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História

Pagamento em groselha

História de: Vicente Amato Sobrinho
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 27/12/2012

Sinopse

Origens da família: italiana, alemã e francesa, moradora de bairros operários. A infância e as comemorações da Copa do Mundo de 58. O início do trabalho em armazém de secos e molhados. As empresas em que atuou e o curso de Administração de Empresas. A abertura de uma revendedora de papel. O segmento de papéis no Brasil e no mundo, a questão da reciclagem e dos processos de produção e importação. A conciliação entre o gerenciamento de seu negócio com a atuação, como presidente, no Sindicato Nacional do Comércio Atacadista de Papel e Papelão e na Associação Nacional dos Distribuidores de Papel.

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História completa

“O primeiro lugar em que morei foi na famosa Vila Maria Zélia, no Belém. A Maria Zélia deve ser da década de 1920, e eu morei lá entre 1948 e 49. Mas eu era um bebê, não lembro muita coisa. O que a gente sabe é o seguinte: havia ali uma grande integração, porque você tinha a escola, você tinha a igreja, você tinha um campo de futebol e tinha também as casas, não é? E as casas eram praticamente iguais, com exceção de alguns sobrados, que eram os da chefia. Mas eram sobrados tão grandes que acabavam sendo divididos e tudo se realizava lá. Inclusive eu tenho uma prima que ainda está viva e morou lá a vida toda. Ela casou com um primo meu. E ela tinha muita raiva daquele lugar, porque era assim, se alguém quisesse namorar com ela, de fora, o cara não conseguia entrar lá para apanhá-la, não tinha jeito. Coitada. Eu lembro que uma vez eu estava conversando com ela e ela disse: ‘Se um dia eu ganhar na loteria esportiva...’ ‘Você quer ganhar na loteria para fazer o quê?’, eu perguntava. E ela respondia: ‘Para botar fogo no Maria Zélia.’ Depois a gente se mudou para outra casa, no Tatuapé, que ficava na Rua Vilela. Era um quarto, uma salinha e uma cozinha. Uma coisa marcante para mim que existia lá era um fogão, que ficava assim no canto, e era a carvão, lenha. Eu lembro que uma vez meu pai ameaçou me bater com cinto, que eles chamavam de correia: ‘Olha que eu vou pegar a correia.’ Eu sei que não pensei duas vezes: peguei aquele cinto e joguei no fogo. Aí passou o tempo e todo mundo procurando o cinto, procurando o cinto; no outro dia acharam a fivela só. Existia um clube lá, chamado Sampaio Moreira, e eram todos corintianos, só falavam de Corinthians dia e noite. O comércio em frente à casa em que eu morava era uma vendinha. Ali você comprava e marcava a despesa na caderneta, quando recebia o salário você ia lá e pagava. Eu comprei muita gasosa ali. Gasosa é a tal da soda de hoje em dia, a Sprite, esses negócios. Eu lembro porque eu gostava muito disso: gasosa, bucho, feijão, arroz, banha – naquela época cozinhava-se na banha –, toicinho. Dali nós passamos para a Vila Esperança. Nós tínhamos a padaria e ali perto tinha o armazém do Miguel, que era um armazém pequeno. E esse Miguel, quando dava meio-dia, ele ia almoçar e dormia até três horas da tarde e, quando eram férias, coisa assim, eu ficava tomando conta nesse período do armazém dele. Eu vendia e depois ele me dava um copo com groselha. Eu devia ter uns dez anos e fui meio que um autodidata, porque o feijão, ele não vinha em saquinho, tinha aqueles apanhadores, tipo uma caneca. Você punha, pesava, fazia as orelhinhas no saco e dava para o cliente. Eu tinha uma lista de preço lá, mas devo ter cobrado errado um monte de vezes. Cobrava mais, cobrava menos, mas não estava nem aí. E acho que ele também não, porque depois ele começou a me dar groselha com leite.”

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