puxa minério, 200. O negócio lá é muito grande. Tem minério pro resto da vida lá. 

 

P/1 – Seu Henrique, o senhor participou da Avalia, participa? 

 

R – Eu sou, eu pertenço a Avalia.

 

P/1 – Quando foi fundada?

 

R – Em 1967. 

 

P/1 – Então, as expectativas assim, o que o senhor achou quando começou? 

 

R – A expectativa era o seguinte, ninguém me tira da cabeça: porque após, em 1967 houve a opção, né, a pessoa optava ou não, né. E após essa opção esse dinheiro, que a companhia tinha que indenizar pra gente, que não foi indenizado, ela aplicou na Avalia, né? Foi uma das partes do dinheiro da Avalia foi isso.

 

P/1 – Que dinheiro que indenizava, do quê?

 

R – Porque eu era optante, antes eu era estável, entendeu? Eu tinha, naquele tempo tinha acho que 19 anos se não me engano. Eu era estável, eu passei a ser optante. 

 

P/1 – 19 de empresa?

 

R – De empresa. Pra mim, pra eles me indenizar pra mim ser optante, né? 

 

P/1 – Aí perdia a estabilidade, é isso?

 

R –Nós perdemos a estabilidade, desde quando nós optamos nós perdemos a estabilidade. E a Companhia não indenizou o tempo da estabilidade nossa, entendeu como é?

 

P/1 – Passou isso pra Avalia?  

 

R – É o dinheiro automaticamente parece que foi pra Avalia. Iniciou a Avalia em 1967, 1968, por aí.

 

P/1 – E valeu a pena o senhor ter participado?

 

R - Olha, eu dizer que não valeu é bobagem falar. Valeu, valeu sim. 

 

P/1 – A Pós-Vale o senhor faz parte também? 

 

R – Faço. 

 

P/1 – O senhor frequenta?

 

R – Frequento lá sim. 

 

P/1 – O que lá oferece?

 

R – É uma “associaçãozinha”, está começando a crescer agora, né? Mas lá tem, eles pratica ioga lá dentro, sempre tem festa, tem aula de dança, etc. Tem sinuca, então a associação está crescendo agora, né? 

 

P/2 – E o senhor frequenta?

 

R – Frequento sim.

 

P/2 – Frequenta com a família?

 

R – A família vai. Minha mulher vai, faz ioga lá, a semana inteira, ela vai mais lá do que eu (risos). 

 

P/2 – Seus filhos também são frequentadores?

 

R – Não, os filhos não. Só o rapaz é que vai. Os outros são três filhas casadas, né? É mais difícil. 

 

P/2 – O rapaz é mais novo?

 

R – Não, o rapaz é 30 anos. 

 

P/2 – Não, mas é mais novo que os outros?

 

R – É.

 

P/2 – É o caçula?

 

R – É o penúltimo.

 

P/1 – O senhor tem quantos filhos?

 

R – Tenho quatro. São quatro moça e um rapaz. 

 

P/1 – Senhor Henrique, o senhor acha que o senhor atingiu os seus objetivos dentro da empresa, o senhor chegou aonde queria?

 

R – É, porque pra mim subir mais eu teria que ter um título, né? E eu não tinha. Mas espaço pra mim, se eu tivesse um título, tinha. Eu ia subir bem. Mas, faltou um título, né. Mas eu cheguei no topo da minha categoria, e eu passei por várias pessoas lá. Isso não tenho queixa quanto a isso, não. Às vezes, a pessoa não sai, não aposenta na época certa, no dia certo, coisa e tal. Mas isso não é problema da empresa, é problema meu, mesmo. 

 

P/1 – Mas por que, o senhor acha que não saiu na hora que deveria?

 

R – Não, eu saí um bocadinho antes, se eu tivesse saído um ano ou dois após, eu teria complementação de salário,______________________, mas não....

 

P/1 – Mas o que levou o senhor a sair antes?

 

R – Ah, uma série de coisas que deu, porque eu estava com esse problema desse menino estudando, uma série de coisa, e a época também, a Avalia na época que eu aposentei, se vencesse os 35 anos e você ficasse mais um ano, você ia perdendo tantos por cento na aposentadoria qua a Avalia ia pagar, entendeu? Aí, a complementação dela. E na época a complementação dela era muito boa. Era o dobro quase do que eu ganhava. O Inps [Instituto Nacional de Previdência Social] ia pagar dez salários mínimos, naquela época, e ela ia pagar, eu saí com 19 salários mínimos naquela época. Era muito bom, e eu não podia perder isso. Embora que depois a Vale começou a fazer complementação pra quem saísse com a porcentagem do salário da pessoa, né? 

 

P/1 – Era mais compensador?

 

R – É, na época era. Depois, né? Mas aí, foi extinto também esta perda de tantos por cento da Avalia, foi extinto. Era um modo de forçar a pessoa a sair na época, né? Mas eu saí de livre e espontânea vontade, não tinha briga comigo, ninguém me forçou a sair, nem nada, não. Até o momento que eu saí, quem determinava dentro da minha área era eu mesmo, e não tinha problema. Não teve “eu vou encostar esse fulano pra sair…”, não teve, não. Sempre eu fui prestigiado lá dentro, não teve problema. 

 

P/1 – O senhor acompanhou o processo de privatização?

 

R – Acompanhei uma parte só, daquilo. 

 

P/1 – O senhor não chegou a comprar ações?

 

R – Eu tenho, tenho ações.

 

P/1 – O senhor entrou nesse plano do Investvale ?

 

R – É, Investvale. Aquilo foi doado, né, automaticamente. Com o lucro é que vai pagando aquilo, né? 

 

P/1 – E o que o senhor achou dessa possibilidade de comprar ações?

 

R – “Uai”, o negócio veio simples, né, não teve que você tirar o dinheiro pra comprar, aí foi muito bom, não teve problema, não. 

 

P/1 – Mas o senhor tem algum rendimento com essas ações?

 

R – Não, o rendimento que a gente tem está pagando o banco de desenvolvimento pelo empréstimo que eles fizeram, né?

 

P/1 – Até quando?

 

R – Até pagar total, né?

 

P/1 – Não sabe o prazo desse pagamento?

 

R – Não, porque é de acordo com o lucro que vai dando, né? Mas já tem dado bastante lucro, tem pago bastante, já está caindo o valor do débito, né? 

 

P/1 – E o que o senhor achou da privatização?

 

R – Eu achei o maior erro, né? Eu achei que, acho que o nosso governo, a cabeça não funcionou bem, não. É uma das empresa que dava lucro, né? Que dá até hoje. Que dava não, que dá lucro. Eu achei que ela poderia ter retalhado algumas subsidiária dela, ela podia ter vendido. Mas a mina, esse negócio, foi bobagem fazer isso. Ela não vendeu, ela deu, porque o equipamento que a Vale tem, o negócio é só pra quem já esteve dentro dela e vê o que é.

 

P/1 – Saiu barato demais?

 

R – Ah, saiu. Não venderam _______. E o ouro que ela extrai e tudo. O negócio foi uma bobagem que fizeram. Infelizmente, o nosso presidente fez besteira. Mas deixa pra lá, né? 

 

P/1 – Seu Henrique, hoje em dia qual é sua atividade, o que o senhor faz no dia a dia? 

 

R – Eu? Eu não faço nada (risos). Eu mexo no meu carro, quando ele enguiça, atrapalha o carburador dele, eu conserto (risos). 

 

P/2 - ______________ ?

 

R – É, porque hoje qualquer negócio que você vai mexer, não compensa. Se você, no caso, se você vai mexer com uma oficina, o lucro é tão pequeno e o imposto é tão alto que não compensa. Hoje, a manutenção de uma oficina particular, o que é? É você trocar peça. Você ganha na compra da peça pra dar ao cliente lá, inclusive com desconto. Mas hoje você, pra fazer isso, não compensa. E um empregado, pra você ter dois mecânicos você vai pagar ISS [Imposto Sobre Serviço], Inss [Instituto Nacional do Seguro Social]... de imposto, que não vale a pena, não. Não compensa, não. 

 

P/1 – O senhor mora onde, hoje em dia, e com quem?

 

R – Eu moro em Belo Horizonte, sou casado e moro com a família toda, não tem problema.

 

P/1 – Quem ainda mora com o senhor?

 

R – Só o Luiz Henrique e a Mônica. 

 

P/1 – Dois filhos e a sua esposa.

 

R – É.

 

P/1 – O senhor tem netos?

 

R – Tenho, tenho quatro netos. Só moça. (risos)

 

P/1 – Quatro netas.

 

R – Quatro netas. 

 

P/1 – Seu Henrique, se o senhor pudesse mudar alguma coisa em sua vida, o senhor mudaria, na sua trajetória?

 

R – Olha, eu não tenho ideia de mudar assim, não vejo razão assim. Eu vivo bem, a saúde está normal, não tenho, mudar de vou ter isso, vou ter aquilo, não. Se eu pudesse voltar 20 anos atrás seria diferente. Ia montar uma oficina muito grande, etc. Mas, eu já te falei, é que pensando bem não compensa, né? Não vale a pena. Eu acho que está tudo normal, não vejo razão pra me desesperar, fazer qualquer coisa, imaginar. Está tudo certo, não tem problema nenhum, não, está tudo bom. 

 

--- FIM DA ENTREVISTA ---




Dúvidas:

 

(Assamira?) 

(Read ?)

(Caue?) 

(tive?) 

(Valer?) 

(Valer Rio Doce?) 

(Gazili?) 

(Casecs?) 

(cadearia?)  

(Electra Hall?)  

(Roll Pack?) 

(pé?) 

(Dr.?)

(Mozer?)

(tudo?)





 

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