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História

Paixão pelo basquete

História de: Antônio Carlos Lemos de Oliveira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 17/08/2014

Sinopse

Antônio Carlos é um jovem esportistas que perdeu o pai aos 9 anos de idade. Em seu depoimento ele recorda essa triste passagem de sua vida, contando as dificuldades pelas quais a mãe passou para criar os dois filhos sozinha. Fala sobre sua paixão pelo basquete, relembra os times pelos quais atuou profissionalmente e a contusão que pôs fim à sua carreira nesse esporte quando jogava na Argentina. Finaliza falando sobre a importância do Projeto Criança Esperança em sua vida, não somente pelo esporte, mas pelos cursos que fez no Espaço da Vila Brasilândia.  

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História completa

Meu nome é Antônio Carlos Lemos de Oliveira, nasci em 5 de julho de 1991, eu sou daqui de São Paulo mesmo. Meu pai já é falecido, ele era natural de Minas Gerais, e minha mãe, que vive comigo, é baiana, de Feira de Santana. Meu pai era de Januária. Quando ela tava com 17 anos, se eu não me engano, ela veio pra cá pra São Paulo justamente pra tentar a vida melhor assim, de outra forma, e talvez pra ajudar os pais dela também.  No início, ela morava na casa dos patrões, que se eu não me engano foi na Vila Madalena. Ela trabalhava como doméstica, ela morou um bom tempo na casa dos patrões dela. Meu pai, acho que ele começou a trabalhar com uns 14 anos, mais ou menos, veio pra São Paulo com 18, 19, alguma coisa assim. E a mesma coisa, veio nesse lance de busca de melhoria de vida e tal. Eles se conheceram no Jardim Europa, pelo que a minha mãe me conta, no ponto de ônibus. Eu acho que ele tava vindo do trabalho e ela também, alguma coisa assim. E acho que pintou aquele “climinha”. Sabe como é. Eles começaram a namorar e acho que foram morar juntos, se eu não me engano. Logo de início, acho que coisa de dois meses de namoro, acho que eles já estavam morando juntos. Vieram pra onde eu estou hoje, que é na Vila Brasilândia, que eu estou lá desde que meu pai faleceu.

Eu nasci e fui criado na Brasilândia.  A primeira era uma casa alugada, bem humilde, pequenininha, tinha uns três cômodos. Mas era uma casa legal. Acho que pra uma criança, isso de início não faz muita diferença, porque é mais o lance de diversão. Então enquanto seus pais estão sofrendo, batalhando pra ter algo melhor, a criança não tem muita noção disso, a gente quer saber brincadeira, diversão. Então por mais que fosse uma casa humilde, pra mim sempre foi tranquilo isso. Depois, acho que com quatro ou cinco anos de idade, eu me mudei pra onde eu estou hoje. Tenho uma irmã que vive comigo, moramos eu, minha mãe e minha irmã. E tenho mais três, quatro irmãos por parte de pai que moram em Minas Gerais. Eu sou o mais novo. Antes de ele conhecer minha mãe, ele já tinha outros filhos, ele era separado.

Eu não lembro muito bem quando entrei na escola, mas eu acho que eu fui certinho, estudei no pré, claro, depois fui pra primeira série, eu só não lembro isso muito bem. O pré era bem próximo ali de onde eu moro, que era o EMEI Tito Lívio Ferreira. Na primeira série, eu fui para o Osmar Bastos, estudei lá até a quarta, depois eu fui estudar no Pimentel, que é próximo de onde eu moro também, que foi da quinta até o terceiro colegial. Quando eu era mais novo, quando meu pai era vivo, ele que me levava pra escola. Ele era aquele lance da moda antiga: mulher minha não trabalha. Então minha mãe não trabalhava. Ele trabalhava, me levava pra escola, e minha mãe fazia os afazeres de casa. Meu pai era pedreiro. Ele morreu num acidente de trabalho. Ele caiu, bateu a cabeça. Não chegou a morrer na hora, ele ficou internado, acho que deu coágulo no cérebro dele e acabou vindo a óbito. Eu sei que nesse dia foi engraçado porque eu nunca pedia pra ir trabalhar com ele. Então nesse dia, eu enchi o saco pra ir trabalhar com ele: “Pai, eu quero ir. Porque eu quero ir e não sei o quê”. Ele: “Não. Você não pode ir, tal, fique em casa, que é longe, não sei o quê”. E ele ia a pé. Não tinha carro, então ele ia a pé. Ele falou: “Não, você não vai aguentar, é muito longe”. Eu falei: “Não, mas eu quero ir”. Chorei, fiz o maior show. Eu lembro que ele falou pra mim: “Você não pode ir porque você tem que ficar pra cuidar da sua mãe”. Eu tinha dez anos, eu nunca ouvi meu pai falar que eu tinha que cuidar da minha mãe. Meu negócio era brincar. Eu queria ir trabalhar com ele pra me divertir. E ele falou: “Não, mas você não pode ir, porque você tem que ficar pra cuidar da sua mãe”. Tudo bem, chorei, ele foi, eu não fui. Enchi o saco, mas fiquei em casa. E todo dia quando ele chegava do trabalho, por volta de umas seis e meia, sete horas da noite, eu já ficava no meu portão, que quando ele chegava, corria, abraçava, tal. E todo dia, todo santo dia eu ficava nesse horário no portão pra poder vê-lo. E nesse dia, ele demorou pra chegar. Tava demorando muito pra chegar. Deram umas sete horas, nada, deram sete e meia, nada. E eu comecei a ficar bem triste. Teve uma hora que eu cansei de esperar, entrei pra minha casa. E eu tava quieto lá, minha mãe já estava meio preocupada, mas tava procurando não demonstrar. De certa forma, ela tava preocupada, mas você sempre acredita que não tem nada de errado. De repente bateram no portão, na hora eu comecei a chorar, eu nem sabia quem era. O patrão dele chegou com a camiseta toda cheia de sangue. Eu cresci sem pai. Eu aprendi a ser homem com dez anos de idade. E de repente, minha mãe teve que fazer tudo, procurar emprego. Ela ia nas igrejas pra ver se conseguia arrecadar cesta básica, algumas coisas assim. Eu acho que o lance que eu tirei de aprendizagem foi ver a minha mãe sustentar a família de 2000, que foi quando meu pai faleceu, até hoje com um salário mínimo e nunca faltar nada. Eu sou um cara que não sei o que é passar fome, nunca passei fome na minha vida e isso eu devo a ela. Querendo ou não, até hoje ela me sustenta.

Então eu estava com uns dez, 11 anos já, ia sozinho para a escola.  Eu comecei com 12, 13 anos. Jogava basquete por brincar. No início, eu jogava lá no Criança Esperança, quando na verdade não era Criança Esperança ainda, que era o Oswaldo Brandão, que era na Brasilândia. Era um clube abandonado, só que tinha uma quadrinha de basquete, lá tinha a cesta e eu ia pra lá. Tanto que às vezes minha mãe me fala: “Você jogou basquete a vida inteira e não tem dinheiro, não ganhou nada”. Mas acho que quando ela fala “não ganhou nada”, ela fala de dinheiro, mas eu ganhei muitas outras coisas. Eu costumo dizer: o basquete não me tirou do caminho errado, porque eu não entrei, mas ele me desviou do caminho errado. Várias vezes que eu podia ter entrado para o crime, entrado para o tráfico, eu olhei para o lado, tinha uma bola de basquete, tinha um espaço ali pra eu poder, de certa forma, me divertir. Então por mais que às vezes o basquete parecia uma diversão, muitas vezes era um escape. Os outros 15, 20, morreram, e alguns estão presos, porque eles não se dedicaram ao esporte, mas eu tive esse escape, eu tive o basquete. Então várias vezes que eu estava nervoso, eu ia pra quadra, quando eu estava feliz, eu estava na quadra, quando eu estava triste, eu estava na quadra. O Criança Esperança, eu não lembro, mas acho que chegou em 2005 ou 2006. Mas desde antes eu já tava lá, todo santo dia, jogar basquete ou andar de skate também, que eu andei de skate por um bom tempo. E era isso, era o escape. No início era um clube, de certa forma, abandonado, então tinha muita droga, tinha estupro. Tudo que você imaginar. Tinha uma mata do lado, então, de certa forma, o espaço físico não era bonito. E o lance de educação também, porque ali era um espaço abandonado. Depois que chegou o Criança Esperança, de certa forma teve a área de educação, o lance de você ter um esporte, ter alguma coisa ali pra você, de certa forma, se entreter. Então eu acho que mudou não só na minha vida, mas de muita gente. Principalmente nesse lance de educação, de ter um lugar pra ficar quando não tinha nada pra fazer. Na época, eu não conhecia, eu só ouvia falar de televisão. Quando falaram: “Ah, o Criança Esperança vai vir pra cá”, de início eu não dei muita importância. Eu achei legal porque eu falei: “Nossa, é uma coisa que eu ouvia falar na televisão, vai vir pra cá”. Mas de início eu não dei muita importância, eu continuei com o meu basquete lá. Depois que eu fui conhecendo as pessoas que estavam trabalhando lá, fui fazendo amizade, que eu fui conhecendo mais ou menos como funcionava. Depois veio o lance de você se inscrever, fazer uma carteirinha, preencher uma ficha e, de certa forma, participar de algumas aulas que tivessem lá dentro. Foi onde, de certa forma, mudou muito o lance de não ser Criança Esperança e ser. Estudei Multimídia lá dentro, Produção Musical, eu estudei lá dentro. Então muita coisa que eu aprendi na minha vida também, eu devo ao espaço lá, ao Criança Esperança. Eu aula de fiz Produção Musical, fiz DJ, curso de DJ, fiz um tempo Inglês, eu já falava um pouco, mas eu fiz por gostar, o Multimídia, que na época era rádio, vídeo e jornal. E acho que só, mas fiz bastante coisa lá dentro.  Eu joguei em alguns times e graças a Deus consegui ter um salário. Não era lá grande coisa, mas pra fazer o que eu gostava, estava ótimo. Eu acho que na época, se eu ganhasse um real pra fazer o que eu amava estava ótimo, estava fazendo o que eu amava. Então ganhei, consegui ganhar um dinheiro. Aqui em São Paulo, no Brasil, eu consegui jogar no Paulistano, que fica no Jardins, joguei no São Paulo, no Morumbi, joguei no Palmeiras, joguei no Hebraica. Ah, e no interior, eu joguei no Ituano, joguei em Limeira, e joguei Puerto Madero, que foi na Argentina, em Buenos Aires.

No basquete, uma coisa que é besta, mas é bem importante, que é o lance da enterrada. De repente ele vem tentar te bloquear e não consegue, é igual no vôlei, o cara tenta te bloquear ali e você conseguir subir mais alto que ele, conseguir bater na bola e fazer o ponto. Acho que marcante é mais para o lado ruim, que foi na Argentina, que foi quando eu desloquei o joelho. Eu fui dar uma enterrada de costas, além de eu errar a enterrada, eu caí e mau jeito e torci o joelho. E você nunca imagina que vai acabar, tanto que na época eu abandonei escola, abandonei tudo, porque eu achava que ia viver do basquete. E querendo ou não, esporte, principalmente no Brasil, se você for analisar, é uma vida de ilusão. Você nunca imagina que vai acabar, mas quando você menos espera, acaba. Comigo foi assim também, tipo, eles me colocaram lá no topo, falaram que eu era o melhor atleta deles, mas que o campeonato não ia esperar oito meses por mim. Oito meses seria o tempo que eu ia ter de recuperação. Pagaram-me tudo certo, pagaram o melhor hospital que eu tinha lá, bancaram tudo que eu precisava, mas de certa forma me tiraram do time. Eu via basquete na televisão, eu chorava. Então, na época infelizmente eu parei, tanto pela tristeza e outra pela confiança. Por mais que a perna já estava boa, você não tem a mesma confiança. E basquete é isso, é correr, pular. Querendo ou não, é uma loucura, tanto que eles falam que é o segundo esporte mais agressivo ao corpo, que desgasta mais. Pra mim era ruim por isso, eu não tinha confiança, eu não conseguia jogar, e eu acabei parando. Hoje eu meio que voltei aos poucos. Minha perna está 100%, só que por falta de tempo, outra que eu não conseguia time... E assim, no início eu jogava por amor.  Quando eu voltei, eu acho que na hora assim, no aeroporto ainda, caiu a ficha, você coça a cabeça, fala: “Pô, e aí? Eu não posso mais jogar porque eu não estou bem. Eu não tenho nenhuma formação. O que eu vou fazer da vida? O que eu vou colocar em um currículo? ‘Sei jogar basquete. Sou bom pra caramba no basquete.’ Mas nenhuma empresa vai me contratar pra jogar basquete, a não ser um clube”. E eu fiquei muito preocupado, fiquei totalmente em choque: “Nossa, o que eu faço?”. Mas assim, graças a Deus, nisso eu tive amigos, tive pessoas que me indicavam pra empresas e sempre deu certo. Logo que eu voltei, eu comecei a trabalhar, isso foi bom. No começo, eu comecei a trabalhar de ajudante, fazendo entregas. Era uma empresa que chamava DWA, que era uma empresa de cosméticos. Ela fazia as entregas, eu comecei como ajudante. Acho que eu estava com 18, 19, mais ou menos. No início, quando eu fui pra morar lá a primeira vez, eu parei na quinta série, que foi quando eu abandonei tudo pra poder ir pra lá. Depois eu consegui voltar, estudar, tudo isso. Mas no início, quando eu parei de estudar pra ir pra fora, eu estava na quinta série. Foi quando eu voltei, que eu não tinha estudo, não tinha nada, então eu tinha que correr atrás de supletivo, correr atrás dessas coisas. Mas assim, o pessoal diz “Nunca é tarde pra estudar”. Nunca é tarde. Comecei a trabalhar como ajudante. Depois um amigo meu me indicou pra trabalhar numa logística, uma transportadora. Eu comecei trabalhando lá como ajudante, acho que em seis meses eu fui promovido pra conferente, já foi bom pra mim, porque de repente se eu saísse, eu poderia colocar num currículo, que seja, eu sou conferente de logística. Então isso já ajudou. Mas no início foi muito preocupante por isso, que eu não tinha nada. Eu não tinha estudo, não tinha curso, não tinha nada.

No Criança Esperança, eu comecei como educando mesmo. Teve a época antes de eu ir pra Argentina, que eu acho que eu tava com uns 13 anos, mais ou menos, não lembro. E assim que eu voltei de novo, eu ainda continuei como educando, fiz uns trabalhos lá. E em 2009, se eu não me engano, foi o primeiro trabalho mais na parte de educador, que eu já estava meio que formado em música, em DJ. Era mais um auxílio, na verdade. Eu não trabalhava pra eles, no espaço, eu trabalhava de forma voluntária ajudando no que eu sabia. Dei algumas aulas de produção musical. O que eu fiz bastante foi oficina, que é uma espécie de aula, mas é coisa de um dia ou dois, tipo, “Ah, hoje eu vou dar uma oficina de DJ em tal lugar”, então foi mais assim, mas fiz alguns trabalhos. Hoje eu já não estou mais trabalhando de novo, me encontro desempregado. Mas assim, na época que eu abandonei foi pelo lance de estar trabalhando e não ter tempo. Mas assim, sempre que eu posso, eu estou lá. Sempre que eu posso, eu estou ajudando a organizar um evento.

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