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Pai, eu quero a caneta leve

História de: Romário Gava Ferrão
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 02/11/2014

Sinopse

Romário Gava Ferrão nasceu em uma família de pequenos produtores rurais que sempre cultivaram café. Sua mãe cuidava da casa e dos nove filhos, enquanto o pai se dividia entre o trabalho no campo, o ofício de dentista prático e a ourivessaria. Os pais frequentaram a escola até o quarto ano primário, mas sempre tiveram a educação dos filhos como um dos principais valores da família. Aos dez anos deram a Romário a oportunidade de sair de casa para estudar em um colégio interno, desafio que o filho enfrentou e que transformou a sua vida.

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História completa

Romário Gava Ferrão. Eu nasci no Município de Conceição do Castelo, que fica mais ou menos a 120, 130 quilômetros daqui, mas eu nasci no interior desse município. É um pequeno município, que hoje deve ter uns 20 mil habitantes e eu nasci num local chamado Alto Montevidéu, nasci lá em 31 de julho de 1956. Um lugar muito simples, de topografia acidentada, muito morro, um local de difícil acesso, estrada de chão, onde só chegava a cavalo e depois só de jipe. Porque quando chovia, era um solo muito argiloso e com isso tinha dificuldades de passar outros tipos de carro, mas naquela época também não tinha outros tipos de carro, né? Era, na época, nessa propriedade onde eu nasci, era energia própria. Eu sou o segundo filho de uma família de nove irmãos, onde tem o mais velho, eu sou o segundo, são quatro homens e cinco mulheres, né? Meu pai se chama Antônio Ferrão Sobrinho e minha mãe Maria Teresa Gava Ferrão, os pais italianos, né? Os meus avós vieram da Itália, no início de 1890, então hoje, se eles estivessem vivos, os meus avós, eles estariam aí com 112, 113 anos. Então eu nasci nesse lugar chamado Alto Montevidéu e lá, de lá eu tenho muitas lembranças, muitas lembranças, e eu fiquei nesse lugar até dez anos de idade.

Meus dois avós eram do campo, então desbravaram as matas e já naquela época a principal atividade já era o café, então eles desbravaram a mata, plantaram café e do café eles criaram a família deles. O meu avô por parte de pai teve quatro filhos, o meu pai, o Antônio Ferrão Sobrinho, eu vou dizer, o filho mais velho, né, então ele e os outros também, eles foram criados dentro dessa pequena propriedade, era uma propriedade de cinco alqueires de terra, né, e eles, vamos dizer, foram criados com o café. Por parte de mãe já eram sete filhos, o meu avô por parte de mãe também viveu do café porque ele tinha, ele era comerciante, então ele tinha uma máquina de beneficiar café e ele comprava café na região, então o meu avô criou os filhos, por parte de mãe, com o intermédio do café também.

O meu pai era dentista prático, era uma pessoa com apenas o quarto ano primário, né, naquela época, mas naquela região ele ainda era uma pessoa, assim, de bom esclarecimento. E o papai tinha uma característica muito interessante, mesmo sendo de pouco estudo ele trabalhou numa profissão de dentista prático, então ele lia muito. Então ele era uma pessoa simples, uma pessoa boa, muito prestativa, uma pessoa que se comunicava bem com as demais pessoas, é uma pessoa que tinha muitas amizades, né? E uma coisa interessante dele, papai mesmo com pouca instrução, ele tinha um projeto de vida pros filhos dele, pros nove filhos, ele já indicava pra gente que a única saída pra gente, ou herança que ele iria deixar pra gente, é o conhecimento, é a informação, é a educação, e ele sempre perseguiu isso. Então o meu pai era um dentista prático, mas nessa pequena propriedade ele tinha a lavoura de café. A minha mãe era doméstica, mamãe era uma mulher também muito simples, de pouco estudo, só apenas o quarto ano primário, e era uma dona de casa, ela vivia pra família, vivia para os filhos, vivia tomando conta da casa. Eu me lembro bem, uma casa grande, alta, né, e ali ela ficava o dia todo, tudo praticamente, a nossa alimentação era toda produzida naquela propriedade, produzia o milho, produzia o feijão. Nós tínhamos a lavoura de arroz, tinha cana-de-açúcar, tinha as galinhas caipiras, tinha a vaquinha dando leite, tinha o cabrito, tinha o porco, tinha o pomar, tinha a horta, tinha a energia própria, tinha um moinho que fazia o fubá, que era... Que nós fazíamos a polenta, que era a base da alimentação de todo dia, né? Tinha água de cacimba, não tinha água encanada, era de cacimba. E tinha um córrego, onde era o local, de fim de semana a gente tomava banho nele, mas durante a semana era tão corrido que a gente tomava banho numa bacia com água. Então era uma situação, assim, bem rudimentar. Ela, nessa vida muito humilde, ela sempre foi uma pessoa muito caprichosa, muito dedicada aos filhos. Outro ponto, nove filhos, era de ano em ano, de dois em dois anos, máximo três em três anos ela tinha um filho, todos os filhos de parto natural, todos não, só o último que não foi de parto natural, tudo parto natural, né?

A nossa vida começava às cinco, seis horas da manhã. A gente morava num lugar mais ou menos frio, que está a mais ou menos 400 a 500 metros de altitude. E a primeira atividade, quando dava cinco, cinco e meia, o papai e a mamãe levantavam, mamãe levantava pra fazer o café da manhã, acendia o fogo de lenha ali com querosene, acendia o fogo, nós tínhamos a nossa lenha ali que fazia o fogo, né. E enquanto ela fazia o café, eu todo dia, eu ou o meu irmão, os meus irmãos, nós tínhamos que pegar a mula, o burro, que o papai se locomovia, ele trabalhava de dentista prático, mas não só naquele local, o local na nossa casa, ele se locomovia pra outros locais pra fazer a profissão dele. Então eu levantava, ia lá pegar a mula, pegava a mula, arriava a mula pra ele, deixava pronta, isso uma semana eu fazia, outra semana os outros meus irmãos faziam, paralelamente, ou eu ou meus irmãos, nós íamos tirar leite. Nós tínhamos duas, três vaquinhas de leite, então, a gente tirava de dez a 20 litros de leite todo dia, eu me lembro, lá naquele curral, um tirava leite de um lado da vaca e eu tirava do outro, eu tirava de duas tetas, ele tirava de duas tetas. E aí, quando dava mais ou menos sete e meia, oito horas da manhã, já estava a mula arriada pro papai sair, o leite já estava tirado e aí nós íamos almoçar, era oito horas da manhã mais ou menos, o almoço estava pronto. Aí era aquela comida caseira, era o arroz, era o feijão, era sempre as verduras, a carne que a gente comia aquela época não tinha tanta mudança de carne, se comia mais carne de porco. Carne de porco da lata, de lata de gordura, né, muitas vezes um frango, linguiça e muita verdura. Sempre tinha muitas frutas, mas frutas naturais de acordo com a época, né, era manga ou era goiaba, sempre muita banana, uva, então tudo dali. Acabava o almoço, aí a gente ia pra escola, a gente andava uns dois quilômetros a pé e quando chegava da escola, meio-dia mais ou menos, ali a gente tomava o café do meio-dia, que era sempre com o café, leite, sempre acompanhado com as merendas, os pães, os bolos, essas coisas feitas pela própria mamãe e pela minha avó. E na parte da tarde a gente trabalhava na roça mesmo, a gente trabalhava plantando milho, colhendo milho, plantando feijão, colhendo feijão. Na época de se fazer, nós fazíamos o polvilho da araruta, o polvilho, que naquela época tinha dificuldade de ter o trigo, então o polvilho ajudava a fazer os biscoitos, bolos e assim por diante, a gente fazia isso. Papai estava reformando as pastagens, a gente plantava capim, na época de plantar arroz, a gente plantava arroz, na época de colher arroz, colhia arroz. Tinha dificuldade do açúcar cristal, então a gente tinha cana, tinha o milho e a cana, fazia o próprio açúcar mascavo, fazia rapadura. Na época de goiaba, fazia goiabada, fazia pé-de-moleque, fazia com um mamão e com, vamos dizer, a cana-de-açúcar, a gente fazia o doce de mamão, e era assim. Preparava tudo. E aí a gente chegava de tardezinha, anoitecendo, ia tomar o banho da gente, jantava. E sempre à noite, lá pelas sete, oito horas da noite reunia a família, reunia, conversava, brincava, brigava, rezava o terço, ajoelhava em volta da cama, papai e mamãe colocavam pra gente rezar o terço e quando era oito e meia, nove horas ia dormir.

Eu fui pra escola com sete anos de idade, seis anos de idade. Chamava Escola do Alto do Montevidéu, era uma escola, mas imagina uma coisa, uma escola simples, simples, ela era de pau a pique, essa escola. Nós estudávamos mais ou menos umas 20 crianças, mas ela era toda esburacada, o assoalho era de madeira, de pau a pique, as paredes já estavam caindo. Tinha um quadro negro e nesse período de quatro anos, dos seis aos dez anos, eu tive três professoras, foi ali que eu fui alfabetizado. Então, fiquei esses quatro anos, aí dez anos, eu já fui fazer o primeiro grau, né, que era o ginásio naquela época. Quando a gente começou a crescer, na família, né, e aí eu vou colocar um ponto que isso daí serviu de exemplo pra todos os outros nove filhos. Foi o seguinte, o meu pai e a minha mãe, quando eu tinha dez anos de idade, ele chegou à noite, então antes de dormir ele chegou assim, me falou: “Romário”, ele e a mamãe, falou: “Romário, senta aqui”, “O quê que é, papai?”, “Meu filho, você tem que tomar uma decisão da sua vida”. Eu falo isso, fico emocionado, ele falou assim: “Meu filho, você quer uma caneta leve ou uma caneta pesada”, eu falei assim: “Pai, eu quero a caneta leve”, então falou assim: “Então você vai estudar, você vai pro colégio de padre”. Se eu desse a outra opinião, eu ia trabalhar na roça, na enxada, né? “Bom, então, meu filho”, isso era antevéspera de natal, ele falou: “A partir de janeiro você já vai sair de casa”, foi aí que começou minha vida. 

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