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Padre Eduardo Summermater

História de: WANDERLEI SALVADOR
Autor: Wanderlei Salvador
Publicado em: 27/02/2019

Sinopse

O Padre Eduardo Summermater foi uma figura emblemática durante a colonização de várias cidades localizadas no Alto Vale do Itajaí, em Santa Catarina. Este cidadão Suíço nascido a mais de cem anos, possui uma história de vida muito interessante, narrada a seguir, com textos de várias fontes -

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História completa

PADRE EDUARDO: Atritos com o clero na disputa pelo poder

 

Padre Eduardo é um personagem de importância histórica regional de Santa Catarina, como se verá a seguir, nos textos retirados do acervo do Jornal O Barriga Verde, e na maioria produzidos pelo historiador Dante Bonin, em duas obras de grande importância sobre a colonização de Salete e Rio do Campo. Também foram introduzidas inúmeras pesquisas e entrevistas do Professor Lírio Luiz Volpi e do acervo de professor Fiorelo Zanela bem como textos de outras publicações. O governo suíço promoveu recentemente uma grande busca de resgate a memória de seu povo que veio ao Brasil. Esta busca identificou as principais colônias, organizações e personalidades suíças que fizeram e até hoje fazem parte da história do Brasil, principalmente de língua alemã. Além disso, os suíços fundaram a primeira colônia de imigrantes europeus (não-portugueses) no Brasil, quando se instalaram em 1818 na região de Nova Friburgo, no estado do Rio de Janeiro. Mas a pesquisa abrange desde as primeiras missões e desbravamentos, passando pelas ondas de imigração, nas quais milhares de trabalhadores se espalharam por plantações de café no Brasil, até o tipo mais contemporâneo de imigração, a saber, o de empresários, artistas e profissionais liberais.

 

A presença dos suíços no território brasileiro é mais antiga do que muitos podem acreditar. Já em 1557, desembarcavam em terras tupiniquins 14 missionários calvinistas, provenientes do cantão de Genebra, sob a direção do jovem estudante de teologia Jean de Lery (Oberacker Jr., 1965: 33). A partir de então, inúmeros filhos da “Mãe Helvetia” vieram ao Brasil, por aqui se instalaram, marcaram a nossa história e ajudaram a construir este país. Eles se destacaram nas mais diversas áreas de atuação, nas ciências, artes, política, diplomacia, educação e indústria. Quem já parou um instante para pensar de onde vieram personalidades como o naturalista e médico Adolfo Lutz e o poeta Blaise Cendrars? E o que dizer então de empresas como a Nestlé, Clariant ou Novartis? Você sabia que a pessoa que fundou o SENAI e que o introdutor da cooperativismo no Brasil também vieram da Suíça? Foi com esta fundamentação que Câmara de Vereadores de Taió resolveu festejar o centenário deste personagem que já havia falecido a mais de 30 anos e tem seu nome citado diariamente pela população de Taió, em ruas, bairros, escolas e nas lembranças de muitos que o conheceram. Homenagens ao Padre Eduardo As definições da importância do padre Eduardo, são contraditórias, dependendo sempre da fonte e da forma como sua figura foi moldada.

 

O Poder Legislativo Municipal de Taió resolveu oficializar sua importância, ao festejar o centenário de seu nascimento na Suíça, através de uma Sessão Solene. Com esta homenagem do dia 07 de junho de 2013, realizada no plenário Manoel Correa de Negreiros, o Governo Suíço incluiu o Padre Eduardo, entre os grandes nomes de seus filhos que atuaram no solo brasileiro, como veiculou a Rádio Suíça Internacional. O cerimonial trouxe contextualização histórica, mostrando características do Padre Eduardo, para compreender suas atitudes e ações. Quando Napoleão Bonaparte implantou a semana de 10 dias, ocorreram muitas reações na Europa e no mundo. No final do século XVIII os revolucionários franceses propuseram adaptar o calendário ao sistema decimal e ao mesmo tempo eliminar dele todas as referências religiosas, bem como outras datas, fruto da tradição e da história. O resultado converteria as semanas em décadas de 10 dias, os dias passariam a ser divididos em 10 horas, as horas em 100 minutos e os minutos em 100 segundos. Uma das medidas que menos entusiasmou seria que as décadas só teriam um dia de folga, isto é, somente o domingo. Surgiu então a reação forte da igreja, e destacou-se a Congregação de Padres Saletinos. Na própria França católica, uma das grandes defesas desta congregação, era a santificação e o respeito do Domingo. Foi no seio desta congregação, que surgiu o Padre Eduardo. Assim, a homenagem prestada foi ao cidadão Suíço Eduardo Summermatter, um missionário que durante muitos anos residiu na cidade de Taió, e ainda hoje é bastante lembrado pela população.

 

Ele marcou forte a presença nas cidades da região, e seu nome acabou sendo lembrado em escolas, jardins, ruas e bairros de diversas cidades. Até a cidade de Salete deve seu nome à ele, pela devoção à Nossa Senhora da Salette, um santuário criado por ele no alto do morro, agora transformado no Santuário da Diocese de Rio do Sul. São dele as iniciativas de colocar imagens da santa, em diversas cidades, como no seminário de Taió, na cidade de Rio do Campo e na Serra dos Ilhéus (BR 470), em Pouso Redondo, e na criação da via-sacra do Moro Redondo, em Taió. Naquela ocasião, Ernesto Riggenback, que foi vice-Cônsul Suíço em Santa Catarina, relatou ao padre Eduardo Summermatter que a Suíça, desejando colocar alguns agricultores seus em terras do Brasil, entrou em contato com o governo catarinense, que lhe ofereceu a área territorial abrangida pela atual comarca de Taió, pelo montante de vinte contos de réis. O negócio não chegou a realizar-se única e exclusivamente por questões de preço. Por isso, na homenagem promovida pela Câmara de Vereadores, compareceu o atual representante do Governo Suíço, Cônsul Albert Holderegger além de autoridades eclesiásticas. A ocasião serviu para o lançamento do livro de Fiorelo Zanella, com a história completa sobre a vida e obra deste missionário, que ficou conhecido como “Gigas Saletino”, uma expressão que significa “gigante”. Fiorelo pesquisou na suíça e vários lugares na Europa, inclusive com traduções da língua Francesa, Italiana, Alemã e Latina, e contou com detalhes a vida do “Padre Brabo”, pois ostentava uma vasta barba, careca, tinha voz forte, e sempre estava de batina preta. Sua figura impunha respeito e autoridade.

 

Neste dia, o padre Thiago Heinzen fez o relato de sua experiencia como seminarista em Salete, afilhado do padre Eduardo. Ele compareceu na Sessão Solene da Câmara de Vereadores com um casaco que recebeu de presente do Padre Eduardo. O professor Lírio Luiz Volpi também falou do auxílio que obteve deste padre, até mesmo de outros colegas que foram estudar na Suíça, e no caso, Volpi acabou sendo um dos alunos de Jean Piaget. Breve relato sobre a vida do Padre Eduardo. Eduardo Summermater nasceu na cidade suíça de São Nicolas, em 06 de janeiro de 1910 e foi ordenado Padres Saletino em 28 de fevereiro de 1935 em Friburgo, na Suíça. Queria ser missionário na América do Norte, mas foi mandado para a Áustria, quando a Europa estava em plena II Guerra Mundial, onde ficou 4 anos. Em 1939, em Gênova, na Itália, embarcava para a cidade gaúcha de Marcelino Ramos, quando soube pelo rádio da morte do papa Pio XII. Em 1941 chegou em Nova Breslau, atual Presidente Getúlio, que antes era conhecida como Nova Zurique, em homenagem aos imigrantes suíços. Em 1942, foi para Ribeirão Grande (Salete), onde iniciou e construiu o seminário no alto do morro e o caminho da via-sacra. Em 1945 residiu em Rio do Campo, onde iniciou obras de construção de um seminário diocesano, com ajuda financeira de seus parentes e amigos da Suíça.

 

Este local hoje é utilizado como o parque municipal e o cemitério. Em 1946, assumiu como pároco de Taió, onde viveu até o final de sua vida, e onde é mais lembrado, por seus sermões e sua postura como líder espiritual e doutrinador. Acabou sendo um grande amigo dos protestantes, como são conhecidos os evangélicos e um sábio conselheiro para todas as ocasiões. Mais de 50 padres foram considerados seus filhos espirituais. Era poliglota, fluente em Italiano, Latim, Francês, Alemão, Inglês, Iídiche, além do dialeto alemão suíço, e conhecia satisfatoriamente a língua grega. A sua última mensagem no livro-tombo foi: “A Coisa mais importante são o trabalho, o sacrifício, o bom exemplo, o zelo pelas almas e a glória de Deus!”. Foi sepultado no dia 02 de novembro de 1974, depois de viver acamado por vários anos, vítima de um acidente doméstico, e com grande sofrimento. O Padre Suíço que disseminou a devoção à Nossa Senhora de Salete Como principais chefes da colonização e senhores da situação nas comunidades que fundavam, primeiro Luiz Bertoli (o velho) e mais tarde seus filhos Luiz, João e Leandro muitas vezes, tiveram atritos com os vigários locais. Contribuía para aumentar esses atritos, a posição que os próprios padres queriam exercer perante seus fiéis. Geralmente do exterior, e com bastante estudo, provenientes de uma civilização mais avançada, a Europa, eles, não tinham dificuldades para serem considerados sábios e inteligentes.

 

Diante disso, na maioria dos casos, portavam-se como chefes de seus fiéis, e assim tudo o que falavam, quase sempre acabava sendo acatado e obedecido. Com Luiz Bertoli não aconteceu isso. Mantendo os povoadores amarrados através de dívidas que faziam com compras de terras e prestações, que em muitos casos demoravam anos para serem pagas, ele conseguia sempre o apoio em suas decisões, fossem o que fossem. O último episódio ocorreu por ocasião do cinqüentenário de Taió, quando o Padre Eduardo atribuiu sua queda do alto do segundo andar pela janela da casa paroquial à eles. Cornélio Rohden contou que foi visitar o Padre Eduardo ainda no Hospital em Blumenau, e novamente o vigário atribuiu sua queda aos Bertoli, mas disse que não acreditava nisso, pois o Padre era sonâmbulo. “Eu não acredito que alguém de Taió pudesse subir os degraus da casa paroquial, para empurrar o Padre pela janela, mas ele não gostava da família Bertoli e disse que o havia empurrado”, lembrou se Cornélio Rohden. Esta palavra do Padre, acabou contribuindo para que aumentassem os rumores de um atentado. Na época, surgiram vários suspeitos de ter empurrado o padre pela janela, entre as crianças, até alguns coroinhas ficavam com medo de servir à missa, celebrada todos os dias às 6 horas da manhã, como relata Jairo Morais.

 

Este Suíço, tem um capítulo à parte, no quotidiano de Taió, pois sendo sacerdote, era um contraste seu costume de levar um revólver à cintura, e o fato de odiar todas as mulheres. Para ele, só prestava sua mãe e Nossa Senhora, à quem era devoto ao extremo. Depois da queda, ele ainda se recuperou e celebrou missas diárias na Igreja Matriz de Taió. Certa ocasião quando estava iniciando a “prática” ou homilia, entrou na igreja um cachorrinho. O padre parou de discursar e perguntou de quem era o animal. Ninguém se atrevia ser o dono do cachorro, então, o Padre pegou o Missal de cima do Púlpito, e jogou com toda a força no animal, e terminou a missa na mesma hora. Ainda sofrendo pela queda da janela, ele foi retirado do Púlpito pela equipe de quatro coroinhas naquele dia: Ilmar Engels, Tadeu Garcia, Arlindo Lenzi e Jairo Morais, que repetiam sempre as respostas em Latim, o antigo rito celebrado na Igreja Católica da época. Embora o Padre Eduardo fosse muito brabo depois de cada missa os coroinhas eram confortados com um punhado de balas que vinham de mão cheia, de dentro da pesada batina preta. Contam alguns que logo depois da missa o do dono do cachorro matou o animal na saída da Igreja.

 

Outra ocasião, o Padre está distribuindo as hóstias enquanto os fiéis estavam em duas filas, o dos homens e a das mulheres. Padre Eduardo fazia a distribuição alternadamente, para as duas fileiras, até que chegou a vez de uma senhora, que na opinião do padre estava com traje inadequado, com manga de vestido muito curta. Ele então distribuiu apenas na fileira dos homens até terminar, e depois pediu às outras senhoras que mudassem para a fileira ao lado, todas foram atendidas, menos aquela pobre senhora que ficou de pé na frente do altar, até que o padre terminou a distribuição. Depois retornou ao altar para continuar a missa. A senhora saiu da igreja sem receber o sacramento da comunhão. São vários os relatos e detalhes das surras de chicote, das brigas políticas que o Padre Eduardo propiciava. Certa ocasião, em Rio do Campo, o padre Eduardo deixou o cavalo descansando, enquanto cuidava das coisas na igreja local. Por lá, chamavam o cavalo de “Vagabundo”, que também era uma provocação ao padre. O animal acabou se esfregando num forno de tijolos da Nôna Bertoli, e derrubou o forno, causando um reboliço. Ela mandou raspar o rabo do cavalo, como consequência e aquilo ampliou a confusão entre o padre e a família Bertoli, que nunca foi boa. Numa dessas ocasiões, o padre Eduardo apoiou deliberadamente o candidato contrário à família Bertoli. Foi nessa ocasião que Ingo Hosang se elegeu prefeito de Taió, embora fosse evangélico.

 

O Padre Eduardo dizia durante a prática que não fazia mal se os católicos votassem num evangélico. A briga com os Bertoli e a disputa entre alemães e italianos, UDN e PSD, católicos e protestantes estava a cima disso. Conforme declarou mais de uma vez, o Padre Eduardo quando ofendido, era um tigre pisado, e não fazia questão de ser diplomata, muito menos levava desaforo para casa. Havia esquecido até de suas palavras, que “os protestantes iriam todos arder no fogo do inferno”. Quando atendia a paróquia de São Miguel da Paleta, durante muito tempo, o deslocamento do padre era feito com uma égua sempre muito bem cuidada. Numa ocasião, hospedado na casa de xx Volpi, casado com.....Fontanive, o padre ficou desconfiado que os moradores queriam levar a égua do padre para cruzar. Mas e ele advertiu, que iria amaldiçoar quem fizesse isso.

 

Antes de se deitar, deixou o revólver numa cômoda próximo à cama e na manhã seguinte, ajeitou-se na batina, recolheu o revólver e partiu para seus compromissos. Antes, perguntou aos moradores se o animal tinha ficado sozinho, pois se descobrisse alguma coisa, iria lançar uma maldição. Todos assustados, afirmaram ao padre que podia seguir tranquilo. Quase um ano depois, a égua deu cria, e até hoje alguns os moradores do lugar ainda sentem medo da ameaça do padre. O padre bravo Os primeiros atritos entre os padres e a empresa colonizadora Bertoli, começou em Rio do Oeste, com a fundação da paróquia, escreveram os pesquisadores Dante Bonin e Victor Butzke. Ambos afirmaram que quando o padre João Batista Rolando assumiu a Paróquia, as coisas começaram a se complicar, pois cada um defendia ideias diferentes. O tempo foi passando e a situação se agravando cada vez mais. Corria o ano de 1930, e o bispo veio visitar a paróquia de Rio do Oeste. A essa altura Luiz Bertoli Junior já tinha pronto um relatório, feito com muita sabedoria, que mostrava a situação da comunidade e a necessidade de transferência do vigário. O relatório é grande demais para serem colocados assim, mas já dá ideia do que pretendia Luiz Bertoli Junior junto ao Bispo. E conseguiu, com a sua chegada à Rio do Oeste em 04 de outubro de 1930, além do outro apêndice de relatório entregue 3 dias mais tarde e estava assinada a transferência do padre para outra paróquia. Em abril do ano seguinte a mudança do Seminário de Rio do Campo para Ribeirão Grande, por parte do Bispo foi suficiente para iniciar os desacertos. Ao saber da decisão, Bertoli sabendo que havia perdido a luta, e sem perceber que o padre também havia perdido, pois pensava que padre Eduardo havia apoiado o Bispo e sugerido a construção do Seminação no Morro de Salete. Esta rivalidade foi aumentando pouco a pouco, e nenhum dos lados cedia. O padre Eduardo atribuía a atitude “Bertolica” como a chamava, de vingança pela transferência do Seminário de Rio do Campo a futura cidade de Salete.

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