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Os sonhos de Nilton: diplomacia ou biologia marinha?

História de: Lilian
Autor: Lilian
Publicado em: 06/06/2021

Sinopse

Infância, juventude, dedicação aos estudos e sonhos. Processo de mudança do Leme para a Rocinha. A construção de um prédio por pai na comunidade. Engajamento na Igreja Católica. Sonho de ser cientista e cursar biologia marinha.

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História completa

P/1 – Nilton, eu vou pedir pra você começar essa entrevista dizendo o seu nome completo, o local e a data do seu nascimento.

R – Meu nome é Nilton Leôncio Silva, nascido no antigo Estado da Guanabara, hoje é Rio de Janeiro, dia 26 de outubro de 1957, às cinco e meia da manhã no bairro de Botafogo. Por isso que eu já sou botafoguense.

P/1 – E você viveu lá em Botafogo?

R – Não, eu fui criado no Leme, vivi no Leme durante 34 anos, onde nós saímos em outubro de 1992 quando viemos pra Rocinha.

P/1 – Por nós você fala...

R – Eu, meu pai e minha mãe.

P/1 – Por que vocês vieram pra cá?

R – Meu pai era porteiro, ele já era aposentado. Nós compramos um terreno aqui na Rocinha na década de 70 e construímos um prédio. Neste prédio hoje tem eu, meu pai e minha mãe, e meus dois irmãos. Então, nós nos mudamos do Leme pra cá porque meu pai se aposentou. Mas eu continuei trabalhando normalmente onde eu sempre trabalhei.

P/1 – E vocês mesmo construíram?

R – Sim, foi um prédio que fizemos aqui no Boiadeiro, todo ele em mutirão. Na verdade é que a nossa família, o meu pai era paraibano, então, já era de trabalho, mão de obra mesmo. E minha mãe era dona de casa. Foi tudo construído pela família, com a família somente. E hoje a família inteira tá unida, acho que tem que ser assim, né, a família tem que sempre estar unida.

P/1 – Quando vocês começaram a construir esse prédio?

R– Por volta de 1982, 1980. Na década de 80. Ainda continua, como é mutirão, são quase 20 anos de trabalho. Porque faz uma coisa aqui, faz uma coisa ali. As primeiras obras que foram feitas já ficam velhas, tem que retocar a tinta. Então, é uma obra que não vai terminar nunca. Mas basicamente o prédio todo está pronto, agora são só as reformas normais de um prédio de 20 e poucos anos.

P/1 – Um prédio de quantos andares? R – São cinco andares de apartamento, um apartamento pra cada filho. O andar de baixo é a loja do meu pai, tem um minimercado, do lado meu pai alugou pra uma lanchonete, que é recente, tem um ano e dois meses. E temos o nossos terraço onde nós convivemos com nossos passarinhos, os papagaios que nós temos, com as plantações.

P/1 – Um apartamento por andar?

R – Um apartamento por andar.

P/1 – Quem mora no primeiro...

R – No primeiro andar o meu pai dividiu, aí alugou pra uma família que está lá e vendeu para uma dentista. A partir do segundo andar, eu tenho o meu irmão no segundo andar, minha irmã no terceiro andar, o meu no quarto andar eu repassei pros meus sobrinhos porque eu não preciso morar nele, por enquanto eu moro com o meu pai e minha mãe.

P/1 – Que é no último.

R – Que é no último andar. E isso sem elevador. Haja escada, haja pernas.

P/1 – Você falou que começou na década de 80, então, você já vinha muito pra cá, né?

R – É. Na verdade, como meu pai era porteiro, ele pegava o horário de almoço dele, que era de meio-dia às duas, vinha pra cá e ajudava um senhor que fez o prédio inteiro. O nome dele é o seu Aguiar. Ele fez o prédio todo. O que a família ajudava era no final de semana, nós vínhamos aqui no sábado e domingo ajudar a virar a massa, entregar os tijolos, armar realmente. Então, foi basicamente um homem só que fez o prédio todo. Só pedia que quando batesse a laje chamasse todo mundo, e nós íamos. Então, basicamente foi isso aí, meu pai trabalhava, de meio-dia às duas ele vinha pra Rocinha. Nós morávamos no Leme, nós tínhamos um apartamento de porteiro lá e na hora do almoço o meu pai vinha pra cá enquanto foi construindo. A época do Sarney foi muito importante pra gente, muito, muito. O Governo Sarney nos ajudou em uma coisa só, quando ele congelou os preços. Foi onde nós deslanchamos o prédio todo, porque eu sei que o saco de cimento que eu comprasse em fevereiro, eu podia comprar o mesmo saco de cimento, com a mesma qualidade e o mesmo preço em outubro. Então, no governo Sarney nós erguemos o prédio todo. Quando o [José] Sarney saiu, deve ter acabado o congelamento, mas o prédio estava todo pronto. Então, a coisa foi só o acabamento e estamos aí até hoje.

P/1 – Você sentiu muita diferença de mudar do Leme pra cá?

R – Rapaz, tremendamente. Primeiro que eu saí de um prédio onde só moravam judeus. Aquele prédio foi feito logo após a Segunda Guerra Mundial pelos judeus e meu pai veio da Paraíba, tem toda uma história do meu pai. Meu pai ajudou a construir o prédio e permaneceu como empregado. Tudo o que eu, Nilton, sei, de tudo, aprendi primeiro com o povo judeu. Não de ser fechado, que o povo fala, não é isso não, mas de ser consciente da própria história. E quando eu vim pra Rocinha era um mundo completamente diferente. O que falar? Porque quando eu vim pra cá, eu falo o seguinte, com 9 anos eu já sabia o que eu queria, ser Cientista, por várias razões. Com 11 anos de idade eu falei: “A partir de hoje vou estudar pra ser Diplomata”. Então, toda a minha vida de estudante foi pra ser diplomata. Diplomata mesmo, de estar servindo ao meu país. E fui crescendo, estudando, estudando, abri mão de muita coisa. Mas quando eu falo abrir mão, não me arrependo. Foi proposta de vida mesmo. Então, estudei muito. E quando vim pra Rocinha, em 1992, foi uma quebra gigantesca de paradigma. Porque não houve um desapego, eu não caía, mas não sabia com quem conversar. Eu começava a conversar com as pessoas, mas tinha um limite. Isso na década de 90. O limite de o quê falar? Como conseguir fazer com que as pessoas pudessem estar caminhando nas minhas ideias? Aí, eu fiquei de 1992 a 1998 sem falar com ninguém na Rocinha, não tinha como falar. Não tinha como falar. Mas a partir de 1998, por causa da minha Catequese, começou a mudar, aí eu comecei a conhecer a Rocinha. E hoje, então, conheço ela. As vielas, os becos, os seus problemas, e hoje eu luto pela Rocinha. Mas a minha vinda pra cá foi um pouco drástica.

P/1 – Você estudava em escola...?

R – Escola pública o tempo todo, a não ser a minha faculdade. E isso pra mim foi um grande... Entrei na faculdade em 1979, em plena Ditadura, onde tinha perseguição, essas coisas todas, mas a gente pula isso. Eu estudei na Faculdade Santa Úrsula. E eu sempre escutava uma pessoa lá do prédio, que não era de uma família judaica falou: “Filho de porteiro? Ah, vai ser porteiro também. Vai estudar três meses e não vai poder pagar”. E eu te garanto, quando eu passei pra faculdade meu pai me ajudou muito, muito mesmo. Falei: “Pai, passei pra faculdade, mas não tenho como estudar porque é caro” “O quê? O meu filho? Não, toma aqui o dinheiro de três meses. O meu filho tem que estudar uma coisa que eu não fiz”. E aí, então, completei os quatro anos de faculdade. Mas sempre naquele intuito de ser um diplomata. Só que aí estava uma época que a economia brasileira estava crescendo, década de 70, o grande milagre brasileiro, e eu segui isso. Eu trabalhava na Telerj [Telecomunicações do Rio de Janeiro], hoje a Oi, se não me engano. Entrou na minha cabeça: “Então, vou fazer Administração, quem sabe um dia eu trabalhe”. Agora, com uma mudança novamente na minha vida, no mês que vem, eu começo a fazer o que eu quero realmente, a minha Biologia Marinha, trabalhar como cientista, essa é a minha história de estudo, de trabalho.

P/1 – Só voltando um pouquinho, você falou que ficou alguns anos se adaptando à Rocinha. E você falou da Catequese, como é que foi isso?

R – Então, toda a minha vida, desde 1976, eu comecei a participar de uma igreja. Sou Católico Apostólico Romano, e quando eu vim aqui pra Rocinha, eu já tinha feito dois anos de Teologia, fiz uns cursos catequéticos da Arquidiocese do Rio de Janeiro, e eu dava aula de Catequese em uma igreja da zona sul do Rio de Janeiro, em Copacabana. E quando eu vim pra cá, a primeira instituição que eu procuraria era: “Opa, vou procurar a Igreja”. Aí, tive uma resposta que fiquei triste. “Poxa, vocês que vem de fora da Rocinha não entendem a realidade da Rocinha, e querem tentar trabalhar aqui?”. Aí eu parei, repensei: “Realmente, eu não conheço a Rocinha. Como é que eu vou começar a trabalhar, fazer um trabalho de Catequese para uma comunidade que está há anos aqui”. Verdade. Como diz o ditado, coloquei minha viola no saco e continuei fazendo meus trabalhos fora da Rocinha. Trabalhava a semana toda e no final de semana ia pra Caxias, pra Baixada Fluminense pra fazer os meus trabalhos de Pastoral, Pastoral junto com a juventude e a Catequese. Mas em 1998, o meu sobrinho entrou pra Catequese aqui na Rocinha e eu ajudava a catequista. Só que eu já conhecia a realidade da Rocinha. E interessante que a mesma pessoa que me falou em 1992, falou em 1998: “Vocês que vem de fora da Rocinha, não conhecem a realidade da Rocinha e querem tentar organizar”. Só que eu já conhecia a realidade e falei pra ela: “Mas que realidade você quer? Ficar sentado em uma cadeira e esperar todo mundo fazer as coisas? Não, nós temos que levantar e trabalhar”. Então, a partir de 1998 eu comecei a trabalhar dentro da Catequese. E isso me ajudou a poder conhecer as famílias, as pessoas, as histórias, os becos, as travessas. E aí, sim, eu comecei a conhecer a Rocinha. E hoje, pelo que eu conheço da Rocinha, enquanto comunidade, é através dessas minhas caminhadas na Pastoral, primeiro pelo lado católico, depois eu comecei a conhecer as outras religiões, as outras igrejas, e conhecendo a religião de todo mundo. Então, nesse período de 1992 a 1998 foi realmente um momento de adaptação, mas que me serviu pra muita coisa. Pra poder realmente ver a Rocinha de fora pra dentro. Talvez a pessoa quando falou isso, ela visse a Rocinha de dentro pra dentro mesmo, dentro da própria comunidade. Um dos trabalhos da igreja é ver, julgar e agir. Ver é ver a realidade. Julgar, não julgar, a palavra pejorativa, mas julgar em cima do Evangelho, independente de qual religião seja. E agir, agir dentro dessa história. E como eu via de fora pra dentro eu pude ver realmente caminhos que eram brechas muito grande que estavam sendo deixadas.

P/1 – E quais eram os problemas principais aqui na década de 90?

R – Em relação à religião ou em relação a tudo?

P/1 – Tudo que você via. Como é que você, até como catequista, via?

R – Olha só, quando a gente vai falar em relação à Igreja, à Religião, volto a falar, qualquer religião. Eu não fico só no Catolicismo, qualquer religião, até Umbanda, qualquer uma. Quando você vai falar de amor, muitas vezes você fala do respeito, respeito mútuo. Então, o grande problema foi financeiro mesmo. Um dos grandes problemas, como a gente sempre vê. Algumas classes sociais foram diminuindo. O crescimento desordenado da Rocinha foi um grande problema da década de 80, 90. Foi desenfreado realmente, a invasão das matas. Não somente a Rocinha teve esse problema, outras regiões também. E o grande problema que eu vi em relação a isso aí é que as pessoas começaram a perder a sua identidade. Começaram a ter um consumismo desenfreado: “Ah, compre Nike e seja feliz” “Pôxa, eu não comprei o sapato da Nike, então, eu não sou feliz?”. Então, esse foi um grande problema, sabe? E pra você fazer alguma coisa, tem que arregaçar as mangas, tem que ter um compromisso. E quando você vê que muitos valores vão se perdendo, muitas coisas vão sendo deixadas de lado. Hoje mesmo, o mundo é muito individualista, as pessoas estão se tornando individualistas, sempre eu, sempre eu. E a gente esquece do grupo. É aquilo que eu te falei, eu vivi em um prédio que só tinha judeu. Como tinha problemas de levar meus amigos pra lá porque era um prédio fechado, muito obscuro. E quando eu vim aqui e vi essa liberdade...

P/1 – Nilton, você falou que o prédio onde você mora, a sua casa, foi construído meio no sistema de mutirão. E era comum, ainda é? Pessoas, mesmo vizinhos participavam?

R – É, só participava no momento que ia bater a laje, daí nós chamávamos. E eu achava engraçado porque o povo era movido à cachaça. Cara, isso eu achava engraçado. Porque o que a gente fazia? Vamos bater laje. Então, a gente chamava o pessoal e o pessoal era da farofa, da linguiça e da caipirinha. Mas sabe o que era uma coisa boa? No final de bater laje, aí sim, que vinha uma coisa gostosa. Minha mãe preparava uma grande feijoada com tudo que tem direito. E aí, a gente bateu a laje, a gente fica por baixo da laje, no andar de baixo, onde nós comíamos. Aí, ficava duas, três horas conversando. Isso foi uma coisa muito boa. Só no bater laje que chamávamos essas pessoas, no restante era uma única pessoa, como eu falei no início, o seu Aguiar.

P/1 – E ainda hoje tem muito essa coisa desse mutirão pra bater laje?

R – Aqui na Rocinha? Tem muito. Muito. Isso que eu acho muito interessante, é até uma coisa que vai de encontro sobre aquilo que eu falei, o individualismo, né? Porque quando você vai bater laje, que engraçado como as coisas são. Você vê realmente que as pessoas se reúnem pra bater uma laje, pra conversar. Isso do bater laje. Porque o interessante é o seguinte: eu fiz o censo aqui em 2000. E uma coisa que eu achei interessante, vamos ver. A maioria é de nordestinos e quando eu fiz o censo, eu via que os estados estavam presentes aqui na Rocinha, o grupo dos cearenses estavam aqui, os grupos dos paraibanos estavam ao lado, então, eles não se misturavam. Porque normalmente vinham amigos, parentes, e moravam sempre na mesma região. E aí, eles vão sempre se ajudando. Então, bater laje, você vê que realmente é um grupo todo. Vai de encontro àquilo que eu falei de individualismo, mesmo que muitas vezes já existe o individualismo, mas quando se bate laje, aí realmente... Acho interessante, acho bonito.

P/1 – Ainda existe, né?

R – Ainda existe.

P/1 – Nilton, além dessa sua participação, seu envolvimento na Igreja, você já participou de algum outro tipo de movimento, de ação coletiva, de uma outra organização?

R – Dentro da Rocinha?

P/1 – É.

R – O pessoal sempre me chama quando vai fazer o trabalho de Tuberculose. Isso é uma coisa preocupante aqui na Rocinha. Sempre que tem algum trabalho, algum evento, eu vou sempre, sempre que eu posso ir, eu estou presente. A cultura em si, me chamam muito.

P/1 – Movimento político?

R – Não. Coisa política, não. Eu sei que um ramo da minha família tem a parte política, é uma parte que eu não entro muito porque se eu entrar pra política, quero trabalhar pra fazer aquilo que eu quero, aquilo que o Nilton pensa, não o que as pessoas pensam. Como não vai de encontro ao que eu penso eu não participo. Mas podem me chamar pra trabalhar, mas não pra entrar de cabeça na política. Mas eu vou politizando, não indico candidato, indico o que deve ser feito na Rocinha, e é quando as pessoas podem ter consciência de ver seus candidatos. Mas que venham todos, se for para o benefício da Rocinha, que venham todos.

P/1 – Mas você já foi convidado alguma vez?

R – Não. As pessoas falam assim: “Nilton, você não quer ser vereador pela Rocinha? Você conhece tanta gente” “Não”. Trabalho pelo crescimento da Rocinha, mas entrar para a Política, não. Eu sou muito categórico.

P/1 – Nilton, você acha que o acesso à moradia é um dos principais problemas da Rocinha?

R – Isso é um problema porque a gente vê... Temos muitas casas aqui na Rocinha, muitas casas, e esse aglomerado de pessoas, casas. Você abre a sua janela, dá de cara com uma outra janela a menos de um palmo. Aí traz grandes problemas, doenças, o saneamento básico. E o problema das residências está aí, elas estão cada vez menores e é muito caro. Eu acho que aqui na Rocinha o aluguel é muito caro para o que é isso aqui. Mas eu vejo que tem um problema sim porque vão crescendo, não horizontal, mas verticalmente, e aí, começa a dar problemas com meio ambiente, essas coisas todas. Mas acho que em relação a valores porque você aluga uma casa aqui, um apartamento, quitinete, que não sei o que significa muito, se é um quarto com uma sala ou um quarto com banheiro. Poxa, 500 reais, onde um salário mínimo é 500 reais. Quando eu fiz o censo aqui na Rocinha, eu fiz uma entrevista numa casa do tamanho disso daqui, onde tinham cinco beliches. Se tem cinco beliches, tem dez pessoas morando. Só que ali moravam 20 pessoas. Eu quis questionar, como é que podem morar 20 pessoas aqui se só tem dez beliches? “É o seguinte Nilton, temos dois grupos de trabalho, os que trabalham à noite e os que trabalham de dia. Dez pessoas trabalham à noite e vão dormir de dia. E dez pessoas trabalham de dia e dormem à noite. Então, revezamento de cama”. Isso eu achei meio estranho, como pode isso? Isso é um grande problema, são casas pequenas, mais ou menos, e com muita gente morando. E o aluguel que eu acho uma fortuna.

P/1 – Nilton, em que você trabalha atualmente?

R – Hoje estou no Sebrae, que é o Serviço de Apoio às Pequenas e Micro Empresas no Rio de Janeiro. Mas aqui na Rocinha nós trabalhamos com projetos. Um projeto de desenvolvimento, nós não vamos ensinar ninguém a trabalhar, não vamos ensinar ninguém a fazer artesanato, mas baseado no que eles sabem fazer, fazer com que eles tenham a renda deles, o trabalho deles de ganhar o sustento deles. Nós temos um projeto muito grande chamado Rocinha Empreendedora, onde nós estamos trabalhando com três grandes blocos, que são: Comércio, Serviço e Turismo, Artesanato e Meio Ambiente, Cultura e Esporte. O que é isso? O que eles fazem de melhor em cada segmento, desenvolver o trabalho. Agora vamos começar também um trabalho com os jovens, chamado Jovens Empreendedores, pra começar a fazer com que os jovens tenham o empreendimento, eles vão estudando, mas no futuro, “O que eu quero ser realmente”? A partir de agora vamos fazer esse empreendimento com os jovens, trabalhar a liderança que eles tem, ver como ser líder. Não somente isso, mas começar a empreender a própria vida, né? Por enquanto é só isso. Aí, mês que vem estarei terminando esse trabalho depois de oito anos e aí, vou almejar novos rumos, novos caminhos.

P/1 – E você estava me dizendo que vai mudar daqui.

R – Eu vou sair do Sebrae, mas vou continuar morando na Rocinha. Pelo menos por este momento, depois estou indo lá pro Nordeste. Mas não sei, não tem mais como esquecer Rocinha, cara. Está muito enraizado, já.

P/1 – Como é que você vê o seu futuro?

R – Rapaz, eu vejo o meu futuro como um biólogo. Como eu falei, vou fazer Biologia Marinha, e eu vejo o meu futuro, sei lá, morando em Fernando de Noronha pode ser um futuro? Pode ser. Rever a minha casinha que tem uns cinco anos que eu não vejo. Mas eu vejo o meu futuro como continuando sendo um grande trabalhador, viver, continuar a trabalhar com os jovens, as crianças, fazer esse trabalho por aí.

P/1 – Você acha que é possível mudar a realidade?

R – Não. Pra você poder mudar a realidade, primeiro você tem que mudar o pensamento das pessoas, não mudar “o” pensamento, mas as ações das pessoas. A realidade vai continuar eternamente. Agora, o que você pode tentar organizar mesmo, orientar, é fazer com que as pessoas mudem o comportamento. Tem como acabar com o lixo no mundo? Não. Mas tem como você fazer com que as pessoas coloquem o lixo no seu devido lugar. E trabalhar bem o lixo, porque o lixo é muito rico, no Brasil o lixo é muito rico e a gente não sabe aproveitar. Agora, como você falou, mudar a realidade? Nunca. Se mudássemos a realidade, seríamos sempre marionetes, que você leva pra onde eles querem. Mas não temos o dever de fazer isso com ninguém. Agora, fazer com que a gente mude o comportamento, aí é capaz de tentar mudar alguma coisa. Eu sempre tenho uma frase que foi perguntada pro Einstein: “Doutor, como vai ser a Terceira Guerra Mundial?” ‘Ah, Terceira Guerra Mundial eu não sei, não, mas a Quarta, eu sei como é que é, a pau e pedra. Houve uma involução”. Eu não acredito nisso não porque o mundo, de repente, acordou e começou a deslanchar, mas nós temos que mudar nosso comportamento e ver coisa que podemos fazer pra crescer. Aí, sim, a realidade não vai mudar, mas a história pode tomar outro rumo, que vai subir cada vez mais. Isso sim.

P/1 – E Nilton, pra terminar, você gostaria de falar alguma coisa que eu talvez não tenha perguntado e queria deixar registrado?

R – Primeira coisa: lutemos pra nossa felicidade, isso é uma coisa que a gente faz. Sempre falo, e tudo o que eu escrevo eu falo isso, que não sejamos arquipélagos humanos onde vivemos isoladamente, mas que possamos viver. Acho que tudo que a gente vai fazer é ter a certeza que os sonhos vão se realizar. E seguir em frente, não tem como voltar pra trás. Que a página virada sirva de exemplo, de base, pro nosso futuro. Agora, parar, olhar pra trás, aí seremos caranguejos, não, siga em frente, siga em frente. Vamos seguindo. Só isso.

 

---FIM DA ENTREVISTA---

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