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Outono

História de: Sandra Regina Ferraz de Andrade
Autor: Sandra Regina Ferraz de Andrade
Publicado em: 11/09/2021

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Somos cíclicas, chegada a hora de murchar, reduzir, recolher, pausar, descansar. Sem romantizar, estudos, conhecimentos e andanças são fundamentais, mas aprendi que só com isso não sairemos da página 1. Autoconhecimento está na moda, levá-lo a sério e também andar de mãos dadas com o mistério é um ato de coragem. Validar a intuição como instrumento e ferramenta de grande potência para criar novos caminhos, e redirecionar rotas é urgente - além de poupar energia. Intuição não é uma “coisa” que alguns possuem mais e outros menos, intuição é a vida soprando o mistério o tempo todo. Escutar todos nós escutamos, acreditar e confiar ainda são poucos. Ouvir os sentidos, fazer as pazes com o silêncio, com o vazio, com a impotência não é simples, exige humildade, disciplina e querer. A intuição e o mistério não chegam para aqueles que vivem de verdades absolutas, mentes programadas inundadas de palavras e controles. Eles chegam para quem ama ser surpreendido a todo tempo e abrem mais espaço pro vento da vida soprar, tua intuição expressar, a coragem se acomodar. Sangrando 43 anos, ovários que produziram intensamente sementes éticas, amorosas, honestas e perfeitas, plantadas sem preguiça. Explosão de floradas de alegrias, festas, brindes, suor, muito trabalho, conquistas, fé, perdas, lágrimas, medos, angústias, sustos, farturas, celebrações, prazeres, entregas, despedidas, encontros, muitos feitos, um filho! 2020, oitavo setênio, menoPausa, mais conhecida como o outono na vida da mulher, uma força subterrânea e invisível, momentos e rituais preciosos de estudo, contemplação e o verdadeiro encontro com a natureza selvagem. Chegou mais compreensão sobre a vida, valorizando cada centímetro da minh'alma, do meu corpo. Outono 2021 um nódulo no ovário esquerdo, exames e a recomendação cirúrgica. Confirmação do outono, que implora para o desapegar das cascas envelhecidas e amareladas, de tudo que não nos serve mais. Entrar no inverno e morrer bem morrida, ano 9, concluindo muito e já bem grata por tanta proteção e caminho percorrido, aberto quase sempre na mão, na raça. Toda mulher é oráculo, permanecer nesse desconhecimento sereno e confiante com uma mente condicionada e lotada de crenças limitantes não é simples. É preciso muita resistência contra a banalização do humano. Relíquia é também ter encontrado um mestre nessa vida, e ganhado a compreensão da lógica espiritual, das purificações e afinidades, do reencontro com meus antepassados e ancestrais. Me cercando do amor da minha família na terra e no céu, e de uma malha de apoio de bem querer, ganhei um círculo potente com mais de 50 mulheres e uns 10 homens que mantiveram as lamparinas acesas até que eu recebesse alta. Noção compartilhada de que somos mortais. Segredos de sobrevivência: mulheres que ajudam mulheres ganham um lugar no arco-íris! Já no inverno da vida, mulheres idosas e sábias dizem que basta caminharmos com ouvidos despertos, olhar atento e o coração aberto às sutilezas, que o invisível e a magia se revelam nos sonhos, nos números, nas conversas, nos encontros por acaso, nas músicas, nas mensagens, nos diálogos das pessoas nas mesas ao lado, no pouso do beija flor na janela, nas placas de ruas. Mesmo ganhando todo esse calor humano, luz e claridade, não fui isenta do que me faz humana: ansiedade, preocupação, apego e medo de morrer. E foi com esse sopro que me abasteci de confiança e paz para estar anestesiada nas mãos do médico que escolhi há 15 anos. 23/08, segunda-feira, 5 da manhã, a enfermeira me leva para o apartamento nº 207 (2+7=9), o enfermeiro que vem me buscar para o centro cirúrgico se chamava Fábio, minha vizinha de maca na sala de pré anestesia se chamava Regina Andrade, e o anestesista era nordestino, amém! Respirei em paz na certeza de que tudo estava dentro de uma ordem, axé! Agradecida por esse pedaço de mim que tanto trabalhou. Um espanto e um encanto quando vi! Um dia depois, já em casa, pelo telefone a notícia: era benigno. Lembramos de nos abraçar, agradecer baixinho e rezar. VAI caminha sem aceleramento cardíaco. Continua a nutrir-se através das próprias raízes, restaura-se e renasce para gerar novos frutos, herança inestimável de meus ancestrais. Viva a vida plenamente. Não pela metade. Tudo é por enquanto, exceto os afetos que nos compõem.
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