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História

Os prazeres da vida e os percalços da saúde

História de: Inês Santa Cruz Tavares
Autor:
Publicado em: 05/02/2021

Sinopse

Infância em Campina Grande; Fez teatro e várias apresentações; Morou em Recife, Salvador, João Pessoa e São Paulo. Infância; presente de Natal; Boneca Suzy; Autoestima; Conheceu Gilberto Gil; Aproveitou muito a juventude, os bares de Olinda. Morou em repúblicas. Estudou e se formou em Salvador. Abortou; Casou; engravidou com 22 anos. Teve uma filha. Separou. Foi morar em São Paulo. Trabalhou com produção cultural e pesquisa de mercado. Passou por um câncer de tireoide; Com a vida mais tranquila e sem estresse, as taxas baixaram depois que foi morar na Chapada da Diamantina.

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História completa

Nasci em Campina Grande, em 4 de abril de 1959, fui fruto da reconciliação dos meus pais durante a Copa do Mundo de 58. Meu pai era jornalista, poeta, não tinha formação escolar e era super intelectual, e minha mãe veio de uma fazenda, agricultura, era uma família enorme. Ela ajudava o pai na fazenda, foi criada em fazenda, cabeça aberta, completamente diferente. Sorte minha! não tive pais com muito juízo. Na minha casa havia muita boemia, farras, festas. Tinha uma pessoa muito importante: uma tia solteira, fiquei muito tempo com ela, era a queridinha dela, assim como meu irmão. Na infância, ficava um pouco na tia, na casa da mãe. A casa da tia era do lado da penitenciária, e tinha uma escola perto. Minha tia me ensinava muita coisa e comprou todo o material para a primeira escola, quando eu cheguei falei para algumas meninas: “eu sei todo o analfabeto todinho”, as amigas riram e eu não quis mais voltar na escola. Ela perdeu o investimento todinho. Brincava brincadeiras de rua. “Eu era sempre a bobona”, porque era superprotegida pela tia. Nunca soube subir à árvore, eu era a bestona. A vida era difícil, eu cheguei numa fase melhor, mas era uma batalha. Sempre tive educação e alimentação, mas não ganhava presente de natal, a gente não tinha grana. Eu vestia a minha roupa melhor no natal, mas não era nova, e minha mãe me dizia: “você está linda”, o vestido não é o mais importante. Ali começou o meu treinamento de autoestima. No dia que ganhei uma boneca suzy, foi a glória Saía com meus irmãos na juventude, fazia teatro... fui para Fazenda Nova - tinha um grande festival, não é toda mãe que deixava. Fui para Ouro preto com o grupo de teatro. Eu tive muito liberdade, eu ia pra boteco com os meus irmãos. Eu era amiga dos meninos, as meninas da escola me olhavam atravessado. Minha adolescência era muito rica de vivências e curtições, ia para festival de teatro e dormiam na porta do teatro, uma semana, era uma loucura. Em Campina Grande eu era muito envolvida nas coisas culturais. A gente vivia no teatro, e chegamos lá e conhecemos o Gil, pessoal do Gil, ele foi lá anunciar que o show ia ser no outro dia, tal. Aí fizemos amizade, tem um bar lá que chama Refavela, um bar que a gente frequentava muito. Aí a gente: “Gil, a gente quer levar pra conhecer”. Bom, resultado: passamos a noite inteira bebendo e tocando com Gil nesse bar. Quatro horas da manhã, quatro pra cinco, amanhecendo o dia, veio esse casal amigo eu e Gil, deixa ele no hotel. A gente veio deixar ele no hotel, e eu cantando uma música dele que ele não lembrava, ele não conseguia lembrar, eu ensinando a música a ele, uma coisa muito engraçada.. eu acho que era ‘O Barão do Café’. Eu sempre fui bem namoradeira. Aí quando eu era adolescente, bem jovem mesmo, eu ia pra Serra Branca, que é um lugar que tem no Cariri paraibano, tinha uma tia que morava lá. Eu ia pras festas das quermesses, das festas que tinha em dezembro, então eu era assim um sucesso, toda, chegava da cidade, tinha um negócio de prender lá nas quermesses, pros meninos pagar pra soltar. E lá eu tive um primeiro namorado. O primeiro namorado de dar um beijo, de pegar na mão, de dar um beijo e tal. Aí teve esse primeiro namorado. Aí depois, nesses anos que eu falo de Campina Grande, de 16, eu acho que transei pela primeira vez com 17 anos. Mas assim antes era aquela coisa, a gente namorava, e fazia tudo, só não fazia transar mesmo, chegar às vias de fato. Eu já cheguei a fazer aborto, mas mais pra frente. Eu fiz mais de um, foram situações diferentes. Mas foi assim, eu não tive problema não, eu tinha medo do procedimento, mas assim, quando eu fui morar em Recife, aí eu fui com a pessoa pro Rio, o companheiro que eu tava na época foi pro Rio e fiz no Rio. Eu nunca fiz, eu sempre fiz a coisa mais segura possível. Eu acho que o aborto não pode ser irresponsável, de virar um contraceptivo. Tem que ter responsabilidade, mas às vezes acontece, ou por algum lapso de responsabilidade mesmo, ou por um azar da vida, acontece, eu acho que você tem direito, eu que tenho que decidir, não tenho problema não, claro que não é nada agradável você passar por isso, mas eu fiz com tranquilidade, não tenho sentimento de culpa, de nada não, é isso, o corpo é meu e eu faço como quiser. Fiz ensino médio em Campina Grande e vestibular em Recife, com a irmã. primeiro dia de aula a faculdade entrou em greve, porque um aluno tinha sido preso. Orgulhosamente eu fui a primeira a passar. Aí eu fui pra Recife, uma nova fase, anos 70 Recife era só alegria. Eu nunca gostei de militância, não tinha muita paciência, mas eu participava ativamente na produção dos eventos, das coisas culturais. 78 e 79 recife estava fervilhando. Namorava com um professor de Campina, era engajada. Morava num lugar que era rota dos aviões. quando chegou o avião com os anistiados. na hora que o avião passou em cima, você não tem ideia da emoção. Ia para Olinda, era uma loucura. ia para os bares, chegava a polícia de madrugada, colocava todo mundo na parede, era normal. Ia pra casa cada semana com um rapaz diferente. Fiquei um ano e meio em Recife, chegou uma época que eu tava cansada da farra, ai voltei pra casa da minha mãe, transferi o curso. Fui morar junto de um amigo do irmão e começamos a namorar e tivemos um casamento aberto, por sugestão dele. Ficamos 5 anos juntos, temos uma filha. E foi ótimo, nunca teve briga, era só que era um casamento aberto por sugestão dele, Aí chegou uma época que eu me apaixonei por outra pessoa e foi isso. Fiz faculdade, me formei e comecei a trabalhar em Salvador. Fazia tabela, era essa a onda da época. Foi nessa história que engravidei. Era estudante, tinha 22 anos, trabalhava na secretaria de planejamento do estado, era estagiária. Já tinha um quarto na república. Ela ia nascer lá, mas Luana nasceu em Natal, num sábado de carnaval. Luana odeia ter nascido em Natal, ela queria nascer em Salvador, mas foi a minha sorte, porque ela nasceu em um sábado de carnaval. Imagina eu, sem estrutura nenhuma, sem rede de apoio, em Salvador, num sábado de carnaval, ia ser uma loucura. Então ela nasceu lá. Mas assim, era aquela batalha mesmo, levava pra faculdade às vezes, restaurante universitário. Aí depois eu segui a mesma coisa da minha mãe, dos meus pais, de priorizar a educação. Meu marido ajudava, lavava as fraldas de pano… a gente levava pra faculdade, pra restaurante universitário, porque eu não tinha rede de apoio lá. Separei quando Luana tinha uns 4 anos. Aí fui morar com outra pessoa, que era o meu chefe. Depois separei e fui com Luana para São Paulo. Trabalhei numa empresa de pesquisa, a Teorema, começou e fui ficando, depois fui contratada como analista, era uma batalha, sozinha com uma filha pequena. Voltei pra Campinas Grande, porque minha mãe ficou doente. Comecei a fazer produção de shows. Minha filha começou a carreira de modelo - e foi outra oportunidade de trabalhar em São Paulo. A mesma empresa a convidou para voltar a trabalhar lá novamente. Depois minha mãe morreu e meu pai também. O ambiente de trabalho não era bom, era cruel, tudo para ontem. Eu tenho um temperamento que eu não era muito subalterna, então eu questionava se eu errei de profissão, mas agora já foi. Vivia com muito stress, e fui ser freelancer e no mesmo ano meu neto nasceu. Aproveitei que tinha um bom convênio médico e fui fazer um check up, a ginecologista pediu um exame de tireóide. No exame deu um nódulo, e fez a pulsão. E também apareceu na mama, e também fez pulsão e quando foi ver, era câncer na tireóide. Fiquei feliz que só tinha um câncer, e era o mais simples, sendo que ela tinha chance de ter dois. Fiz a cirurgia, bem simples. O próximo passo era iodoterapia, mas sentia que tinha algo errado na garganta. A iodoterapia foi a coisa mais traumática de todo o tratamento. Fui ao médico e tinha dado metástase. Na segunda cirurgia tive que abrir o pescoço inteiro. Tinha uma grande probabilidade de perder a voz e também descobri o tamanho do preconceito com o câncer. Acordei da anestesia com a notícia de que tinham conseguido perceber as cordas vocais. “Eu tô chorando porque eu me dei conta que eu to viva”. A recuperação foi difícil. Fazia sempre exame de corpo inteiro e as taxas não estabilizaram, então perceberam que o mental estava interferindo no físico. O médico recomendou que saísse de São Paulo, e foi muito triste se separar da filha e dos netos. Fui morar na Chapada Diamantina, fiz um check up geral e pela primeira vez, em 10 anos, o exame deu um bom resultado. O meu emocional está muito ligado com o físico. É uma transformação de vida, qualidade de vida. ar puro, comida orgânica… já mandou o comando pro cérebro de que não é mais para ter câncer. Não sente falta de nada. Todo dia me emociono com a natureza no final do dia.

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