Busca avançada



Criar

História

Os véus da memória

História de: Prazeres Gonçalves Costa
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Em seu relato, Dona Conceição conta sobre a história de seus pais, sua infância no bairro, sobre as brincadeiras de rua, o seu cotidiano, escola que frequentou, como foi trabalhar de copeira em uma casa da família Magalhães em Higienópolis, como conheceu e casou com o marido, como a cidade de São Paulo era antigamente, o que gostava de fazer no momento de lazer, a Revolta Paulista de 1924, sobre a Segunda Guerra Mundial e como foi se tornar mãe, avó e bisavó.

Tags

História completa

P/1 – Bom dia.

 

R – Bom dia.

 

P/1 – Vou fazer duas perguntinhas iniciais em relação ao seu nome, qual o seu nome completo, local e a data de nascimento.

 

R – Prazeres Gonçalves Costa. Local do nascimento? Santa Terezinha? Não, foi aqui na Santa Rita, ali no Canindé.

 

P/1 – Aqui em São Paulo?

 

R – Ali que eu nasci.

 

P/1 – Qual a data?

 

R – Que eu nasci? Tem chão, 1917.

 

P/1 – Que dia?

 

R – Mês de agosto.

 

P/1 – Que dia?

 

R – Dia 27 de agosto.

 

P/1 – Certo. Mas a senhora não gosta de ser chamada de Prazeres, né? Como a senhora gosta de ser chamada?

 

R – É um nome muito português.

 

P/1 – (risos) E a senhora, todo mundo conhece a senhora como?

 

R – Conceição.

 

P/1 – Dona Conceição. Então vamos chamar a senhora de dona Conceição.

 

R – Eu tenho um apelido ainda que é Nézinha. Todo mundo me conhece como Nézinha. A minha irmã mais velha pra falar nenezinho, falava Nézinha, ficou.

 

P/1 – Pegou o apelido?

 

R – Pegou.

 

P/1 – Certo. Dona Conceição, responde pra gente então, qual o nome dos seus pais?

 

R – João Alfredo Gonçalves, e a minha mãe era Maria Francisca Gonçalves.

 

P/1 – Eles eram brasileiros?

 

R – Não, portugueses.

 

P/1 – Portugueses da onde de Portugal?

 

R – O Negão falou ai, eu nem lembro mais, Gouveia. São três lugares, a (Fonte de Lafé?) Gouveia, tinha outro nome.

 

P/1 – Certo.

 

R – O correio parece que escrevia os três nomes na carta. O correio acho que faz tudo.

 

P/1 – Ah ta, a entrega. Me fala uma coisa, eles vieram pro Brasil quando?

 

R – 1900 e... sei lá, não lembro, treze, acho que 1913.

 

P/1 – Ah, então foi um pouco antes da senhora nascer?

 

P/2 – E eles vieram casados ou…?

 

R – Vieram casados.

 

P/2 – Eles se conheceram lá então.

 

P/1 – E o que o seu pai fazia?

 

R – Era negociante de cavalo, de carroça, de charrete. Eu andava de charrete que não era _______

 

P/1 – E a sua mãe?

 

R – Minha mãe era caseira, criava porco, criava galinha, tinha de monte.

 

P/1 – (risos) E eles vieram direto pra cidade de São Paulo quando eles sairam de Portugal?

 

R – Vieram, só que foram lá pro Santa Rita, lá pro Canindé. Nós moramos uns tempos lá.

 

P/1 - Certo. E me fala uma coisa, a senhora tem irmãos?

 

R – Só eu, já morreu tudo.

 

P/1 – Mas quantos irmãos a senhora tinha?

 

R – Cinco acho que era...

 

P/1 – Cinco irmãos.

 

R – Só tem eu.

 

P/1 – Só sobrou a senhora mesmo.

 

R – (risos) Só sobrou eu.

 

P/1 – Certo. E sobre a sua infância, o que a senhora lembra da sua infância? A senhora lembra do bairro que a senhora morava quando era criança?

 

R – Até sete anos foi ali no Canindé, depois dos sete anos foi lá em Santa Terezinha.

 

P/1 – E qual é a memória mais forte que a senhora tem, do Canindé ou de Santa Terezinha?

 

R – Eu tenho muita idéia das enchentes que dava, cobra, a ideia maior que eu tenho é essa. As enchentes, aqui em frente ao Tietê, batia água até no joelho da gente. Tinha até cobra.

 

P/1 – E era uma região que tinha bastante casas, eram chácaras, eram fazendas, eram o quê?

 

R – Era interior. Naquele tempo era interior.

 

P/1 – Era bem interiorizado. E de Santa Terezinha?

 

R – Santa Terezinha ta maravilhosa.

 

P/1 – E como era?

 

R – Era interior também, uma casa ou outra, iam fazendo devagar. Agora estão fazendo um prédio ali, quase encostado na minha casa, que...

 

P/2 – E a casa da senhora era grande quando a senhora era pequena?

 

R – Não, o meu pai construiu, já era melhor. Uma casa depois da minha, estão fazendo um prédio grande, de apartamentos. Falei pro Negão: “compra lá”. Ele foi comprar lá no... Pôs luz tudo na rua, calçada. Quem sabe até lá ele se resolve.

 

P/1 – E a senhora tinha muitas amizades quando era criança no bairro?

 

R – Ali tudo era amigo, naqueles tempos era parentada tudo, foi um atrás do outro.

 

P/2 – A família inteira morava por ali?

 

R – Era tudo, agora já morreu tudo. Tem alguns filhos dos outros, mas nem estão por lá. Já saíram tudo.

 

P/2 – E que tipo de brincadeiras a senhora fazia com as crianças?

 

R – Tinha um terreno vazio em frente a minha casa, ali eles pulavam, jogavam bola, pulavam, faziam tudo.

 

P/2 – E senhora tinha muita amiguinha?

 

R – Eu? Não, porque eu trabalhava.

 

P/2 – Desde pequenininha?

 

R – Não, depois de casada.

 

P/2 – Mas quando a senhora era pequena, sempre brincava?

 

R – Brincava. Naquele tempo podia brincar na rua, com os vizinhos ali. Meus filhos brincavam na rua até dez horas da noite. Terreno vazio. Eles pulavam pra todo lado. Hoje não, tem prédio pra todo lado.

 

P/1 – Me fala uma coisa. Na sua infância, quando a senhora era criança ainda, como que era o cotidiano na sua casa, como era o dia a dia? Seu pai era comerciante, negociante...

 

R – Eu ia pra escola, voltava, brincava ali, ficava nisso. A gente ia pra escola.

 

P/2 – Que escola que era?

 

R – Era grupo.

 

P/1 – Ali em Santa Terezinha mesmo?

 

R – É, era o grupo.

 

P/1 – A senhora ia andando?

 

R – Ah, dava pra ir.

 

P/1 – Era próximo?

 

R – Não dava nem um quilômetro de distância.

 

P/1 – E quais são as suas memórias com relação a esse tempo de escola?

 

R – Eu não esqueci nem a professora. Vem sempre ela na minha cabeça. Depois vou fazer o quê, né?

 

P/1 – A senhora lembra o nome da sua professora?

 

R – Ondina. Ela morava mais pra cidade.

 

P/2 – E ela marcou, a senhora lembra por que?

 

R – Não sei, dá um dó na gente, parece que era uma mãe, naquele tempo parece que era uma mãe pra gente.

 

P/1 – Convive-se muitas horas todo dia com uma pessoa.

 

R – Eram quatro horas, quatro horas e meia naquele tempo.

 

P/1 – E a senhora estudou até qual ano?

 

R – Até o quarto ano.

 

P/1 – E como era a escola? Era muito rígida, era uma escola mais…?

 

R – Eu acho que era boa, mas também o povo era outro, [diferente] do que é hoje, não se tinha medo de nada, estava tudo bem. Agora não, a minha filha tem medo, a irmã do Wilson tem medo de mandar a menina cem metros ali, já tem medo de encontrar alguma coisa. Antigamente não, brincava lá na rua até dez horas da noite. Eu deixava a porta aberta, da sala. Aí parava. Agora não, não pode fazer nada.

 

P/1 – Mudou muito, né?

 

R – Só estudava e via televisão. Só estudava e via televisão.

 

P/2 – E depois que a senhora saiu da escola, o que a senhora foi fazer?

 

R – Eu fui ser copeira dessa gente rica, dos Magalhães, né?

 

P/2 – Desde novinha, então, desde pequena?

 

R – Desde moça nova, solteira. Eu conheci meu marido lá. Era solteira ainda quando entrei lá. Fazia só copa.

 

P/2 – E onde que era?

 

R – Higienópolis.

 

P/2 – Que família que era?

 

R – Dos Magalhães. Tinha uns lá, andava lá também. Era o Barão de Duprat, era tudo amigo lá, sei lá. Eu fiquei lá uns três, quatro anos. Quando derrubaram aquela casa fizeram um quartel. O senhor sabe que quartel que formaram lá em Higienópolis? Eu esqueci a rua que era.

 

P/1 – Não conheço.

 

R – Não sei se era (Haddock Lobo?), ou a Higienópolis.

 

P/2 – Rua Maranhão?

 

R – A Maranhão é a de baixo, né? Tem a Higienópolis, a Maranhão é a de baixo. E aquela casa que eu fiquei derrubaram pra fazer o quartel. Era enorme a casa. E o Negão vai passar por lá, ele quer ter certeza de onde é. Que eu falo, né? Agora nós vamos passar por lá, ele quer ver onde que é. Não interessa nada, mas... É perto do Colégio Sion, não sei se conhecem o Colégio Sion. É pertinho. O Sion é assim, o quartel é pra cá.

 

P/1 – Dona Conceição, me responde uma coisa. A senhora disse que era copeira. No que se consiste uma atividade de uma copeira? O que a senhora fazia?

 

R – Cuida de sala e copa, café.

 

P/1 – A organização, é isso? Não tem nada a ver com cozinha, quarto, roupa, com nada, é só com copa, cozinha. Cozinha não, copa e sala.

 

P/1 – Então, quer dizer, por exemplo, a senhora limpava e cuidava dos cristais?

 

R – Era mais da mesa, era mais pra servir a mesa e servir café. Quer dizer, eu cuidava um pouco da limpeza da sala, mas de cozinha, essas coisas a gente não tinha nada a ver, com os quartos.

 

P/1 – E quantos empregados tinham na casa?

 

R – Acho que tinham uns quatro ou cinco. Tinha o jardineiro, tinha o motorista, tinha eu que era copeira, tinha a cozinheira, tinha a lavadeira.

 

P/1 – E isso foi na década de trinta aproximadamente?

 

R – Eu entrei acho que em 35. Sabe, já morreu quase todo mundo e eu estou aqui. Já morreram quase todos.

 

P/1 – A senhora é forte, olha como a senhora é forte.

 

R – As moças todas da minha idade lá, elas casaram quase velhas. Hoje já morreu quase tudo. Não podia ser assim, porque elas não trabalhavam, não se esforçavam nada, e morreu tudo cedo. Tinha o senhor Osvaldo, ele era cônsul de Costa Rica, foi o primeiro a morrer.

 

P/2 – E ele morava na casa?

 

R – Moravam lá.

 

P/2 – Onde que era a casa? Era em Higienópolis?

 

R – Higienópolis.

 

P/2 – Mas a senhora sabe a rua? Não lembra, né?

 

R – Agora passou, depois eu lembro.

 

P/1 – E como era a relação dos seus patrões com a senhora? Eles eram bons, eles eram…?

 

R – Eram, eram bons.

 

P/1 – Eram pessoas boas?

 

R – Não eram assim de ficar conversando. A gente tinha que fazer a obrigação da gente, receber, às vezes, ordem. Mas eram bons, não eram ruins não.

 

P/2 – E a senhora ia da sua casa em Santa Terezinha pra Higienópolis?

 

R – Não, ficava lá.

 

P/2 – Morava lá?

 

R – Morava lá. Tinha um quarto meu, só quarto meu. Morava lá.

 

P/2 – E como era morar ali?

 

R – Como era? Era na parte de baixo da casa, completo, banheiro, quarto.

 

P/1 – E a senhora gostava?

 

R – Eu gostava.

 

P/1 – E a senhora tinha folgas?

 

R – Tinha, era a cada quinze dias e no meio da semana. Eu pegava um dia da semana pra...

 

P/1 – E o que a senhora fazia no dia da sua folga?

 

R – Ia pra casa da minha mãe.

 

P/1 – Ia pra casa da sua mãe... E a senhora ia de que, de bonde?

 

R – Tinha bonde, em Higienópolis tinha um bonde, parecia o cara dura.

 

P/1 – Já que a senhora trabalhou em Higienópolis, viveu em Higienópolis, como era o bairro nessa época?

 

R – Já era rico.

 

P/1 – Era um bairro rico?

 

R – Era do cafezal lá, do açúcar, do café.

 

P/1 – Então tinham casas enormes?

 

R – Eram tudo casarões. Acho que está acabando tudo. Tudo casa grande.

 

P/1 – Sempre foi uma região bem rica, né?

 

R – Você queria saber o nome, acho que era Avenida Higienópolis.

 

P/1 – E responde outra coisa pra gente.

 

R – Eu arranjei lá por agência, o emprego. Eu arranjei por agência, eu não ia descobrir um emprego desses.

 

P/1 – É. Sozinha, né?

 

R – Sozinha.

 

P/2 – Já tinha então agências que...

 

R – Já.

 

P/1 – E como a senhora conseguiu entrar em contato com essa agência? Era algo comum, as pessoas iam procurar essas agências?

 

R – Iam. Naquele tempo era muito estrangeiro nas agências. Hoje não, está muito pra baixo. Era em agência.

 

P/1 – E onde ficava a agência?

 

R – Se eu me lembro era ali no Largo São Bento. Foi por ali que tinha uma agência. A gente esquece ______

 

P/1 – A senhora frequentava bastante também o centro da cidade?

 

R – É, o caminho era esse, né? Ia pra Praça do Correio tomar condução.

 

P/1 – E como era o centro? Era bem diferente de hoje em dia, não é?

 

R – Era bem simples. A Praça do Correio era bem simples.

 

P/1 – Não tinham muitas...

 

R – Não, era tudo bem simples. Não é hoje, essa loucura, esse monte de gente.

 

P/1 – São Paulo era um lugar bastante sossegado então?

 

P/2 – Dona Conceição, eu queria entender uma coisa. Pra senhora ir pra casa da sua mãe a Higienópolis a senhora precisava passar pelo centro, tinha que ir pro centro?

 

R – Eu tomava um ônibus que vinha ali pelo lado da Santa Casa, vinha pro Correio. Lá tinha ônibus nosso, de Santana.

 

P/1 – E quando a senhora era moça, que a senhora entrou, a senhora ainda era solteira na casa de Higienópolis?

 

R – Eu tinha dezessete anos.

 

P/1 – E a senhora era uma moça namoradeira?

 

R – O senhor acha?

 

P/1 – A senhora era ou não era?

 

R – Eu conheci meu marido na casa.

 

P/1 – Ah, foi na própria casa?

 

R – Foi na casa.

 

P/1 – Ele fazia o que na casa?

 

R – Ele era filho do jardineiro. Depois se formou.

 

P/2 – O seu marido era brasileiro?

 

R – Família?

 

P/2 – O seu marido era brasileiro?

 

R – Português.

 

P/1 – E como é que a senhora conheceu ele? Assim, eu sei que foi na casa, mas como é que se deu a aproximação entre vocês dois?

 

R – Ele subia pra tomar café ou pra jantar, porque ele dormia com o pai lá no serviço. Ele dormia com o pai. Daí umas olhadas pra lá, umas olhadas pra cá.

 

P/1 – E ele era mais velho que a senhora?

 

R – É, quase cinco anos. Se ele estivesse vivo agora ele estaria com 91. Ele era de     1913, eu sou de 1917.

 

P/1 – E quem foi que deu o primeiro passo?

 

R – Acho que foi ele.

 

P/1 – Foi ele?

 

R – Dava umas olhadas e ficava ali. Foi ele.

 

P/1 – E a senhora lembra a primeira vez que vocês saíram?

 

R – Não.

 

P/1 – Como é que foi? Ele te convidou pra, sei lá, tomar um suco, dar uma volta na praça?

 

R – Ele sempre foi direto pra minha casa, da minha mãe. Acho que foi direto.

 

P/1 – E aí vocês se casaram logo depois que se conheceram ou demorou um tempo?

 

R – Eu casei em 38 e eu entrei lá em 35.

 

P/1 – E foi logo que a senhora entrou que a senhora começou a namorar ele?

 

R – Ah, logo, logo. Eu ainda tinha um outro namorado, mas ficou pra trás.

 

P/2 – A senhora tinha outro namorado?

 

R – Tinha. Era português o danado.

 

P/1 – Também português.

 

R – Mas ficou pra trás.

 

P/2 – Mas da onde ele era? Ele era lá de Santa Terezinha?

 

R – O meu marido?

 

P/2 – O seu ex-namorado.

 

R – Ele era do Largo de Santo Antônio, aí da Bela Vista, era nascido ali, e eu era lá no Santa Terezinha. Era uma viagem. É isso aí.

 

P/1 – E aí o seu marido era filho do jardineiro. Mas ele fazia o que, nessa época?

 

R – Ele trabalhava na firma dos patrões, desses mesmo que eu trabalhei. Ele trabalhava lá, contador na firma dos patrões.

 

P/1 – Ah, entendi.

 

R – Ta tudo em casa.

 

P/1 – Então todo mundo tinha ligação com a família Magalhães, né?

 

R – Carlos Magalhães. O pai desse homem era o Carlos Leôncio de Magalhães, ele era o mais rico. Esse Carlos Magalhães quis comprar uma fazenda, naquele tempo por vinte mil cruzeiros, o pai não emprestou porque ele era louco. Mas ele comprou e ficou mais rico que o pai. Ele ficou mais rico que o pai dele, e o pai não emprestou o dinheiro.

 

P/1 – E essa casa era muito grande, a casa dos Magalhães?

 

R – Era grande.

 

P/1 – Tinham quantos cômodos?

 

R – Ah, tinha uma porção.

 

P/1 – Muitos quartos?

 

R – Embaixo, em cima, tinha muito quarto.

 

P/1 – Era um sobrado?

 

R – Foi derrubado pra fazer o quartel. Venderam e saiu um quartel. O Negão quer ir ver o quartel. Ele gosta das coisas também. Quer ir ver o quartel lá.

 

P/2 – Dona Conceição, deixa eu te perguntar uma coisa, voltando um pouquinho. A senhora tem alguma lembrança da revolução de 24?

 

R – Tenho, foi quando nós mudamos aqui do Santo Antônio pra lá. E as _____, outra coisa.

 

P/2 – Do Canindé pra Santa Terezinha?

 

R – É. Tinha uma filha que morava lá na carrocinha dos cachorros, lá na Ponte Pequena. E eu ficava lá, às vezes, uns dias, as paredes era tudo furada de bala da revolução. Tava cheio de furo, lá de Santana se ouvia um pouco. Acho que eu fiquei uns sete anos aí no Santa Rita. Depois eu fui lá pra Santa Terezinha e não saímos mais. Fundamos Santa Terezinha, fundamos, era português tudo. Iam chegando os parentes e fundaram a Santa Terezinha, era tudo parentada, e já foi quase tudo.

 

P/1 – E já que ela falou de revolução, a de 24 a senhora tinha sete anos, a senhora era relativamente pequena.

 

R – Mas eu lembro bem.

 

P/1 – Mas a de 1932 a senhora já tinha um pouco mais de idade né? De 32, a revolução de 32, a senhora também lembra de alguma coisa?

 

R – Muito pouco. Casei em 38, 39 deu a guerra, né? Deu trabalho, a gente não tinha pão, não tinha carne, açúcar...

 

P/1 – Então o Brasil também sofreu bastante __________

 

R – Açúcar o meu pai me arrumava em câmbio negro.

 

P/1 – Meu Deus.

 

R – Carne você ia buscar, vinha umas muxibas que a gente não comia. Ia buscar e não comia. Pão era uma pedra, ficava preto o pão. E durou...

 

P/1 – E era racionado, tinha um número “X” que você podia comprar.

 

R – Era tudo medido. Eu só tinha açúcar que o meu pai me arrumava em câmbio negro.

 

P/1 – E nisso a senhora já era casada?

 

R – Tinha que fazer mamadeira, tudo, o açúcar que eles davam não dava pra servir a família, não chegava a dar não, era grama. Ainda precisava madrugar pra pegar carne, madrugar pra pegar o pão, sabe? Saía quatro horas. Juntava duas, três e ia.

 

P/1 – Foi uma época de privações mesmo, né?

 

R – Foi. Aquele pão preto, duro.

 

P/1 – A senhora se casou um ano antes da guerra?

 

R – Eu casei em 38.

 

P/1 – Então foi um ano antes, né? E a senhora se lembra do dia do seu casamento?

 

R – Eu lembro.

 

P/1 – Então conta pra gente.

 

R – Mas não foi quase nada, era só a família ali mesmo.

 

P/1 – Onde a senhora se casou?

 

R – A gente fazia na casa mesmo, numa mesa assim.

 

P/1 – Mas a senhora se casou na igreja?

 

R – Casei.

 

P/1 – Qual igreja foi?

 

R – Santa Terezinha. A Igreja Santa Terezinha é bonita igual à Igreja da Maranhão. Parece que é a mesma, sabe? É muito bonita a igreja.

 

P/1 – E a senhora estava vestida de branco?

 

R – (Huuuu...)

 

P/1 – Como que era o seu vestido, a senhora lembra?

 

R – Lembro. Era...

 

P/1 – Um vestido longo?

 

R – Era. Tinha um rabinho, tinha um pouquinho de rabinho.

 

P/2 – Foi bastante gente?

 

R – Só a família. Não fazia muita festa. Quer dizer, fazia assim umas coisinhas, um bolo, uns doces. Meu pai encomendou lá numa padaria, vieram trazer e deu aquilo. Agora não, é um gasto tremendo.

 

P/1 – E aí a senhora se casou e continuou trabalhando na casa dos Magalhães?

 

R – Não, saí.

 

P/1 – Quando casou saiu?

 

R – Saí.

 

P/1 – Mas o seu esposo continuou?

 

R – Trabalhando na firma, na Rua da Quitanda.

 

P/1 – E aí vocês se mudaram. Vocês moravam na casa dos Magalhães, aí vocês se mudaram pra onde?

 

R – Pra casar eu aluguei uma casa de uma tia minha, é em frente da minha mãe. Ali eu morei três anos e eu comprei, três anos depois eu comprei a casa e estou nela até hoje.

 

P/1 – E a senhora, como que era o seu cotidiano de casada? A senhora continuou trabalhando?

 

R – Eu continuei trabalhando, mas em outro negócio. Eu cerzia véu numa fábrica de franceses. Trabalhava bastante e ganhava bem. Depois a francesa morreu e acabou. Mas eu trabalhei bastante tempo lá.

 

P/1 – E onde era isso?

 

R – Lá em Santa Terezinha mesmo.

 

P/1 – Lá perto.

 

R – Alfredo Pujol. Já ouviu falar na Alfredo Pujol? É uma rua quase principal. Eu trabalhava lá e ganhava regular. Era contrato. Se a gente fizesse tantos consertos era um preço. Tinha três, quatro prêmios. Às vezes eu atingia o mais.

 

P/1 – Nossa.

 

R – É, se não fazia de dia tinha que fazer de noite. Cerzia o filó mesmo, ficava perfeito.

 

P/1 – Como cerzia? Eu não estou entendendo.

 

R – Pregar as malhas do véu que rasga. A gente pega assim, você não percebe que foi. Emenda com nozinho e vem, vem, vem.

 

P/1 – E era véu pra...

 

R – Véu de noiva pra mosquiteiro. Ia muito véu pra divisa do Brasil pra fazer mosquiteiro. Diz que não tinha esgoto pro lado de lá. Então ia mais pro lado da divisa do Brasil. Eles levavam até a divisa e depois eles de lá pegavam. Ia de caminhão. Diz que tinha mosquito, não tinha esgoto.

 

P/1 – Até hoje ainda tem alguns.

 

R – Ainda tem, né?

 

P/1 – Mais perto da floresta tropical, onde tem muita umidade e calor.

 

R – Trabalhei bastante. Eu aposentei na fábrica, eu me aposentei pela fábrica.

 

P/1 – E a senhora se aposentou quando?

 

R – Ah, já tem tempo. Faltou dois anos que a fábrica faliu. Mas a minha filha, a mãe do Negão, tinha uma loja e eu acabei me aposentando pela loja. O pai dele tinha três lojas. Eu me aposentei pela loja.

 

P/1 – Ta. Agora só pra não perder muito a questão cronológica. Então a senhora se casou e aí a senhora teve filhos?

 

R – Tive quatro. Morreu a primeira, nasceu e morreu e fiquei com três.

 

P/1 – Três? Dois homens e uma mulher?

 

R – Duas mulheres e um homem. O meu filho é químico.

 

P/2 – Quais são os nomes deles?

 

R – Luis Antônio Gonçalves, ele é químico. Trabalhou numa fábrica em São Bernardo, anos e anos que ele trabalhou ali. Valeu bem.

 

P/1 – Então foi o Luis Antônio...

 

R – Vera Lúcia e a mãe do Negão, que é Neuza.

 

P/1 – Neuza? E é nessa ordem mesmo de idade?

 

R – Hã?

 

P/1 – O mais velho é o...

 

R – É o meu filho.

 

P/1 – O seu filho, e depois vem a Vera Lúcia e por último a Neuza?

 

R – Não, é a Neuza, o Luis Antônio e a Vera, e morreu a primeira. Eu caí um tombo lá e perdi a menina. Uma escadinha de dois degraus eu caí.

 

P/2 – Em casa?

 

R – É, o banheirinho naquele tempo era fora e eu escorreguei dois degraus. Mas eu bati assim no chão. Mas não nasceu logo não, levou quase um mês pra nascer.

 

P/1 – E como foi a sensação de ser mãe?

 

R – Ah, maravilhosa. Quem que não quer ser mãe, né?

 

P/1 – A senhora se sentia bem no papel de mãe?

 

R – Oh. Ainda sinto, ajudo até hoje.

 

P/2 – E era difícil então, porque a senhora cuidava dos seus filhos e também trabalhava, cerzia.

 

R – O marido me ajudava muito em casa também. Ele me dava uma mão boa. E faz, a gente pega a prática do serviço. Tinha peças finas de véu, que era demoradinho pra pegar aquilo tudo, mas pega.

 

P/2 – E a senhora fez curso de...

 

R – Sabe quando a máquina arrebenta o fio e dá defeito? É aquilo que a gente faz. No tear estoura as linhas. É aquele serviço que a gente faz. A gente pega o fio de lá e vem vindo.

 

P/1 – E a senhora aprendeu sozinha a costurar?

 

R – Não, já tinha umas conhecidas que me ensinaram.

 

P/1 – Mas a senhora não fez nenhum curso?

 

R – Não. Se precisasse eu acho que eles até ensinavam, mas eu tive quem me ensinou. Eu ganhava dinheiro, não era ruim não.

 

P/1 – Mas a senhora fez um curso de corte e costura, não?

 

R – Mas eu fiquei no filó mesmo. O véu, o filó, e foi. Depois faliu.

 

P/2 – Quando que faliu, a senhora lembra?

 

R – Eu nem sei. Não da pra... Eu me aposentei, eu não guardei a data. Mas eu ainda trabalhei bastante tempo casada. Tinha mais de dez anos, ainda trabalhei. Depois acabei aposentando pela loja do pai do Negão. Eles tinham três lojas, eles perderam e afundaram.

 

P/1 – A senhora quer um copo d’água?

 

R – Não. Eles afundaram. Não sei o que aconteceu lá, perdeu as lojas. Ta lutando lá. Com a idade não tem serviço. O outro filho dele está trabalhando pra uma, eu acho que é firma que faz festa de formatura, álbum, o irmão do Negão. O pai dele trabalha junto, vende álbum, vende fotografia pra sair a aposentadoria dele. Também ta enrolada, a do pai dele ta meio... É uma luta.

 

P/1 – Voltando um pouquinho, com o nascimento dos seus filhos o que mudou na sua vida, no seu cotidiano?

 

R – Não, não mudou nada não.

 

P/1 – Não mudou?

 

R – Não.

 

P/1 – As crianças ficavam como? A senhora trabalhava fora.

 

R – Não, em casa.

 

P/1 – Ah, em casa?

 

R – Em casa. Eles traziam em casa.

 

P/1 – Então as crianças não tinham problemas nesse sentido?

 

R – Não. Deitavam até em cima das peças de filó. Tinha mais de quarenta metros cada peça. Eles deitavam e rolavam até na peça. Era em casa. Por isso que dava tempo, senão não dava.

 

P/1 – E aí...

 

R – Aí tinha a fábrica Lorde junto, com filó, a Lorde das Capas, não sei se vocês chegaram a escutar. Tinha a Lorde das Capas, tudo no mesmo prédio.

 

P/2 – Lá em Santa Terezinha?

 

R – É, ali é meio Santana. Depois as Capas Lorde ficou até pouco tempo. Agora fizeram um prédio também, derrubaram e fizeram um prédio. Lá vai acabando tudo assim. Os antigos morrem, o pessoal compra, derrubam tudo.

 

P/1 – E faz um prédio gigantesco, né?

 

R – Tem prédio que não é vida.

 

P/1 – E em relação à vivência dos seus filhos, nesta época, em Santa Terezinha. A senhora disse que não tinha tanta criminalidade, que as crianças podiam ficar na rua, né?

 

R – Ladrão, o único que podia aparecer era de galinha ou de roupa no varal. Mas nunca teve nada de...

 

P/1 – Nada mais sério.

 

R – Não. Nunca teve crime, nada. Nunca teve nada. Nem agora. Já tem uns maconheiros por lá, mas por enquanto não é muito.

 

P/2 – Dona Conceição, na sua casa tinha terreno com bananeira, com galinha?

 

R – Galinha tinha de monte, minha mãe criava. E porco de monte. No terreno que agora é meu - eu fiquei com a casa - tinha um córrego. O meu pai fez chiqueiro em cima do córrego todo. Teve um ano que morreu cinquenta porcos, porque passa a doença de um pro outro. Doença de galinha e de porco, quando um fica doente passa e se não corre passa pra todos, e não salva. E estavam na água. Estava _____ com limpeza, que estava em cima o chiqueiro da água. Mas quando dá, galinha e, vai tudo embora de um dia pro outro. Eu fui criada pobre, mas com fartura. Por sinal a minha mãe ia fazer linguiça, alheira.

 

P/1 – Alheira?

 

R – É, minha mãe fazia alheira. Você é filho de português, não?

 

P/1 – Sou.

 

R – Alheira minha ____, punha num saco lá e ajudava ela. A linguiça, pendurava, enchia tudo. Agora não. As pernas de porco guardavam na banha, dava uma fritadinha e guardava na banha. Eu tinha fartura de carne, de ovo, de linguiça. Só o bacalhau, era o bacalhau que ganhava a corrida.

 

P/1 – Mas é engraçado que alheira é uma coisa tão comum entre as famílias portuguesas e aqui em São Paulo eu lembro que quando eu [estava] comento com algumas pessoas: “Ah, alheira”, as pessoas não conhecem, né?

 

R – As pessoas acham que é ruim.

 

P/1 – Não, não sabem do que se trata, não sabem o que necessariamente é.

 

R – Lá em Santana tem um mercado que vende as alheiras, sabe?

 

P/1 – Aqui na feira também.

 

R – Tucuruvi tem um mercado que vende.

 

P/1 – Dona Conceição, agora que a gente falou em comida, a sua mãe cozinhava muitos pratos típicos portugueses pra família?

 

R – É o que eu vejo o pessoal fazendo na televisão, fazer mais ou menos o que ela fazia, eu faço, mas não é nada demais a comida deles, tirando o bacalhau.

 

P/1 – Como que era essa... Porque tem muita diferença de tempero, tem mais tempero.

 

R – Mais azeite. Ela fazia uma coisa que às vezes eu faço, é cozinhar o bacalhau, temperar o caldo, tudo, corta o pão, põe na travessa, na tigela, e põe aquele bacalhau com caldo e tempero em cima daquele pão. Você não precisa de mais nada. Não precisa mais nada, só aquele pão lá.

 

P/1 – E a senhora, como filha de portugueses, esposa de português, me responde uma coisa, qual é o segredo pra tirar o sal do bacalhau, que até hoje eu não consegui descobrir.

 

R – Põe de molho.

 

P/1 – Deixa muitos dias de molho?

 

R – Não. Tem gente que exagera, dois, três dias. Aí fica uma palha, de um dia pro outro ta bom.

 

P/1 – Já é o suficiente?

 

R – De um dia pro outro está bom. Era bom que abaixasse o preço do bacalhau.

 

P/1 – Está cada vez mais caro, né?

 

P/2 – Dona Conceição, deixa eu perguntar uma coisa. A senhora, como mora há muito tempo nessa região de Santa Terezinha, lá em Santana, o que mudou no bairro de quando a senhora era pequena, depois quando a senhora casou? A senhora já sentiu diferença nessa época de casada, da guerra?

 

R – Eu prefiro morar em Santa Terezinha. Dava enchente ali naquele tempo, no Santa Rita, no Santo Antônio. Eu sou batizada no Santo Antônio do Pari, morava por ali. Mas eu não troco por Santa Terezinha não.

 

P/2 – Mas mudou muito o bairro? Já nos anos quarenta não tinha...

 

R – Eu fui com sete anos embora do Santo Antônio do Pari pra lá. Então também não... Lembro um pouco das enchentes, eu vi um soldado levando a mulher presa. Eu subi num caixote pra ver a mulher presa e o meu joelho enganchou no caixote e cortou assim, precisou até costurar aqui. Isso eu lembro, queria ver a mulher presa. Eu subi num caixote, depois eu caí da janela.

 

P/2 – Na enchente?

 

R – Não, o soldado estava levando uma mulher presa. Eu caí, cortei aqui. A cabeça do prego rasgou aqui assim, parece que até doeu agora aqui. Eu lembro essas coisas.

 

P/2 – Mas e de Santa Terezinha?

 

R – Santa Terezinha acho que não deixava por nada. Já não é tão conhecida como antes, mas é melhor. Agora está saindo muito prédio lá. Os velhos vão morrendo, passa tudo pra prédio. Os herdeiros desfazem de tudo. Eu não desfiz não. Eu fiquei com tudo que era da minha mãe.

 

P/1 – E os seus filhos? Aí eles foram crescendo...

 

R – Casaram.

 

P/1 – Cada um foi tomando um rumo, né? E como é que foi isso pra senhora?

 

R – A gente sempre gosta que casem, porque ajuda. Esse, o que fez química, o Toninho, comprou casa já, está arrumado lá. As minhas filhas também não casaram mal. As duas casaram mais ou menos bem.

 

P/2 – O que é casar bem?

 

R – Sei lá, não rica, mas ter pra viver, família, sei lá. Quem não tem uma casa, não tem nada, é duro. E eu já tinha a minha casa quando eu comprei a da minha mãe. Eu já tinha a minha casa, eu estou nela até hoje. E uma parte dessa herança da minha mãe, a mãe dele já fez uma casa num pedaço lá, uma casona bonita a mãe dele fez. E tem duas casas alugadas lá, embaixo e em cima. Agora a turma não liga muito, mas é bom ter uma liberdade de dinheiro. Não precisa ser rico não pra querer alguma coisa e comprar já é alguma coisa, não é verdade?

 

P/2 – É verdade.

 

P/1 – E aí, quando os seus filhos casaram ficou a senhora e o seu esposo lá na casa, sozinhos, é isso?

 

R – Ele morreu faz onze anos, vai fazer onze anos agora.

 

P/1 – E como era a relação da senhora com o seu esposo?

 

R – Ele era muito bom. É o tipo do Negão mesmo, é o tipo dele mesmo, de fazer as coisas, de ter, guardar. É o tipo dele mesmo, feição, tudo.

 

P/1 – E ele trabalhou até...

 

R – Ele já era aposentado há uns dez anos.

 

P/1 – Mas ele trabalhou até se aposentar na mesma firma dos Magalhães? Nossa.

 

R – Ficou lá até... Ele foi pra lá também com uns sete anos, quando ele veio de Portugal e ficou lá.

 

P/2 – Ele veio pequenininho?

 

R – Estava acostumado.

 

P/1 – E a senhora conhece Portugal?

 

R – Eu fui em 1994. O meu marido morreu em 93 e eu fui em 94.

 

P/1 – Foi pra conhecer?

 

R – Fui. Eu tenho uma tia lá, a gente foi.

 

P/1 – Então a senhora tem parentes em Portugal, a senhora sempre manteve contato?

 

R – De vez em quando escreve.

 

P/1 – E a senhora...

 

R – Eu tenho uma prima de Portugal que é de Luanda. Como é que chama? Da África. Eu tenho um primo africano, português. Saiu de Portugal e é africano, nasceu lá.

 

P/1 – E me fala uma coisa. A senhora gostou de Portugal?

 

R – Gostei, é muito bonito de vista, mas a gente não vê gente.

 

P/1 – Como assim?

 

R – É apagado de gente. Aquela serra, a gente não vê gente. Parece que todo mundo foge. Eu acho que só tem gente velha lá.

 

P/1 – Em que cidade que a senhora ficou?

 

R – Essa Gouveia aí.

 

P/1 – Ah, Gouveia. E a senhora trocaria São Paulo? A senhora trocaria sua Santa Terezinha por Portugal?

 

R – Não.

 

P/1 – Não trocaria?

 

R – Não. Sei lá, eu não vi gente. Tinha um bonde lá que ia pro porto. Eu tenho uma prima que em três quarteirões estava no porto. Pra nós aquele movimento de bonde não é nada.

 

P/1 – É bem diferente, né?

 

R – Nossa Senhora. Vai umas vinte, trinta pessoas num bonde. Não tem gente nova porque eles vão embora pra estudar fora. Eles não ficam lá não, eles vão embora pra estudar.

 

P/2 – Quanto tempo a senhora ficou lá em Portugal?

 

R – Eu fiquei acho que um mês.

 

P/2 – Só em Portugal?

 

R – Só. Eu fui em Lisboa, fui onde o meu marido nasceu, já esqueci o nome. Todos os lugares ali a gente foi. Coimbra, o meu marido era de Coimbra. Nós vimos a faculdade lá, um morro, aquela faculdade que falam muito. O meu filho subiu lá, eu não subi, era subida. Ele subiu lá pra ver, diz que é lindo, maravilhoso a faculdade. É um lugar que usa aquelas caponas, os estudantes usam aquelas caponas que encostam no chão. Aquilo é grã-fino.

 

P/1 – Aí a senhora teve... Os seus filhos tiveram filhos?

 

R – Aí tive a mãe do Negão primeiro, depois o meu filho e depois a Vera Lúcia.

 

P/1 – Certo. E aí eles tiveram filhos?

 

R – Ah, todos têm.

 

P/1 – Como foi pra senhora ser avó pela primeira vez?

 

R – É a mesma coisa que ser mãe.

 

P/1 – É a mesma coisa?

 

R – É a mesma coisa que ser mãe.

 

P/1 – Pensei que era diferente.

 

R – Que gosta da mesma coisa. Você vive tão bem que parece que tudo é uma coisa só. A gente vive bem mesmo, todos os filhos, mas não _____. Um ajuda o outro, são unidos. “Vem, vó, vamos”. Vida boa a avó tem. Muito não né, mas quebra o galho.

 

P/1 – E aí a senhora foi uma avó super protetora?

 

R – Eu fiz o que eu pude.

 

P/1 – A senhora protegia os seus netos?

 

R – E faço.

 

P/1 – Mas eles são grandes hoje?

 

R – Estão. Tem o irmão do Negão, ele está morando numa casa minha lá, e tem duas menininhas. Ele se meteu numa firma agora de festa de faculdade, de buffet. Está suando lá, ta suando. De vez em quando a avó também dá um jeitinho. É difícil, viu? Ele faz a festa das faculdades, das escolas, ele faz a festa. E vai indo, lutando. Luta, corre pra todo lado. É bem diferente do Negão aí, moreno. Não foi o senhor que viu ele aí?

 

P/1 – Vi, vi sim. Eu vi o...

 

R – O Eduardo, né?

 

P/1 – Na foto, né?

 

R – Não, o que veio me trazer aqui.

 

P/1 – Ah, não, não. Eu só vi...

 

R – Não foi o Negão que me trouxe, foi o irmão dele.

 

P/1 – E a senhora tem bisnetos também ou por enquanto está nos netos?

 

R – Oito.

 

P/1 – Oito bisnetos?

 

R – Oito. Cada neto tem uns dois. Eu tenho quatro netos, né? Não, quatro tem a mãe do Negão só. Depois a outra tem três e o meu filho tem três netos, tudo neto.

 

P/1 – Então a senhora já é bisavó?

 

R – Oito vezes.

 

P/1 – Avó duas vezes, né? Avó duas vezes.

 

R – Eu quero chegar a tataravô, mas vai ser um pouco difícil.

 

P/1 – Porque os seus bisnetos são novos?

 

R – O Negão casou, quis se formar, tudo, não casou logo. Depois ele foi pra Portugal, o danado, também. Ele já foi pra Portugal.

 

P/2 – Dona Conceição, eu queria voltar um pouquinho. Eu queria saber se a senhora e o seu marido tinham lazer, se vocês costumavam passear em algum lugar, ir ao cinema?

 

R – Não, o meu lazer era ir pra Praia Grande. Hoje eu tenho uma casa lá, mas naquele tempo... Tinha uma casa da firma desses Magalhães lá, a gente ia pra casa da firma.

 

P/2 – Lá em Praia Grande mesmo?

 

R – É em Mongaguá. Eu tenho uma casa lá agora. Agora não. Mas ninguém vai porque um vai pra cá, outro vai pra lá, nunca se juntam assim, né? Cada um arranja um lugar pra ir.

 

P/2 – E como era a Praia Grande antigamente?

 

R – Podia contar as casas. A minha é na entrada de Mongaguá, depois da Avenida São Paulo. Conhece por lá um pouco ou não?

 

P/2 – Hum, hum.

 

R – Então. A minha casa fica a um quilômetro ali da entrada de São Paulo.

 

P/2 – Como fazia pra ir lá? Ia de trem?

 

R – No começo era trem. Tinha um ônibus que fazia a praia, tudo quebrado. O ônibus arrastava. Hoje eles todos tem carro, a gente sempre da um jeito.

 

P/1 – E era perto quando ia de trem, ou era longe, em tempo?

 

R – Santos era na Ana Costa, é aquela estação de trem que vai pra praia. Tinha Ana Costa, tinha um trem que vai pra Mongaguá.

 

P/1 – E era uma hora de trem, ou mais?

 

R – Tinha que atravessar aquele braço de mar. Era a Ponte Pencil, passa assim. Você já chegou a passar lá?

 

P/2 – Hum, hum.

 

R – Tem só os trilhos em cima do braço de mar. A gente sempre rezava um pouquinho, mas...

 

P/2 – Tinha que acordar cedo pra pegar o trem pra ir pra lá?

 

R – Tinha. Pra chegar da casa da gente na Ana Costa tinha chão.

 

P/2 – E a senhora ia ao mar, gostava de mar?

 

R – No começo eu ia, depois não. A minha casa é bem na entrada, passa a Avenida São Paulo. É bem ali. Eu comprei um terreno, depois construí. Levou uns quatro, cinco anos pra construir, mas saiu. É duro, não é fácil não.

 

P/1 – E Dona Conceição, e hoje em dia? Fala um pouquinho do seu dia-a-dia pra gente.

 

R – Sei lá, eu moro perto deles todos, mora tudo... O Eduardo mora no mesmo quintal. A mãe do Negão mora a uns cinquenta metros dali também. Na mesma rua mora a outra filha. A gente está tudo ali na...

 

P/1 – Todo mundo perto?

 

R – Tudo perto. A gente se dá bem, não tem encrenca, não tem nada. Tem famílias que é um horror.

 

P/1 – E a senhora gosta de fazer o que, hoje em dia, pra se divertir? Assistir tv?

 

R – Só tv, não tinha nada.

 

P/1 – E sair, dar umas voltas?

 

R – Viajava pra Santos quando podia. Eu tenho um sítio lá perto de Jundiaí, o velho ia com os netos todos, ele ia com eles todos. Eu não ia, ele ia. Eles andavam às vezes dez quilômetros, não tinha condução naquele tempo, mas ficava contente porque ia. Os netos gostavam. Chegavam tarde da noite lá. Agora já tem condução.

 

P/2 – A senhora ainda tem esse sítio lá?

 

R – Tenho, 27 mil metros.

 

P/2 – Nossa. E a senhora planta alguma coisa?

 

R – Ah, de vez em quando, estão sempre pondo fogo, sempre pega fogo.

 

P/1 – A senhora não vai pra lá mais?

 

R – Vou, uma vez por mês pelo menos eu vou com o Negão. Com o Negão não, com o outro lá, o meu filho mesmo. Mas a gente vai sim. Tem que cuidar, tem caseiro lá, precisa cuidar. Agora vamos ver o que sai do sítio lá. Se eu morrer vai ter que partir aquilo lá.

 

P/1 – Mas ainda não está na hora de partilhar essas coisas.

 

R – Vai ser a nota, vai ser a...

 

P/1 – Ainda não está...

 

R – Vinte e sete mil metros é chão, né?

 

P/2 – Mas é bem grande.

 

R – É isso aí. Agora eu não sei. A gente morre, não sabe no que vai dar, né? A outra filha já tem a herança do marido lá. Quem não tem é... Até que a Neuza vai _____. A Neuza é a mulher do Negão. Mas não sei o que pode acontecer. Tem uma piscina muito boa. Tem uma piscina que eu mandei fazer, dá pra fazer uma casinha com o dinheiro de uma piscina, viu? Não é plástica não, é feita mesmo.

 

P/2 – Daquelas grandonas?

 

R – É. Já morreu dois animal lá nessa... O pessoal corta a cerca pro gado entrar pra pastar, e vai na piscina. Dois já morreram.

 

P/1 – Dois?

 

R – Cavalos.

 

P/1 – Ah, animal grande então que morreu lá?

 

R – A turma corta a cerca pro bicho pastar ou pra dar sossego pra eles, pra não estão procurando. Já morreu dois lá.

 

P/1 – Só pra retomar aquela questão do seu dia-a-dia de hoje, hoje em dia. A senhora está sempre muito próxima dos seus netos, dos seus bisnetos? Fazem almoços no final de semana, essas coisas?

 

R – Ah, de vez em quando tem, outro dia teve. Hoje vai ter ainda alguma coisa lá. Ainda vão fazer esfiha lá. O irmão do Negão, a menina dele é que faz anos, sobrinha do Negão, faz anos hoje. E a gente está lá. Não ajuda a fazer, a gente faz, né?

 

P/2 – Que boa recordação que a senhora tem da época quando a senhora estava novinha ainda, tinha acabado de se casar? A senhora tem alguma recordação?

 

R – A gente nem tinha tempo de pensar, a gente trabalhava. A gente trabalhava, viu? Não fazia onda não, trabalhava mesmo. É isso aí. Acabou a gravação?

 

P/1 – Não, ainda não, calma um pouquinho. Agora, Dona Conceição, responde uma coisa pra gente. Olhando pra trás, pra sua vida toda, se a senhora pudesse mudar alguma coisa a senhora mudaria? O que seria isso?

 

R – Eu acho que não.

 

P/1 – A senhora faria tudo igualzinho?

 

R – Eu acho que sim. Das economias que a gente fez, tudo, o que deu certo, né? Não voltava não.

 

P/1 – Então manteria as mesmas...

 

R – Hoje em dia está mais difícil pra ter as coisas. Hoje em dia acho que está mais difícil pra ter.

 

P/1 – Então, Dona Conceição, é isso. Muito obrigado pelo seu depoimento. A senhora tem uma história de vida muito interessante e muito obrigado de compartilhar isso com a gente aqui, ta bom?

 

R – É isso aí. Então vamos embora que eu ainda vou fazer uma festa hoje.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+