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História

Paixão pelo rádio, paixão pelo Santos

História de: Walter Dias
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 17/12/2013

Sinopse

Walter Dias nos fala das diferenças entre o trabalho dos radialistas dos anos 1960, época em que cobria a mundialmente conhecida equipe do Santos Futebol Clube, e dos profissionais de hoje. Descreve grandes partidas da equipe de Pelé e cia, contando os bastidores das transmissões e o funcionamento do jornalismo esportivo.

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História completa

P/1 – Então boa tarde, senhor Walter.
R – Boa tarde.
P/1 – Queria começar a entrevista com o senhor então dizendo o seu nome completo, local e data de nascimento.
R – Walter Dias nascido em Santos, sete de outubro de 1935.
P/1 – Embora o senhor já tenha dito aqui na ficha, mas a gente retorna, o senhor poderia dizer o nome dos seus pais?
R – João Dias, Rosa Fernandes Dias.
P/1 – E a profissão do seu pai era?
R – O meu pai era padeiro.
P/1 – Poderia contar um pouquinho? Então o senhor foi criado próximo a padaria?
R – Não, acontece o seguinte: eu tive infância, graças a Deus, nós tínhamos uma turma que era uma turma sensacional, jogávamos bola na rua, peão, estilingue, quer dizer, hoje em dia infelizmente a criançada não tem tudo isso que nós tivemos na época passada. Eu fui um moleque, vamos dizer assim, meio atrevido naquilo que eu desejava. A molecada ia jogar pelada, eu pegava um cabo de vassoura  com uma latinha de massa de tomate, eu furava a latinha de massa de tomate, colocava no cabo de vassoura e ia irradiar o jogo da molecada.
P/1 – Ah é?
R – Ah é, ia irradiar o jogo da molecada e a molecada adorava aquilo, me chamava. Eu também batia a minha pelada, mas eu gostava realmente de estar com a latinha na mão, irradiando o jogo da molecada. E quando não tinha o jogo da molecada pra irradiar, eu irradiava em casa, punha a minha avó, a minha mãe, a minha tia, irradiando, brincando na varanda de casa.
P/1 – Isso surgiu porque na casa do senhor tinha rádio e o senhor ouvia jogos?
R – Eu não sei, eu tive essa vocação. Sinceramente eu não sei dizer porquê, eu gostava muito realmente de futebol, via muito futebol, naquela época eu ouvia um grande narrador que o Santos teve, falecido, Ernani Franco, que era uma audiência fantástica em toda a cidade e eu comecei ali. E surgiu um concurso de locutor esportivo na Rádio Cultura, naquela época em São Vicente, eu me escrevi no meio de mais de 200 candidatos, para a minha felicidade eu fui o 1º colocado.
P/1 – O senhor tinha quantos anos?
R – Me aprovaram, eu tinha na época, isso foi em 1954, eu tinha 19 anos, por aí. Me aprovaram, não tive... Me aprovaram, mas eu não tive a chance na Rádio Cultura. Então fui convidado por um amigo meu, hoje seccional de Jundiaí, Doutor Edgar Aparecido Lázaro, pra ir pra Rádio Guarujá. Na Rádio Guarujá eu comecei como escuta, isso na época em 54. Porque logo depois, foi pouco tempo, eu passei pra Rádio Clube. Na Rádio Clube realmente eu comecei a minha carreira. Eu fui escuta, eu fui plantão, eu anotava, dava o recado pro locutor de plantão informar. E de escuta eu passei a plantão, de plantão eu passei a repórter e, em 1963, quando eu saí da Rádio Clube e fui pra Rádio Cacique, eu, então por falta de narradores no Santos, me convidaram pra narrar. Eu aceitei e fui narrador de futebol até 1983. Eu tive duas grandes épocas no rádio eu não posso deixar de mencionar: uma delas foi na Rádio Cacique de 63 a 70 e a outra foi na Rádio Atlântica de 71 a 83. A Rádio Atlântica até então pertencia ao grupo do Jornal “A Tribuna” e tive realmente uma grande época no rádio. Se eu tivesse que voltar a fazer tudo, faria tudo novamente, apesar dos percalços, que você sabe que Santos é uma cidade pequena. O Santos naquela época era não só o embaixador do esporte brasileiro, mas era o dono da cidade e com o time do Santos... Isso nos ajudou muito na carreira dentro do rádio. Não a mim, mas a todos aqueles que trabalhavam no rádio.
P/1 – Senhor Walter, nós vamos voltar então um pouquinho no tempo, o senhor podia descrever... Porque o rádio mudou muito, né?
R – Mudou.
P/1 – Como que era o funcionamento de uma rádio em 1954 quando o senhor começou?
R – Bom, hoje a tecnologia é outra. Nós, dentro do rádio, nós éramos realmente os verdadeiros heróis, porque uma transmissão que nós fazíamos do Rio, ou mesmo a transmissão que nós fazíamos de São Paulo, ou qualquer parte do Brasil, às vezes você chegava no estádio pra transmitir o jogo de futebol e eram só duas linhas, era Telebrás, era Telesp. E às vezes você contava até dez pra poder entrar pra fazer a transmissão. Hoje não, hoje você tem Embratel aí que é uma perfeição, no que diz respeito à comunicação. Você vai pro estádio, tem quatro fios, tem a transmissão e tem o retorno. Naquela época não tinha nada disso. E às vezes a gente acompanhava o Santos no Campeonato Brasileiro, ou mesmo em algumas excursões, e só viajava o narrador.
P/1 – Só o narrador?
R – Só o narrador. O narrador ligava a aparelhagem, o narrador transmitia o jogo e pegava uma pessoa ligada à outra rádio, ao estádio que nós íamos, pra no intervalo do jogo fazer um comentariozinho enquanto o locutor descansava a garganta.
P/1 – Nossa! Era puxado.
R – Era puxado. Hoje não! Hoje você tem uma transmissão pra fazer em qualquer lugar do Brasil, hoje vai narrador, comentarista, repórter, operador, vai tudo isso, entende?
P/1 – Então tinha que conhecer um pouco de eletrônica, de equipamento.
R – Tinha que conhecer tudo, tudo e, graças a Deus, eu sabia de tudo isso. Modéstia à parte não eu, mas todos aqueles que viveram a época sabiam tudo isso. Porque não havia possibilidades da rádio arcar com tantas despesas de mandar tanta gente. Então ia apenas uma pessoa, nós pegávamos uma pessoa do local pra nos ajudar a fazer o comentário no intervalo do jogo pra que pudéssemos descansar um pouco. Mas foi uma aventura mesmo. Hoje não, hoje às vezes eu comento com meus amigos: “É, vocês precisavam enfrentar a época”; “É, mais naquela época tinha Pelé, tinha o Santos!” Tudo bem. Tinha Pelé e tinha o Santos, mas a verdade é que o Santos, com tudo aquilo que tinha, o Santos não dava cobertura nenhuma pra rádio. A rádio tinha que viajar por conta própria e acabou.
P/1 – Então, por exemplo, agora aqui na Vila Belmiro nos anos 50 como que se estruturava uma transmissão de um jogo? Aí a equipe era maior um pouquinho, né?
R – Hoje?
P/1 – Não, naquela época, nos anos 50.
R – Ah, no local sim. No local nós tínhamos narrador, comentarista, repórter e operador. Transmissão local até São Paulo, sim, depois de São Paulo, não. Até São Paulo ainda ia todo o pessoal. Mas uma viagem, por exemplo, pro Rio, uma viagem pra Brasília, pra Belém, pra Manaus, pra qualquer parte do Brasil ia um só. Íamos às vezes, íamos no dia do jogo, transmitia e voltava em seguida.
P/1 – Pra não pagar hotel?
R – Não, pra economizar. A verdade é essa: pra economizar. Uma vez eu fui transmitir um jogo em Manaus, deu problema no avião, tinha que sair dez horas, saí meio dia. Eu cheguei no estádio os dois times estavam entrando em campo.
P/1 – E aí?
R – É que eu tive uma sorte danada, que quando eu cheguei no estádio e liguei o meu aparelhinho: “Alô, Santos!”; “Fala Walter!”. E se desse o problema e não conseguisse falar? Hoje em dia está tudo muito avançado porque você chega em qualquer lugar, você chama, você pega, fala na hora e tudo isso. Aquele tempo não falava na hora não, era jogo duro.
P/1 – Eram tempos aí heróicos, né?
R – Heróicos. Mas compensou tudo isso, viu! Eu não vou dizer que não compensou. Compensou pelo extraordinário time que o Santos tinha, pela projeção que o Santos dava não só pra cidade, mas todos aqueles que trabalhavam na crônica eram favorecidos pela campanha do Santos. Eu acho que não é saudosismo, não é nada, mas eu acho que não volta mais.
P/1 – Ah, é difícil.
R – É difícil.
P/1 – Mas então antes do senhor ser narrador, o senhor foi repórter de campo?
R – Fui.
P/1 – Parece que tinha uma aparelhagem diferente, microfones grandes...
R – É, microfones grandes, estica fio, porque não tinha microfone volante. Hoje em dia tem microfone sem fio, não tinha nada disso. Às vezes você esticava um fio da cabine pra dentro do campo.
P/1 – E podia passar por dentro do campo lá?
R – Ah não, lógico.
P/1 – Havia essa restrição, contra isso?
R – Você passava por cima da... Você passava, você puxava da cabine e amarrava no alambrado. É, nem caixinha de linha tinha dentro do campo. Eu passei por tudo isso. Quando a gente conta essas façanhas, muita gente não acredita, mas é a pura realidade. Eu acho gostoso até a gente falar a respeito disso porque relembra um tempo que a gente dava duro, a gente dava duro.
P/1 – Porque quem não conhece, hoje, vê isso tudo, como que a técnica é hoje, acha que sempre foi assim.
R – Não, não foi assim.
P/1 – Ignora a grande luta.
R – Hoje é tudo mais fácil, hoje é tudo mais fácil. Hoje o narrador... Tinha transmissão de futebol que nós começávamos a transmissão três horas da tarde e eu falava até sete horas da noite de improviso. Eu abria a irradiação, movimentava os repórteres, chamava a propaganda, eu falava tudo isso. Você vai falar: “Mas como?” De três da tarde às sete da noite, sim senhor! De três da tarde às sete da noite.
P/1 – Mas tem, assim, algum macete pra voz, tem que tomar alguma coisa, fazer gargarejo?
R – Eu não tomava nada, não. Eu não tomava nada. Eu sempre abusei muito de gelado. Graças a Deus nunca me deu muita complicação na carreira, durante o tempo todo que eu estive dentro do rádio. Só me aconteceu um problema em 1983, que eu era um cara que fumava. Eu estava transmitindo o jogo e com o cigarrinho aceso. Quando o repórter entrava pra falar no campo eu tragava. Isso aí realmente me prejudicou. Em 1983 eu tive que fazer uma operação de fundo de nariz e a operação foi tudo muito bem, tudo isso, mas só que eu não tive mais condições de pegar um microfone três horas da tarde e ir até sete horas da noite. E nem de narrar, porque narrava um tempo, mas no 2º tempo eu já sentia que não tinha condições de narrar, não pelo cansaço físico, mas por ter me prejudicado o cigarro. Por isso é bom ninguém fumar.(riso)
P/1 – E vamos falar um pouquinho assim da narração, que dentro do radialismo  a coisa mais difícil que existe é você chegar a narrador. É uma técnica, uma habilidade muito especial, né?
R – Não desmerecendo, qualquer outra função dentro do rádio e não porque eu fui narrador de futebol, mas eu acho, é minha opinião, eu acho que a coisa mais perfeita que existe dentro do rádio e que merece os maiores elogios é o narrador de futebol. Porque o narrador de futebol, nem todos são grandes narradores de futebol, existem os grandes narradores, existem os médios narradores e existem aqueles que tentam mas não conseguem. Então eu acho que a grande profissão do jornalismo esportivo é realmente o narrador de futebol. Ele tem que improvisar o tempo todo, ele tem que evitar de repetir frases, ele tem que dar vibração ao jogo, à narração. Mesmo que ele pegue um jogo galinha morta, ele vai ter que dar uma vibração na irradiação, porque se não alguém desliga o rádio. Eu acho que o narrador de futebol, na minha opinião, é o maior que tem dentro do rádio. Não querendo desmerecer, volto a repetir, qualquer categoria.
P/1 – Pra ser um bom narrador, quais são as qualidades, então, que tem que ter? Improvisação...
R – Tem que ter improvisação, tem que ter dicção, tem que conhecer, tem que ter facilidade, porque o narrador de futebol não pode narrar um jogo de futebol olhando pra escalação que ele tem ali.
P/1 – Tem que ser mais em televisão, né?
R - Televisão é muito mais fácil narrar futebol do que o rádio. Eu, graças a Deus, sempre tive essa facilidade, porque eu pegava a escalação antes do jogo, dos dois times, eu marcava muito a posição do jogador dentro do campo. Eu não vou dizer que nunca errei, às vezes a gente troca o nome do jogador, mas você troca o nome do jogador e você não pode voltar. Por exemplo, você fala o nome do jogador. Não é? Aquele é outro? Depois: “Ah, não é aquele. É fulano.” Você não pode. Então você tem que levar o negócio pra frente. Eu acho que acima de tudo tem que ter voz, tem que ter dicção, tem que ter conhecimento e acima de tudo amor à profissão, força de vontade. Tudo isso unido dá um grande narrador de futebol.
P/1 – E o senhor... Todo locutor ele tem as suas marcas registradas, com seus bordões, frases específicas, expressões criadas. O senhor podia falar um pouquinho das coisas que o senhor cunhou, que o senhor criou?
R - Eu criei muito, eu gostava de criar. Hoje já não se cria, se copia, né? Mas eu criei muito. Eu, por exemplo, irradiando um futebol, quando saía um gol: “Pegue a bola e mostre pra torcida!” Era uma frase que eu usava: “Não tem conversa! Bola no meio de campo.” Outra frase. Eu chamava muito a torcida, como a gente tinha muita audiência dentro do estádio, eu chamava muito a torcida pra transmissão, né? Pra apoiar o clube, tudo isso. “Acerte o seu pelo nosso!” Eu tinha essa frase, que era acertar o tempo de jogo: “Acerte o seu pelo nosso!”. Eu tinha: “Gente que gosta da gente”, eu usava muito essa frase. Por exemplo, eu mandava um alô pra você, pra outros amigos: “Gente que gosta da gente, que ouve a Atlântica e lê o Jornal ‘A Tribuna’”, porque a rádio era do jornal, então eu tinha essa frase também. Eu gostava muito de bolar frase, porque a frase você dá um outro sentido a sua transmissão, dá um colorido todo especial. Entrava uma moça e perguntava: “Walter Dias, que horas são?” durante o jogo, porque o ouvinte quer saber de tudo, o ouvinte quer saber de hora, o ouvinte quer saber de tempo de jogo, o ouvinte quer saber de tudo. Então entrava uma moça na transmissão, quer dizer, não toda hora. O 1º tempo entrava umas três vezes. Eu combinava com o operador de estúdio na central, então colocava a fitinha cassete lá e a moça perguntava: “Walter Dias, que horas são?” e eu falava, tal, dava a hora, tudo isso. E as vinhetinhas que nós usávamos durante a transmissão, porque as vinhetinhas sempre ilustram a transmissão. Quer dizer, vinhetas de mais incomodam, mas vinhetinhas sempre é bom. Eu gostei sempre de bolar frases, sempre gostei.
P/1 – Agora em relação então aos jogos do Santos, o senhor começou a ver jogo em estádio com que idade?
R – Ah, eu comecei ver jogo em estádio mais ou menos com uns, acho que com uns 12, 13 anos, viu? Eu vinha pra Vila Belmiro aqui, ficava aí atrás do gol do fundo, tinha aí uma torcida que chamava a torcida da Coréia, que bagunçava, vaiava os jogadores do Santos, mexia com os jogadores do Santos, mas no fim do jogo eram todos amigos. Então eu comecei com essa idade. Eu, graças a Deus, eu agradeço a Deus por ter me dado o privilégio de ter visto o maior time de futebol de todos os tempos. Eu gostaria que o meu filho tivesse visto o que eu vi: Pelé, Carlos Alberto, Gilmar, Zito, Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pagão, Pepe, Vasconcelos, Calvet, Rildo, uma infinidade de jogadores que enriqueceram não só o elenco do Santos, mas que projetaram o nome da cidade. Por isso eu faço esse agradecimento, porque nem todos tiveram esse privilégio. Eu acompanhei muito o Santos, poucas vezes em excursões. Eu só tive uma vez uma excursão no Chile onde o Santos disputou um hexagonal em 1965, que eu vi o maior jogo da minha vida, jamais eu vou esquecer.
P/1 – Conte um pouquinho então desse jogo?
R – Esse jogo foi Santos e Seleção da Tchecoslováquia. A Tchecoslováquia havia sido Vice Campeã do Mundo em 1962, que o Brasil foi campeão no Chile. A Tchecoslováquia foi Vice Campeã. E nesse jogo você não vai nem acreditar no que eu vou te falar: o placar do jogo foi seis a cinco.
P/1 – Seis a cinco?
R – Seis a cinco. Eu gritei onze gols. Eu gritei onze gols! Eu até me emociono quando eu falo nesse jogo, porque foi um jogo que me marcou, um jogo que jamais eu vou esquecer, eu tenho a gravação do jogo.
P/1 – Ah, o senhor tem?
R – Dos gols, eu tenho a gravação dos gols. Nem todos os gols, porque naquela época nós tínhamos dificuldade até em gravar futebol, que eram fita de rolo e você sabe que fita de rolo, devido ao tempo, você vai usar ela pega e quebra. Mas eu passei num acetato. Se lembra de acetato? Acetato. Hoje é CD, eu passei num acetato os gols daquele jogo. Então foi um jogo que me marcou e que eu jamais vou esquecer, porque foi um jogo que sacudiu 80 mil pessoas no estádio.
P/1 – Foi a final do torneio?
R – Não foi a final do torneio. A final do torneio foi Santos e Universidade do Chile, que o Santos ganhou de 3 a 1, que muita gente falou que o Pelé tentou, o Pelé tentou no jogo da Copa do Mundo fazer um gol do meio de campo. E nesse jogo o Pelé também tentou fazer um gol do meio de campo. Não foi a primeira vez na Copa do Mundo, já havia sido antes que o Pelé havia feito isso, então...
P/1 – Então conta mais um pouquinho aí desse jogo pra Seleção. Como é que foi a movimentação do placar, como o Santos jogou?
R – O Santos tinha o Gilmar no gol, tinha Ismael, eu lembro de alguns jogadores. Tinha o Pelé, Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé, Pepe, Zito, Calvet. A zaga não me recordo muito bem.
P/1 – Então era um grande ataque.
R – Eu só tenho escalações, um grande ataque. Você sabe qual foi o maior jogador do Santos quando do início da carreira do Pelé? O maior jogador do Santos no início da carreira do Pelé chamava-se Paulo César de Araújo – Pagão. Esse ajudou muito o Pelé nos gols.
P/1 – O Pelé aprendeu muito com o Pagão, né?
R – O Pagão foi fenomenal, fenomenal. É que o Pagão infelizmente era um jogador que se machucava muito. Eu vi Pagão jogar, Pagão realmente foi um dos grandes jogadores que eu vi e depois o Santos teve Coutinho também. O Santos teve um timaço, né?
P/1 – Existia uma lenda que o Pagão se machucou batendo num microfone de um repórter de campo, que ele bateu o joelho.
R – Eu acho que o microfone não machuca tanto o joelho, né? O Pagão nós chamávamos ele de craque bibelô. (risos) É, porque o bibelô você sabe que uma pancadinha já... Então nós chamávamos o craque bibelô. Mas o Pagão teve uma época fantástica, o Pagão jogou na Portuguesa Santista, o Pagão veio pro Santos, foi pro São Paulo. Me lembro que um jogo no Pacaembu, o São Paulo ganhou do Santos de 4 a 1 e o Santos fugiu do campo, abandonou o campo. E o Pagão era o centro-avante do São Paulo.
P/1 – É assim que os jogadores começaram a cair, né?
R – É. Foi no Pacaembu esse jogo: 4 a 1. Armando Marques expulsou o Pelé e o Pagão era o centro-avante do São Paulo. Agora não tem comparação. O Santos mandou no futebol brasileiro e era um dos grandes clubes do futebol mundial na época de 55. Cinquenta e quatro não, porque o Corinthians foi campeão do centenário. Cinquenta e cinco porque o Santos foi campeão depois de 20 anos, porque havia conquistado o título de 35 em cima do Corinthians. Em 55 o Santos foi campeão em cima do último jogo, que foi com o Taubaté aqui na Vila Belmiro. Aí de 55 até 72, quando o Pelé encerrou a carreira dele no Santos, o Santos mandou no futebol. Nenhum clube do futebol brasileiro teve tantos títulos do que o Santos, títulos internacionais. Pode ter títulos paulistas, mas títulos internacionais o Santos conquistou tudo. O Santos fez parar uma guerra, o Santos fez tudo. Tudo o que Santos tinha que fazer o Santos fez na época dele. A gente torce para que o Santos monte um grande time e que o Santos seja não tão grande como naquela época, que não vai ser, tenho certeza absoluta, mas que o Santos merece todo o respeito.
P/1 – Quer dizer, não foi só o Pelé que proporcionou ao Santos esse grande time. Como é que o senhor explica a formação desse time do Santos, que começa, então, mais atrás, com a vinda do Zito?
R – O Santos teve muitos dirigentes que eu acho que merecem ser citados: Athiê Jorge Cury foi um grande presidente que o Santos teve, Modesto Roma foi um grande baluarte, deu tudo, deu a sua vida pelo Santos. O Santos teve Nicolau Moran que era Vice Presidente dos Esportes. O Santos teve um grande treinador, Lula. Muita gente desmerece dizendo que o Lula jogava a camisa pra cima, cada um pegava uma camisa e entrava no campo, mas o Lula era um amigo dos jogadores. E eles confundem amizade com baderna, que eu não concordo. Que eu acompanhei e vi. Pois alguns têm até a petulância de dizer que sumiu uma mala de dinheiro através de uma janela de avião. Isso aí é um absurdo.
P/1 – Como que é? Uma janela de avião?
R – Você não ouviu isso? Aliás, isso é piada. Você não ouviu essa piada?
P/1 – Não.
R – Então, o administrador do Santos era o senhor Ciro Costa e uma vez desapareceu um dinheiro do Santos numa viagem internacional. Então a turma conta a piada até hoje que a mala saiu pela janela do avião, jogaram a mala pela janela do avião. Então são coisas que a gente fica chateado, porque querem denegrir não só a imagem do Santos, como uma imagem de um funcionário do Santos. É que às vezes comentam também: “Pô, mas o Santos podia ter um estádio pra 50, 80 mil pessoas. O Santos ganhou muito dinheiro na época do grande Santos Futebol Clube!” Eu não concordo com isso. Porque se o Santos ganhou muito dinheiro, o elenco de profissionais que o Santos tinha levava dinheiro do Santos. Então pra você manter um elenco de profissionais daquele quilate que o Santos tinha, você tinha que pagar. O Santos ia excursionar por 30 mil dólares, o Pelé tinha um contrato com o Santos que uma parte era do Pelé, a outra era do Santos. Aliás, não estou criticando isso a respeito do Pelé, porque ele merecia.
P/1 – Era a estrela, né?
R – É ele merecia, ele merecia. Eu também nunca tive acesso a nenhum contrato, mas eu ouvi de dirigente do Santos que o Santos ia jogar, por exemplo, por 30 mil dólares e o Pelé levava 15 mil e os 15 mil restantes... O que é que eles queriam? O Gilmar não ganhava bem? O Carlos Alberto não ganhava bem? O Rildo, o Zito e as peças que o Santos tinha no seu time, todos ganhavam bem. Então pra você pagar bem, você tem que manter um time que vai te dar títulos. E o Santos realmente... Se o Santos gastou muito dinheiro o Santos trouxe muitos títulos pra cidade, sem ajuda do poder público. O poder público aqui nunca ajudou nada. Aliás o Santos é conhecido hoje no mundo inteiro, é bom que se diga, por causa do time de futebol que ele teve, por causa dos diretores que trabalharam por ele. O Santos fez tudo isso pela cidade e a cidade tem que agradecer eternamente ao Santos. Ao Santos, não aos políticos, porque os políticos nada fizeram, absolutamente nada. Aliás, eu tenho uma palavra sobre os políticos, que os políticos gostam de enganar o povo. Agora do Santos ninguém tira isso. O Santos honrou, dignificou o nome do futebol brasileiro, fez a cidade de Santos ser conhecida no Mundo inteiro. O Santos, não por político nenhum desta terra.
P/1 – Então, voltando esse surgimento do time do Santos, o senhor já estava trabalhando?
R – Ah, já.
P/1 – Quando o Santos foi Bi Campeão?
R – Ah já, Bi Campeão Mundial.
P/1 – Não, Bi Campeão Paulista 55, 56?
R – Ah, 55, 56.
P/1 – O senhor já...
R – Porque o Pelé começou a surgir em 56, né? O Santos foi campeão paulista em 55 sem o Pelé. O Pelé começou a surgir em 56, trazido pelo Waldemar de Brito. O Pelé começou a surgir em 56. E o Pelé a gente tem que mencionar aqui, o fato do Pelé só ter defendido na sua carreira todinha o Santos. Ele jogou pelo Vasco, ele jogou uma partida pelo Vasco e defendida a Seleção Brasileira e depois despediu-se lá no Cosmos, mas o Pelé enquanto esteve no Brasil sempre jogou no Santos, sempre foi Santos.
P/1 – Mas existia muita pressão dos clubes pra contratar o Pelé?
R – Não havia muita pressão. Hoje, na época atual, o Pelé não ficava um ano no Santos.
P/1 – Hoje é mais difícil, né?
R – Se o Ronaldinho vale 30 milhões de dólares, quanto que o Pelé não valeria hoje? Eu acho que não tinha clube nenhum do Mundo que pudesse comprar o passe do Pelé hoje.
P/1 – Mas eles tentavam e o Santos botava um valor muito alto e eles desistiam?
R – Não, não. O Santos nunca teve pretensão em vender o Pelé. O Santos teve algumas ofertas, não me lembro quantas, mas o Santos nunca teve interesse em vender o Pelé. Nunca teve o interesse de vender o Pelé porque o Santos excursionava por causa de quem? Por causa do Pelé e de outros jogadores que ajudavam o time, né? Mas não teve. Hoje não tinha clube nenhum no Mundo, hoje não tem clube nenhum no Mundo, se o Pelé estivesse jogando, pra comprar o passe do Pelé. A não ser que vendesse à Itália, vendesse à Espanha, porque hoje não teria, nenhum clube teria condições. E também, veja bem, na época atual... Porque nós vivemos uma outra época, certo? Nós vivemos tudo, hoje modernizou-se tudo, então eu também não sei se o Santos teria condições de mante-lo.
P/1 – O senhor mencionou uma partida que o Pelé jogou pelo Vasco.
R – O Pelé jogou com a camisa do Vasco.
P/1 – O senhor poderia...
R – Eu não lembro. Não lembro. Só lembro... Eu lembro que o Pelé jogou com a camisa do Vasco, o Pelé jogou uma partida com a camisa do Vasco. Seleção Brasileira, Santos, eu acho que o Palmeiras, depois que o Pelé veio aqui pro Santos deve... Porque o Pelé esteve no Parque Antártica também, né!
P/1 – Ah, o Waldemar de Brito não trouxe ele direto pro Santos, né?
R – Não, ele esteve no Parque Antártica, depois o Waldemar de Brito trouxe ele pro Santos.
P/1 – Ah, que interessante. Ele esteve lá?
R – Teve lá, mas ficou pouco tempo também. Esse negócio pra fazer teste, né? Parece pra fazer teste e tudo isso. (riso) Tem certas coisas que a gente não esquece.
P/1 – E o senhor que esteve esses anos todos em campo, o senhor podia contar aí algumas façanhas do Pelé, gols antológicos que o senhor viu?
R – Ah, o Pelé fez muitos gols lindos. Você pega, você tem que raciocinar um pouco quais os gols mais bonitos. O Pelé fez um gol contra o Juventus maravilhoso, na Rua Javari, num jogo do Campeonato Paulista. Ele chapelou a zaga do Juventus todinha.
P/1 – Sem deixar a bola cair no chão.
R – Ah, um espetáculo! Esse é um dos gols. Pelé fez tantos e tantos gols, ainda você vê de vez em quando na televisão aí, preto e branco. Você já viu se há anos atrás nós tivéssemos a televisão colorida? Essa badalação que existe hoje. Porque hoje a imprensa também é culpada disso. Hoje, para a imprensa, qualquer jogador é craque. Eu não sei o que eles querem dizer que é craque.
P/1 – Até o Dinei virou craque.
R – Eles querem dizer que todos os jogadores... Hoje qualquer um é craque. Então, naquela época, o Santos tinha 20 craques. Era o elenco de profissionais e não tinha 20 craques. Era... O elenco de profissionais do Santos era 20, 22, por aí, e nem todos eram craques. A defesa do Santos tomava quatro gols, o ataque ia lá fazia cinco, seis, porque a defesa do Santos não era muito boa não, viu? A defesa do Santos tomava três, quatro gols, o ataque ia lá, fazia cinco, seis. Então ninguém se incomodava com aquilo lá. De repente toma três, quatro, o ataque vai lá faz cinco, seis. O Santos meteu 11 gols aqui no Botafogo de Ribeirão Preto. O Pelé estava com o diabo aquele dia, pô! Quer dizer, é uma coisa... Porque às vezes falam pra mim: “É, você fala muito do Pelé, elogia muito o Pelé como jogador! É que você não viu Biristen (?) jogar, você não viu o Tim jogar.” Realmente eu não vi Biristen (?), não vi Tim nem nada. Falam muitas coisas a respeito do Biristen (?), do Tim e de outros jogadores, mas eu realmente não vi. Mas eu tenho orgulho de dizer que eu vi Pelé e vi o grande time do Santos.
P/1 – O senhor acompanhou as campanhas da Libertadores da América e do Mundial?
R – De perto não, de perto não. Porque, veja bem, o rádio de Santos não tinha condições financeiras de acompanhar Libertadores, de acompanhar o Mundial. Aliás, teve o 1º Mundial que o Santos decidiu com o Benfica, a Rádio Atlântica esteve lá. O Santos ganhou de 5 a 2.
P/1 – No Maracanã?
R – Não, no estádio da Luz, lá em Lisboa. A Rádio Atlântica esteve lá fazendo essa transmissão, com dificuldade, mas esteve lá transmitindo esse jogo. O Maracanã não, o Maracanã a gente ia. Outra odisséia que eu tive na minha carreira foi acompanhar até chegar o milésimo gol do Pelé. O Santos onde ia, a gente tinha que ir: “Pô! Chegou 999, e agora? E custou pra sair o milésimo gol viu.
P/1 – É mesmo?
R – Ah, custou.
P/1 – Mas desde que gol, qual o número na contagem que vocês estavam esperando já? Que a equipe já estava de prontidão?
R – Não, veja bem, quando chegou nos 999 gols, faltava um gol pro milésimo. Às vezes a Rádio não podia ir, tinha que ir, pra ver se saía o milésimo gol. E nós esperamos tanto, mas tanto, tanto aquela emoção. Eu também tenho a gravação do milésimo gol do Pelé, que eu trabalhava na Rádio Cacique. Eu tenho a gravação do milésimo. Algumas coisas a gente guarda, outras conforme eu já te disse, fita de rolo. Hoje se eu mexer numa fita de rolo lá e fizer, puxar a fita, a fita parte de tão velha que está. Hoje nós temos o cassete que dura muito mais tempo. Mas o milésimo gol do Pelé deu uma dor de cabeça danada e foi feito de uma forma que ninguém queria.
P/1 – De pênalti?
R – De pênalti. Num pênalti até certo ponto discutível e quase que o goleiro pegou. Quase que o Andrada pegou o pênalti do Pelé, porque o Pelé bateu no canto esquerdo e ele foi no canto esquerdo, se lamentou muito. Mas nós queríamos que o Pelé fizesse o milésimo gol naqueles dribles desconcertantes, numa jogada bonita, tudo isso. Aconteceu o milésimo gol no pênalti. Ainda bem que foi perto viu, foi no Rio que dava pra gente ir. Se fosse em outro lugar não tinha milésimo gol de Pelé coisa nenhuma. Então Pelé realmente foi o maior jogador que eu vi e que muita gente viu. Quanto a isso a gente não tem dúvida nenhuma. Nós tivemos grandes craques do futebol brasileiro, grandes craques no Santos, mas igual ao Pelé, jamais.
P/1 – Então o senhor tem uma série de locuções que o senhor guardou, de locuções históricas de jogos que o senhor narrou?
R – Eu tenho, porque nós não podíamos... Veja bem, nós guardávamos os principais lances que eram os lances de gol. Porque nós montávamos uma transmissão. Por exemplo, hoje, no dia seguinte de manhã, o operador montava pra apresentar os gols no programa de esportes. Mas devido às dificuldades que eu já te falei, dificuldades técnicas, muitas vezes a gravação não saía com perfeição, que eu peguei uma época também que já atingia, já estava o país, no que se diz respeito a telecomunicações, já estava se modernizando. Então eu peguei uma época já modernizando. Uma época ruim, difícil, mas eu peguei uma época boa. Hoje já está muito melhor até. Porque a evolução do tempo faz com que a telecomunicação... Eu fui irradiar o jogo na Argentina, eu tive dificuldade de irradiar um jogo na Argentina. Você hoje vai irradiar um jogo em Manaus que é longe, você chega no estádio com um trabalho com a Embratel, você fala como se eu estivesse conversando com você. E hoje o Brasil tem, na América do Sul, um dos mais perfeitos serviços em telecomunicação. Talvez seja até um dos melhores do Mundo, devido sempre à evolução no nosso sistema.
P/1 – Agora, essa evolução que o senhor se refere, o ponto positivo seria o avanço tecnológico?
R – Tecnológico.
P/2 – Teve alguma coisa de ruim que ela trouxe?
R – Como?
P/2 – Assim, do ponto de vista do trabalho mesmo dos radialistas?
R – Não.
P/2 – Toda essa evolução...
R – Há anos atrás as dificuldades eram imensas.
P/2 – Sim e hoje?
R – Hoje não. Hoje dificilmente você chega num lugar pra transmitir jogo e você não fala na hora com a tua rádio.
P/2 – E a qualidade dos locutores de hoje e de antes?
R – Ah, mas nós tivemos grandes locutores antes. Nós temos grandes locutores hoje, mas nós tivemos grandes locutores antes, eu acho. Eu acho, se você pegar hoje uma pessoa que trabalha em rádio, a pessoa não conheceu o rádio do passado, vai dizer que o rádio do presente é o maior. Agora, pra quem conheceu o rádio há uns anos atrás e quem conhece o rádio hoje, eu vou dizer que o rádio de uns anos atrás, não problema técnico, mas o rádio de anos atrás era muito melhor do que o rádio de hoje. Nós tivemos Edson Leite, Geraldo José de Almeida, tivemos grandes narradores no rádio, Pedro Luís. Nós tínhamos um grupo de artistas de narração de futebol muito grande, de repórter também, comentarista, tudo isso. Eu acho que o rádio hoje ele não tem, assim, renovação. Principalmente... Não digo o rádio de São Paulo, porque São Paulo é outro mercado, outro campo, mas o rádio de Santos não tem renovação nenhuma. Eu nem sei se hoje esse pessoal que está trabalhando no rádio daqui alguns anos vai parar. Eu não sei se os que assumirem os lugares vão ser tão bons como os atuais, porque não há muita evolução. Infelizmente a cidade não tem indústria, a cidade luta com dificuldade pra patrocínio de jornada esportiva, de programa de esporte, tudo isso. Mas eu acho que o rádio de anos atrás, o rádio foi realmente... Nós tínhamos rádio-teatro, o rádio pintava e bordava.
P/1 – O senhor chegou a fazer rádio-teatro?
R – Uma vez eu fiz um, às vezes eu pegava umas boquinhas lá de contra regra.
P/1 – Ah, é? Que interessante.
R – É, contra regra, passos.
P/1 – Como é que o senhor fazia?
R – Você fazia. Você faz o contra regra, faz os passos, uma batida na porta, eu peguei essas boquinhas todas. Eu estava lá enfiado lá dentro, eu queria aprender tudo.
P/1 – Mas isso com poucos elementos, né?
R – Do quê?
P/1 – Do contra regra, utilizava poucos elementos pra fazer essa infinidade de sons?
R – O rádio-teatro aqui de Santos foi um rádio-teatro muito bom, foi mesmo. Tinha grandes artistas no rádio-teatro. Eu pegava uma boquinha de contra regra. Nós tivemos aqui nos anos 60 uma central da TV Globo. Hoje nós temos aí TV Tribuna com TV Globo, TV Manchete com TV Mar, mas nós tínhamos uma central da TV Globo aqui e eu cheguei a pegar, eu fazia uma boquinha também na televisão. Então os caras que trabalhavam em rádio naquela época eram pau pra toda a obra. O narrador narrava, o narrador comentava e, se precisasse de repórter, saía de lá e ia fazer a reportagem. Quer dizer, não tudo no mesmo dia. Mas, por exemplo, o repórter não veio, põem outro narrador, vai o narrador pra fazer repórter. A gente pulava. Hoje em dia não tem nada disso.
P/2 – O senhor diria que atualmente a relação mais profissional, assim, do ponto de vista... O senhor estava dizendo que antigamente o radialista era pau pra toda obra. Hoje é uma coisa, há um maior profissionalismo no rádio do que antes?
R – Há. Hoje o narrador chega na hora do jogo pra transmitir. Eu quero ver o narrador pegar o microfone hoje e ficar falando de três da tarde às sete da noite. Hoje existe muito mais folga do narrador, porque hoje tu tem dois repórteres dentro do campo, um faz um vestiário, outro faz outro vestiário, você tem o comentarista, você tem aquele que analisa a arbitragem, você tem o plantão. Às vezes você tem vários postes de transmissão. Quer dizer, você não se cansa tanto.
P/2 – O senhor que tem...
R – Só que naquela época, aqueles que trabalhavam no rádio tinham muito mais amor pelo rádio, fazia aquilo com vontade, com dedicação.
P/2 – É, um gancho que eu ia fazer é justamente isso. O senhor tem uma experiência de 30 anos, de rádio?
R – Trinta e oito.
P/2 – Quando é que acontece esse movimento de um maior profissionalismo? Década de 70, década de 60?
R – Ah, bem antes. Década de 50, por aí. Foi bem antes. O rádio começou a mudar a característica dele depois que começou a perder os grandes elementos que o rádio tinha.
P/2 – Tais como?
R – Muita gente já se foi, então começou uma nova era dentro do rádio.
P/2 – E essa nova era dentro do rádio, com o maior profissionalismo, é paralela a um maior profissionalismo que vem existindo a partir da década 70 no futebol?
R – Ah, mais... Maior profissionalismo. Hoje é maior profissionalismo. Maior dedicação é naquela época.
P/2 – No futebol nós poderíamos dizer também?
R – A mesma coisa. É aquilo que eu falei: hoje qualquer um é craque e naquele tempo... Eu não gosto de falar muito de épocas vividas, estou falando isso aqui pra vocês porque vocês me pediram pra falar. Porque se não a gente começa a conversar: “Ah, olha lá, saudosista! Saudosista.”, mas não é. Eu acho que as coisas boas que se passam na vida a gente tem que comentar. A gente tem que comentar e hoje eu tenho 62 anos de idade, eu quero viver até 80 pelo menos. Quem sabe, né? Pra frente vão surgir valores dentro do rádio, vão surgir valores no futebol. Porque tá tudo mudando, então a gente não pode retroceder, a gente tem que evoluir sempre.
P/1 – Senhor Walter, dentro dessa pesquisa que nós estamos fazendo pro Museu do Santos, onde o senhor acha que a gente vai poder encontrar um acervo assim de áudios, de gols e de partidas do Santos, assim, mais rico e que a gente possa...
R – Nós temos uma pessoa em Santos aí, que é muito chegado ao Santos. Arquivo nós tínhamos o... Não lembro o primeiro nome dele, o Lamas. Depois passou pro Francisco.
P/1 – O Francisco Mendes.
R – O Francisco Mendes hoje é um homem que sabe de tudo a respeito do Santos. Quer dizer, ele faz escrito, né?
P/1 – E ele é o consultor desse projeto?
R – Então, Francisco Mendes é a cabeça. Agora tem um negócio, tem o senhor Ari Leal, não sei se você já conversou com ele.
P/1 – Ainda não. Nós soubemos que ele é um colecionador.
R – Colecionador. Ele tem, inclusive, fita de gols do Santos. Às vezes ele empresta até pra emissora de televisão. Ele deve ter algum material a respeito do Santos. O que eu puder ajudar vocês em outro sentido... Se amanhã ou depois vocês precisarem o milésimo gol do Pelé... Porque o milésimo gol do Pelé, veja bem, a única emissora de Santos que transmitiu o milésimo gol do Pelé foi a Rádio Cacique, quando eu estava lá. Por isso eu tenho o milésimo gol do Pelé gravado. Eu tenho, além do milésimo gol do Pelé, eu tenho esses gols que eu te falei que foi do maior jogo, que ainda bem que eu tenho o...
P/1 – Seis a cinco?
R – O 6 a 5 contra a Tchecoslováquia.
P/1 – Deve ser a única pessoa no Mundo que tem isso.
R – O 6 a 5 eu tenho porque também é a única emissora brasileira... Eu trabalhava, na época, na Rádio Piratininga de São Paulo, que ela fazia conexão com a Rádio Cacique de Santos. E eu fui lá por causa da Rádio Piratininga. A Rádio Piratininga me mandou pra lá, porque sem a Rádio Cacique eu também não teria condições de ir. Então eu acho que vocês estão fazendo um belo trabalho, eu acho que o Santos merece isso. Isso já deveria ter sido feito há muito tempo. Muito e muito tempo. É que às vezes a pessoa se incomoda mais, eu digo, os dirigentes, em aparecer com o time, com o clube nas conquistas, tudo isso, e esquecem de arquivo e esquecem de tudo isso. Isso é a história do Clube, isso tem que existir, a história do clube. Quisesse eu desde que eu comecei no Rádio em 54 até hoje ter toda a história do Santos. Mas não dava, não dava tempo da gente fazer aquilo. Então só quem tem um carinho muito grande, uma pessoa interessada que nem o Francisco aí, pode fazer uma coisa dessas.
P/1 – É verdade. E o seu Francisco já deu uma lista de jogadores antigos que a gente tá tentando levantar dos anos 30 e 40. E nós já fizemos do seu Mário Pereira, né, campeão em 35.
R – O próprio Santos tem, mas nada melhor do que o Francisco dar a lista.
P/1 – Não, ele já nos deu. Mas a gente sempre está checando. Mas a gente esqueceu que tem um jogador vivo ainda dos anos 40, um ponta-esquerda que eu acho que é Pinhegas, né?
R – Tem o Pinhegas. Anda muito na praia. Pinhegas, se eu não me engano, ele jogou no Santos nos anos 40, 48, por aí. Leonídio...
P/1 – Leonídio entrevistamos ontem.
R – Ah, entrevistou. Foi um grande goleiro.
P/2 – Muralha voadora. 
R – Mas o Pinhegas anda na praia todo o dia.
P/1 – E nós vamos no interior atrás do Logú?
R – Logú.
P/1 – Que ele está em Ariranha, no interior de São Paulo. E do Délcio, deu uma passagem rápida no time de 35. Estamos caminhando, né, pra tentar então achar esse...
R – É, porque o Santos em 35 ele foi campeão paulista profissional e aspirante.
P/1 – Exatamente. Foram os dois quadros. Bem, senhor Walter, nós estamos chegando ao fim aqui da nossa conversa. Eu queria então que o senhor nos contasse qual é a sensação de estar aqui, dando o seu depoimento pro Museu do Santos. O senhor, que faz parte da história do Santos, está aqui também, sendo guardadas as sua memórias, as suas lembranças.
R – Eu quero dizer pra você que é um orgulho pra mim. Logo que a Márcia me ligou eu me coloquei à disposição, que é bom sempre a gente falar do Santos Futebol Clube, principalmente. E eu agradeço a oportunidade que vocês me deram, sabendo que amanhã ou depois eu também colaborei um pouco com vocês pra fazer esse trabalho. E gostaria de até colaborar mais desde que vocês precisem de alguma coisa e que eu tenha possibilidade de arrumar pra vocês. Mas pode ter certeza que pra mim foi um orgulho e me marcou muito e eu sinto uma felicidade muito grande. Como marcou a época do grande Santos, me marca também eu poder prestar esse depoimento e ajudar vocês.
P/1 – Ah, então tá. Então muito obrigado.
R – Está bom.

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