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Outras histórias de uma história já contada (e escrita)

História de: Maria do Rosário Mesquita Melo
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 18/02/2019

Sinopse

Dona Maria do Rosário nasceu bem perto de Recife, de onde saiu aos vinte e quatro anos para vir para São Paulo, onde casou e de onde mudou-se para Sorocaba. Em sua já longa existência, cultiva o sonho de que os bisnetos sejam muito felizes. Mas, no fundo, é claro, também os filhos, os netos… Lá de Recife tem a lembrança de uma família sobretudo unida. E que se converteu à religião evangélica, mudando para melhor: mais alegre, mais feliz, mais solidária. Em São Paulo, ela casou-se. Em Sorocaba separou-se e criou, praticamente sozinha, os filhos - cinco no total. Sem escola formal, aprendeu com o pai o suficiente para depois tornar-se profissional de corte e costura. E desta forma educar os filhos. A quem lhe pergunta qual a receita, não hesita em ensinar: ser humilde e não guardar ódio nem mágoa.

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História completa

Nasci em Ipojuca, arredores de Recife, em 02 de outubro de 1929. Lá morávamos - eu, com meus pais e meus onze irmãos - em um sítio. Até que meu avô paterno, em meio a um quadro de depressão, pediu que fossemos todos - a minha família e a família de meu tio - morar em Recife. Todos juntos, ou seja, na mesma casa. O que significava vinte e quatro pessoas - os doze filhos dos meus pais, os sete de meus tios, os respectivos pais e o avô. Também era um sítio. Com riacho, onde pescávamos. Com plantação - batata, árvores frutíferas, cana… E o cotidiano de então: o pai mantendo e a mãe educando.


Mas era um lugar afastado de tudo. Por isso, não íamos à escola. Mas aprendíamos o que meu pai ensinava. Ainda que ele também não tivesse escolaridade: fôra alfabetizado por um chefe de estação de trem. Mas, apesar de não termos a escola propriamente dita, tínhamos livros, fazíamos cópias, contas… Aí aconteceu de um irmão meu vir a se interessar pela bíblia.



(...) quando ele chegou com essa bíblia em casa, foi tratado como um animal (...). Há uns setenta anos, os padres não deixavam ler a bíblia. Diziam que a bíblia era livro mau.

 

Até que um dia, o meu tio, que era autoritário e mandão, pediu para ler aquele livro. Ficou uma semana com ele e, ao final, pediu que lhe comprassem uma. Foi assim uma espécie de senha para que todos mudassem de religião. Passamos a ir à escola que havia na igreja, aos domingos, e que não era perto - uma caminhada de meia hora em cima da linha do trem. Mas foi muito bom porque desenvolveu e aprimorou a nossa leitura. À noite, tínhamos, em casa, um culto. Improvisávamos assim um coral, entoando cânticos. Afinal, tanta gente, tantas vozes…

 

E como era a nossa vida no sítio? A gente, mulher, não pegava na enxada. Em compensação eu, por exemplo, lavava muita roupa no rio; afinal, éramos vinte e quatro almas que se vestiam. Lavava sem cantoria, que o sol era muito forte e a ideia era lavar rápido e voltar para casa. E em casa o que não faltava era trabalho: arrumar a cozinha, passar e engomar, carregar água na cabeça, pegar lenha… Na verdade, sempre trabalhei muito. Mas, quando criança, dava para brincar de boneca e de casinha, de pular corda, de catar araçá (uma goiabinha) no meio do mato. À noite, ou iam todos para a igreja - a famosa meia hora em cima da linha do trem - ou nós, crianças, íamos aprender o que nosso pai ensinava. À luz de lampião de querosene. Fora da escola formal. Eu só vim a saber o que era ter luz em casa aos vinte e quatro anos. Quando cheguei em São Paulo. E por que eu vim? Porque dois irmãos vieram para cá, vieram trabalhar como pintores de parede.

 

Quando tiveram condições, foram buscar as famílias. E aí, minha mãe, já doente - tinha tido um AVC - mandou que eu viesse junto porque as minhas cunhadas não eram despachadas, vinham três crianças pequenininhas e se tratava de uma viagem de oito dias. Em casa, sempre foi tudo eu. Como cuidar de minha mãe, internar minha tia, em adiantado estado de lepra e depois avisar à família que ela havia morrido e já tinha sido enterrada de um dia para o outro, por causa da doença. Talvez por isso eu tenha tido assim uma espécie de estresse e isso fez com que me mandassem para um hospital fazer dez sessões de eletrochoque. Para me acalmar. Não acalmou nada.

 

Os nervos davam assim uns tremeliques na gente, se batiam, não é? Quando acabava, ia para casa de ônibus.

 

E não sei por quê continuava toda a responsabilidade da casa, da família, jogada em cima de mim. Agora, eu sempre tive consciência de que, dada a minha situação e a ausência de uma escolaridade, eu praticamente só tinha um caminho a seguir: a costura. Fiz um curso de corte e costura, trabalhei dez anos numa boutique. Quando me separei, foi esse trabalho que nos sustentou, que me permitiu acabar de criar os filhos. Porque eu casei - ele até era amigo do meu irmão - e ficamos juntos por dezessete anos, mas depois não deu certo.

 

Meu irmão falava bem dele. Depois que casou, virou a cabeça para ser louco.

 

Um tempo depois de casados fomos para Sorocaba e lá construímos a nossa casa. Saí dessa casa para morar nos fundos da igreja e foram anos difíceis. Afinal, cinco filhos… Mas sempre achei que fiz o que precisava ser feito, já que ele era agressivo com os filhos. A minha filha mais velha, por exemplo, já não o suportava pela brutalidade.

 

Uma coisa é certa: jamais deixei de ter a ajuda de Deus. Lembro de ter ouvido de um primo, que se julgava rico, que ele até apoiava a minha decisão mas que eu não esperasse ajuda dele. Respondi-lhe: “Quem vai me ajudar é Deus!”. E, de fato, ajudou. Minha filha do meio, por exemplo. Estudou com afinco, tornou-se chefe dos Caixas de uma agência bancária, com vinte anos. Depois largou esse emprego, prestou concurso e chegou a diretora do Fórum. Tem carro, apartamento, já vai se aposentar.

 

É isso que Deus tem feito.  

 

E assim eu suportei tudo, até a morte de um filho, graças à força e o apoio que eu sempre recebi do meu Deus. Nos momentos de maior aflição, eu sempre fui conduzida por Ele e O encontrava me consolando, acolhendo, cicatrizando minhas feridas. Como em Isaías 54: “Não temas, porque Eu estou contigo”.

 

Retornei, algumas vezes, à minha casa em Recife. Como disse, éramos vinte e quatro pessoas que compunham uma única, unida e harmoniosa família. Primos que eram irmãos. Irmãos que eram amigos. Hoje, o sentimento predominante é de perda. Tenho lá apenas um irmão sobrevivente. E é mais ou menos isso que eu pretendi retratar no livro que escrevi. Onde eu conto as histórias de todas essas pessoas, de uma família que tinha o coração duro, apesar de se confessar e as meninas serem Filhas de Maria. Converteu-se e passou a ser alegre, a cantar, a viver com leveza. Isso tudo precisava ser contado e, por isso, tudo está ali contado. E, se eu tiver tempo de vida e saúde, pretendo contar mais e melhor, ampliando as histórias, inclusive a minha com as desventuras do casamento. Assim como ocorre hoje aqui, são outras histórias de uma história já contada.  

Sabe, quando se chega à minha idade com disposição, serenidade e fé, em geral alguém pede a receita. Eu respondo, como respondi recentemente para sobrinhos que vieram me visitar:


A única receita que eu lhe passo (...) é ser humilde, não ter rancor de ninguém, não guardar ódio, porque o ódio maltrata a gente.


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