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História

Osmar Pereira Soares de Oliveira

História de: Osmar Pereira Soares de Oliveira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 18/05/2004

História completa



Identificação
Museu da Pessoa - Doutor Osmar, pra começar eu gostaria que o senhor dissesse seu nome completo, data e local de nascimento. Osmar - Osmar Pereira Soares de Oliveira, 20/07/1943, São Paulo. M

P - A família do senhor é de São Paulo? Osmar - A origem da família é do interior do estado de São Paulo. Meu pai é de Monte Alto, terra do marrom como ele sempre falava, mamãe era de Nova Europa, embora a certidão de nascimento dela conste Córrego do Barreiro, que era um sub distrito.

Pais e avós
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P - O nome do pai do senhor? Osmar - Meu pai chamava-se Antônio, minha mãe chama - ainda é viva - Rosa. Eles eram primos de segundo ou terceiro grau, mas não sabiam evidentemente e a família da minha mãe já tinha vindo pra São Paulo, aquele tempo era assim, as pessoas queriam ter uma vida mais próxima do centro, pra tentar mais sorte. Meu avô, pai de mamãe era um micheiro e a esposa, minha avó tinha uma pensão e meu pai ficou lá no interior em função do falecimento da mãe, ele foi obrigado jovem ainda com 13 anos, ele foi cuidar dos irmãos dele a pedido da mãe, o pai dele tinha uma selaria, fazia selas pra cavalos, mas meu avô não era muito do batente, minha avó é que ficava costurando as selas pra não perder o freguês. M

P - O nome desses avós por parte de pai? Osmar - Meu avô chamava-se Oscar, minha avó Elpidia e meu pai passava a noite com a mãe com dó da mãe porque ele achava que o pai tinha que trabalhar e não jogando sinuca e meu pai ficava com agulhas enormes costurando selas de cavalo e com isso ele desenvolveu o gosto da agulha e ali mesmo no interior começou aprender os primeiros manuseio que seria ele depois um alfaiate, um alfaiate importante, até na história dos ternos do Brasil o meu pai foi uma figura extremamente importante que na história dos alfaiates do Brasil ele consta como Presidente de Associações, etc. E ele com 13 anos de idade pegou o trem como eles chamavam, o trem da Paulista, da Araquarense e chegou em São Paulo foi procurar uma pensão e por orientação da família dele no interior ele veio pra pensão de uns primos que não conhecia, primos de segundo grau que não conhecia e ali foi dormir, começar ganhar um pouco de dinheiro pra mandar pro interior pros sustento dos irmãos e ali ele conheceu a minha mãe, que era quem fazia, ajudava a mãe dela, minha avó a fazer a comida. E ali eles se conheceram... M

P - Essa pensão tinha nome? Osmat - Não sei, devia ter, antigamente ficava nessa rua São Domingos, no bairro da Bela Vista, bem perto da rua Major Diogo e ali eles se conheceram. Papai com 2 anos de idade perdeu um pé numa fogueira, então já tinha também esses problemas, aí começaram a namorar, a minha mãe já era uma boa cozinheira, mas por causa dele porque ele tava aprendendo um oficio e a noite ele trazia serviço pra fazer lá na pensão e ali tava a namoradinha dele e ela começou ajudá-lo também, e ela costura maravilhosamente bem. E os dois se casaram aqui em São Paulo e eu fui o primeiro filho nascido em 43. M

P - Eles foram morar aonde? Osmar - Nós morávamos na rua Major Diogo, hoje uns 50, 100 metros pra cá do TBC Teatro Brasileiro de Comédia, justamente onde hoje o elevado Minhocão passa ali em cima da Major Diogo, ali em frente da Gessy Lever. M

P - Era uma casa? Osmar - Era uma casa como aquelas casas antigas que o Bexiga, ali é Bexiga, Bela Vista é Bexiga, é uma casa que lembra as antigas casas do Bexiga em São Paulo, aquele portão grande de ferro, aquele corredor cumprido que vai até o fundo, as vezes moravam famílias inteiras, nós morávamos ali com uma tia, com um tio e lá no fundo o meu pai alugava pra um rapaz que fazia ponta em alguns filmes. Ele costurava muito, escutava muito radio, tinha uma cultura fantástica.

Pai alfaiate
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P - Ele trabalhava em casa? Osmar - A loja dele, alfaiataria, chamada alfaiataria Santa Terezinha, a pedido da mãe que tudo que ele tivesse na vida que fosse pro feminino ele usasse o nome de Tereza, então ele fundou a alfaiataria Santa Terezinha, então o primeiro cômodo da casa era a alfaiataria dele com aqueles móveis, aquelas mesas, antigamente era tudo de embuia, peroba, era uma coisa fantástica, o balcão que ele chamava, aonde ele desenhava, ele fazia os moldes de papel, onde ele cortava os ternos, tinha um cantinho que ele fazia medida das pessoas pra fazer a roupa, aquele ferro ainda a carvão e dali pra frente era quarto dos filhos, da minha mãe, cozinha, como uma casa normal. M

P - O senhor lembra do seu pai trabalhando? Osmar - Nossa Senhora, vamos até mudar de assunto que eu choro. Meu pai era um artista e você vai vê que eu vou te explicar como eu tenho razão, cada ponto que meu pai dava para ele era uma obra de arte e ele trabalhava das 6 da manhã às 10 da noite. Almoçava rapidamente, nem cochilava, o terno para ele era uma obra. Então eu me lembro que quando ele fazia, preparava o paletó, porque a calça é mais fácil, paletó é difícil, então as pessoas iam lá para fazer a prova, iam provar o terno, então ele colocava, ele tinha uma almofadinha que ele colocava no anti-braço cheia de alfinetes e conforme ele ia olhando o paletó na pessoa ele virava para cá e punha um alfinete, ia torneando, aquilo é um busto e aí ele pedia para pessoa ficar bem jogada assim e ele achava que o paletó, a manga do paletó é mais larga do que a manga da camisa evidentemente, então quando ficava assim, essa distância aqui tinha que ser igual a essa distância aqui, se não estivesse igual é porque a manga estava presa errada. Ele tirava a manga, ele alinhavava com aqueles alfinetes, para colocar a manga absolutamente no lugar. E quando as pessoas vinham fazer a última prova, os paletós só não tinham botões. Aqueles botões antigos, as casas ele fazia as casas com retrós grosso que ele fazia em duas, ele dobrava, ele tinha uma cera que ele passava aquele retrós na cera para ficar meio dura e ele fazia a casa do botão a mão e se você olhasse você jurava que aquilo teria feito à máquina tal a precisão dos pontos, porque ele costurava na trama do tecido e muitas vezes ele usava uma pequena lupa que era para que cada ponto que ele desse fosse do mesmo tamanho da casa, era uma...

Infância
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P - E o senhor ajudava de algum jeito? Osmar - Eu comecei ali varrendo a alfaiataria dele, depois ele me dava, antigamente os paletós aqui por dentro ele tinha uma entretela, um tecido mais grosso, parecia um tecido engomado que você comprava na casa dos aviamentos, nunca me esqueço ali na Benjamim Constant, o rei dos aviamentos e eu ia lá comprar algumas coisa para o papai e ele me dava uns pedaços de entretela e eu ficava dando ponto, olhando os oficiais dele, os empregados e eu dava uns pontos ali e fui ganhando gosto. Estudava muito, a vida naquele tempo era diferente, meus filhos jamais fariam isso, porque era outra escola, faziam inglês, faziam natação, curso de esporte, piscina, naquele tempo não, tinha que ficar dentro de casa, na rua passava bonde ainda era um perigo. M

P - Mas brincadeira, tinha brincadeira? Osmar - A brincadeira era sozinho, eu não tinha amigos porque aquele quarteirão que a gente morava não era um quarteirão de amigos, não tinha escola perto, papai trabalhava que nem um louco para que a gente estudasse num colégio que era freqüentado por pessoas que tinham muito mais dinheiro que nós. Estudava no Liceu Eduardo Prado que ficava aqui na Avenida Paulista esquina com a Pamplona e meu pai tinha um empregado que me levava de bicicleta, eu sentava na garupa da bicicleta e ele me levava da Bela Vista até Avenida Paulista. O dinheiro sagrado dele era pagar boa escola para os filhos. Bom, eu cheguei a um ponto que, hoje eu perdi um pouco a pratica evidentemente, mas eu ali nos meus 17, 18 anos eu fazia um terno inteiro, claro que eu não cortava eu não tenho a habilidade dele, mas eu fazia barra, virava bolso e só não pregava manga porque é uma coisa difícil, porque papai ele cruzava as pernas assim, ele punha o tronco do paletó aqui e o joelho dele virava um ombro, e aqui é que ele costurava, isso eu não sabia fazer. Mas eu guarnecia, pespontava peito que é o que a gente chamava aquele tecido de forro e fazia uns pontos pra ele ficar mais duro, chama-se pesponto. Aí eu pespontava e ele gostava muito quando eu fazia o guarnecido - essas palavras têm ainda no dicionário, mas estão desaparecidas do vocabulário. Os paletós tinham forro antigamente, alguns hoje ainda têm, então a junção do forro com o paletó aqui por dentro você tinha que guarnecer, guarnecer para o bom alfaiate é pregar sem que as pessoas percebessem que por ali tinha passado uma agulha ou uma linha e como eu tinha a paciência do meu pai e gostava das coisas bem feita eu guarnecia o forro e você olhava e pensava que aquilo estava preso com cola alguma coisa, mas era pontinho por pontinho, ainda faço isso hoje, lá em casa sou que prego botão, eu que faço barra, eu que arrumo as coisas, acabei...

Pai alfaiate
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P - E quem era os clientes dele? Osmar - Aí é que está. Papai trabalhava para pessoas comuns que apareciam lá: "Senhor alfaiate quanto custa um terno e tal?" De repente em 1949 fundou-se o Teatro Brasileiro de Comédia, aí atravessaram a rua Cacilda Becker, Walmor Chagas, Ziembinsky, Cleide Yáconis, irmã da Cacilda e Sergio Cardoso, se apresentaram para o meu pai, disseram que estavam fundando um teatro e eles tinham umas aquarelas bonitas, pintadas pelo Ziembinsky com a vestimenta das pessoas que iam fazer a primeira peça no Teatro Brasileiro de Comédia, só não me lembro se foi uma peça chamada Ravina ou se foi Nossa Vida com Papai. Eles puseram aquilo tudo ali e perguntaram para meu pai se ele era capaz de fazer aquelas roupas, e a peça remontava um tempo mais antigo, e as roupas com muitas ombreiras, a base do paletó aqui pendia e meu pai como era um artista recebeu aquilo como um desafio, disse: "Eu faço." e daí para frente o meu pai fez todas as peças do Teatro Brasileiro de Comédia, todas, enquanto o teatro existiu como uma entidade que era dirigida pelos próprios artistas sem o conceito empresarial que tem hoje, você monta uma peça e lota o teatro, mas o papai fez todas as roupas e eu passei parte da minha vida na coxia do TBC vendo esses artistas e eles, a vida dos artistas daquela época é totalmente diferente da de hoje, eles não faziam outra coisa a não ser o teatro, então eles iam para o teatro de manhã para não ficar em casa, entendeu, e eles acompanhavam desde a iluminação, o chão, eles demoravam para ensaiar. Depois veio Paulo Autran, pessoas maravilhosas.

Infância
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P - E nesses seus dias de teatro tem algum episódio que ficou mais marcado? Osmar - Eles atravessavam a rua e ficavam na loja de meu pai, porque eles adoravam ver meu pai costurar. E eu era um molequinho de 6, 7 anos que fazia a minha lição ali num cantinho onde meu pai tinha o telefone, eu fazia a minha lição num tabladozinho ali. E o Paulo Autran, por exemplo, ele era fascinado pelo modo, ele falava para o meu pai: "Mas não é possível esse menino." Eu era muito ajuizadinho, não é mérito nenhum, era meu jeito, e eu ficava ali caprichando na letra e tal. Ele muitas vezes me pegava como menino, me pegava no colo, brincava comigo e falava: "Você vai ser um artista." e muitas vezes ele pegou na minha mão para eu desenhar umas letras não tão convencionais, um G, alguma coisa assim, o Paulo Autran que pegava na minha mão, eu contei isso outro dia para ele, ele ficou todo entusiasmado, o Raul Cortez também é dessa época... M

P - E o teatro em si te fascinava quando criança? Osmar - Não, os artistas, o Paulo Autran é o Paulo Autran, não tinha o nome que tem hoje, não tinha mídia, não tinha televisão ainda, não tinha novela, não tinha nada, então o teatro não fazia parte da conversa, do cotidiano das pessoas. E eu cresci ao lado daquelas pessoas que eram artistas, só isso, mas depois um pouco mais pra frente fundou-se a Companhia Vera Cruz de Cinema, aí veio Sinhá Moça, O Cangaceiro e aí meu pai foi também fazer as roupas da Companhia Vera Cruz, coisa fantástica. Aí já era um outro nível de artistas, aí veio Paulo Goulart que está vivo até hoje, Oscarito, o pessoal que freqüentava a loja do meu pai, Adolfo Cheli, famoso que está na Itália como diretor de cinema, não sei se morreu na Europa. Bom, a minha vida foi convivendo com essas pessoas e jogando bola, que eu era fanático por futebol.

Adolescência: Futebol e Samba
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P - Jogava aonde? Osmar - Eu jogava nos times da escola, jogava nos times de várzea do Bexiga, o Bexiga talvez é o bairro de São Paulo que tem mais história, o Bexiga é lindo, fantástico eu conheço boa parte da história do Bexiga, só para te fazer um parênteses, depois eu me mudei, nós nos mudamos da rua Major Diogo eu vim para o Morro dos Ingleses numa travessinha da rua dos Franceses que dava pra rua Marques Leão, que naquela época era o submundo, era uma grande favela, que deu origem a escola de samba do Vai-Vai, naquele tempo chamava-se Cordão do Vai- Vai, e as pessoas ali eram muito pobres, culturalmente e eu era o único menino da região que fazia tudo que eles faziam, quer dizer batucavam, jogava bola, fazia arte mas ia para uma boa escola, estudava latim, francês, inglês, aquelas coisas. Então tudo que surgia que precisasse de alguém com um pouco mais de cultura ali, eu era, entendeu, então de vez em quando batia na porta uma mãe, eu tinha 14, 15 anos "Ah, meu filho está doente, eu vou levar no Pronto Socorro aqui, não sei nem como é que faz, tenho medo que eles me enxotem.", então eu ia para ter alguém para - geminiano você já viu -, para fazer uma interlocução e tal. Bom a partir disso, dentro ainda do parênteses eu fui secretário do cordão do Vai-Vai e quando ele passou para escola de samba eu ainda era o secretário, mas não era o glamour que tem aqui hoje, então nós nos reuníamos o Presidente Américo Vicente Cucê, pai de dois médicos aqui do HC, eu e um negrinho, baixinho chamado Bolinha que era quem usava o apito para dirigir a bateria, então nós imaginávamos: "Bom, o que nós vamos fazer para esse próximo ano. Então vamos representar a revolução francesa, pronto.", aí eu com ajuda do meu pai pegava livros antigos - meu pai sempre comprou enciclopédia, sempre, tinha de monte lá em casa -, aí eu pegava nas enciclopédias a roupa, estou te dando um dos temas. Aí eu via como se vestiam, Luiz XV, Luiz XIV, aí eu ia para 25 de março, eu ia comprar tecidos, lantejoulas, paetês, aí eu levava para costureira e aí eu pegava um livro chamado livro de Ouro, eu corria a Bela Vista porque a Vai-Vai era o orgulho, tanto é que a Vai-Vai até hoje quando ela sai antes do samba-enredo, eles têm uma música: "Essa é a Vai-Vai do Bexiga, orgulho da Saracura..." Saracura é uma parte do Bexiga ali onde tem hoje a praça 14 Bis que é a sede do Vai-Vai. Então a escola de samba do Vai-Vai era um orgulho tanto assim que nós, a gente fazia os desfiles normais, grupo 1. Naquele tempo era na avenida São João, depois passou para Avenida Tiradentes, mas um dia dos 4 dias do Carnaval lá tinha que desfilar até a rua Rui Barbosa hoje aonde era o teatro Zaccaro, era passagem das escolas de samba. M

P - Os ensaios eram ali mesmo? Osmar - Os ensaios eram mais embaixo na rua Marques Leão, mas saía dali que era um ponto mais central, rua Conselheiro Carrão que era esquina com a Rui Barbosa, depois a escola subia, depois ela voltava pelo outro lado, depois ela passava pela rua dos Franceses que era mais aristocracia, mas ali era a casa do Presidente, aí passava ali. Ele ficava na sacada com a esposa Dona Geni e a escola passava por ali e eu vivi muito isso. M

P - Depois de buscar os tecidos na 25 de março isso ia para onde? Osmar - Isso ia para costureira, a costureira fazia tudo e o grande barato, a coisa mais gostosa para mim era o dia que a escola ia sair, porque não tinha hoje os 5, 6 mil participantes, nós éramos em 500, 600 e esses 500, 600 quando eles colocavam a fantasia da escola, do motivo, enredo daquele ano, aquilo era o som da Vai-Vai, você marcava 9 horas na Rui Barbosa e o pessoal se vestia às 5 da tarde e ficavam nos bares bebendo para mostrar: "Olha, eu sou da Vai-Vai." E era duro você reunir as pessoas e muitas delas tinham que ser trazidas a força e eu não tinha isso, eu nunca tive força, mas existiam duas pessoas da escola que eram admirados nos bairro, não pela violência, mas pelo modo como sabiam brigar. Um indivíduo chamado Pato N´água que foi, era um negro alto de quase 1 metro e 90, que era fantástico e tinha um outro que se chamava Pé Rachado que depois fez escola e formando outras escolas de samba aqui em São Paulo. Então nós saiamos os três em todos os bares ali da redondeza, tinha que encontrar as pessoas "Vamos para escola, vamos para escola.", alguns vinham normalmente, outros se rebelavam porque queriam continuar bebendo ali e eles usavam não é um cacete, um pedaço de pau e batiam nas pernas "Vamos lá, vamos lá que a escola vai sair." M

P - E você saía também? Osmar - Não, eu ficava com uma roupa comum, eu ficava na escola o que se chama hoje de diretor de harmonia, embora o meu ouvido não seja grande coisa para música, é péssimo, mas eu tinha a escola na cabeça, eu sabia as alas, então eu ficava andando por ali. Aí a minha história na Vai-Vai ela termina com um episódio que ela tem que ir para o cinema. Eu sempre fui um garoto meio inventivo, eu sei lá. Nós tínhamos uma porta bandeira chamada Elizabeth que era fantástica, ela vinha na frente da escola, era uma mulata maravilhosa, linda, um corpo fantástico, tinha um gingado bonito, então ela tinha o lábaro da escola e ela vinha com aquela bandeira, aí o povo. Aí uma vez eu a vi com uma roupa de uma Marquesa e como a gente desfilava a noite eu tinha um amigo na escola, hoje ele é um engenheiro eletrônico, ele começou nos primórdios daqueles carregadores que você punha fio e iluminava, igualzinho que você tem hoje nas árvores de natal que você põe aquelas lâmpadazinhas, a gente começou a fazer aquilo e eu resolvi iluminar o vestido da Elizabeth, então ela carregou aqui. Hoje você pode fazer isso com transistor, naquele tempo era um trambolho que tinha aqui, por baixo do vestido e no meio da organza e do organdi dela eu passei aqueles fios e passei aquelas lâmpadazinhas e não falei nada para ninguém. Quando ela chegou para o povo - você imagina para o povo do Bexiga, eu estou falando década de 60 -, aquilo era fantástico. A mulher vinha iluminada - hoje você vê o Joãozinho Trinta fazer dadas as proporções para a época. Muito bem, na época eu namorava com a pessoa com quem me casei e o pai dela era uma pessoa muito conhecida no bairro, era um investigador de policia, desses que gostava de prender todo mundo com a mão sem usar arma, ele era o ídolo, era o Robin lá do Bexiga, mas ele era muito austero. E eles estavam na casa do Seu Américo que era o Presidente. Quando a escola passou em frente à casa do Presidente e nesse momento eu ali dirigindo a escola, a Elizabeth, o mesmo nome da minha mulher, quando ela foi fazer uma ginga assim um fio soltou e o vestido se apagou, na hora de se apresentar. Aquilo para mim foi uma loucura, a única coisa que veio na minha cabeça, era a coisa que eu tinha que fazer, eu fui para o chão, me deitei e mandei ela jogar o vestido para cima de mim. Era um vestido rodado, muito bonito, então eu fiquei no chão e ela fez assim com o vestido, eu juro para você que eu não sei a cor da calcinha dessa mulher, eu não vi, porque eu fui direto. Para mim aquilo ali eram dois postes, dois pedaços de pão, qualquer coisa, mas não perna de uma mulher, porque eu fui direto naquela bateria e amarrei o fio com a mão assim. O vestido iluminou, mas a hora que ela saiu que eu fiquei contente pela proeza que eu olhei para sacada o meu sogro estava assim, eu falei: "Pronto", aí acabou o desfile quando eu voltei para casa ele me chamou, a gente namorava e ele com aquelas coisas de policial, até para dormir de pijama ele carregava aqueles escudos da policia, ele falou: "Ou é a minha filha ou o samba." Eu falei: "Está bom, fico com ela porque dá mais um pouco de futuro." Hoje eu gosto, mais tarde eu virei jurado da Folha de São Paulo, eu não gosto de carnaval, carnaval de rua, carnaval de salão, mas quando uma escola começa eu sei a noção e sempre fui jurado da Folha de São Paulo.

Lembranças da mãe
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P - Antes do casamento e da faculdade você queria completar essa história dessa infância e adolescência que é a tua mãe, ela participava de tudo, da alfaiataria, do carnaval? Osmar - Nossa mamãe foi companheira do papai, minha mãe costurava, ficava com ele até de noite até hoje a gente brinca, nós estamos aqui no estúdio em quatro, se eu chegar agora na casa da minha mãe e falar: "Mãe, a gente precisa comer rápido.", em 5 minutos você tem um banquete. M

P - Qual é a especialidade dela? Osmar - Minha mãe faz de tudo, ela não é aquela mulher que faz um prato a provençal, ela não é uma mulher assim, mas ela é uma mulher que se você chegar agora lá, em 10 minutos está pronta a mesa ela fez o melhor arroz, o melhor feijão, ela fritou bife, a cebola do bife acebolado já estava pronta ali, enquanto isso ela já estava amassando um abacate para servir de sobremesa, sabe essas coisas? Lógico se você chegar para ela: "Mãe, uma bacalhoada.", que ela adora fazer, aí é o gosto dela. M

P - A tua preferência qual é? Osmar - A preferência que eu tenho, acho quem está me escutando aqui ninguém já ouviu falar. Eu não sei aonde minha mãe aprendeu isso, talvez no tempo da pobreza, o meu prato predileto é chuchu com queijo a milaneza, isso é fantástico. Na minha casa isso é obrigatório se não dá briga. Você pega o chuchu, você cozinha o chuchu, depois você fatia no sentido longitudinal, então você fica ali com duas folhas de chuchu, tem uma altura de uns 8 milímetros mais ou menos e dentro você joga queijo branco, aí você faz o sanduíche e empana passa no ovo e na farinha e dá uma pequena fritada, põe um palito que nem você fazer um bife a role, uma brachola e o queijo se derrete um pouco, ele se mistura com o chuchu, tem o empanado. Põe um prato desse na minha frente não precisa pôr mais nada, só por uma Coca Cola para me distrair e está bom. Mamãe sempre foi assim, mamãe está viva até hoje, passou por grandes sofrimentos na vida, eu perdi um irmão, um filho dela assassinado aqui em São Paulo, uma coisa triste, ela cuidou do resto da família. M

P - Quantos irmãos? Osmar - Nós éramos em três, tem um médico que é pediatra também, o César, e o Edson que em 85 ele tomou um tiro na porta da casa dele, até hoje a gente não sabe o motivo e ele foi embora deixou três filhos hoje adultos, maravilhosos que eu e meu irmão que cuidamos.

Pai alfaiate
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P - E você sai da casa do seu pai quando se casou? Osmar - Só, naquele tempo era assim, mas tem uma historinha bonitinha no meio disso. Por causa do teatro o meu pai começou a costurar para os professores da USP, porque os professores eram muito ligados em teatro: Antônio Cândido de Melo e Souza, Fernando Henrique Cardoso e esse negócio da cultura no meu pai era uma coisa extremamente interessante. Quando o Fernando Henrique Cardoso, hoje Presidente da Republica, na época professor da USP só, quando o Fernando Henrique ia na loja do meu pai, na alfaiataria e não tinha lugar para estacionar, o meu pai ficava preocupado. O meu pai achava que um professor tinha que ter lugar preparado para estacionar um carro, afinal de contas ele era um professor da USP e não tinha vaga, e meu pai não se conformava que os carros que tomavam a rua ali era de um cara que estava parando no boteco, outro que estava comprando jornal. Meu pai achava que aquele pedaço era do professor da USP, então a noção que ele tinha da cultura, das coisas. E o Fernando Henrique dava volta no quarteirão, na rua Major Diogo, rua Abolição, Jaceguai, passava ali em frente aonde é o Silvio Santos até, e meu pai vinha para rua. Ele não se conformava. Isso dava ao meu pai e a essas pessoas, o Fernando Henrique principalmente, uma admiração muito grande. Aí nós já tínhamos mudado, então papai trabalhava na mesma loja e a noite vinha para essa outra casa no Morro dos Prazeres. E quando chegava à noite e a família comia junto e era o dia que o Fernando Henrique tinha ido da alfaiataria dele, não tinha outro assunto, não se falava de futebol, de nada, o meu pai falava do professor. Quanto tempo ele demorou para estacionar, o meu pai ficava assim, ele falava assim. "Seu Soares, está bom assim." e ele achava essa simplicidade das pessoas eruditas, cultas, ele achava fantástico, então ele falava: "Ó, o professor." E o Fernando Henrique, depois que ele provava o terno ele ia lá para o fundo onde sentava os oficiais e ele sentava naqueles banquinhos de madeira e ficava olhando as pessoas costurar. E o meu pai tinha uma xicrinha de porcelana que ele tomava café, mas de tanto que essa xícara caiu no chão ela já não tinha mais asa e a borda dela estava muito lascada, mas era a xicrinha dele, e minha mãe dava para o meu pai um bule - naquele tempo não tinha garrafa térmica -, dava um bule, meu pai levava o bule para loja e de vez em quando ele levava uma espiriteirazinha. Ele esquentava o café e tomava e o Fernando Henrique, ele queria tomar café e o meu pai morria de vergonha. Naquele tempo também não tinha os copinhos de papel, porque o Fernando Henrique ia lá, ele mesmo esquentava e ele tomava café naquela xicrinha do meu pai e o meu pai achava que um professor da USP não podia tomar café numa xícara que não tinha asa e que a borda estava quebrada, entendeu? Então aquilo para o meu pai era história da vida. Muito bem, aí nasceu o primeiro filho e nós resolvemos, eu e minha mulher, colocar o nome de Fernando que era gosto nosso e na maternidade no hospital. Aí na rua da Liberdade, Hospital Santa Helena, meu pai chegou na maternidade, chegou para minha mulher e falou: "Vocês nunca pensaram em colocar um nome composto, eu acho bonito." Ela falou: "Olha Seu Antônio, a gente pensou, mas Fernando não, nós pensamos até no senhor, Fernando Antônio." e ele foi levando naquele papo e tal, eu estava do lado, ele me chamou e falou: "Eu vou fazer um pedido. Eu queria prestar uma homenagem ao professor Fernando Henrique, professor da USP, só." E a gente achou sonoro e colocou Fernando Henrique. Fernando Henrique Cardoso, Presidente da Republica soube isso através da Deputada Zulaiê Cobra Ribeiro, porque papai costurou para ele durante muitos anos e eu já estava na Faculdade de Medicina, mas aos sábados eu estudava no interior, em Sorocaba. Eu voltava para São Paulo e eu pegava os ternos que meu pai fazia durante a semana e eu ia entregar os ternos. O meu pai confiava no filho mais velho e eu entregava os ternos para um, para outro e ele sempre falava: "Entrega para empregada." No sábado à tarde e era assim, eu entregava para empregada e a empregada falava: "Ó, fulano falou que depois fala com seu pai", isso as vezes demorava muito e era o dinheirinho dele, mas quando eu morava aqui na rua Maranhão, eu ia entregar terno no apartamento do Fernando Henrique, o cheque estava pronto, ele não estava, mas eu entregava o terno e recebia o cheque. E isso para o meu pai era uma prova, nossa E aí nós colocamos o nome de Fernando Henrique. Eu nunca contei essa história. Há uns 5, 6 anos atrás a Zulaiê Cobra Ribeiro, num jantar que a gente estava, aí ela conta, ela foi fazer uma audiência com o Fernando Henrique ela diz que para quebrar o gelo do Fernando Henrique, para ele atender os seus pedidos tem que contar uma historieta, então ela falou assim: "Você sabe que tem um brasileiro que tem seu nome." Aí ele disse: "Nossa, quantos, né?" Ela falou: "Não, em homenagem a você professor da USP.", ele disse: "Que história é essa?" E ela contou do Seu Soares e tal e ele ficou extremamente emocionado, pegou o telefone e me ligou, você imagina 11 e meia da manhã estou no consultório vem minha secretária e diz: "Telefone do Presidente da República.", eu pensei que fosse a história do Faustão, te peguei, essas histórias que tem na televisão e quando eu atendi era uma senhora dizendo que o Presidente da República queria falar comigo. Aí no telefone bem, eu sou jornalista também, sou locutor esportivo e tal, aí ele falou: "Aqui é o Fernando Henrique." Eu reconheci a voz dele, aí ele falou assim: "Você é aquele menino que ia aos sábados na minha casa entregar roupa para o seu pai?", eu disse: "Sou eu mesmo." "E você é esse homem que eu vejo na televisão narrando jogo de futebol?" "Sou eu mesmo" e aí a frase: "E é verdade essa história que Zulaiê me conta?" O português dele é fantástico só perdia para o Jânio Quadros -, aí eu falei do meu filho: "É uma história verdadeira Presidente.", aí ele ficou, eu não sei se ele chorou, mas eu senti que ele estava muito emocionado, aí ele falou assim: "Foi um dos maiores presentes que eu recebi na minha vida." Um humilde alfaiate colocar o nome de um cliente dele porque era professor da USP, bom o Fernando Henrique não tinha sido nem exilado ainda, você imagina em que tempo nós estamos, meu filho tem 32 anos, tenho dois filhos, já sou avô.

Relação pai/filho/neto
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P - Quando ele nasceu você estava estudando? Osmar - Quem o Fernando? M

P - Não, quando o Fernando nasceu você estava estudando? Osmar - Não, nasceu depois, eu me formei em 69 e ele nasceu em 71. Mas a homenagem foi ao Fernando Henrique, ele sabe disto, meu filho é petista. Ele trabalha com crianças, ele tem um acampamento, ele é um sociólogo do lazer como ele chama e sempre foi avesso às essas mídias. O Fernando Henrique pediu para ele ir em Brasília, que o Fernando Henrique queria tomar um café da manhã com ele, e ele não vai. Eu digo: "Filho, mas ele não quer mídia com você, ele quer te ver, você faz parte da vida dele. Isso é uma das homenagens mais bonitas que tem, você não chama ninguém para dá uma comenda, você faz a homenagem e não conta para o homenageado." O simbolismo disso é uma coisa fantástica, o meu filho é o único brasileiro que tem o nome de Fernando Henrique em homenagem ao Fernando Henrique professor da USP, não é que nem agora está nascendo Ronaldo, Rivaldo, está cheio. Os caras estão na mídia, até Fernando Henrique que é um nome sonoro, bonito tem gente que põe o nome dele porque está na mídia, não pela pessoa dele, pelo nome dele. Meu filho não, é pela pessoa do Fernando Henrique, pelo modo como meu pai enxergava o Fernando Henrique. M

P - Com essa admiração que seu pai tinha pelos professores da USP, ele que sonhava que você fosse médico? Osmar - Não, meu pai sonhava que eu fosse ponta direita do Corinthians. (risos) Meu pai era fantástico, eu com 5 anos de idade meu pai me colocava de cavalinho aqui e eu ia hoje onde é o Tobogã do Pacaembu, naquele tempo chamava-se concha acústica porque era barato e meu pai não tinha um pé, como eu te contei no começo da história, eu ficava aqui, pendurava nele aqui e o jogo rolando, era Gilmar, Olavo, Dario, Roberto, Cláudio, Luizinho, Baltazar, Carbonio e Mário e aí ele falava as coisas, e o Cláudio que era ponta direita do Corinthians, era o exemplo do exemplo de homem, de cara correto, nunca foi expulso, era o capitão do time. Tanto assim que em casa quando a gente fazia qualquer travessura papai me chamava eu e meus irmãos e falava assim: "Cláudio, não faria isso." Isso é fantástico, isso é maravilhoso, ele não batia na gente, eu tomei uma surra só uma vez que eu quebrei dente, fui jogar bola e ele sabia que tinha despesa e ele não tinha dinheiro, mas ele falava: "Cláudio, não faria isso." E vou fazer um outro parênteses, meu pai tinha por esses jogadores do Corinthians, meu pai tinha uma neura já, os jogadores faziam parte dos sonhos dele, entendeu, e aí quando eu comecei a jogar bola, estudava, fazia cursinho e eu ia fazer Medicina que ele gostava muito, mas eu jogava muito futebol, aqui nos bairros aqui de São Paulo, a várzea era forte. Eu era uma pessoa conhecida, as vezes ele vinham me buscar em casa de perua para eu jogar, coisa de profissional e meu pai achava que eu era um craque, eu jogava bem, ele: "Não, você vai ser um jogador." Ele me levou para treinar, no fim eu fiquei um certo tempo num time aqui de São Paulo chamado Comercial, da capital, que hoje é o São Caetano, e meu pai sempre me dava um toque: "Vai para carreira.", porque meu pai queria me ver com a camisa do Corinthians, esse era o orgulho dele.

Opção por Medicina
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P - Como é que surgiu essa história da medicina? Osmar - A história da Medicina surgiu assim, naquela época ou você ia fazer faculdade de Direito ou de Medicina ou de Engenharia. Acabou, não tinha essa zootecnia, não tinha, era só essas três coisas. E eu era uma pessoa - essa história vai longe -, eu era uma pessoa muito tímida quando garoto e não tinha como vencer a timidez. Ficava em casa pela minha criação costurando, então na época eu comprei o livro da história da vida do Rui Barbosa e comecei a ler Rui Barbosa e nesse livreto tinha trechos de discursos de Rui Barbosa e aí eu começava a fazer os discursos como se eu fosse o Rui Barbosa, sozinho no meu quarto. Aí o Jânio Quadros estava fazendo a carreira política dele, naquele tempo os jornais publicavam os discursos, "Filo que..." e eu começava a ler os discursos de Jânio Quadros e botei na cabeça que eu ia ser um advogado, essa é uma frustração que eu tenho, mas eu me vingo dela vendo filmes de jurisprudência que é o meu gosto, eu me vejo, os meus maiores ídolos são os tribunos, a vida e a história dos tribunos me encanta e eu fiquei na duvida: "Vou fazer advocacia, advocacia é legal.", mas aí eu fui trabalhar com 13 anos de idade num escritório de advocacia, eu fui ser arquivista aqui na rua Tabatinguera. Aí eu comecei achar que advogado é muito mole, o cara ficava o dia inteiro sentado ali, não tinha movimento nenhum, de vez em quando chegava um, entrava, trancava a porta e eu era um moleque mais agitado e por isso eu fui indo para ciências mais humanas e acabei entrando na faculdade de Medicina. M

P - Você lembra desse vestibular, dessa noticia que você entrou na faculdade? Osmar - Claro que eu me lembro. Eu não passei no primeiro ano, não passei no segundo, concorrência era terrível e aí eu fui fazer em Sorocaba o exame e me lembro exatamente do dia do vestibular que não era as coisas de hoje. Eu estava numa sala respondendo as questões, os próprios professores da faculdade tomavam conta dos alunos, Humberto Cerruti que tomou conta dessa sala que era um dermatologista que virou o meu paraninfo e eu nunca esqueço que caiu um tema lá muito esquisito para maioria das pessoas, aquela época começou assim com tema de vestibular, bom o tema da dissertação era o prego, e sabe não era a coisa mais normal, mas eu tinha habilidade da escrita, entendeu, eu tinha um cursinho, eu dava aula de física, de química, eu fazia muita coisa, então eu fui bem no vestibular, mas essa redação é que liquidava o assunto. Aí eu fiz a redação, voltei para São Paulo, aí depois eu recebi a notícia por telefone que eu havia passado, eu nunca me esqueço que eu fiquei contente no telefone, era hora do almoço e meu pai gritava: "Em que lugar, em que lugar?", queria saber em que lugar eu havia passado, e eu acabei perguntando eu passei em 14º lugar. M

P - Que faculdade era? Osmar - A PUC de Sorocaba, mas para o meu pai ele tinha que contar para os clientes dele que o filho entrou na faculdade de Medicina em 14º lugar, o negócio estava aí, era uma bobagem mas para ele era fantástico, ele era fantástico. Aí fui lá, fui morar sozinho, fui fazer faculdade e aprendi muito.

Vida de estudante
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P - Como era essa vida universitária lá em Sorocaba? Osmar - Lá em Sorocaba era assim, eu morava no centro da cidade num apartamento com mais três colegas: um armênio, Walter Poladian, um judeu, Leon Oximan e o outro, Luiz Sérgio Martins Pimenta, colega de Santos. Mas a minha república tinha essa conotação, Armênia, Judaica, uma coisa bastante interessante, mas era muito bem dividida. O Leon Oximan, o judeu que ia fazer as compras, porque ele comprava tudo mais barato, o Walter Poladian, o armênio que ia fazer pechincha, eu cuidava da cozinha e o Pimenta não fazia nada, era o jeitão dele, ele não fazia absolutamente nada. Mas a gente acordava 6 horas da manhã, embaixo do meu apartamento tinha uma padaria, padaria Royal eu tomava uma média, comia um sonho que é uma das minhas paixões e ia embora para faculdade a pé, dava uns 20 minutos, uma subidona. Aí ficava na faculdade até meio dia, voltava para casa, não tinha dinheiro para lanche. Dona Ester que era a minha cozinheira, fazia umas coisinhas lá, a gente almoçava e voltava para faculdade outra vez. Aí saía da faculdade 5 horas da tarde ou ia jogar bola que era a minha paixão ou ia para os bares jogar sinuca, que era uma das minhas paixões. Chegava em casa 8 horas para esquentar a comida que a Dona Ester tinha feito durante o dia. E ela coitada tinha tanta dó da gente que fazia uns bolinhos que misturava tudo que sobrava, sobrava uma folha de alface, não jogava fora. A gente olhava na geladeira tinha um monte de pires e ela juntava aquilo e fazia uns bolinhos horrorosos, uma coisa muito ruim, mas era o que tinha, a gente comia aquilo e o que sobrava a gente jogava fora bem longe dela para não ficar sem graça. A gente morava no 10º andar, as vezes a gente atirava lá da janela nas pessoas e tal. M

P - Quantos anos de curso Osmar? Osmar - De medicina? Seis, 6 anos. Osmar - E eu fiquei ali esse tempo todo, não tenho vergonha de falar, não tinha dinheiro e cada vez que saía de São Paulo, porque eu vinha para São Paulo no sábado a tarde no ônibus da Cometa e voltava no domingo a noite num trem japonês que sai aqui da Júlio Prestes. Demorava 2 horas para chegar até Sorocaba. E cada vez que eu saía no domingo, que meu pai me dava o dinheiro para eu levar para faculdade, aquilo me cortava o coração, porque ele puxava aqui, era um tostãozinho aqui, outro aqui, isso era muito difícil. E eu jogava sinuca, então de vez em quando, no interiorzão era assim, às vezes apareciam uns forasteiros, jogadores, eles vinham ali da região de Botucatu, Tietê, Tatuí, Itapetininga e chegavam no grande bar da cidade para jogar sinuca, para encontrar o apostador. Mas eu jogava e ficava em casa a noite estudando e de vez em quando chegava um homem desse na cidade, aí meus amigos corriam e me telefonavam "Chegou um jogador aqui.", aí eu ia, pegava uma mesa do lado, jogava com algum amigo, jogava bem, mas de vez em quando eu fazia uma besteira de propósito até o outro se entusiasmar e sair aposta, mas eu não tinha dinheiro para apostar. Então meus amigos se cotizavam e eu ganhava 20% nisso. Era difícil eu perder, porque eu jogava aqui em São Paulo com essas pessoas famosas Carne Frita, essas pessoas e eu ganhava um pouquinho de dinheiro aí. De vez em quando, quando eu queria um pouquinho mais de dinheiro eu ia para o clube e ia jogar poker, que é o meu gosto também, então era uma coisa interessante, a gente punha uma mesa lá, eu entrava para jogar e tinha uma escada lá muito suntuosa que ia para o salão de baile. E os meus amigos arrumavam umas namoradas e ficavam namorando no parapeito dessa escada, tudo moleque com 20, 22 anos de idade e eu na mesa jogando lá embaixo e a gente tinha uma combinação, eles enxergavam migalhas, aqueles velhos. Eu estou contando um pecado, é a história -, aí os velhos, eu estou aí do seu lado, aí um dos velhos abria as cinco cartas aqui e um da escada lá via, entendeu, aí tinha o sinal o Rei, a Dama, o Valete, então eu já estou com cinco cartas na mão, já sei cinco que o outro tem, vou jogar três fora, vou receber mais três o outro me dava um sinal. Desse metade do baralho eu sabia aonde estava. Aí eu ganhava uns trocos, dividia com eles também para fazer um pouco de farra. Mas depois quando terminou o primeiro ano o professor de anatomia, o professor Renato Lock, ele me chamou na sala dele e disse que, ele nem conversava com os alunos, mas eu e outros colegas, o César Cassar Filho, que nós tínhamos tirado nota acima de nove na matéria dele, que isso era muito raro. Eu tinha passado para o segundo ano com média 9.7 e ele me convidou para ser monitor da cadeira de anatomia e eu não sabia. Para mim foi uma grande notícia, a monitoria não pagava a faculdade, então eu não paguei do segundo até o sexto ano e com isso eu livrei o bolso do meu pai. Aí o baralho me dava mais um trocado, a sinuca me dava mais um trocado e no terceiro ano eu fui trabalhar numa rádio em Sorocaba que se chamava rádio Cacique, que tinha um programa de esportes todos os dias na hora do almoço. Eu ia lá falava umas bobagens e consegui ganhar uns trocados, mas aliviei muito o bolso do meu pai.

Opção pela Medicina Esportiva
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P - A especialidade surge quando, no curso ainda? Osmar - No curso eu sempre falava que ia ser médico do Corinthians, eu queria fazer isso e a especialidade seria medicina esportiva, mas eu em 1966 eu estou passando numa banca de jornal e surgiu lá revista do Corinthians, que era uma revista antiga que eu tenho toda coleção dela, depois ela parou, de repente ela voltou, quando eu vi aquilo eu falei: "Nossa, eu vou continuar a coleção.", comprei a revista, fui para casa, quando li cheia de erros. Eu que sabia a história toda, aí eu liguei paro cara da redação Eduardo Monteiro "Eu comprei a sua revista agora, não me conformo como Corinthiano você escrever uma bobagem dessa, está tudo errado.", nós tivemos uma discussãozinha, direito do consumidor já naquela época, aí chegou uma hora ele ficou tão nervoso no telefone "Você faz melhor que isso?" "Eu faço, pelo menos eu sei a história." Aí eu fui no escritório dele, ele falou: "Bom, o Corinthians vai inaugurar a capela, tem um santuariozinho lá no Parque São Jorge. Você vai para lá então?", eu disse: "Eu vou." e com desafio, aí eu fui para lá, meu pai foi comigo, aí eu vi a inauguração da capela e escrevi um texto, não sabia nada de jornalismo, aí pegava as revistas para ver como os caras escreviam o subtítulo, mais ou menos a linguagem, aí eu escrevi "Corinthians, vai às orações." Depois inauguraram a biblioteca. Bom, no final das contas eu virei sócio, nós montamos uma empresa e eu comecei a fazer a revista do Corinthians e com isso eu cheguei mais no Corinthians, nos jogadores e por causa dessa chegada lá na faculdade todo mundo sabia que eu vivia no Corinthians, e quando eu estava no quinto ano da faculdade, eu estava na cadeira de cirurgia, teve uma gastrectomia lá e eu fui ajudar a instrumentar e nessa cirurgia o anestesista Doutor Hélio Grilo, era o medico do time da cidade, do São Bento de Sorocaba. E durante a cirurgia ele estava falando com o cirurgião, isso era uma quinta-feira: "Sábado começa o Campeonato Paulista, esse negócio de viajar pelo interior eu não agüento mais, jogo aqui, em Araraquara, Ribeirão Preto, Bebedouro, eu vou pegar um moleque qualquer da faculdade vou por para me ajudar." Eu larguei o bisturi, falei: "Opa, estou presente." Acabei a cirurgia fui para o clube, ele me apresentou os jogadores foi numa quinta-feira... M

P - Que clube era? Osmar - São Bento de Sorocaba, primeira divisão. Comecei ali, quinto ano da faculdade, já comecei no trato dos jogadores, mas Sorocaba tinha uma zona de meretriz famosa e naquele tempo 3, 4 meses de clube eu tratava de gonorréia, sífilis, todos os jogadores com rarissimas exceções não tinham isso, eu falei: "Não pode isso, como esses jogadores jogam bola". Fui na zona falar com a mulher lá, falei: "Meus jogadores vem aqui, caramba." A casa mais freqüentada, a Lúcia "Todos doentes, essas meninas passam doença para todo mundo.", mas naquele tempo era normal isso, então eu falei: "Eu vou fazer um trato com você. Você cada 2, 3 meses você me manda as meninas no Hospital Regional, eu colho material, examino, aquelas que tiverem carimbadas eu trato e você tira um pouco de circulação." Para ela foi ótimo, para os jogadores foi maravilhoso, para mim também, para o clube, para bola, para o jogo. Imagina, eu virei o rei da zona De sábado tinha feijoada para mim, eu levava os meus amigos e a casa da mulher lá cresceu mais ainda porque era a casa freqüentada pelos jogadores. Imagina? Eu estou falando em 1968.

Primeiro contato com propagandistas
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P - Você estava contando dessa época de estudante ainda, eu queria saber se no curso você já tinha contato com industrias farmacêuticas, com propagandistas. Osmar - Naquele tempo não tinha isso, não tinha isso. O meu primeiro contato com a industria farmacêutica, quer dizer, é durante o curso, mas não por causa do curso, porque eu tava lá no São Bento de Sorocaba como estudante, já comecei a trabalhar no Corinthians, mas as pessoas, os propagandistas iam lá falar comigo só pelo... M

P - Então repetindo, na época de estudante o senhor tinha algum contato com as indústrias farmacêuticas? Osmar - Os representantes propagandistas, pelo menos lá no meu cantinho eles não faziam contato com estudante da faculdade, eu acabei tendo um pouco de contato no quinto ano e no sexto ano, porque já estava em local de trabalho ou no São Bento de Sorocaba que era o time que eu já trabalhava ou no Corinthians que comecei a trabalhar através da revista do Corinthians e depois acabei sendo o que chamam de médico, embora não tivesse formado, mas eu exercia funções tais.

Importância do propagandista na formação médica
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P - Que laboratórios que você lembra desde o começo? Osmar - Eram os laboratórios mais tradicionais da época, Rhodia, Pfizer, a própria Aché que já existia naquela época, mas o que aconteceu a minha relação com a indústria farmacêutica, ela começa da seguinte maneira. Eu fazia residência logo que me formei período difícil, apertado, sem dinheiro e comecei a trabalhar na Clínica Oswaldo Cruz, aqui em São Paulo que depois se desmembrou e uma parte virou Sancil. Eu trabalhava aqui na Praça Oswaldo Cruz e trabalhava às 7 horas da manhã numa metalúrgica em Santo Amaro, a metalúrgica Prada. Eu atendia os funcionários que chegavam doentes para o serviço, via quem podia trabalhar e quem não podia. E o dono da Clínica Oswaldo Cruz, Doutor Paulo Torres, não sei acho que vendo o meu jeito, como atendia as pessoas, eu faço da Medicina não vou dizer um sacerdócio mas um ato de respeito muito grande aos meu pacientes. Eu sei o nome de todos eles, sei o que fazem, presto muita atenção nas histórias deles, eu gosto disso, era tudo que a clínica queria e o dono da metalúrgica Prada falava sempre para o dono da clínica: "Eu não posso perder esse moço aqui.", e por causa disso eles montaram um consultório no centro da cidade, aqui em São Paulo, no edifício Zarvos, na Rua da Consolação, esquina com a São Luiz e aí colocaram um clínico que no caso era eu, não tinha terminado a residência ainda, um ginecologista e um pediatra, que era para atender os casos mais delicados das coisas do convênio. E eu fui lá, um consultório lindo, maravilhoso, eu não tinha formação para ter um consultório daquele tipo ainda, então a clientela era muito pequena, estava começando, então me lembro de ter ficado tardes inteiras lendo revista, chegava um paciente que podia ser uma consulta "Aonde dói, dói aqui." E você dava os anti ácidos da época, não tinha essas coisas de hoje, mas eu transformava essa consulta em 1 hora, 1 hora e meia escutando histórias das pessoas, então iam lá na clinica "Descobri um médico fantástico que me escutou 1 hora." Não é que escutei, é porque eu não tinha o que fazer e nisso começou a chegar o representante de laboratório e esse representante como eu estava sem atividade, sem clientela, sem nada ele passou a trabalhar comigo, não como ele trabalha hoje, o meu consultório é super lotado, então eles vão lá sabem da minha falta de tempo, então o contato é um pouco menor. Naquela época não, eles começaram a me ensinar Medicina que na faculdade você não aprende. M

P - Que ponte era essa? Osmar - Porque veja bem, na faculdade você tem aula de farmacologia, então nas aulas de farmacologia você chega lá e "Os antidepressivos funcionam assim, vão as células não sei o que Alpha, Beta." E você estuda aquilo para passar no exame e esquece tudo evidentemente. Daqui a pouco chega o propagandista que não é um médico, mas tem aquelas informações que o mídico precisa e esses indivíduos passaram a ser meus professores. Então quando eles chegavam, vamos falar do produto da Aché "Ó, está aqui o Tandrilax, ele é uma mistura de anti inflamatório, de analgésico, de relaxante muscular, quando ele chega na fibra nervosa..." Aquilo para mim era uma aula sem a responsabilidade de eu ter que aprender, sem prestar exame. Então aquilo entrava muito mais, em folheto eu gosto muito de papel, então cada vez que esses indivíduos vinham, tudo que eles fazem hoje que eles vêm. Eu sou mais rápido hoje "Eu vou deixar isso aqui para você depois ler."E eles ficavam "Está aqui a estatística disso, comparativo com esse e com esse outro produto, esse aqui tem mais analgesia e não sei o que, este tem que tomar desse jeito." Eu aprendi a receitar com esses indivíduos. Porque você quando está numa faculdade de Medicina o professor chega e fala assim: "Olha, aqui numa amigdalite você tem que receitar um anti inflamatório." Ninguém fala para você "Você tem que receitar um Piroxican, Tenoxican, Dicoflenaco", ninguém te fala isso. E o que são essas coisas, são coisas que estão na rua, na farmácia e tem nome comercial e os propagandistas que disseram pra mim: "Olha, esse produto serve para isso, esse produto serve para aquilo." Então eu brinco com eles e falo abertamente que eles foram os meus professores.

Relação com o Aché
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P - Você lembra de alguma campanha, de algum lançamento do Aché nesse teu começo? Osmar - Não, porque eu comecei a trabalhar num local em que o Miro foi um dos donos no começo, o Miro era um propagandista, aliás os quatro, do começo da história pós-moderno, vamos dizer assim do Aché, o Miro era cunhado de um indivíduo chamado Rafael Quiarela e agora a pouco eu escalei para você o time do Corinthians. E o ataque era Cláudio, Luizinho Baltazar, Rafael... Está vendo como o futebol roda e roda na minha vida? O Miro era cunhado do Rafael, que era jogador do Corinthians, cunhado ou parente não sei. E o Miro era um representante que eu conhecia, era um dos representantes que às vezes me visitava e depois eu soube através de um coronel amigo meu, que era muito amigo do Miro, que os quatro tinham comprado o laboratório Aché e para mim essas histórias de coisas que surgem pela vontade humana, pela garra, essas histórias me fascinam. Então quando eu percebi aquilo, quatro propagandistas que estavam ali na minha frente todo o dia com aquela mala pesada, suando, de repente esses caras compram um laboratório, essa história ficou tão fantástica para mim na minha cabeça que a palavra Aché, o simbolismo que ela passou a ter era de uma história de luta, de quatro homens que resolveram quebrar a cara, ou dá certo ou dá errado, e esses caras foram ser donos de um laboratório. Então a palavra Aché uma palavra sonora, bonita, a cor o sulferino que eles tinham misturado com branco, porque essas coisas eu gosto muito, eu passei admirar muito as coisas do laboratório, no ponto que depois de muitos anos formado, eu já era medico do Corinthians, um dia eu fui lá na Dutra, passei com eles para ver toda linha de produção, conversar com o pessoal, almocei com todos eles, então é um laboratório que tem na minha formação, tem um história comigo, não uma história direta, mas de eu conhecer quatro propagandistas de laboratório que se unem e compram um laboratório que era pequeno e tentam transformar aquilo. Isso é uma história igual a historia do McDonalds, igual a história do KFC, igual história do Walt Disney, daqueles caras que lutam e tem uma obsessão, uma meta final, essas historias são bonitas. M

P - Essas histórias de significado pesam na hora de escolher um produto? Osmar - Hoje não, porque a mídia te pega de toda forma. Hoje está assim, eu chego no consultório vem um "Doutor, está aqui, isso está aqui, tem uma régua para você, estão aqui dois ingressos de cinema e se você for para um congresso você avisa que eu te pago." Daqui a pouco vem o outro "Olha, eu vou almoçar pode deixar." Todo mundo te oferece, é claro que eu estou falando de mim, não estou falando dos meus colegas. Mas eu tenho representante chega lá para mim e diz: "Sabe que eles têm métodos de controle, esse produto está sendo vendido aqui, eu não estou bem, me dá uma ajuda aí?" E eu dou. M

P - E naquele começo, quando você descobriu o significado da Aché a partir daí você começou a simpatizar com o produto? Osmar - Eu simpatizei, se fosse receitar um produto cujo o sal tivesse no Aché, nesse ou naquele, eu receitava o do Aché, pelo fato de ter, esses caras que estão lutando, então eu corria atrás deles, eu dava um impulsozinho se isso é uma ajuda evidentemente desde que eu não estivesse ferindo o meu receituário médico, mas eu dava uma ajuda. Hoje ainda faço isso, tenho vínculo profissional mesmo com alguns laboratórios que eu presto serviço, ajudo, dou idéias, faço reuniões e tal. Mas a história do laboratório, qualquer um que seja, é uma história que passa pela pasta do propagandista, ela passa por ali, que é a venda, é a mídia, ali ele vem falar: "Esse produto é meu, esse produto faz isso, esse produto tira isso, esse produto resolve isso." E eu sempre tive por essas pessoas, aqui não tem cabotinismo nenhum no que eu estou te falando, porque é a historia real e eles me contam assim. Talvez por essa história antiga do começo da minha carreira de eu conversar por longas horas com os representantes, e já era médico do Corinthians, todos eles, como todo brasileiro falavam de futebol, de filho, de vida e eu criei um vínculo muito grande com a figura do representante, entendeu. Então por exemplo hoje no meu consultório que é uma loucura, são 200 pessoas que passam por dia, eu faço 40 consultas por dia, o propagandista não espera, isso é minha ordem. Lá ele não espera, ele chegou eu estou consultando, acabou a consulta o propagandista que tiver entra na frente do paciente, porque tem médicos eu sei, respeito "Olha, eu só atendo de quinta das 8 às 9 horas da manhã.", tem outro "Ó, só depois da última consulta.", eu discordo disso. Tem propagandista que tem uma zona para atender, mas aquele médico é só de quinta-feira, aí o cara tem que sair daquele hospital lá em cima, pega o carro, vem no trânsito só para vir aqui para atender aquele horário. Eu não sou assim, os propagandistas chegam no meu consultório a hora que eles quiserem dentro da rotina deles, entendeu. M

P - Você faz essa questão por quê? Osmar - Porque eu gosto deles, acho que eles são importantes na minha vida. Tenho um carinho muito grande, eu sei que eles são batalhadores, que não é fácil você tentar vender idéias para as pessoas com personalidade as mais diferentes possíveis. É diferente você chegar num restaurante o cara te dá o cardápio e você escolhe o que você quer, o máximo que você fala: "Esse a dorê é bom, esse a provençal é bom.", o máximo que você pergunta. Agora o propagandista não, o cara tem que chegar, quem trabalha no meu caso com antiinflamatório, o cara tem que vir provar para mim que o antiinflamatório dele é melhor que todos os 1800 que estão aí, entendeu? E ele precisa do meu receituário que com o meu receituário ele vende, se o laboratório vender ele está melhor no laboratório e quanto mais vender, mais ele ganha posições dentro do laboratório, isso é uma história, dá até enredo, eu gosto muito deles, simpatizo com eles, entendeu? M

P - Dá para perceber alguma diferença no jeito do propagandista do Aché trabalhar naquela época do que os outros concorrentes? Osmar - Não, eu não tenho essa memória assim, todos eles não era o Aché, a Pfizer, a Bristol não sei se ainda tem, mas eu não via diferença nisso, mas com o laboratório Aché o papo era melhor, porque eu conhecia a história "Ah, do Aché, que legal eu conheço o Miro, que legal quem sabe um dia você também vai ser dono de um laboratório.", então a conversa tinha um inócio diferente dos outros "Doutor, vim aqui te trazer o novo lançamento", entendeu? Então chegava "Doutor, posso pôr a pasta aqui? Eu sou do Aché.", "Como é que vai o Miro?", então a conversa ficava mais amistosa por causa dessa coisa, mas até hoje "Vamos jantar?", eu almoço com todos eles, janto, o laboratório paga almoço, paga jantar, eu pego os médicos lá da clinica levo todo mundo, isso não influência no meu receituário, jamais eu seria comprado por qualquer dinheiro, muito menos por uma caixa de remédio, mas é esse gosto que eu tenho por eles. A pouco tempo na Pfizer, a Pfizer estava fazendo um lançamento de um produto e fizeram uma festa enorme em Foz do Iguaçu, me levaram para lá, duplas de sucesso, então levaram o Oscar e o Pipoca, levaram o Tande e o Giovani e levaram o Sócrates e o Casa Grande e eu fui para lá como apresentador dessas duplas de sucesso, porque na hora enquanto eu estava apresentando, imaginei: qual é o sucesso do laboratório? É da dupla médico e representante e de improviso eu comecei a contar essas histórias. E por acaso o representante do laboratório que me visitava é um desses caras que são meu amigos, eu conhecia o nome dele, aí eu falei: "O meu consultório é assim, vocês são meus amigos não quero nem saber.", tinha mil e poucos representantes, eu nem sei se o Marquinhos está aqui e aí ele se levantou, quer dizer o cara chama-se Marcos, e chamo ele de Marquinhos, para mim como médico saber o nome do representante daquele laboratório é aquele que trato, aí o cara chorou, ficou um dramalhão, lembrei dos tempos do teatro, mas foi uma história muito bonita.

Relacionamento com os Propagandistas
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P - Tem alguma outra história pra finalizar que você gostaria de contar com o teu relacionamento com o propagandista ou com o laboratório nesses anos de Medicina? Osmar - Olha, não é história, é uma coisa assim, acho que já entrei em cirurgia de uns 20 ou 30 que vieram se operar na minha clónica. Tem muita coisa assim, propagandista chega do laboratório Aché, aí está conversando "Tandrilax, isso, aquilo...", aí eu chego para ele "Meu amigo, você não sabe eu estoi precisando de Novalgina, que é da Hoechst. Se você encontrar o representante da Hoechst fala para ele que eu estou precisando.", mais 10 minutos depois estava me ligando o cara da Hoechst: "É Novalgina que você está precisando?", quer dizer, aquele propagandista do Aché não pegou o meu pedido "Bom, se eu encontrar.", ele foi à caça, já pegou o celular "Aonde você está? O Doutor Osmar, pelo amor de Deus." Então eles me socorrem, eles me acodem, eles me dão um monte de coisa e eles vêem o modo que eu trato, chegou papel na minha mesa de laboratório, eu ponho em cima da mesa, guardo tudo e no sábado e domingo eu leio tudo e eles sabem disso. Tem remédios extremamente famosos e até importantes que quando surgiu, pelo fato de eu ser jornalista, tenho esse hábito de ler, erros na bula, aí a primeira vez que o representante chegou eu falei: "Ó, com essas indicações aqui vocês não vão vender nada desse produto, por causa disso, disso, disso." e aí eles modificaram a bula, eu não ganhei nada com isso, nem quero ganhar. Mas eu acho que esse relacionamento não pode ser só "Bom dia, boa tarde. Doutor como vai, com licença eu vou pôr a mala aqui." e para alguns eu dou até conselhos, eles são meus amigos, aí para alguns eu falo: "Cara, eu não ligo que você põe a mala em cima da minha cadeira, eu não ligo, mas quando você for no outro consultório você chega e fala, Doutor posso apoiar a mala aqui?", porque tem médico que acha que apoiar a mala em cima da cadeira é uma ofensa, eu não ligo para isso "Põe aonde você quiser, mas para alguns médicos você fala isso." Outras vezes nessas épocas de calor, eu me lembro há pouco tempo um propagandista chegou todo suado, com umas manchas de suor aqui da rua. Ele veio e eu brinquei: "Você está jogando aonde, que camisa é essa e tal.", aí cheguei para ele e falei assim: "Para um pouco, vai para um boteco, toma um negócio, você não pode chegar com a camisa de suor assim e você não pode usar essa cor de camisa porque a mancha aparece muito, usa uma camisa azul marinho, preta que o suor não aparece tanto." Então se eu transformar aquela visita dele que é curta, rápida, as vezes pode até ser meio traumática para ele que precisa mostrar, se transforma numa coisa mais alegre, é bom para ele, é bom para mim, não me chateia, me informa e eu não perco muito tempo. Têm alguns que chegam lá "Cara, hoje eu estou numa loucura." "Eu vou deixar aqui.", vai embora e pronto e registra lá. Então os médicos que trabalham comigo sabem que eu sou assim, me entendem como mais velho lá na clínica, como professor, acho que eles me imitam até, se deu certo vai atrás, mas eu tenho um carinho muito grande pelo representante, acho que os laboratórios têm que saber escolher. Outro dia eu dei uma entrevista sobre isso, quais eram os critérios para o cara ser representante e eu acho que é uma profissão que não é tão simples quanto às pessoas imaginam, você vende produtos, você é um vendedor, você só não tira nota fiscal, você vende idéias em que a concorrência é muito grande e ele é um analista da personalidade humana. Analisar a personalidade do médico é difícil, você chegar em frente ao consultório, o médico está com a cabeça desse tamanho, cansado, cheio de problema e você tem que falar alguma coisa de acordo com o estado de ânimo que ele está naquele momento. Você olhar nos olhos do médico e entender o que ele quer estudar e aquilo que não quer estudar. Propagandista não é aquele cara que põe um monte de caixinha de remédio na mala e sai por aí entregando, não é isso não. Eu acho que eles têm que ganhar mais salário, acho que eles têm que ter mais condições de poder trabalhar, porque a venda está aí. M

P - Hoje, qual é o bom propagandista? Osmar - O bom propagandista é aquele que está atualizado, que sabe tudo, que se veste bem, não precisa ser de gravata, é aquele que tem um bom comportamento que o laboratório dá para ele. Como ele entende o médico, tem que estar muito atualizado das coisas da vida, do mundo, da Medicina, ele não pode ser rápido, tem que ter a capacidade de ser conciso sem deixar de falar aquilo que ele precisa, ele não pode chegar e falar: "Doutor, não sei aquilo, nos estamos no nananananannana.", isso é uma droga, isso não resolve nada, entendeu. "Doutor, eu estou lançando esse produto ele é muito legal, tem todas as pesquisas aqui, eu sei que o senhor está muito ocupado, mas olha estou deixando para o senhor, é uma novidade." Não: "Isso nannanannananannana." e o médico: "Pára de falar que eu não agüento isso.", você acaba criando uma antipatia. Então é uma técnica, isso é uma técnica de venda, uma técnica de relacionamento humano, é uma técnica de marketing, é uma técnica de mídia, de apresentação, eu acho que as pessoas tem que ser assim. Eu brinco, tem um rapaz que ele chega no consultório imitando o Silvio Santos, é um propagandista, nem sei de que laboratório ele é, dá a mão para gente de uma maneira muito forte, ele aperta muito, você toma um choque, eu brinco com ele e falo para ele: "Olha, não faz isso para todo mundo.", porque eu sinto, ele é meu amigo e ele pensa que todo mundo é do meu jeito e não é, tem aquele médico mais sério que não está a fim de escutar Silvio Santos nenhum. Agora para mim ele pode imitar o Silvio Santos, para o outro ele pode imitar o Pelé, por outro não sei o que, depende, entendeu? Eu brinco sempre com os propagandistas "Na ficha de vocês, diz que ano nasceu, ano de formatura, você tem que colocar o time do médico, aí você é palmeirense, eu sou corinthiano, ontem o seu time ganhou do meu, não entra aqui, está aqui o remédio, porque eu não estou a fim de escutar isso. O meu time perdeu e não vem falar bem do Palmeiras que eu quero morte e não vou receitar o seu produto, entendeu? Agora se o meu time perdeu, você chegar aqui para mim e falar: "Pô, o juiz ontem, né, Doutor? Meteram a mão no Corinthians.", "Ôpa senta aí vamos conversar que é mais um aliado para as minhas causas, entendeu?" Então não é que, é uma profissão que precisa sempre de uma boa representadora, uma boa perguntadora, tem que ser atualizada, tem que saber, tem que ser atenta, tem que ser atualizada, conhecer um pouco a história para saber. Agora o propagandista tem que ser uma coisa um pouco maior, tem que ter uma gama de conhecimentos muito grande. Tem que estar informado sobre tudo, entendeu, não pode chegar para mim e falar: "Ó, tem um produto aí lançado igualzinho.", não tem, tem que falar: "Ah, eu conheço, lançaram, mas o meu faz isso.", entendeu? Se ele está desatualizado na área dele é a mesma coisa que alguém chega no meu consultório: "Eu torci o tornozelo." E eu fico ali com gelinho só e o cara fala: "Não vai fazer raio laser?" "Raio laser?" O cara nunca mais volta porque ele acha que eu nunca sei aquilo. Então eu brinco com eles, acho que eles têm que ganhar mais, representar melhor os laboratórios, os laboratórios as vezes gastam dinheiro desnecessário que propagandista é humilhante, eles me falam: "Doutor, toma essa reguinha para o senhor.", reguinha que nem minha empregada usa. Essa mania de chegar no médico e dar presente, todo dia uma reguinha que eu não sei o que faço com ela, é uma lapiseira que não sei o que faço, é aquelas coisas de colocar em cima da mesa, são aqueles tripé com calendário, na minha mesa não cabe. Outro tem uma mesa de madeira bonita, vai por um calendário de papel, aquela piramidezinha, eu acho que os laboratórios precisam saber um pouco mais do que o médico quer nessa conversa com o representante, eles fazem de tudo, pagam isso, pagam aquilo daqui a pouco é peça de teatro, vai aqui, vai ali e tal, tem alguns que vão, mas eu conheço médicos que recebem o convite, não sabem nem que produto é, nem que laboratório é. Então essa reciprocidade, precisa vender, ninguém vai agradar ninguém pela cor dos olhos, tem laboratório que chega para mim e diz: "Olha, eu vou colocar uma televisão aí." Eu tenho uma televisão lá no consultório que um laboratório me deu para os meus pacientes, agora me deu por quê? Porque embaixo da televisão tem o nome do produto dele, não são Santa Casa de Misericórdia e estão esperando que algum dia eu receite o produto deles e que na hora que eu decida entre esse e aquele, que é a mesma coisa, os mesmo miligramas, eu receito esse que me propicia a televisão para os meus pacientes, evidentemente que é assim.

Rotina de trabalho
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P - Para finalizar eu queria que o senhor contasse um pouco como é o seu dia típico de trabalho hoje? Osmar - Meu? M

P - É. Osmar - Bom, eu acordo cedo tipo 7 e meia, 15 para às 8, aí eu leio todos os jornais possíveis e imagináveis, brinco com os meus dois netos que ainda moram em casa, saio de casa por volta de 9 horas. Uma vez por semana vou para o Hospital Samaritano, onde meu grupo opera, nas outras vezes eu vou pra TV Record onde gravo um programa que sai todo dia na hora do almoço. Chego no consultório meio dia e fico direto no consultório até 8 horas da noite. 8 horas eu fecho o meu consultório e fico sozinho nele. Aí eu faço a minha parte administrativa que vai até 9 e meia por aí, respondo todos os meus e-mails, todos e às vezes, eu tenho aula pra dar na faculdade, eu faço muitas palestras, outras vezes eu estou na televisão, quando estou fazendo programas a noite e tal, aí eu costumo, meu horário de chegar em casa é 10 e meia, 11 horas. Hora que eu janto, assisto o jornal na televisão e aí que eu converso com a família, jogo paciência no computador, vou para Internet brinco um pouco nela e vou dormir lá pelas 2 horas da manhã. Sábado e domingo tem jogo e quando não tem jogo, tenho um sítio aqui pertinho de São Paulo há 100 quilômetros, tenho uma horta sem adubo, tenho um pomar sem adubo e ali eu fico 7, 8 horas cuidando de alface, chicória, acelga. Fico embaixo de um pé de laranjeira suado do trabalho, tomando uma limonada do limão que eu cortei lá em cima, botei no copo e joguei água que eu tirei do poço, encosto a cabeça ali e viajo, vou longe e se não me chamarem para almoçar nem o meu estômago reclama e eu fico lá, esse é um dos prazeres que eu tenho, a bola e a família evidentemente. M

P - Para finalizar eu gostaria de saber o que achou de ter contato um pouquinho da sua história para gente? Osmar - Eu achei legal, essa oportunidade a gente não tem. Às vezes eu fico aflito na hora de contar história, porque primeiro que sou um historiador, segundo que eu gosto de história, terceiro que eu respeito muito a minha história. Acho a minha história, modéstia à parte, acho ela muito bonita, muito rica, tem, claro que eu resumi tudo para vocês, então é uma oportunidade que talvez eu não tivesse. Os meus amigos eles sempre falam: "Osmar, você precisa pôr a tua história no teu site.", mas eu acho meio metidez isso, para falar como falava o professor José Cremer "Sei lá, colocar história no site, eu não sei, estou pensando, eu gostaria sinceramente.", para contar com calma todas as coisas que aconteceram na minha vida. Eu não gostaria de ser julgado pelas pessoas: "Ele é metido, vai contar a história dele." Claro que tem médicos muito mais importantes que eu, que não contaram as suas historias, hoje a coisa tem um pouco mais de facilidade para contar e para escrever, então eu estou na dúvida, mas todos meus amigos: "Osmar, você precisa contar.", porque eu vivo contando histórias, no meu site tem umas histórias de futebol que eu vivi e eu vou renovando, sempre umas histórias mais cômicas, mais engraçadas. Então ter uma oportunidade de alguém te escutar, de você contar o modo que você pensa, o modo que as coisas aconteceram, essas oportunidades são poucas, as únicas e essa aqui foi uma delas. M

P - Muito obrigado pela participação.

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