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História

Os sonhos não têm muros

História de: Aryele
Autor: Aryele
Publicado em: 23/06/2020

Sinopse

Um registro dos sentimentos ocultos da minha alma

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História completa

Quero contar um pouco sobre a eterna criança que vive dentro de mim, mas falar de infância remete uma explosão de sentimentos e sensações. Lembro-me de sempre dar cor a minha realidade, que era bem complexa. Minha mãe sempre foi um grande pilar: mãe, pai e um pouco de tudo. Fez o cabível para nos dar o seu melhor possível. Confesso que não entendia direito o quanto ela se esforçava para que sobrevivêssemos, lembro de ser muito feliz, peralta e alegre. Era comum ver os adultos falando o quanto eu era levada.

Nasci em Salvador e meus pais eram novos e em meio a muita imaturidade e por necessidades, já que minha vó tinha pegado minha irmã mais nova para criar e minha mãe sempre fez questão de ter seus filhos por perto, ela decidiu que iriamos morar em São Paulo. Ao chegar em São Paulo, com dois anos, tudo era novidade e ter minha irmã para brincar tornava tudo divertido. Morávamos, nesta época, na casa da minha vó, então minha família estava sempre por perto.

Fui crescendo e mesmo sabendo o quanto minha mãe é o meu tudo e que tinha familiares que me amavam, algo me causava muita inquietação. Sentia sempre que faltava algo. Tinha uma personalidade e uma identidade muito diferente da minha família materna. Algo que carrego comigo é o caráter e a moral que eles sempre me ensinavam, mas mesmo assim faltava algo.

Quanto mais velha eu ficava, um desejo crescia dentro de mim e expressava por meio de uma pergunta: “mãe, cadê o meu pai?”. E com gentiliza e sutileza me respondia que eram novos e meu pai era uma boa pessoa e morava na Bahia. Assim continuava com uma enxurrada de perguntas, que eram feitas diversas vezes, com uma grande frequência as mesmas perguntas.

Lembro-me que, assim como hoje, amava muito minha mãe batalhadora, guerreira, que trabalhava muito e me dava o seu melhor, mas o que mais queria não era o que ela me dava e sim sua presença. Por isso dormia grudada nela até meus dez anos, quando ela engravidou novamente e diversas outras mudanças começaram.

Enquanto isso, os pensamentos sobre o meu pai não mudavam, apenas ganhavam força. Me achava tão diferente, não parecia com ninguém que conhecia e tinha uma convicção muito forte dentro de mim que um dia eu iria conhecê-lo. Guardava todas as lembrancinhas que fazia no dia dos pais e mesmo quando minha mãe pedia, eu falava que não era dela e sim do meu pai, que iria guardar para lhe entregar.

Comecei a fazer curso e estudar e em seguida consegui meu primeiro emprego, isso me manteve por um período bastante ocupada. Me esforçava muito para manter boas notas na escola, além das dificuldades no serviço. Mas como me esforçava muito, batia a meta com frequência, por isso meus supervisores resolveram me subir de cargo. O que gerou um grande desconforto para os funcionários mais velhos e antigos da empresa.

Lembro-me de chegar exausta em casa, sem muita paciência para diálogo, acredito que não era apenas um cansaço físico, mas metal também, pois estava vivendo tanta coisa diferente além da escola. E comecei a pensar que não queria fazer algo que me desse dinheiro, mas sim que tivesse o prazer de realizar. E algo que sempre gostei de fazer é cuidar de criança. Foi quando decidi iniciar o curso de pedagogia na faculdade Carlos Drummond de Andrade, onde tinha uma bolsa de 70% e assim iniciei o curso dando continuidade ao estudo e comecei a trabalhar fazendo um estágio na área da educação.

Neste período, perguntas antigas começaram a rodear meus pensamentos. Voltei a conversar com minha mãe e perguntei: “mãe, tem problema para a senhora se um dia eu decidir procurar o meu pai?”. Ela falou novamente: “como já te contei, éramos muito novos, seu pai é uma pessoa boa, se você tomar essa decisão, eu vou te apoiar.”. Quando entrei de férias, sem comunicá-la, comprei uma passagem de ida e volta para Bahia. Quando contei para minha mãe, ela ficou muito assustada, pois nunca tinha viajado sozinha antes, isso gerou um grande desconforta para ela, mesmo assim permaneci insistindo.

Mas como sempre, ela me apoiou e me ajudou a preparar tudo para a viajem, foi uma sensação inesquecível de liberdade: achei tudo encantador. Fui recebida por alguns parentes e minha mãe tinha me passado o endereço para conhecer o meu pai. Os dias foram passando, fui conhecendo alguns pontos turísticos na cidade. E de repente fui tomada por um grande medo. Comecei a pensar sou tão feliz e se ele não quiser me conhecer? Não quero ser rejeitada. E se ele tiver uma família e ela não gostar de mim? Foram tantos questionamentos, tantos pensamentos, que foram dando lugar ao medo.

Por isso decidi que não iria mais vê-lo e no fim da viajem decidi deixar uma simples mensagem em uma das suas redes sociais, me apresentando, falando que estava indo embora e se ele tivesse interesse poderia me procurar no contato que deixei disponível, para que ele pudesse me conhecer. E assim voltei para São Paulo, senti como se a criança dentro de mim gritasse novamente, lembro-me de chorar muito, mas de achar que tomei a melhor decisão para mim.

Decidi prosseguir minha vida: terminei a faculdade e comecei a trabalhar como professora no lugar onde estou atualmente. Aos sábados eu fazia um curso de inglês. Em um dia de prova, estava bem concentrada e meu celular começou a tocar. Tocou tanto ao ponto de me preocupar e pedir para o professor para verificar. Era meu pai. Não sei se é possível encontrar palavras para definir minha sensação. Lembro-me do meu coração palpitando, de ficar assustada. Comecei uma grande conversa interna comigo mesma, falando que precisava me concentrar e tirar boas notas, pois meu curso era gratuito e por isso precisava manter boas notas.

Assim eu fiz, tremendo, com muita falta de ar e apenas um pensamento na cabeça: você consegue. Finalizei a prova e nem esperei para saber a nota. Comecei andar sem rumo até encontrar uma praça onde não tinha ninguém que conhecesse. Muito espantada, comecei a ler e ouvir cada mensagem. Nelas, ele falava o quanto me amava e que queria me conhecer e por não saber mexer muito em rede social nunca tinha visto minha mensagem e que estava realizando uma compra e ao passar o e-mail e acabou visualizando minhas massagens antigas.

Eu fiquei apática, sem reação. Já tinha apagado aquela criança esperançosa que tinha dentro de mim há algum tempo. Comecei a responde-lo e quando cheguei em casa, ele me ligou. No começo da conversa continuei sem esboçar reação, de repente ele começar a falar o quanto me ama, que me procurou a vida toda e queria muito me ver. Sentir como se essa criança dentro de mim gritasse e quisesse sair a qualquer custo. Lembro que mesmo com um muro de proteção que ergui naquele momento, minha criança interior quebrou tudo e um choro com lágrimas, muito sensível, tomou conta do meu rosto, me roubando as palavras.

Fiquei um longo período quieta, apenas chorando e ouvindo, sentindo aquela criança revivendo dentro de mim me enchendo de esperança. Me mostrando que sonhos são possíveis e que meus desejos têm sim valor. Em poucos dias meu pai veio para São Paulo conhecer a mim e a minha irmã, que não sabia da existência. Fui até meu local de trabalho, expliquei a situação e perdi para me ausentar naquele dia que iria encontrar com ele e a gestão mostrou-se muito compreensiva.

E assim nos encontramos na Avenida Paulista de forma um pouco desconfortável, pois para deixar tudo às claras já fizemos os testes de DNA, que deram positivo. Bom, estar com ele é algo indescritível e o que eu ganhei ao conhece-lo? Ganhei identidade, ganhei meu eterno amigo, uma noção maior de pertencimento, uma compreensão maior da minha trajetória, um autoconhecimento sobre quem sou. E assim como diz Rubens Alves: “Crianças são sonhos. Sob a sua mansa aparência infantil se esconde o segredo de nossa felicidade perdida. Pois não é verdade que alguma coisa se perdeu quando deixamos de ser crianças? ” (ALVES,1994, p.39).

Quero finalizar dizendo que, independentemente das circunstâncias, nunca devemos matar os sonhos que a nossa criança interna nunca deixou de acreditar.

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