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História

Paixão pela poesia

História de: Frederico Tavares Bastos Barbosa
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 17/12/2014

Sinopse

Em seu depoimento Frederico fala sobre sua ascendência, parte alagoana, parte pernambucana. Filho de pais professores recorda as mudanças da família para Brasília e depois para São Paulo por motivos profissionais. Lembra dos períodos em que morou nos Estados Unidos, como escolheu o curso de Física e como desistiu dele para formar-se em Letras. Como professor de português e literatura lecionou em vários colégios. Poeta e ensaísta, Frederico fala da dificuldade de publicar suas poesias. Relembra como foi convidado em 2004 para dirigir a Casa das Rosa, as dificuldades do início e como transformou no Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura.

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História completa

 Nasci em Recife, Pernambuco, no dia 20 de fevereiro de 1961. Meu pai nasceu em Recife, minha mãe nasceu no Rio de Janeiro, a família dela é de Alagoas, mas ela nasceu no Rio de Janeiro e logo cedo foi para Alagoas e cresceu lá.  Nome da minha mãe é Ana Mae Tavares Bastos Barbosa, do meu pai João Alexandre Costa Barbosa. Eles se conheceram no cursinho, fazendo cursinho para faculdade de Direito.  Minha mãe morou até os 14 anos em Maceió com a avó, depois o tio dela foi para Recife, foi trabalhar em Recife e elas acabaram indo para Recife também, a avó e ela e o avô dela tinha morrido também e tal, então, ela foi com a avó para Recife, passou a morar lá em Recife. Eu nasci pouco tempo depois da minha avó ter morrido e o meu pai tinha sete irmãos, todos mais novos que ele. O mais novo na época que a minha avó morreu tinha nove anos. Ele tinha quando eu nasci 23 e a minha mãe tinha 24, então, ainda eram crianças, eles também. E eles tiveram que ficar tomando conta de todos os irmãos do meu pai. Então, não foi um momento muito fácil para eles, eles tinham acabado de casar, tiveram um filho e ainda ganharam seis filhos de brinde, depois, pouco tempo depois, vem a Revolução, meu pai trabalhava em jornal, escrevia, dava aula e tal, estava começando uma carreira que ele teve, uma carreira brilhante, mas veio 64. No ano em que eu nasci, meus pais vieram aqui para São Paulo, para Assis, para um evento que foi muito importante na vida deles, principalmente, do meu pai, que foi um Seminário Internacional que houve, um Congresso de Crítica Literária que houve em Assis, e nesse congresso, o meu pai conheceu o professor Antônio Candido, conheceu Haroldo de Campos, conheceu Augusto de Campos, Décio Pignatari, estavam todos lá nesse congresso, fora outras pessoas também. Meu pai recebeu um convite para ir para Brasília, na Universidade de Brasília e eles foram para Brasília e a minha mãe também, para trabalhar lá com arte-educação em Brasília. Então, foi uma coisa interessante para eles. Eles foram para Brasília em 65… Meu pai foi dar aula e minha mãe também, minha mãe foi trabalhar na criação de uma escola de arte dentro da Universidade de Brasília.

 

Em 67 viemos para São Paulo, eu entrei na escola que era a escola experimental da USP, que até hoje está lá na Cidade Universitária, que fica ao lado ali da Faculdade de Educação. Então, eu estudei lá, entrei lá no primeiro ano primário e fiz lá até a quarta série, fiz o que era o primário na época. E era uma escola bem legal e tal, mas foi um período meio complicado esse da minha vinda para cá para São Paulo, porque eu fiquei muito doente várias vezes. Minha irmã é muito mais nova, cinco anos mais nova, então, tinha aquela coisa de uma certa proteção com ela e ao mesmo tempo, me enchia um pouco o saco, porque ficava rasgando minhas revistas.

 

Marcou muito quando eu tinha dez anos, no final da quarta série mesmo, a gente foi para os Estados Unidos, a gente foi morar nos Estados Unidos. A escola lá nos Estados Unidos marcou, aprendi muito, aprendi inglês, aprendi a me virar.  Meu pai foi fazer pós-doutoramento lá em Yale, a gente passou um ano e meio lá. A gente voltou e foi uma mudança muito grande, porque, na verdade, minha mãe tinha comprado um apartamento nesse interim, quer dizer, antes da gente ir, ela tinha comprado um apartamento em construção e enquanto a gente estava lá, o apartamento foi construído e tal, e quando a gente chegou, a gente mudou lá da Vila Madalena para esse apartamento, no qual a minha mãe mora até hoje, que é na Rua Monte Alegre em Perdizes. Em frente a PUC e tal e do lado de uma escola, que é o Colégio São Domingos. Uma coisa que eu era completamente apaixonado, eu gostava muito do Sherlock Holmes. Então, eu li todos os livros do Conan Doyle da série do Sherlock Holmes, era uma coisa assim que eu adorava.

 

Eu fiquei da quinta série até a oitava série no Colégio São Domingos. E no final, participei muito do centro, que é chamado Centro Cívico, eu me lembro que a gente fazia reunião do Centro Cívico em 75, e ficava com medo que a polícia viesse prender a gente. Fazia algumas manifestações do tipo Sete de Setembro, eu troquei o disquinho que ia tocar que era o Hino Nacional e coloquei o Internacional.  Eu lembro que no ano que eu ia fazer, ia ter colegial, eu decidi que eu ia para o Equipe. Em 77 a gente foi de novo para os Estados Unidos, eu passei um ano nos Estados Unidos quando eu tinha 16 anos. Meu pai ganhou uma bolsa, podia ficar um ano lá e a minha mãe foi fazer o doutoramento dela na Boston University, então, a gente foi para Cambridge, Massachusetts, ao lado de Boston e a gente morou um ano lá.  Voltei para o terceiro ano, tipo, quero entrar na faculdade. Então, entrei para o terceiro lá no Equipe tinha cursinho na época. Entrei na Física da USP. Continuava escrevendo e nessa época, quando eu tinha 17 anos, comecei a escrever algumas coisas mais interessantes.  Eu entrei na Física, mas era muita matemática, muita coisa, eu já estava muito fascinado com a Literatura. Eu fiz até o terceiro ano, larguei e fiz vestibular para Letras, entrei na Letras. Mas mesmo assim eu acho que eu aprendi muito na Física, eu gostei muito de ter estado lá, acho que foi importante para mim, principalmente, de novo com essa coisa do espírito científico.

 

Eu estava na Física e comecei a trabalhar no São Domingos, comecei a dar aula de Matemática lá, eu dava aula de reforço para os alunos no São Domingos, eu dava muita aula particular de Física e Matemática. Então, eu dava aula já, e aula particular era ótimo, ganhava muito dinheiro, para mim na época era muita coisa.  Na verdade, assim, eu dava aula no Equipe, quando me ligaram do Logos, me convidando para ir lá, a diretora da escola, a Célia me ligou, me convidado para conhecer, a Lia, que era minha orientadora no Equipe trabalhava lá no Logos e o Logos pagava o dobro que o Equipe pagava. Então, eu fui lá, gostei e comecei a dar aula. Tinha um fator para mim, importante, que era que no Equipe eu me sentia em casa. Durante um bom tempo dei aula nas duas e depois eu saí do Equipe e fiquei só no Logos, porque me ofereceram muito mais aula, eu ganhava muito mais, na época, eu casei. Casei com uma aluna minha do Equipe. Ela tinha 18, eu tinha 26. A gente ficou casado cinco anos. Ela fez a faculdade e tal, mas depois, a gente foi um período para Alemanha, foi muito ruim, porque eu odiei a Alemanha, ela fez alemão, eu odiei a Alemanha, e ela queria morar lá, então começou um conflito muito grande e ela ficou lá 18 anos. Hoje em dia, ela trabalha comigo na Casa das Rosas. É super minha amiga e tal, ela é coordenadora do Centro de Referência Haroldo.

 

Eu continuei escrevendo, coisa e tal, tinha uma coisa assim, eu queria muito publicar um livro, todo mundo que escreve quer publicar um livro. O primeiro livro foi em 90, o “Rarefato.” Saiu resenha na Folha, no Estadão, no Jornal da Tarde, no Jornal do Brasil, no Diário de Pernambuco, no Estado de Minas, uma coisa que hoje em dia não sai, não sai mesmo, mas é interessante isso, a mudança que houve, da facilidade que tem hoje para publicar é muito grande, mas a dificuldade para você mostrar o seu trabalho é enorme. E na época saiu em um monte de lugar, foi muito bem recebido o livro, inclusive, foi escolhido como um dos melhores livros do ano pelo Estadão, pelo Estado de Minas, então, teve uma recepção bem legal em 90.

 

No Anglo, eu fiquei 15 anos. Na verdade, eu fiquei oito no Equipe, 15 no Logos e 15 no Anglo, fiquei um bom período no Anglo e no Logos. No Logos, eu cheguei a ser orientador, fazer parte de equipe de direção da escola e tudo, e fiquei um tempo nos dois, dar aula no Logos e no Anglo. No Anglo eu dava aula de Literatura. Depois eu pensei: “Eu quero sair” e eu fiz um projeto que eu queria sair, 2002, 2003, eu falei: “Em cinco anos, eu quero estar fora daqui,” e era meio inimaginável, quem está lá dentro é difícil sair, porque você acha que você ganha melhor do que o professor da USP.  Então, é complicado, mas eu fiz esse projeto que eu ia sair. Eu comecei a dar aula no Centro Cultural São Paulo, dar oficina da Casa do Saber, vários lugares dar oficinas separadas, até que a secretária de Cultura me convidou para dirigir a Casa das Rosas em 2004. Eu fiquei, assumi lá a Casa das Rosas e fiquei no Anglo, só que em 2005 eu larguei o Anglo e estou lá até hoje, na Casa das Rosas. Lá tinha sido um centro de artes plásticas de 1991 a 2003.

 

No entusiasmo do primeiro livro ter sido tão bem recebido, eu fiz logo em seguida um outro, então, em 91, eu já tinha um outro livro, só que eu fui levar para a mesma editora que tinha publicado, a Iluminuras e não tinha jeito de publicar, que eles não tinham grana e não tinha em lugar nenhum. E eu percebi, então, que não tinha adiantado nada ter publicado o livro e ter tido toda aquela recepção legal que teve, que ainda assim, não ia conseguir publicar o meu livro. Então, estava super mal, deprimido com isso, quando eu organizei o livro e levei para o Haroldo, e levei para o Haroldo, o Haroldo falou: “Eu quero publicar na Coleção Signos,” Coleção Signos o Haroldo tinha fundado no final dos anos 60, começo dos anos 70 e era uma coleção que tinha publicado ele mesmo Haroldo, Mallarmé, Joyce, era uma coleção, que na verdade, até então só tinha 14 números, e gente desse nível, Boris Schnaiderman, ele, Augusto, Rimbaud, Joyce, Mallarmé, e ele falou que queria publicar o meu livro na coleção dele. Eu lembro desse dia que ele me ligou para falar que ele queria publicar o meu livro e eu chorei no telefone. Só que não tinha dinheiro também e a escola em que eu trabalhava, o Logos, eu falei com as donas da escola, falei com a Célia, com a Cecília, com as donas da escola, a escola tinha várias donas, tinha oito donas, e eu falei com elas que o Haroldo tinha me pedido e tal, mas não tinha dinheiro. Elas falaram: “A escola paga,” falei: “Nossa, que incrível.” Até hoje, eu sou super grato a eles todos, porque a escola pagou o papel, pagou impressão, pagou o livro todo, saiu publicado na Coleção Signos com o patrocínio da escola, está escrito lá no livro, o livro chama “Nada feito nada”, e ganhou o Jabuti, então foi perfeito. Eu publiquei em 93 o livro e ele ganhou o Jabuti em 94.

 

Então, foi sempre uma questão de parceria, eu lembro que logo no começo uns poetas me pediram para fazer umas reuniões lá, a gente abriu para eles fazerem, então, foram algumas pessoas, gatos pingados. Mas teve um evento que eu fiz em parceria com um rapaz lá da Praça Benedito Calixto, que faz alguma coisa na Praça que chama, Edson Lima, me lembro que era aniversário da Elis Regina, acho que é 17 de março e ele propôs de fazer uma festa lá no aniversário da Elis Regina e não sei o quê, falei: “Legal, vamos fazer,” mas não esperava que fosse tanta gente, e de repente tinha mil pessoas lá dentro. Só que a gente não tinha esquema nenhum, tinha um segurança e ninguém para cuidar, não tinha produção, não tinha nada, foi meio desesperador. Então, assim, por exemplo, os primeiros cursos que a gente fez, eu abri três cursos, isso em janeiro de 2005. Um era o curso sobre Fernando Pessoa, que era a Clenir que dava, o Cláudio Daniel deu uma oficina de Haikai e eu dei, eu era o professor predileto meu, porque eu não cobrava de mim mesmo. As inscrições teve três vezes mais o número de vagas, no número de inscrições do que a gente tinha de vagas. Então, a gente tinha 30 vagas, a gente teve 90, cem inscrições para cada curso, impressionante o interesse. Eu fiquei muito surpreso e isso é o que sem mantém até hoje, todos os cursos lá acabam ficando lotados. Em 2005 a gente começou a fazer alguns eventos, começava a bolar algumas coisas, chamei um professor da USP, o Antônio Pietroforte e eu chamei e falei: “Vamos fazer alguma coisa?” “Vamos,” fizemos uma série chamada “Rompendo o Silêncio”.

 

Em abril de 2005, a gente passou a ser administrado por uma organização social chamada Abaçaí, só que a Abaçaí não tinha dotação orçamentária dentro do orçamento deles. Eu marquei 16 reuniões com o diretor executivo da Abaçaí, para conversar sobre isso e ele desmarcou todas. Então, era uma coisa muito complicada, porque eles não tinham verba, mas a Abaçaí, pelo menos, contratou essa equipe de seis que eu tinha, foram contratados, CLT, bonitinho e tal pela Abaçaí. A gente criou a OS, a gente criou a Poiesis que administra atualmente a Casa das Rosas.

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