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História

Os vários cargos de Ana Maria

História de: Ana Maria Gabriel Paes de Andrade
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 07/11/2005

Sinopse

Ana Maria Gabriel Pais de Andrade nasceu na cidade de Cambé, no estado do Paraná. Dentro da Itaipu Binacional trabalhou em diversos setores, começando pela recepção e passando por cargos como o de recrutadora, assistente financeira. Compartilha as histórias de sua trajetória na empresa onde atualmente é Secretária da Diretoria Executiva. 

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História completa

P - Bom, então vamos começar esta entrevista. Vou pedir pra você falar de novo seu nome completo, o local e a data de nascimento.

R – Eu me chamo Ana Maria Gabriel Pais de Andrade. Nasci em Cambé, Londrina, que é do lado de Londrina e data do nascimento 10/10/56.

P – E nome dos seus pais?

R – É Antônio Gabriel Pais Filho e Aparecida (Violin?) Pais.

P – E o que que eles faziam? Qual a profissão do seu pai?

R – O meu pai era contador, aqueles contadores antigos, era da coletoria e a mãe dona de casa. E mãe de oito filhos. Com muitos filhos e muito trabalho.

P – E como é que era assim oito irmãos? Você era a única mulher?

R - A única mulher e com muito pouco espaço de tempo, de um para o outro, então era muito trabalho realmente que minha mãe tinha. Mas era bom, divertido. A fazenda é grande. Os italianos então é uma família muito alegre, muito boa.

P – E falando especificamente de Itaipu. Quando que você veio pra Foz do Iguaçu a primeira vez, quando que você ouviu falar a primeira vez da empresa, como é que foi isso?

R – Foi, o meu pai veio pra cá, pra coletoria de Foz em 1973. Aí eu estava acabando o segundo grau, fazendo também aquele curso de contabilidade antigo que tinha, né. Falar antigo _____________ de idade. E fui fazer um estágio na prefeitura e todo dia eu passava em frente ao escritório que estavam montando de Itaipu. Aí eu entrei, tentei arrumar um emprego, consegui. Com medo de fazer um teste de datilografia eu entrei como recepcionista e comecei a fazer ficha de inscrição, fazer recrutamento. Nós ficávamos na recepção, era um escritório muito grande. Era eu e outra menina. A outra menina tinha o cabelo muito longo, assim bem morena, ela tinha uma característica paraguaia e eu o meu cabelo era assim dessa forma. E coincidiu que na minha mesa sempre tinha a bandeira do Brasil e a dela a do Paraguai. Então eu trabalhava muito mais do que ela porque todo mundo chegava e achava que ela falava só espanhol. Aí eu comecei a fazer inscrição, depois fui fazer aplicação de testes em escolas, porque eram muitos candidatos. A gente não tinha espaço no escritório de duas salas. Não dava, então a gente tinha que monitorar o pavilhão de colégio pra fazer exame psicológico e pra fazer recrutamento de pessoal.

P – Deixa eu voltar um pouquinho numa coisa que eu achei interessante. Quando você passava em frente desse escritório de Itaipu, o que que ficava, o que as pessoas falavam que ia ser, que ia acontecer?

R – Não tinha noção do que era. Uma usina, não sabia a dimensão, o tamanho, a cidade era pequena, uma rejeição grande das pessoas que estavam vindo porque achavam que tudo ia se transformar em, não ia vingar o projeto, né, isso era verdade e que de repente Foz do Iguaçu ficaria com uma superpopulação sem emprego. Então teve assim uma grande fase de adaptação entre Foz e Itaipu que até hoje nós sofremos. Itaipu é uma coisa, Foz do Iguaçu é outra e a Itaipu agora investe muito em projetos de comunidade, na comunidade Foz exatamente pra ter esta integração.

P – E você, assim, qual era a sua expectativa? Você tava estudando ainda?

R - Eu não tinha muita noção. Entrei, fiz a inscrição. Eu menti na idade porque eu tinha 17 anos ainda ia fazer 18 15 dias depois, mas achei que eles não fossem me chamar. Me chamaram, eu fui, fiz o teste e aí quando eles viram que a data era 56 e ainda era antes do dia 10 de outubro de 74, resolveram esperar uns dias pra eu fazer 18 anos e daí fui admitida. E no Rio de Janeiro, porque tudo era feito no Rio.

P – Teve que ir pro Rio?

R - Não, os nossos papéis que iam, daí a gente entrava sempre nos primeiros dias do mês. Era ou dia primeiro ou dia 15.

P – Tá. E como recepcionista você continuou quanto tempo?

R – Já entrei na recepção pra fazendo recrutamento. Fiquei um ano e pouco nessa fase de ficar mais na frente ali, depois fui pra esse lado do recrutamento em si fazendo aqueles anúncios na rádio. Só tinha uma rádio na cidade.

P – Conta pra gente isso. O que era isso?

R – Era de fazer “Precisa-se de carpinteiro” ou, mais era de terraplenagem, pra fazer mesmo topografia do rio, porque tinha só o rio. Então a gente colocava isso que abrangia a cidade, a região toda, né, a rádio pegava toda a região. Algumas vezes eu esquecia, eu preenchia a vaga, eu esquecia de dizer que já estava preenchida. Aí a pessoa chegava e queria me matar. Tem todas estas histórias assim, bem folclóricas. Aí um guarda ia me levar pra casa uns três, quatro dias até a pessoa ir embora. (risos)

P – É mesmo? Você teve que ser escoltada? Tem uma outra assim engraçada?

R - Tem outra ótima que eu fui para o colégio pra aplicar teste para guarda de segurança, porque nós precisávamos de muita segurança. Então tinha um rapaz enorme assim, de uns dois metros e 20, uma coisa horrível, e ele, quando eu apliquei o teste, eu cronometrei, não deu um minuto ele me entregou. Aí eu achei estranho, né. Falei: “nossa, você sabe tudo” “eu entregava esse teste aí numa rural, no interior do Brasil e eu sei de cor o teste”. Aí tivemos que fazer outro teste.  Liguei pro Rio porque a psicóloga era do Rio. ____________________ a gente mandava pra lá pra fazer um laudo, alguma coisa. Aí ele não passou. Acabou não passando. E ele seria um adestrador de cachorro, sabe, ele estava vindo pra fazer este tipo de trabalho.

P – Ele era enorme?

 

R – Enorme. Uma pessoa assim desproporcional. Era só pra cachorro mesmo. (risos). 

P – E Ana como é que você passou pra área de secretaria, hein?

R - Aí tive uma fase boa porque quando eu saí da recepção, de treinamento, do recrutamento e seleção, eu fui pra Recursos Humanos pra montar a área de benefícios, que era fazer contato com os médicos, porque a gente não tinha convênio. Era o começo da usina. Então eu fazia contato com os médicos da cidade. Fiz uns formulários, adorava fazer formulários para o empregado ir lá, fazer uma consulta e assinar, aquela coisa toda. E aí tinha esse meu chefe que era do Recursos Humanos que era um mineiro.

P – Como que ele chamava?

R – Júlio de Melo Pereira. Nem sei se ainda ele tá vivo, mas ele era uma pessoa assim extremamente sistemática. E eu era muito jovem, eu não tinha ainda muita noção de hierarquia, de coisa de. E o povo então morria de medo dele. Então era umas histórias que eu tava contando agora ali fora que um dia eu fui pedir aumento de salário pra ele e ele me deu um dinheirinho pra eu tomar sorvete. Eu peguei o dinheiro, saí, fui a um supermercado do lado do escritório, tomei um sorvete sentadinha no meio fio, voltei e dei o troco pra ele. (risos). Ele nunca deu aumento de salário. (risos). Foi muito boa essa. Até hoje ele lembra. Quando eu encontrava com ele, ele lembrava. Que eu era a única que enfrentava. Não é que eu enfrentava. Eu não tinha muito a noção do perigo. Eu não tava nem aí.

P – Fica um relacionamento diferente, né? 

R – Diferente. É que aos poucos você vai amadurecendo. Era muito jovem ainda. Então eu não sabia, né. Quando eu _____ aí eu entrei em novembro de 1984. Quando foi em dezembro eu recebi o salário com aquele pedacinho de 13º porque era proporcional a um mês e pouco. Mas era ____ o salário de Foz do Iguaçu, era um salário enorme, menina. Dava pra comprar uma casa, sabe?

P – O que você fez? Você lembra?

R - _____com o salário em todas as butiques da cidade. Fiquei rica de uma hora pra outra. ___________ uma loteria lá em casa, meu irmão, todo mundo atrás de mim querendo dinheiro. (risos).

P – Coisa boa, né?

R – Foi muito bom. Interessante.

P - E vamos dizer assim. Como foi o desenvolvimento da sua carreira?

R - Aí eu fui, trabalhei no Recursos Humanos esse tempo. Aí saí do Recursos Humanos uns 6 anos depois, já em 80 e pouco. Fui para a financeira, trabalhar como representante do diretor financeiro. Na época era o Acir Teixeira que era de São Paulo. E o representante dele era o Sérgio Levi, que foi meu chefe oito anos mais ou menos. Tive uma afinidade muito grande com ele. A gente tinha muita comissão de negociação porque comprava-se. Era a fase de comprar tudo. Então a gente tinha assim aquele trabalho grande de comissão de negociação, licitação. Então trabalhamos bastante, mas muito mesmo. Aí eu tive o meu primeiro filho nessa fase da financeira. Então o Sérgio Levi saiu, foi pro Rotary, teve outras atividades. E ele saiu, eu fui trabalhar na diretoria geral com o Dr. (Urso?) Aguiar na auditoria. Daí fiquei mais uns seis anos na auditoria, veio o Ney Braga. O Ney Braga veio, _______ o (Costa?) Cavalcanti, que ficou 11 anos como diretor, né. E o (Costa?) Cavalcanti não tinha o gabinete montado em Foz. Era um itinerante, ele chegava, abria as salas. E o Ney Braga como era de Curitiba ele resolveu montar o gabinete em Foz do Iguaçu. Aí ele me convidou pra ir trabalhar com ele. Aí eu fui, trabalhei com o Ney Braga os seis anos que ele ficou. Depois trabalhei com o Fernando Xavier que foi diretor geral também. Depois veio o diretor, o Dr. Jorge _______, depois veio o Dr. _________ e por último o Dr._______.

P – Você trabalhou com todos eles?

R – Todos eles. Aí no segundo ano do Dr. _______ ele me convidou pra assumir a secretaria da diretoria executiva que é um cargo de superintendência, é um cargo maior e agora eu estou nesse cargo.

P – Quais são as suas responsabilidades?

R – Montar reunião da diretoria. Pegar todos os assuntos, todos os superintendentes ligam, querem colocar assuntos que não devem. Daí eu tenho que ver o que que é na normativa, fazer pauta, aí faço uma reunião prévia com os diretores e explico se pode, o que que pode, o que não pode, o que eles devem fazer. Aí mando para o Paraguai e passo para o espanhol porque tem que ser tal qual, nossos documentos têm que ser exatamente iguais.

P - Todos?

R – Todos. Todos. Então temos assim resolução da diretoria executiva idêntica, atas, 300 páginas que a gente lê, relê, tem que ser igualzinha. Daí eles assinam todos os documentos. Então o meu trabalho agora é esse.  Tô acumulando também o conselho do hospital. _________ que me colocou lá. Fim de novembro está acabando o nosso mandato, então tamos assim mais felizes já com a proximidade. (risos).

P – Me fala uma coisa. Você que tá desde o começo, desde esse recrutamento das pessoas, quando você chega aqui e vê tudo isso que foi feito, o que que você sente?

R – Dá uma emoção muito grande porque eu acompanhei todas essas fases. Tinha por exemplo a assinatura do contrato da Unicon, mulheres não entravam na usina.

P – Não entravam?

R – Não, não entravam. Mas nesse ato o diretor técnico resolveu liberar. Poderia entrar na usina pra vir nesse evento de assinatura do contrato do Unicon desde que fosse de saia abaixo do joelho, sabe, aquelas coisas assim. Então todo mundo queria, era louco pra vir pra usina pra ver como era (risos). Não tinha nada, era mato. Mas daí eu acompanhei a entrada da Unicon, depois o desvio do rio, né?

P – Você assistiu?

R – Assisti. Depois detonar a volta do leito do rio.

P – Aquela explosão?

R – Aquela explosão toda.

P - O que você sentiu?

R – Nossa, aquilo é uma coisa emocionante. Fantástico. Primeiro a gente vê mesmo o leito do rio seco, né. Porque o rio desviou pra um lado. A gente vê eles trabalhando ali. Depois a volta do rio pro seu leito e a construção da usina. É uma coisa fantástica. Realmente é muito emocionante.

P – Deve dar um... Eu lembro de ter visto pela televisão, né. Foi muito veiculado pela televisão.

R – É, foi. Eu acho que a Itaipu não tinha, as pessoas não tinham tanta noção e não davam tanta credibilidade. Elas achavam que a coisa não fosse funcionar ou que não seria tão importante para o Brasil. Como é a usina.

P – Qual que é a dimensão hoje, assim, do seu ponto de vista, né, a dimensão dessa importância de Itaipu?

R – Ah, é muito grande porque você vê que nós estamos fornecendo energia aí pra região mais importante do nosso ... E agora com essa energia comunitária, como eles chamam, vai pro Nordeste a energia, quer dizer, é uma coisa que supre São Paulo. São Paulo toda é Foz do Iguaçu, é Itaipu. Então é muito importante.

P – Não tem como, né. Ana, assim, infelizmente nosso tempo tá acabando.

R – Mas acho que eu falei bastante ne?

P – Deu pra dar, ficou faltando alguma coisa?

R – Não, acho que não.

P – Deixa eu te falar uma pergunta. O que que você acha desse projeto, né, da gente estar aqui resgatando de várias pessoas ou através do trabalhador, das pessoas que fizeram parte desta história. O que você achou de ter passado este tempo com a gente resgatando esta história, contando um pouco da sua experiência?

R – Primeiro eu achei importante de eu estar aqui, né. Fiquei feliz de os empregados terem me escolhido porque são 1500 empregados na Itaipu. Você ser votada, quer dizer, você tem uma certa consideração.  E eu acho isso extremamente importante porque cada empregado tem a sua fase, mas não sabe preservar as fotos, filmes, estas coisas. E você tendo uma forma de mostrar isto é muito importante. É uma alma da empresa, né. É uma forma de você resgatar a empresa de um lado mais humano, de uma forma mais de alma mesmo, de coisa boa.

P – Que bom. Você gostou de dar a entrevista? Falar de você.

R – Gostei.

P – Então tá bom. Obrigada.

R – Nada.

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