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História

Paixão pelos Correios

História de: Gercyvânia Lucia Fernandes Lima
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 03/06/2015

Sinopse

Vânia conta em seu depoimento para o Museu da Pessoa todo o processo de sua adoção, já que sua mãe biológica tinha 17 filhos e acabou a doando para a cunhada que tinha sido freira. Fala sobre essa infância, onde tinha duas famílias, e a experiência de mudar-se para São Paulo aos 17 anos, depois de se casar com o seu primo, com quem está até hoje. Ela também comenta como foi essa mudança de cidade, sua adaptação a São Paulo, seu emprego nos Correios e o processo de sua formação profissional, além de como foi a criação de seus filhos.

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História completa

Meu nome é Gersivânia Lurdes Fernandes Lima. Eu nasci no dia 21 de maio de 1979 na cidade de Solânea, na Paraíba. Meus pais biológicos são Miguel Ferreira de Lima e Gesina Ferreira de Lima.  Meu pai de criação Graciliano Ferreira de Lima e a minha mãe de criação é Gertrudes Ermínia Maria de Lima, na verdade, só que o nome dela de freira é Gertrudes, então, a gente chama ela de Gertrudes. O meu pai lutou na Segunda Guerra Mundial na Itália e quando ele voltou para casa, ele teve 18 filhos, eu sou a caçula. Ele e a minha mãe trabalhavam no colégio agrícola da cidade de Bananeiras, na Paraíba. Depois, eles foram para Campina Grande. O meu pai já estava aposentado e a minha mãe foi trabalhar na Universidade Federal da Paraíba de Campina Grande, então eles ficaram morando depois em Campina Grande.

Eu sou caçula de 18 irmãos e sou filha única, eu até brinco, eu falo: “Eu sou filha única de 18 irmãos”, todo mundo: “Como assim?”. Quando eu fiz três meses de nascida, o último pedido do meu avô antes de falecer, foi que a minha mãe biológica, que tinha muitos filhos, me desse para a minha mãe de criação que tinha saído do convento e já era de idade, não ia poder ter filhos para ela criar. E minha mãe biológica não aceitou. Mas no dia que eu completei três meses, o meu avô faleceu, a minha mãe ficou com remorso e me deu para a minha tia cuidar. E eu fui registrada com a minha mãe e fui criada pela minha tia. Quando eu fui morar com a minha tia, então eu fiquei longe da minha mãe, porque a minha mãe morava nessa época, ainda nessa cidade. A minha infância foi complicada, porque você começa a crescer e começa a sentir falta de amigos, de primos, de irmãos. Eu fui criada muito sozinha, eu brincava que eram quatro gerações lá em casa: a minha avó tinha cem anos, meu pai de criação, 80 e a minha mãe, 60. A minha mãe de criação era muito católica, imagina, eu virei crente, ela ficou muito revoltada na época e ela chegou a me expulsar de casa. Aí eu fui morar com os meus pais biológicos por um tempo, e foi a época que eu comecei a conviver com os meus irmãos. E até hoje, a gente convive bastante. Eu tinha 15 anos, quando eu fui morar com eles. Fiquei só três meses. Na infância era engraçado, porque assim, minha mãe de criação mesmo, ele me criava muito assim, cercada. A minha diversão era colocar as perninhas para de fora da grade da porta da minha casa e todo mundo que passava na rua eu ficava conversando todo mundo ficava chamando, fazendo amizade.

A escola foi a melhor coisa da minha vida, eu sempre fui muito estudiosa, então na terceira série, eu consegui uma bolsa num colégio renomado de Campina Grande, Colégio Alfredo Dantas e lá, eu estudei da terceira série até o terceiro colegial. As amizades que eu fiz lá, até hoje, nós somos amigos, a gente já fez alguns encontros, marcamos e todo mundo foi lá se encontrar, inclusive, semana que vem, eu vou lá. Quando eles vêm aqui para São Paulo, a gente se encontra, quando eu vou lá, a gente se encontra, então é uma amizade que perdurou todos esses anos. Do lado do colégio tinha a praça, a praça da bandeira, então às vezes, a gente saía do colégio e ia para a praça, já fui em estúdios de televisão lá, durante assim, no período de aula. Isso aí é questão da adolescência, se junta todo mundo, vira aquela bagunça, brincar, tudo é motivo de ir. Então, foi um período muito bom à época da escola, deixou boas lembranças.

Eu tinha 17 anos e meu primo de São Paulo foi lá na Paraíba, a gente começou a namorar, ele ficou dois meses de férias, aí nesse último mês que ele ficou lá, a gente começou a namorar e ele voltou e antes dele ir, ele me deixou noiva. Mas eu falei para ele: “Olha, eu vou cursar um ano de faculdade”. Porque ele já era maduro, ele já tinha 26, então ele já pensava em casar, ela já tinha casa, ele já tinha uma vida estabilizada. Então, eu falei: “Eu vou ter que cursar um ano de faculdade, que é quando vai me permitir trancar para poder ir para São Paulo”, que era universidade pública. Mas não foi possível, porque nossa, depois que ele veio, ligação telefônica ficou cara e as cartas, era carta pra lá, carta pra cá, mas a saudades foi aumentando, realmente, foi um percurso não esperado, mas algo que hoje eu não me arrependo nem um pouco, se fosse para fazer, eu faria de novo. Eu até brinco: “Minha vida após os 17”, porque realmente, a minha vida deu uma guinada depois dos meus 17 anos.  Casei com 17 anos, eu vim para São Paulo.

Eu tinha dez anos já no Correios, trabalhava como atendente comercial na agência, Entrei nos Correios no dia do atentado das Torres Gêmeas, em 2001 e acho que tinha uns três ou quatro anos que estava trabalhando nos Correios, quando alguém falou pra mim: “Por quê que você não faz o Enem?”, e eu: “O que é isso?”, foi no segundo ano de Enem “O Correios está fazendo inscrição para o Enem”, eu falei: “Nem conheço”, nem conhecia. Me falaram: “É bom você fazer para você ver como é que você está, não precisa nada”, e na época, eu trabalhava muito, muito, estava assim, assoberbada de trabalho, estava bem complicado para mim, e eu fiz inscrição no ultimo dia, só para ver como é que era. Chegou o dia do Enem, o meu marido falou: “Ah, se eu fosse você nem ia, porque você nem estudou, nem nada”, eu falei: “É, não vou não”, isso era de manhã, a prova era de tarde. Quando foi pela tarde, eu olhei para o meu marido assim, a gente estava almoçando, era meio-dia, acho que a prova começava às duas, eu não me lembro bem, mas eu olhei para ele e falei: “Se você me levar lá, dá tempo de eu chegar ainda para fazer a prova?” “Por quê? Você está com vontade?” “Ah, estou pensando aqui, não paguei nada, não custa nada, só para ver como é que eu estou”, e quando ele foi chegando na escola, era uma contramão, ele falou: “Eu vou te deixar aqui, você vai, que eu vou dar a volta no quarteirão, se você não conseguir entrar, eu já te pego e a gente volta” “Tá bom”, quando ele me deixou, que eu saí correndo que eu cheguei na porta da escola, a mulher me puxou e fechou aporta, eu fui a última que entrei. Aí eu: “Nossa! Eu não sei não, acho que alguma coisa tem para mim”, foi nesse dia que quando eu peguei a prova para fazer, eu lembrava dos professores falando. Eu comecei a rir fazendo a prova, porque eu falava assim: “Gente, eu nunca vi isso”, eu lembrava, parecia um continuado assim, eu lembrava das questões, então assim, meu índice de aprovação foi muito bom. Redação, na época de escola, eu brincava que era zero ou um, que eu era péssima de redação e a redação do meu Enem ficou muito boa, ficou uma nota muito alta e as coisas vinham e eu ia escrevendo, foi bem legal, mesmo. E eu consegui bolsa de estudos, 100% de bolsa e cursei Administração na Unisa. Depois disso, foi promoção nos Correios, fui trabalhar numa célula dedicada a clientes estratégicos, então era o pós-venda só dos grandes clientes da empresa, eu fui viajar para Recife, para Norte e Nordeste, você começa outra vida. E depois, tive a oportunidade de fazer Gestão Pública na Universidade Federal do Paraná e agora eu acabei de participar de um processo lá nos Correios, eu apresentei um projeto em Brasília, e eles gostaram porque é um projeto de viabilidade comercial para empresa, eu tenho que desenvolver, mas assim, na verdade, é algo para trazer para empresa e eles aprovaram e vão poder subsidiar uma bolsa para mim na FGV de MBA. Então assim, são coisas que você olha para trás, fala: “Meu Deus, de onde eu sai e onde eu estou chegando!”, mas assim, sempre eu sei que na minha vida, sempre Deus está na frente.

O André que é o meu mais velho, ele veio numa época muito difícil porque eu estava num processo de adaptação. Eu demorei muito na adaptação em São Paulo. Então, eu estava com depressão e não sabia. Eu emagreci, eu achava que era câncer, eu fiz vários exames para descobrir, porque eu tinha certeza que era câncer, estava isso aqui, magra, cheguei a 47 quilos. E estava feia, muito feia. E uma vez, eu fui na Igreja e veio uma palavra na Igreja muito bonita que falava que tinha alguém ali que o dom da vida ia ser gerado nela e por esse dom da vida ia vir o dom da alegria. E a partir daquela palavra, a partir daquela vida, o dom da alegria, nessa época que eu estava assim, que eu não sabia que era depressão, eu ficava: “Porque é melhor morrer do que viver, porque eu não aguento mais”, as dificuldades eram de adaptação mesmo, imagina, uma menina de 17 anos que não sabia nem cozinhar, casa… se preparou para ir para a faculdade e estava como dona de casa, então foi bem difícil. E o meu esposo, quando eu casei, ele tinha uma condição material e financeira boa e foi também um processo que ele começou a perder tudo. Então, juntou tudo, fez um bolo. E quando veio o meu filho, realmente, aquele dom da alegria, hoje eu falo para você: “Eu quero viver cem anos” e é por isso que eu até me inscrevi aqui nesse projeto, eu quero viver cem anos. Hoje, eu tenho muito prazer de viver, passo isso para os meus filhos, a gravidez dele foi uma gravidez difícil, com dois meses de gravidez, o meu pai de criação morreu, daí eu tive início de aborto, então foi uma gravidez difícil de segurar essa criança e no dia dele nascer, quando o médico falou pra mim: “Sai daqui e vai direto para o Santa Joana que eu já estou indo atrás”, eu fui para o Santa Joana para ganhar neném e o meu médico foi sequestrado logo depois que eu saí, foi amordaçado. Tanto que até hoje ele fala: “Eu odeio lembrar daquele dia”, eu falo: “Não fala isso, foi o dia em que o meu filho nasceu”, e ele chegou no hospital assim, atordoado, eu falei: “Meu filho, vá se cuidar, porque senão tu vai fazer um ziguezague aqui na minha barriga” porque eu já estava em trabalho de parto. Quando o meu filho nasceu, faltou um pouco de oxigênio no nascimento, isso gerou umas consequências que só com dez anos a gente descobriu. Então hoje, eu tenho um filho especial, o meu filho mais velho. Ele tem dislexia, tem déficit de atenção nos estudos e aprendizagem, ele tem perda auditiva, mas ele é a pessoa mais especial que eu conheço. Ele nasceu no dia 27 de novembro de 1998.

Meu marido tem bicicletaria. Tanto que o meu marido, ele pedalava muito, porque ele sempre gostou muito de bicicleta, ia lá de casa para Santos e eu casei com ele, eu ficava: “Vai não, fica comigo. Vai não, fica comigo”, e aí ele foi ficando, foi ficando, ficou enorme, porque na verdade, ele era muito atleta, e eu não sabia que era por isso que ele era magro, eu brinco hoje que a culpa é minha, minha culpa. E até hoje, ele tem bicicletaria. Ele vende bicicleta, conserta, um ótimo mecânico.

Os Correios na minha vida, ele está muito antes disso, porque eu já me comunicava pelo Correios. Quando eu era criança, quando eu era adolescente, eu ia, me cadastrava lá para trocar cartinhas, o Facebook não existia, então era via cartas. Então, a gente ia lá, se cadastrava quem queria se corresponder, então conheci gente de Curitiba, de outros lugares. Então, me correspondia com pessoas. Depois, namorei por carta, quatro meses de namoro por carta e depois, sempre falei que eu queria trabalhar nos Correios, na verdade, não foi os Correios que me escolheu, eu que escolhi os Correios, só que demorou. Eu escolhi, demorou dois anos, mas foi o único concurso que eu fiz, até hoje, quando eu faço concurso, é para o Correios. Eu brinco que eu amo a empresa que eu trabalho, tem gente que se eu falar isso, vai falar: “Nossa, que hipocrisia!”. Não é, porque na verdade, muita coisa da minha vida se passa por aquela empresa, pelo serviço postal. E quando eu entrei no Correios que eu descobri que os Correios não era só serviço postal, que era muito mais do que tudo aquilo, que eu me apaixonei mesmo. É porque hoje em dia, o meu foco hoje é a logística reversa, que está dentro dos Correios também. Logistica reversa é a reintegração dos produtos na cadeia produtiva, por exemplo, você pega uma bateria de celular que vai ser descartada, você retoma ela para produção e recicla, reutiliza e devolve. É um processo todo para evitar a questão ambiental, mesmo, a questão da sustentabilidade, para evitar esse acumulo de lixo, então aquilo que pode ser reaproveitado e reutilizado, ele vai ter esse ciclo de reutilização. E os Correios entram como um braço, porque na verdade, a gente não faz a logística reversa, mas a gente ajuda, nós somos parceiros de empresas que fazem, então a gente recolhe aquele produto. Só que hoje, no Correios é usado bem diferente, muito diferente. Por exemplo, você comprou um produto e-commerce, e você não gostou do produto, você liga para a empresa, a empresa: “Vou mandar o Correios aí buscar”, também é logística reversa, que a gente usa bastante lá.

A proposta que eu fiz, na verdade, foi para quê? Porque até 2020, a gente tem que se adequar a lei dos resíduos sólidos e cada estado, cada cidade tem a sua data. Então, São Paulo, todas as cidades de São Paulo, até 2017, têm que estar adequadas. E é onde vão entrar as empresas que vão fazer essa parte, porque por exemplo, sou uma empresa de telefonia celular, mas a fabricante, obrigatoriamente, eu tenho que recolher aquele descarte. Então, eu vou ter que fazer de tudo para que aquele produto que eu produzi não vá para o lixo, porque hoje tem isso, hoje é jogado de qualquer forma, prejudicando o solo e prejudicando o meio ambiente. Então, a empresa que produz vai ser obrigada a retirar. Como é que ela vai fazer isso? Ela que vai fazer? Não, provavelmente, ela vai conseguir parcerias de empresas que trabalham nesse segmento e os Correios vai estar lá junto.

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