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História

Paixão pelo rap

História de: Ruberval Marcelo da Silva Oliveira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 16/12/2014

Sinopse

Em seu depoimento o rapper e produtor cultural Ruberval fala sobre a origem dos pais, nascidos na Bahia, mas que migraram para São Paulo no início do casamento. Lembra da primeira casa em que moravam, das brincadeiras preferidas e das escolas em que estudou. Recorda o primeiro trabalho como entregador de flores de uma floricultura da região onde moravam. Em seguida, fala sobre o primeiro emprego como office-boy. Conta que na adolescência começa a se interessar por música e junto com amigos começou a se apresentar em lugares públicos. Ele lembra o início, com o grupo O Credo e as apresentações que faziam na boate Cais, na Praça Roosevelt e no Metrô São Bento. Descreve o início do movimento rapper e hip hop em São Paulo: os grupos, as performances e a aceitação do público para este tipo de música.

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História completa

Meu nome é Ruberval Marcelo da Silva Oliveira, nasci dia 6 de janeiro de 1968, em São Paulo, capital. Meus pais são da Bahia: Eutímeo Lopes de Oliveira e Evilásia da Silva Oliveira. São Paulo era o sul maravilha, era o sonho de prosperidade de todo migrante, lógico que essa dinâmica do ter um parente sempre facilita, então já tinha os primos dele aqui. Vieram morar numa pensão na Barra Funda. Meu irmão não tinha nascido, deveria estar na barriga da minha mãe, porque ela tem ele aqui, mas acho que ela já veio grávida, se não me engano. Quando ela veio pra cá, eles foram num bairro, que inclusive também é bem emblemático na história da minha família, todo mundo nasceu e foi criado lá, eu saí de lá com oito, mas meus irmãos saíram já formados já, adultos formados, meus outros irmãos, que era o Real Parque. Eu não sei o que ele fez, não, eu vou perguntar: “Pai, qual foi o seu primeiro trampo?”. Eu sei que no trabalho que ele entrou ele ficou um tempão, depois, ele fez esse monte de trabalhinho. Quando ele vai pro Real Parque, que era depois da Ponte do Morumbi, aquele bairro que está ali, que hoje está super verticalizado, super valorizado, era um bairro operário. E quando ele vai pra ali, ele arruma um trabalho numa fábrica de plástico chamada Balila, que ficava na Avenida Morumbi, ele pegou esse boom da troca do plástico, do flandres, lembra daquelas bacias e baldes de metal? E começou a chegar os de plástico, e faziam filas de árabes comprando aquela coisa, que era pra vender na 25 de Março. Então o meu pai interagiu muito com outras culturas, assim, isso acrescentou muito pra ele, ele aprendeu a falar espanhol sozinho, porque ele atendia um pessoal da Argentina. Ele era encarregado de expedição. Minha mãe chega e vai morar no Real Parque, em várias casas diferentes, até a que a gente foi criado mesmo, que eu tenho como memória eram os quintais. Nasceu o Giba, Gilberto Newton. Depois Silvana Veralice, Eliana Maria, Everlei Niziune, Evirlasio Eutimeo, e eu, Ruberval Marcelo. Eu não sei de onde eles tiraram esses nomes.

A casa era muito do caramba, era o que eles chamavam cômodo e cozinha, no meio de um terreno enorme, tanto pra frente quanto pra trás. Essa casa é o que dizem de mim é que eu sou uma pessoa criativa, eu lembro do quintal dessa casa, que me dava os insights, hoje eu chamo, é lógico, hoje eu sei que chama insight, então que me dava os repentes, eu molequinho, tinha as questões de criatividade, tudo naquele quintal, era um mundo, era louco.  Eu brincava de carrinho, meu irmão era bem mais moleque que eu, eu era um cara mais caseiro, meu irmão jogava gude, meu irmão jogava gude direto, eu não jogava tanto gude, meu irmão, pião, nunca acertei virar pião, meu irmão empinava pipa, nunca empinei pipa, assim, sistemático, a gente chama na gíria de bicar, eu pegava de bicada no dele, mas não ficava naquela nóia. Eu tinha outras, gostava de gibi, de outros bagulhos, eu não gostava de sair, dessa tradicional, eu gostava de cavalinho também, eu brincava diferente, velho, doido eu acho, eu brincava diferente.

Isso é marcante, muito, muito forte, essa coisa da comida, velho, porque ela cozinhava muito, pra família toda, ela é uma referência na cozinha pra família toda, é uma família grande, que abriu, enorme. Então tem o sarapatel da Vivi, tem o Vatapá da Vivi, tem a macarronada da Vivi, que ela aprendeu quando trabalhou em rotisseria, quer dizer, ela já sabia fazer um molho absurdo, eu ficava imaginando que os italianos que iam em casa, os descendentes comiam e falavam: “Mas como que ela consegue”, ficava bom, ficava muito bom. Minha mãe não trabalhou fora até eu ficar grande, quando eu fiquei grande, ela foi trabalhar fora. Meu pai sempre lia as coisas e discutia com a gente política, e ele era Arena, lógico, mas era um cara que falava com muita do Getúlio Vargas: “Não, Getúlio Vargas era, foi demais e tal”. Então a geração do meu pai, a maioria adora o Getúlio Vargas, então ele falava e contava.

Entrei na escola com sete anos. Escola Municipal de Primeiro Grau Alcântara Machado, uma coisa assim. Ficava no Real Parque. Eu ia à pé. Meu pai, ele ajuntou dinheiro pra comprar essa casa, essa que a gente morava, do quintal grande. Fomos pro Aeroporto, Rua Sebastião Paes. Depois eu mudo pro Leonina. Do Aeroporto eu vou pro Brooklin.  No ensino médio essencialmente cabular aula, pra fazer qualquer outra coisa que não fosse estudar, sempre jogar bola. Nessa época que eu conheço o meu parceiro, que vai ser meu parceiro da parte musical, o Cassius Franco. Eu chego na quinta série no Ennio Voss e ele era da classe, e um ano depois chega meu outro irmão, nós nos tornamos, assim, uma irmandade mesmo, a gente frequentava a casa um do outro, tal, e a gente ficava mais na casa do Alemão mesmo.

Comecei a trabalhar com nove, eu entregava flor, perto, já no Brooklin. O primeiro emprego com carteira assinada foi ser office boy de um lugar chamado SBPM, tinha 14, 15. Eu fiquei até os 18, perto de servir o Exército. Eu saio do Ennio Voss, 82, agora já começa a vim datas, 81, 82, eu saio do Ennio Voss e vou pro Caetano de Campos, no centro, porque era perto do trampo. Então lembrança dessa época, acordar muito cedo e pegar o único ônibus possível, porque o resto era impossível, eu peguei a maior bronca de morar longe por causa disso, porque eu vinha pendurado na janela, fora.

Eu era muito caseiro, sempre caseiro, eu começo a sair, começou a faltar uma certa grana, pra você sair você precisava de roupa de sair mesmo e tal, eu tinha roupa pra ir pra coisa, não tinha roupa pra ir pra festa, ficava essa coisa, minha mãe tentava fazer umas coisas, mas precisava comprar pano.  O meu irmão tinha os discos do Thunder Flyer, tal, eu já escutava, isso o Giba, o Vila, que é esse meu irmão, o Euvilasio, esse mais, o apelido dele é Vila, Giba, Vila, ele frequentava os salões, eu nunca fui de frequentar salão, eu era esquisito mesmo. O Vila ia nos salões, os DJs falavam os nomes dos discos e ele, office boy, começou a comprar. Quando eu conheço o Cassius, a gente não sabia que a gente gostava da mesma coisa. Eu levo o disco do meu irmão, que até hoje ele não sabe que foi eu que roubava os discos dele, e emprestava pro Cassius: “Esse é o som que eu gosto, que a gente gosta de ouvir”, e começamos a ouvir música. Ouvia Dilermano Reis, Saraiva, Nelson Gonçalves, Jacó do Bandolim, Waldir Azevedo, Altamiro Carrilho, com meu pai, Vitor Assis Brasil, tal, o Cassius tinha uma formação jazzística, o pai dele era DJ da Opus 2004, na Consolação, Seu Tarcísio. Ele tinha um tio chamado Paulo também, que os dois eram DJs, eram uns bem louco, assim, eu vejo as fotos dele, inclusive ele parece um pouco comigo, o pai do Cassius, e ele era DJ. Então o Cassius tinha acesso, só discão, um monte de jazz, um monte de black music.

A gente começa a compor, a gente, quando montou a banda, O Credo, e o Cassius diz assim: “Eu vou ser DJ e vou fazer os arranjos, você se vira com as letras, você que é aí, metido a ser intelectual, baiano, se vira, você vai lê e eu vou pá”. Então, com 18 anos, ele vai aprender baixo, eu queria aprender percussão, só que pro rap é batida eletrônica, é o começo dessa aparelhagem eletrônico, tanto é que deu o african beat depois, que vai pra África e tal. Mas a gente ouve as coisas, por exemplo, do Kraftwerk e o África Bambaataa e tudo aquilo não é mais bateria acústica, é só eletrônica e tal. A irmã do Cassius fazia História na USP e o Mário, que era um amigo delas que era músico, e o Maurício, hoje ele distribui música, o Maurício, emprestou uma bateria eletrônica primitiva, que tinha assim pá, pum, pá, pum, só, a gente ficava brincando com aquilo e fazendo as letras. O que acontecia na fase de criação do rap naquela época? Ninguém tinha bateria eletrônica, definitivamente, e a gente não tinha formação musical pra saber que aquele beat, aquela batida pra se cantar em cima podia ser feita em acústica, só depois é que a gente foi saber. Então as gravadoras lançavam o que a gente chamava de single, que era a música que ia ser trabalhada no LP, que ia pras rádios e pras casas noturnas, normalmente no outro lado, no lado B do vinil, vinha o que eles chamavam de bônus beat, que era só instrumental e à capela, às vezes, ora instrumental, ora à capela. E saía coisas muito engraçadas, a gente achava esdrúxulo na época e hoje a gente vê que na verdade era do caramba, por exemplo, o N de Naldinho pega o “My DJ innovator”, de um rapper chamado Chubb Rock, e transforma: “lagartixa na parede”, o que tem a ver?

Em 84 a gente já começa a fazer e começa a frequentar o Cais, no centro, na Praça Roosevelt. A gente começa a sacar que é possível e lê o Fernando Pessoa, lê, vê que dá pra cantar. Então no Cais se ajuntavam os rockabilly, os B-boys, os caras do hip hop, punk e os músicos, foi aonde eu conheci o Skowa, aonde eu conheci o Ciro Pessoa, conheci toda essa turma. A gente ia assistir os shows. A gente está com essas batidas primitivas feitas nessa bateria que o Mário nos empresta, e o Maurício, o Maurício Bussab, e no Cais tinha umas escadarias que dava acesso à pista e ao camarim, a gente sentava ali, eu com o meu bongô, nas primeiras aulas de percussão, e ficava ali batendo e cantando, eu e o Cassius, e a escada começou a ficar cheia de gente pra ver a gente cantando enquanto que não tava tocando o que eles, porque, como tinha que atender todo mundo, o rockabilly, o punk, por exemplo, tava tocando rockabilly, os B-boys e os punk saía de lá e às vezes vinha pra escada curtir, ficava em cima bebendo. Então nessa época foi passando um cara que era produtor cultural, que era o Gilson, que o Gilson é que fala assim: “Deixa eu ouvir, vocês vão tocar na Zoster”, 86 isso. A gente foi tocar com o que era underground, então a gente tocou com uma banda psicobilly, chamada Vietniks, eu tenho esse cartaz até hoje, e O Credo. E a gente falou assim: “Mas a gente não, ó como estão essas batidas, não tem qualidade pra apresentar ainda, né?”, essa primeira apresentação, o Cassius pegou e comprou um toca-discos isotech da Gradiente, eu lembro como hoje, porque era melhor coisa que se poderia ter em matéria de toca-discos na época. E o Gilson fala: “Não, deixa que a gente vai, eu resolvo”.O Gilson fala: “Eu vou arrumar um cara pra fazer essa bases pra vocês com a bateria eletrônica certa”, a gente fica na Cristiano Viana com Teodoro Sampaio, tocou, o Akira não tava, tocou, era duas da tarde, o Akira chegou onze e meia, debaixo de chuva.

Primeiro show a gente tocou três músicas só, por questões técnicas intransponíveis, porque, como tudo do rap era novidade, e até hoje tem técnico de som que bate a cabeça pra sonorizar rap, só que tem rap hoje que já tem acústica e tal. Esse primeiro show foi isso, mas a gente se sentiu bem, porque, quando a Nação Zulu vai e a gente, e toma forma, então a gente, O Credo passa a ser da Nação Zulu. Então, assim, Nação Zulu tinha os break dancers, como, voltando na questão do “Beat street”, todo mundo queria ser igual ao filme, então todo mundo queria seu grafiteiro e tal, queria ter o seu grafiteiro e ter o break dancer e ter o DJ e ter o MC.  

A gente, no Cais, a gente é convidado pra ir pra São Bento, a São Bento estava no começo, as equipes estavam tomando corpo. A São Bento surge quando um dos dançarinos que aprendeu o break vai treinar na Tiradentes. Quando a gente começa a cantar e começa a tomar contato, depois do “Beat street” a gente já vai pra São Bento, porque antes é o que eu te falei, a informação vinha atrás de artistas pop etc., que usavam, alguns elementos do break, ora mostrava um grafite, tudo, e aquilo ia chegando fragmentado, depois do “Beat street” organiza isso pra gente, hip hop, quatro elementos e pá. A gente já estava na São Bento, a gente já estava lá, indo, dançando.

O JR, que não podia mais cantar enquanto tinhas as batalhas, ele falou: “Praça não falta”, mas o Jack me lembrou uma coisa muito importante, o Blaw queria ver o hip hop em todas as praças, não só na São Bento, era um visionário. Era um cara muito inteligente, teve músicas gravadas pela Marina Lima, por outros grupos que já tinham projeção na época, que nem uma banda chamada Nômade, que gravou quatro letras, ele fala tudo em quatro letras, o moleque era muito especial, esse Blaw, era amigo, e ele transitava. Isso eu quero, acho que é legal, assim, de começar isso numa narrativa fresca, assim, porque isso era rua, isso era rua, nós todos na São Bento éramos a rua, a gente era. Acontecia sábado de manhã. É por aí, 84, 85. Teve várias idas e vindas, eu não consigo te dizer isso assim de pronto, mas teve várias idas e vindas, eu me afasto em 90 definitivamente da cultura e retomo depois, diante desse cenário. Começou outro espaço que eu fundei, mas não protagonizei, eu deixei lá, eu fui umas três, quatro vezes pra Roosevelt, depois não fui mais, e na Roosevelt cresceu o rap, teve o Sindicato Negro. Fui eu, foi o Brown e vários. Qual que é o problema disso? É que era um monte de neguinho, entendeu, subiu aquela renca pra lá, a gente conhece dos caras mais velhos, eu, o Brown era mais novo, o Brown, o do Racionais, ele era mais novo, o Brown tem 42, a gente está na faixa dos 46, 47 já. Então ele era um dos menininhos que estava com a gente, subindo pra coisa, mas na memória dele ele lembra que ele foi pra Roosevelt com a gente, que ele era, ele cantava rap. Tinha público, era quem gostava de rap, o rap começou.

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