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Os sonhos que persistem

História de: Alice Calderar
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 03/04/2013

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Eu não tive muita infância, porque a gente morava na fazenda do meu avô e nessa época as crianças brincavam com latinha de pó de arroz e fazia bonequinha de milho e acabava apanhando porque tinha estragado o milho. A gente não tinha brinquedo, essas coisas. A gente ia pro pomar comer fruta, ir para o bananal, ver se havia banana madurava. O que eu lembro de infância era carnaval, que os tios se vestiam de mulheres. Não tinha maldade, nada. Eu tive sete irmãos. Eu fui uma antes da última. Naquele tempo as pessoas tinham muita criança. Meu avô teve dezessete filhos, e cada um teve uns sete filhos. Mas as crianças trabalhavam, cada um tinha a sua missão. Não tinha essa de chamar a mãe, só em último caso. O irmão mais velho é que tomava conta. Eu procurava fazer bem as minhas tarefas para não apanhar. A mãe tinha uma varinha que batia nas pernas e o pai pegava a cinta. Não podia correr, porque senão apanhava mais. Não era pra machucar, mas era do lado da fivela. E não tinha esse negócio de não poder bater em criança. Um dia eu apanhei, porque eu deixei de ir pegar a lenha, que era a minha missão. A gente tinha em casa uns jornais velhos e foi assim, com força e vontade, vendo os jornais, que eu comecei a aprender a ler e escrever. Mas depois não aprendi mais nada. Fui trabalhar em fábrica de vinho, depois de sandália. Trabalhei bastante tempo em fábricas antes de arranjar um namorado, com dezoito anos, e casar. Mas continuei trabalhando. Quando separei, fiquei sem nada. Fiquei catando areia do chão para vender. Eu vendi a minha casa, fiquei sem eira nem beira na cidade. Na época, era muito feio pessoa que desquitava, e não foi fácil para mim. Foi um amigo meu que me arranjou para empregada doméstica. Fui morar na Perdizes, perto da PUC. Lá foi meu primeiro emprego de empregada doméstica. Lá não deu muito certo e fui para Limeira, na casa de uma amiga. Mas eu era desquitada, e tinha preconceito e não deu certo também. Então foi um amigo que me arranjou emprego num hotel em Londrina. Eu tinha 35 anos e estava muito sem vida, muito magra. Foi quando eu voltei para São Paulo, e voltei a ser empregada. Cozinhei, fui empregada, passei por várias famílias até que arranjei um namorado e montamos um bar. Um barzinho pequeno, que está lá até hoje. Hoje eu não tomo mais conta, nem estou mais com este homem, mas foi um período muito bom na minha vida. Hoje, eu passo roupa para muitos fregueses. Comecei com uma, quase sem querer, e ela foi me indicando e as coisas foram acontecendo. Agora já viajei muito pelo Brasil e para o exterior também.
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