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História

Paixão elétrica

História de: Wilmom Rosa Soares
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Wilmom conta de sua ascendência italiana, a sua aproximação com seu pai, a mudança de cidade quando ainda era bem novinho, a sua dificuldade de se adaptar nos colégios, até entrar em um Escola Técnica e se encantar por engenharia elétrica, aos 11 anos, e decidir com o que gostaria de trabalhar. Relembra empresas que trabalhou, como foi entrar e começar a fazer parte do Grupo da Vale, os diversos projetos que realizou lá dentro, as cidades que morou por conta dos trabalhos, como se tornou representante de duas usinas elétricas, após se aposentar, além de contar sobre a questão da energia elétrica versus meio ambiente e seus planos futuros com sua esposa e filhos.

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História completa

P/1 – A primeira pergunta que a gente costuma fazer, é pedir para o senhor repetir o seu nome completo, data e local de nascimento.

R – Wilmom Rosa Soares, nascido em vinte do dois de 1945 em Juiz de Fora, Minas Gerais.

P/1 – O nome dos seus pais?

R – Wilson Soares e Mônica Rosa Soares.

P/1 – O senhor conhece um pouco a história da sua família? A ascendência paterna, materna, seus avós? Um pouco essa origem familiar?

R – É, eu tenho alguma informação. Por parte de mãe, a minha avó era filha de italiano e por parte de pai a minha avó era filha de alemães. O avô dos dois lados eram brasileiros mesmo. Não sei, talvez descendente de português. Mas uma coisa, uma descendência mais distante, menos marcante. O que a gente tem de marcante mesmo é essa descendência principalmente de italiano.

P/1 – Hum.

R – Até o nosso comportamento, na família, é parecido com italiano. Conversar muito com a mão e tudo. Jeitão de italiano mesmo.

P/1 – Quem que era? Parte materna ou paterna?

R – Da parte materna.

P/1 – Materna.

R – Minha avó materna era filha de italiano e eu acho que esse sangue italiano foi o que marcou mais presença na gente. É, às vezes eu sou, muitas vezes eu sou confundido com italiano. 

P/1 – A sua mãe é da onde? Que região?

R – A minha mãe nasceu aqui no estado do Rio, numa cidadezinha aqui na, a margem da estrada de ferro, antiga Estrada de Ferro Central do Brasil. A cidade chama Juparanã. Meu avô era alguma coisa, era o residente, o agente da estação lá no local. 

P/1 – Hum.

P/2 -  E seu pai?

R – Meu pai nasceu em Juiz de Fora. Meu pai até eu já falei, meu pai foi funcionário público quase que a vida inteira. Mas nas horas vagas ele era um pouco cientista assim de muito, muito interessado em Astronomia, Física, eletrônica. Era um autodidata nessa área de Física.

P/2 -  Ele tinha um laboratório em casa, alguma coisa assim?

R – Ele tinha uma oficina de eletrônica. Foi onde eu aprendi, até eu estava dizendo para o Zé Carlos, eu aprendi a consertar equipamento eletrônico com ele, quando eu era menino. Mas esse não era o forte dele. O forte dele era Astronomia. E tinha um telescópio. Ia para o alto do prédio e ficava olhando anel de Saturno, Saturno, essas coisas. Ele era interessado em Astronomia. Era um pensador mesmo. Apesar de ser funcionário público era uma pessoa brilhante, sabe? Muito bom de conversar com ele.

P/1 – O senhor sabe como ele conheceu a sua mãe? Como é que foi que aconteceu esse encontro entre as duas famílias?

R – Olha, eles moravam… O meu avô pai do meu pai tinha uma farmácia em uma pracinha lá em Juiz de Fora. Se não me engano a rua chamava Rua Ágassiz, e a minha mãe morava na esquina. Eles se conheceram ali, no bairro, ali próximo do bairro Mariano Procópio, perto do Museu ali em Juiz de Fora. Eu mesmo nasci em Mariano Procópio. Mas aí já foi um pouco mais para a frente.

P/1 – O senhor passou a infância em Juiz de Fora ______ ?

R – Não.

P/1 – Não?

R – Não. Engraçado, na época que eu era pequeno, eu tinha dois anos, ninguém de Juiz de Fora ia para Belo Horizonte. Todo mundo vinha para o Rio (risos). E meu pai foi para Belo Horizonte. Então nós ficamos até isolados da família muitos anos por causa disso, entendeu? (risos) Ninguém nem ia visitar a gente. Tinha parente que nem conhecia Belo Horizonte. Agora o Rio, todo mundo vinha toda semana para cá. Então a gente foi, eu tinha uns dois anos, fui para Belo horizonte. Eu estudei em Belo Horizonte praticamente a vida inteira. Mas as férias sempre eram em Juiz de Fora. O primeiro dia de férias eu pegava um ônibus e ia para Juiz de Fora. Passei as férias, quer dizer, o que eu lembro de Juiz de Fora é só cinema, pelada. Só essas coisas que fazem nas férias, (risos) porque estudar mesmo era em Belo Horizonte. 

P/2 -  O senhor tem irmãos?

R – Tenho.

P/2 -  Quantos?

R – Tenho um irmão e uma irmã. Meu irmão é médico pediatra e minha irmã é economista.

P/1 – Essa mudança para Belo Horizonte foi por qual razão?

R – Ó, a impressão que eu tenho, é quase certa essa informação, é que meu pai passou... Meu pai fez um concurso para o antigo IAPI e passou. E foi designado para trabalhar em Belo Horizonte. Então nós fomos para Belo Horizonte por conta disso. 

P/1 – Foram morar onde mesmo?

R – Eu até acho que ele pode escolher e escolheu Belo Horizonte.

P/1 – (risos)

R – (risos) Mas isso eu não tenho certeza, não. Porque o negócio tão, na época era tão incrível que não dava nem para ter certeza que alguém de Juiz de Fora escolhesse Belo Horizonte para morar (risos).

P/2 -  (risos)

R – Era um negócio praticamente impossível na época. Isso foi o quê? 47, né? 

P/1 – A preferência era sempre pelo Rio de Janeiro, né?

R – Sempre o Rio. Sempre. Até hoje, né? (risos) O pessoal de Juiz de Fora vem todo para cá. 

P/1 – Vocês foram morar onde em Belo Horizonte?

R – Olha, nós moramos em vários lugares. Porque meu pai não tinha casa própria. Então isso é uma coisa que eu tenho muito marcante na minha infância. Eu conheço Belo Horizonte inteiro por causa disso, entendeu? (risos) A gente morava um ano em cada bairro. Então todo mundo fala: “Ah, eu fui criado na floresta. Eu fui criado na serra. Eu fui criado em Santa Efigênia.” Eu fui criado na cidade inteira (risos), porque cada ano eu morava em um lugar. Então isso eu acho que foi uma coisa que até foi, no fundo, foi até vantagem. Então moramos em diversos lugares, até que meu pai conseguiu comprar uma casa própria, um apartamento. Aí comprou no bairro da Floresta. Aí a gente passou a ter um local fixo. Mas antes era, morava de aluguel. Mudava todo ano praticamente. 

P/2 -  E quais as brincadeiras que o senhor costumava fazer em Belo Horizonte? Brincava de bola...

R – É, pelada todo mundo jogava. Inclusive eu comento o seguinte. Eu acho que nunca mais vai surgir um Garrincha no Brasil por causa disso. Não tem mais campo para jogar pelada. Sabe, quando eu era menino, Belo Horizonte tinha diversos campos de várzea onde a gente podia jogar futebol mais à vontade. Hoje os meninos ficam tudo confinado naquelas quadras de futebol de salão. Chama de Futsal hoje em dia, né? Um negócio pequeno, tudo com horário marcado para sair. Então eu sempre comento, falo: “Garrincha no Brasil nunca mais vai ter. Porque Garrincha só aprende jogar na pelada na periferia”. A gente jogava muito futebol, muita pelada, jogava na rua também. A Avenida do Contorno em Belo Horizonte tinha um canteiro central, tinha um campo de pelada atrás do outro. Todo mundo jogando bola no meio da rua. De vez em quando vinha a polícia tomava a bola, mas... Porque ali os meninos ficavam correndo na frente dos carros, era um perigo danado. E jogava um tal de Bente Altas também. Bente Altas é um joguinho que tem lá em Minas Gerais, eu não sei se tem, nem sei se tem mais. Era uma casinha com… São três pauzinhos de madeira e uma lata. A gente amassava uma lata e chamava pá. Ficava com um pé aqui na pá. Fazia uma bola de meia, a bola era de meia. E botava uma casinha dessa aqui, a outra uns vinte metros de distância. E ficava um com um pé na pá aqui, o outro com o pé na pá de lá. Aí jogava a bola para poder derrubar a casinha e aí a pessoa chutava a bola para longe. Enquanto a bola estava longe e o outro ia correr para buscar a bola a gente ficava trocando de posição com o parceiro e marcando ponto. O esquema era mais ou menos esse. Eu até já não lembro muito bem. Tem muitos anos que não vejo isso mais. Na rua em Belo Horizonte eu não vejo isso mais. Chamava Bente Altas.

P/2 -  E a escola o senhor mudava com frequência também?

R – Olha, isso aí é uma história engraçada. Eu mudei muito no princípio. Depois que eu terminei o primário, na fase ginasial, eu custei para me adaptar. Eu estudei em diversos colégios e meu pai chegou até a ficar preocupado comigo. Sabe por quê? Não tinha um lugar onde eu gostasse. Aí meu pai teve uma brilhante ideia. Foi a melhor coisa que ele fez na vida.  Ele me colocou no Ginásio Industrial da Escola Técnica Federal. Aí eu comecei a estudar eletricidade aí eu nunca mais mudei, (risos) nunca mais saí de lá. Até hoje ainda estou lá (risos). Porque depois fiz o curso Técnico de Eletrotécnica, fiz Engenharia Elétrica. Achei o meu caminho ali com onze anos de idade. Nunca mais tive problema na escola. Só estava faltando era encontrar esse caminho.

P/2 -  E o que vocês aprendiam? Tinha uma formação técnica desde cedo?

R – Tinha. Olha só: no primeiro era o equivalente ao Ginásio. No primeiro ano a gente fazia um negócio chamado rodízio. A gente passava na oficina de mecânica, de marcenaria, carpintaria, fundição e eletricidade, e a gente escolhia a profissão, qual que a gente gostasse mais. Quando eu passei na eletricidade eu falei: “Eu gostei foi disso aqui.” Aí desde esse dia, desde onze anos de idade, até… Eu me formei em engenharia com 25, eu nunca estudei outra coisa a não ser eletricidade (risos). Gostei mesmo.

P/1 – E dentro de casa, Seu Wilmom? Como era um pouco a relação com o pai, com a mãe? Quem que exercia a autoridade dentro de casa? _______ essa relação?

R – Era, eu acho que era uma família normal, sabe? Agora eu era mais ligado no meu pai por causa da tendência nossa de gostar de eletrônica e de também ir para o alto do prédio e ficar olhando a lua com ele, no telescópio. O meu irmão não, o meu irmão já estudou medicina, já era mais, um pouco mais diferente do meu pai do que eu (risos). Então... Mas aí eu tinha muita afinidade com ele, eu era muito amigo. Você vê que eu sou torcedor do América Mineiro por causa dele. A  coisa mais rara que tem em Belo Horizonte é um torcedor do América Mineiro, né?

P/1 – Hum.

R – E eu comecei a torcer por causa do meu pai. O meu irmão é cruzeirense. Então eu tinha essa relação muito estreita com ele. Ele tinha oficina de televisão e eu ajudava ele. Eu era muito ligado com meu pai. E a família era uma família normal, igual a todas que tem por aí.

P/1 – Na sua casa tinha alguma perspectiva de que você seguisse alguma carreira profissional?

R – Não.

P/1 – O seu pai pensava alguma coisa assim?

R – Não, o meu pai era bem liberal nisso aí. Ele me colocou numa Escola Técnica assim como último desespero. Ele falou: “Você quer estudar em lugar onde aprende ofício?” Eu lembro dele me falando isso.

P/1 – (risos).

R – Eu falei: “Olha pai, vamos ver. Se eu gostar...” Eu não dava certo em escola nenhuma. Aí ele me botou lá nunca mais eu tive problema (risos). É o que eu estava falando para ela. Era o meu caminho, era aquele mesmo. Eu acho que sim.

P/1 – E a faculdade? Como foi um pouco essa entrada na faculdade? 

R – Aí já foi um pouco mais sacrificante. Porque eu estava, eu casei muito cedo. Eu casei com 22 anos de idade. E eu já estava... Eu tinha feito Escola Técnica e estava trabalhando. Fiz vestibular e passei na PUC e fiquei estudando a noite. Só que no serviço sempre viajava muito. Naquela época, Belo Horizonte dependia muito nessa área de eletricidade, iluminação, essas coisas, dependia muito de São Paulo. Toda conexão era com São Paulo. A gente não saía de São Paulo. Então eu viajava muito para São Paulo, muito para o interior também. E foi difícil. Eu fiz o curso, acabei fazendo o curso em seis anos. Eu perdi um ano de tanto viajar e perder prova, perder aula, essas coisas todas. Mas no final valeu a pena. Além de que, pagava meu salário, gastava o salário quase todo (risos) para pagar a mensalidade da escola. Setenta por cento do salário ia para a escola. Mas também foi o melhor investimento que eu fiz na minha vida. Até hoje eu falo isso com a minha mulher. Eu falo que foi o dinheiro mais bem empregado da minha vida. Porque faz trinta anos que eu trabalho em função daquilo que eu aprendi (risos) ali. Acho que valeu a pena.

P/2 -  E por que o senhor decidiu fazer a faculdade, fez uma formação técnica e depois fez a faculdade? Era uma necessidade do trabalho?

R – Não, era um caminho natural.

P/2 -  Hum, hum.

R – Eu acho que era natural. Todo mundo tentava o vestibular. Quem não passava ficava como técnico. Quem passava fazia Engenharia. Todos os meus colegas fizeram a mesma coisa. Todos são assim. Os que passaram, todos hoje são engenheiros. Era natural. Era o caminho. Lógico, e na PUC. Porque antes em Belo Horizonte não tinha curso de Engenharia noturno. Só tinha Federal que tinha que dedicar o dia inteiro. Aí o pessoal não prosseguia. Fazia o Curso Técnico e parava. Depois que a PUC abriu o curso de engenharia a noite, aí a tendência foi todo mundo fazer isso. Seguir esse caminho.

P/1 – O senhor já trabalhava nesse tempo?

R – Trabalhava.

P/1 – Com que…?

R – Trabalhava. Eu formei na Escola Técnica em 65, comecei o meu primeiro emprego registrado em carteira em 65. E aí eu fiz o curso, eu fiz Engenharia toda trabalhando.

P/1 – Trabalhando onde?

R - ________

P/1 e P/2 – (risos)

R – Trabalhei, eu mudava, acho que era muito fácil conseguir emprego (risos) ou qualquer coisa parecida. Na Cemig, por exemplo, eu trabalhei três vezes. O primeiro emprego foi na Cemig. Depois eu fui para a Philips. Trabalhei na GE. Trabalhei na, dei aula... Não, isso foi mais tarde. Trabalhei na GE e da GE eu fui para... Agora me apertou um pouco.

P/1 – Hum. A memória...

R – A memória às vezes falha. Mas assim a gente até formar, quando eu formei eu estava na Cemig. E, agora me apertou um pouco. Eu me confundi um pouquinho aqui.

P/2 -  E sempre a função que o senhor exercia era de Técnico Eletrônico?

R – Sempre trabalhei na área de eletricidade até um, mais na frente, né? Depois no finalzinho aqui na Vale já, aí eu já comecei a diversificar o… Já comecei a atuar em outras áreas. Mas a minha, a parte mais forte sempre foi eletricidade mesmo. E como hobby eletrônica. Sempre gostei de eletrônica demais.

P/1 – Nesse período que o senhor estava trabalhando e fazendo o curso, tem algum trabalho que marcou mais o senhor? Era um pouco complementar essa coisa do trabalho como estudo?

R – Sim, deixa eu lembrar. Eu ganhei um prêmio com, eu trabalhei na Philips fazendo iluminação. Projeto de iluminação. Teve um projeto que eu fiz da iluminação da fachada da Câmara dos Vereadores de Belo Horizonte. Saiu na capa do catálogo telefônico. Eu fiquei bem orgulhoso nessa época. Eu fiquei um ano vendo o catálogo telefônico (risos) com um projeto meu lá. Foi um dos primeiros prédios que iluminou a fachada em Belo Horizonte. Esse eu lembro bem. Foi muito bom. 

O primeiro túnel que teve em Belo Horizonte. Essa história é até engraçada. Essa acho que vale a pena contar. Eu estava... Eu tenho pavor de avião. Até recentemente ainda tinha (risos). Há uns dez anos atrás ainda tinha um pavor de avião. Um negócio, eu sou famoso na Vale pelo medo que eu tinha de avião. Você conversa com as pessoas lá, eles vão falar: “Ah, o Wilmom é aquele que tem medo de avião.” Então eu trabalhava na Companhia Força e Luz de Minas Gerais e Belo Horizonte estava fazendo o primeiro túnel. O túnel Lagoinha-Concórdia. Não tinha túnel nenhum em Belo Horizonte, esse foi o primeiro. Aí tinha que fazer a iluminação do túnel. Aí eu vim ao Rio para fazer um estágio na Light. Aí o chefe falou comigo: “Ô Wilmom, você vai ao Rio...” eu ia ficar uma semana, de segunda a sexta aqui na Light. Ele falou: “Você passa no túnel velho de Copacabana para ver como é a iluminação lá, porque nós estamos querendo utilizar a mesma luminária aqui em Belo Horizonte. Eu vim, e no último dia, na sexta-feira, eu não conseguia concentrar em nada. Eu só pensava no avião que eu ia pegar de noite (risos). Aí ________, tremi o dia inteiro de medo do avião e chegou eu fui embora para Belo Horizonte. Cheguei lá, eu falei: “(Nó?), não fui no túnel de Copacabana.” (risos). Aí peguei minha mulher, peguei meu carro, vim de Belo Horizonte ao Rio no sábado de manhã. Passei no túnel velho de Copacabana umas dez vezes (risos), voltei para Belo Horizonte. Segunda-feira eu já estava com o relatório completo da iluminação (risos). Foi uma das coisas mais engraçadas que aconteceram na minha vida. Eu voltei aqui de carro para poder passar no túnel (risos). Porque eu tinha esquecido, de tanto medo de avião. Me lembro esse dia ainda, cheguei no avião, sentou uma irmã de caridade com aquela farda preta do meu lado. Eu falei: “Nossa!”

P/1 – (risos).

R – Aí eu fiquei mais assustado ainda. Eu falei: “Agora que eu vou. A irmã já está aí para anunciar o caminho lá do além para nós” (risos). Era um medo terrível, viu? O pessoal ria de mim na Vale toda vida.

P/1 – Tem outras situações assim que o senhor lembra dessa... De ter enfrentado esse medo?

R – De avião?

P/1 – É.

R – Daqui a pouco eu vou lembrar. Tem muitas. Tem muitas assim de querer voltar da porta. De querer descer do avião. Isso o pessoal se divertia comigo demais.

P/1 – E aí depois que o senhor tem essa carreira, como foi a entrada na Vale? Já depois da faculdade, ou não?

R – Pois é. Aí eu formei em setenta e fui trabalhar, trabalhava na Força e Luz e depois eu tive uma empresa minha. Saí... Nessa época eu dava aula na PUC, lá em Belo Horizonte. Eu logo que eu formei eu comecei a dar aula de, dava aula de eletricidade básica. Era assistente de um outro professor em aula prática e tal. Aí nessa época eu fui para a Excelsa. Fui trabalhar no Espírito Santo em 72. Eu entrei em uma empreiteira da Força e Luz lá, e a empreiteira me pediu para vir para Vitória. Aí eu fiquei um tempo nessa empreiteira e depois passei para a Excelsa. Trabalhei um ano na Excelsa, doido para voltar para Belo Horizonte. Tanto que em 74 eu voltei para a Cemig de novo em Belo Horizonte. Aí o setor que eu estava trabalhando dentro da Cemig foi extinto e eles começaram a distribuir as pessoas. E para mim eu ia ter que ir para o interior. Me ofereceram Formigas ou Passos. Nessa época apareceu… A Vale estava começando a implantar a Cenibra. Foi aí que eu entrei no Grupo da Vale. A Vale estava implantando a Cenibra. Eu saí procurando emprego e consegui para ir para a obra da Cenibra lá em Belo Oriente. Aí que eu entrei nesse grupo que eu lhe falei que foi um pessoal oriundo de Carajás, de Tubarão e de Itabira. Mais gente de Itabira mas tinha alguns de Tubarão. Juntaram para poder formar o grupo que ia construir a Cenibra junto com o sócio japonês. E eu entrei nesse grupo, aí não saí mais. Aí foi Cenibra lá em Belo Oriente. Depois fomos para a Vale Fértil, que hoje é (Foz Fértil?) lá em Uberaba. Dali a gente, o pessoal foi para a Albrás. Aí eu fui trabalhar numa projetista, mas trabalhando com projeto de Conceição. Instrumentação da Usina de Conceição da Vale. Aí voltei para a Albrás. Ficamos algum tempo na Albrás. Depois entramos na Amazônia Mineração. Aí na Amazônia Mineração aqui no Rio, nós trabalhamos no Projeto Carajás. Depois fui para Carajás. Fiquei em Carajás, a primeira fase eu fiquei em Carajás de abril, foi na quinta feira Santa que eu fui, de 1983 até 86. 86 eu fui para São Luiz para terminar alguma coisa que tinha lá de resto de obra. De São Luiz fui para Belo Horizonte. Fiquei algum tempo em Belo Horizonte. Mas nesse tempo que eu fiquei em Belo Horizonte eu trabalhei no Projeto Maria Preta. Eu fiquei direto em Maria Preta sessenta dias. Alguma coisa em Fazenda Brasileiro e alguma coisa naquela Capitão, naquela Ferrovia Capitão do Ar Costa Lacerda. Aquelas pontes metálicas. Nessa época eu já estava desligando um pouco da eletricidade. Já estava fiscalizando montagem de ponte metálica, essas coisas todas. Foi quando eu comecei a... Tem que ir devagar que a memória às vezes dá uma falha.

P/1 – É.

R – Então aí nessa do Capitão do Ar Costa Lacerda, a Vale começou a implantar o Projeto do Igarapé Bahia, da Mina do Igarapé Bahia. Aí eu fui para lá. Mas nessa época eu trabalhava na Superintendência de Implantação da Vale. A Suimp. Quando terminou aÇúcar, aÇúcar era Superintendência de Implantação do Projeto Carajás. Foi a primeira que eu trabalhei na Vale. Aí terminou aÇúcar, a gente passou um fase na Suenge, na Superintendência de Engenharia. E depois foi criada a Suimp, Superintendência de Implantação, que o Superintendente era o Fábio Lage. Aí eu fui trabalhar com o Fábio e a gente trabalhou nessas obras todas, a parte do ouro praticamente toda foi a Suimp que implantou. Nessa época a Superintendência de Metais Nobres estava começando e tal. Então só tinha aquela parte de operação. A parte de implantação era responsabilidade da Suimp. Aí fomos implantar o Igarapé Bahia lá na, cem quilômetros para lá de Carajás. Eu trabalhei na montagem do Igarapé Bahia. Depois fui convidado pelo pessoal da Sumen, Superintendência de Metais Nobres para trabalhar na operação, na manutenção e operação da usina. Aí eu fiquei mais um tempo no Igarapé Bahia. Fiquei na parte de manutenção elétrica e depois fiquei como gerente da usina mesmo. Na operação da usina. Até surgir o Projeto Serra Leste. Quando surgiu o Serra Leste eu voltei para a área de implantação mas aí já dentro da Superintendência de Metais Nobres. Nessa época não tinha mais a Suimp. Aí eu já fui para ser o responsável pela implantação da obra de Serra Leste mas pela Superintendência, na época se não me engano, ainda se chama Sumen. Superintendência de Metais Nobres, depois virou Diretoria. Mas na época ainda era Sumen. Aí fomos para lá para implantar o Projeto Serra Leste. E nessa época eu aposentei. Eu aposentei em outubro de 97. Aí vim para Belo Horizonte fiquei três dias em Belo Horizonte, fui para a Cobrasco lá em Vitória (risos). Trabalhei na obra da Cobrasco, voltei. Fui para a Fazenda Brasileiro. Trabalhei no (shaft?) de minério da Fazenda Brasileiro. Saí de Fazendo Brasileiro fui para a Vale Energia. Na época chamava Vale do Rio Doce Energia. E estou lá até hoje. Só que agora é Diretoria de Energia, _________. Estou lá, sou responsável pela, sou representante da Vale do Rio Doce em duas usinas hidroelétricas. Porto Estrela que nós estamos inaugurando agora, dia nove do dez. Com a presença do presidente da Companhia, o Governador de Minas. Vai ser inaugurada agora. A usina já está funcionando. E Candonga que é uma usina no Rio Doce lá perto de Ponte Nova, que nós estamos começando a obra agora. Mas já vamos desviar o rio agora em outubro. Uma etapa importante em uma usina hidroelétrica é o desvio do rio. A gente prepara o desvio do rio, faz o desvio, aí você fica com o leito do rio livre para você poder fazer as estruturas de concreto, ou a barragem de terra, de rocamento ou de concreto. Então aí você faz a obra toda depois você fecha o desvio do rio, o rio volta para o leito normal aí você aproveita a energia. Esse desvio do rio em Candonga nós vamos fazer agora em outubro. É uma fase importantíssima da obra porque ela tem o dia certo de fazer, a época certa de fazer. Porque tem que ser na seca. No final da seca de preferência, né? Outubro é o final da seca. De outubro para a frente começa a chuva aí o volume de água vai ficando tão grande, aí começa a ficar difícil de controlar. Então é a melhor fase é essa no finalzinho da seca, início da cheia. 

P/2 -  Seu Wilmom, uma pergunta, voltando um pouquinho para o início da sua carreira na Vale, na Cenibra, tinha algum critério especial o trabalho com eletricidade? O senhor trabalhava com outros engenheiros? Como era essa integração da equipe?

R – Foi uma fase muito boa. Foi um aprendizado assim... Eu acredito que durante a minha vida toda eu nunca aprendi tanto em tão pouco tempo quanto na Cenibra, sabe? Era uma obra muito grande com tudo o que tinha de completo, de moderno em termos de eletricidade na época. E o pessoal muito preocupado em que aquilo... Parece que era uma obra tão grande, e era uma coisa nova dentro da Vale. O pessoal todo acostumado a trabalhar com minério de ferro de repente foi montar uma fábrica de celulose. Então eu não sei se por causa disso o pessoal ficou muito preocupado. E a gente se cercou de todos os cuidados. Então contratamos empresas especializadas em engenharia elétrica e foi uma fase de muito aprendizado para mim.

P/2 -  Eram Companhias nacionais?

R – É. Tinha uma empresa de Santos, uma empresa chamada Triel. Triel era empresa especializada mesmo em eletricidade, aquela parte mais fina da eletricidade. Estudo de fluxo de potência, de curto-circuito, aquelas coisas que até naquela época o pessoal levava isso mais ou menos. Não dava aquela importância nisso. Essa parte de aterramento, de curto-circuito, de fluxo de potência. Na época era um negócio que estava começando a ter a importância que hoje tem. Então essa empresa era super especializada. A Cenibra contratou essa empresa, eles levaram os técnicos de alto nível para lá. Foi o lugar onde eu mais aprendi na minha vida foi na Cenibra.

P/1 – Quem era esse grupo?

R – Era da Triel.

P/1 – De implantação. Não o grupo de implantação.

R – Ah, o grupo? O grupo era o Diretor Brasileiro, era o Renato Moretzsohn. E ele com a equipe dele. Ele tinha sido gerente de obras em Itabira. Essa fase eu não acompanhei não. Conheci ele já na Cenibra. E ele trouxe algumas pessoas que trabalhavam com ele em Itabira. O Fábio Lage, o Zé Oswaldo, uma turma veio com ele de Itabira. Vieram alguns de Carajás. O Jomar, Tadeu, vieram de Carajás. Eu falo Carajás mas eu confundo, é Tubarão. 

P/1 – É.

R – Nem tinha Carajás na época. Então vieram. De Tubarão veio o Jomar, veio o Tadeu. Aí esse grupo foi formado para implantar a Cenibra e a sede era no Edifício Dantês em Belo Horizonte. O Edifício Dantês, até recentemente a Aposvale funcionava no Edifício Dantês. Eu acredito que ainda esteja lá. Então é um edifício no centro de Belo Horizonte, do lado da Praça _______, na Avenida Amazonas. E a sede da Cenibra era ali. E a obra em Belo Oriente, né? Perto de Ipatinga. Então foi uma fase muito assim, das melhores coisas que eu fiz na minha vida foi ter trabalhado na Cenibra, em termos de aprendizado de eletricidade. Tudo moderno. Os japoneses trouxeram uma tecnologia muito nova e tal. E a gente teve muita chance de aprender. Foi ótimo, tinha de tudo na fábrica.

P/1 – Como é que era _____ as tarefas, isso acontecia...

R – Às vezes era um pouquinho complicado. Os japoneses, eu acho, eu não sei se eles são mais desconfiados (risos) ou se nós que somos mineiros somos mais desconfiados que os japoneses.

P/2 -  (risos).

R – Tinha um clima assim de desconfiança do tipo assim: “Será que esse cara sabe o que ele está fazendo?” (risos). É mais ou menos um tomando conta do outro, mas é um negócio produtivo, porque na hora de somar, somava. E cada um contribuía com aquilo que sabia. Sempre querendo mais assim, porque as pessoas são atreladas a origem dela, a escola, né? Por exemplo, tem uma tendência dentro das escolas, alguns professores vieram de um determinado lugar, então por exemplo, em Minas Gerais a gente tem uma, em termos de eletricidade a gente tem uma tendência de seguir muito a linha européia. O pessoal da Siemens, que usa muito fusível em vez de disjuntor, entendeu?

P/2 -  Hum, hum.

R – Já tem outros lugares que o pessoal segue mais a linha americana. O americano é mais comodista, assim, era na época, né? Então usava o disjuntor ao invés de fusível para não ter que ficar trocando fusível (risos). A lâmpada deles era lâmpada de, lâmpada fluorescente de partida rápida que __________ tudo mais simplificado. E a gente era, seguia mais a linha européia, talvez porque o pessoal de Minas Gerais é muito ligado à Siemens. A Siemens tinha uma influência muito grande na parte elétrica, lá no estado. Então formação de professores e tudo. Muitos professores nossos tinham feito curso na Alemanha, então a gente tinha uma tendência mais européia, que a gente dizia. De usar mais fusível do que disjuntor, esse tipo de coisa. Então o japonês também tinha isso. O japonês era mais ligado para o lado americano. E a gente, às vezes, divergia alguma coisa, era nisso aí. Isso em termos de eletricidade, né? Agora no relacionamento pessoal não. Eles eram muito boas pessoas. 

P/2 -  E o que prevaleceu na obra: disjuntores ou os... (risos) da Cenibra?

R – Não, eu acho que foi a gente que...

P/2 -  Ganhou?

R – É, prevaleceu, foi a nossa tendência mesmo. Porque a Triel também, a empresa, o cérebro dela na parte de eletricidade era esse pessoal da Triel. Eram os técnicos de alto nível. E eles eram da nossa escola também. A maioria do pessoal da Triel tinha feito curso na escola da Cemig de Sete Lagoas. A Cemig tinha uma escola em Sete Lagoas e tem até hoje, que formava técnicos de altíssimo nível. Durante a minha vida toda eu trombei com pessoal formado nessa escola de Sete Lagoas da Cemig. São todos técnicos excelentes. E essa Triel aproveitou muita, muita gente __________. Mas a cabeça da Triel era o pessoal da escola de Itajubá, de Minas Gerais, que tinha ido trabalhar em São Paulo, em Santos e fundaram a Triel lá em Santos. Essa empresa nem existe mais, a Triel. Hoje ela não existe.

P/2 -  E depois da Cenibra o senhor foi para que projeto?

R – Aí nós implantamos a Cenibra e aí o grupo consolidou mesmo. O que a gente não sabia de obra a gente aprendeu na Cenibra. Aí fomos fazer a Vale Fértil lá em Uberaba. Fábrica de fertilizantes que depois foi vendida, e hoje chama Fosfértil, na margem do Rio Grande perto da Usina de Igarapava. Da usina hidrelétrica de Igarapava.

P/1 – Hum.

R – Fomos para lá. Essa obra foi um verdadeiro show de bola. A gente estava afinado. Eu acho, eu tenho a impressão que foi a obra mais redonda que eu já trabalhei na minha vida. Tudo dava certo. A gente já sabia de tudo o que ia acontecer. Previa tudo. Planejamento perfeito. Foi a obra, para mim foi a melhor obra que eu trabalhei.

P/2 -  A mesma equipe da Cenibra?

R – A mesma equipe, é. Exatamente a mesma equipe, talvez maIs, entraram alguns, saíram, mas tão poucos que eu nem... Tem gente que às vezes eu confundo. Encontro com o pessoal falo: “Eu te conheci foi na Cenibra ou na Vale?” É, às vezes eu confundo. Então o grupo era homogêneo, a mesma, as mesmas pessoas.

P/2 -  E em termos de planejamento mudava muito o fato de ser celulose para fertilizantes?

R – Não, porque a gente tinha as empresas licenciadoras. As empresa que detém o know-how do processo. Essas empresas são, normalmente elas são contratadas. Elas fornecem os dados básicos para o dimensionamento do processo base. Depois de dimensionado o projeto básico aí fica fácil. Porque motor elétrico é tudo a mesma coisa. Então aí você começa a implantar, fazer o projeto detalhado e a implantação em cima dos dados de processo que aquele pessoal determinou. Volume de água, essas coisas, insumos, isso tudo é o know-how do pessoal que fornecia para nós, entendeu, esse know-how. Agora o resto era um detalhamento, era um feijão com arroz. Ligação de cabo, motor, essas coisas a gente dominava tranquilamente. Só o processo é que às vezes era um pouco estranho para nós. Não na parte de minério de ferro - na parte de minério de ferro a Vale dominava completamente -, mas celulose a gente dependia dos japoneses. Na parte de fertilizantes também, dependia de grupos alemães, estrangeiros, entendeu? Para transferência de tecnologia, de know-how. Agora, o detalhamento da obra, construir prédio, botar cabo, motor, isso a gente dominava completamente. 

P/2 -  E como foi o relacionamento com os alemães _________?

R – Tinha um pessoal da França, tinha os japoneses também. Não, esse relacionamento, na minha área não tinha, na Cenibra a gente tinha um relacionamento muito estreito. Tinham três engenheiros eletricistas brasileiros e três engenheiros eletricistas japoneses. Um praticamente marcando os passos do outro. Agora, na Vale Fértil eu não tive quase que relação nenhuma com o pessoal da... Tinha o pessoal francês, tinha da ____________. Tinha o pessoal da... Cada área tinha um consultor estrangeiro. Mas na minha parte não tive muito relacionamento com eles. Eles trabalhavam mais na parte do desenvolvimento do projeto básico. E a gente já era na parte do detalhamento, implantação. Então lá eu não tenho muita... Tenho assim, eu tenho umas notícias engraçadas, porque a gente trabalhava na estrada da cana e era uma estrada, na época, no meio do canavial. Quando a cana estava alta você nem enxergava fora. Você olhava fora do carro e só via cana. Então teve um dia um francês passou direto numa curva (risos) e andou uns quinhentos metros para dentro do canavial, assim com o carro e ficou aquela estrada assim de lado. Aí a gente ria muito disso. Falava: “Olha, o Fulano de Tal entrou direto aqui (risos)". A gente nem sabe porque ele perdeu o controle da direção e passou direto. Você falou e agora eu lembrei desse caso. Mas eu não tinha muito contato. E a gente morava já em uma cidade maior, né? Por exemplo: Carajás. Carajás a gente tinha um relacionamento muito íntimo, que era… Eu morava no N5 ali. Ali era muito pequeno, né? Morava todo mundo em um pedaço pequeno. Agora a Vale Fértil a gente morava em Uberaba. Uberaba era uma cidade grande, então final de semana a gente praticamente nem encontrava com as pessoas. Não é o mesmo relacionamento de Carajás, entendeu?

P/1 – E mão de obra desses empreendimentos, quer dizer, Cenibra, Vale Fértil era local mesmo ou não?

R – Olha, as empreiteiras elas costumam trazer até um determinado nível, elas têm um pessoal próprio delas, pessoal de confiança. Até o nível de encarregado eles trazem junto com eles. O resto, a mão de obra direta, mais comum, mais simples eles contratam na região. Inclusive isso é bom porque essa mão de obra custa mais barato para a empreiteira também. Pelo fato de ser da região não tem que alojar, entrega em casa à noite. Às vezes nem jantar não dá. Só dá o café da manhã e o almoço. Custa mais barato e a gente tem esse compromisso com as populações. Todo lugar que a gente vai implantar alguma coisa a gente tem sempre esse compromisso de empregar o máximo possível de mão de obra local. Isso é uma preocupação que eu tenho muito, sabe? Agora, por exemplo, nós estamos terminando Porto Estrela. Porto Estrela eu acompanhei isso o tempo todo. Porto Estrela chegou a empregar 67% de mão de obra da região. Porto Estrela é ali perto de Ipatinga, Município de Açucena, Joanésia e Braúna. São os três municípios atingidos. E chegou... Eu acompanhava isso direto no relatório. Chegou a dar 67% de mão de obra da região. Agora em Candonga, é município de Santa Cruz Descalvado e Rio Doce, ali próximo de Ponte Nova. Cidade grande é Ponte Nova. Nós estamos com mais de cinquenta por cento de mão de obra da região. Eu tenho reunião lá toda quarta feira, a primeira coisa que eu olho é como está o número de empregado aqui da região. Aí já tem até uma lista que eles me apresentam com pessoal de Rio Doce, Santa Cruz Descalvado. A gente batalha muito por isso. É um compromisso que a gente tem com a população. E para eles é ótimo que sai muito mais barato. Lá em Curionópolis foi a mesma coisa, em Serra Pelada. Em Serra Pelada o pessoal relutou um pouco porque a mão de obra era muito despreparada, sabe? E deu certo. No final o empreiteiro gastou menos e a obra saiu. Então é o que eu falo para todo mundo, depois que deu certo lá em Curionópolis isso tem que dar certo em qualquer lugar do Brasil (risos). Porque mão de obra menos qualificada que a que tinha lá, nós não vamos encontrar em lugar nenhum. Lá tinha mais garimpeiro, pessoal ali da mata e tal, pessoal muito despreparado. Nesses lugares você tem o pessoal de área rural e tal, mas é um pessoal que com pouco treinamento você consegue encaixar no esquema. O resto ele aprende na obra, né? Em Candonga, agora, nós demos uns cursos preparatórios. Um curso de, que eu digo sempre, o curso chama curso de eletricidade. Mas não era para formar eletricista, você não consegue. Nós contratamos o Senai e o Sesi e demos um curso para o pessoal que estava interessado, com vistas a aproveitar a mão de obra no projeto, sabe? Só que tinha lá: Curso de Eletricista. Aí o próprio cara que fez o curso achava que era, que virou eletricista. Eu sempre falei: “Não é para virar eletricista. É para o cara ter noção de equipamento de segurança, ter noção do que é uma empresa.” O cara até outro dia estava na lavoura com a enxada na mão. Então ele não sabe o que é calçar uma bota para trabalhar. Então passando por isso, tendo noção de segurança do trabalho e alguma noção de eletricidade a gente vai introduzir essa pessoa na obra como ajudante de eletricidade para acabar de aprender na obra. A ideia é essa. Então nós temos uma turma que nós formamos. Eu estou até convocando agora para sexta feira uma reunião para a gente conversar especificamente desse assunto, sobre o aproveitamento dessa mão de obra no empreendimento.

P/1 – Tem muita diferença regional dessa mão de obra?

R – Ó, tem porque depende da atividade básica do pessoal. Por exemplo, na Vale Fértil eu lembro bem, quando chegava a época de colher a cana a diária na plantação era um pouco maior do que na obra (risos) caía todo mundo fora. Lá em Carajás tinha um pessoal que quando liberava o garimpo (risos) sumia os ajudantes todos da obra também. Então tem esse negócio regional. Na região o pessoal tem umas certas, exerce certas atividades que, às vezes, elas não duram o ano inteiro, mas quando tem aquele serviço ele remunera melhor do que trabalhar de ajudante em uma obra, entendeu?

P/1 – Hum.

R – Então costuma ter essa evasão, assim. No meio da obra saem os ajudante todo. Ninguém quer trabalhar. Aí você passa aquele aperto, aí tem que buscar mais gente. Isso costuma acontecer.

P/2 -  E você fica em Minas Gerais até quando? Sai direto para Carajás ou vai para um outro lugar depois da Vale Fértil?

R – Na Vale Fértil, a gente… Esse nosso grupo da Vale Fértil, o pessoal foi para a Albrás. Mas nós ficamos pouco tempo na Albrás, porque houve um remanejamento na Vale e a equipe que estava na Albrás veio para assumir a Amazônia Mineração. Me parece que o Projeto Carajás se tornou uma prioridade em relação ao projeto da Albrás na época. Então essa equipe estava afinada, estava toda formada, aí nós viemos para a Amazônia Mineração. Foi quando eu passei a ser funcionário da Vale do Rio Doce. Eu fui funcionário da Cenibra, da Vale Fértil e da Amazônia Mineração. Na Amazônia Mineração a Vale assumiu o controle e a gente passou a ser funcionário da Vale do Rio Doce. No meio do Projeto Carajás.

P/1 – Nesse tempo que você está na Cenibra, Vale Fértil e depois um tempo na Albrás, como é que era a relação com a Vale do minério de ferro com a Vale da mineração? Tinha uma relação? Como isso se estabelecia? 

R – Olha, na Cenibra eu senti pouco isso e na Vale Fértil também. Porque eram dois negócios completamente diferentes do que a Companhia fazia. Agora, no Projeto Carajás foi o mais íntimo possível. Por exemplo, o pessoal de Itabira participou o tempo todo das definições básicas do projeto da mina de Carajás. E o pessoal de Tubarão participou o tempo todo das definições do projeto de São Luiz, do Porto. Então nessa época no Projeto Carajás a experiência da Vale foi toda utilizada. Toda experiência anterior foi transmitida para nós pelo pessoal de operação de Vitória e de Itabira. E a gente mesclou isso tudo. Foi tudo utilizado como know-how para as coisas darem certo. Acho que esse talvez tenha sido o motivo do sucesso do empreendimento, né? 

P/1 – Hum.

R – Em cinco anos implantamos o projeto na Amazônia e em cinco anos botamos ele para funcionar (risos). Para mim aquilo ali foi uma vitória, né?

P/2 - E essa equipe participou então dessa parte de processo que você me explicava da Vale Fértil?

R – Isso. Eles, exatamente. O pessoal de Itabira, o pessoal com know-how de mineração e de porto, de ferrovia. Eles participaram o tempo todo. Todas as definições. Direto, mas direto e reto. Todo dia eu lembro que tinha um pessoal em reunião. A superintendência que cuidou do projeto de implantação de Carajás foi a aÇúcar. Quem da aÇúcar trabalhava com a mina de Carajás tinha contato direto com o pessoal de Itabira. Quem trabalhava no porto tinha contato direto com o pessoal de Tubarão. E na ferrovia a mesma coisa. A experiência toda da Vale foi utilizada em Carajás.

P/1 – Para o senhor, como que soou esta história? Quer dizer de Carajás. Quando o senhor ficou sabendo que ia participar desse grupo de implantação de Carajás que lhe pareceu aquilo? O projeto ou a perspectiva?

R – É engraçado, rapaz. Isso aí é uma coisa engraçada. Eu estava, eu não tinha ainda, eu fui automaticamente, né? Porque o pessoal foi e eu fui junto. Mas eu não tinha ainda tomado consciência da grandiosidade daquilo que eu estava encarando não. Aí um dia, olha que coisa engraçada, eu estava aqui no Rio, eu estava morando aqui no Rio. Eu fiquei aqui de oitenta a 82, final de 82 trabalhando no Projeto Carajás. Aí eu fui assistir aquele filme “Bye Bye, Brasil”, e naquele filme, assistindo o filme, eu estava trabalhando na Amsa, na Amazônia Mineração, assistindo “Bye Bye, Brasil” que eu tive noção do que era o negócio que a gente estava mexendo. Aí me deu uma vontade danada de ir lá para cima, viu? Em 83 eu fui para Carajás acho que mais por causa disso. Aí eu achei fantástico encarar aquilo ali. Aquele filme mostra bem como que era, né? O cara anda de caminhão pela Amazônia toda ali, então... Foi.... Esse filme teve uma influência nisso aí. Aí fiquei doido para ir lá para cima. Fui e não arrependi não. Acho que valeu a pena. 

P/2 -  Retornando a nossa entrevista o senhor falava de Carajás, né? Que o senhor foi para Carajás mas ficou um tempo aqui no Rio, é isso?

R – Fiquei dois anos aqui no Rio, trabalhando no Projeto Carajás, mas aqui no Rio. 

P/2 -  Como era o contato com a equipe de lá?

R – A gente tinha notícia direto. E algumas já estavam acontecendo lá e a gente já participava. Ia lá sempre. A gente já estava participando direto lá, mas ficou uma equipe aqui ainda. 

P/1 – O senhor já conhecia a Amazônia, nessa época _______?

R – Eu conheci a Amazônia na época do Projeto Carajás.

P/1 – Hum.

R – Em junho de oitenta. Foi oitenta mesmo. Eu fui, descemos no N1. Até uma história engraçada, a seguinte, nós fomos do Rio para Belém em um avião a jato. Um Airbus. Gastamos três hora do Rio à Belém. E em Belém nós pegamos um DC3 velho para caralho, já gastamos três horas também (risos). ________ Quinhentos quilômetros de distância, gastou o mesmo tempo daqui do Rio à Belém. Aquele DC3 com aquela preguiça em cima da selva e eu só pensando: “Gente, se não der para descer lá qual é a alternativa?” (risos). O DC3 é um negócio engraçado. Você já voou de DC3?

P/1 – Não.

R – Parece que você... Porque ele é inclinado assim, parece que você está subindo escada dentro do avião. Você sai de um banco lá atrás para ir para a frente parece que está subindo um morro. Avião super esquisito. Tem um avião lá no aeroporto de Carajás, né?

P/1 – Tem.

R – Esse que eu viajei nele não é aquele não, mas é irmão daquele.

P/1 – Irmão daquele.

R – É. Aquele era da Docegeo, da Vale. O outro era alugado. Já era de uma empresa, Líder, eu não sei, uma empresa de táxi aéreo. Mas era igualzinho àquele. 

P/1 – E qual que foi seu impacto assim, ao chegar conhecer aquele _________?

R – Eu achei fantástico. Dormi a primeira noite no meio da selva ouvindo aquele barulho da selva, aquilo é muito bonito. É bonito demais.

P/2 -  O senhor poderia descrever qual é esse barulho?

R – Tem aquele macaco, é Guaíba, né?

P/2 -  Hum, hum.

R – Guariba. Um macaco que canta. Você já viu? Você já esteve em Carajás?

P/2 -  ________

R – O macaco faz um barulho: “Uuuuuuuuuu.” Parece que tem um bando cantando. Mas tem gente que diz que é um só que faz aquele barulho todo. Esse macaco, barulho de arara, de tucano. O bico do tucano. Pica-pau já vi na árvore em Carajás. Tem um passarinho na Amazônia, ele é pequenininho, o apelido dele é peito de aço. Ele tem um, você conhece esse ferreiro, né? Essa araponga?

P/1 – Hum.

R – Que tem um canto terrível.

P/1 – Hum.

R – Ele tem o mesmo volume da araponga no canto, mas é um passarinho pequenininho assim. Ele canta, aquilo espalha pela floresta, você ouve de longe. Um quilômetro de distância. Então esses barulhos é que eu falo. De vez em quando cai uma árvore: “heeeeee.” Tem aquele barulho também.

P/2 -  E a chuva? 

R – A chuva é maravilhosa, né? A chuva eu sempre dizia o seguinte: “Que a chuva da Amazônia tem uma vantagem, da Amazônia, você não precisa correr dela porque não adianta. Se você andar um passo na chuva ou meia hora, você vai molhar do mesmo jeito. Já ensopa de cara. Então não adianta nem correr.” Caiu a chuva a gente nem corria mais, já ficava parado, porque já estava ensopado. Só de pegar um, a primeira leva já ensopa todo mundo. É muita água que cai ali, né?

P/1 – Quando o senhor muda definitivamente para Carajás? Quer dizer, que o senhor vai morar de fato ali?

R – Foi na Semana Santa, na quinta feira Santa de 82. E um negócio engraçado é que se eu tinha medo de avião, minha mulher muito mais do que eu. E nesse dia o avião parou o motor com a gente (risos). A gente mudando para Carajás. Ela estava entrando em um avião acho que pela segunda ou terceira vez na vida dela. O avião decolou de Brasília, um passageiro que estava lá atrás depois é que me contou. Eu não vi não. Eu estava sentado na frente. O avião decolou de Brasília, o avião era um Fokker daqueles antigos. Acho que Fokker cinquenta com duas hélices. E esse passageiro me falou que logo que decolou de Brasília começou a vazar óleo do motor direito. Eu não vi. Eu estava sentado lá na frente. Aí, de repente, a gente estava passando em cima de Conceição do Araguaia. Estava passando em cima de Conceição do Araguaia o comissário avisou, falou: “Olha, nós estamos com problema no motor direito e vai embandeirar a hélice do lado direito.” E a minha mulher não sabia o que era embandeirar. 

P/2 -  (risos).

R – E eu também não falei nada para ela (risos). Quando o motor parou ela achou que ia parar o outro também. Mas ela entrou em pânico. Foi quando deu mais trabalho para controlar ela dentro do avião. As minhas filhas tranquilas. Mas ela estava super apavorada. Depois, eu conversando com o piloto ele me falou que ele não pretendia descer lá não. Ele foi, o avião voava a quatro mil metros, quando ele viu o problema no motor ele jogou para seis mil que ele pretendia embandeirar a hélice e chegar com um motor até Carajás. Mas quando ele passou em cima de Conceição do Araguaia ele viu que estava aquele céu de brigadeiro. Estava tão claro que ele resolveu descer. Não tinha ninguém no aeroporto. Ninguém. Para chegar um táxi lá levou mais de meia hora que o pessoal da cidade viu o avião descendo, aí um motorista de táxi resolveu arriscar e foi lá e viu aquele bando de gente ele chamou os outros, entendeu? Então essa é uma história engraçada também. Ela morrendo de medo, o avião para o motor com a gente. Na ida para Carajás. Eram três horas de vôo de Brasília lá nesse avião de hélice. O outro, jato, fazia uma hora e vinte. 

P/2 -  Qual a reação da família ao chegar em Carajás?

R – Todo mundo achou... Olha, lá em casa ninguém fala mal de Carajás de jeito nenhum. O pessoal tem a melhor lembrança de Carajás possível. E adoraram a época que moraram lá. A mais velha parece que foi para lá com quinze anos, saiu com dezoito. Foi nessa que eu fui para São Luiz. A menorzinha tinha treze, foi para lá e saiu com... 

P/2 -  Dezesseis?

R – Dezesseis. E a outra nasceu lá. E o menino ficou em Belo Horizonte. Ele ia lá só de vez em quando. Ele não morou lá não.

P/1 – O menino não morou?

R – Não, ele morava em Belo Horizonte.

P/1 – E como é que foi, conta um pouquinho da vida de vocês lá em Carajás, esse período. Como é que vocês se instalaram ____________?

R – Foi, era um lugar fantástico, né? Porque segurança total. As casas não tinham muro. Você não chegou a conhecer uma casa no N5 não, né?

P/1 – Hum, hum.

R – Vocês só conheceram o núcleo, né? O N5 já foi todo desmanchado agora. Mas as casas não tinham muro. Era aquela casa implantada no meio do lote com... Tinha um muro no fundo assim. Um muro no fundo, na frente não tinha. E a segurança total. A gente tem um caso engraçado que aconteceu lá. A minha menina mais nova é muito distraída, a Gabriela. Então um dia era uma quarta feira, nós saímos para dar uma volta de carro. Tinha uma lanchonete lá no N5, chamava Rangão. Era um tipo Mc Donald’s aqui de hoje ou Bob’s. Lá era o Rangão. Aí nós passamos na porta do Rangão na quarta feira de noite, de carro. A minha filha mais velha virou e falou: “Ô pai, a minha bicicleta está ali na porta do Rangão” (risos). Aí a filha mais nova falou: “(Nó?), esqueci ela ali no domingo de noite.” (risos). Então ela esqueceu a bicicleta lá no centro comercial, ali no... Não era um centro comercial, mas era um lugar onde o pessoal ficava, reunia para comer um cachorro quente. Ela esqueceu a bicicleta no domingo a noite e já era quarta feira e a bicicleta estava no mesmo lugar. Então essa era a ideia que a gente… Era a cidade que a gente morava. A gente até preocupa, essa menina minha que tem dezessete anos, a Julia, ela nasceu, foi gerada e nasceu em Carajás, naquele balão de oxigênio. Primeiro que ali é um balão de oxigênio. Quando a gente mudou para lá, nós começamos a ter muito sono, ficamos preocupado, fomos no médico (risos), ele falou: “Ó, é isso mesmo, vocês nunca respiraram tanto oxigênio na vida, é normal ter sono.” Então a Júlia foi gerada nesse local, nesse lugar e foi criada lá também até muito tempo. Ela nasceu, ela ficou lá três anos, depois… Ela nasceu em 84. Aí ficou lá mais dois anos e foi para São Luiz. Veio para Belo Horizonte, ficou três anos e voltou para lá. E ficou mais seis anos lá. No total deu dez anos que nós moramos em Carajás. Então quando ela chegou em Belo Horizonte agora, nós custamos para concordar que ela fosse de ônibus, como é comum, para a escola. Deu um trabalho danado. Porque a gente achava que ela era muito desarmada. Muito pouco preparada para enfrentar uma cidade grande, sabe? Porque viveu mais da metade da vida num lugar… Carajás é um paraíso. Realmente é um paraíso. Tudo lá é.... É longe da civilização. Então as pessoas sentem saudades de casa, sente saudade da família. Às vezes dá um banzo, né? Uma tristeza, uma saudade. Mas de saudade da família. Agora, o lugar em si para se morar é um paraíso. Não tem, não existe nada igual não. 

P/2 -  E vocês conviviam… (interrupção)

R – … Isso é que era importante. A Vale incentivava mas não dava as coisas. Acho que isso era muito importante. A gente é que fazia, a gente é que promovia as festas no clube. Isso partia do povo da cidade. Do pessoal. A gente falava: “Ó, vamos chamar o Roberto Carlos para cantar aqui.” “Vamos.” Aí junta Fulano, junta Ciclano, pede dinheiro para um, pede para outro, faz um rifa, não sei o quê. Juntava dinheiro e chamava. O Nelson Gonçalves foi lá cantar umas duas ou três vezes. A gente é que levava. A diretoria do clube é que promovia isso com o apoio da população. E com o apoio da Vale, é claro. Mas não aquela coisa paternalista, entendeu? Ó, vou trazer o Fulano para cantar aí, não. A gente é que escolhia. “Vamos trazer quem?” “Ah, o Fulano de Tal.” Aí tinha um apoio, as empreiteiras, às vezes, ajudavam também porque o pessoal delas também era beneficiado. Então cada um ajudava com alguma coisa. Mas eu sempre falo isso. As coisas partiam da população. A gente é que... O lazer da cidade, a convivência partia do seio da população. Isso eu sempre achei muito importante. Tudo era desenvolvido. E o coração da coisa era o Clube Serra Norte. Não sei se você ouviu falar no Clube Serra Norte, já?

P/1 - ________

R – Não deve ter mais nada lá. Mas era o Clube Serra Norte, era um clube que tinha um quiosque grande. Um quiosque de palha de folha de coqueiro de babaçu. Mas um quiosque de um tamanho que eu lembro até hoje. No dia que o Nelson Gonçalves foi cantar lá, nós colocamos cem mesas nesse quiosque. Cem mesas para quatro pessoas cada uma. Então era um quiosque razoável, né? (risos).

P/1 - _______

R – Aí foi Dominguinhos, foi MPB-4, foi é, todo mundo. Praticamente todo mundo cantou lá. E era sempre a gente que decidia. A diretoria do clube é que decidia. Um negócio feito em casa mesmo. A gente... Isso é muito importante. As meninas acostumaram com isso, sabe? Essa minha filha mais velha, ela é dessas pessoas. Foi por causa dessa influência, ela hoje, lá em Belo, ela organiza fila de banco, entendeu? Chega naquele caixa eletrônico está tudo desorganizado, de repente ela está organizando a fila (risos) porque a gente era meio dono da cidade lá. Então a gente se sentia responsável pelas coisas que não funcionavam bem. Aí a gente aprendeu a dar palpite em tudo.

P/2 - E em Carajás, quando você morava lá, você trabalhava em quê, exatamente?

R – Nessa época do N5 eu trabalhava na aÇúcar, na implantação do projeto. 

P/2 -  Hum, hum.

R – Em 85 teve a inauguração da ferrovia em fevereiro, se eu enganar é por causa da memória, mas eu acho que não. A ferrovia foi inaugurada em fevereiro de 85 e no final do ano a gente inaugurou o projeto mesmo. Dia 26 do doze, se não me engano, de 85, embarcou o primeiro trem de minério lá de Carajás. Eu lembro porque isso foi um... Normalmente no Natal a gente descia e esse ano eu passei o Natal lá. Porque o projeto ia ficar pronto no final do ano, em 85. Então, o que você perguntou mesmo?

P/2 -  Não, a sua função e o _______.

R – Ah, pois é. Então era implantação. Era a parte elétrica da implantação. Depois disso quando eu voltei, aí já voltei para a mina do Igarapé-Bahia já na implantação, depois manutenção, operação. Aí já fui saindo um pouco da minha função básica. Mas eu sempre, assim, a maior parte do tempo eu fiz parte de equipe de implantação da Vale. Em todos esses projetos que eu te falei. Maria Preta, Fazenda Brasileiro, Igarapé-Bahia, Porto São Luís, alguma coisa, ferrovia de Carajás. A mina de Carajás. Vale Fértil, Cenibra. _________ a Albrás. A Albrás muito pouco. É, Cobrasco. (Shaft?) de minério da Fazenda Brasileiro. Isso tudo foi...

P/2 -  E em Carajás, a mão de obra também era local. Como foi adaptar?

R – Olha, em Carajás a mão de obra não era tão local assim não, sabe? O Parauapebas na época era uma cidade pequena, o pessoal veio de fora mesmo. No início levava as coisas só de avião, para você ter uma ideia, sabe? Até peça para, a primeira coisa que montou lá foi a planta piloto de minério lá em Carajás eu lembro o material que eu, eletroduto de elétrica foi sendo transportado de avião. Uma coisa bem, bem, novidade. Na época era novidade. Depois não. Depois foi feita a estrada, aí o pessoal começou a vim pela estrada. Melhoraram as condições de tráfego. E no final a ferrovia facilitou tudo. 

P/1 – A relação de vocês do núcleo da família, das famílias que estavam morando lá com os empregados das empreiteiras? Como era um pouco essa relação? Esse período da construção?

R – Não, isso era muito, isso era muito bem esquematizado, viu? Eu nem lembro o detalhe como é, não tinha, não tinha aquela repressão do tipo assim. Porque tinha o núcleo residencial onde moravam as famílias, era na parte baixa do N5, ali perto do Clube Serra Norte. E os alojamentos de solteiro, professores e peão de empreiteiro e tudo. Não, de peão de empreiteiro era mais na frente, era mais lá em cima. Próximo do escritório, perto do hospital, perto do hotel. Mas não tinha, nunca soube de um caso de um... O pessoal lá de cima, essa peãozada solteira, eles praticamente nem vinham pra cá, embaixo na cidade. E não era proibido vir não. Era, tinha alguma coisa que, um respeito assim que cada um convivia no seu lugar. Tinha um clube lá em cima para eles. O clube dos solteiros que tinha lá em cima para essa peãozada e ia, e tinha o clube nosso cá em baixo. O clube lá de cima chamava Carajás e o de baixo chamava-se Serra Norte. Então não tinha, nunca teve problema. Mas eles nunca vinham para cá também não. E não era proibido vir não. Não vinham porque não vinham mesmo. 

P/1 – E com o pessoal de Parauapebas?

R – Parauapebas. A gente ia pouco a Parauapebas. Ia normalmente no final de semana comprar carne, fazer alguma compra na feira lá. Ia pouco. Mas também não, não tinha problema de espécie nenhuma. A gente conhecia algumas pessoas lá e convivia com eles também numa boa. Não tinha, não me lembro de nada. Com garimpeiro sim.

P/1 – (risos) Então, vai contar para...

R – Garimpeiro andou dando um pouquinho de trabalho, mas esse pessoal lá da região não. 

P/1 – Conta esse caso.

P/2 -  Que tipo de trabalho?

R – Ah, o relacionamento nosso lá com os garimpeiros lá em Serra Leste foi um pouquinho complicado. Eles eram, gostavam de briga e tal e não aceitavam que a Vale implantasse o projeto lá. Então era um relacionamento assim um pouco complicado, então...

P/2 -  Algum caso em particular que se lembre?

R – Não, assim de agressão essas coisas não. Mas a gente preocupava um pouco de, às vezes até andar na rua lá em Serra Pelada a gente preocupava um pouco. Teve uma época que a gente fez a implantação do projeto lá mesmo, a parte grande do projeto, tinha, nós tivemos o apoio da Polícia Militar do Pará, sabe? E o Exército também andou dando um apoio lá. Então a gente conseguiu trabalhar mais ou menos tranquilos. Mas eles eram muito hostis. Eu lembro um dia que eu estava implantando aquele escritório que eu te mostrei a fotografia, estava ali trabalhando na obra do escritório, e o pessoal trabalhando e o motorista do ônibus deitado debaixo do ônibus, descansando, né? Porque para voltar com a turma de tarde. Aí os garimpeiros começaram a quebrar uma cerca que tinha assim, entendeu? Eles faziam isso. Quebravam a cerca, botavam fogo nas coisas e tal. Começaram a quebrar a cerca, o motorista ficou apavorado e caiu fora, não voltou mais. De tarde para levar a turma embora teve que improvisar um motorista porque esse sumiu de medo. Mas não, a gente estava lá, ficamos lá, nunca teve, não lembro de nenhum problema assim de agressão, não. Mas o relacionamento  não era bom não. 

P/1 – Isso já foi em que momento? Na Serra Leste?

R – Isso já foi na época da implantação de Serra Leste mesmo. Foi em 96, 97. Já não, na época que eu já estava indo embora.

P/1 – Então era um projeto de retomar a Serra Pelada? Era alguma coisa assim?

R – É, porque aquilo ali o garimpo… Ali foi manual. O pessoal estava extraindo o ouro de aluvião, extraindo manualmente. Aí chegou uma época que houve um, aquele buraco lá, que aquela cratera imensa que tem lá encheu de água e eles não tiveram mais condições de trabalhar. Então como aquilo ali estava na área de pesquisa de direitos minerais da Vale, a Vale resolveu fazer um projeto para pesquisar o ouro mais profundo, que eles não tinham acesso a ele. Aí foi aí que começou essa confusão, que o relacionamento ficou um pouco complicado.

P/1 – Voltando para Carajás, o senhor chegou, estava já quando teve aquela invasão dos garimpeiros?

R – Estava.

P/1 – Aquela tentativa?

R – Estava.

P/1 – Como foi um pouco essa história? O senhor lembra disso?

R – Aquilo ali, é. Eu estava e pior que minha mulher estava grávida. Naquela época ela estava esperando a minha filha, que foi em 84. Minha filha nasceu em julho de 84. Ela estava acho que com uns sete meses de gravidez. Acho que nem viajar de avião não podia mais. E aí os garimpeiros ameaçaram de invadir a Serra, né? Chegaram a virar um caminhão lá embaixo no Parauapebas. Botaram fogo no caminhão. Mas a polícia militar foi para lá e a gente ficou, o pessoal ficou meio assustado. Sabe assim? Até umas atitudes assim um pouco irracionais. Então por exemplo, eu cheguei no posto de gasolina estava todo mundo enchendo o tanque do carro, eu falei: “Mas vocês estão enchendo para ir para onde? Vão aqui para...”  O máximo que dava para ir era até o N1. Chegava no N1 não tinha mais para onde ir (risos). _______ tinha que atravessar de balsa para ir lá para o _______. Quer dizer, o final da linha era N1. Eu falei: “Mas encher tanque de carro para quê? Vamos ficar em casa que é muito melhor.” A gente, naquela época, a gente ficou um pouco preocupado. Eles estavam... Tinha um pessoal lá que estava tratando da segurança, eu não participei disso não. Eu tinha só notícia assim como um cidadão normal que morava lá. Mas não chegamos a desesperar não. A gente tinha muita confiança que se a coisa fosse ficar feia mesmo a Vale ia dar um jeito de tirar a gente de lá. As pessoas que tinham lá da Vale davam uns dois ou três aviões, dava para levar todo mundo. Então a gente não esquentou. Não lembro assim de ter criado um trauma familiar apesar da minha mulher estar grávida. 

P/1, P/2 -  (risos).

R – Que era para a gente ter sofrido mais do que todo mundo, mas lá em casa nem se comentava isso não. Comentava como um fato pitoresco assim. Botaram fogo no caminhão lá em baixo, tal. Aí o pessoal da polícia cercou lá o rio. O pessoal da polícia que ficou dormindo lá na barraca lá na beira do rio, muitos tiveram malária. Pegaram malária. Eu lembro dessa história também. Porque lá na beirada dos rios tem malária, né? A gente, engraçado isso, quem morou em Carajás e não era pescador, eu não conheço nenhum caso de malária. Todos os casos de colegas nossos que pegaram malária são os pescador que iam para a beirada do rio. Parece que o mosquito tem autonomia de vôo pequena. Ele fica mais a uns quatrocentos metros no máximo do rio. Então os casos de malária de colegas nossos todos que eu conheço foi de pescador. Eu até sou pescador também, mas eu não peguei malária não. 

P/1 – E outros casos que o senhor tenha vivido aí, o senhor comentou da onça. Conta um pouco essa história.

R – É, tem um caso, o Igarapé, esse caso é engraçado. Porque o Igarapé Bahia ele fica a cem quilômetros de Carajás pela estrada. E tem um linha de transmissão que leva energia para o Igarapé Bahia que tem 63 quilômetros. Passa ali perto do manganês e vai para o Igarapé Bahia. E eu era o responsável pela manutenção dessa linha. Então eu tinha um carro de estrada, de fora de estrada era um Toyota, e andava ali naqueles caminho constantemente. Aí um dia teve um problema na linha de transmissão e essa Toyota acho que estava na manutenção ou coisa assim, eu peguei um Gol, um carrinho feito para andar no asfalto, né? Aí fui eu junto com o eletricista que trabalhava comigo, parei em uma bifurcação, a estrada chegava assim, tinha uma bifurcação. Ia para uma torre da linha de transmissão e para cá ia para outra torre da linha de transmissão. E tinha uma descida. E eu sabia que se eu descesse lá com aquele Gol, eu não voltava. Aí eu deixei o Gol lá em cima e fui descendo de costa, gritando com o eletricista pedindo o que eu queria que ele olhasse. Porque eu estava com medo do cabo do para-raio ter partido e ter caído em cima da fase elétrica e ter fechado um curto-circuito. Tinha um curto-circuito em algum ponto da linha e a gente tinha que descobrir para poder religar. Aí eu fui gritando com ele: “Olha, você olha isso, olha isso, olha isso.” Quando eu virei de frente para a torre tinha uma onça suçuarana (risos) assim no mato, a dez metros de mim. Ela me olhando e eu olhando para ela. Eu falei: “Pronto.” Não dava para voltar, porque era uma subida e eu nunca ia chegar no carro se ela resolvesse me atacar. Aí a onça me olhou assim uns dez segundos e correu. Devia estar com o estômago cheio, né?

P/2 -  (risos).

R – Devia ter acabado de almoçar. A suçuarana é aquela onça amarelinha, lá no zoológico de Carajás tem dela. Ela é pequenininha, parece um gato grande, tem uma cara assim de gato. Mas ela é super feroz. Dizem que ela é mais feroz do que a onça. Aí essa história ficou famosa lá em Carajás. Porque a onça correu de mim, né? (risos) Eu desarmado assim, de cara a cara com a onça e ela correu de mim. Aí ficou famoso. Aí saiu, engraçado que depois essa história saiu no jornal da Vale e esse eletricista foi reclamar lá comigo porque o nome dele não saiu (risos). Falou: “Eu estava lá também, só você que ganhou a fama da história. Não falaram de mim.” 

P/1 – (risos).

R – Eu ri para caramba com ele depois. Essa história é uma história engraçada. Tem muita história engraçada, mas agora eu não...

P/1 – Tinha muito contato com bicho, assim, isso era antes...

R – Nós lá no Igarapé Bahia... Tem muita gente que morou em Carajás vários anos e nunca viu uma onça. Só viu no zoológico. Agora eu não. Por causa dessa linha de transmissão do Igarapé Bahia, eu via, onça eu via constantemente. Onça preta, pintada. Sempre dentro dessa Toyota, eu não tinha medo também. Eu lembro de uma vez que eu estava numa estradinha fechada assim, eu com essa Toyota, a onça pintada – pintada é a maior delas – correndo aqui do lado. Se eu botasse a mão para fora eu pegava na onça. Ela procurando uma saída, porque tinha um corte assim, ela não conseguia sair. Então ela foi correndo do lado do meu carro durante uns cem metros. Eu fechei o vidro e fui olhando. Aí de repente ela saiu e foi embora. Mas não tinha perigo nenhum. Porque eu estava dentro do carro, super protegido. Não tinha medo não.

P/1 – E caso de gente se perder na floresta, essas coisas aconteciam também?

R – Teve um caso quando nós mudamos para lá, em 82, teve um casal que se perdeu e ficou uma semana sumido lá. Depois desse caso eu não lembro mais de nenhum não. Esse a gente estava, eu acho que a gente nem morava lá, foi uma semana antes da gente mudar para lá. Foi nos dias, quando nós chegamos lá o assunto era esse, o casal que tinha se perdido na floresta. Agora, perder na floresta, rapaz, é um negócio tão fácil. É um negócio incrível. Quem nunca passou por essa experiência não tem ideia do que é. Olha, eu vou te contar, essa linha do Igarapé Bahia, tinha um pedaço dela que a gente estava trabalhando, tinha uma torre aqui em cima e uma torre lá embaixo a uns quatrocentos metros de distância. E a turma de eletricista trabalhando aqui e a outra metade trabalhando lá. Eu entrei no mato paralelo, a faixa da linha assim. Estava difícil de descer pela faixa da linha, os eletricistas estavam passando por dentro do mato. Eu entrei no mato, cinquenta metros para poder descer e me perdi. Quando eu já estava quase entrando, mas me perdi assim de entrar em pânico mesmo. Você começa a ficar nervoso, aí começa a enfiar o pé nos buracos de raiz de árvore. Tem uns buracos parece que árvore morreu e o buraco ficou. Atola o pé até aqui, perdi o chaveiro, comecei... Quando eu estava quase entrando em pânico passou um eletricista e me deu carona até lá em cima. Mas é uma facilidade rapaz. Uns cinquenta metros eu perdi que eu não tinha mais noção nenhuma de que lado que estava a linha, nem nada. Você perde a noção completamente. Só quem já passou por isso é que acredita nesse negócio, porque a gente tem a impressão: “Pô, não é possível que eu vou me perder na floresta. Eu tenho noção de direção, né? Eu sei onde eu entrei, eu sei...” Não, é incrível. Mas perde mesmo. Perde de não achar mais nada.

P/1 – Tinha alguém com um tipo de preparação para as pessoas irem trabalhar em Carajás, quer dizer, nesse cenário?

R – Não, lá no N5 a gente era super protegido. O pessoal tinha, tinha assim, a gente vacinava contra a febre amarela, contra tétano. A Vale fazia uma campanha de vacinação, antes da gente ir tinha de ir todo mundo vacinado e tal. E na escola eles davam treinamento. Agora, por exemplo, lá no núcleo de Carajás, tem, o núcleo é todo cercado, né? Mas de vez em quando entra uma onça lá ou o vigia tem impressão que entrou, qualquer coisa assim, aí é dado o alarme. Um dia, por exemplo, agora no final, pouco antes de eu mudar para Belo Horizonte, eu estava na aula de inglês e chegou a notícia que não era para ninguém sair porque tinha entrado uma onça na cidade. Então é super protegido. O vigia, às vezes, não vê, não consegue segurar a onça, mas ele vê ela entrando, aí ele dá o alarme. O pessoal é tudo protegido. Depois daquele acidente que teve com aquele menino. Naquela época o núcleo não era cercado ainda. A onça matou uma criança lá, né? Depois disso nunca mais teve problema. Foi cercado e a vigilância é a mais perfeita possível. Na época do N5, por incrível que pareça, a incidência de animais silvestres dentro do núcleo era muito pequena. Eu não lembro de, no núcleo definitivo eu lembro muito de notícia de onça dentro cidade e tudo. Algumas não confirmadas, mas eu lembro. Agora no N5 não. No N5, minhas filhas moraram no N5, ninguém nunca viu uma onça, nada disso. Eu lembro do bicho preguiça numa árvore lá no clube. Aqueles besouros monstruosos, pré-históricos. Já viu aquilo lá?

P/1 – Hum, hum.

R – Aquilo parece um... Você segura o besouro ele te carrega a mão (risos). Um monstro de um besouro. Aquilo lá tem muito lá também no N5.

P/1 – E em termos de engenharia elétrica? Como foi essa, que tipo de solução foi adotada em Carajás? Teve alguma inovação? Como foi um pouco essa experiência de implantação?

R – Não, foi uma instalação bem tradicional. Tradicional. Nós implantamos lá um sistema moderno. Tinha esses controladores programáveis já. Computador de processo, controlando o processo. Tinha uma coisa assim um pouco fora do normal que era um transportador regenerativo. Transportador que desce lá para o pátio de minério que gera energia elétrica. O minério descendo o motor gera energia. 

P/1 – Hum.

R – Isso era... O resto era tudo coisa convencional. Eletricidade assim tradicional. A linha de transmissão até Marabá também, 230 KV. Tudo um projeto normal. Sem muitas novidades. Bem parecido com os outros. Não tinha nada assim extraordinário não.

P/1 – E essa questão energia elétrica versus meio ambiente? Como foi, quer dizer, linha de transmissão no meio da floresta? Como era? Um pouco assim...?

R – É, isso alguma coisa tinha que, nós tivemos que desmatar alguma coisa, né? Para poder construir essa linha. Mas o mínimo possível. Carajás hoje é um paraíso ali. Você vê em volta a destruição que o pessoal fez ali do Parauapebas até Marabá, aquilo é uma coisa terrível. Fora da área da Vale, né? A área da Vale do Rio Doce ali é um paraíso hoje. Onde tem tudo preservado. As árvores. O respeito incrível pelo meio ambiente apesar de ter que estragar alguma coisa para construir o que foi construído lá. Mas foi o mínimo possível de estrago. Você vendo o estrago que fizeram fora da área da Vale, você vê que realmente o que nós fizemos lá foi preservar aquele pedaço (risos). Se não tivesse teria destruído aquilo lá também, entendeu? Eu vi árvore de castanheira de... Tem árvore, árvore lá varia de 35 metros até sessenta. Eu já vi árvore de sessenta metros. E eu já vi árvore dessa pegando fogo de madrugada. É um negócio assustador. Uma tocha de cinquenta metros de altura pegando fogo. Teve uma época que a gente tinha, Carajás acho que tinha pouco, poucos vôos para Carajás. A gente pegava muito avião em Marabá. Então saía de madrugada para pegar avião em Marabá e via o pessoal botando fogo naquelas árvores ali. Aquilo foi uma destruição danada. Mas tudo fora da área da Companhia. Na área da Vale eu acho que a preservação ambiental é elogiável, mesmo.

P/2 - Nunca se pensou em um projeto de auto-suficiência em energia para Carajás?

R – Você fala de geração de energia?

P/2 -  Isso, de energia.

R – Olha eu tenho… Eu não tenho assim informações exatas sobre isso, mas tem, já tem uma história de usina hidroelétrica em Parauapebas, em Itacaiúnas, ali próximo daquela região. Eu estou mais ligado nas usinas de Minas Gerais, aqui do sudeste. Mas eu tenho alguma notícia disso sim, de algum estudo nesse sentido, de fazer uma usina no rio Parauapebas, bem próximo ali. Ali é um ponto de utilização de energia. Carajás consome uma quantidade de energia razoável. E saindo o Projeto Salobo, aí a demanda vai ser maior ainda. Então a Vale tem uma necessidade ali de energia elétrica muito grande. 

P/1 – Conta um pouquinho como foi essa sua ida para o ouro. Quer dizer, em que momento você começou a trabalhar com ouro?

R – Foi... Isso foi porque eu trabalhava na Superintendência de Implantação. E a gente então, e no final a Vale estava na fase de implantação. Tinha acabado o Projeto Carajás aí essa área de ouro começou a desenvolver. Então o que tinha de implantação estava sempre relacionado com a área de ouro. Então nós trabalhamos a Fazenda Brasileiro, Maria Preta e o Igarapé Bahia. Aí como funcionário da Superintendência de Implantação eu estava participando de implantação de projeto na área de ouro, e quando chegou no Igarapé Bahia eu fui convidado. Porque a Superintendência de Implantação foi extinta, terminou. Aí as pessoas foram aproveitadas em outras áreas da Companhia. E eu fui aproveitado na Superintendência de Metais Nobres. Aí eu passei para a área de ouro. Isso em 91, se não me engano. Eu fiquei até 97 na área de ouro. Então o final da minha carreira todo na empresa foi na área de Metais Nobres.

P/2 -  Qual foi o primeiro projeto que o senhor participou?

R – O primeiro foi a Cenibra, né?  Em 74. Não como...

P/2 -  Não, digo em Metais Nobres?

R – Eu andei participando de Fazenda Brasileiro, mas como apoio assim. Como apoio na parte elétrica. Tinha um técnico da superintendência, nosso residente lá. Ele ficava lá e eu ia lá constantemente dar apoio para ele, resolver os problemas que ele estava tendo. Agora, Maria Preta já foi diferente. Maria Preta eu fiquei lá direto, sessenta dias. 

P/1 – Onde é Maria Preta?

R – Maria Preta é lá perto de Fazenda Brasileiro. É uma cidade chamada Santa Luz. Trinta quilômetros de Santa Luz. Um pouquinho lá para a frente de Serrinha, na Bahia. Sertão da Bahia também. Essa usina já até parou de funcionar. Ela funcionou alguns anos, extraiu o ouro todo e parou. Mas a implantação dela eu participei assim de cabo a rabo. Foram sessenta dias direto lá. 

P/1 – Tem algum know-how para essa área de ouro na questão da energia elétrica ou não? Que é específico de uma mina de ouro?

R – A Vale... O processo que a Vale usa nessas minas de ouro, nessas usinas de beneficiamento, é o processo de cianetação do… O processo Cipe. Carbon in _________. É o projeto de carvão ativado. Você solubiliza o ouro do minério com cianeto de sódio e essa solução, que a gente chama de solução rica, passa nos tanques onde tem o carvão ativado. Carvão de babaçu. E esse carvão ele segura, ele retém esse ouro. Aí depois você lava esse carvão e leva para um equipamento que chama coluna de ___________. Aí com soda cáustica, com pressão de duas atmosferas, uma pressão mais alta. A soda cáustica com uma temperatura de uns 140, talvez eu esteja enganado um pouquinho porque tem muito tempo, mas uma temperatura um pouquinho mais alta você lava esse carvão, aí sai, o ouro sai todo nessa solução, de lavagem desse carvão. Isso vai para uma cuba eletrolítica e por processo eletrolítico esse ouro deposita no cátodo eletricamente, entendeu? Fica como uma folha de papel. Você passa uma colher assim, sai como se fosse uma folha de papel. Aí depois vai para a fundição e fazem aquelas barras de ouro. Não refinado. O ouro produzido em Igarapé Bahia tem 95% de pureza. Cinco por cento é impureza, prata, prata _________ talvez e um pouquinho de impureza. Isso é refinado aqui no Rio na Casa da Moeda ou na Degusta lá em São Paulo. A Vale faz contratos com empresas que tenham processo de refinamento de ouro. Aí o ouro passa de 95 para 99,99%. E esse refinamento é feito aqui no sul. Lá em cima não tem não. Vem o ouro… Quer dizer, vem de todas as minas e fazem esse refinamento. O processo do ouro é isso. 

P/1 – Esse é um processo ________.

R – Quer dizer, antes tem aquela moagem, né? Que isso aí o ouro é reduzido a um pó parecendo talco. Um pó de duzentos ______ que é a medida de granulometria. É um talco mesmo. Parecendo um talco.

P/1 – E esse...

(interrupção)

R - ...que eu escrevi aqui rudimentarmente é de uma Usina Cipe, onde você tem uma recuperação de  minério de ouro acima de 95%, né? Você recupera mais do que 95% do ouro. Então é um processo um pouco mais caro. Você tem moagem, você tem, britadora na lixiviação também tem. Mas você tem um processo mais sofisticado e mais caro. Então aí você utiliza um minério de teor de ouro mais alto nessa usina. Na lixiviação em pilha você monta pilhas de minério e joga um chuveirinho em cima com solução de cianeto. Essa solução, cianeto solubiliza o ouro e sai por baixo numas mantas de plástico, tem umas canaletas. Tem uma manta de plástico debaixo dessa pilha e uma canaleta lateral onde corre essa solução rica. Aí você coleta o ouro solubilizado, aí você manda para o processo onde tem o carvão. Do carvão para a frente é a mesma coisa. Só que nessa lixiviação em pilha você só tem uma britagem e a formação de pilha e a recuperação é menor. Você recupera em torno de um pouco mais de 75%. Então você usa nesse local o minério de teor mais baixo. Porque a recuperação também é mais baixa. Aí fala ________: “Mas vale a pena?” Vale porque o processo é cinco vezes mais baratos do que de uma usina assim, quer dizer.

P/1 – Nesse período que você está implantando o ouro, quer dizer, Igarapé, Fazenda, Maria Preta, a sua família ela ficou instalada, sediada em algum lugar?

R – Olha, no princípio lá no Igarapé Bahia, durante a fase de construção eu fiquei naquele tipo, daquela esquema de plataforma. Eu passava um mês lá e passava uma semana em casa. Até... Isso durou um ano e pouco, aí minha família mudou de novo. Aí nós deixamos os meninos maiores em Belo Horizonte e mudou eu, minha mulher e a pequenininha (risos) que nasceu lá, voltou para lá. No final nós moramos lá sozinhos e os meninos ficaram em Belo Horizonte. 

P/1 – E ____________  para a Bahia mas partia depois, como é que...

R – Não, a Bahia foi na fase que eu estava em Belo Horizonte. 

P/1 – Tá.

R – Entre essa, essa minha estadia de São Luiz e o retorno para Carajás eu fiquei três anos em Belo Horizonte. Foi quando eu trabalhei na ferrovia Capitão do Ar Costa Lacerda, na Fazenda Brasileiro, Maria Preta, isso tudo é dessa época. Teve mais alguma? Não eu andei no Araxá umas pouquíssimas vezes, mas Araxá eu não participei muito não. Lá no titânio. Foi pouco. Mas foi mais nessa área do ouro mesmo.

P/2 -  Você fica em Carajás essa segunda vez quanto tempo?

R – Aí em Carajás eu fiquei de 91 a 97. Aí já morava no núcleo definitivo. 

P/2 -  Hum, hum.

R – Na Rua Purus. 

P/2 -  Só com a pequenininha?

R – Só com a pequenininha.

P/1 – Você viveu a expectativa da privatização lá em Carajás?

R – Em Carajás.

P/1 – Como foi um pouco esse processo, a expectativa?

R – A gente… É gozado, essa fase até eu penso que teve muito comentário, sabe? A gente foi, teve muita especulação. Ninguém sabia. No princípio ninguém sabia o que ia acontecer e houve uma certa preocupação. Mas depois a coisa foi fazendo parte do dia a dia e quando privatizou mesmo não... Criou uma certa insegurança nas pessoas que estavam na minha fase de… Eu estava na fase quase de pré aposentadoria, né? Então criou uma certa expectativa. O pessoal ficou um pouquinho assustado com isso. Mas depois acabou que o resultado foi o melhor possível (risos). Hoje a gente vê que tudo melhorou muito depois que… Só quem ficou na Vale, teve os que saíram, mas os que ficaram estão, na minha opinião, estão todos em uma situação muito melhor do que estava antes.

P/1 – Então o senhor acha que melhorou?

R – Eu acho. Eu acho assim, é… Como eu estou aposentado, então essa relação com benefícios, essas coisas para mim ficou mais, fiquei um pouco distante disso. Auxílio escolar essas coisas eu não sei como está funcionando. Agora assim, como crescimento profissional das pessoas eu acho que melhorou foi muito. As pessoas, o negócio explodiu. Eu estou vendo todo mundo que estava ali em Carajás, que estava começando naquela época, todo mundo hoje tem um cargo de altíssima importância na empresa. Eu conheço as pessoas, eu vejo. Eu acho que está todo mundo, quem ficou está todo mundo muito bem. Na minha opinião. Profissionalmente estão excelentes. A minha opinião é essa.

P/2 -  E depois da aposentadoria o senhor saiu de Carajás e voltou para Belo Horizonte?

R – Aí fui para Belo Horizonte e que eu te falei. Fiquei três dias lá. Três dias depois eu já estava na Cobrasco lá em Vitória. 

P/1 – Mas o senhor se aposentou com essa perspectiva de voltar, não?

R – Não, não. Eu aposentei e fui para casa. Aí logo fui convidado. Achei muito bom, né? Eu queria isso mesmo. 

P/1  – Gostou.

R – Mas não estava contando com isso.

P/2 – Mas a família foi para Vitória também ou...

R – Não, família ficou em Belo Horizonte.

P/2 -  Hum, hum.

R – Esse período de Vitória foram só sete meses e é muito perto e eu ia toda sexta feira. Na Bahia também, Fazenda Brasileiro, aí eu ia só uma vez por mês para Belo Horizonte, mas também deu para segurar porque aí também já, na Bahia... É, quando eu estava na Bahia já nasceu meu netinho aí a mulher já ficou mais tranquila. O netinho já tomou bastante tempo dela, sabe? (risos). Então ela não pegou muito no meu pé mais não. Aí já deu para conviver bem. E depois eu fui para Belo Horizonte. Já faz dois anos que eu estou trabalhando em Belo Horizonte. 

P/2 -  E aí o senhor passou a prestador de serviço? Abriu sua empresa?

R – É, eu tive uma empresa e foi, hoje não. Hoje eu estou, eu estava explicando para ele, hoje eu estou em uma situação que eu fui indicado pela empresa para ser representante dela em dois consórcios de usina hidroelétrica. Então eu sou o representante da Vale no consórcio Porto Estrela e no consórcio Candonga. Mas não sou funcionário e hoje nem sou empresa. Sou assim representante da empresa. Indicado pela empresa como representante dela. 

P/2 -  E no caso esses projetos começaram quando?

R – Esse projeto Porto Estrela é essa usina que nós estamos inaugurando agora. Eu já até nem entrei no início. Ele começou em julho de 97, e eu entrei nele bem na frente. Agora Candonga não. A usina de Candonga eu estou lá quase desde o primeiro minuto. Já começando a fazer o contrato. Quando começou a elaborar o contrato eu já estava lá. Candonga quase que, parecendo um filho meu mesmo, assim.

P/2 -  E a decisão da Vale de participar desses consórcios se deve a quê?

R – À necessidade de gerar energia elétrica. A Vale é um dos maiores consumidores de energia elétrica do país. Ela consome 4,5% de toda energia elétrica gerada no país. Então como existe toda essa história de que a energia elétrica, a tendência é a energia elétrica ficar cada vez mais rara mesmo, né? Você vai esgotando o potencial hidroelétrico dos rios a energia vai se tornando um insumo cada vez mais raro. Então é uma questão até estratégica para a empresa ela gerar o máximo da energia que ela consome. E ela está entrando em diversos projetos de energia. Só eu estou acompanhando dois projetos da Vale, de energia. E tem outros lá, tem...

P/2 -  E o senhor acha que a curto prazo esse problema da crise energética no Brasil vai ser sanado dessa forma? Ou seja, as empresas vão participar da construção de hidroelétricas?

R – Olha, a iniciativa privada participando da construção de hidroelétricas… Porque hidroelétrica é um investimento muito pesado e o retorno é a longo prazo. Então não é aquele investimento tão atrativo assim que todo mundo que tem dinheiro sobrando bota em hidroelétrica. 

P/2 -  Hum, hum.

R – Igual a supermercado, acho que supermercado é um negócio bem melhor, entendeu? (risos) Mas aí, então as empresas necessitando de energia elétrica elas são voltadas a investir nesse seguimento. E é uma coisa muito importante. Agora vai chegar um ponto, que o potencial hidráulico do Brasil ele é imenso, mas ele tem um limite. Então está havendo agora uma tendência também de desenvolver muito as termoelétricas utilizando o gás da Bolívia. Que está faltando ainda uns pequenos ajustes nesse problema da comercialização do gás. Porque o gás é indexado em dólar aí o investidor já fica... A energia elétrica é em reais, né? Aí a energia que você gera é atrelada ao Real, a moeda nacional. E o gás é indexado em dólar. Então isso está causando uma certa preocupação, mas isso é uma coisa que eu acho que vai ser ajustado. Então tem uma tendência muito grande de haver implantação de muitas usina termoelétrica. A usina termoelétrica tem a vantagem de você poder localizá-la no centro de carga. Se você tem uma necessidade de carga lá em Carajás você pega uma usina hidroelétrica e constrói lá em Carajás, você entendeu? Você não tem muito problema de transmissão da energia em longas distâncias. Essa é a grande vantagem dela, sabe? Aí você leva o gás até lá e gera a energia no local lá. Agora o Brasil ainda tem muito potencial hidroelétrico, hidráulico para construir usinas. Então acho que... Só que é isso que eu te falei, é um investimento de longo prazo e muito pesado. Não é qualquer um que encara não. Então como há essa necessidade das empresas de gerar energia, de ter essa estratégia, de energia sob controle, isso está sendo muito bom, porque vai proporcionar a construção de diversas hidrelétricas. 

P/1 – Quais são as perspectivas da Vale em relação a isso?

R – Olha, a Vale hoje… Nós temos lá em Minas Gerais, estamos com a usina de Igarapava já funcionando. Lá no rio Grande, do lado da Vale, da antiga Vale Fértil que eu te falei.

P/2 -  Hum.

R – Lá no delta do Rio Grande, ali [na] divisa de Minas com São Paulo, a usina de Igarapava. Porto Estrela está entrando em funcionamento agora, entrou em julho agora. Em julho não, foi agosto. Agosto. Princípio de agosto. E vão inaugurar agora dia nove de, oficialmente dia nove do dez. Porto Estrela está entrando agora. A Vale está participando de Aimorés, usina no Rio Doce, lá perto de Aimorés. Funil, que é uma usina no Rio Grande lá perto de Lavras. É, Capim Branco I e II. E isso são as usinas que nós já estamos participando. Porto Estrela, né, que eu já falei e Candonga.

P/2 -  Hum.

R – Então a impressão que eu tenho é que a estratégia da Vale é que toda usina que for considerada como bom investimento ela vai entrar. Ela está disposta a entrar para valer nesse ramo mesmo de energia. É uma coisa estratégica e muito importante, né? O insumo mais pesado da maioria dos nossos empreendimentos.

P/1 – A tecnologia e o conhecimento desse setor onde que tem sido encontrado? Quer dizer __________?

R – Olha, isso é engraçado. As primeiras usinas nossas nós implantamos junto com a Cemig. A Cemig detém o know-how de usina há muitos anos. A Cemig, o negócio dela do dia a dia sempre foi energia elétrica e geração de energia. Então a Vale começou com a Cemig em Igarapava, com a Cemig em Aimorés, com a Cemig em Funil, com a Cemig em Porto Estrela. Mas já está chegando a hora que a gente está começando a formar uma equipe e dentro de pouco tempo a Vale já estará em condições de implantar e operar usina sem problema nenhum.

P/1 – Hum.

R – Porto Estrela por exemplo já é uma, já é um início disso aí. Que nós, são três sócios, tem a Cemig, tem a Vale e tem a Golden Minas que é uma empresa de tecido. Têxtil. Empresa com indústria têxtil implantando uma usina hidroelétrica. E na usina de Porto Estrela nós fomos ao mercado, fizemos uma coleta de preço para operação da usina e a Cemig perdeu. Nós contratamos uma empresa de fora e a representação junto ao mercado de energia elétrica de Porto Estrela, quem está representando a usina é a Vale do Rio Doce. Quer dizer, nós estamos já criando asa para poder voar sozinho nesse ramo aí. Isso é simples também, a gente não tem muita dificuldade não. Geração de energia é um negócio simples: a água gira uma turbina, a turbina gira um gerador, praticamente é só isso. Não é um processo complicado, que nem um processo de celulose é muito mais complicado do que...

(pausa)

P/2 - Voltando então. Como é o seu dia a dia, a sua participação nesses consórcios? Como se dá o seu cotidiano hoje em dia?

R – Eu estava falando para o Zé Carlos, oitenta por cento do tempo a gente gasta tratando de questões de meio-ambiente. Hoje em dia o meio ambiente está sendo levado muito a sério no país, e usina hidroelétrica ela cria algum problema ambiental, entendeu? Pelo fato de você ter que fazer um reservatório de água. Para você ter uma geração de energia estabilizada você tem que ter um reservatório. Muitas das usinas nossas são a fio d’água.  É a água que vem, entra e sai. Mas tem umas, algumas que você tem que ter um reservatório um pouquinho maior para poder manter. Você enche o reservatório e mantém a geração uniforme durante o período do dia todo. Então com isso você inunda a área de floresta. Floresta tropical, inunda cidades, alguma vila. Tem que realocar populações e tudo. Então essa área toma muito tempo e requer muito cuidado, sabe? Então quase que uma diretoria de consórcio de implantação de hidrelétrica hoje, oitenta por cento do tempo é dedicado a esse problema ambiental, problema de população atingida. Isso é uma preocupação constante. Nós passamos o tempo todo preocupado com isso. Eu estava até falando aqui agora, há pouco, a respeito desse problema de dar emprego para as pessoas. A gente tem essa preocupação de fazer alguma coisa para compensar o, vamos dizer entre aspas, o estrago que a gente está fazendo na região. Por menor que ele seja. Mais controlado, mais, tudo aprovado pelos órgãos ambientais e tudo. Mas não deixa de causar um certo transtorno para a população local. Por exemplo, Candonga agora nós estamos realocando uma vila. A vila de São Sebastião do Soberbo. Um local que tem oitenta casas. Tem oitenta e poucas famílias, e nós estamos construindo uma cidade de um lado. A vila, as casas são praticamente, se você for classificar, quase que vai classificar como miserável. As casa aqui são a maioria barracos, mal acabados, sem telhado direito. Sem laje nem nada. Nós estamos construindo a cidade com as casas todas bonitinhas e tal. Casas de tamanhos variados. Cinco tamanhos variados. Com praça, tudo, a urbanização completa. Quer dizer, as pessoas vão mudar de um lugar muito pior para um lugar muito melhor. Mesmo assim a gente tem a maior preocupação porque você está mexendo na história da pessoa. A casa dele lá é um barraquinho, mas é onde nasceu a avó, a mãe, o pai, então mesmo assim a gente tem o maior cuidado com isso. A gente procura compensar, dar emprego na obra e dar uma certa compensação para a pessoa poder minimizar esse problema. Embora nós sabemos que quando a pessoa se adaptar na cidade nova ela nunca mais vai ter saudade do lugar que ela morava. Com certeza. Porque vai morar em condições muito melhores, mas nessa transição a gente tem um cuidado danado com isso. E isso toma um tempo da gente muito grande. E os órgãos ambientais também no Brasil, atualmente, estão marcando no joelho mesmo, sabe? Então as exigências são cada vez maiores. 

P/1 – Quem são esses órgãos que...

R – Em Minas Gerais é a Feam, a Fundação Estadual do Meio Ambiente. Quando você tem um rio regional, o rio que não é divisa de estado ele é regido pela Feam em Minas Gerais. Então por exemplo, a usina de Candonga é no Rio Doce, mas não na divisa do estado. Onde ele nasce. O Rio Doce nasce depois de Ponte Nova. Tem um rio que cruza Ponte Nova que é o Rio Ipiranga e tem o Rio do Carmo que se não me engano nasce lá perto de Mariana e vem e encontra com o Rio Ipiranga. Onde encontra os dois nasce o Rio Doce. E Candonga é a segunda usina do Rio Doce. A primeira é Baú, que está em fase de, em início de implantação agora também, de projeto. Então é, esse Rio Doce lá de Candonga, como ele é totalmente dentro do estado de Minas Gerais, o órgão ambiental que rege lá é a Feam em Belo Horizonte. Já Aimorés que é no rio Doce também, mas já próximo a divisa do Espírito Santo já é o Ibama em Brasília. Quando o rio é divisa de estado o órgão ambiental é o Ibama. Você tem que reportar ao Ibama. Aí já é em Brasília. Ele tem regional em Belo Horizonte mas os contatos são todos feitos em Brasília. Então isso é o dia a dia da gente. É muito, essa parte ambiental está assim, toma no mínimo oitenta por cento do tempo da gente, de preocupação.

P/2 -  E sobra..

P/1 – E lazer é...

P/2 -  Isso que eu ia perguntar.

P/2 – Sobra tempo para o lazer?

R – Para o lazer?

P/2 -  Para o lazer, é?

P/1 – O que que você faz...

R – Então, é, está um pouco apertado agora. Sabe, eu estava... Agora eu estou vindo de uma fase que além de estar um pouco apertado, porque essas coisas todas acontecendo, e por exemplo, a Vale utiliza sempre uma pessoa, um representante dela para duas usinas. O esquema lá é esse. Se essas duas usinas estiverem em fases diferentes, como está Porto Estrela e Candonga. A gente dá conta, agora se tivesse as duas começando eu tenho minhas dúvidas se daria conta (risos). O negócio tem hora que pega mesmo que você passa o dia inteiro em reunião, querendo sentar para dar uma olhada lá no seu correio e não consegue. ____ às vezes eu passo uma semana sem conseguir sentar em uma cadeira, como diz o outro para trabalhar, né? Então além disso eu estava construindo uma casa. Essa casa que eu te falei. Eu tenho, tenho uma, meu pai… Nós somos três irmãos. Eu e mais dois irmãos. Meu pai deixou uma chácara para nós, ali, era perto de Belo Horizonte. Agora é quase colado com o aeroporto da Pampulha. Já virou Belo Horizonte mesmo. Então como eu moro em apartamento e a gente morou muitos anos em Carajás estava igual passarinho na gaiola lá no apartamento.

P/1 – (risos).

R – Aí nós resolvemos construir uma casa nesse local. Até aquela fotografia que eu te trouxe é dessa casa. E eu então estava fazendo, trabalhando na energia durante a semana e tocando essa obra da casa no final de semana (risos). Daí a gente chegou perto do stress. Minha mulher já estava soltando fumaça pelo cabelo. Agora graças a Deus a casa ficou pronta e nós estamos desacelerando. Agora eu estou pensando em voltar à normalidade. Aí pode até ser que, eu gosto muito de pensar, embora em Belo Horizonte as dificuldade em acesso à rio para pescar é, o pessoal pesca no Pantanal para você ter uma ideia. Vai de avião para, para...

P/1 – Corumbá, essa região?

R – Corumbá, é. Para poder pescar. Então isso não tem graça. Lá em Carajás a gente pegava o carro e ia lá para o rio Itacaiúnas e pescava. Pegava peixe grande e tudo. Então quem pescou em Carajás fica mal, mal acostumado. Mas uma coisa que eu gosto de fazer é de pescar. 

P/1 – E sua esposa, seu Wilmom, o senhor conheceu ela...

R – Eu conheci ela em, eu tinha o quê? _____________. Nós estamos casados há vinte, foi em 67 então, quanto que dá?

P/2 -  67.

R – Dá 33 anos, é isso?

P/2 -  Isso.

R - 33 anos. Eu conheço ela há uns 35, 36 anos. Ela, eu conheci na... Na época de que eu era jovem lá em Belo Horizonte, tinha um negócio chamava “Hora Dançante”, todo lugar tinha. O pessoal promovia as tais “Horas Dançantes”. Aí eu conheci ela na “Hora Dançante”, na casa de um colega meu da Escola Técnica. E foi...

P/1 – Namorou ______, casou.

R – É.

P/1 – Casou, quando? O senhor casou novo, né? O senhor comentou.

R – Casei com 22.

P/2 -  22, né?

P/1 - Hum.

R – A minha filha mais velha, eu tenho 56 anos, a minha filha mais velha nasceu em 69. Tem 32, né?  

P/1 – Hum.

R – 32. Então você vê que ela nasceu eu tinha 24 anos.

P/1 – Os filhos fazem o quê?

R – Ela, a Adriana é engenheira, civil. A segunda, Gabriela, é dentista. O menino está estudando Relações Públicas. E a Júlia está aquela peleja, lá. Todo dia eu pergunto para ela (risos): “O que você vai fazer?” “Não sei.” (risos) “O dia que você resolver você me fala.” Está uma peleja danada. Ela não sabe o que vai fazer. Está com, está no segundo ano, faltando um ano para fazer o vestibular e não sabe o que vai fazer ainda. Esse negócio… Eu acho que poucas pessoas têm a... Eu considero sorte de ter acontecido o que aconteceu comigo, né? Eu comecei a estudar eletricidade com onze anos de idade e nunca tive vontade de mudar disso. E não arrependo até hoje. Então é muito comum a pessoa terminar o Curso Científico, que fala o Segundo Grau e não saber o que vai fazer. Ter que recorrer a teste vocacional, pedir a opinião das pessoas. Minha filha está mais ou menos nessa situação. Ela não gosta de sangue e nem de Matemática. Eu falei (risos): “Você já eliminou metade das carreiras que eu conheço.” Quer dizer, agora então está fácil de escolher.  Aí eu falei: “Você pode escolher Direito, é uma opção boa para você.” (risos) Se bem que Direito hoje em dia o car está muito próximo de sangue também.

P/1 – (risos).

R – O mundo está ficando muito violento, então não está muito longe de sangue não.

P/1 – E seus projetos de futuro? Você tem, quais são seus projetos, um pouco, sonhos?

R – Olha, eu... Essa casa eu tenho muita esperança de ser muito feliz nessa casa, sabe? Essa casa… Eu tenho uma relação muito emotiva com ela. Porque eu fiz o projeto da casa, eu construí a casa em um espaço entre três jabuticabeiras que o meu pai plantou. Elas já estão grandes. Então é um lugar assim que eu pretendo ser muito feliz nesse local. Agora em relação a trabalho eu gosto muito do que eu estou fazendo. Gosto demais, essa área de energia me atrai muito. E passamos a vida inteira trabalhando com mineração. Isso é um negócio novo e eu gosto de coisa nova. Eu não tenho medo assim de desafio. Nesse aspecto eu acho que não vou envelhecer nunca. Qualquer desafio novo que tiver pode contar comigo que isso me atrai muito. Então eu tenho estudado, em tenho… Sabe? À noite eu estudo um pouquinho para aprender mais de energia, de água. A parte elétrica e mecânica de uma usina hidroelétrica é simples. O problema maior é a ideologia, sabe? O regime do rio. Isso eu vou demorar um pouquinho para entender do jeito que eu quero. Mas eu tenho estudado isso ai, eu gosto disso. A ideologia do rio é meio complicada. Depende de chuva, e você tem que, estatística, então é um negócio meio complicado. É meio fascinante. E eu gosto disso. Então está muito bom. Eu não pretendo parar tão cedo (risos). Uma hora eu vou ter que dar lugar para a turma que vem aí atrás. Mas por enquanto eu não estou pensando nisso ainda não, viu? (risos).

P/1 – Então eu vou te fazer uma última pergunta, o que você achou de ter participado desse projeto, ter prestado depoimento aqui hoje e o que você acha do Vale Memória, desse projeto?

R – Achei ótimo. Eu acho, é, eu sou um pouco suspeito para falar. Mas eu tenho, a minha relação com a Vale do Rio Doce é uma relação muito assim, de muito respeito, muita admiração. Eu acho que é uma empresa que eu fui muito bem tratado durante todo o tempo que eu trabalhei. Gosto muito da Vale. A minha família também  pensa a mesma coisa. E eu sempre aplaudo essas iniciativas da Vale. Eu acho que ela é uma grande empresa e mais essa eu estou achando muito bom. Eu estou me sentindo extremamente honrado de poder estar dando meu depoimento em um programa desse da Vale do Rio Doce. Para mim está sendo muito bom.

P/1 – Tem mais alguma coisa que a gente esqueceu de perguntar que você gostaria de falar?

R – Não, já falei demais já (risos). 

P/1, P/2 -  (risos).

R – Já fiz jus à minha fama de italiano (risos). 

P/2 -  Mas foi ótimo.

P/1 – Então, super obrigado, foi ótimo.

R – Obrigado vocês. Tá bom. Espero não ter decepcionado.

P/1 – Que é isso.

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