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História

Os trilhos da vida

História de: Marcos Antonio de Souza Reis
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 21/06/2016

Sinopse

Em seu relato, Marcos Antonio de Souza Reis, relembra seus tempos morando na Vila Ferroviária, com sua família e seu pai que era ferroviário, e posteriormente foi inspiração para que ele seguisse a mesma carreira. Recorda do seu período de trabalho na Rede, onde entrou como prestador de serviços, tornou-se contador e depois atuou na área da Segurança, como encarregado dos vigias. Conta também sobre sua aposentadoria, depois de trinta anos de trabalho e sua atuação ativa na Associação dos Ferroviários Aposentados do Nordeste (AFAN), como presidente por dois mandatos seguidos.

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História completa

P/2 – Senhor Marcos, bom dia!

 

R – Bom dia!

 

P/2 – Eu queria começar pedindo para o senhor falar o seu nome completo, o local e a data do seu nascimento.

 

R – Meu nome é Marcos Antonio de Souza Reis, nasci em Recife, no dia 30 de março de 1940.

 

P/2 – Qual é o nome dos seus pais?

 

R – Meu pai é Heitor Correia de Souza Reis e minha mãe é Edme de Almeida Reis, nascida aqui também em Recife, todos os dois.

 

P/2 – E qual era a atividade deles?

 

R – O meu pai era ferroviário, trabalhou 42 anos na Rede Ferroviária.

 

P/2 – E a sua mãe?

 

R – A minha mãe era do lar.

 

P/1 – E o que seu pai fazia na Rede Ferroviária?

 

R – Meu pai foi chefe do escritório da contadoria. Era o chefe geral, porque a Contadoria era dividida em cinco. Primeira sessão, segunda, terceira, quarta... São cinco sessões e ele era o chefe geral do escritório e tinha o chefe geral da Contadoria que era o Geraldo Santos.

 

P/1 – E o que é que a Contadoria fazia?

 

R – A parte contável de praticamente toda a Rede... Eu trabalhava na terceira sessão, que era por conta do governo. Na época, o governo pedia passagem, pedia aquele negócio... Tinha o correio também, que era dividido o preço do telegrama entre o correio e a Rede Ferroviária. A gente fazia isso tudinho lá...

 

P/1 – Isso o senhor, mas e o seu pai, o que é que ele fazia?

 

R – Meu pai chefiava o escritório, era o responsável.

 

P/1 – Para a gente entender, o que a Contadoria fazia? Tomava conta de todas as questões contáveis?

 

R – É, que chegavam pra eles...

 

P/1 – Em termos de compra?

 

R – Não, compras não, só recebimento, de bagagens, essas coisas todas...

 

P/2 – E o senhor conheceu os seus avós?

 

R – Meu avô foi ferroviário também, mas por pouco tempo, né? Depois, ele passou a ser Capitão do Exército (risos). Deixou a Rede, foi ser Capitão da Guarda Nacional. Na época, se comprava um título. Mas depois ele trabalhou em comércio, trabalhou na Borrione Construtora... Mas ele era respeitado como capitão, todo mundo chamava ele: “Capitão de Souza Reis” (risos).

 

P/1 – E o nome dele qual era?

 

R – (risos) Deixa eu me lembrar aqui que eu estou com a cabeça... Francisco Antero de Souza Reis.

 

P/1 – E era o pai do seu pai?

 

R – É, o pai do meu pai.

 

P/1 – E o que ele fazia na Rede Ferroviária?

 

R – Ele trabalhou também em escritório, por pouco tempo, depois ele deixou. Mas eu vim de uma classe ferroviária de muito tempo... (risos).

 

P/1 – E a esposa dele, qual era o nome dela?

 

R – Era Júlia de Souza Reis.

 

P/2 – E da parte da sua mãe?

 

R – Da parte da minha mãe eu não conheci meus avôs, né? Não conheci e não me lembro nem do nome deles.

 

P/2 – O senhor tem irmãos?

 

R – Tenho, só tenho um irmão. Meu irmão hoje é formado, está aposentado também, que ele foi farmacêutico bioquímico. Foi presidente da Fundação da Universidade Federal de Pernambuco (UEP), que é uma que auxiliava a UEP. Ele foi presidente dessa Fundação.

 

P/2 – Vamos falar um pouquinho da sua infância. O senhor nasceu aqui em Recife, como é que era a cidade de Recife? Onde que o senhor morou?

 

R – Eu morei na Vila dos Ferroviários fui para lá com um ano de vida. A Vila dos Ferroviários era praticamente composta por ferroviários. E a minha vida foi ali, jogar bola na rua; a rua era de areia, a gente jogava bola e tal... Diverti-me muito! Estudava na Escola José Mariano, onde eu fiz o preliminar. Depois, fui fazer o admissão para o ginásio no Colégio Porto Carreiro, terminei o colegial, o científico, lá. Depois fui fazer o vestibular para Farmácia e Bioquímica, que deixei no terceiro ano, para trabalhar na Rede.

 

P/1 – O senhor falou que morou na Vila Ferroviária, onde que era essa vila?

 

R – A Vila de Ferroviários ficava em Areias, perto da Estação de Edgard Werneck, perto das oficinas de Werneck, e eu sempre estava ali, ouvindo o som, quando chamava para um socorro, tocava lá o socorro, todo mundo: “Eita, tem trem virado, descarrilado e tal”. A gente já sabia de tudo isso.

 

P/1 – E como é que o senhor sabia, como é que era esse sinal?

 

R – O sinal era uma buzina bem alta. Buzina não, sirene, era uma sirene! Uma sirene bem alta e todo mundo já conhecia aquilo.

 

P/1 – Como é que era composta a Vila, o que é que tinha, eram casas? Quem morava nessa vila? Como é que eram as casas?

 

R – As casas eram conjugadas, são casas de vilas, conjugadas... Deixa-me ver... Eram: uma, duas, três... Eram cinco ruas de casas, de um lado e de outro. E praticamente era tudo de ferroviário...

 

P/1 – Mas os ferroviários que moravam lá, eram os ferroviários que trabalhavam nas oficinas de Werneck...?

 

R – Muitos trabalhavam em Werneck, outros trabalhavam nos escritórios...

 

P/1 – E o senhor morava lá porque o seu pai era ferroviário?

 

R – É, porque ele era ferroviário... Ele comprou a casa lá, conseguiu comprar.

 

P/1 – Então, quem morava na vila, podia adquirir a casa?

 

R – Adquiria a casa, com o tempo ia pagando e, no fim, era dele a casa...

 

P/1 – Eu queria que você falasse um pouco do cotidiano, como é que era viver nessa vila? O cotidiano na sua casa?

 

R – Olha, pela manhã saía para o grupo escolar, né? Já estudando, eu e meu irmão. Nós estudávamos juntos. Depois voltávamos, meu pai saía cedo para trabalhar, para pegar na Rede e minha mãe ficava no lar fazendo o almoço dele e o almoço nosso. E, quando nós chegávamos à tarde, nós éramos praticamente obrigados a varrer o quintal e a regar as plantas na frente da casa. Era muito bonito, cheio de hortênsia. Era muita hortênsia, aguava e pronto. Era assim a vida nossa... A brincadeira era na rua, soltando pipa, era jogando dominó ali e tal, aquelas coisas de brincadeira mesmo de criança, de garrafão, pega-pega e jogava também futebol.

 

P/1 – O que é que é garrafão?

 

R – Garrafão a gente faz feito uma garrafa e quem entrasse tinha que sair e se pisasse era linchado... Era muita lincha que recebia se errasse... A brincadeira era essa, a nossa...

 

P/1 – O senhor falou que seu pai ia para a Rede Ferroviária, como é que ele vinha trabalhar, ele trabalhava aqui em Recife?

 

R – Ele trabalhava em Recife, pegava o trem ali na Estação de Edgard Werneck e vinha até Recife, no trem. Eu também, depois que passei a estudar no Colégio Porto Carreiro, que ficava ali na Rua da Concórdia, em Recife, pegava também o trem, era o trem às sete e meia, lotado! Um trem muito lotado! Às vezes, deixavam uns vagões lá na Estação de Werneck, para quando o trem chegasse, pegava ele. E nós aproveitávamos e pegávamos o trem já mais vazio, mas íamos de trem, pra estudar.

 

P/1 – E vamos voltar um pouquinho, aquela escola que você estudou, era na vila?

 

R – Não, era distante! Era distante. A gente ia a pé.

 

P/1 – Onde ficava essa escola?

 

R – Essa ficava na Estância. Era praticamente na Estância. Nós íamos a pé, podia ir por dentro, devagarzinho, não tinha problema, era calmo, tranquilo, não era a violência que tem hoje, né?

 

P/2 – E como é que era esse caminho?

 

R – O caminho, a gente passava pelo riachozinho que tinha um negócio de madeira que a gente atravessava... Atravessava uma linha que saía das oficinas e que passava o trem do Cabo, nós atravessávamos e chegávamos lá na Escola José Mariano.

 

P/1 – Não era perigoso atravessar a linha do trem?

 

R – Não, era porque não era toda hora que tinha trem para o Cabo, era espaçado... Tinha um pela manhã, indo para Recife; meio-dia outro, voltando. Uma hora, uma e meia, duas horas voltando para Recife e, à noite, cinco horas, cinco e meia, ele ia para o Cabo...

 

P/1 – E esse trem era de passageiros...?

 

R – Trem de passageiro! Trem de passageiro, eram carros de madeira ainda, né? E a máquina ainda era de óleo cru.

 

P/1 – Não era óleo diesel?

 

R – Não, era óleo cru, saía aquela fumaça negra e tal...

 

P/1 – E como é que era essa escola onde o senhor estudava na Estância...?

 

R – Na Estância, a escola era pequena, não muito grande, mas que o governo dava alimentação, um lanche pela manhã, no intervalo às dez horas, era leite e pão com queijo. Era bom! Eu gostava muito, a professora muito boa e tal...

 

P/1 – Como é que era o nome da sua professora...?

 

R – Era... Ixe... Agora... (riso)

 

P/1 – Não tem problema se não lembrar não tem problema...

 

R – É, agora não estou me recordando... Mas era uma professora boa, muito distinta. Inclusive, lá em casa tinha um pé de manga que fazia uma manga rosa muito bonita e gostosa, ela gostava muito de manga. A gente dava de presente para ela e ela adorava a gente. Gostava muito de mim e de meu irmão.

 

P/1 – Essa classe era muito pequena, tinha muitos alunos ou não?

 

R – Tinha, tinha muitos alunos, uma média de uns 30, 40 alunos.

 

P/1 – E o senhor estudou lá até que ano?

 

R – Eu fiz o primário todo, que era primeira, segunda, terceira, quarta e quinta série. Na quinta série terminava e se fazia uma admissão, que era uma espécie de vestibular para ingressar no ginásio. Eu fiz esse admissão no Colégio Porto Carreiro, lá em Recife, na Rua da Concórdia. Iniciei o meu estudo de ginásio, que era até quarta série. E, à noite, eu fiz o científico, também lá no Porto Carreiro...

 

P/2 – Como foi para o senhor sair desse colégio, desse grupo escolar e ir estudar em Recife, indo de trem todo dia?

 

R – Foi um negócio de mudança. A gente ficou satisfeito, ficou alegre, porque mudou de situação, né?

 

P/1 – Na vila, o senhor falou que estava muito perto da Estação de Werneck, das oficinas, né? O senhor conseguia ver as oficinas, o senhor tinha permissão para entrar nas oficinas?

 

R – Não, dava para entrar, mas a gente nunca ia não. A gente sempre via, quando pegava o trem dava para ver as oficinas...

 

P/1 – E era uma oficina grande?

 

R – Grande, muito grande! Tinham muitos empregados, muitos funcionários...

 

P/1 – E ela fazia basicamente o quê? Naquela época, o senhor sabia o que ela fazia?

 

R – Mais ou menos. As máquinas eram revistadas, revistavam as máquinas. Era mais a parte de locomotiva nas oficinas e tinha a parte também do pessoal que socorria os trens, que ficavam ali já preparados para viajar a qualquer descarrilamento, qualquer coisa que houvesse.

 

P/1 – E nessa fase de criança, quem eram os amigos do senhor? Você se lembra deles?

 

R – Ah, me lembro, me lembro! O meu vizinho do lado direito, era um rapaz mais velho do que nós e o último deles que era quase da mesma idade, formou-se em medicina e foi médico da minha primeira filha, como ele era pediatra. O irmão dele, que era mais velho, foi deputado estadual, Manuel Gilberto Silveira de Holanda. Silo Tadeu Silveira de Holanda era o médico. O José Mauro era dono de uma propaganda de rádio, propaganda e tal, tinha, inclusive, na Estação Central, uma empresa de comunicação de rádio. Do lado direito era Rivaldo que era um filho único de um ferroviário amigo nosso, que também se formou e foi presidente do Conselho de Vestibular. Pronto, eram esses os nossos amigos, mais ou menos. E eu cheguei a me casar com a vizinha da frente, a Lúcia, também ferroviária. Eu me casei com ela, mas não deu certo, me separei, teve desquite, teve divórcio. Casei-me com outra agora, que é metroviária (risos). Desse meu primeiro casamento eu tive uma filha, e tenho duas netas. E, desse segundo casamento, eu tenho com três filhos, né? Um está formado, formou-se professor, passou no concurso do Estado e é professor de geografia e o segundo está terminando biologia e a menina de 16 anos está terminando o ensino médio para fazer vestibular.

 

P/1 – Mas vamos voltar um pouquinho para aquela época, como é que era? O senhor se lembra do tipo de comida que a sua mãe fazia em casa, se tinha alguma comida típica?

 

R – Tinha. A comida que eu gostava muito e ela fazia, eu me lembro muito ainda, era o cozido.

 

P/1 – E o que é o cozido?

 

R – Cozido é carne, com verdura, muitas verduras. Separava a verdura e a carne e daquele molho, daquele molho fazia o pirão... Pronto! Era maravilhoso, gostava muito! Na época da paixão de Cristo, ela fazia as comidas de coco, o quibebe que era feito com jerimum, que no sul é abóbora, né? Era o peixe de coco, era o feijão de coco, era assim a comida...

 

P/1 – Feijão de coco como é que é?

 

R – Feijão de coco, amassa o feijão e pega o leite de coco e vai fazendo até engrossar e ficar uma papa meio grossa assim, gostosa!

 

P/1 – Nessa vila ferroviária tinha muitas festas? Como é que eram as festas, você lembra?

 

R – Não, tinha poucas festas. A única festa que tinha era de um ferroviário que fazia festa para Santo Antônio e na casa dele tinha essa festa. No fim era muito foguetório, ele distribuía, chamava as pessoas para comer lá, lanchar... Era mais ou menos isso...

 

P/1 – E tinha forró, tinha quadrilha?

 

R – Não, não tinha!

 

P/1 – E o senhor se lembra de algumas festividades religiosas, tinha alguma coisa que o senhor ia, que era religiosa e era hábito da sua família?

 

R – Não, não tinha essa festividade não...

 

P/1 – E tinha alguma coisa de costume que a sua família fazia questão de preservar?

 

R – Não, o costume era preservar as hortênsias, né? Que ela gostava muito! E muita gente ia lá para comprar, inclusive a gente vendia ou dava, né? Ela gostava muito que a gente aguasse e era mais ou menos isso aí.

 

P/1 – Para finalizar essa fase da infância, antes da gente começar a viajar pelo trem para Recife, você tem alguma lembrança marcante dessa fase da sua infância, que foi muito significativo para o senhor para contar para a gente?

 

P/1 – Olha, um negócio marcante que me aconteceu, foi quando minha mãe adoeceu. Ela adoeceu, mas ela nos ensinava como preparar a comida, me chamava: “Olha, o feijão é feito assim, o arroz é assim, tal...” Quando ela adoeceu, nós ficamos obrigados a fazer a comida para quando meu pai fosse ele levasse já para... Porque, na época, eram dois expedientes. Antes era um expediente só, mas na época de dois expedientes, ele almoçava e ficava lá para o segundo expediente. Então, a gente fazia o almoço e ele levava, ia carregando o almoço e quem fazia éramos nós. E o que marcou foi isso.

 

P/1 – E ela ficou doente de quê?

 

R – Ela operou de apêndice e de coisa e ficou um bocado no hospital. A gente ajudando lá.

 

P/1 – Vamos agora para a fase do senhor já indo para Recife, o senhor falou que pegava o trem para ir para a escola e que esse trem era muito lotado e que a Rede Ferroviária depois começou a deixar uns carros...

 

R – Ela deixava uns vagões lá na estação de Werneck para ajudar, porque em Werneck era muita gente que pegava o trem, o trem já vinha lotado lá de Jaboatão e eles deixavam lá. Nós aproveitávamos e ficava muito melhor! 

 

P/1 – E quem pegava esses trens? Que tipo de pessoa pegava esse trem?

 

R – Olha, gente que trabalhava no comércio, pessoal mesmo da Rede Ferroviária, porque muita gente trabalhava em Recife, era praticamente isso.

 

P/1 – E o senhor lembra, como é que as pessoas andavam, se vestiam?

 

R – Camisa, calça... Tinham outros que iam de paletó, gravata... Muita gente era de paletó, gravata... E os jovens eram de camisa mesmo e calça comum....

 

P/1 – E tinham muitos estudantes também?

 

R – Tinham, tinham muitos estudantes.

 

P/1 – Como era a paisagem da região de Werneck para Recife?

 

R – Olha, é diferente da de hoje, o que nós víamos, de Werneck até Ipiranga, não tinha a estação que tem hoje no meio, porque tem Santa Luzia e tem Mangueira, no metrô, para depois chegar em Ipiranga. Mas era Werneck-Ipiranga. Era descampado, não tinha tanta casa, era bem descampado. De Ipiranga para Afogados, a estação passava por uma ponte de ferro muito bonita, bem grande, com o Rio Capibaribe passando... Na parte de cá, que se chamava Coque, eram casas pobres, muito pobres, e que começavam a jogar pedras no trem, a gente passava com as janelas todas abaixadas, para que não pegasse na gente... Mas muita gente era ferida.

 

P/1 – Mas por quê?

 

R – Ah, eles jogavam, né? Era molecagem, jogavam as pedras e jogavam outras coisas também lá no trem...

 

P/1 – E o Rio Capibaribe, como é que era nessa época?

 

R – O Rio Capibaribe era bem caudaloso, hoje está bem acabado, né? Porque muita gente começou a invadir, ali mesmo perto do Coque, tinha gente que fazia caritó, chamava caritó quando o rio enchia, os peixes entravam e eles  davam para criar peixe, faziam criação de peixes. Hoje acabou, já quase não tem mais peixe no rio, o rio está bem acabado (risos).

 

P/2 – E, nessa época em que o senhor começou a vir para Recife para estudar, o que é que o senhor fazia para se divertir?

 

R – Olha, eu jogava futebol. Eu só fazia isso, jogar futebol. Eu não ia muito para cidade para me divertir. Ficava mais por lá mesmo, lá em Areias. Ficava por ali, ia ao cinema à noite, tinha o cinema Guararapes e, à tarde, era a matinê que nós íamos, era isso que praticamente nós fazíamos...

 

P/2 – E como é que era essa escola de Recife?

 

R – E escola de Recife, o Colégio Porto Carreiro, era um colégio grande, muito grande, e, no primeiro ano, nós tínhamos vários professores: português, matemática, inglês, francês... Tinham vários professores. Era muito grande. Tinha muitos, muitos alunos, alguns filhos de ferroviários, outros não.

 

P/2 – E o senhor se lembra de algum professor que foi marcante nessa escola?

 

R – Não, tinha o diretor que era muito exigente, doutor Paulino de Andrade, era exigente demais! Qualquer coisinha ele suspendia o aluno... (riso).

 

P/2 – O senhor foi suspenso alguma vez?

 

R – Fui (risos). Fui suspenso uma vez porque estava na aula de português, jogaram uma bolinha de papel e o professor pensou que fosse eu, aí eu me revoltei e falei um negócio que não devia falar para ele, e ele: “Vai lá para fora!” E quando a gente saía de classe, era suspenso. Aí me viram e eu peguei dois dias de suspensão. Cheguei em casa e levei um carão muito grande, meu pai e minha mãe disseram: “Da próxima vez que você for suspenso, você vai levar umas lamaboradas”. Eu nunca apanhei, meu pai nunca deu na gente, quem dava umas palmadinhas era minha mãe que era mais... Mas meu pai nunca tocou na gente.

 

P/1 – Mas como é que era o bairro dessa escola, que ficava na Rua da Concórdia, é isso? Como é que era essa rua? Como era o entorno dessa escola?

 

R – A Rua da Concórdia fica mais no centro mesmo de Recife. No entorno, tem a Estação Central, nós vínhamos por trás, saltávamos do trem e vínhamos por trás, que tem um portão muito grande, tinham muitas casas lá... Nessa Rua de São João vinham umas três ou quatro casas que eram de ferroviários, que era do agente da estação, do subagente e de outras pessoas lá...

 

P/1 – Quer dizer que tinham casas de ferroviários perto da Estação Central?

 

R – Perto da Estação Central tinham...

 

P/1 – E tinha hotel, tinha comércio em volta...?

 

R – Tinha um comércio muito grande em volta.

 

P/1 – E comércio do que?

 

R – Variado. Variado. Tinha uma sacaria, na esquina dessa Rua de São João, que vendia sacos e essas coisas todas. Do outro lado, era um restaurante, um barzinho, né?

 

P/1 – O senhor se lembra o nome dele?

 

R – Bar do Seu Luiz. No centro, ali perto, tem a Estação Central, tinha uma praça que tinha um barzinho ali redondo, que, às vezes, os ferroviários iam lá tomar uma pingazinha e tal (riso). Era assim...

 

P/1 – E o colégio ficava lá perto?

 

R – É, ficava, onde hoje é a Casa da Cultura ficavam os presos, uma prisão, era uma detenção, na época.

 

P/1 – E como é que era, era cercado...?

 

R – Era cercado, fechado como coisa de eletricidade. Houve evasão, ladrões saiam de lá fugido, era uma confusão... De vez em quando, tinha tiroteio...

 

P/1 – Na época em que o senhor estudava?

 

R – Na época em que eu estudei, também.

 

P/1 – Nossa, e como é que era?

 

R – Ah, era uma correria, era muita correria... Os policiais atirando: “Aí, ei, pega!"

 

P/1 – E moravam muitas pessoas em volta ali perto no centro ou era mais comércio?

 

R – Não, tinha mais gente. Agora foi que expandiu mais o comércio, mas eram pessoas que moravam, mais residentes.

 

P/1 – E os imóveis, as casas, eram como que são hoje ou eram diferentes?

 

R – Praticamente igual ao de hoje. Alguns modificaram, construíram prédios... O Colégio Porto Carreiro está quase a mesma coisa, a frente dele é a mesma da minha época.

 

P/1 – E a cidade, como era? Era limpinha? Como era o entorno, mais limpo, mais arborizado?

 

R – Era. Era mais limpo... Hoje está mais degradado, está tudo pichado, sujo...

 

P/2 – O senhor nessa época da escola pensava em seguir alguma profissão?

 

R – Já, na minha cabeça era ser ferroviário como meu pai (risos). Meu pai sempre lutou comigo e com meu irmão para que nós estudássemos: “Ah, tem que estudar! Tem que estudar”. Meu irmão não quis trabalhar e eu queria trabalhar ter meu dinheiro. A gente recebia um abono de família que ele me dava, que eu nem me lembro quanto era, mas dava para muita coisa o abono de família, ele dava para mim e para o meu irmão e eu: “Não, eu quero mais dinheiro. Eu quero trabalhar!”. Mas passei no vestibular de farmácia, meu irmão já tinha entrado na faculdade, eu era meio relaxado no estudo e ele não. Ele estava no primeiro ano, quando eu ingressei ele já era segundo. A Rede começou a colocar gente, né? Aí eu: “Eu quero, eu quero!” Meu pai: “Não.” Mas Geraldo Santos, que era o chefe geral: “Ah, bota ele...” E colocou. O pagamento nosso, logo no início, era um G5, era um formulário G5, e a gente recebia por isso, não era efetivado ainda não...

 

P/1 – O senhor não era contratado segundo a Consolidação das Leis trabalhistas (CLT), o senhor era contratado?

 

R – Contratado assim, o G5 inclusive chamava a gente de golinha: “Os golinhas”.

 

P/1 – E por que golinha?

 

R – É por causa do “G”, G5 (risos). Aí, era golinha. A gente fazia muita prova... Todo mês tinha prova para você... E terminei sendo efetivado em 15 de março de 1963, era um expediente só e dava para conciliar com a faculdade. Eu ia para a faculdade de manhã, assistia aula, voltava e ficava à tarde fazendo o serviço, saía, ia para a outra aula e voltava. E assim eu fiz. Mas, depois na Rede Ferroviária, foram dois expedientes, daí não deu mais para conciliar. Eu já estava no terceiro ano quando eu deixei a faculdade para me entregar mesmo na Rede Ferroviária, né?

 

P/2 – Como é que você escolheu Farmácia e Bioquímica?

 

R – Por causa do meu irmão. Ele: “Rapaz, isso é um curso bom e tal...” E eu: “Vamos fazer! Que quando a gente se formar a gente monta um laboratório e tal”. Ele fez um laboratório lá de análise, mas depois eu desisti, não quis mais...

 

P/1 – E o senhor gostava do curso?

 

R – Gostava, gostava... Agora, eu me aperreava muito com química, química orgânica, inorgânica, era um trabalho sério! (riso)

 

P/1 – O senhor disse que ia de manhã para a faculdade e, à tarde, o senhor ia para o trabalho... Mas onde que o senhor trabalhava nessa época?

 

R – Na contadoria.

 

P/1 – Mas em que lugar?

 

R – No bairro do Rio Branco e a faculdade ficava na Rua Benfica, na Madalena, aqui pertinho...

 

P/1 – E como é que eram esses bairros, conta para a gente...

 

R – O bairro lá de Recife era um bairro boêmio, né? Era num bairro boêmio a Contadoria, juntinho tinha uma pensão de mulheres, do lado do escritório e tudo ali era barzinho, a noite era do mundo mesmo, né? E aqui na coisa já havia muita casa, já era bem povoada, a Madalena...

 

P/1 – Era um bairro residencial?

 

R – Era um bairro residencial. E tinha a faculdade aqui na Rua Benfica. A faculdade era aqui e depois passou a ser lá na Cidade Universitária.

 

P/1 – E como é que o senhor se deslocava de um lugar para outro?

 

R – Eu vinha de ônibus, pagava um ônibus e vinha. Eu já sabia o ônibus certo e vinha, assistia a aula...

 

P/1 – E o senhor aproveitava o bairro boêmio nessa época?

 

R – À noite? Eu fui muito boêmio! (risos) Ficava ali na rua tal, quando aparecia a gente...

 

P/1 – E o senhor bebia muito? E o que o senhor bebia?

 

R – Cerveja, bebia cerveja...

 

P/2 – E qual era a sua função na Contadoria?

 

R – Era escriturário. Inclusive, eu tenho um negócio interessante, quando eu entrei meu pai me disse: “Olha, você vai trabalhar aqui, na terceira sessão”. O chefe era Peixoto. “Você vai trabalhar, mas venha cá: você tem que fazer isso...” Era um mapa muito grande, muito grande, que eu tinha que preencher a parte da Rede e a parte dos correios. Eu tinha que dividir o preço, dividia e ia colocando. No fim, o mapa tinha que dar igual a soma. “Você tem que somar isso aqui de cabeça”. Aí, chegava para ele: “Está certo?” Ele olhava: “Não, está errado aqui, vai somar de novo”. E eu fazia isso, até um dia em que ele fazia assim... “Certo, está certo.” Eu fui fazendo isso e dizia: “Mas não tem máquina não para somar isso?”. “Não, vai ser de cabeça”. Tinha também outro serviço que eu fazia que eram pequenas petições de ambulantes que vinham. Eu tinha que dividir também em porcentagens, aí ele: “Não, você tem que fazer da cabeça aqui, fazer as porcentagens aqui e tal: tantos por cento para tal e de cabeça”. Eu digo: “Está certo.” Eu fui fazendo, fui aprendendo... Um belo dia, ele: “Tem aqui uma máquina para você somar.” Eu digo: “E por que você não me deu antes?” “Para você aprender o serviço! Tem aqui também essa tabela já pronta para você ir só...” Então, ele me ensinou assim a fazer esse serviço...

 

P/1 – Então, quer dizer que o seu pai era chefe do senhor também?

 

R – É, era chefe geral...

 

P/1 – Deixa eu perguntar uma coisa, o correio contratava o serviço da Rede para levar as mercadorias, era isso?

 

R – Não, o correio fazia telegrama. Era telegrama que tinha que passar pelas estações, né? Então, quando ia ao correio, o correio levava nas estações para poder passar para, vamos dizer: Salgueiro. Tinha que ser pela linha telegráfica da Rede. E nesse caso se dividia...

 

P/1 – Ah, então, se eu, por exemplo, queria passar um telegrama para Salgueiro, eu pagava e uma parte era...

 

R – O correio mandava a parte que foi feita lá e dividia, pagava o correio e a Rede ficava com uma parte.

 

P/1 – E o senhor lembra qual era a porcentagem?

 

R – Era meio a meio, 50% para cada.

 

P/2 – E a outra parte do seu serviço, dos ambulantes, como é que era?

 

R – Dos ambulantes, essa era para a Rede, você agora me pegou, eu não lembro para quem era, mas era da Rede.

 

P/1 – Mas o que é que eram os ambulantes, eu não entendi direito...

 

R – Despacho, pequenos despachos. O cara ia, despachava no vagão uma bagagem, era isso, basicamente.

 

P/1 – Por exemplo, se eu tivesse comprado um quilo de rapadura e quisesse mandar para um amigo meu lá em Caruaru, eu pagava...

 

R – Pagava e despachava e o pequeno ambulante era muita coisa, né? Digamos, ele ia fazer uma feira, daí, ele despachava aquilo para poder chegar na feira e vender lá.

 

P/1 – Eram pequenos comerciantes.

 

R – Pequenos comerciantes. Pequenas encomendas.

 

P/1 – Depois desse serviço, o que o senhor foi fazer?

 

R – O que eu fui fazer desse serviço? Eu fui transferido... O Geraldo Santos me disse: “Marco...” Isso já foi depois da Revolução, foi em 1964, 1965, ele disse, o chefe geral: “Marco, você quer melhorar de situação?”. Eu digo: “Quem não quer?” “Sabe, porque o tenente Paulo Dominoni, me chamou e pediu para que eu mostrasse um rapaz que pudesse trabalhar lá, na segurança da Rede. Você quer ir?”. Eu digo: “Quero.” “Porque, futuramente, vai ter uma chefiazinha de sessão para você, você vai ganhar um pouco mais”. Eu digo: “Claro!”. E eu agradeço muito ao Geraldo Santos, que foi uma pessoa muito boa para mim. Ele falou com o tenente e eu fui transferido para o Departamento de Segurança da Rede, trabalhando no escritório também. Ele era tenente do Exército, que, naquela época, os tenentes, da Revolução, foram para lá, e eu trabalhei 25 anos com ele: trabalhei cinco anos na Contadoria e 25 anos na Segurança da Rede.

 

P/1 – Esse senhor Geraldo era o superintendente da Rede Ferroviária?

 

R – Geraldo era o chefe da Contadoria Geral.

 

P/1 – Antes era o seu pai que tinha esse cargo?

 

R – Não, era o seguinte: tinha um chefe geral que era o chefe maior; depois vinha o chefe de escritório, que era o meu pai; e, depois, vinham os chefes de sessões, né?

 

P/1 – Esse senhor Geraldo é que fez a proposta para...

 

R – Fez a proposta para eu ir para segurança.

 

P/1 – O senhor falou da Revolução de 1964, o que é que o senhor se lembra da Revolução?

 

R – Eu lembro que quando eu cheguei na Rede para trabalhar, estava fechado. Eu dizia: “O que foi que houve?” “Não, pois teve a Revolução, vamos embora, não pode mais ninguém trabalhar aí”. Eu lembro que eu saí, vim a pé, cheguei à pracinha do Diário e estava o Exército lá, já estava o Exército, eu me lembro disso: o Exército, já muito soldado ali.

 

P/1 – E, no dia anterior, o senhor não sabia de nada, não aconteceu nada?

 

R – Não, não... Só quando a gente chegou. Não houve mais trabalho, não houve mais nada, depois foi que voltou ao normal...

 

P/1 – E quanto tempo demorou pra voltar ao normal?

 

R – Hummm... Parece que foi numa quinta-feira e, na segunda-feira, já estava normalizado, então começou a trabalhar...

 

P/1 – O que se comentava? Você chegou à praça do Diário, o que se falava?

 

R – Se falava para ter cuidado: “Rapaz, tem cuidado, vamos embora para casa, porque pode ter bala, pode ter coisa...”

 

P/1 – Mas o senhor não sabia o que estava acontecendo, não ficou claro o que estava acontecendo?

 

R – Não, só quando eu cheguei em casa foi que eu tomei pé da situação...

 

P/1 – E como é que o senhor ficou sabendo? Através de rádio?

 

R – Através de rádio, né? O rádio falando e tal...

 

P/1 – O que é que o rádio falava?

 

R – Da tomada de poder, né? Tal e tal... Foi feito isso, a invasão, o Exército tomou e tal... Daí, eu fui tomando ciência do fato.

 

P/1 – Quando o senhor foi transferido para Segurança, qual que era sua função, o que o senhor tinha que fazer?

 

R – Minha função era no escritório, eu teria que receber os documentos, passar para ele, né? Alguma vez, despachar. Dava resposta já, levava para ele que podia dar despacho... Quando viesse uma pergunta, eu podia dar despacho e fazer a folha de presença dos agentes de segurança. Eu era o encarregado de fazer a folha de pagamento deles. Fazia a folha e enviava para o Departamento de folhas, para eles colarem e fazerem o pagamento deles.

 

P/2 – O senhor estava contando para a gente o que era o seu trabalho na segurança, quem eram esses agentes da segurança?

 

R – Eram os policiais que faziam a segurança nos trens de passageiros, nos trens de carga. Quando houvesse um descarrilamento, eles estariam ali tomando conta do que houvesse. Vamos dizer, o trem de açúcar, por exemplo, eles teriam que ir acompanhando esse trem de açúcar para que não houvesse roubo. Eles acompanhavam o trajeto todo até aqui em Recife, que era o Terminal Açucareiro. Eles vinham da usina e até chegar aqui, eles eram responsáveis por isso. Quando houvesse um descarrilamento de um trem de açúcar, eles tinham obrigação de ficar ali tomando conta, passavam às vezes semanas, às vezes, trocava, ia outra equipe, eram os seguranças... Nos trens, era para que não houvesse roubo dentro, para os caras não colocarem os pés no banco para não sujar: “Por favor tire o pé”. Era assim, e nas estações também... Hoje é o policial ferroviário, né?

 

P/1 – A estrutura de segurança, da área, era: dentro dos trens, dentro das estações. E das oficinas, também havia?

 

R – Quando era chamado. Se, por qualquer coisa, era chamado, eles iam também. Se houvesse alguma coisa, quando houvesse um roubo, se houvesse alguma coisa, eles iam lá para investigar...

 

P/1 – Então, além da questão preventiva, eles faziam investigação também?

 

R – Faziam investigação também...

 

P/1 – E isso era da sua responsabilidade também?

 

R – Não, a minha não. A minha era de escritório, quem era responsável, tinham os tenentes, eram quatro: Tenente Dominoni, Tenente Abidoral, Tenente Cristovão e o Tenente Lucena. Cada um tinha uma função: o Tenente Dominoni, era o chefe do departamento; o Tenente Abidoral, era o chefe do policiamento; e, os outros dois, eram chefes de grupo para ver alguma coisa que houvesse, eles estavam lá à disposição.

 

P/1 – E onde havia mais problema? Era nos carros ou nos vagões que carregavam mercadoria?

 

R – Nos trens. Era nos trens de carga, principalmente nos trens de açúcar, porque o trem ia mais devagar e muita gente subia para poder... Era esse problema mais concreto que havia.

 

P/1 – O senhor se lembra de algum caso que teve algum roubo muito sério? E você lembra de que trecho que foi, que linha que foi?

 

R – Olhe, não... Assim, houve um descarrilamento na Linha Tronco Sul, parece que entre Palmares e Catende, ficou muito saco de açúcar, pilhado e tal, mas o policiamento ficou lá tomando conta, porque se não a turma ia lá roubar, foi esse o caso que eu me lembro mais assim...

 

P/1 – Quando acontecia uma coisa assim, como é que as pessoas comiam, como é que elas dormiam, onde elas dormiam, tinha uma...

 

R – Eles recebiam uma diária... Agora, o lugar que não tivesse comida, sempre ficavam dois ou três que eram escalados, um saía para procurar alimentação para trazer. Quando o vagão, o trem de socorro ia, já se pedia que levasse alimentação para eles, aí eles se alimentavam com o pessoal do socorro.

 

P/1 – Tinha vagão dormitório também?

 

R – Tinha vagão dormitório também, se demorasse muito para conseguir subir o trem para linha, né?

 

P/2 – E como é que esses seguranças viajavam nos trens de carga?

 

R – Era no último vagão que era um vagão que tinha bancos ou, então, em cima do trem. Tinham que viajar em cima do trem, para ver alguma coisa que houvesse... E nas estações, rodeavam o trem para ver o que estava acontecendo...

 

P/1 – Nas estações, a segurança era feita para evitar a baderna, evitar roubo, o que era?

 

R – É, para evitar mais baderna, né? Sempre tinha um ou o agente da estação chamava e solicitava para que fosse um agente de segurança para lá. Na Estação Central sempre tinha dois ali, indo para lá e para cá, andando para ver...

 

P/2 – E qual era a estação que mais requisitava?

 

R – Coqueiral, Coqueiral que era a estação mais... Tinha feira, tinha essas coisas todinhas... Então, tinha mais gente, era mais requisitada...

 

P/1 – Mas o que tinha feira em Coqueiral? Era feira de alimentos?

 

R – Feira de alimentos... Verduras, frutas, aquela... Farinha, feijão...

 

P/1 – O senhor costumava viajar para resolver algum problema da área de segurança?

 

R – Não, eu não. Eu era mais interno. Eu viajei só uma vez, porque o tenente não pode ir e me escalou, disse que eu fosse para Natal, quando a gente foi buscar a pasta individual do pessoal de Natal. Então, eu fui numa comissão, como representante da segurança. Na época, não era agente de segurança ainda. Um soldado de polícia foi comigo e mais duas pessoas da Rede que eram do Direto e Deveres, onde tinha a parte de pessoal, né? Nós fomos para Natal, eu passei uma semana lá fazendo levantamento das pastas individuais do pessoal para trazer para a Recife.

 

P/1 – E o que era essa pasta individual?

 

R – Pasta individual era a vida todinha do pessoal que trabalhava, como se ele tivesse uma licença. Todo apontamento estava ali, naquela pasta individual, ali estava a vida do funcionário.

 

P/2 – E como é que foi essa viagem?

 

R – A viagem foi de trem, num trem de carreira, porque era de Recife para Natal. Nós fomos e voltamos num trem também de passageiros.

 

P/1 – E o senhor já conhecia Natal?

 

R – Não, eu comecei a conhecer Natal lá.

 

P/1 – E como é que foi essa viagem, conta para a gente? Quanto tempo ela durou? Como é que era a paisagem? Descreve um pouquinho para gente...

 

R - A paisagem era mais de floresta, a gente via muita floresta, muitas árvores, muita coisa... Não tinham muitas casas não, só nas cidades, quando chegava, cidade de interior, se via mais, mas no caminho mesmo era pouco...

 

P/1 – E tinha algum tipo de plantação especial, não?

 

R – Não. Na parte que tinha coisa de caju, era cajueiro... Tem muito cajueiro na parte entre Natal e Paraíba, João Pessoa, tem a parte lá que era muito cajueiro.

 

P/1 – E tinha cana também nesse caminho?

 

R – Também tinha muita cana, na parte das usinas. A gente via muita cana, muita plantação de cana.

 

P/1 – O trem quando ia de Recife até Natal ia parando em todas as estações?

 

R – Parava nas estações... Agora não me pergunte o nome das estações, que eu não me lembro! (risos).

 

P/1 – Mas tem alguma que o marcou, que o senhor achou mais bonita?

 

R – Uma que me marcou foi a de Itabaiana que era calorenta! Muito calor! E a água lá era salobra, meio salgada... Vixe... Calor!

 

P/1 – Como é que o senhor se alimentou? O senhor se alimentava no trem?

 

R – Tinha um restaurante, restaurante...

 

P/1 – E como é que era esse trem restaurante?

 

R – Trem restaurante era um vagão onde tinha mesas e cadeiras, uma de frente para a outra, umas sete ou oito mesas, tinha a cozinha, né? E a gente pedia... Eles já tinham preparado lá o menu, né? Era carne, era arroz e tal... E a gente pedia.

 

P/1 – Era um prato único ou tinha opções?

 

R – Tinham opções, tinham opções... Tinha ovo: “Dá-me um ovo com macarrão!” Aí vinha... “Refrigerante!”

 

P/1 – Nas estações, o senhor descia ou não?

 

R – Para descansar um pouco, para espichar as pernas, para conversar com alguém... (risos)

 

P/1 – Quanto tempo o trem ficava parado nas estações, o senhor lembra mais ou menos?

 

R – Uns três minutos ou quatro minutos...

 

P/2 – E como esse trem era recebido nas estações?

 

R – Ai, era muito vendedor de água: “Ah, tem água aqui, tem cocada!”. Eram muitas coisas que eles vendiam nas estações...

 

P/1 – E o chefe das estações esperava o trem chegar?

 

R – Eles esperavam o trem chegar e dava a licença para o condutor, que era o chefe do trem. Pronto, dava e ele partia.

 

P/1 – E tinha uniforme? Como é que era o uniforme deles?

 

R – O uniforme se eu não me engano era cáqui. Paletó, calça cáqui, gravata, era assim. E o pessoal, depois começou a relaxar e já vinha com outros ternos e tal...

 

P/1 – Os seguranças também tinham uniformes?

 

R – Tinham uniformes: era calça cinza, camisa e o quepe.

 

P/1 – Os seguranças andavam armados?

 

R – Armados. Com revólver e cassetetes.

 

P/1 – Esses seguranças faziam parte da polícia ou não?

 

R – Não. Eram da Rede. Depois, foi feito um concurso, onde foram selecionados, vários foram recebidos que fizeram Academia de Polícia Civil (Acadepol), eles têm academia de polícia para conhecer como é o policial. Daí em diante, eles tomaram conta da...

 

P/1 – Ah, então eles tinham uma formação policial?

 

R – Tinham uma formação policial.

 

P/1 – E isso era dado em parceria da Rede com a Academia de Polícia?

 

R – É, Academia de Polícia Civil.

 

P/1 – Vamos voltar para essa viagem, tem alguma coisa que marcou muito o senhor nessa viagem até Natal?

 

R – Não, assim que me marcasse, marcasse... Só a viagem mesmo, só aquela vontade de viajar, de conhecer um lado outro da ferrovia.

 

P/1 – Quem ia nesses trens? Nesse trem de Recife a Natal? Você lembra das pessoas como é que elas eram? Tinha muito comerciante?

 

R – É, tinha muito comerciante. Tinha, às vezes, passeio mesmo, a pessoa ia passear, conhecer outras cidades, ia visitar familiares... Era assim.

 

P/2 – O trem estava cheio?

 

R – É, estava praticamente cheio. Deixa eu ver se eu me lembro... Tinha dois vagões de primeira, mais caro, né? O restaurante e dois vagões de segunda, que era mais barato, que era o pessoal...

 

P/1 – Qual era a diferença de primeira e segunda classe?

 

R – A primeira classe era cadeira estofadazinha e tal, de palhinha, e o outro era um banco duro, o da segunda... (risos).

 

P/1 – E o senhor viajou de primeira ou de segunda?

 

R – De primeira, que eu tinha que viajar de primeira! (risos).

 

P/1 – E o senhor falou que, por exemplo, nas oficinas, às vezes, eles solicitavam a segurança, que tipo de problema havia nas oficinas?

 

R – Às vezes, pediam para que, à noite, ficasse alguém lá, tomando conta, vigiando...

 

P/1 – Mas não era norma ter...

 

R – Não, uma vez ou outra eles solicitavam, uma vez ou outra...

 

P/1 – O senhor sabia por que, nessas ocasiões, eles solicitavam?

 

R – Por falta de algum material que eles sentiam para pegar, né? Para ver...

 

P/1 – Era comum ter armazéns nas estações que eram exatamente onde eram feitos depósitos de mercadoria? Esses armazéns também tinham segurança?

 

R – Na Estação Central, se fechava o armazém e tinha um policial, tinha o agente de segurança que não tinha problema.

 

P/1 – E nas outras estações?

 

R – Nas outras estações menores, quando tinha coisa de muito valor, se chamava o segurança para que ele ficasse também lá. Mas, praticamente, nunca chamaram não.

 

P/1 – E o seu serviço no escritório, na área de segurança, o que era basicamente? Era, além da folha de pagamento, o senhor tinha alguma coisa que despachava, tinha algum formulário que o senhor preenchia...?

 

R – Tinha... Vamos dizer assim, tinha a diária do pessoal, era comigo. Eu teria que fazer, contar quantas diárias eles teriam direito, aí eu fazia... Praticamente, coisas de escritório mesmo.

 

P/1 – Ah, se ele fosse viajar o senhor tinha que...?

 

R – Tinha que fazer a diária dele.

 

P/1 – E essa diária, do que ela era composta? Era composta de alimentação...?

 

R – Era de alimentação.

 

P/1 – Só? Hospedagem não?

 

R – Não. Não, era completa. A gente fazia diária e pagava. E eles vinham, quando houvesse extraordinário, teria que ir lá à ficha, colocar. Ele levava também um formulário, uma caderneta, que eles iam colocando o horário quando chegavam à estação terminal, o agente da estação dizia a hora que ele chegou e, quando, na saída, a hora que ia partir. Aí, se contava o extraordinário ali, se houvesse.

 

P/1 – Quer dizer que cada agente de segurança que saía para um serviço, em cada estação, tinha que colocar a hora que ele chegou?

 

R – Não. A estação de destino. Quando ele chegava ao destino, ele teria a obrigação de chegar ao agente da estação, para o agente da estação preencher o horário que ele chegou e o horário de partida dele, na volta.

 

P/1 – Teve algum caso que o senhor lembra que teve certa incongruência, dele chegar num horário muito depois do que deveria? Era normal acontecer?

 

R – Não! Não era normal não, porque eles tinham respeito, era bem formal, era bem direito eles.

 

P/1 – Como é que foi a sua carreira nessa área de segurança? Quando o senhor foi para lá, o senhor foi como assistente?

 

R – Eu fui como escriturário. Já com a função, era uma supervisão, era como supervisor do escritório, né? Praticamente foi isso, até quando terminou a minha vida em 1993, eu fiquei como supervisor.

 

P/2 – E o senhor teve que fazer algum curso...?

 

R – Não.

 

P/2 – Sentiu muita diferença de quando trabalhava...

 

R – Eu senti um pouco, né? Porque eu fazia uma coisa lá na contadoria e aqui eu passei a fazer outra, mas depois me acostumei e não fui mais...

 

P/2 – Onde é que era esse escritório de segurança?

 

R – Esse escritório, antes de construir o prédio, que hoje não é mais da Rede, a gente funcionava na Rua São João. Tinha a casa do agente, como eu falei, subagente, tinha essa casa que era da segurança e junto da Assistência Social, Serviço Social. E tinha um rapaz que morava lá, que tinha uma casa já própria que era também da Rede. Praticamente isso, perto da Estação Central, pertinho mesmo, que a gente saía pelo Bar Oitão, pela rua e entrava já pelo fim, era o fim da linha, a gente já pegava a linha para pegar a Estação Central.

 

P/2 – O senhor ficou trabalhando nessa casa bastante tempo, depois foi para o prédio?

 

R – Deve ter sido uns quatro anos, alguma coisa assim, porque depois nós fomos para o prédio e ficamos lá até quando terminei...

 

P/1 – Esse prédio foi construído pela Rede?

 

R – Foi construído pela Rede.

 

P/1 – E o que é que ficava nesse prédio?

 

R – Olha, praticamente toda a Rede.

 

P/1 – Na parte de escritório?

 

R – Escritório, tudinho, superintendente, superintendente administrativo, superintendente operacional, tudo, ficava tudo lá, folha de pagamento, segurança, tudo, tudo...

 

P/2 – O senhor se lembra de como era a distribuição desse prédio?

 

R – O último andar era da Superintendência. Juntamente com Relações Públicas. Depois, no nono andar, se eu não me engano, era o Setor Administrativo, era o chefe do Superintendente Administrativo. Embaixo, no oitavo, era a Contadoria, com a Contabilidade junto; no quarto andar tinha um restaurante que era da Rede, a pessoa pagava a Rede para ter ali o restaurante.

 

P/1 – Então vocês podiam comer ali, mas pagavam mais barato?

 

R – Mais barato, é mais barato... A Rede toda era ali.

 

P/1 – E a Segurança ficava em que andar?

 

R – Ficava no térreo, perto da garagem, perto dos automóveis do pessoal...

 

P/1 – Quando acontecia um acidente na via, qual era o papel da Segurança?

 

R – Era proteger e chamar a polícia civil, vamos dizer, um atropelamento, o agente de segurança ia para lá e telefonava para a polícia civil, para vir o pessoal ver. O técnico, a pessoa técnica, para ver como é que foi e tal, e depois vinha o rabecão para levar o corpo, então era assim que era chamado...

 

P/1 – E, por exemplo, no caso de um atropelamento, o maquinista... A segurança ia fazer com que o maquinista se afastasse?

 

R – Que se afastasse... Levava-o para outro canto, separava ele: “Vai-te embora, depois te apresenta.” Depois, ele era chamado para depor.

 

P/1 – Quem tomava conta então desse processo todo era a segurança?

 

R – Era a segurança.

 

P/1 – E aconteciam muitos atropelamentos na Rede?

 

R – Aconteciam. Quando começou a se fazer a linha dupla, houve muito acidente, muito! Muito atropelamento!

 

P/1 – E a linha dupla onde foi feita?

 

R – A linha dupla foi feita de Recife até Jaboatão.

 

P/1 – E por que aconteciam tantos acidentes?

 

R – Porque tinha barro e muita gente escorregava quando vinha o trem. Escorregava, o trem passava e atropelava. Outros eram suicídios, muitos eram suicídios, a pessoa se jogava na frente do trem. Outros saltavam do trem em movimento perdiam o equilíbrio e mergulhava embaixo do trem.

 

P/1 – Tinha muita gente que saltava com o trem andando?

 

R – Tinha. Tem um fato interessante: eu peguei um trem do Cabo, saltei em movimento e levei um baque, quando eu saltei, o trem até que ia devagar, mas eu tropecei e: “Pumm.” Caí, levei uma queda, mas me levantei e tal... (risos)

 

P/1 – Mas o senhor caiu do outro lado?

 

R – É, eu caí do outro lado...

 

P/1 – Me fala uma coisa, senhor Marcos, por exemplo, como é que a segurança cuidava, ou ajudava ou auxiliava, na compra de passagem, alguém querer embarcar sem pagar, isso também era de responsabilidade da segurança ou não?

 

R – Não, era do pessoal do trem, mas eles chamavam o segurança para acompanhá-los quando fosse cobrar, para que não houvesse confusão, né? Eles chamavam: “Vem cá, vem cá, vem cá.” Aí chamava: “Olha, a passagem? Ah, não tem?” Aí o cara: “Você está errado e tal”. Quando havia confusão maior, o cara ia lá, prendia e entregava na próxima estação, o agente da estação já chamava um policial civil e era entregue...

 

P/1 – E como era a comunicação? Era feita como do trem para as estações?

 

R – Não, quando chegava na estação, não tinha comunicação, não tinha celular, não tinha nada naquela época. O trem parava, o cara descia, entregava ao agente, aí o agente chamava... O agente de segurança ficava um pouco, a delegacia era perto, aí vinha um policial e levava...

 

P/1 – E tinha muita baderna, por exemplo, bebedeira, dentro dos trens?

 

R – Tinha, tinha. Aí o policial era forçado... Tinha gente que pulava pela janela para pegar o lugar. Daí, o policial tinha que ficar ali vigiando... Muitos deles, eles pegavam pela calça e: “Desce!” Faziam isso. Era assim o policiamento.

 

P/2 – Senhor Marcos, vamos começar a entrar um pouquinho na sua vida pessoal, o senhor falou que teve um primeiro casamento... Como é que foi? O que é que ela fazia na Rede? Como é que era o nome dela...?

 

R – Meu primeiro casamento foi com Lúcia. Lúcia trabalhava na Estação Central no Departamento de Transportes. A gente era vizinho e aquele negócio, né?! Namora e terminei namorando. Casei-me em 1967, depois que estava trabalhando na Rede. Comecei em 1963, ela começou antes de mim; 1960, 1959, foi quando ela começou a trabalhar. Em dezembro de 1967, nasceu minha filha, com seis meses. Nasceu pequenininha e passou uma semana no hospital, porque era de seis meses. Fomos até os 17 anos de casamento. A vida foi... Eu fui muito sem vergonha na vida e tal, saía e aquele negócio todo... A gente foi separando e tal... Terminou a gente se divorciando, e, um ano depois, eu encontrei essa também. A gente juntou os trapos e ficou vendo até poder casar. A gente casou já com bocado de tempo, já com os filhos grandes.

 

P/2 – Mas como é que era o namoro de vocês?

 

R – O namoro era o seguinte: quando a gente trabalhava e eu trabalhava lá dentro de Recife, em Rio Branco, eu pegava o trem e ela também pegava o trem, a gente vinha conversando... Ela ia para casa dela, eu ia para a minha casa... E à noite...

 

P/1 – Ela morava na vila?

 

R – Ela morava de frente da minha casa. A gente ia para o cinema, o cinema Guararapes, que era pertinho também, era em Areias. Era assim, o namoro nosso foi esse...

 

P/1 – E o senhor casou e só teve uma filha?

 

R – É, só tive uma filha.

 

P/1 – E vocês não quiseram ter mais filhos?

 

R – É, ela não quis mais. Aquele negócio todo e tal...

 

P/1 – Ela continuou trabalhando na Rede?

 

R – Continuou, aposentou-se...

 

P/1 – E o senhor falou que o senhor era muito safado, o que é que o senhor fazia, o senhor chegava tarde em casa...?

 

R – (risos) Chegava tarde... Namorador...

 

P/1 – Ah, o senhor era namorador?

 

R – Era namorador, era... Até pouco tempo (risos). Há uns... Quer ver? Há uns 20 anos, pouco tempo...

 

P/1 – E ela sabia dos namoros do senhor e começou a ficar brava?

 

R – É... Eu, na época, eu fui diretor do Clube Ferroviário do Recife e viajava muito...

 

P/1 – Ah, o senhor foi diretor do Clube Ferroviário?

 

R – É, fui diretor do Clube Ferroviário, do departamento de futebol...

 

P/1 – E como é que era esse clube, o senhor entrou lá como?

 

R – O clube era profissional, disputava o campeonato pernambucano, né? Disputava o pernambucano e, antes de mim, foi o Doutor Milton Dantas que foi o presidente foi que levantou o Ferroviário. O Ferroviário aqui era respeitado na época do Doutor Milton Dantas, até minha época também, depois que o Doutor Milton deixou e assumiu o Sérgio Cintra como presidente e eu como diretor de futebol, a gente ainda levou o clube a um belo patamar no futebol.

 

P/1 – E quem jogava nesse clube? Eram os ferroviários?

 

R – Não, eram jogadores profissionais.

 

P/1 – E vocês tinham olheiros para buscar jogadores, como é que era?

 

R – Muitos se ofereciam... Tinha o técnico que procurava o jogador e tal... O salário era pequeno, era um salário mínimo ou um pouco mais e a gente ia levando assim, até que quando terminou, a Rede terminou também. Acabou-se a Rede, acabou-se o futebol...

 

P/1 – E esse clube ele foi fundado quando?

 

R – Ah, foi do tempo da Great Western of Brazil Railway... O clube era a Associação Atlética da Great Western, depois que passou a ser o Ferroviário.

 

P/1 – E nessa época o senhor falou que viajava muito, por causa de jogos?

 

R – De jogos. Tinha o campeonato e a gente viajava para Salgueiro, Serra Talhada, por aí... Disputando amistosos, éramos convidados, aí íamos para...

 

P/1 – E vocês viajavam de trem?

 

R – Não, nós tínhamos um ônibus próprio.

 

P/2 – E como é que era o uniforme do time Ferroviário?

 

R – Era vermelho e amarelo, com um escudo, Clube Ferroviário do Recife, e o calção também ou vermelho ou azul, meião...

 

P/1 – E vocês viajavam de ônibus ao invés de trem, por quê?

 

R – Porque era mais fácil de chegar e era mais rápido, porque o trem demorava mais e ia direto, parava só para tomar um lanche e tal...

 

P/1 – E, nessa época, o senhor viajou muito?

 

R – Viajei muito...

 

P/1 – E quando o senhor se separou, o senhor já tinha uma filha adolescente...

 

R – É, de 16 para 17 anos...

 

P/1- E o senhor se separou e foi morar onde?

 

R – Eu me separei e fui morar em Olinda. Olinda não, depois de Olinda. Eu me esqueço o nome daquele lugar. Foi quando eu conheci essa menina, aí, juntamos os trapinhos e eu fiquei lá com ela, pronto.

 

P/1 – E quando o senhor se casou, o senhor foi morar onde?

 

R – Eu morei ali perto, ali no Jardim São Paulo.

 

P/1 – Ah, o senhor morava aqui em Recife mesmo?

 

R – É, morava em Recife...

 

P/1 – Então, o senhor saiu da vila...

 

R – Da vila e fui para o Jardim São Paulo. Aluguei uma casa e nós fomos para lá.

 

P/1 – E como é que era o bairro?

 

R – O bairro não era como é hoje, hoje tá muito movimentado, né? Pouca gente, eu morava até perto da Estação de Werneck, tinha a rua aqui, umas casas e era nessa rua, pertinho mesmo da estação, dava tempo da gente...

 

P/1 – Era um bairro mais residencial, mais para trabalhadores?

 

R – É, era mais residencial, hoje está mais desenvolvido.

 

P/1 – Quando o senhor se separa, o senhor foi morar depois de Olinda por quê?

 

R – Eu arrumei uma casa e fui para lá, levei meus trapos... (risos)

 

P/1 – E essa nova mulher do senhor, como é que ela chama?

 

R – Sara.

 

P/1 – E a Sara fazia o que? Como é que o senhor a conheceu?

 

R – A Sara era de banco, era do Bradesco. Ela trabalhou ainda uns anos comigo, eu a levava e a trazia do banco, quando passava e voltava do trabalho. Depois, eu consegui, juntamente com um amigo meu, de ela ir trabalhar já no metrô. E, hoje, ela trabalha no metrô já há 25 anos. Vinte e cinco anos de metrô.

 

P/1 – Ela faz o que no metrô?

 

R – Ela está atualmente de gerente de orçamento.

 

P/1 – E o senhor casou e como é que foi a vida? O senhor continua morando lá, depois de Olinda?

 

R – Não, eu voltei pro Jardim São Paulo. Aliás, consegui um apartamento na Avenida Caxangá, lá no fim da Caxangá. Consegui um apartamento no nono andar de uns prédios que tinham... Depois passei três anos num sítio que era do pai dela, da minha atual esposa. Um sitiozinho bonzinho... Eu tinha carro já nessa época, então, eu vinha e voltava de carro, deixava-a no metrô, pegava o trem e ia trabalhar, quando voltava pegava o carro, pegava os meninos... Já tinha os meninos que eu deixava lá na casa da avó e ia para o sítio...

 

P/1 – E onde era esse sítio?

 

R – Esse sítio ficava em Paulista.

 

P/1 – E o que é que ele tinha lá, tinha plantação?

 

R – Tinha. Lá atrás, tinha a parte de uma restingazinha já perto de se acabar, uma florestazinha. E a gente fez uma plantaçãozinha de coentro, cebolinha e tal... E tinha um caseiro também que trabalhava lá...

 

P/1 – E depois desse sítio vocês voltaram para Recife?

 

R – Aí nós voltamos...

 

P/1 – Mas por que vocês voltaram?

 

R – Ah, não, porque já não dava mais, já estava muita gente chegando lá, já tinha assalto. Deixamos lá e fomos morar no Jardim São Paulo, numa casa que tinha atrás da casa do pai dela, a gente ficou por lá. Depois eles construíram, foram para casa de trás, eles dois, o casal, e nós ficamos na frente porque os meninos já estavam crescendo e tal... Até hoje, nós estamos morando lá...

 

P/1 - O senhor falou que tem três filhos... E os três moram com o senhor?

 

R – Moram comigo, todos os três. Estão todos namorando, um já querendo casar, já entrou em financiamento para comprar um apartamento, vamos ver...

 

P/1 – E a filha mais velha do senhor?

 

R – A minha filha mais velha tem dois. Mora lá perto. É muito amiga minha! Qualquer coisa ela: “Painho, faça isso...” E está se dando bem com o pessoal todinho, não houve...

 

P/1 – E o senhor tem duas netinhas?

 

R – Duas netas, uma com seis anos e outra com 13.

 

P/1 – E como é que elas se chamam?

 

R – É... Karine e Bruna. Bruna é a mais velha, de 13 anos.

 

P/2 – E quando é que o senhor se aposentou e por quê?

 

R – Eu me aposentei porque já estava vendo que a situação da Rede estava perto de fechar, né?

 

P/1 – Por que o senhor percebeu isso?

 

R – Ah, porque já estavam procurando: “Você tem tempo para se aposentar? Aposenta, então”. Estavam fazendo estudo e eu: “Quer saber de uma coisa? Vou me aposentar!” Já estava com tempo de serviço, 30 anos de serviço, aí eu me aposentei, pedi minha aposentadoria.

 

P/2 – E por que é que o senhor foi para a Associação dos Ferroviários Aposentados do Nordeste (AFAN)?

 

R – Olha, eu me inscrevi na Associação logo que eu me aposentei. E, conversando: “Marcos, vem fazer parte aqui!”. E eu digo: “Vou fazer parte.” Aí, me chamaram para ser secretário, fui segundo secretário.

 

P/1 – Quem o chamou, o senhor lembra?

 

R – Na época... Não me lembro quem era o presidente.

 

P/1 – Não faz mal...

 

R – É, não me lembro... O Eldo Souza da Costa Almeida depois assumiu e pediu que eu continuasse. Depois, fui presidente. Depois, ele voltou a ser presidente e ficou, eu e ele, trocando (risos). Até hoje: “Essa Associação é de vocês?” Eu digo: “Mas não aparece ninguém para ser presidente, ninguém quer!”.

 

P/1 – A Associação, o que ela faz para os ferroviários?

 

R – A Associação podia ser muito mais do que ela é hoje, ter médico, ter dentista... Se todo mundo contribuísse com a mensalidade, mas muitos vão deixando... Hoje em dia, a gente faz reivindicação, nós reivindicamos os direitos, como agora mesmo, os atrasados, a gente vai juntamente com as outras associações à Brasília para solicitar de senador, deputado, ministro para que se pague, né?

 

P/1 – Equiparação salarial, por exemplo?

 

R – É, se faz isso... Poderia ser melhor... Se tivesse mais dinheiro, oferecer mais coisas para os associados, mas ninguém quer.

 

P/1 - E têm muitas associações de ferroviários?

 

R – Olha, na federação são 16 associações que faz a federação de vários estados...

 

P/1 – Mas aqui em Recife...?

 

R – Em Recife, a gente só tem essa, de ferroviário CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), tem uma que é do Ministério que fica em Jaboatão, Associação dos Ferroviários do Nordeste (AFN), que é do pessoal do Ministério do Trabalho, ainda existente, né?

 

P/1 – E quantas pessoas fazem parte da Associação?

 

R – Dos associados? Deve ter uns 500 a 600 por aí... Na época, quando a gente assumiu, tinha quase três mil e foram deixando... Muitos morrendo, né?

 

P/2 – O senhor estava contando da Associação dos Ferroviários Aposentados no Nordeste, daqui de Pernambuco, e o senhor entrou como secretário. Qual que era a função de secretário?

 

R – O secretário respondia as correspondências, fazia correspondência e está ali assessorando o presidente, né? Sempre está onde está o presidente e tal. Hoje em dia, quase não tem nada mais para se fazer, que algumas coisas nós respondemos, algumas coisas... Nas viagens, a gente tem que fazer um relatório.

 

P/2 – Como é a estrutura organizacional da associação: é o presidente...?

 

R – É o presidente; o secretário, primeiro secretário, segundo secretário; tesoureiro, primeiro tesoureiro, segundo tesoureiro; aí, depois, vem o conselho fiscal, só! É, o conselho deve ter umas dez pessoas...

 

P/1 – Qual que é a função do presidente, qual que é o papel dele?

 

R – O presidente, quando for solicitado para viajar, se reunir na federação junto com os outros presidentes, tem que ir para resolver os problemas da classe, para reivindicar junto aos senadores, deputados, etc. E, na volta, fazer uma assembléia e mostrar aos associados o que aconteceu naquele dia lá em que ele foi resolver.

 

P/1 – O senhor faz reunião com os associados quantas vezes por ano?

 

R – Olha, a gente não está fazendo mais, só agora que a gente vai ter essa assembléia, que é a assembléia da eleição, né? Só quando a gente viaja, a gente tem alguma coisa de interesse da classe, que a gente faz alguma assembléia geral para chamar e mostrar. Nós fizemos esse ano, uma. Uma esse ano... Esse ano? Não, o ano passado! Em setembro, outubro, nós fizemos uma assembléia, para mostrar o que estava acontecendo de aumento, do dissídio, falando de outras coisas de interesse da classe...

 

P/1 – Hoje, a equiparação salarial, por exemplo, o senhor consegue fazer com que o dissídio seja passado para os aposentados, do dissídio das pessoas que estão na ativa ainda?

 

R – É, o presidente da Federação dos Ferroviários, da ativa, é quem faz junto com os sindicatos, o dissídio e leva para ser aprovado ou não, né? Com acordo, com não-acordo... Se fizer não acordo: “Deu tanto de aumento...”. E repassa para os sindicatos e as federações de aposentados porque o associado representado tem que saber quanto o pessoal da ativa vai receber para ele saber quanto vai receber também; ele vem, traz e a assembléia mostra para ele isso.

 

P/1 – Como é que a relação da Associação com os sindicatos? Como é que vocês trabalham juntos?

 

R – Olha, é harmônico. Juntos, a gente sempre conversa, sempre procura...

 

P/1 – Que tipo de informações vocês trocam, o que o senhor busca no apoio do sindicato?

 

R – Agora, está difícil, porque o Sindicato dos Trabalhadores em Empresas Ferroviárias do Nordeste (SINDFER-NE) acabou. Não tem mais quase ninguém do sindicato. A gente faz mais a parte nossa e procura saber do presidente da Federação Nacional, do pessoal da ativa que era o ministro Hélio Regato. A gente procura saber dele, sempre estar entrosado com ele e com o presidente da nossa Federação, que é o Etevaldo Pereira dos Santos. A gente tem essa aproximação...

 

P/1 – Como é que foi a extinção da Rede? O senhor já estava aposentado, mas o senhor acompanhou a extinção da Rede?

 

R – Acompanhei, com muita tristeza. Foi um negócio muito sério. Inclusive teve colega meu que já estava com 20 e poucos anos de Rede que foi dispensado, foi demitido, foi largado de todos os direitos que tinha... Mas ficou aquele negócio no coração dele e ele terminou falecendo, de tristeza, né? Eu fiquei muito triste com isso, que era um colega muito bom, Manuel... Dá tristeza...

 

P/1 – Mas o senhor percebeu, mesmo quando o senhor estava trabalhando, se teve algum processo de desaceleração?

 

R – Parece que eu estava adivinhando, inclusive um agente de segurança, eu cheguei para ele e chamei a atenção: “Rapaz, o senhor não está sendo correto! Cuidado, rapaz, você pode ser demitido!”. “Ah, a gente não é demitido não, porque isso aqui é do governo, rapaz!”. Digo: “É do governo, mas pode se acabar!”. Parece que eu estava adivinhando quando eu disse isso a ele, e está aí, acabou, né? Eu vi o processo já do pessoal chamando o pessoal que estava prestes a se aposentar: “Olha, está para se aposentar? Vem cá”. Eu mesmo fui chamado, digo: “Rapaz, não tenho tempo não!”. “Não tem tempo?”. “Não tem não!”. “Veja aí...” “Não, mas aqui está...” “Veja aí!”. “Não...”. “Veja aí!” Eu entrei em 1963, faça a conta... “É, rapaz, é mesmo!”. E tal...

 

P/1 – Eles ofereciam uma aposentadoria especial?

 

R – Não, eles ofereciam o pato, que eles diziam o “pato de ouro”, que eles pagavam dinheiro para você sair, se aposentar, davam aquele dinheiro a você.

 

P/1 – O que significou para o senhor ter trabalhado na Rede Ferroviária?

 

R – Para mim foi a consagração (riso), porque eu sempre quis trabalhar na Rede. Eu via meu pai ferroviário, sempre quis, sempre tive vontade de ser ferroviário, e marcou muito. Foi uma coisa muito boa que aconteceu na minha vida! Mesmo eu não sendo universitário, sem terminar o meu curso universitário, mas, hoje em dia, eu não sinto falta de ter me formado, não. Foi uma satisfação muito grande que eu tive de trabalhar na Rede esses 30 anos. Foi uma coisa muito boa para mim...

 

P/1 – O seu pai foi ferroviário por um tempo e por que é que ele saiu da Rede Ferroviária?

 

R – Aposentado! Saiu aposentado com 42 anos de serviço, ele trabalhou 42 anos! E a gente em cima dele: “Pai, se aposenta, já está fora do tempo, já 35 anos já passou, mais cinco anos, mais seis anos, mais sete anos...”. Aí pronto, ele se aposentou aos 42 anos de serviço!

 

P/1 – Faltou alguma coisa que o senhor gostaria de comentar da história da Rede que a gente não perguntou e que o senhor acharia importante de falar?

 

R – Não! Não, foi tudo aquilo que se passou mesmo, realmente...

 

P/2 – Algum caso, de quando o senhor trabalhava na parte da contadoria, nas pequenas...

 

R – (risos). Não, só houve um caso interessante, que o chefe que assumiu a contadoria no lugar de Geraldo Santos, recebeu a minha portaria e ele ficou emperrando para me soltar, né? Um belo dia: “Sabe de uma coisa? Ele vai ver hoje”. Fiquei na janela lá, debruçado, conversando com uma mulher assim, do outro lado. Ele entrou, subiu no elevador: “Está trabalhando aí, é?”. Eu digo: “Estou. Vou trabalhar aqui até quando você me largar! Você está com a minha portaria e você não quer me soltar. Agora eu vou ligar para o tenente e vou dizer a ele que você está aí com a minha portaria e não quer me largar!” Aí, foi isso que me aconteceu e que me marcou... (risos).

 

P/1 – Que portaria era essa?

 

R – Era uma portaria para sair, né? Para eu ir para a Segurança, tinha uma portaria: remover a tal, fulano de tal, assim, assim, né?

 

P/1 – E ele estava...?

 

R – Ele estava amarrando porque ele era chato, era um carazinho chato, danado. Agora ele vai ver! De fato, eu liguei para o tenente: “Tenente, o cidadão aqui está me prendendo, fala com alguém mais alto do que ele para me largar.” Aí, o tenente entrou em entendimento com o chefe dele e ele: “É, esta aí, você pode embora”. Daí, eu arrumei minhas malas e me apresentei lá ao tenente.

 

P/1 – Senhor Marcos, para encerrar, qual a importância de um trabalho como este, de registrar a memória da Rede Ferroviária de Pernambuco?

 

R – Olha, eu acho fabuloso, sensacional! Porque resgata muita coisa da nossa vida ferroviária, né? Deixa para a posterioridade e muita gente vai conhecer o que foi a ferrovia nordestina, o que foi a ferrovia brasileira, né? Que hoje está tão... A gente vê a Europa, com trens cortando o continente e aqui a gente é um continente desses sem trem, não tem trem... E os passageiros aí, pagando mais caro o transporte também de carga, muito mais caro! Como eu vi agora o transporte de soja, o pessoal dizendo que está muito mais barato com o caminhão, né? E acontece isso todo dia, muita gente...

 

P/1 – Hoje, a soja está sendo transportada por trem?

 

R – Sim, na parte lá de Goiás, uns trens já com soja... E podia ser... É que aqui, quem assumiu não fez nada... Está aí, sendo roubados os trilhos...

 

P/1 – Da Companhia Ferroviária do Nordeste (CFN), que o senhor está falando?

 

R – É, da CFN. Não fizeram nada aqui em Recife. Nada, nada, nada, nada! Roubam-se trilhos... Há a depredação da Rede e eles não estão ligando... Tudo isso, está um negócio sério, uma tristeza muito grande!

 

P/1 – E o investimento da Transnordestina, que está sendo feito, como é que está isso?

 

R – Olha, eu não estou confiando, está muito devagar, muito devagar. Para mim, vai demorar muitos anos ainda!

 

P/1 – Para finalizar, o que o senhor achou de ter participado dessa entrevista?

 

R – Ah, eu gostei... (risos). Eu gostei porque abri meu coração! Disse algumas coisas, me perdoe se fui nervoso, porque estou aqui meio querendo falar, meio querendo dizer algumas coisas e gaguejando, mas foi bom. Gostei, agradeço a vocês essa oportunidade...

 

P/1 – A gente que agradece em nome do Instituto Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e do Museu da Pessoa a sua participação!

 

R - Muito obrigado também.

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