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História

Padrinho do Santo Daime

História de: Feliciano Silva de Freitas
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 08/10/2015

Sinopse

Feliciano Silva de Freitas, em seu depoimento, comenta sobre como na sua infância teve problemas com seu padrasto e foi morar com a irmã e o cunhado com apenas 10 anos de idade. Fala sobre como o Padrinho Sebastião o iniciou na doutrina do Santo Daime, e relata experiências e histórias sobre a crença e os locais aonde viveu. Descreve o trabalho que desenvolveu no agrupamento Rio do Ouro e no Vila Céu de Mapiar, onde orienta grupos que tomam Santo Daime. Também comenta sobre sua família, esposa e filhos.

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História completa

Meu nome completo, Feliciano Silva de Freitas, eu nasci no Acre, no munícipio de Xapuri, em 1962. Meus pais são Francisco Domingo e Elza Ferreira. Logo no começo, a gente morava no seringal, depois que a gente caminhou pra cidade. O meu pai, ele era seringueiro, e minha mãe também era seringueira, cortou muita seringa, eles trabalhavam na floresta. Com quatro anos de idade a gente se mudou pra Rio Branco, saiu de Xapuri pra Rio Branco, a gente continuou morando na colônia, meu pai se separou da minha mãe, depois ela arrumou outra família e eu não saí de perto dela. Eu fui o caçula dele, eu continuei sendo o caçula, a minha mãe teve mais três irmãos meus mais novos. Nós éramos três homens e duas mulheres, eram cinco, depois minha mãe teve mais três com outra família. O meu padrasto, ele tomava muita cachaça, a gente se desentendeu um pouco, eu com dez anos, ele já vinha me botando uma programação pra mim cuidar da minha vida, pra mim ter o meu pão de cada dia.

Ia na escola, só que eu ia estudar à noite, de dia eu trabalhava e à noite eu estudava, eu desisti um pouco da escola por isso, porque era muito longe. Quando eu cresci, já me encaixei mais pra trabalhar, pegar na agricultura.  Quando eu fiz meus dez anos, eu já tava um pouco encrencado com o meu padrasto, eu fui, avisei a minha mãe, eu digo: “Olha, mãe, eu tenho que ir embora, que a casa está pequena pra mim e meu padrasto”. Eu só dormia depois que eles dormiam, então na intimidade deles, que a minha mãe era muito mais velha do que ele, ele bem novinho, então ele tinha uma sede por amor demais, minha mãe já estava cansada, e ele: “Não, ou você vai ou então o primeiro a morrer é aquele ali que está dormindo”. Eu fazia que estava roncando. E naquela época era liberado, você podia ter toneladas de armas em casa, então ele era muito zeloso com as armas dele. Como ele tomava daime também há pouco tempo, eu falei pra mamãe, contei toda a história, digo: “Olha”, contei essa história que eu estou contando, pra mãe. Chamei minha irmã mais velha e meu cunhado, participei: “Eu vou sair de casa”, “Então você vai passar, vai lá pra casa, você e sua mãe”. Levei minha mãe. Meus irmãos mais novos ficaram com o meu padrasto, porque ele era muito brabo, daqui não sai nada, eu digo: “Rapaz, eu quero só a minha roupa do corpo mesmo, não quero nada, o que eu fiz, fica tudo”. Eu fiquei um ano com meu cunhado e minha irmã,  eles gostavam muito de mim, que eu fazia tudo, fazia de tudo, disse: “Metade da tua diária eu te pago, a outra metade fica pras despesas, sua e da sua mãe, pra você gastar nem com uma agulha”, eu digo: “Ótimo”, fiquei. Com um ano acertei conta com ele e digo: “Estou partindo, meu irmão”.

Saí onze anos de idade, eu fiquei um ano, saí com dez, fiquei um ano com meu cunhado e minha irmã, amarrei, botei o saco nas costas e pisei. Cheguei lá, Seu Sebastião estava na janela assim, digo: “E aí, Seu Sebastião, o nosso negócio?”, ele disse: “Está em pé, está aqui, seu armador de rede é esse aqui”. O filho dele sempre já ficava, um ano me aperreando: “Feliciano, vamos embora lá pra casa”, eu digo: “Não, rapaz, eu tenho que ficar um ano lá com meu cunhado”. Ele dizia: “O papai está pra ficar doido, quando vejo está o pai passando sebo no teu armador, vai no outro, passa sebo, passa óleo, balança o armador. ‘Papai, pra que que o senhor está fazendo isso?’, ‘Pra quando o Feliciano tiver se embalando aqui, não fazer barulho’”. Cheguei nessa bendita hora, disse: “Não, está aqui o seu lugar”, eu vim inserindo na comunidade, já com Seu Sebastião, já comecei a chamar ele de padrinho: “Seu Sebastião, posso te chamar de padrinho?”, “Pode, meu filho”, aí daí comecei com esse senhor, o qual já conhecia o Santo Daime, daí foi.

A história do padrinho Sebastião, assim, ele se identificou muito comigo.  Ele foi uma pessoa fantástica. Ele veio do Amazonas. Queria eu na doutrina: “Porque, na hora que chegar o recurso, meus filhos vão se sujar com o cocô do pinto”, e hoje em dia nós temos comunidades, tanto em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Minas Gerais, tudo que é parte, Bahia, tudo que é parte do Brasil e no exterior também. Então nossa comunidade, assim, ela, toda nessa forma, pras pessoas adaptarem mais, enxergarem um pouco, olharem mais para si, olhar nosso planeta. A pessoa chega lá, por exemplo: “Qual é o seu problema, meu filho?”, “Ah, estou cansado da cidade, estou estressado, esgotamento físico, estou com esgotamento mental, estou isso, estou aquilo”, “Mas então você quer se curar?”, “É”, “Então aqui é um grande lugar, porque a floresta, ar puro, vai lidar com a terra, vai saber o que está plantando, o que que tu está comendo”. Então a pessoa vai sair daquele estresse, ele vai pegar uma outra corrente de ar puro, então esse é o trabalho, que a gente apresenta, que a comunidade.

Aos meus 16 anos eu fui comandante da comunidade, tirei 48 famílias da Colônia Cinco Mil pra o Rio do Ouro, o primeiro seringal que a gente abriu, que na Cinco Mil estava tudo pasto, tudo campo, não tinha mais mata pra roçar, então plantava no campo, o legume não estava mais dando produção. Nós saímos pra floresta pra isso, pra tirar seringa, látex, e ter mais vida, ter mais vida. O plano do padrinho Sebastião de sair da Colônia Cinco Mil foi esse e quando ele passou pra toda comunidade, as nossas terras, a nossa terra era maiorzinha, nós tinha 30 e pouco hectares, ah, quando o meu padrasto viu: “O quê? Cem hectares? Vamos na hora, nós vende isso aqui e vamos aplicar nessas terras”. Foi todo mundo, então isso é um caso que eu estou contando sempre, e todas as famílias fizeram isso, vendeu as coisas que tinha pra gente ir pro Rio do Ouro. Era uma terra devoluta, terra da União como nós tínhamos entrado, autorizado pelo Incra, tudo direitinho.

Arrumaram no Céu do Mapiar, era um igarapé chamado Mapiar quando nós chegamos, padrinho Sebastião foi olhar, isso eu tinha 16 anos. Aos meus 16 anos e seis meses eu me alistei, eu queria ajudar a comunidade, eu já era comandante, já tinha ensinado um monte de motorista já. Eu me alistei, digo: “Vou passar um ano fora, eu quero me formar”, fui lá, me alistei no dia do meu aniversário, pro Pico das Agulhas Negras, Rio de Janeiro, que era o quartel mais rígido que tinha: “Eu quero só o Pico das Agulhas Negras, tenho coragem, tenho mesmo, eu quero um negócio forte”.

Quando chegou esse povo, pra retirar nós lá, a gente saiu, foi quando a gente encontrou essa outra terra, o Mapiar, no igarapé, a gente formou essa vila Céu do Mapiar. Depois que eu, meus 18 anos quando terminei, saímos devendo, abrimos tudo do zero de novo, porque a gente já tinha gastado todo nosso recurso no primeiro seringal, pra fazer as casas, pra arrumar tudo. Quando nós pegamos esse chute do próprio governo, o próprio órgão, que era o Incra, que tinha autorizado, nós saímos, disse: “Bem, agora no Mapiar, meu filho, se vocês vierem com essa história depois de ser definitivo, pode ter certeza que você vão arrumar encrenca, porque a gente corre até aonde vê que pode, mas quando não dá mais de correr, a gente se vira”.

No Mapiar já foi mais prático, porque a gente já tinha a base, como tinha jogado essas 48 famílias, como tinha transportado elas pra o Rio do Ouro, da Cinco Mil ao Rio do Ouro, que a gente entrava no Rio do Ouro, saía, pegava o caminhão na Colônia Cinco Mil, parava na beira do armazém, entrava no Índia Maria, andava três horas, conforme as águas, os balseiros tivesse caído, a entrava no Trena, era outro igarapé, mais estreito, você viajava quatro, cinco horas, entrava mais no Rio do Ouro, era outro igarapezinho, mais estreito, então andava, navegava em três igarapés pra poder chegar na Colocação São Sebastião. Eu ficava mais na parte de viagem, como eu era o comandante dos barcos eu ficava na parte mais administração da viagem, quantos dias ia gastar, que dia eu tinha que sair, quantas pessoas eu ia pegar na canoa, quantas pessoas eu ia pegar.  Era tudo dividido.

Eu tive um ritual transformador, eu lembro uma vez que eu estava na minha oraçãozinha, que eu cheguei num ponto assim, era um palácio assim, tudo bem fofinho, sabe, assim, que você podia ficar relaxado, eu estava sentado num banco, assim, tinha os meus 14 anos, 15 anos de idade, digo: “Rapaz, mas estou dentro disso aqui, eu vou sentar numa poltrona dessas já, já e vou me relaxar, quer ver?”. Parecia que eu estava conversando assim, andando, que nem eu estou aqui, sentei, quando eu fiz assim, que eu relaxei, que eu abri o olho, eu estava assim, ó, já caio, não caio pra trás: “Meu Deus, o que estava acontecendo, o que era que eu estava vendo mesmo?” Então tem essas coisas, que você vê, então aquilo, não sei se é uma coisa que eu vou chegar ainda ou se foi num passado meu, no momento do susto eu não tive a oportunidade.

Quando eu deixei todo mundo pronto no Mapiar, eu desisti, peguei meu reservista, digo: “Bem, eu vou cuidar da comunidade, né?”, fiquei ajudando padrinho Sebastião, eu era uma pessoa mesmo ligada ao padrinho Sebastião, eu morava na casa dele. Quando a gente pagou todas as contas no Mapiar, eu ensinei os meninos a dirigir, já tudo com carteira, já marítima. Nós temos dificuldade do Santo Daime, porque a gente tinha deixado um plantio na Cinco Mil, tinha deixado um plantio no Rio do Ouro e era muito longe pra pegar. Ele disse: “Rapaz, a única pessoa, quem é que sabe procurar, conhece na mata, conhece folha na mata nativa?”, eu digo: “Rapaz, eu, eu tenho coragem de encarar isso daí”, ele disse: “Está bom”, então eu digo: “O pessoal já está aí, eu vou fazer um feitio na Cinco Mil pra trazer um daime e trazer umas mudas pro Mapiar”.

Foi a minha primeira viagem a São Paulo, minha primeira viagem a São Paulo, estava há muitos anos o pessoal me convidando pra vir, eu digo: “Rapaz, ainda não é a oportunidade, não é a minha vez ainda, no dia que for pra mim vir a São Paulo, Deus vai me levar”. Agradeço a ele por está aqui, por ter vindo agora, essa viagem, que eu vim até o Rio de Janeiro, era até o Rio de Janeiro, eu vim pra Brasília, porque o meu filho fez uma cirurgia lá com três anos de idade, hoje em dia ele tem 11, eu comecei vir pra Brasília. Minha mulher veio duas vezes, pegou um pânico de avião e eu fiquei vindo trazer ele, de lá foi ampliando. Quando foi, conheci umas pessoas no Rainbow, que é uma, comunidades alternativas, eles queriam conhecer o Acre, fazer no Acre, eu fui, digo: “Pode, eu tenho 12 hectares, tem a parte da igreja também, que abre”, aconteceu o Rainbow, no Acre. Aí foi aonde eu conheci o Ricardo, conheci várias pessoas,: “Não, padrinho, mas o senhor tem que sair. O senhor nunca saiu?”, digo: “Não, rapaz, eu vou só em Brasília porque o meu filho faz tratamento, de seis em seis meses eu tenho que ir lá, né?”. Em Brasília tem um campo muito grande também, que tem um grupo de 60 pessoas. Brasília tem a base, eu não dou nem conta de ir visitar todo mundo que quer a minha visita em Brasília, quando chega assim: “Padrinho, vem pra cá, padrinho, vem pra cá”, eu não consigo, a agenda já vem curta ali, eu tenho que voltar. E agora eu vim, vinha só até Brasília, como eu tenho uma filha que está fazendo Medicina agora, ela é farmacêutica formada e vai fazer Bioquímica agora no Rio, e a outra está fazendo Música, a Mariana.

Meu papel é orientar as pessoas que estão tomando daime pela primeira vez, as pessoas que já tem um seguimento dentro do daime não sabem como lidar com essa situação. Então o meu papel é esse, é tentar mostrar pras pessoas que o trabalho de um daimista quem dirige não somos nós, matéria, apenas nós somos um zelador, somos um aparelho que está ali, Deus é quem guia, quem manda, é quem conhece você, conhece cada um de nós. Então conforme idade, teu merecimento, teus esforços, teu pedido, tua relação com Deus, sabe, ele vai te dando aqueles ensinamentos,

Fui ficando na Colônia Cinco Mil, foi onde eu conheci minha esposa lá na Cinco Mil. Ela tinha conhecido o padrinho Sebastião em 80, por aí, tinha andado na Colônia Cinco Mil, eu até vi ela uma vez de passageira, que eu estava no barco já pra descer, e estava ela e outra pessoa, outra colega dela dando tchau na beira do barranco, eu: “Vamos embora, vamos embora”. Depois de dez anos foi que eu vim encontrar com ela, 13, 15 anos, foi que eu vim encontrar com ela na Colônia Cinco Mil, porque ela veio na Colônia Cinco Mil e, como eu já estava lá, né, deu certo, foi uma benção na minha vida. Ela era do Acre, só que ela morou um tempo em João Pessoa. O nome dela é Maria Inês. Ela conhecia uns amigos que falavam da Colônia Cinco Mil, ela foi uma vez lá, tomou e gostou, passou um tempão fora, depois de 15 anos ela voltou, por causa do Santo Daime, foi pra lá. É, voltou por causa do Santo Daime, aí se hospedava na minha casa, quando ela chegou, ela tinha duas crianças, uma de três anos, uma de um ano e pouco. Hoje a gente tem 20 anos, temos três filhos maravilhosos, mais as duas dela.

Eu continuo fazendo a minha missão, que foi o que sobrou, que o meu roçado de arroz acabou, o roçado de macaxeira acabou, porque eu tive que largar tudo, viajar, vim, passo 30 dias em Brasília, quando eu chego em casa, o mato, tenho que fazer novos caminhos, que o mato já comeu tudo. A minha missão daqui pra frente é plantar essa sementezinha na cabeça, no coração das pessoas que querem, realmente cada um se voltar pra o seu dia a dia, sair da mão dessas pessoas, chegar lá e diz: “Ô, padrinho, senta com ele, ô, padrinho, vamos fazer aqui um negócio aqui pra ter um recurso aqui, pra comunidade crescer”.

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