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Pagode, o mestre da sanfona

História de: Manoel dos Santos (Pagode)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 24/09/2008

Sinopse

Muito antes de se tornar o popular Pagode, Manoel dos Santos fazia instrumentos de lata – incluindo aquele que lhe daria o apelido – para aprender a tocar. A música era sua paixão, mas ele, ainda criança, tinha de se dedicar a outra tarefa: ajudar o pai na roça, na zona rural de Piaçabuçu, em Alagoas. Às vezes, trabalhava de madrugada até o céu se encher de estrelas, quando sua avó, em certas épocas do ano, reunia a vizinhança em torno da fogueira para contar causos de assombração. Só aos 45 anos de idade, depois de trabalhar como lavrador e pescador, Manoel pôde comprar sua primeira sanfona, desejada desde a infância. Deu início, então, à carreira musical, com a qual se tornou mestre: além de se apresentar na região, Pandeiro ensina à criançada a arte que tardou a se consolidar como sua profissão.    

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História completa

Eu nasci no Porto Real do Colégio e me criei aqui em Piaçabuçu. Eu nasci no dia 15 de março de 1954. O meu nome, Manoel dos Santos, o popular Pagode, mestre, sou compositor, cantor. Tudo eu ajeito na minha vida.

Eu ajudava muito meu pai. Meu pai me tirava da cama quatro horas da manhã. Cansei de me levantar quatro horas para ir vigiar o passarinho. Chegava na roça, às vezes, ainda dormia, com sono, deitado nos trens dos tocos, para o dia clarear para poder começar a trabalhar. O meu pai ia para a roça, ele trabalhava de alugado. Ele ia, nós íamos para a roça, quando eram umas quatro horas, quatro e meia, nós saíamos. Quando chegava lá, ele começava a trabalhar.

Quando era criança, não foi muito fácil, porque eu trabalhava muito. Eu não fui para a escola, eu não sei ler bem porque eu não fui para a escola, não tive oportunidade de ir para a escola. Eu tinha vontade de aprender, tocar. O meu pai não podia comprar uma sanfona para mim, que eu tinha paixão de aprender a tocar sanfona, tocar saxofone. Eu não podia ir para a escola porque meu pai não podia pagar para eu estudar. Foi passando o tempo, passando o tempo. Já com 45 anos, Deus me ajudou. Aí, fui, comprei lá uma sanfoninha, ainda hoje tenho ela. Comecei a tocar, fazendo música nordestina, fazendo música cultural, música popular. Então, agora, graças a Deus, o meu serviço que eu estou fazendo praticamente é isso. Já pesquei também muito, eu sou pescador. Conheço também do São Francisco, sei correr pano, sei dirigir barco, sei ser piloto, sei fazer tudo. De tudo eu sei um pouco. Sei trabalhar de enxada, eu sei. De foice é que eu sei também, de facão. O que mandar fazer eu faço. E toco sanfona, toco pandeiro, toco triângulo, toco zabumba.

Eu sou mestre sabe por quê? Porque eu gosto de cantar, eu gosto de fazer música. E, então, desde criança, eu aprendi a tocar. Eu tocava pandeiro, tocava zabumba, tocava. E eu fazia, quando era pequeno, você sabe o que era que eu fazia? Eu fazia pandeiro de lata para tocar, porque o meu pai não podia, era pobrezinho, não podia comprar nada. O meu pai, o que arrumava só dava de comer a mim e à minha irmã e à minha mãe e à mãe dele, que convivia com a gente, a minha vó.

A minha vó era rainha das “histórias de trancoso”, histórias de assombração. Eu, pequeno, eu tinha medo quando ela estava contando, eu me enrolava na saia dela. O povo fazia aquela roda. A minha vó tinha por obrigação: todo dia, se estivesse chovendo ou não, mas, quando era noite de lua... Assim no verão, assim na época do inverno, ela não fazia muito, não. Mas, quando chegava no mês de agosto, mês de setembro, mês de outubro, ela tinha por obrigação, todo dia, botar um feixe de lenha para nós queimarmos no terreiro de noite. Parecia até que tinha morrido gente. O povo, no interior, não faz fogo na porta. Aí, o povo via aquele arraial. Ela contava uma história, outra pessoa contava outra, outra pessoa contava outra, e era aquela reunião ali. Fazia aquela roda toda noite, e eu não sei como ela ainda aguentava carregar tanta lenha para nós queimarmos toda noite. Aí, o povo começava a contar aquelas histórias todas, e, quando era uma história que fazia medo, eu me enrolava. Ela, a minha vó, tinha saiona. A minha vó tinha saiona, eu me enrolava num lado da saia, eu me deitava ali. Ela contando as histórias, eu me deitava, e a minha irmã se enrolava no outro lado, com medo. E quando nós íamos dormir, quando terminava tudo que nós entrávamos para dentro de casa. Só entrava para dentro de casa  agarrado com ela, com medo dos fantasmas que o povo contava muito.

Eu vou dizer só uma poesiazinha, viu? “Sou filho da roça, não gosto do lado da cidade, eu vou lá, passo dois dias, oh, que saudade danada. Tenho saudade do meu lindo pé de serra, tenho saudade do canto do sabiá, tenho saudade lá do meu ranchinho de palha, tapadinho de barro. Pra roça eu vou voltar. Lá na cidade, lá onde você mora, os homens vivem ‘ensapatados’, vivem engravatados, parecem até doutor. E eu, na roça, calço minhas alpercatas, visto a camisa rasgada, que o suor já cortou.”

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