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História

Paixão pelo hip hop, rap, grafite e skate

História de: Paulo Henrique Caires Pinheiro
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 09/09/2014

Sinopse

Paulo Henrique, mais conhecido como Miguelito, é um jovem que gosta de rap, grafite e hip hop. Em seu depoimento ao Museu da Pessoa, ele fala da cultura musical do bairro Jardim Ângela, onde foi criado. Discorre sobre a infância e as brincadeiras com o irmão Paulo Roberto e o estranhamento no primeiro dia de aula. Tendo o irmão como grande parceiro, Henrique recorda o início do seu envolvimento com a música e a cultura do bairro. Fala sobre as oficinas que fez no Projeto Criança Esperança e como se transformou em oficineiro e produtor de oficinas no Espaço Criança Esperança do Jardim Ângela. Finaliza o depoimento falando do trabalho que desenvolvia no projeto e sobre sua atuação profissional na Casa Pia São Vicente de Paulo.

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História completa

Meu nome é Paulo Henrique Caires Pinheiro. Tenho 30 anos, nasci em 23 de fevereiro de 1984, São Paulo, capital, zona Sul. Meus pais são Nicevaldo Caires Pinheiro e Maria Glória Caires Pinheiro. Nicevaldo nasceu em Bahia, Teixeira de Freitas e Maria Glória Caires Pinheiro em Cachoeira do Mato, Bahia. São primos. Minha mãe, doméstica e dona do lar e o meu pai é um zelador da comunidade. A gente mora perto de uma praça, ele que cuida do jardim, das plantas, da bica d’água.

Em 1990, eu lembro até hoje o primeiro dia que eu fui pra escola. É uma coisa meio abstrata. Eu lembro que no primeiro dia que eu fui pra aula, eu ficava meio perdido. E era aquela época lá que você tinha que fazer a fila, cantar o Hino Nacional. Nos primeiros dias de aula, totalmente diferente, você já começa a receber o letramento, eu já fui vendo que tinham os meninos maiores, os menores, as meninas, o jeito que é, os procedimentos. E eu estudei dez anos na mesma escola. Eu fiz grandes amizades lá. A escola se chama Eulália Silva, fica no bairro de Santa Margarida, perto do Guarapiranga. Eu acho que o período da adolescência pra mim foi o melhor, hoje em dia eu converso com nossos amigos, nós já temos 30, 32 anos, eu falo: “Pô mano, lembra quando a gente se conheceu como adolescente e tal, nós vivemos maior fase rock’n roll radical e tal, e hoje em dia a gente já está com outra visão passamos da hora aí”.  

O meu irmão conheceu o Sociedade Mártires, ele falou: “Eu vou fazer um curso de DJ ali”. Ele foi começar a fazer e depois de um tempo, acho que de um semestre desse curso que ele fez, no ano posterior, eu: “Ah, eu vou me inscrever lá e tal”. Na Sociedade Santos Mártires eu fazia um curso de segunda à sexta-feira, da uma às cinco e meia da tarde. E segunda-feira a gente tinha um acompanhamento pedagógico com a psicóloga. E ela já: “Ó, vocês que estão beirando 15, 16 anos, a gente vai ajudar vocês a começar a ver o mundo de outra forma. Como vocês vão buscar um emprego, de que forma”. Nós tínhamos isso daí. Tinha também as oficinas de dança que era break, hip hop, capoeira e DJ. Através do professor Zinho que ele trazia, ele que apresentava a nós: “E aí rapaziada, eu sou o professor Zinho, eu também moro aqui no Jardim Ângela, vamos trabalhar com DJ. Vocês sabem o que é um DJ?”. E a gente: “Ah, é o cara, nós vamos no show de rap o cara faz isso.” Ele: “Não, é um músico. Porque o DJ, ele vai tocar numa festa, se a música não estiver agradando ele tem que saber dar a volta por cima”. E ele começava a trazer muitas coisas pra nós, tanto coisas atuais, por ele ser um DJ mais experiente: “Ó rapaziada, eu trouxe um CD, trouxe um disco aí ó, se vocês quiserem gravar, já aproveita, já espalha entre vocês?” Ou ele trazia muitas coisas antigas: “Ó rapaziada, vocês não conhecem tal banda, tal grupo, fez tal som”. E hip hop, eu gostava muito de ouvir hip hop, até hoje eu gosto dos Racionais, o mano Brown mora perto de nós lá de casa. Reggae também eu gosto muito. Na época a gente ouvia muito isso. Eu lembro que nessa época tinha muita coisa que acontecia no Parque do Ibirapuera; eu lembro que tinha a Passeata da Paz que era um evento que era promovido no centro. E através da Sociedade Mártires, ela ajudou a gente adquirir um pouco de cultura, porque no Parque Ibirapuera tinham as exposições do MAM e queriam voltar a projetos sociais, eles nos convidavam. A gente foi conhecer muitas coisas, muitos artistas da nossa história, brasileiros, através de todo esse período. Foi um período que a gente estava envolvido com música, a gente teve uma ideia de fazer um grupo de música e tal, e a gente se apresentava pela Sociedade Santos Mártires, era uma coisa assim, bem gostosa, bem legal, a gente ensaiava, escrevia umas poesias, umas rimas, umas letras. Se apresentava e tinha as pessoas: “Ó meninos, legal as músicas”. Eu falava: “Ó, malandro, que dá hora, as pessoas gostarem”. A vida de um artista, de um músico é dessa forma.

Foi o William que colocou, que era um grupo, não sei se era um grupo ou era um negócio de pichação, chamava “Desacato à autoridade”.  Um evento acontecia direto no Jardim Ângela, ele chamava Polo Cultural na Base do Jardim Ângela na Estrada do M’Boi Mirim, hoje não existe mais, não tem mais nada lá, só tem a própria base de polícia, eles não promovem mais nada pra comunidade. Eu lembro que antigamente eles tinham mais participação lá, principalmente com a Sociedade Santos Mártires. A pichação, quando eu comecei a inserir no skate que eu fui descobrir.  A pichação eu comecei a descobrir pela tag, pela assinatura dos meus amigos. Eu via os caras de vez em quando faziam no caderno assim, eu: “Ô, mas que negócio é esse aí?” “Ah, isso aí é uma assinatura minha e tal, uma pichação, né?” “E como você descobriu?” “Ah, tem um maninho lá na escola que já faz e tal. E aí mano, ele quer uns mano aí pra assinar esse picho aí, você não quer encostar?” “Mas como é que é?” “Então a gente vai colar sexta-feira à noite lá no point da pizzaria, eu vou te apresentar uma mina, vamos trocar umas ideias, tá bom?” A gente encostou lá no dia e o cara: “Ó mano, eu tenho um grupo de pichação” que era tipo MMS, que a gente falava, que era os Meninos Mal do Skate. Ele apresentou os outros meninos, “Se você quiser andar com nós, começar a assinar. Só que é o seguinte, tem que colocar os pichos na parede e tal, a gente costuma ir pros points do centro, ali em Santo Amaro, a gente não tem treta com nenhum. E aí, vocês querem começar a colar com nós?” Eu: “Orra, vamos aí, demorou”, já começamos a riscar as paredes. Eu não consegui escrever letra de mão, eu tive muita dificuldade, então eu fui aprimorando a letra de forma. Através da pichação que eu fui descobrindo um novo abecedário, o novo letrar, o jeito de fazer as letras que me ajuda hoje na escrita também.

Eu fui convidado pra trabalhar em um projeto onde eu trabalhava do lado de casa, pra estar às oito horas da manhã, eu acordava às 7:40. Tomava o café da manhã lá, almoçava, ganhava o lanche da tarde, saía às cinco horas de lá, 5:10 eu já estava em casa. Meus amigos do bairro encostavam lá no meu trabalho. Tinha o pessoal lá das oficinas de hip hop que eu já tinha pegado uma amizade por ter frequentado umas aulas, já conhecia. Aí já começou, a maioria dos eventos que tinha ali pela zona Sul, pessoal sempre encostava lá no Criança Esperança lá, ajudava: “Vocês têm como divulgar”. Ali mesmo a gente: “Evento, vamos”, o mesmo pessoal que frequentava lá era o pessoal que eu frequentava no meu bairro, saía pra andar no final de semana de skate.

Eu era o caçula, eu tinha 19, 20 anos, os meus companheiros tinham de 25 pra cima, 25, 32, 34, 37, eu era meio que o caçula de lá, era dá hora. Não era um emprego, eu não tinha que chegar de manhã, bater cartão; eu podia ir à vontade de bermuda, chinelo, camisa, do lado de casa. Chegava os eventos, os passeios que a gente tinha lá pro Criança Esperança, a gente ajudava a organizar as crianças, os jovens e era gostoso trabalhar no meio de jovens e crianças. Eu falei: “Nossa, é legal”. Hoje em dia tem os meninos lá do meu bairro que eles, eles me chamam até de Miguelito ainda.  A primeira coisa que eu fiz com meu primeiro salário foi colocar um piercing na língua. Eu recebi na sexta, no sábado eu já coloquei o piercing. Agora gastar um dinheiro mesmo, uma quantidade maior foi ajudar: “Vou comprar um som legal aqui pra gente colocar aqui dentro de casa e tal”,  meu irmão já ia curtindo. E já fui ajudando a modificar a estrutura da casa mesmo, ali, tal, algumas coisas. “Pô mano, vamos comprar um videogame da hora pra nós”. Eu e meu irmão gostavamos de skate, então a gente já sempre comprava as roupas, peças; final de semana vamos pra evento. Eu lembro que eu ajudei a fazer isso daí. Hoje em dia que eu ajudo mais como manter a minha casa, mas na época da juventude mesmo, meus pais trabalhavam, eles tinham maior poder financeiro, eles que continuavam a suprir a necessidade de casa.

Quando eu fui trabalhar no Criança Esperança, o Macarrão e o Edinho também já estavam atuando nessa área social, eles também já estavam dentro do projeto. E os jovens que eu conheci dentro do projeto e moravam dentro do bairro, hoje em dia me chamam pelo apelido daquela época, mas foram o Edinho e o Macarrão que colocaram o apelido em mim. Eu gostei muito de ter conhecido eles, trabalhado com eles. Até hoje em dia eu tenho contato com o Macarrão, ele trabalha em outros projetos sociais. Quando o Criança Esperança foi lá pra zona Sul foi para um lugar chamado Clube da Turma. Esse clube era presidido pela instituição Bom Serviço Social de Pirapora. Eles começaram a trazer uma semana, dez dias de oficina experimental. Eu lembro que eu fiz uma oficina de vídeo, já estava começando a iniciar as oficinas de hip hop e tal. E uma vez ele me contou: “E aí Henrique, mano, quando vir aqui o Criança Esperança”, que nós chamávamos de Núcleo Multimídia, não era nem Criança Esperança, “Eu vou dar umas aulas de grafite, você encosta comigo e tal”. Eu falei: “Da hora, mano. Você tem o telefone de casa, quando tiver perto de acontecer eu venho encostar com você”. Depois de uns dois meses veio a se iniciar mesmo, aí já deixou de ser Clube da Turma, já veio como Espaço Criança Esperança Jardim Ângela. O Criança Esperança já estava começando a ter forma de projeto e tal, a querer expandir as oficinas e nós fomos começar a construir a rede do Criança Esperança, juntamente com o Márcio, Macarrão, eu fui ajudar ele a mapear as entidades. Depois de uns três meses que eu estava mapeando que eles decidiram assim: “Pessoal, a gente vai dividir o núcleo de funcionários do Criança Esperança”. Era eu, Macarrão, Douglas, o Leandro, não vou lembrar o nome do coordenador agora, que estava lá dentro do Criança Esperança. Ele falou: “Ó Miguelito, a partir de hoje você não vai mais precisar ficar com o Macarrão pra fazer a história da rede, eu quero que você seja um monitor de um Núcleo Multimídia”. E eu: “Como é que é isso daí?” “Os professores daqui, muitas vezes eles precisam de materiais, espaços, tudo pra realizar as atividades. Em vez dele nos procurar, a gerência, que estamos gerindo o Criança Esperança, ele vai até você. Então, muitas vezes você que vai ajudar o pessoal da administração pra comprar material. Se ele precisar tirar 20 xerox e tal, você vai ajudar a ficar ali como monitor no multimídia, não deixar a molecada zoar o espaço, ajudar meio que a zelar. Eu deixei de fazer parte da rede do Sou da Paz, que estava atuando mais pra fora do Criança Esperança, e comecei a trabalhar mesmo, diariamente, de segunda à sexta-feira. O Sou da Paz já me registrou da carteira, me registrou como agente educador pelo Instituto Sou da Paz para eu trabalhar dentro do Projeto Criança Esperança e ser um funcionário do Criança Esperança. E ali nós ficamos em torno de um ano. Ele já era uma outra instituição.

Na década de 90 esse Clube da Turma era uma Febem. Teve uma rebelião, a molecada conseguiu fazer uma fuga e tal. Eu acho que a prefeitura, o Governo de São Paulo viu que aquele espaço é um espaço muito grande: “Vamos deixar de ser Febem e vamos tentar trazer uma coisa aqui pro pessoal poder usufruir”, fizeram um Clube da Turma. E a Serviço Social Bom Jesus, ele que gere o projeto todo, eles são os caras que estão frente de linha ali. Eles que recebem o orçamento da prefeitura e gere tudo lá e tal. O Criança Esperança quis trazer essa oficina de hip hop, fez uma entrevista com as crianças, perguntavam: “O que vocês acham que seria legal ter aqui de oficina?”, e a gente queria muito isso. Só que a outra instituição era uns caras que vêm da igreja, a gente andava à vontade, cabeludão, barbudo, tatuagem, a gente estava muito mais próximo do jovem do que eles que vêm de uma coisa que a igreja já prega. Isso, eles já começaram a não gostar. A gente tentava ajudar, tentava, vamos deixar essas coisas aí pro pessoal lá do Sou da Paz que gere lá a instituição. Começou uma briguinha, eu lembro que eles comentavam que, pô mano, antes de alguém do Sou da Paz estar lá pra gerir o Criança Esperança, eu acho que começou a entrar uma verba e os caras não faziam nada. Eu lembro que eu ouvi isso daí na época que eu estava entrando no Criança Esperança. O Sou da Paz: “Não vamos deixar assim, não. Vamos levar alguém, contratar uma pessoa pra ficar lá dentro junto com eles. Se vai entrar uma verba e tal, vamos ajudar, alguém nosso tem que estar lá também para assinar esses documentos”. E foi isso daí que a gente começou a observar muito. Só que a gente em nenhum momento vamos deixar os alunos, vamos deixar chegar em quem está frequentando o projeto. Aí, muitas vezes o que o pessoal da portaria tinha, chegou pessoa tal assim é pra fazer a carteirinha, aí a gente: “Pô mano, deixa o pessoal aí, a gente tem um controle nosso, entendeu? A gente não quer que esteja esse negócio aí. Isso aqui é aberto a comunidade, entendeu, isso aqui é um projeto social” “Ah, mas é a ordem que vem lá da secretaria, é pra gente barrar quem não tiver carteirinha para entrar”. Aí pô, pra fazer os eventos lá tinha que pedir pros caras: “A gente quer portão livre, entendeu? A gente vai trazer outras entidades, jovens que estão começando a trabalhar com jovens, com jovens que estão com estado não sei o que lá e a gente quer dessa forma”. E tinha muito essas rixas internas. O projeto ficou lá acho que em torno de uns três anos, eu entrei acho que no último ano e meio que foi quando mudou pra zona Norte, pra Brasilândia.

Hoje em dia eu trabalho em uma empresa terceirizada há dois anos. Eu comecei nela em março de 2012 como faxineiro, auxiliar de limpeza; fui promovido pra auxiliar de serviços gerais e em abril desse ano eu comecei a atuar como porteiro. Eu trabalho um dia sim, um dia não. Eu trabalho numa instituição chamada Casa Pia São Vicente de Paulo, que fica na Alameda Barros, Santa Cecília. 

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