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História

Paixão pela literatura

História de: Roberto da Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 06/02/2014

Sinopse

Roberto sempre foi um aficionado por literatura. Recorda em seu depoimento que desde cedo se interessou por livros e pelos escritores. Começou a escrever cartas para escritores, tendo encontrado várias vezes com Câmara Cascudo, seu escritor predileto. Lembra o trabalho de desenvolveu em sua curta carreira nos Correios.

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História completa

Meu nome é Roberto da Silva, eu nasci em Pedro Velho, mais exatamente na Zona Rural de Pedro Velho, no dia 22 de julho de 1956. Meu pai é João Jerônimo da Silva e minha mãe é Maria Alzira de Oliveira. O meu pai era um pequeno proprietário rural que cultivava a terra, criava gado, bovino, cavalo e minha mãe era doméstica. Ele cultivava mandioca, milho, algumas vezes arroz, algumas vezes fumo, batata doce, grãos, cereais, essas coisas e frutas. Nós tínhamos produção de coco da Bahia, caju e outras frutas como laranja, limão. Geralmente só eram vendidos os cocos e as castanhas de caju, porque naquela época não havia o aproveitamento do caju, era só mais da castanha. As outras frutas eram para o consumo doméstico, para presentear amigos, vizinhos. Eu tenho dez irmãos. Um irmão mais velho que eu e nove irmãs. Eu sou o oitavo filho. O meu pai era um excelente contador de histórias, ele tinha um repertório maravilhoso. Eu depois vim descobri em livros como Contos Tradicionais do Brasil. A primeira que eu fui encontrar em livro, foi o Afilhado do Diabo. Eu tive uma infância muito livre, em contato com os animais, em contato com a natureza de uma forma geral, subindo em árvores, comendo fruta no pé, tomando leite quentinho ao pé da vaca logo cedo com as minhas irmãs e meu pai tirando o leite e a gente tomando. Depois indo tomar banho de rio, com muita liberdade. Levantava cedinho, já acompanhava meu pai para o curral. Quando era inverno, tinha um curral que era localizado mais abaixo, ficava muito encharcado, meu pai trazia umas vacas para dar leite, para uso doméstico. Logo que meu pai acordava as crianças também e já o seguiam para tomar o leite. Depois a gente voltava e ia tomar o café da manhã com coalhada, com essas comidas aqui do Nordeste, cuscuz, macaxeira, que no Sul vocês chamam aipim, tapiocas, tudo feito em casa. Aliás, é uma coisa curiosa, porque até 15 anos, quando eu morei na Zona Rural, quase toda a nossa alimentação era produzida em casa. Na escola, o primário em cada ano era só uma professora, eu comecei a estudar mesmo na cidade. Aliás, antes de entrar na escola, eu ainda tive duas professoras em períodos curtos, dessas de somente alfabetizar. Seria assim como se fosse uma substituição ao Jardim de Infância que não tínhamos, nem Maternal. Agora quando eu comecei mesmo, meu primeiro ano primário foi em 1965. Então, íamos pela manhã, estudávamos até 11 horas mais ou menos e na volta íamos a pé até o almoço, e a tarde era tarde livre para brincar e estudar. Na época da chuva muitas vezes a gente nem ia para a escola, porque era impossível. Eu acredito que a minha primeira carta, foi para a minha irmã mais velha, Élione, porque com 18 anos ela foi morar em Natal. Eu devia ter de sete para oito anos. Então, como diziam que eu tinha uma letra bonita, minhas professoras elogiavam, colegas invejavam, eu comecei a escrever as cartas para a minha irmã e outras pessoas da redondeza, que não sabiam ler. Geralmente eram cartas para acusar recebimento de algum dinheiro que mandavam e contar notícias da família, falar sobre a saúde. Eram fórmulas assim muito simples, que não me custava nada escrever. Elas me gratificavam com um frango, uma galinha, bolo, uma comida especial que tinham feito em casa, por exemplo, um bolo, ou um biscoito, sequilhos. A gente ia buscar a carta na agência. No dia que o trem passava, porque nessa época ainda havia o trem, a mala postal vinha pelo trem. E que, aliás, era o dia mais esperado, as terças e nas quintas. Então, quando eu saía da escola, já passava na agência para perguntar se havia cartas. Eu levava as cartas de casa e levava as dos vizinhos. Até cartas registradas eu assinava e recebia. Eram encomendas, dinheiro, que na época não havia vale postal, era o dinheiro mesmo naquele envelope transparente. Só recentemente eu me lembrei que as primeiras cartas, que não foi só uma, foram mais, não sei quantas, mas não foi essa. Eu me lembrei, recentemente que antes dessa eu já escrevia para as emissoras de rádio, porque eu era criança e gostava muito de história. Havia programas infantis com pessoas narrando histórias ou então com aquelas histórias em disquinhos. Contava essas histórias de fadas, de bichos, de monstros, monstros não, é também havia histórias de monstros, gigantes, geralmente era de gigantes, Joãozinho e Maria. Então, havia uma emissora de rádio em Natal que tinha um programa semanal de contação de história ou então de reprodução dessas histórias em disco e eu escrevi. Eu concluí o primário na cidade, morando ainda na Zona Rural. Passei um ano sem estudar, porque não havia ginásio na cidade. Em 1970 eu não estudei porque não tinha ginásio em Pedro Velho. Só em 1971 eu fiz o exame de admissão. Comecei a fazer o ginasial em 1971 em Canguaretama Meu pai faleceu de câncer, tinha 57 anos. Logo depois que a gente foi morar na cidade, foi morar no nosso sítio, um senhor apenas para olhar, tomar conta das coisas, ele podia cultivar a terra, mas a produção de frutas, ainda tinha lavouras, que eram de minha mãe. Então, eu que ficava indo de vez em quando com a minha mãe, trazia frutas, trazia os tubérculos, macaxeira, inhame, batata doce, essas coisas para a nossa alimentação. E depois mamãe arrendou esse sítio e era um complemento para a nossa renda familiar. As minhas irmãs depois da morte do meu pai, duas irmãs minhas foram morar no Rio de Janeiro, foram trabalhar e era com essa colaboração das minhas irmãs, o que o sítio rendia que ia dando para a gente se sustentar. Eu morei somente do início de 72, que era o meu segundo ano ginasial, até 1974 quando eu concluí o ginásio. Em 75 eu fui morar em Natal e desde então eu vivo lá. Em Canguaretama eu dava aula particular de matemática, português, era o básico. Não havia biblioteca pública e eu tinha uma carência muito grande de ler. Nesse período do ginásio foi quando eu tive a ousadia de escrever a primeira carta para Luís da Câmara Cascudo. Ele respondeu. É um cartão com uma reprodução, é uma foto da biblioteca pública que tem o nome dele, Biblioteca Pública Câmara Cascudo e ele escreveu o seguinte: “Roberto Silva, dez de julho de 1973. Sendo surdo, não uso de telefone, consequentemente ignore o número do meu, está na lista. Muita alegria em vê-lo qualquer dia na parte da tarde e creia quanto me emocionou sua afetuosa carta. Deus o abençoe. Cordialmente, Câmara Cascudo”. Porque na carta eu solicitava o número do telefone, que era para um dia agendar uma visita. Eu escrevia de vez em quando que era para lembrar, que eu não tinha ido, mas iria, porque não era tão fácil assim, eu tinha que aproveitar uma ocasião que a minha mãe fosse a Natal fazer compras, que geralmente ela ia comprar roupas para a gente, ou fazer uma consulta médica. Não era uma visita somente para fazer um passeio, tinha que ter um, era uma viagem utilitária. Então, numa dessas ocasiões, aliás, eu acho que quando eu fui, eu acabei indo sozinho, porque tinha outra minha irmã que já estava casada morando em Natal, eu aproveitei, eu acho que ela já estava casada e eu fui e, enfim, liguei e combinei a hora. Na primeira visita ele perguntou sobre mim, sobre o que era que eu estudava. Quando eu fui a casa dele foi em 74, ele já estava muito surdo, mas ele ainda usava um aparelhinho de audição, depois ele abandonou em definitivo, a comunicação era escrita, a gente fazia um bilhetinho e ele respondia. Então, nas visitas posteriores e foram inúmeras, eu já ousava perguntar coisas. Ele escrevia para intelectuais como ele do Brasil e do exterior. Bom, os correspondentes deles eram intelectuais, editoras e instituições culturais. E desses correspondentes dele, com esses correspondentes, muitos deles eu tive contato também. Eu logo nas primeiras vezes que eu fui à casa dele, eu pedi o endereço de Jorge Amado, de Raquel de Queiroz e Érico Veríssimo, que eram escritores que eu lia e de cujos livros eu gostava muito. Mandei para Jorge Amado, que me respondeu, que me mandou livros autografados, Érico Veríssimo nunca me respondeu, Raquel de Queiroz também nunca me respondeu. Mas a maioria respondeu e hoje, assim para não esquecer, eu tinha até feito uma listinha dos que eu me lembrei, um pouco antes de vocês chegarem, eu estava vendo aqui, contei 53 pessoas desses grandes nomes da Literatura Brasileira com quem eu cheguei a trocar cartas. Eles queriam saber como era minha vida, com alguns eu comecei a corresponder ainda em Canguaretama, enquanto eu ainda era estudante ginasial. Então, eles queriam saber como era Canguaretama, o que era que eu fazia em Canguaretama, o que é que eu pretendia ser. Eram essas coisas mesmo. O ano seguinte a minha visita à Cascudo, já é o ano em que eu vou morar em Natal, 1975, para estudar. Eu fui fazer o ensino que na época se chamava colegial, fiz no ano seguinte um curso do Senac de Auxiliar de Escritório. Fui morar com o meu irmão, ele já era casado, até 1980, quando a minha mãe vai morar em Natal. Eu comprei uma casa e a família toda foi morar em Natal. Houve um concurso para os Correios em 1976 e em junho eu comecei a trabalhar nos Correios. Trabalhei nos Correios de 1976, em 1978 eu já entrei na universidade, fazendo curso de Letras e já comecei com vontade de ser professor. Então, eu fiquei nos Correios até 1980, já fazia dois anos que eu fazia faculdade, deixei os Correios, pedi exoneração para trabalhar como professor no Estado. Eu fui trabalhar no Setor de Triagem. Trabalhei incialmente como auxiliar de serviços postais e depois fui ser manipulante postal, eu não sei se essas designações ainda existem, porque houve muitas mudanças nos Correios. Quando se tiravam os conteúdos daquelas malas postais, colocava-se em uma mesa que se chamava bandeja e a gente ia separando aqueles pacotes, tinham alguns que iam para o Centro de Distribuição Domiciliar, que eram as cartas que iam ser distribuídas na própria capital e para o Centro de Triagem, as cartas que iriam ser distribuídas para as cidades do interior. Então, vinha um funcionário, colocava ao lado do manipulante uma pilha de correspondências, ele ia abrindo aqueles pacotes e ia colocando em cada escaninho de acordo com o destino. Então, tinha cada escaninho, você tinha que ter uma memória visual muito grande, porque não era para você estar olhando escaninho por escaninho, nome de cidade por cidade, você já tinha que ter memorizado para agilizar o serviço.

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