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História

Os tecidos do Barão

História de: Walter Raimundo da Costa
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 12/07/2005

Sinopse

Infância no interior de Pernambuco. Pais eram agricultores. Descrição das feiras de sua região. Trabalho na fabricação e venda de carrinhos de madeira. A escola e a participação na banda de música da cidade. Costumes da época e apresentações da banda em bailes carnavalescos. Migração para o Rio de Janeiro e dificuldades de adaptação. Volta para a cidade de origem e trabalho como funcionário público e músico da banda. Migração para o Rio de Janeiro e, posteriormente, para São Paulo. Trabalho como auxiliar de escritório. Casamento e filhos. Trabalho como vendedor autônomo. Segundo casamento. Trabalho em armazém de secos e molhados e, mais tarde, em alfaiataria. Aspectos do comércio da Rua Barão de Itapetininga. Relação patrão/empregado. Perfil do consumidor.

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História completa

IDENTIFICAÇÃO Walter Raimundo da Costa, nascimento em 9 de agosto de 1936, na cidade de Panelas, Pernambuco. O nome do meu pai é Joel Raimundo da Costa. Sabina Honório da Costa é o nome da minha mãe, da mesma cidade também.

TRABALHO DOS PAIS

Meu pai, na época, era agricultor, sempre foi porque nunca teve assim uma cultura. Não sabia nem escrever o nome dele. A minha mãe era doméstica, sempre cuidou dos afazeres de casa. Ele plantava feijão, milho, cana. A gente plantava pra vender e sobreviver, trocava, às vezes, por outros alimentos pra gente. Chegava na mercearia do seu Juvêncio e: "Um saco de feijão por tanto de carne", dizia. Arroz a gente não sabia o que era, quando comia era o feijão mesmo com farinha. FEIRAS NO NORDESTE A feira da minha cidade era no sábado. Muitas daquelas cidades vizinhas a Panelas – tinha Cupira, Jurema, Altinho, Lagoa dos Gatos – fazia aquela feira. Vinham os caminhões, como são os daqui, mas com mais gente, pra vender. Trazia, a gente não chama de barraca, a gente chama de torda, coberto com a lona. Trazia sapato, roupa, alimentos, trazia até pão, biscoito pra vender na cidade. A feira ficava o dia todo, 4, 5 horas da tarde era que começava a desarmar. Era um colosso comer um pedaço de quebra-queixo lá da cidade, tomar um copo de caldo de cana. Quebra-queixo é um tipo de doce feito com queijo, coco ralado e açúcar, aí vai dando um tempo naquilo, vai ficando escuro, amarronzado assim. Aquilo a gente mastiga, mas demora.

INFÂNCIA

Naquela cidade a gente era pobre mesmo. Quando eu comecei a entender de gente, vi que na época existiam dois partidos políticos. Eu imaginava, meu pai não pensava como eu, mas eu imaginava: "Eu vou ter que ter amizade com as duas pessoas, os donos dos partidos ", que eram os coronéis da cidade, José Rufino e Mané Guilhermino. Eu tinha amizade com todos eles pra não haver problemas. E a minha infância foi assim: pequeno, com nove, dez anos, com sete, oito anos, teve a Segunda Guerra e aquilo pra gente era mais difícil ainda, não existia nada pra se comer, não tinha o querosene pra gente acender o candeeiro dentro de casa, entende. As notícias chegavam quando tinha um rádio pra se escutar. Já era pobre, ainda mais numa situação dessa. Fomos passando o tempo, com nove, dez anos eu comecei a fazer carrinho de tábua e vendia pros meninos. Aí eu e o meu irmão, o outro, porque o primeiro irmão veio logo pro Rio, e a gente era muito unido. Ia lá na mercearia do seu Juvêncio, comprava um caixão, prego, chegava em casa, fazia, quando era uma hora assim já estava pronto, levava lá pra ele e recebia o dinheiro. Então a gente já pensava: "Bem, eu não vou precisar pegar os trocados que o pai dava pra gente no sábado”. Quando a gente vendia as coisas na feira pra ele. Eu tinha mais criatividade de fazer as coisas, meu irmão era mais caprichoso. Com o passar do ano fomos fazendo carros maiores, de dois metros de comprimento com rodas grande pra ir buscar frutas nos sítios. No domingo de manhã, ia buscar frutas lá no sítio, ia quatro, cinco, oito carros daquele, na rampa a gente puxava, um empurrava atrás e outro ficava com uma corda na frente, nas descidas a gente amarrava a corda e montava nos carros, e saía dirigindo, direção na mão, freio no pé, tudo direitinho. Eu não sabia nem o que era adolescência, pensava que era doença. O filho do rico tem o estudo, mas não tem a malícia, não tem a cabeça pra imaginar, pra sobreviver, e o moleque de rua não passa fome, ele é mais esperto. Eu vejo moleque vendendo coisas em ponto de ônibus, a pessoa dá o dinheiro e ele dá o troco certinho, aquilo não se atrapalha em nada. Então era o que a gente tinha. O pai falava: "Vamos pescar lá no rio, lá no córrego, pra fazer a mistura de hoje, de amanhã e depois." Passava por debaixo da cerca lá do dono das terras e a gente ia se arrastando 20, 30 metros pra ninguém ver, passava por dentro de erosões pro vaqueiro não ver a gente lá longe. Tudo essas coisas da vida.

EDUCAÇÃO

Fui preguiçoso pra estudar. Quando a professora não aparecia lá na escola era pra mim uma vitória. Eu ia chegando, tinha o motor, o prédio do motor que fornecia luz pra cidade das 6 até as 9 e meia, 10 horas da noite. Então o grupo era ao lado, eu ia andando e olhando, quando via que a porta estava fechada eu gostava, pra não fazer nada, pra eu brincar com os meus brinquedos, fazer qualquer coisa pra um colega que chegava lá pra pedir. Fui preguiçoso pra estudar, quando foi pra estudar pra música eu gostei, que o maestro queria que a gente fosse lá, podia ter luz ou não, a gente tinha que estar lá na casa dele pra aprender aquilo.

ESTUDOS MUSICAIS

O meu pai era músico, meus dois tios eram músicos e o meu irmão mais velho também. E o pai brincava sempre com a gente: "Quando vocês crescerem, quando tiver com uma certa idade, vai aprender música também." Aí um dia a mãe falou: "Bem, como é, você não vai levar eles lá pro seu Luís pra eles começar a aprender?" O pai: "Vou levar." Aí falou com o seu Luís, quando foi uns dias depois nós fomos lá, eu e o outro meu irmão. Comecei a aprender igual com meu irmão tudo, primeiras lições tudo. Com quatro meses o maestro disse que a gente já ia pegar o instrumento. Como eu estudei a clave de sol, fui pegar o instrumento que era da clave de sol. Aí não fiz nada, meu irmão deslanchou logo. Saiu já com instrumento de palheta, já tocando clarineta e tal, já foi soltando a escala. O maestro me deu o instrumento trombone, dali uns seis meses a gente já começou a fazer segunda parte na banda de música. Dali eu fui me soltando. A gente aprendia mais a música ouvindo no rádio do que mesmo lendo a partitura. Eu estava já meio habituado a ir pra um ensaio, pra um dobrado, ou pra frevos de carnaval. Mas eu tocava, chegava circo lá na minha cidade eu ia, aí tinha um engraxate da cidade que era o único, o Paulo, ele me chamava. Às vezes, eu estava lá na casa, eu já tinha namorada com 16, 17 anos já tinha namorada: "Walter, olha, tem um circo aí e eles estão querendo falar com você." Eu ia lá, o circo ficava um mês lá e eu tocava toda noite. Eu ia completar a banda de música da cidade vizinha e a orquestra também, pra tocar em bailes. Os bailes lá eram mais aos domingos, era nas sedes dos clubes. Aquele salão bem feito, pista de dança, laterais com mesas e as famílias sentavam todas ali, pra gente tocar.

FUTEBOL E CINEMA

Jogava no Panelas Futebol Clube lá. Não era o Pelé, mas era considerado lá no meio da turma. Chegou um dia que eu falei pro meu pai, nisso o meu irmão já estava no Rio, o Valfrido, e quando ele escrevia falava pra mim como era. Era uma beleza aquilo, o mar. O mar eu nunca tinha visto, nem cinema via, o cinema era branco e preto, era ambulante na minha cidade. O cara tinha uma charrete, era o cinema ambulante, armava lá no salão que era o açougue, botava um pano na parede, um alto falante atrás, trazia os fios pela parede, ligava lá o som, tinha o filho que anunciava o filme, a comédia e o seriado que passava. Aquilo pra gente era uma coisa! Se não tivesse o cinema, era triste. A gente ia aprender a andar de bicicleta porque tinha bicicleta de aluguel na época. Foi quando eu falei com o meu pai que ali não tinha futuro. O Valfrido mandava dinheiro pra gente, mandava fotografia, eu via o cara bem mais vestido, e eu lá com aquela roupa, tamanco de madeira no pé. Chegou 1958, aí eu falei pro meu pai: "Vou tocar um Carnaval e vou embora." Eu tocava, completava a orquestra de outras cidades. Às vezes, eu estava lá na minha cidade no domingo de manhã, aí chegava o jipe lá de Cupira, o Zequinha chegava lá, às vezes eu estava jogando sinuca com os amigos. Chamavam pra tocar, me levava e o prefeito me pagava, eu completava a orquestra com ele e me trazia depois de volta 2, 3 horas da manhã. Fui em Altinho tocar Carnaval, toquei até perto de Recife, toquei em Caruaru, Catende, em Garanhuns, em várias cidades.

MIGRAÇÃO PARA O RIO DE JANEIRO

Toquei o Carnaval e vim embora para o Rio. Fui a Caruaru, peguei um ônibus e vim. A gente andava pouquinho ali, de uma cidade a outra, 30, 20, 15 quilômetros e rodar 2.600 quilômetros era uma diferença enorme. Mas vim, quando eu cheguei no Rio, cheguei de noite, fiquei em Duque de Caxias. Achava tudo diferente. Depois fui pra Nova Iguaçu com irmão mais velho, o Josias. Foi a minha decepção quando eu cheguei lá. A casa nossa lá na cidade era humilde, mas era uma casinha, feita num lugar bem diferente, em cima de uma pedra. Era um lajedo que nós chamamos de pedra, não fez alicerce nem nada e a frente de casa era tudo pedra. Ali chovia, secava num instantinho, tinha uma fenda de dois metros e pouco de natureza. Era água que a gente pegava pra beber e fazer comida dali. Quando eu cheguei lá na casa do meu irmão era um barraco de madeira, caía água pra todo canto, a mulher dele era daquelas serpentes. Quando ela me viu: "Mais um vagabundo pra dentro de casa." Comecei a jogar no time de Nova Iguaçu, mas o interesse era trabalhar pra receber e pagar pro meu irmão, porque eu só comia e bebia e vivia lá. Trabalhei numa demolição de um prédio lá em Copacabana, cheguei com a mão fininha, pegar uma marreta de dez quilos pra derrubar tijolo ali. Quando foi 10 horas, 11 horas do dia, eu estava com cada bolha na mão que era uma coisa. Fui embora, me pagaram aquele meio dia, passou mais uma semana e eu arrumei pra trabalhar lá em Nova Iguaçu, fazer o esgoto. Eu ficava: "Estava lá na minha cidade, tudo era pobre, mas pelo menos não tinha um emprego desses, tocava lá na orquestra, ia tocar um Carnaval, ia tocar um bar e fazia um jogo de futebol. Aquela alegria no campo e aqui eu estou dentro duma vala dessa com um metro e tanto de profundidade..."

VOLTA AO NORDESTE

Foi passando o ano. Veio a Copa de 1958, nem liguei, como é que foi a festa nem nada. Aí eu arrumei um emprego lá, um trabalho de pintor, pintar apartamento, pintar loja tal. Comecei a melhorar um pouco, ia juntando os trocados. Primeiro era arrumar o dinheiro da condução, porque se um dia se eu tiver que voltar já estou com os trocados da passagem pra ir embora. Foi quando chegou setembro. Deu mais saudade ainda de casa, comprei uma passagem e fui embora pra minha cidade. Eu adoeci na viagem, quando cheguei na Bahia estava com uma gripe, uma febre e eu sentindo frio dentro do ônibus. Me desarrumou o intestino. Desci e não peguei nenhum ônibus pra Caruaru, pra Recife, pra Pernambuco, eu peguei pro Ceará, desci em Crato, que é pra cima de Petrolina, no sertão de Pernambuco, já divisa com Ceará. De lá de Crato fui pra Caruaru, eu saí de lá era uma e pouco da tarde e eu cheguei onze horas da noite em Caruaru. Peguei uma carona num caminhão de um gaúcho e eu tossia que era uma coisa. No fim eu fiz amizade com esse gaúcho, era ele sozinho. Ele queria que eu fosse trabalhar com ele, queria que eu fosse até Recife, depois vinha pra cá, e eu ficava trabalhando com ele, mas eu queria era ir pra minha cidade. Uma coisa eu tinha melhor um pouco, eu estava mais gordo. Me dei bem no Rio, estava mais cheio. Na época a gente usava camiseta Hering toda enroladinha até aqui em cima. Eu estava com uma calça jeans, a gente comprava calça comprida e dobrava, era o uso da época, e um tênis no pé. Eu estava todo esporte, estava duro. Fui pra minha cidade, quando fui chegando naquele ônibus velho, fui vendo o meu pai. Eu tinha escrito dizendo que estava voltando, mas não disse o dia que voltava. Foi aquela alegria, encontrei a namorada, ela lá toda satisfeita. No domingo ia ter a parada de Sete de Setembro, ia ter futebol. Aquilo pra mim era outro mundo. Foi quando o pai falou com o maestro. O maestro perguntou se eu queria pegar um instrumento, eu peguei o mesmo instrumento que eu tinha deixado lá. Comecei a ensaiar de novo e o maestro disse: "Vamos falar com o Zé Rufino, que era o prefeito, pra gente segurar o Walter aqui pra ele não voltar mais pra lugar nenhum. Ele é jogador, ele toca na banda de música, eu gosto muito dele, tal." Arrumou pra mim trabalhar na prefeitura, não fazer nada de manhã e descansar à tarde. Era só carimbar uns talõezinhos que tinha uns fiscais que iam receber lá dos caras que vinham fazer a feira. Como tinha mais dois povoados, tinha Cruzes e tinha Queimados, também batia os carimbos lá. Ainda impus na época: "Preciso da terça-feira à tarde e da quinta-feira à tarde pra treinar o futebol e também se eu precisar do instrumento, eu quero um instrumento da prefeitura." Veio a política e o partido do meu prefeito perdeu. Antes que ele me desse a carta de demissão, eu pedi e saí. Chegou 1960, houve posse do outro prefeito, aí eu fiquei por ali vendo se podia fazer qualquer coisa. Estava com aquele Rio na cabeça, meio chateado ainda, mas vi que não havia emprego. Chegou 1961, o maestro disse: "Carnaval vai ser aqui na cidade." Aí eu disse: "Seu Luís, eu não vou tocar o Carnaval aqui. O baile aqui começa 8 horas da noite e termina 3, 4 horas da manhã. Em outra cidade, tenho certeza que vou começar um baile 10 horas e termino uma e meia.” Na semana pré-carnavalesca o maestro da cidadezinha de Cupira me liga no telefone do correio – que era o telefone de manivela – me chamando. Fui lá, toquei o carnaval na praia de Tamandaré. Foi uma beleza, ganhei quase dobrado do que na cidade que eu morava.

MIGRAÇÃO PARA O RIO DE JANEIRO

Cheguei para o pai e disse: "Pai, agora eu vou embora mesmo." "Ah, você não devia ir, que a gente pode fazer um negocinho aqui." Mas não tinha como, aquilo era uma ilusão dele, porque ele gostava muito de mim também. Eu já fui em Caruaru, já comprei a passagem, já estava certo. Já tinha avisado os colega do Rio, o meu irmão, que voltava. Fui pra Caruaru ia viajar como amanhã, cheguei hoje em Caruaru, de noite assisti um filme lá e fui dormir e sonhei que ia perder o ônibus de manhã, e perdi, a minha bagagem, a minha malinha lá na empresa. De manhã, cheguei, era de frente ao hotelzinho que eu estava ali, eu digo: "O ônibus que vai pra Rio e São Paulo?" "Faz uma meia hora que saiu." Corri numa praça que tem lá, aluguei um jipe. Eu digo: "Tenho que pegar um ônibus que vai aqui na frente, São Caetano, Belo Jardim ou Pesqueira, está por aí por perto." O cara soltou o jipe, cheguei lá e o ônibus estava bem na saída de Belo Jardim. O jipe parou na frente, eu paguei pro rapaz aí falei com o motorista e ele disse: "Ah, por isso que esse lugar estava vazio aqui, eu pensei que ia pegar gente lá em Arcoverde." Me sentei ali do lado do motorista, era um ônibus com porta atrás, o motor na frente, mas a porta era quase no meio do ônibus. E eu vi que ele estava sozinho no ônibus, eu digo: "E você, não vem outro motorista não?" Ele disse: "Não, esse ônibus vai pra reforma em São Paulo e eu estou indo sozinho levar. E você?" Eu digo: "Eu vou pro Rio." Ele disse: "Você não quer ir dando uma mão pra mim, você não vai gastar nada daqui pra lá." Eu digo: "É pra já." Era colocar água no radiador do carro, olhar os pneus, ver os parafusos de roda tudo. Cheguei no Rio, desci lá na Penha, na Avenida Brasil, e de lá fui lá pro quarto do meu irmão, esse que eu já tinha ficado com ele. No outro dia eu comecei a trabalhar. Cheguei aí em abril, trabalhei normal o ano todo, o inverno. Quando chegou em novembro teve uma greve violenta de trânsito lá no Rio que só funcionava os trens. Eu tinha um amigo aqui na Duque de Caxias que nós jogamos bola juntos lá na minha cidade, o Cícero. Eu estava sempre em contato com ele, me escrevia. E a minha namorada lá de Pernambuco tinha vindo pra casa da irmã dela aqui em São Paulo. Daqui ela me escreveu dizendo que estava me esperando. A vontade foi mais, era a Ivone essa daí. Aproveitei essa greve, peguei um Cometa e vim embora, desci aqui na Duque de Caxias. Encontrei o meu amigo, aí perguntei onde ficava o Carandiru, a Avenida Tiradentes, que eu ia pegar uma condução pra ir no endereço dela. Era uma sexta-feira do mês de novembro. Peguei uma condução cheia, eram 6 horas da tarde, aquilo lotado. Desci no Carandiru, bati palma e veio um cara forte. Eu digo: "Eu sou o namorado da Ivone" "Ah, você é o Walter, entra aí, entra aí." Aí entramos: "Pretende ficar por aqui ou voltar pro Rio?" Eu digo: "É, está uma greve danada lá no Rio. Eu vim ver inclusive ela e os amigos aqui de São Paulo." "Pretende ficar em São Paulo?" Eu digo: "Se eu arrumar negócio aqui, fico por aqui." Ele: "Amanhã é sábado, nós vamos ver um emprego pra você, o que você sabe fazer?" Eu digo: "De tudo, cavar terra, cobrador de ônibus, pintar, o que for." Vim com ele no sábado, do Carandiru até Santana a pé e pegamos um ônibus. Eu olhando a cidade, era tudo diferente, não existia o metrô, a Avenida Tiradentes era mais estreita, era mão e contramão somente e um jardim no meio.

SÃO PAULO ANTIGA

Era bastante rua de paralelepípedo, era bonde. O trânsito que tinha era mais bonde, na época também tinha uns ônibus. Mas eu achei estranho porque o Rio é plano, a gente ali andava de bicicleta pra lá e pra cá sem ter problema. Quando eu vi a descida ali da Prestes Maia, a Paula Souza, Senador Queiroz. TRAJETÓRIA PROFISSIONAL Eu trabalhava na Paula Souza, no 512. Um dia, dois dias depois eu estava trabalhando e o chefe lá chegou pra mim e disse que eu tinha que ir na Rua XV de Novembro e Rua Boa Vista pagar uns títulos no banco. Eu não sabia o que era nada disso, tinha um rapaz que era sobrinho dele e me ajudou bastante. Esse rapaz foi um cara 100%, o José. O nome da firma era Ribeiro Silva & Cia., portugueses. Logo nessa semana que eu trabalhei, cheguei pro chefe e disse se eu podia ir no Rio buscar minhas coisas, que eu tinha vindo pra cá com pouca coisa. "Ah, pode ir buscar." Eu digo: "Ah, amanhã é sábado, eu viajo hoje à noite e no domingo de manhã, na segunda-feira eu estou aqui já." Fui, falei com meu irmão, recebi uns trocados. Arrumei uma pensão pra morar pertinho do emprego, ficar lá na casa das pessoas, na Rua São Caetano, a dona era uma espanhola.

LAZER E tinha o trenzinho da Cantareira, tinha a Maria Fumaça que saía perto Rua João Teodoro, ia pela Cruzeiro do Sul, um ia pro Horto e o outro ia pra Guarulhos, era uma linha. Tinha a estação Carandiru, depois tinha a estação lá em cima de Santana, Parada Inglesa, Tucuruvi. No domingo era o meu divertimento, ia passear de trem, porque aqui eu não tinha amizade pra voltar a jogar bola com os amigos.

CASAMENTO

Meu concunhado disse: "Você precisa de casar." E ela querendo casar também. Logo veio 1962, fizemos um casamento rápido, no meio das famílias, porque não tinha condições financeiras pra fazer. Arrumei um cômodo de cozinha pra morar, na semana de lua de mel o cômodo de cozinha encheu, ficou um tanto assim de água, tive de mudar de lá. Depois os irmãos dela disseram: "Olha, você precisa de comprar um comodozinho, nada de morar de aluguel." Com os patrões eu já arrumei dinheiro pra pagar o comodozinho que eu comprei, lá numa baixada em Jardim Brasil, perto do parque Edu Chaves. Fiz pia, botei forro no cômodo de cozinha, passei pra frente e comprei uma casa na Vila Gustavo e o tempo foi passando.

TRAJETÓRIA PROFISSIONAL

Quando a firma começou a dançar, os sócios começaram a tirar só o dinheiro sem colocar nada. Pediram a concordata e da concordata veio a falência, nisso eu fiquei desempregado, e fui vendo aonde eu podia arrumar emprego. Fiz ficha aqui, fiz ficha ali, aí um amigo lá da Vila Gustavo disse: "Você quer trabalhar comigo no interior? vamos vender tapetes, bijuterias?" Assim, a gente saía de porta em porta nas cidades do interior. Nisso veio um desentendimento com a mulher, com a Ivone. SEPARAÇÃO Eu estava desempregado, mas eu mantinha a casa mesmo assim, batalhava de uma forma ou de outra pra não faltar nada. Chegou a separação, fizemos normalmente, amigavelmente, ela foi embora com as crianças e eu pagava pensão. Arrumei esse outro emprego na Sadia, na Paula Souza, e depositava o dinheiro. Não queria ver ela de jeito nenhum, as crianças de vez em quando, eu fui um pouco muito frio pra ver as duas crianças. Aí ela foi morar no interior.

SEGUNDO CASAMENTO

Fiquei na casa ainda que eu tinha lá na Vila Gustavo, e um dia eu chegando do futebol, eu estava na parte alta da casa. Lá embaixo tinha um córrego e do lado de lá tinha uma moça com um garoto, andando, passeando. Comecei a mexer com ela, desci pra conversar com ela. Durante esse tempo apareceram várias candidatas, que não servia, a outra já tinha filho. Foi quando eu achei que era essa, Maria, que é até hoje. O interessante é que a minha primeira mulher era da minha cidade, conheci pequenina, estudando junto comigo no colégio, conhecia a família toda. Fiquei só nove anos com ela. FILHOS Temos dois filhos: André Luís Costa e a Roberta Silva Costa que, modéstia a parte, é minha satisfação ter em casa. Então foi outra vida, outra mudança.

TRAJETÓRIA NO COMÉRCIO

Em 1968, lá na Vila Gustavo, eu estava ainda com a primeira mulher, tinha um vizinho, um rapaz 100%, que disse: "Eu vou te levar num clube do Jardim Tremembé, pra você ficar sócio e jogar bola, tomar banho de piscina." Fui com ele e já fiquei sócio, gostei, um clubezinho bem simples, pequeno também, não tinha muita coisa. Comecei a jogar bola com uns rapazes lá, fui fazendo amizade e tinha mesa de sinuca. Lá conheci um senhor careca, gordinho. Ele perguntou o que eu fazia, falei que estava trabalhando lá na Ribeiro Silva, eu ia na casa dele no sábado à tarde jogar bilhar, ele falou que tinha a loja. Era na Rua Barão de Itapetininga, 243. Eu saía, às vezes, de lá da firma, da Bruck, e ia lá tomar um cafezinho com ele. Conhecia as pessoas que trabalhavam lá, no domingo ele jogava bola comigo e a gente jogava sinuca, fizemos boa amizade. Quando eu saí da Bruck, falei pra ele: "Olha, estou desempregado." Ele disse: "Estou precisando de uma pessoa de confiança. O meu sobrinho vai sair daqui e eu queria um cara assim." No dia que eu estava indo pra loja, teve aquele incêndio do Andraus. Na hora que eu estava passando na Avenida Ipiranga, houve a explosão lá do botijão de gás.

TRAJETÓRIA NO COMÉRCIO

Fiquei lá com ele, ele botou mais empregado no outro magazine, que abriu em frente, tinha mais variedade de roupas, camisa, gravata, meia. Tinha mais coisa, calça, paletó. Era a Walter Oliveira Rocha. Era alfaiataria também. O Walter começou a desinteressar nos anos 1975, 1976. Ele vendeu para um italiano, o Lídio. O Lídio não tinha muito ambiente de balcão, ele tinha uma alfaiataria lá no prédio, interna, atendia na sala dele, e balcão é outra coisa, é lidar com quem chega, o público, a gente tem que estar com o espírito bom.

ATENDIMENTO AO CLIENTE

O atendimento de balcão tem que ter um conhecimento da pessoa, porque chega uma pessoa chata e a gente tem que atender: "Olha, eu não vou comprar hoje, mas eu quero que você me mostre." A gente enche o balcão pra mostrar, não fazendo a coisa com falsidade. Eu faço com gosto, porque eu sei que ali eu estou plantando pra colher depois.

RELAÇÃO COM O PROPRIETÁRIO

Quando o Lídio comprou, ele perguntou pra mim como era a ética da loja, como era o trabalho. Lá em cima ele tinha um tipo de trabalho e queria ver como era que a gente trabalhava lá. Eu falei pra ele assim: "Trabalho no balcão. E você? Como é que você quer que a gente faça? Trabalhamos aqui, o freguês chega, eu faço uma ficha, com o nome dele, o endereço, o telefone e essas coisas e como é que ele gosta da roupa; passo no meu livro e daqui vai pra alfaiataria com esse papel, e uma amostrinha grampeada pra nunca ter erro." Ele propôs o tipo dele. Fomos nos entendendo e tal. Ele ficou comigo, com o rapaz e ficou com um outro senhor lá da alfaiataria, porque ele precisava. Logo depois que ele comprou, antes ele ia sempre à Itália, ele fechava a alfaiataria lá em cima e dava férias pros empregados, mas não ficava muito tempo, ele ficava um mês, um mês e meio no máximo. Quando ele comprou em 1977, disse: "Agora eu vou ficar sem poder ir na Itália." E foi aumentando a clientela pra gente porque era mais fácil ali no balcão, na rua. Chegou 1985, eu digo: "Vai, se você quiser vai, a sua mãe está querendo ver você, nunca mais você foi, há mais de oito anos, e as suas irmãs também querendo ver." Em 1986, ele disse: "Eu vou, será que vai dar certo? Será que vocês vão tomar conta?” Ele foi, ficou um mês somente, mas não me ligou, ligava pra filha dele, que ele foi com a esposa. Quando voltou, estava tudo as mil maravilhas: "Ah, agora eu vou todo ano." Agora ele vai todo ano. Ficou dois meses, depois passou pra três meses. Ele foi agora e disse que o mês que vem ele vai ficar uns seis meses pra lá.

CLIENTES

Tinha muitos escritórios ali pelo centro. A maioria dos nossos clientes é italiano, turco, judeu, espanhol. Eram todos ali na Avenida São Luís, na Avenida Ipiranga, na Rua São Bento, na Boa Vista, tudo ali pelo centro. Inclusive o Citibank que era na Avenida Ipiranga e que hoje é o Credicard. Nós tínhamos uma freguesia por causa de um cliente nosso lá francês, ele levou pra gente mais ou menos uns 20, 23, 25 cliente lá do próprio banco, o Citibank. Eles iam na hora do almoço provar, e até hoje esse rapaz faz roupa com a gente. Às vezes liga lá de Paris dizendo que vem pra cá. Outros escritórios mudaram pra Santo Amaro, outro vai morar em Alphaville, deixa de morar nos Jardins, outro muda pro ABC, outro muda pra São José dos Campos, outro muda pra Campinas. Ficou mais difícil pra eles virem. Os filhos compram roupa feita, o pai quando vem faz calça esporte, não faz mais terno, porque já não está na ativa. Aparecem outros, só que é bem menos a clientela agora de que antes. De primeiro, a gente chegou a fazer 50, 60 ternos por mês. Hoje são 15, 17, 20 ternos confeccionados. FREGUESES FAMOSOS Tem o Ibraim Abi Akel, tem o João Santana, tem o Nilo Coelho, tem o General Antônio Ferreira Marques, ele é um baixotinho, um cara forte aí, deu uma força pra mim quando o filho ia fazer o exército. Temos alguns clientes lá de Brasília, tínhamos o dr. Márcio, que foi um dos que era chefe de todos os juízes de São Paulo, era filho de Franca. SÃO PAULO ANTIGA – CENTRO A Barão é a melhor rua que tem ali pra comércio. A 7 de Abril não é boa, nem a Dom José, nem a Marconi, nem, nenhuma daquelas. A melhor é Barão de Itapetininga. Nos anos 1970, nós tínhamos ali em frente a Vienense, que era uma casa de chá com música ao vivo na parte da tarde. Tinha um rapaz tocando piano, tinha um cantor, tinha um senhor com um violino e as pessoas subias ali, as famílias ricas vinham dos Jardins, vinham do Morumbi, paravam os carros ali. Tinha bonde ali na Barão. A frente do Mappin era um zigue-zague de linha de bonde, a parada principal ali era um toldo enorme. Saía pra Pinheiros, pra Vila Madalena, pra Lapa, pra Casa Verde e Consolação, que era Rua Augusta. Quem vê hoje a Avenida Faria Lima, aquilo era uma ruazinha, o nome era Rua Iguatemi, estreitinha.

REFLEXÕES SOBRE A ENTREVISTA Achei interessante, fiquei até satisfeito. Realmente, eu gostei de coração, realmente eu fiquei contente.

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