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História

Paixão pelo balé

História de: Tiago da Silva Barbosa
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 17/01/2015

Sinopse

O educador e dançarino Tiago contou sua história ao Museu da Pessoa em dezembro de 2014. Ele inicia seu depoimento falando sobre seus pais e sobre a convivência com sua mãe. Fala sobre o sítio em que moravam em Minas Gerais e o retorno para Mogi Mirim ainda quando era criança. Relembra o período escolar e como era arteiro na escola. Recorda como entrou no ICA fazendo atividades no contra turno e como se interessou pelas atividades circenses e teatrais. Conta sobre seu interesse pelo balé que inicialmente não teve apoio de sua mãe nessa atividade. Fala sobre o seu trabalho como educador no ICA e como o projeto Criança Esperança ajudou no desenvolvimento das atividades educativas realizadas pela instituição.  

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História completa

Meu nome é Tiago da Silva Barbosa, data de nascimento 9 de junho de 1990, nasci na Santa Casa de Mogi Mirim.             Meus pais são Adalberto Juvêncio Barbosa e Mirtes Brandão da Silva. A minha mãe nasceu em Minas Gerais e o meu pai nasceu na Paraíba. Meu pai trabalha em farmácia, ele é ajudante geral na farmácia, minha mãe atualmente trabalha na autopeças, com limpeza. 

Eu sou muito fechado com a minha família, tenho mais contato com a minha mãe. Meu pai morava comigo, há dois meses, ele saiu de casa. Então na época de criança eu era muito apegado, eu, particularmente, não me envolvia tanto. Minha até achava estranho isso, achava que eu era isolado demais. Mas meu vínculo com ela era muito forte em relação à parte de dormir, então eu gostava muito de dormir com ela, ela gostava de cantar músicas pra mim. E meu pai, eu nunca fui assim tão ligado com ele. Com uns 12, 13 anos, eu comecei a conversar com ele, porque na época aconteceram alguns problemas familiares e acabei pegando esse receio dele. Fui crescendo, com 23 anos a gente começou a conversar mais, e nessa trajetória de vida teve um acidente, que ele levou um tiro, então ele ficou mais quieto na dele, não fala muito, ele é muito tranquilão, sabe, não consegue nem chamar a atenção muito. Depois de 18 anos a minha mãe teve uma filha, que a Júlia tem cinco anos agora. E assim, meu pai saiu de casa, e agora só eu, minha mãe e minha irmãzinha que ficamos em casa.

Eu passei a infância em Minas e em Mogi Mirim. Em Minas Gerais a gente morava em sítio mesmo, só que era um sítio muito grande, tinha até cachoeira, tudo. A gente morava no fundo da casa da minha avó. Quando eu era criança, lá pra uns três, quatro aninhos, a gente morava no fundo, cama de bambu, um fogãozinho só, e era molecada, então a gente juntava no campinho de futebol e ficava jogando. Já em Mogi Mirim, a minha mãe conseguiu ter uma casa própria, então tinha três cômodos: cozinha, banheiro e o quarto. E era assim tranquilinho, bem vila mesmo, não tinha asfalto na época. Mas o mais mesmo da minha infância era televisão, adorava desenho, nossa!

Eu lembro que eu era muito arteiro na escola, tirava nota baixa. Eu lembro que não tinha muito nota alta, tinha muito dificuldade em Português e Matemática, e morria de medo disso, então foi meio uma frustração assim, até no colégio. E o que eu lembro, eu brincava demais, fazia o outros rirem demais desde pequeno, sempre brincando, sempre fazendo os outros rirem. Nunca tive problema com ninguém, nunca briguei, mas já apanhei várias vezes em escola. E gostava de brincar em parquinho. Então ia lá, não podia, eu ia pra ver como era, a altura não pode, subia. E gostava de fazer assim. Gostava muito de assistir filme na escola também. Então as coisas de filme e televisão são as que mais me marcaram a infância.

O ICA eu conheci indo pra escola, então todo dia eu pegava ônibus e tinha um pessoalzinho das mangas coloridas. Tinha um de vermelho, um de azul e tal, e eu sempre ficava perguntando. Porque eles sentavam no fundo e sempre era aquela animação: “Ah, vamos brincar, não sei o quê”. Eu ficava olhando isso. E teve um dia que minha mãe mudou de serviço e morava perto do ICA ali. Ela trabalhava em apartamento, de faxineira, eu peguei, faltei da escola e fui. Fiquei uma semana indo todos os dias. A gente foi conversando, minha mãe conhecia algumas mães que tinham aluno no ICA, começou a conversar, falei: “Nossa, quero ir, quero ir, quero ir”. Chegamos a casa, conversamos, ela falou: “Tá, vamos ver”. Só que na época não tinha vaga, eu estava com nove anos. Não tinha vaga, porque pra entrar no ICA precisava estar no Educandário, e eu não fiz educandário, foi difícil. Eu pedi pra minha mãe, pedi muito pra ela, insisti. E eu fui uma criança assim, tudo que eu queria, chorava, chorava, birra, birra, até ficar doente, e conseguia. Depois ela conseguiu falar com o ICA, deixou o meu nome da lista, a lista era grande. Ela ficou uma semana, praticamente, indo todo dia lá comigo no ICA conversar, conversar, até que depois de uma semana eu consegui entrar. Eu lembro até hoje o primeiro dia que eu entrei no ICA, o primeiro dia que eu coloquei a camiseta do ICA. Pra mim foi muito bom. Sempre quis estar lá, mas morrendo de medo de estar lá, porque eu não sabia que lugar era esse. Então através dela mesmo, do esforço da minha mãe, eu consegui entrar no ICA.

Tinha o grupo do Gustavo Müller, que foi o primeiro professor de circo, que era Trupe e Sofia, então o tempo todo apresentando, o tempo todo via as pessoas maquiadas, o figurino colorido, então “o que era aquilo, o que era aquilo”. Nunca imaginei que ia entrar no circo de cara assim. Teve um dia que eu conheci a Dani, que deu entrevista também, ela falou assim: “A gente está treinando, você quer treinar?”. Eu comecei a treinar com ela. Como eu era pequeno, ela começou me treinar de volante. Comecei a treinar com ela, treinar, teve as escolhas das vertentes, eu escolhi circo, teatro e dança na época, menos música. Comecei a fazer as três, comecei me destacar no circo, e já no primeiro ano eu entrei na trupe. Fiquei treinando e apresentando. Teve o primeiro desfile, a primeira apresentação fora, já começou, não pararam mais as responsabilidades. Tipo, compromisso, bilhete, uniforme, ensaio de domingo, ensaio de sábado, apresentação à noite. Foi muito bom. E o que mais marca no ICA quando eu entrei foram os abraços de todos os educadores, o acolhimento, o almoço principalmente, todo mundo reunido, a oração na fila, a gente esperava pra fazer a oração, a questão da organização, todo mundo com uniforme, tinha a cobrança também, a questão de comportamento, mas era muito bom assim. E lá na época que a gente fazia ICA tinha aquela parte do reforço, não gostava muito, mas foi muito importante. Além das aulas artísticas, tinha aula de capoeira, karatê, artesanato. Fiz artesanato e karatê. E fui buscando assim. Mas o que mais me marcou foi o circo.

A história do balé foi que ele falou que precisaria fazer aula de balé, porque o aéreo exige a postura, ponta de pé, alongamento no corpo, tudo. Eu fui fazer, mas até então fui na zoeira. Fui e eu mais dois, e esses dois já estavam avançado no grupo, então meio que tinha uma competição entre nós três, eu falei: “Não, eu vou fazer”. Eu fui contar pra minha mãe, falei, ela não deixou. Eu menti pra minha mãe, menti no ICA, falei: “Não, eu quero fazer”. Fui lá, conheci a Eliana Furno, foi minha primeira professora de balé também. Eu fiquei quatro meses no balé, depois eu saí por causa da minha mãe, não deixou, mas depois eu voltei de novo. Era na academia aqui do lado do ginásio aqui. Era academia mesmo e aula básica assim, não era tão avançada.  A primeira apresentação que eu lembro foi o ICA mesmo, foi o desfile, que eu desfilei. Agora de balé foi o Peter Pan, que eu lembro que foi em 2007. Foi muito bom, mas ela não gostou. Porque assim: “Filho, eu gostei muito, parabéns, mas nossa, essa roupa apertada não dá”. Hoje em dia ela vai aos festivais e cada um que eu pego pra fazer, às vezes tem uma experiência muito grande, ela fica brava ainda, até chora, porque: “Nossa, por que você está fazendo isso?”. O ano retrasado, o tema era Musicais da Broadway, a gente fez até Priscilla, a rainha do deserto. Fiz uma das Priscillas assim, collant, perucão, salto. Vixe, ela surtou. Mas teve as outras cenas, ela gostou. E é sempre assim, ela gosta, mas fica assim. Esses dois últimos anos ela está mais tranquila, aceita, abraça no final, tira foto, sempre está tentando ir. Então eu estou sentindo-a muito mais participativa, e isso é bom pra mim.

Como educando aproveitei o máximo, nunca neguei esforço pra estar. E mudar de educando para educador, eu acho que além de ver o trabalho do ICA crescer, que eu me sinto muito privilegiado de estar aqui dentro, então assim, hoje como educador tento proporcionar para os educandos o que eu tive e o que não tive também. Às vezes a gente acaba tendo algumas frustrações, ou querendo mais, então eu tento sempre estar com eles, tentando entendê-los. Por isso que eu falo, eu tendo me comparar quando era criança e agora os vendo. Então eu saí do ICA com 18 anos, eu completei o ciclo, não fui um dos monitores. Sempre quis ser monitor, mas nunca consegui pelo fato da minha mãe, que a minha mãe queria que eu saísse do ICA. Então teve alguns momentos do ICA que a minha mãe sempre falou: “Ah, eu vou tirar você do ICA. Se você não passar na escola, eu vou tirar você do ICA”. Com 18 anos eu completei, saí, comecei a trabalhar em farmácia. Fiz curso de Farmácia, fiquei um ano trabalhando em farmácia, farmácia, farmácia, esqueci o ICA. Voltei, entrei em contato com o ICA: “E aí, vocês estão? Eu queria voltar para o ICA. Como eu faço?”. Porque na época, ex-aluno podia voltar ao ICA, podia atuar no grupo de sábado, podia fazer alguma coisa. Eu comecei a voltar no grupo de sábado, e nesse grupo de sábado eles me convidaram, pelo meu destaque artístico, “ele puxou bastante, ele faz isso...”. E os meus amigos daqui estava falando: “A gente vai ser educador agora. A gente passou da fase de monitor, a gente vai poder dar aula, vai ser professor também”. Porque na época de aluno, a gente queria ser professor um dia também. Eu fiquei esse um ano fora, depois eu voltei. E no voltar, eu já peguei um projeto, que é a Lona Itinerante, quatro em quatro meses em cada escola, em cada bairro, e eu peguei, depois disso não parei mais. Na verdade foi um convite: “Olha, a gente vai contratar você, só que você vai trabalhar na Lona Itinerante”. Nessa Lona Itinerante, eu fui ao primeiro como aluno, então eu fiquei acho que umas três semanas nesse último ponto, que era o Oscar, que era o professor de circo na época. Eu fiquei com eles e até acabei participando como palhaço apresentador. Ajudei a montar no espetáculo. Esse projeto é um projeto itinerante, então é uma lona que monta na escola, fica quatro meses de duração na escola, tem essas atividades. O foco é o circo, só que dentro do circo tem educação social, tem um pouquinho de dança, tem um pouquinho de teatro, tem literatura, a gente fica quatro meses lá. No encerramento, a gente faz um espetáculo.

Sou viciado em televisão, sempre quis estar em televisão, sempre quis atuar em televisão também. A parte do Criança Esperança, eu gostava pelo show. Não tinha tanto conhecimento na época que juntava dinheiro, não sei o quê, arrecadava, tal, mas eu gostava muito do show, que era muito mágico, descia cenário, subia aquilo, bailarino de lá, cantor cantando e nã nã nã. E eu só fui conhecer realmente o que era o Criança Esperança quando eu passei no teste pra ir. Eu tinha 12 anos, fiz uma audição em Campinas no Ballet & Cia, eu passei e apresentei duas coreografias: uma no final, não sei se você lembra esse tempo, que o Didi descia do balão.  Foi uma experiência muito boa. Na época, assim, eu não tinha tanta experiência, mas a gente fez uma adição básica, então era passinho pra lá, passinho pra cá, e roupa colorida. É isso que eu lembro. Vou trazer a foto pra você ver. Ganhei um certificado, usei o crachazinho da Globo, então assim, foi muito bom. E depois desse contato com o Criança Esperança, eu consegui bastante coisa, vários convites, várias oportunidades, conheci bastante contato, conheci alguns cantores, então foi nessa época, isso que é o mundo de televisão, sabe, ser filmado: “Ai, volta, grava, volta, repete”. E na época eu era muito criancinha assim. Foi uma experiência muito boa pelo tamanho, eu não tinha essa noção do que era o Criança Esperança. Na verdade foi no Ibirapuera. A gente gravou no Ibirapuera. A gente foi gravação pra passar. Lá em Campinas a gente fez o teste, o teste foi superdifícil também. Eu tinha passado na primeira fase, depois não tive mais resposta, chamou pra segunda fase. A segunda fase era meio difícil, tinha que cantar, tinha que fazer um monte de coisa.

Acho que contribui muito no trabalho do ICA, não só do ICA, mas como de todas as organizações. Eu não sei quem teve a ideia, mas acho que é uma ideia muito boa, porque acho que estava precisando disso. Acho que a gente hoje se unir pra fazer uma causa boa é difícil ver. E faz tempo que o Criança Esperança está atuando assim. Faz muito tempo. Então acho que desde a minha infância, até agora, poder fazer parte disso também é muito importante e tem um peso muito grande. Se todo mundo pensasse assim, seria totalmente diferente. Só que não é assim. Mas eu fico muito feliz porque eles estão fazendo a parte deles, não desistiram, sabe? Não é um programinha básico, é uma coisa muito grande, é mundial mesmo, tem muita coisa envolvida, não é só uma coisinha que passa rápido. Eu fico feliz por estar continuando ainda. Acho que falar de Criança Esperança é bom, porque além de ser um projeto, faz bem pra gente também.

 

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