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Padre do Grajaú ao CEM (Centros de Estudos Migratórios)

História de: Paolo Parise
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 04/02/2014

Sinopse

Paolo Parise nasceu em Marostica, Itália. Em sua entrevista relata uma infância infância regada por memórias como: acampar, pegar cogumelos nas montanhas e brincar pelas ruínas romanas de sua cidade natal. Seus anos no Brasil são marcados não apenas por sua trajetória espiritual como Padre como também por sua atuação e trabalhos sociais no Grajaú e apoio aos imigrantes que chegam em São Paulo como diretor do CEM (Centro de Estudos Migratórios). Em uma de suas publicações estudou cartas de famílias de migrantes nordestinos da década de 80.

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História completa

Meu nome Paulo Parise, eu nasci dia 29 de janeiro de 1967, em Marostica, uma cidadezinha medieval do Norte da Itália. Meu pai se chama Antônio Parise, minha mãe Josefina Garzolla. A minha família por parte de pai fugiu da Revolução Francesa, de Paris, com uma mula, carregando um pouco de pertence, um pouco de ouro escondido, chegaram no Norte da Itália, onde compraram terras e se instalaram. E, interessante, é que depois de tantas gerações, estão ainda naquela região, depois de séculos, podemos dizer. Do lado da minha mãe são da região mesmo. Meus pais se conheceram em Marostica, aos poucos. Havia a possibilidade das festas, assim começaram a se conhecer e depois veio o casamento com o tempo. É interessante porque infelizmente é uma região marcada pela guerra. Do lado de pai e mãe, todo mundo participou da guerra, seja da Primeira Guerra Mundial, seja da Segunda Guerra Mundial, quem fez experiência de campo de concentração, quem fugiu da Alemanha a pé chegando na Itália depois de um mês e dez dias. São histórias marcadas por isso, mas histórias marcadas também por uma região que, antigamente foi muito marcada pela miséria, pela pobreza e, que a partir dos anos 60, explodiu economicamente. É uma região que se tornou muito bonita, referência na Itália. Então eles viveram, os avôs, a fase de sofrimento, a fase agrícola, muito dura, e depois a fase da explosão da micro indústria, das pequenas indústrias, foi isso que deslanchou a região. O pai é filho de pequenos agricultores. Ele deixou a uma certa altura a parte da terra com meu tio, começou a trabalhar no começo como pedreiro, depois também em uma firma, ele foi [trabalhava] como operário mesmo. A terra ficou sempre nossa, mas do outro lado deixando o tio cultivá-la. Do lado mãe, ela sempre trabalhou em casa, a mesma empresa do pai, que lá na Itália onde nasci, era muito utilizado o jeito de levar o trabalho até o trabalhador, para o trabalhador não passar todo o seu tempo na firma. Então eles levavam as máquinas em casa, você tinha um quarto, onde você tinha várias máquinas e a firma trazia 30 mil, 40 mil peças por mês, a pessoa trabalhava em casa. Eu também lembro, criança, a gente brincava trabalhando montando interruptores de eletricidade, fazíamos isso como fosse uma brincadeira. A gente cresceu assim, pode-se dizer, com a presença da mãe muito forte em casa. E também os colegas, amigos, como tinha muito espaço, eles vinham brincar lá, eu lembro que toda a minha infância até a adolescência, foi toda uma fase vivida junto com colegas em casa. Eu sempre adorei história. No verão ia caminhar nas montanhas, montanhas consideradas sagradas porque são marcadas pela história. Acampar também, ia com meu pai acampar em dois mil metros de altura. Eu cresci conhecendo a região, gostando da região, fazendo estas trilhas que tem 800, 900 anos, para ir nos Alpes, passava o verão nos Alpes, na divisa da Áustria. Eu nasci em uma região onde calculo que tinha um padre a cada mil habitantes, a relação também com o padre era muito próxima. Ele era um amigo, um companheiro de casa, às vezes vinha almoçar em casa, jantar. Tem essa relação de proximidade. No verão, por exemplo, se sai junto, às vezes, ainda tem o primeiro ano na escola, o segundo, o terceiro, junta, pegam três, quatro pais juntos com o padre e vão em uma montanha, vão na praia por uma semana. Tem ainda hoje e continua esta proximidade interessante. Acho que o ambiente era um ambiente religioso, eu diria. Quando era criança era um circo que eu queria ter, gostava muito de animais, era meu grande sonho. Depois queria lidar com natureza, uma certa altura veio a ideia de ser missionário, padre. Depois desisti, depois dos primeiros dois anos, três, não aguentei muito, tinha que ir longe da família, saí. Depois de um tempo voltei, mas com outro grupo, outra Congregação, que é aquela que me encontro atual. Aí começou esta, diria, aproximação, conhecimento da dimensão religiosa, passando por momentos lindos, momento de crise e tudo, até que amadureci a ideia. Eu comecei a fazer Filosofia em Ancona, mais ou menos na Itália Central e, lá fiz três anos de Filosofia. Depois que fiz um ano de estágio e pediram para eu fazer uma troca internacional, dois italianos virem para o Brasil e dois brasileiros irem para a Itália. É aí que em 92 eu vim para cá e, aqui no Brasil fiz quatro anos de Teologia. Vim morar no Ipiranga. Morei quatro anos no Ipiranga. Naquela época, no final do quarto ano de Teologia, realizei um estudo que resultou na publicação: “Um Rosto de Deus: Cartas de Famílias de Imigrantes”. Peguei a ideia quando eu fiquei sabendo que tinha cartas que não tinham sido estudadas e que estavam aqui, selecionei 160 cartas da década de 80, de 82 à 88, que tinham sido recolhidas por alguns agentes daqui, na região Leste, na Vila Industrial, no lugar que era chamado, uma favela conhecida como Favela Iguaçu ou Favela da Ilha, porque tinha um córrego que fechava todo o redor. As cartas que foram escritas naquele período, eram mais da metade da região de Pernambuco, de onde eles vinham, eram os familiares que escreviam e, outras regiões do Brasil também, outras partes, mas em geral Nordeste. Eram imigrantes que chegaram naquela fase que São Paulo recebia muito imigrantes, imigrante interno, na expansão urbana, havia realmente uma concentração de pernambucanos, de outros lugares neste lugar e, eu analisei estas cartas. Percebi que muitas cartas tinham o intermediário entre quem escrevia e quem ditava a carta, tipo o filme Central do Brasil. Me chamava a atenção que eram escritas em várias conjunturas pessoais, momentos de alegrias ou de tristeza e, como elas retratavam o lugar de onde elas vinham e, aqui o destinatário. A carta como uma ponte para se aproximar da pessoa, tenta restabelecer este vínculo que a migração quebrou. Em determinado momento fui para Roma onde fiz dois anos e meio de Mestrado, voltei, só que eu pedi, se tinha que dar aula, eu gostaria de morar em periferia e, não morar no Centro de São Paulo, minha escolha foi morar no Grajaú. Morei nove anos no Grajaú. E lá no Grajaú foi um lugar fantástico, ainda hoje metade do coração está lá, em nove anos conhecia praticamente a região inteira, iniciamos todo um trabalho contra violência, que ainda hoje continua, chamado Evento Pela Paz no Grajaú e, realmente foi toda uma experiência linda, de maneira especial com os jovens da região, contra a violência. Terminado a experiência no Grajaú, começou uma certa insistência para que eu desse uma paradinha, fizesse um Doutorado, fui para Roma e praticamente fiquei 2007, 2008, 2009, fazendo o doutorado na Gregoriana em Roma e, quando voltei me falaram: “Seria interessante se você viesse aqui”. Aceitei, comecei, continuei dar aula em uma faculdade no Ipiranga e a entender aqui, como funciona o Centro de Estudos Migratórios, a Casa do Imigrante, marcando presença, conversando com as pessoas e, depois ampliando o projeto que foi o trabalho do ano passado, criando um projeto de mediação e fomos ampliando com o Centro da Pastoral e toda parte que está aqui em baixo, onde além da documentação, advogada, se ampliou a presença da advogada de um a quatro dias, a presença da psicóloga, presença de assistentes sociais, Eixo Saúde, Eixo Trabalho, que foi a novidade do ano passado. Nas horas de lazer gosto de sair com amigos, bater um papo, tomar uma cervejinha junto, conversar, assistir um filme. Quando consigo tirar aquele mês durante o ano que eu vou para a Itália, esqueço de tudo. Viro o tio babão, fico brincando, passeando com elas, aquele mês recarrego as pilhas mesmo. Tento quando estou na Itália de não assumir compromissos, o menos possível, aqueles que vejo que é importante, mas os outros deixo de lado, todos os convites e, me dedico mais a amigos e família. Passear, caminhar nas minhas montanhas matando saudades de quando era criança, adolescente, brincando com sobrinhos. Ah, aquelas três semanas, um mês, é muito bom, recarrega as pilhas. Posso dizer que até agora na minha vida tenho a sorte de que muitos sonhos se transformaram em realidade. São muitos sonhos que foram acontecendo, o último, o ano passado, essa criação de uma nova estrutura aqui dentro, que a gente chama Programa de Mediação, dividido por eixo, Eixo Trabalho, Eixo Saúde, Eixo Educação, Eixo Família, Eixo Comunidade, Cultura. Nesse ponto tenho bastante sorte. Minha atuação com os imigrantes, os sonhos de atuação no Grajaú, na Itália. Até agora as coisas estão indo. Claro que agora um sonho nesse momento é criar, por exemplo, um outro espaço na Casa do Imigrante só para famílias. Não sei se vamos realizar, é um outro sonho, porque atualmente é a área masculina e feminina. E como aumentou a presença de famílias na Casa do Imigrante, criar um espaço onde a família possa permanecer unida no tempo que fica aqui na Casa. São desafios, sonhos que vão surgindo em continuação. O sonho de terminar uma coleção que tinha começado a publicar, escrevi só o primeiro livro, deu certo, está na oitava edição, editora está no meu pé, mas falta tempo para escrever. Pequenos e grandes sonhos.

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