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História

Os muitos ofícios de Dé

História de:
Autor: Ana Paula
Publicado em: 15/06/2021

Sinopse

Dé relata como foi sua infância e juventude em Eunápolis com os avós, o retorno à casa paterna, o início de suas experiências como pescador e as atividades desempenhadas até ser elevado como um líder local. Ao narrar sua vida, Dé conta sua história de amor com a esposa Kátia e da amizade impulsionadora com Afonso, expondo algumas de suas peripécias pessoais e profissionais.

História completa

Projeto Santa Cruz Cabrália Realização Instituto Museu da Pessoa Entrevista de Adeildo da Conceição Lacerda Entrevistado por Márcia Trezza e Sarah Faleiros Santa Cruz Cabrália, BA, 01 de Setembro de 2012 Código: SCCB_HV015 Transcrito por Flávia Cristina Bueno Viana Revisado por Juliane Roberta Santos Moreira P/1 - Qual seu nome completo? R - Meu nome é Adeildo da Conceição Lacerda. P/1 - E você nasceu onde Adeildo? R - Eu nasci em Porto Seguro. P/1 - Quando? R - Em 1976, 29 de fevereiro. P/1 - 29 de fevereiro? R - Isso. P/1 - E como é que você faz com essa data de aniversário? R - É [risos], eu praticamente é 4 em 4 anos né, aí quando dá esses 4 anos eu faço no dia 29, quando não dá eu faço no dia primeiro, ou no dia 28 [risos]. P/1 - E você tem um apelido? R - Tenho, o pessoal aqui me conhece como Dé. P/1 - Quem que te chamou pela primeira vez de Dé? Você lembra? R - Olha...eu acho que não lembro não, mas praticamente deve ser meus pais né, acho que alguns parentes meus. P/1 - Ah, desde criança então você tem esse apelido? R - É, desde criança. P/1 - E o nome dos seus pais, qual é? R - Antônio Frederico Barbosa. P/1 - E sua mãe? R - Leusa Maria da Conceição. P/1 - Eles são descendentes de... qual a origem deles? R- Olha, minha mãe é de origem indígena, eu sei que ela é índia e meu pai também. P/1 - Os dois? R - Os dois. P/1 - Eles também eram de Porto Seguro? R - É dessa região. P/1 - E qual é a região? R - Entre Porto Seguro e a região de Eunápolis, né, e daí vieram para Santo Antônio. P/1 - Onápolis? R - Eunápolis. P/1 - A sua infância você passou nesse lugar? R - É, a infância foi. Porque assim, eu nasci em Porto Seguro, aí vim para Santo Antônio, e aos três anos de idade, meu pai como não tinha muita condição por ter 12 filhos, né, eu acho que eu fui o favorito, ou sei lá, eu fui escolhido para morar com minha avó. Aí, com três anos de idade eu fui embora, fui morar em Eunápolis, eu fui lá estudei, tal, forçado dali, fui ficando rapazinho. P/1 - Então antes de você ir morar com sua avó, você morou com seus pais até uns três anos? R - Três anos de idade. P/1- E como você falaria do seu pai, descreveria seu pai, como que ele é? R - Na idade de três anos? P/1 - Se você lembrar, sim! R - Praticamente eu não tenho lembrança não, assim... P/1 - E depois? R - Depois eu tenho lembranças com seis anos de idade, eu tenho lembrança, porque ele ia sempre lá, pois me via e tal, né, era sempre uma pessoa que visitava a mãe dele e o pai para ver toda família. E sempre: “Rapaz, você não está com vontade de ir embora não, vai comigo?” E eu: “Não, eu vou estudar.” Tanto que os irmãos dele, meu pai, uns são professores, e minha avó trabalha num colégio, né, e meu avô também, era vigia e ela zeladora do colégio, então ela precisava de uma pessoa lá para ficar, e ela já era de idade, então eu fui crescendo ali junto dela, e comecei a trabalhar também ali no colégio, que ela como zeladora, ela vendia algumas coisas no colégio, né, como pastéis, sonho, geladinho, então ela achou que eu poderia ajudar. P/1 - E seu avô era o vigia? R - Era o vigia, porteiro. P/1 - Você cresceu com eles então? R - Cresci com eles. P/1 - E quando seu pai ia te visitar, que lembrança você guarda dessas visitas, de quando ele ia lá? R - Bom, a lembrança que eu tenho assim, que ele ia, mas não dava muito, porque ele não tinha aquela condição toda, por ter 12 filhos, né, eu acharia que ele ia lá em Eunápolis “apertado”, saia daqui já ia “apertado”, era rápido também, então não ficava três, quatro dias não, ia num pé, voltava no outro. P/1 - E sua mãe? P/2 - Você ia visitar ele na aldeia? R - Não, eles não moravam na aldeia, a aldeia era aqui, porque era menor né, Santo Antônio. P/2 - Mas você ia visitar a casa deles? R - Eu só visitava a partir dos dez anos de idade, aí eu comecei a visitar assim nas férias, eu comecei a pedir à minha avó para conhecer aqui Santo Antônio, eu pedia para vir, e ela: “Ó, você só vai nas férias e volta” então ela se apegou muito comigo, “Então você vai e volta”, aí um belo dia eu fui e não voltei mais. P/1 - Então voltando um pouquinho, e da sua mãe, que lembranças você tem dela? R - A lembrança é bem mais pouca do que meu pai, porque sempre quando dava ele ia só, né, por causa da renda e tal, e sempre ela ficava, então a lembrança é bem mais pouca. P/1 - E dos seus avós? R - Ah, dos meus avós são maravilhosas. P/1 - Como você descreve seu avô? R - Ah, meu avô era uma pessoa nota dez, assim, por eu morar com eles, eu acho o que eles tinham para me oferecer, eu acho que estava de bom tamanho, porque era uma pessoa humilde e eu via que como eles trabalhavam no colégio, né, era assalariado na época, então eles não tinham muitas coisas para oferecer. Aí também, só que daí na casa da minha avó tinha meu tio, minha tia, e um outro tio meu que morava lá também, aí conheceu um amigo lá que era vizinho, eles começaram a se conhecer, que hoje eles têm filhos e são marido e mulher, só que meu avô, eu lembro muito dessa passagem, meu avô era muito, ele pegava e dizia: “Ó, tudo bem sua tia vai namorar com esse aqui, mas ‘ocê’ vai ficar no meio, que é para não dar beijo não”, então eu ficava ali no meio, ficava o rapaz aqui e minha tia do outro lado, eu chegava a cochilar, dormia, poxa, e ele: “‘Ocê’ não sai não.” “‘Pô’, meu avô, eu quero dormir.” “Não, você não sai não, você vai ficar aí”. O tempo foi passando e ele achou de me comprar com bala, né, vou tirar ele do meio aqui com bala, ele me dava bala e eu saía do meio, até que minha avó descobriu, foi nessa parte que chamaram ele e disse: “Ó, já que Dé não fica nesse meio é porque alguma coisa de grave vai acontecer ou pode acontecer, então vamos marcar logo o noivado aí.” Foi aí que me tirou desse meio [risos], mas uns dois anos nessa pendenga aí [risos]. P/2 - Quantos anos você tinha? R - Eu tinha ‘uma meia’ de 10, 11 anos por aí, no meio ali, depois quando eu fiquei com 13 anos já conheci Santo Antônio, era maiorzinho, eu conheci o irmão do namorado da minha tia, que era vizinho, mas ele era demais o camarada, ele falava assim: “Ó, eu vou mentir para sua avó, vou mentir”, porque em Eunápolis como ele tinha um irmão mais velho que era policial, ele disse: “Então a gente faz o seguinte: ele libera a gente para ir na festa.” Aí eu falei: “Mas rapaz eu não tenho roupa para ir na festa”, que minha avó gostava que eu usasse a meia até aqui, uma meia listrada, parecia a zebrazinha de azul e branco e na época era uma Conga que chamava de Kichute e um short. Aí eu digo: “Rapaz, eu não vou para festa desse jeito não” e ele falou assim: “Rapaz, eu vou preparar tudo.” Meu amigo falou: “Eu pego uma calça do meu irmão” e eu digo: “Mas não vai dar.” E ele disse: “Não tem problema, vai assim mesmo, melhor do que essa roupa que você está.” Eu digo: “Tudo bem, vamos encarar” e ele: “Mas eu vou dizer para sua avó que nós vamos para a igreja.” E falaram com ela: “Olha eu vim aqui que nós vamos levar Dé para a igreja e a senhora vai liberar ele aí.” E ela: “Ah sim para igreja tudo bem. Eu vou deixar a porta aberta e quando ele vier, estou dormindo e ele abre a porta.” aí tudo bem, quando ele pedia, eu entrava na casa do meu colega, o vizinho, já estava lá na cama a calça, a camisa e um tênis. Agora, a calça não dava em mim, era muito grande [risos], ele fica dando risada. A camisa também não dava e ele puxava o cinto e a gente amarrava dali, suspendia até aqui mais ou menos e calçava o sapato também, que eu não queria o Kichute e calçava o sapato que o número não era o meu, era quase um 44, pronto; me enfeitava todo e ia para a festa. Eu achei que estava abafando [risos]; quando eu chegava, tirava tudo, era doze horas mais ou menos, chegava e tirava toda a roupa e vestia. Eu só via quando eu entrava em casa abria a porta, ela estava encostada, né, aí ela: “Já chegou?” e eu digo: “Já, minha avó”. “Então pode dormir” e eu dormia. “Orou bastante?” “Orei, oh como eu orei” e a gente foi várias vezes. P/1 - Várias vezes?! E na festa você realmente fazia sucesso com essa roupa? R - Olha, sucesso eu não sei se fazia, mas eu sei que era bastante engraçado, eu acho que estava abafando ali, mas... P/1 - Dé e como eram essas festas que você ia? R - Ah, era balada, e assim, a gente como saía mais cedo, a gente tinha o matinê que era o horário de criança, e como esse meu amigo era irmão de um policial, então ele deixava a gente sempre num cantinho. Mas ali a gente usava um vasinho de refrigerante e tinha um pouquinho de cerveja dentro, a gente bebia, mas bebia bem pouco, porque ele sempre estava ali: “Ó, já está na hora de ir embora'” e a gente vinha embora. P/1 - E dançava nessas festas? R - Dançava sim, antigamente era aquela lambada, né, essas coisas. O nome da boate eu não me esqueço até hoje, chamava de Discovery. P/1 - E você dançava bastante? R - Dançava bastante, parecendo um pinguim, mas dançava com essa roupa [risos]. P/2 - Você sempre usava a mesma roupa? R - Não, eu sempre...assim, a roupa não dava em mim, mas a gente variava de roupa, que ele ia lá no armário do irmão dele e pegava. “Arruma essa aí para Dé.” “Tudo bem, eu estou falando que não dá, já que ele quer vestir, problema é dele” e eu achava que a roupa de minha avó estaria feia para mim, que era uma meia e um Kichute, então eu vestia aquela roupa mesmo. P/1 - Dé, voltando um pouco quando você era mais criança, você brincava com quem nessa fase? R - Olha quando eu era mais criança, na fase eu conhecia esse pessoal na idade de cinco anos, na rua da gente batia bastante bola, na verdade, juntou um grupo que era eu, esse rapaz, e o outro irmão dele, então ele falava assim: “Olha quando você crescer, você quer ser o quê?” A gente jogando bola, né, e o outro falava: “Olha, eu vou querer ser jogador de futebol, vou ser goleiro” e o outro “Ah não, eu vou ser policial.” E eu digo “Rapaz, eu não sei o que eu vou ser ainda não”, na verdade porque eles tinham um mérito de vida, um padrão de vida melhor do que o da gente, o pai dele era agente do Ibama [Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis]. Então sempre teve uma criação melhor, e eu ficava sempre focado na casa deles, quando eu saía do colégio não ia para casa da minha avó, eu ficava na casa deles, minha avó tinha que me chamar, dava seis horas, sete horas eu estava dentro da casa deles. P/1 - E quantos eram? Quantos meninos dessa casa? R - Os meninos, assim, da minha idade tinha dois, mas teria quatro que já eram mais velhos, um era policial, o outro trabalhava na Prefeitura na época, tanto que eu conheço todos eles hoje. P/1 - Além de você jogar bola, vocês brincavam de alguma outra coisa? R- Aí a gente foi crescendo mais um pouquinho e começou a juntar o esconde-esconde, né, que era com as vizinhas, as meninas, aquelas brincadeiras, e peteca essas coisas. P/1 - Dessa época de criança, mesmo um pouquinho maior, você lembra de algum acontecimento assim também, ou engraçado, inesquecível mesmo? R - Não, o que eu acho mais engraçado, que eu sempre falo para minha esposa e conto para o pessoal, assim, o que eu achava mais engraçado não foi quando eu era pequeno, que eu não lembro, mas a fase que eu lembro é quando ela falava assim, minha avó falava assim: “Ó, para gerar renda maior em casa você vai ter que sábado e domingo vender sonho.” Aí eu digo: “E agora o bicho vai pegar aí, vender sonho e tal” e nessas festas eu já tinha conhecido umas garotinhas, e eu digo: “Ah não, vender sonho, minha avó?” E ela: “Tu vai botar a panela na cabeça e vai vender sonho” e eu digo: “É, tudo bem!'' Fui a primeira vez, as meninas passavam, o pessoal passava e falava assim: "Ah, você vendendo sonho, rapaz? Vamos comer esse sonho, vamos jogar fora, vamos jogar bola.” E eu digo: “Não, mas eu tenho que levar o dinheiro para minha avó, porque senão como eu vou prestar contas lá?”. Aí um belo dia esse meu amigo falou assim: “Olha, tem um jeito para você” e digo: “O que?” Minha avó gostava muito de... por exemplo, de segunda a sexta ela ia me dando, hoje na faixa de um real: “Vou te dar um real hoje, amanhã eu te dou outro para você ir na escola.” Aí ele falou assim: “Esses reais você está gastando?” E eu digo: “Estou!” E ele: “Não gaste não, conta quantos sonhos ela põe na bandeja e você junta o dinheiro. Quando for sábado e domingo que você vendeu o sonho, você não vai vender, você vai estar com o dinheiro, a gente come o sonho que tiver, dá o sonho e joga o sonho fora e aí aquele dinheiro que você está, que ela deu a semana toda vai bater certinho. Você devolve o dinheiro a ela, quando for segunda-feira ela vai começar a te dar de novo.” E eu digo: “Está certo! Então vamos tentar.” Aí ela fritava todo sonho, levantava cedo, me acordava, eu “botava” a panela na cabeça, e saía. Quando chegava, ele estava lá na frente: “Bora' comer o sonho.” Nós jogávamos bola, largávamos a panela do sonho no chão, nós comíamos o sonho, brincava o dia todinho e comendo sonho, nem almoçava, só comendo sonho eu e ele e dava. Quando nós não aguentamos, nós cavávamos um buraco e enterrava o sonho. Aí ele disse: “Mas você está com o dinheiro, né?” E eu disse: “Não, eu estou com o dinheiro, eu não gastei”. Todo dia ela me dava o dinheiro, então eu juntei, fazia a matemática e deu tanto. “Você entrega a ela”. E eu chegava de tarde: “E aí meu neto, você vendeu o sonho?” “Vendi minha avó, vendi o sonho, está aqui o dinheiro.” E ela disse: “Ah está vendo como tá dando lucro, você vai vender de novo” e me colocava para vender de novo e eu fazia o mesmo processo, fazia aquele rodízio. Era a melhor parte que a gente dava risada do meu tempo quando era criança. P/1 - E ela nunca descobriu? R - Não, porque ela já estava na fase de idade né, estavam na faixa de 56 anos, eles dois, não tinham como descobrir, porque o dinheiro estava entrando e ela realmente me dava o dinheiro e eu gastava. Então às vezes ele me dava um lápis com borracha e ela perguntava: “Você gastou o dinheiro com o que?” “Não minha avó, eu comprei um lápis com borracha.” Ele arrumava, o meu colega arrumava um lápis com borracha ou uma caneta, ele pegava na casa dele. “Ó, toma aqui, você fala que comprou e guarda o dinheiro, que aí eu vou comer o sonho também” e a gente comia bastante sonho. P/1 - Dé, durante o dia você ia para a escola, né, que você falou… R - Não, aí eu ia normal, não tinha como correr da escola porque meu tio era professor da escola. Então, ali quando eu entrava o portão fechava, não tinha jeito, tinha que ir para escola. P/1 - Você não gostava da escola? R - Gostar, eu gostava, né, agora sempre tinha… A gente tentava dar uma fugidinha, mas não tinha como, porque eram meus avós que estavam no portão e o professor era meu tio, aí sempre estava ali dentro no pátio fiscalizando. P/1 - Essa escola era perto da sua casa? R - Do lado da casa, de frente. P/1 - Esse lugar que você morava era perto de rio, do mar? R - Não, lá não tem mar não. P/1 - Tinha rio? R - Tinha uma lago que chama (Sapucaeira?), mas, assim, era bem distante, eram uns três quilômetros. Eu fui conhecer através desses amigos, que a gente foi crescendo, e o pai deles sempre apreendia os passarinhos, né, papagaio, esses negócios. Então era um local que o Ibama determinou para soltar essas aves, ele me levava também: “Vamos para lá” e eu ficava lá, passava o dia todinho. P/1 - Além de ir para a escola, em casa, assim, tinha algum costume, todo dia, a rotina como era na sua casa? R - A rotina era essa, da escola para casa, da casa para a escola. E quando queria fugir da rotina era dessa forma que eu contei, ele tinha que inventar uma história para tirar de dentro de casa, porque se não ela não deixava eu sair. P/1 - E na escola você teve esse professor, depois teve outros? R - Vários outros, uma escola normal, uma escola municipal com vários professores como hoje, normal. P/1 - Sei. E você estudou até que ano nessa escola? R - Até a sexta série. P/1 - Teve algum professor que te marcou, que você lembra até hoje? R - Ó, assim, marcou... não, deixou marcado não, mas eu conheço alguns professores que hoje ensina até aqui no município. Eu sou muito fácil de olhar para a pessoa, eu talvez esqueça o nome, mas quando eu olho pode ser dez anos, eu lembro. Então eu fui descobrir essa professora minha, professora Valmira, ela me ensinou na segunda série aqui em em Ponto Central, município de Cabrália. P/1 - Você veio encontrar com ela aqui? R - Foi, esse negócio muito de campanha. Quando eu percebi foi num comício, uma época eu já estando aqui. Aí eu conheci e digo: “Ah você foi minha professora, cê tá lembrada de mim?” “Ah eu tô e tal.” Também é só essa lembrança que eu tenho. P/1 - E, assim, de alguma coisa que aconteceu na escola também, um acontecimento, tem algum? R - Não, porque assim, na escola até o sexto ano que eu estudei, eu era muito quieto, porque não tinha como fazer nada por causa dos meus avós que estavam ali, e meu tio que ficava na secretaria direto, aí tinha que ficar quieto. E outra, também não tinha espaço: quando acabava a escola eu tinha que ajudar meus avós a varrer a sala de aula, eram 12 salas de aula, eu tinha que varrer a sala de aula, então não tinha espaço para nada. P/1 - Você ajudava em mais alguma coisa na escola além de ajudar os avós a varrer? R - Não. P/1 - Tinha mais alguma coisa que você fazia? R - Assim, como meus avós também na escola vendiam sonho e geladinho, e os papéis ficavam no pátio, então eles fizeram uma pauzinho assim de vassoura e enfiou um preguinho. Então eu tinha que ir furando e pegando, que a autorização do colégio era, já que nós vendíamos, teria que deixar limpo também. Meu avô “botava” e dizia: “É você mesmo que vai limpar’ e eu saía com o pauzinho furando e pegava todo esse lixo. P/1 - E você tem algum amigo da escola ou amiga que também era bastante próximo, que você ficava bastante com ele? R - Tenho sim, esse amigo mesmo a gente nunca perdeu a amizade, ele vira e mexe está aqui em casa ou ele está em Belmonte. Ele marca para a gente se encontrar, a gente senta para conversar. Eu tenho outro amigo também, quando a gente falava: “Você vai ser o que e tal”, ele conseguiu o objetivo dele, que ele sempre falava: “Rapaz, eu vou estudar para ser policial” e hoje ele é policial. P/1 - E você… Fala. R - E por incrível que pareça quando a gente menos vai para Cabrália, a gente encontra ele na farda. Aí a primeira vez que eu vi ele disse: “Eu não falei que iria estudar para ser polícia, eu sou polícia.” E eu digo: “É, rapaz, eu não estudei…” E ele disse: “O que você está fazendo em Santo Antônio?” Eu digo: “Eu sou pescador”. P/1 - Então antes de ser pescador… Você quer perguntar alguma coisa? P/2 - Você nessa época só morava com seu avô e sua avó ou tinha mais alguém? R - Na casa do meu avô tinha sim os meus dois tios e minha tia. P/2 - Quantos anos eles tinham, eram mais velhos ou mais novos? R - Um era caçula, o que acabou de falecer agora tinha quantos anos… Acho que uns 50. P/2 - Mas eram mais velho que você os dois? R - Ah, tudo mais velho, os meus tios tudo mais velho. Tanto que eu caía no “cocorote” quando eu não queria ir para a escola. Ele: “Vai para a escola” P/2 - Esse tio que era o professor, é isso? R - É. P/2 - Ele morava com você? R - Morava na casa da minha avó também, morava tudo lá. P/2 - E seus irmãos todos ficaram morando com seus pais? Só você veio? R - É, e eu tenho uma parte também, eu tinha um quarto na casa da minha avó que era só meu. Aí como morava minha avó e meu avô e meus dois tios, que era um tio e uma tia. Tinha um tio que morava na cidade de Ipiaú, ele resolveu morar na casa da minha avó, como não tinha mais quarto, minha avó achou de me tirar do quarto e “botar” ele. Tinha tipo uma despensa com várias coisas guardadas, coisas velhas mesmo, e tinha muito rato, é por isso que meu maior pavor é de rato. E ela: “É, você vai ter que dormir aqui.” Olha, foi o pior dia da minha vida viu, eu dormia assim e de repente eu ouvia chiar tudo [faz barulho de chiado], mas era muito, e eu enrolava de pé e cabeça, enrolava mesmo. Eu ouvia os bolos do rato batendo na minha roupa, na coberta, “puff”, aí eu não aguentava. E eu peguei pânico de rato, eu não aguento ver um rato que eu nem encosto. Se eu descobrir onde tem um rato eu nem vou lá, eu passo 100 metros de distância. P/1 - E aí você começou a dormir lá direto? R - Comecei a dormir lá direto. P/1- E conversou com a sua avó? R - Conversei, que ali não dava, tinha muito rato mesmo. “É mais a gente não tem outro jeito, nós somos fracos, tem que ficar aí e tal.” E na época nós estávamos reclamando que essa despensa não dava para eu dormir, aí deu uma chuva, e tinha uma parede da casa da minha avó que era de taipa, madeirinha assim e barro, mas choveu tanto que a parede caiu do quarto do meu tio de noite, só ouvi o baque, e eu digo: “Agora eu quero ver onde ele vai dormir. Ele vai dormir junto dos ratos comigo.” Aí eu fiquei “mangando”, mas quatro dias depois ele levantou essas paredes e o tempo foi passando, continuei nesse quarto. P/1 - E não tinha jeito de fazer com esse quarto? R - Não tinha jeito porque Eunápolis era muito… E, assim, era eu naquela despensa, ou era os “trem” dele, os bagulhos velhos que tinha panela, bicicleta, muita coisa velha. Então os ratos criaram ninho ali dentro, eles não quiseram jogar as coisas velhas dele fora e foi na época que meu pai começou a ir mais lá. Fui crescendo e de repente surgiu uma chance, ele se candidatou a vereador. P/1 - Quem? P/2 - Seu pai? R - Meu pai. Como Santo Antônio era miudinho ele se candidatou a vereador, meu pai. P/2 - Mas seu pai morava aqui em Santo Antônio? R - É. P/2 - Desde sempre? P/1 - Ele saiu… R - Não, ele morou em Eunápolis, e aí ele veio. Como Eunápolis foi crescendo, ele não tinha condição nenhuma de ficar em Eunápolis, então ele achou de vir para Santo Antônio, porque Santo Antônio, chegou uma época de... essa terra aqui é devoluta, era uma terra que não tinha dono, então quem chegava tirava área maior, se a gente chegasse hoje tirava uma área, tirava outra área na praia e nós mesmos marcávamos nossas áreas. Quando ele descobriu isso, ele veio parar aqui e disse: “Ah, então é o lugar certo para eu ir para lá.” P/2 - E veio a família inteira para cá? R - A família veio, a família inteira… P/1 - Dé, você disse que é de Porto Seguro… R - Certo! P/1- Ele também… R - Ele também. P/1 - Aí quando ele foi para… R - Porque quando a gente fala Porto Seguro, é porque Cabrália não tinha jeito de.. entendeu? Não tinha maternidade, não tinha hospital, não tinha nada, então levava daqui para Porto Seguro, tudo era Porto Seguro. P/1 - Mas seu pai mesmo quando você nasceu ele morava em Eunápolis? R - Aqui, quando eu nasci ele já estava morando aqui. P/1 - Ah tá, certo. R - São velhos aqui eles. P/1 - Eles vieram para cá então antes... R - Praticamente ele faz parte da fundação de Santo Antônio, né, eles contam que tinham mais ou menos… Santo Antônio tinha umas dez casas mais ou menos, você vê que é tanto que a primeira televisão foi dele para mostrar ao pessoal. O pessoal ficou todo abismado quando viu a primeira televisão em Santo Antônio, todo mundo se juntava, ficava na casa dele para assistir. Que coisa! P/1 - Você não estava nessa época? R - Não, não estava nessa época, eu estava em Eunápolis. P/2 - E como era passar as férias aqui, você falou que vinha né? R - Isso, aí é outra parte mais legal ainda, porque meu pai tinha… Nós somos quatro irmãos, isso, quatro irmãos... quatro não, cinco irmãos, mas o caçulinha era bem menor, nós éramos rapazinhos e minha mãe gostava muito de ir comprar as nossas roupas coloridas. Aí o que acontece: sapato amarelo para uns, para outro sapato vermelho, para outro verde abacate e era calça aqui, nós usávamos. E outra, ela queria que a gente saísse de mão dada, todo colorido, camisa vermelha. E outra coisa, quando eu chegava eu falava para meus irmãos: “Rapaz, que cabeça é essa de vocês?” E ele: “Como?” “Rapaz sua cabeça…”. Parecia que tinha ferida na cabeça, mas não era ferida, era que meu pai cortava, “metia” tesoura, cortou bem baixinho e via as marcas da tesoura, então ficava tudo “pipinado”. Quando eu cheguei de Eunápolis, que lá era outra cultura, o cabelo veio melhorzinho, aí meu pai falou assim: “Que nada, vamos meter a tesoura.” E eu digo: “Que nada meu pai, no meu cabelo não”, mas ele meteu a tesoura. Rapazinho, nós saímos de mão dada em Santo Antônio, de mão dada, aonde entrava… P/2 - Quantos anos você tinha? R - Mais ou menos na faixa de uns 11 anos. P/1 - Você era o mais velho, não o mais novo né? R- Eu sou junto do mais novo, dos homens, né. P/2 - Continua… R - Aí ele cortou meu cabelo e eu digo: “Ó, se o senhor cortar eu não volto aqui mais não.” “Não, mas você tem que cortar” e de mão dada, tinha horário de voltar para casa, e dali ele começou a colocar uma vendinha, começou a vender o que ele achou e depois ele comprou uma… P/2 - Ele vendia para quem? R - Para o pessoal aqui mesmo, porque como o avô da minha esposa veio morar aqui, mas tinha uma condição melhor quando veio, ele tinha barco. A gente não tinha essa estrada aqui, era tudo de Cabrália, vinha de barco, lajota vinha de barco, cimento vinha de barco, tudo, o que comer vinha de barco. Então ele colocou uma vendinha, trazia todo alimento de barco e aí começou a vender… P/1 - Eles eram irmãos? R - Não, cunhado dele. E aí ele começou… P/2 - Antes disso ele fazia o quê? R - Antes disso era piaçaveiro e sempre pescador. P/1 - Aqui? R - Aqui em Santo Antônio. P/1 - E de onde ele veio, porque você falou que lá… R - A situação não dava, ele foi criado com minha avó também. Aí quando ele pegou família, ele veio para Santo Antônio, que aqui era um lugar, assim, que tinha caranguejo, tinha um peixe mais fácil e tinha o foco dele que era a piaçava. Então ele foi pegando conhecimento, foi gente de fora chegando, comprando áreas maiores e ele começou a arrancar piaçava, “botando” gente para colher piaçava e foi gerando renda. Começou a construir uma casinha, da casinha de barro foi para a casinha de lajota e aí foi a oportunidade que ele saiu candidato a vereador. Para você ver, tanto que na época ele se elegeu com sete votos candidato de Cabrália e nessa época teve uma quebra de urna no setor de Cabrália. Então as urnas daqui foram de barco, as que não foram quebradas, foram as urnas daqui de barco. O juiz falou o seguinte: “Olha, as que quebraram, quebrou, nós só vamos contar as que chegaram até aqui”. E, realmente, as daqui que atrasaram mais, porque foi de barco. Foi nessa época que fizeram três vereadores aqui, aí começou… P/1 - E quebrou como? Por que quebraram as urnas? R - Quebrou, porque a população juntou na época e não aceitou que outro candidato iria ganhar. Então, como Cabrália era pequenininha, foi aquela guerra, quebrou todo mundo. Aí o juiz falou assim: “Ó, não vou me meter nessa briga não, as urnas que vierem aqui a gente vai contar os votos e quem tiver ali o voto…” e justamente era o voto de Santo Antônio. P/2 - E seu pai foi vereador? R - Foi vereador. P/1 - Quando que você veio para cá, Dé? R - A partir do momento que ele ganhou a primeira vez. Aí primeiro ano, segundo ano, ele começou a ter mais uma “condiçãozinha”, ele começou a me chamar. Aí ele foi: “Olha, lá em Santo Antônio eu já tenho isso, tenho aquilo, tenho umas casinhas, tem umas áreas lá. E eu vou lhe dizer para você: se você não for me acompanhar, só os filhos de lá vai ter parte, você não vai ter não que você está aqui”. Juntando tudo isso, com 14 anos, já perto de 15, eu vim para Santo Antônio passar as férias de novo e minha avó: “Ó você vai, mas você volta”, foi aí que eu gostei do negócio e não voltei mais. P/2 - Você gostou do que aqui? R - Olha só, primeiro o seguinte: eu gostei que o espaço que eu tinha lá em Eunápolis eu… Aqui eu fiquei a vontade, né, não tinha mais aquele corte de cabelo, não tinha mais nada, a gente já com 15 anos, aí é cada um… Ficou a vontade, então eu sentia liberdade naquilo ali, lá eu estou preso, aqui eu estou liberto. Começou a arrumar umas menininhas lá, vai, aí que eu gostei mais ainda do negócio e eu fiquei aqui, e não teve jeito. P/2 - E do mar? R - Tá, do mar, assim, quando ele me trouxe a primeira vez, vinha de canoa, vinha pela praia… P/2 - De Cabrália para cá? R - Isso, de Cabrália, logo no primeiro ponto eu não sabia nadar, não sabia nada de água. Aí eu vi todo mundo tomando banho e eu pulei, não tomei pé, no fundo já ia morrendo, aí ele me pegou: “Rapaz, você não sabe fazer nada?” E eu digo: “Não sei fazer nada, não entendo nada de água aí.” E ele: “É, você vai ter que suar um ‘bocado’”. Ele já era vereador, mas ele pescava bastante, levava a gente para pescar e um belo dia ele disse: “Agora eu vou levar você para pescar”, mas eu pensei que ele não iria “botar” eu para remar, que eu não sabia remar. E ele: “Você vai remar, que você vai aprender.” Nada que remar o que, nós descemos bem, a correnteza levou a gente. Aí ele falou: “Ó, você pode pular dessa canoa, você pode pular, já que você veio mas não resolve nada” e eu pulei, mas nessa hora eu já sabia um jeitinho de… Aí consegui chegar no seco e minha mãe perguntou: “O que foi?” “Ah, meu pai não quis me levar não e eu vim embora, que eu não sei fazer nada”. Quando ele chegou, encheu o saco dele, falou com ele, começamos... nessa época, ele também tinha um dinheirinho, ele comprou um barco, depois comprou outro e aí foi crescendo nisso, trabalhando na embarcação dele. Ele chegou a comprar três barcos. P/1 - Dé, ele aprendeu a pescar aqui também? R - Aqui também. P/1 - Quanto ele chegou aqui ele também não sabia? R - Não sabia, ele aprendeu a vida de pescar, ele aprendeu aqui. P/1 - E seus irmãos pescavam com ele? R - Também, os que ficaram aqui já sabiam mais do que eu, porque já nasceu e se criou aqui da pesca, porque foi tudo na pesca e eu vim com 14, na faixa de 15 anos. P/1 - E como é que você aprendeu depois? R - Ah, aí foi com a convivência mesmo, de 15 foi com 16, 17 a gente foi pegando bastante experiência e no dividir… P/2 - Mas você ia sempre com ele? R - Sempre, mas aí assim, quando a gente já pegou essa idade na hora que estava dividindo o pescado, a gente não tinha condição, não tinha freezer, tudo tinha que colocar no freezer dele. Aí a gente começou a olhar o seguinte: a gente trabalhava segunda, terça, quarta, quinta, sexta. Quando chegava no sábado: “Meu pai, a minha parte cadê?” “Ah sua mãe deu a um eleitor aí…”, não tinha nada. Aí, resultado: sábado nós estávamos sem dinheiro nenhum. P/1 - Você? R - Eu e meus irmãos. Aí um dos meus irmãos chegou e disse assim: “Olha, eu não vou querer mais essa vida não. Eu vou trabalhar de ajudante, cortar piaçava, vou fazer alguma coisa, porque de renda de barco com meu pai não dá certo não, ele dá tudo, ele vende e no nosso bolso nada.” E a gente naquela época de namoradinha, sempre um dinheirinho no bolso para refrigerante essas coisas e nada. Aí fomos crescendo, meu irmão saiu, largou, entregou o barco para ele: “Hoje eu não vou mais trabalhar com o barco do senhor.” Aí fizemos a mesma coisa, largamos os três o barco e ele pegou e vendeu os barcos. P/1 - Cada um ia num barco? R - É, ele ia em um com meu irmão, meu irmão ia num outro com meu outro irmão e eu ia no outro com um irmão meu. Mas o resultado, assim, num momento de pesca com ele, renda nenhuma. P/1 - E ele conseguia viver da pesca com a família? R - Conseguia. P/1 - Para quem ele vendia? R - Ó, ele vendia para aqui mesmo, porque o peixe em si, tanto ele comprou um freezer e colocava e vendia o peixe seco. Ele vendia para aqui mesmo, como ele tinha a vendinha, virava e mexia o pessoal comprava na mão dele, então gerava renda para ele. P/1 - As pessoas daqui mesmo? R - Daqui mesmo, aí gerava renda para ele. P/1 - Dé, quando você começou essa primeira vez, quando ele fez você pular, era canoa? R - Canoa. P/1 - E quando você entrou no primeiro barco, como foi? R - Aí sim, quando eu entrei no primeiro barco, foi no barco dele, porque eu sempre tive um problema: eu não entrava no barco dos outros, porque eu tinha cisma de vomitar lá fora. Eu digo: “Ah não vou atrapalhar ninguém não, então não ia no barco de ninguém. Aí eu fui no dele, quando eu cheguei no dele lá fora, eu lembro como hoje, a gente jogou arrastão e eu vi minha cabeça tontear e deitei. Eu fui deitar e ali dormir. Ele esperou encostar uma canoa e aí quando encostou uma canoa no barco, ele me sacudiu assim e disse: “Levanta!” Aí eu levantei e eu digo: “É o quê, meu pai?” “Embarque nessa canoa aí.” “Para que?” "Embarca!'' Eu embarquei, estava meio tonto e ele disse: “Pode ir embora, você não está fazendo nada aqui fora” e eu digo: “Está certo, então vou embora”, meio tonto, porque quem não tem costume lá no mar mesmo, passa mal. P/2 - E como era essa pescaria com seu irmão, do barco? R - Do barco, era dividido, era assim: por exemplo, a divisória era a meia, se pegar 20 quilos de camarão, dez é dele, dez é nosso; mas só que juntava tudo, nem dez, nem 20, nem nada. P/2 - E vocês ficavam o dia inteiro no mar, como é que era? R - O dia inteiro… P/2 - E voltava de noite? R - E voltava… P/1 - Passava o dia só? R - Passava o dia. P/1 - Então os três barcos, tudo ficava com ele? R - Tudo ficava com ele. P/1 - E quando você desistiu de ficar trabalhando com ele, como foi depois? R - Aí sim, ele: “Rapaz não desiste não e tal” e eu disse: “Não, eu vou desistir porque…”. Aí eu conheci minha esposa, aí “Vamos juntar os trapos?” e começamos. E eu digo: “Mas precisa de um negócio…”Ah sim, teve uma história que é o seguinte: quando eu saí do barco e me pegou, como eu estava com aquela minha prima, né, aí não aceitaram. E ele: “Já sei o que vou fazer com você, vou pegar você e vou alugar uma casa lá em Cabrália. Só assim você esquece dela e você vai ficar lá comigo em Cabrália” que ele era vereador e eu fiquei lá. Mas mesmo assim eu vinha para cá. Aí comecei a sair da pesca e ficava com ele. P/1 - E fazia o que lá Dé? R - Nada. Aí ele chegou a ser presidente da Câmara e eu ficava lá com ele, só resolvendo os papéis, que eu como estudei até sexta série eu tinha mais um pouco de conhecimento das coisas. Então eu ficava com ele, aí eu fiquei na base de mais quatro anos com ele, que ele se reelegeu de novo, ele ganhou a eleição, aí fiquei mais quatro anos. Depois de quatro anos ele perdeu a eleição e cada um... assim, ele também não ganhou dinheiro, não tinha dinheiro, perdeu a eleição e ficou na mesma que ele estava, na mesma situação. P/1 - Dé, e dessa época que você morou em Cabrália, como foi ir para Cabrália, chegar lá, qual foi a sensação? R - A sensação, assim, como a experiência que eu tenho, de não conhecer ninguém em Cabrália; e primeiro que eu só ficava dentro da Câmara. Aí ele usava assim: “Ó, você vai para Eunápolis entregar um documento a um contador, aí eu chegava e entregava o documento e voltava e ficava na Câmara, pronto e mais nada. P/1 - E o transporte aí já era mais fácil? R - O transporte já era mais fácil. P/1 - E você tem alguma história dessa época, desses quatro anos que você ficou lá? Alguma coisa que… Amigos? R - Não, só o amigo que, assim, hoje a gente tem bastante amigo lá em Cabrália, mas antigamente só a amizade que eu tinha mesmo era do funcionário, porque tinha dois funcionários na Câmara e a gente ia para casa deles. E foi aí que eu comecei a tomar uma cervejinha. “Aí, 'bora' tomar uma cervejinha?” “'Bora'!” e ficava lá com ele, pronto. P/2 - Quantos anos você tinha? R - Na base dos 17 para 18 anos. P/1 - E você morava onde lá? R - Na Câmara. Como ele era o presidente, ele tinha um apartamento, ele tinha direito a um apartamento, então eu ficava no apartamento dele. P/1 - E ele também? R - E ele também, mas aí… P/2 - Só vocês dois? R - Só eu e ele, só que ele não parava. P/1 - Passava a semana lá? R - A semana lá, e a gente andava, ia conhecer Ponto Central, Barrolândia, Eunápolis, então girava o tempo nisso aí. P/1 - E final de semana você vinha para cá? R - A gente vinha para Santo Antônio. P/1 - Todo final de semana? R - Todo final de semana vinha para Santo Antônio. P/1 - E lá tinha mais alguma diversão, alguma coisa assim? R - Cabrália? P/1 - É! R - Só diversão quando a gente via era aniversário de um vereador, ele convidava e a gente ia. Ele comprou uma filmadora, ele me deu essa filmadora para ficar filmando os aniversários dos vereadores, só era essa parte. P/1 - E você tinha alguma outra renda, fazia algum outro trabalho? R - Nada, até esse período nem um centavo. Só mantido por ele mesmo. P/1 - E você tinha um salário? R - Não, nem isso, nada, quando ele queria ele me dava alguma coisa. aí um belo tempo, quando eu conheci minha esposa, eu disse: “Ó, não vai dar não, eu tenho que procurar um jeito de sobreviver”. P/1 - Você estava lá em Cabrália? R - Estava lá em Cabrália, mas sempre quando vinha ficava com ela aqui, aí… P/2 - Mas conta como você conheceu ela, como é que foi assim… P/1 - O começo do namoro. R - Ah, quando eu conheci ela foi numa festa de Santo Antônio, mas, assim, como eu era... naquele caso, Santo Antônio era pequeno e ser filho de vereador representava muita coisa na época, então chovia um “bocado” de menininha assim. Aí eu não queria ficar com ela, dali eu pegava duas, três e ela ficava danada. P/2 - Mas você é primo dela? R - Eu sou primo da mãe dela, sou primo de segundo grau. P/2 - Mas ela já morava aqui já? R - Morava. P/2 - Então você já conhecia ela? R - Já conhecia. P/2 - Mas como você se apaixonou por ela? R - Ah...[risos]. P/1 - A gente quer saber do começo do namoro. R - Olha eu acho que foi numa festa que teve em Santo Antônio aqui nós começamos. Ela mandou um bilhete para mim, aí a gente ficou se conhecendo, conversando, mas eu senti que quando eu olhava nos olhos da mãe dela, parente dela e meu não queria: “Isso aí não, pode namorar com quem for, mas com ela não.” P/1 - Eles não queriam que você namorasse, por quê? R - Não, por causa do parentesco também né, e sobre política envolveram, porque na época as duas famílias eram brigadas por causa de política. Então era igual época de coronel: “Você não vai namorar ela porque…”, meu pai dizia, “Porque não vou com a cara dele, e nem da mãe dela, porque nós somos brigados politicamente, então você não vai namorar de jeito nenhum.” E aí tanto da parte da mãe dela como da parte do meu pessoal também era só brigado. A mãe dela quando a gente pegou sério mesmo, assim, namorar, eu mandava um bilhetinho: “Ó, estou te esperando lá na beira do rio.” Aí ela ia, pois a irmã dela chegava e ficava de olho e dizia para mãe e a mãe ia; e quando eu só via a hora que a “ripa comia” e ela: “Não bate não, minha mãe” e pau… O que, uns quatro anos nessa “labuta” e a mãe dela pegou e mandou ela para Brasília: “Eu vou te mandar para Brasília, para casa de uns amigos meus para você trabalhar lá.” Ela ligou e aí os amigos da minha sogra falaram assim: “Ó, eu estou precisando mesmo, pode mandar”. Mandou e foi embora. P/2 - E o que ela foi fazer lá? R - Trabalhar de doméstica né, mas aí… P/1 - E como foi essa despedida, Dé? R - Olha, a despedida foi triste né, mas eu tinha certeza que ela iria voltar, porque nisso já tinha nascido meu filho mais velho. P/2 - Explica essa coisa direito! R - [risos] P/1 - Vocês namoraram e ninguém queria? R - A gente namorava e ninguém queria, aí a gente começou a conversar né: “É melhor a gente avançar um sinal aí.”E ela: “Rapaz será que vai dar certo? E você desse jeito, depois me larga aí, você é novo.” E eu: “Que nada!”. E eu querendo a fruta também, né e tal [risos] e eu: “Então 'bora' para frente.” Um belo dia, sem esperar ela me dá a notícia: “Ó, eu estou grávida!” e eu digo: “Não fala um negócio desse, porque eu não tenho condição nenhuma e nem você.” P/2 - E o que você fazia nessa época? R - Nada! P/1 - Você já tinha voltado de Cabrália? R - Já tinha voltado de Cabrália, meu pai já tinha perdido a eleição e mesmo assim eles não queriam; e eu não tinha nada, porque morava na casa do meu pai. P/1 - E trabalhava? R - Na pesca, assim mesmo nesses empurrões, pegando um peixinho ali, trazendo para cá, eu não tinha nada. Aí eu falei: “Ó, não tem condição não, agora que sua mãe vai pegar a gente e vai…”. E foi até pelo contrário, pensei que ela iria fazer aquele… e ela: “Quero conversar com o senhor.” Quando eu passei lá na frente da casa dela, lembro como hoje, era uma casinha de tábua e ela falou assim: “Você fez isso com a minha filha, já vi que não tem jeito, tudo bem, mas eu vou fazer com você o seguinte: nem você, nem ela não têm nada, você vem morar aqui na minha casa.” Mas a casa era tão pequena e eu digo: “Ah não dá para morar não”. Não dava para passar, tinha um sofá, mas tinha que tirar o sofá para passar. “Não, você vai ficar ali no quarto dela ali, pronto, ajeita o quarto e vocês ficam ali.” E eu: “Ah, não vou ficar não, não vou ficar de jeito nenhum.” Aí o pai dela falou assim: “Então faz o seguinte, eu tenho uma pousadinha aqui…”, inclusive é essa aqui do lado que tem aqui, né, uns quartinhos, três por três mais ou menos com banheiro e disse: “Ó, vou lhe dar um quartinho daquele” falando com ela, eles não falavam comigo não, “Vou dar um quartinho daquele, a gente mais a sua mãe, aí junta umas panelas, junta o que for, garfo, uma vai dando uma coisa, o outro vai dando outra e vamos botar você ali.” E eu digo: “Rapaz esse negócio não vai dar certo.” Aí viemos para cá, eu vim, mas eu queria sair, eu queria sair, bom já que ela está aí, fica aí e ela grávida. P/1 - Você queria sair para…? R - Eu queria sair para balada, para festa. Aí ela: “Não, não vai sair, você já é casado.” E eu: “Que nada, eu vou sair…” e aí a gente começou a brigar, a gente brigava demais da conta. P/2 - Você e sua mulher? R - É, ela jogava meus “trens” pela janela e o pessoal olhando, molhava tudo e lá vai. E eu digo: “Mas eu só vou na rua.” E ela: “Não! Você vai atrás de outra” e com essa briga a gente se separou. Aí nasceu, nesse período nasceu meu filho. P/1 - Vocês estavam separados? R - Estava separado. Aí minha sogra falou assim: “Pois agora você vai para Brasília, você vai deixar o filho comigo e você vai embora.'” Que na verdade eu era jovem e eu não dei importância nem para ela, meu filho, nem para nada. P/1 - Quando ele nasceu, como foi para você? R - Aí eu fui no hospital ver, ele nasceu e eu fui no hospital ver. Mas assim, vendo, foi maravilhoso ver ali. Mas eu era muito novo, muito jovem e eu só queria festa. Então nasceu ali, tudo bem, e eu não tinha condição nenhuma de dar uma lata de leite. Fiquei muito feliz que nasceu e a mãe dela pegou e mandou ela para Brasília. Aí no ponto hoje… P/2 - Ela ficou quanto tempo lá? R- Acredito que uns dois ou três meses, aí no ponto que hoje é a Associação de Pescadores antigamente era um ponto da TeleBahia [Telecomunicações da Bahia]. P/1 - Em Cabrália? R - Aqui, era um ponto de referência que tinha um telefone, chegaram a colocar um telefone. Então o pessoal chegava lá, pagava uma taxa para ligar, tinha uma funcionária, e ela começou a ligar: “Eu não aguento mais ficar aqui, eu não vou ficar, eu vou fugir e não sei o que”. P/1 - Para você? R - Isso, ela começou a ligar e a gente… Ela ligando e sem a mãe dela saber, ela disse: “Estou juntando um dinheiro que eu vou embora, quero ver meu filho, quero ver você” e lá vai, certo que quando ela veio aí… P/1 - E você como ficou quando ela foi para lá? R - Eu dei um urso para ela, eu comprei um urso para ela. P/2 - Antes dela ir? R - Antes dela ir, ela tinha uma pulseira, colocou no urso, me devolveu e disse: “Na minha volta você vai me devolver esse urso, que eu vou ficar com você.” E eu digo: “Ah, tudo bem!” E ela foi embora. Na volta dela ela me devolveu o urso, quando ela chegou me devolveu o urso com a pulseirinha dela e eu digo: “Esse negócio não tem jeito não” e foi quando nós ficamos juntos de novo. P/1 - Quando ela voltou? R- Isso, quando ela voltou. E eu digo: “Ah não, tenho que tomar jeito na vida, uma atitude.” Aí começamos. P/1 - Você sentiu falta dela, Dé? R - Muita! E assim, eu acho que foi um período que também, nessa viagem, ela amadureceu. Ela “ciumava” demais, se eu tivesse em algum canto ela já vinha me unhando todo e lá vai. Então eu acho que também foi um tempo bom para ela, aí quando ela voltou a gente já tinha um filho, a gente começou a conversar com a possibilidade da gente voltar, a gente voltou e graças a Deus estamos até hoje. E voltamos para esse dito quarto, que era só briga. Digo: “Esse quarto não vai dar certo”, mas voltamos para o quarto de novo e ficamos lá; eu trouxe meu filho e comecei a trabalhar, eu falei: “Eu vou trabalhar de ajudante, de alguma coisa, eu vou ter que fazer alguma coisa, mas que eu vou trabalhar eu vou” e comecei também a trabalhar como ajudante de pedreiro. Aí lá vai, comecei, o pai dela deu esse terreno que é hoje, ela trabalhando também na cozinha das pessoas aí, ela conseguiu levantar a casa, uma casinha pequena, aí… P/1 - E você ajudou a construir a casa? R - Assim, como meu ganho era pouco e o dela era mais, que ela trabalhava de faxineira e eu era dia sim e outro não, então ela levantou a maioria da parte da casa. P/1 - Mas, com o seu trabalho, você foi ajudante de pedreiro? R - Também, isso ajudando. E aí a gente foi ampliando dali, puxa daqui e lá vai. E aí outro menino nasceu, fiz um casal, nasceu Maria Olímpia. P/1 - E o primeiro se chama? R - Anderson, e nasceu uma menina P/1 - Maria Olímpia? R - Maria Olímpia! P/1 - Quem escolheu esse nome? R - Esse nome quem escolheu foi minha avó, que minha avó… P/1 - A que te criou? R - Isso, aí como minha avó ficou bem velhinha com 72 anos, e a situação lá em Eunápolis, como meu tio é professor e não tinha pessoa certa para cuidar, não quiseram colocar na casa de idoso né. Aí trouxe para cá, minha avó ficou um bom tempo aqui. P/1 - Com quem? R - Ao lado da casa do meu pai ali que é com a filha dela, a irmã do meu pai, e ficou. Então minha avó, eu lembro que quando Maria Olímpia nasceu, ela falou assim: “Kátia o meu maior sonho era colocar o nome da minha filha de Maria Olímpia” que o nome do meu tio filho dela é Olimpio. Ela falou: “Se eu tivesse uma mulher de novo iria ser Maria Olímpia, você pode colocar esse nome na sua filha?” Pediu para mim também e eu “Claro que posso!”. E foi o nome dela, Maria Olímpia, então ela também pegou duas vezes Maria Olímpia no colo e depois faleceu. Morreu e meu avô morreu também, eu acho que com saudade dela; ele também era velhinho, sentiu muita falta, faleceu os dois aqui. Na verdade meu pai e os outros filhos que moravam aqui trouxeram eles para cá e eles ficaram. Aí a gente bola para frente, dois filhos, eu fui tomando vergonha na cara e eu: “Vamos tentar.” E ela começou né, fez alguns cursos ela, e aí fomos… P/2 - Curso do que ela fez? R - Pelo Senac [Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial] de cozinheira. Hoje graças a Deus acho que tem uns três cursos e trabalha nesses hotéis. P/1 - Cozinhando? R - Cozinhando por temporada. P/2 - E você ficou fazendo… R - Aí sim, eu trabalhei muito como ajudante de obra.Tinha um amigo meu que falou assim: “Dé eu vou fazer o seguinte hoje, eu vou aumentar sua diária e você toma conta para mim, eu saio e você toma conta aqui do pessoal, vê se o pessoal mesmo trabalha.” E eu: “Tá bom” e pronto. Aí comecei e tal, tanto trabalhava como ganhava mais um pouquinho e olhava o pessoal, ele pegou muita amizade comigo deixou várias casas para ‘mim’ tomar conta, fui ganhando aquele dinheirinho e “Vamos ampliar a casa, 'bora'” e outro filho. P/1 - Essa casa, Dé? R - Não, a casa era cinco metros quadrados. P/2 - Como é que foi sair do quartinho para sua primeira casa? R - É foi bom, porque o seguinte: quando a gente sai de três metros quadrados para ir para cinco, a gente achou uma vitória, uma conquista muito grande, para quem não tinha nada, e a gente fez a maior festa, o maior love, e nasceu outro menino que é o...eu chamo ele, tem um apelido que é Fu ele era tão gordinho que o pessoal “botou” assim Fufu, ele parecia um puff que tinha e chamava Fufu. Aí nasceu, três filhos e a gente começou a construir, a gente tirou, não tinha casa nenhuma daqui para lá, só tinha essa casa aqui, nesse local, pequena e tinha o quartinho. Começamos a trazer as mudanças, os “trens”, as camas, e quebra dali, cama velha e coloca um pedaço de pau debaixo da cama e lá vai e eu continuei a trabalhar. Vamos trabalhar e eu fui pegando gosto com aquela coisa e só queria saber de melhorar e o dinheiro foi entrando, cada vez eu ganhava mais, fui gostando e ela também trabalhando. Graças a Deus a gente não brigou nunca mais, aí… P/2 - Mas nessa época você era só auxiliar de pedreiro? R - Auxiliar de pedreiro. P/2 - E a pesca você...? R - Não, aí eu consegui comprar uma redinha e ia com uns amigos “redar” na praia e tal, mas a partir do momento que eu comecei a trabalhar de auxiliar, dali sim nasceu um dinheirinho que a gente começou… P/1 - Começou a trabalhar… R - Começou a trabalhar e começou a surgir as coisas [tosse] e a gente falava: “Viu como na pesca aí com seu pai não dava, não estava dando” que a gente começou a não depender dos outros, porque chegou a época que com meu primeiro filho minha sogra tinha que trazer a feira, trazer a comida e tal. Então a gente começou a fazer a nossa própria feira e ficar independente eu e ela. Como o lugar a gente foi olhando, pegando conhecimento e vários amigos, cheguei a ser pedreiro. E como eu vivia da pesca e junto com meu pai, ele fez minha documentação. P/1 - Naquela época? R - Naquela época. P/2 - Mas antes de você trabalhar como pedreiro? R - Antes eu trabalhava como pedreiro, mas, assim, eu nunca trabalhei de carteira assinada e nada, nunca. Aí eu peguei gosto e ele, como para trabalhar nos barcos tinha que ser tudo registrado, tudo de carteira [tosse], aí tirou todos meus documentos da pesca. Eu entrei mesmo e meus irmãos saíram, hoje eles atuam na área de pedreiro também, começou a pegar várias obras por aí… P/1 - Quem? Seus irmãos? R - É, meus irmãos. Outro trabalha na prefeitura do meio ambiente e aí todo mundo ficou maior de idade e não quis saber de pesca. P/1 - E o seu pai continuou pescando? R - Ele pesca, mas, assim, não tanto mais, porque ele já é aposentado, conseguiu se aposentar pela pesca. P/1 - E os três barcos? Ele não tem mais barco? R - Não tem mais barco, porque ele abandonou os barcos e a tendência é vender porque senão acaba. P/1 - E você voltou a pescar? R - Aí sim, eu falei: "Olha, quando eu ganhar um dinheiro eu vou ter meu próprio barco",porque ele sempre falava: "Ó, você não vai, trabalhando desse jeito você não vai conseguir barco não." E eu digo: "Então vamos ver." P/1 - Como pedreiro? R - Isso, "Trabalhando assim desse jeito..." porque ele conseguiu os barcos, eu acho, na época que ele era vereador. Então tinha um dinheirinho a mais, então eles acharam que eu não conseguiria comprar o barco, até o último barco eu me lembro como hoje, eu fiz uma proposta para ele: "Meu pai, então o senhor me venda o barco." "Ah não, você não tem dinheiro." E eu digo: "O senhor não está vendendo em tantas parcelas para fulano? E lhe pago da mesma forma." "Não!" Aí ele preferiu vender para outra pessoa, até hoje ele não recebeu e até hoje eu falo com ele: "Se o senhor tivesse vendido aquele barco para mim, você tinha recebido." Aí ele cai na risada olhando para mim. Eu trabalhei e consegui um amigo há dois, três anos atrás, eu consegui um amigo em Porto Seguro e ele olhando: "Dé, arranja uns terrenos aí para eu comprar.” Entrei nessa vida também de estar mostrando esses lote e ganhando com a “corretagenzinha”, aí conheci ele. Ele disse: "Olha, eu..." contei minha história para ele, que eu pesco, gosto muito de pescar e ele: "Rapaz, eu gosto também de pescar, mas a minha vida não é para…" ele não ganha de pescar, ele queria comprar um barco e na verdade deixar o barco na minha mão para quando ele vir de Porto Seguro o barco estar ali e a gente ir pescar. E eu digo: "Mas eu não tenho condições de comprar um barco." E ele: "Tudo bem! Escolha o barco. Agora, vamos fazer assim: pega um barco velho, bem velhinho, que não esteja mais funcionando, nós vamos reformar ele todinho e o barco vai ficar na sua mão." E eu digo: "Rapaz, será que isso vai dar certo?" Conversei com a minha mulher: "É, rapaz, mas você não tem dinheiro para comprar barco?" Aí tudo bem, escolhi um barco bem velhinho: “Quanto é que está pedindo no barco?” e o cara falou o preço. Eu falei para ele o preço, o valor e disse: "Vamos olhar!" Aí ele foi, na época o barco era quatro mil reais e ele falou assim: "Eu dou dois mil e você dá dois mil." Aí eu falei: "Olha, eu não tenho dinheiro, eu falei para você que eu não tenho dinheiro." Aí ele disse: "Então tudo bem." Falou com o dono do barco: "Eu lhe dou dois mil e você parcela?" Aí o rapaz disse: "Para Dé eu parcelo!" "Então tudo bem". Parcelou e eu falei assim: "Mesmo essas parcelas de 500 reais, quatro parcelas eu não consigo pagar." Aí ele falou assim: "Você consegue pagar!" P/1 - Quem falou? R - Meu amigo falou: "Você consegue pagar, porque se você não pagar, eu pago. Agora, você vai ter que trabalhar para pagar, que você consegue, eu sei que você consegue." Então ele me levantou assim: "Você consegue." Aí eu digo: "Então tudo bem." "Agora se chegar no dia da primeira parcela e você não tiver o dinheiro, eu pago, mas eu tenho certeza que você vai pagar." E eu digo: "Rapaz, será rapaz? Então ‘bora'". Ele veio aqui, fez a promissória pagou a parte dele todinha, a gente pegou o barco em Cabrália… P/2 - E teve que reformar tudo? R - Aí trouxemos para cá, reformamos ele todinho, ele gastou da parte dele 12 mil reais no barco. P/1 - E quem mexia no barco? R - Aí ele me deixou a critério de fazer tudo, arrumar o carpinteiro naval. Eu tive que ir em Cabrália, arrumei o carpinteiro naval. Eu ficava naquela parte de pechinchar, porque como ele é assim um “galegão” de olhos azuis. E ele falou assim: “Ó, está vendo meus olhos aqui, azuis? O pessoal pensa que eu tenho dinheiro e eu não tenho dinheiro, senão aí vão querer… Então você fica nessa parte, você chora bastante e eu vou lá e pago.” E eu digo: “Tudo bem!”. Ia em Cabrália fazia essa parte: “Ó rapaz, pelo amor de Deus, é para mim aí o barco velho e tal.” E: “Aí tudo bem, então vamos fechar por x.” E eu digo: “Dou x!” Aí ligava para ele e ele “Pode fechar!” Fomos no mato e tiramos essas madeiras “tudo”. P/1 - Quem que ia Dé, você? R - Eu ia na frente e tinha um pessoal que eu conheço, né, aí fomos, compramos tudo na carpintaria também. Aí o que não conseguimos em Santo Antônio, fomos em Cabrália [tosse], trouxemos essas madeiras e reformamos o barco todinho. Ele anotou tudo no computador dele e ele sempre falava assim: “Dé, você anotou tudo desse barco aí?” E eu digo: “Eu anotei o que me lembrei, mas eu anotei na caneta.” O dinheiro que ele me dava para fazer pagamento, eu anotei tudo na caneta, aí um belo dia ele disse: “Então vamos ver se a sua…” e ele gosta de tomar bastante cerveja Skol, ele chega todo sábado, aí… P/1 - Ele é daqui mesmo da Bahia? R - Porto Seguro. P/1 - É da Bahia mesmo. P/2 - Como é que você conheceu ele? R - Ele veio através de comprar um terreno e aí a gente pegou uma amizade. Depois que fechou o negócio, pegou amizade e pronto, vem direto. Ele trabalha no Detran [Departamento Estadual de Trânsito], é um policial aposentado e trabalha no Detran. Mas assim, eu hoje tenho mais afinidade com ele do que meu pai, que eu olho assim o cara que veio de lá, que não me conhecia, falou para mim que eu tinha tudo para crescer e me deu confiança. P/1 - Aí quando ele trouxe as contas dele? R - Aí bateu com a minha certinho, mas as dele tudo no computador, tudo certinho, até um real que ele me dava: “Ó, se for para comprar isso…” ele colocava, tudo, e eu achando que iria faltar coisa na nota dele, porque como ele bebe bastante. Eu tenho que estar controlando ele: “Rapaz, devagar!” Para ele ir embora, tem vez que ele fica em casa aqui, mas tem vez que quando ele chega, domingo ele quer ir embora. Ele enche muito a cara, tem vez que ele quer ir embora e eu digo: “Rapaz não vai embora, agora não, moço, fica aí.” “Não, porque segunda-feira…", aí tudo bem e ele se manda. Mas estava tudo anotadinho, ele é muito certo nas coisas. Então reformamos o barco, colocamos dentro da água, fomos uma, duas, três, aí ele falou assim: “Agora eu vou comprar roupa de mergulho, tudo!” Aí ele comprou máscara, roupa de mergulho, espingarda, pé de pato, tudo que ele comprou para ele, comprou para mim. Ele: “Aqui o que eu trouxe para gente mergulhar.” E eu digo: “Ah, essa roupa dá em você mesmo.” "Não, mas eu trouxe a sua também!” Eu digo: “Mas eu não tenho condições de pagar isso aí.” “Não estou mandando você pagar, estou te dando de presente, que é para nós pescarmos.” E boia, tudo de segurança para o barco. Aí tudo bem, fomos [tosse] umas quatro vezes. Aí ele falou: “Rapaz, eu estou querendo comprar uma lancha, esse barco não anda”, que é motor B18. E eu digo: “Esse barco é para pesca, se uma pesca que é para arrastar camarão, colocar uma rede. Agora, lancha é para curtição.” Aí ele: “Procura uma lancha para mim!” E eu digo: “Ai meu Deus do céu.” Aí pronto, ficamos procurando uma lancha, o barco… P/2 - Dé, mas você trabalhava nesse barco? R - Trabalhava, aí sim comecei a pescar nesse barco, comecei a pescar. E eu falei para ele: “Estou precisando de um freezer!'' Ele foi, comprou um freezer, me deu. P/2 - Mas aí como é que você pescava nesse barco? R - Aí sim eu ia pescar, o barco estava puro sem rede, reformou a gente colocou o barco dentro d'água, aí eu falei assim: “Ó, agora vai precisar de umas redes.” Liguei para ele: “Ó, vai precisar de uns dez panos de rede!” Ele disse: “Vê aí, faz um orçamento em Belmonte, que eu compro essas redes para você.” E deu uns três mil reais de rede, aí eu digo: “Ó, deu três mil reais de rede.” “Então aguenta a mão aí que a gente vai para Belmonte, me espera aí.” E eu digo: “Mas eu quero conversar com você!” “Não tem conversa não no meio da estrada…”. Eu queria conversar com ele, parar aqui em casa para eu tomar pé da situação, para ver se era dividir, saber como que é, porque eu não estava com esse dinheiro. e ele: “Não, me espera aí, porque a gente vai para Belmonte.” Eu ficava aqui e quando ele chegava, eu digo: “Vamos sentar aqui!” “Não, embarque no carro, ‘bora’ para Belmonte.” Quando a gente chegava lá, ele: “Ó, você que viu a rede, toma aqui a minha carteira, meus cartões de crédito estão aí e você tira um desse, acho que tem aí, vê, passa o cartão e paga.” "Vixe, rapaz, esse camarada está…”. E a gente tinha que sentar para ver o custo do barco, que eu já sabia que era 12 mil e como iria ficar [tosse] se o barco era meu, se era dele, se era metade, tinha que parar para... aí ele disse: “Olha…” Chamei ele, compramos a rede, viemos, aí sim eu ia para o mar, pegava o peixe, dava a parte do colega meu e trazia outro. P/1 - Meio a meio? R - Isso, dava a dele e trazia [tosse]. Aí arrastei camarão, fiz bastante filé. P/2 - Você vendia aqui? R - Vendia. Fiz bastante filé e deixei aí. Pedi um freezer, ele trouxe o freezer, comprei, colocou e deixei aí. Primeira semana ele veio no sábado, eu falei: “E aí, o pescado está aí, como é que a gente vai dividir?” “Dividir nada, você pode vender, pode ganhar seu dinheiro que eu só trouxe um isopor no fundo do meu carro, só vou levar um peixe para mim comer, eu não quero saber de nada desse aí, que eu não preciso disso aí, você vende, você dá, você faz o que você quiser. Eu só quero o seguinte: que quando eu chegar aqui final de semana, tenha um peixinho para mim.”.Aí pronto, minha esposa pegou amizade também com ele, eram várias moquecas, a gente direto, todo sábado que ele chegava tinha moqueca pronta, tinha peixe e tinha vários peixes. Ele levava, dava bastante peixe. P/1 - Dé, e aí, a conta do barco, como é que ficou? R - Ah, aí conta, a minha mulher: “Rapaz olha…” [celular toca] é o da minha esposa tocando, mas pode deixar. Aí a despesa do barco, eu chamei ele, minha esposa disse: “Ó, é melhor chamar, porque depois esse negócio e a gente não conseguir tomar mais pé disso aí.” Chamei ele, ele falou assim: “Não esquenta com isso não, eu vou dizer uma coisa para você: esse barco não vai prestar comigo, eu não gostei dele. Então faz o seguinte: o barco é meu e seu, acabou, mas como na Capitania [Capitania dos Portos da Bahia] não pode fazer dois donos e só pode um, você deixa eu fazer no meu nome?” ele falou. Aí minha esposa disse: “Então o barco não vai ser a meio não?” “Não, rapaz, ele deu tudo, nós não demos nada, então eu não vejo problema nenhum em você colocar no seu nome, pode colocar, muito embora, porque teria que tirar do outro nome da pessoa que a gente comprou, mas ele falou que o barco era meu, e a venda era meio a meio, e olha que ele bancou tudo.” E eu digo: “O que é que eu vou fazer? Só tenho que aceitar, não, tudo bem!” Fomos para a Capitania, ele me levou, participei do processo todo, ele me mostrando, ele: “Estou colocando no meu nome, mas é a meio o que você vender.” Aí ele chegou um belo dia, depois que fez o documento, ele: “Dé, vamos vender o barco, arrumei um comprador lá em Porto Seguro, 12 mil reais.” E eu já pescando no barco, pescava e tal. P/2 - Você já ganhava sua vida como pescador em Santos? R - Ganhava. P/1 - Você deixou de ser pedreiro? R - Aí eu usei o critério seguinte: aqui é o momento que quando a gente pega uma obrazinha fica dois meses, trabalha um ano, e dois, três sem aparecer outra, ou quatro meses, ou cinco. Quando aparece a renda é péssima, a gente vai para pesca, e eu digo: “Puxa cara, ele arranjou comprador.” E ele disse: “Você quer vender sua parte?” Eu digo: “Vendo!” “Tudo bem, vou trazer tal dia o camarada aqui.” Esse camarada desistiu desse barco e minha mulher tinha um lote lá embaixo no Paraguai, [tosse] junto da casa dele quase. E eu falei: “Você está pedindo quanto na sua parte?”. E ele falou: “Não, se o barco é 12 mil, seis mil seu, seis mil meu” e eu falei: “Você quer pegar essa área no valor de seis mil da sua parte?”. Aí ele olhou e disse: “Ah, eu pego!” Pronto, eu dei o terreno a ele e minha mulher falou assim: “E agora eu quero ver se ele realmente vai passar esse documento!” E eu digo: “Bom, você vai ver.” Falei com ele: “Seis mil, eu dou o lote no valor de seis mil” e ele disse: “Está fechado, que o outro seis mil é o valor de sua parte, 'bora' lá passar o documento.” Passei o documento, o nome desse barco hoje está no nome dela, eu digo: “Eu vou passar para o nome dela, pra ela parar de não acreditar nas pessoas.” Ele perfeitamente passou, passamos também o documento no nome dele, tudo legalizado. Mas, assim a gente pesca, tenho uns amigos que sempre vem pescar no barco, aí eu coloco para pescar. Quando vira e mexe aí no freezer tem peixe e eu digo: “Pode entrar, pode carregar o peixe, pode levar mesmo”. P/1 - E ele pesca com você também alguma vez? R - Pesca, mas alguma vez. Mas ele é tão branco que sol não é com ele mesmo. P/1 - Qual o nome dele, Dé? R - A gente chama ele de José Afonso, aí… P/2 - Dé, o que compensa mais para você: pescar ou ser pedreiro? R - Olha, eu hoje vou te dizer: a obra compensa mais. Agora, assim...eu inclusive, na reunião, a menina fez essa mesma pergunta e eu falei no meio de uns 30 pescadores aqui que a pesca para gente aqui hoje, se a gente for viver... porque veio um pessoal do governo e falou que a gente tem por direito só viver da pesca, a gente não pode nem colocar um geladinho para vender e eu questionei que não... Eu falei assim: “Se a gente for viver da pesca aqui, a gente vai morrer de fome.” Todo mundo deu risada que eu falei: “Não sai do feijão e arroz”, que realmente está difícil, porque a pesca aqui já foi uma coisa que foi bem...na época do meu pai mesmo, a pesca aqui dava muito peixe, agora Veracel, essas coisas... Agora aqui o Porto da Veracel acabou com esses pesqueiros todinhos nossos aqui. P/2 - Você sentiu que diminui? R - Com certeza, a gente debate várias vezes. Já cansei de levar pescador nas reuniões da Veracel e a gente debate, porque lá tem uma máquina mesmo que nós fotografamos e mostramos, chama uma máquina que retira a lama para a balsa não encalhar. Então eles estão usando uma máquina e chama um tal de Bota-fora, uma máquina que retira a lama e joga a uns 400 metros para fora. Aí eu digo: “Vocês já filmaram onde vocês estão jogando? Em cima do coral.” Então quando joga bastante lama e areia ela espalha, está aterrando vários corais aí. Então a pesca aqui ficou mesmo... não tem nada. P/1 - Dé e aí, o que vocês estão fazendo para resolver ou para enfrentar isso? R - Rapaz, nós estamos... o que resta da gente é só ir em várias reuniões, peitamos, até eles fizeram uma proposta. O que a vila nossa mais precisa... P/1 - E você… R - E eu falei: “O que mais precisa é que vocês acabem com aquele porto, que se não acabarem com aquele porto, vocês vão acabar com nós pescadores.” E ele: “É, mas a gente tem que sentar para conversar, porque várias cidade a gente vem ajudando com praça, com isso e aquilo, com água tratada.” E eu digo: “Vocês tem que resolver o problema do mar, água tratada acho que é o governo aí, a prefeitura esse negócio, vocês não tem nada a ver. Agora nós temos que…”. E outra, eles agora ainda querem ampliar mil metros para fora, porque eles não estão conseguindo encostar a balsa, porque aquele movimento de balsa está secando, aí a balsa… P/2 - Secando o que? R - No local onde há o embarque e desembarque da celulose. Então a maré vaza, a balsa não está chegando até o porto, estão usando o maquinário que eles tiram, recolhe a areia, para afundar e a balsa encostar. Então o que eles sugeriram, aumentando mais o porto para fora sentido ao mar vai pegar mais o fundo, eles acham que acaba com isso. P/1 - E o que você acha disso? R - Eu acho que não acaba não. P/1 - Por que? R - Porque onde aquela balsa estiver, a maré sempre vai trabalhar desse jeito, ela baixa e “alteia”. Então no movimento que é muita balsa, a areia vai criar uma ilha, como está criando agora, não resolve. P/1 - E o que significa quando acontece tudo isso que você acabou de falar, o que acontece com os peixes? R - Aí… P/1 - Eles acabam, mas como acontece? R - Acaba assim, veja bem: lá fora são corais, vários corais já aterraram, então o povo desaparece, que morre a casa dos peixes, não tem mais que são as pedras, a comida do peixe, então o peixe vai é sumindo, não tem. Então, aí diz na carteira que o pescador artesanal ele é focado em 300, na beira da praia, 500 metros para fora, tem embarcação aqui que não consegue chegar até isso, então por isso que chama pescador artesanal?! P/1 - É só quem vai até 500? R - É. P/1 - Metros… R - Isso mais ou menos, porque ali como está aterrando tudo, camarão dava bastante, a gente pega camarão aqui na beira da praia, quando a gente joga o arrastão a gente pega o camarão mesmo com três metros de “fundura”. P/1 - E agora? Antes não? R - Antes não, agora difícil, está tudo difícil, peixe não está tendo, camarão também não. P/1 - Dé, não é só por conta desse problema que escasseou o peixe ou tem mais alguma coisa que está dificultando o trabalho do pescador? R - Não, eu acho que a Veracel veio empatar muito aí, muito, antes dela estava uma maravilha, é por isso que falei para eles que o pescador agora se não tiver outro recurso aí, vive do feijão e arroz. P/1 - Mas quem que falou que vocês não podem ter outra atividade? R - Um pessoal do órgão do governo que iria até mandar, eu estive em outra reunião e eles falaram que iriam mandar uma pessoa de lá para fazer uma fiscalização. Então tem pescador aqui que hoje eu conheço que mata uma vaquinha né, quando o tempo está ruim ele mata uma vaquinha e a mulher dele tem um próprio açougue, a mulher não tem carteira, não vive, que a gente não faz a carteira dela, mas o esposo por ser velho na pesca tinha tudo. E eles ficam até com medo de ficar ali e tal, vir um pessoal, que sempre vem entrevistando: “Você vive da pesca?” Se dizer um negócio desse, muita gente eu conheço aí que a carteira foi cortada, que eles não querem mesmo, tem que viver da pesca. P/1 - Agora o barco antes… P/2 - Isso é para receber benefício? R - Não, o benefício só recebe quando é o fechamento. Por exemplo, tem gente aqui que recebe o benefício do Robalo, quando é a desova do Robalo, aí são dois meses o período do Robalo, aí eles fecham. O Ibama faz o fechamento, ninguém pesca, os meses que não são permitidos a pesca e do camarão também. Então nesse período de dois meses todo mundo que tem a carteirinha registrado recebe. P/1 - Do defeso? R - Do defeso, tanto do Robalo como do camarão. P/1 - As mulheres também recebem? R - Também recebe, o critério das mulheres é quem é embarcada. Umas recebem pelo camarão, aí ela tem que estar embarcada numa embarcação com o barco todo documentado e que ela comprove todo ano que ele está embarcada nesse barco. P/1 - Ou se não é embarcada ? R - Aí ela tem que fazer uma transformação nos documentos, que ela fique como pescadora artesanal que é só do rio, né, aí ela tem direito ao seguro defeso do robalo. P/1 - Dé, quando você vai pescar, esse período que você pesca, você vai todo dia da semana? R - Quase todo dia. P/1 - E quando você traz o peixe, mesmo que a gente sabe que diminuiu, você vende para quem? R - Eu mesmo vendo aqui e assim… P/2 - Você vende numa peixaria, assim? R - Não, eu mesmo coloco no freezer. Aí como o pessoal... a procura de peixe é muita e vem gente também de Cabrália, gente de Belmonte e Porto Seguro, tem aqueles compradores ambulantes né, de moto, como de carro: “Ah tem peixe?” “Tem!” “A gente leva a quantia que todo mundo tem.” A gente vende tudo e quando não é isso, eu tinha um outro carro que era de carroceria. Então eu pegava meu pescado, camarão e o peixe e levava tudo para a peixaria de Belmonte, chegava lá eles pagavam um preço melhor, chegava lá e entregava todo pescado. P/1 - Esses que vêm buscar aqui são os atravessadores? R - São os atravessadores. P/1 - E o que você acha disso, Dé, esses termos? R - Aí é onde entra a parte do projeto. P/1 - Qual projeto? R - Do projeto Pescando com Redes 3G. P/1 - Como que entra? R - Que eu acho que para mim que participei das reuniões e levei alguns pescadores, eu acho que é muito importante fazer aquele projeto, porque o projeto, eles estão adquirindo o seguinte: os dados no aparelho...o aparelho não está aqui na minha mão porque senão, esse aparelho foi de uma troca, como eles me deram novo estava com defeito, aí devolvi para eles, até hoje não veio, mas vão me devolver. Então nós podemos notar, e eles têm uma rede lá, que de lá de fora mesmo eu digito na rede 3G e ligo para rede lá. P/1 - Lá onde? R - Em Coroa Vermelha tem uma rede de beneficiamento de produtos, quem está incluído na rede 3G como meu barco está, então lá mesmo eu acesso internet e já passo dados todo para ele: “Estou com 200 quilos de camarão e tantos quilos de pescado” e toda despesa que eu fiz do barco, tanto de óleo, feira, essas coisa, digito e tenho a senha que eu passo minha para eles lá, diretamente. “Vocês estão interessados? Tem algum comprador? Qual é o preço?” Tem uma parte no aparelho que já diz ali os preços dos pescados, o que é que eu tenho ali, e eu procuro e olho, se eu tenho cação, aí eu olho o preço que está, aí cação está dez reais. É, mas lá em Santo Antônio eu vendi 12, então também isso é muito importante, que eles peçam o seguinte: se acha o de 12, então é melhor vender para quem paga mais. Então o projeto é muito bom, aí a gente: “Não vou vender de dez porque eles ficam com tudo”. Eu só digito e já fico esperando lá no porto. P/1 - Você já vai direto para Coroa Vermelha? R - Direto ou o seguinte: também se eu ligar e se ele já tiver uma entrega que estão ,vendo em várias pousadas, restaurantes, essas coisas, hotéis em Porto Seguro, né, Cabrália, eles têm já um carro para vir pegar dos pescadores do lado de cá. Aí já coloca, leva o pescador ou eu para receber o dinheiro, mas já está vendido o pescado. P/1 - E aí quando é direto assim, que já nem passa pela unidade de beneficiamento, aí não precisa limpar nada? R - Não. P/1 - Tem, acontece, pode vender assim direto? R - Pode, porque eles deixam bem claro que não é forçado só a pessoa que está no projeto vender só para o projeto, pode vender para quem quiser. P/1 - Dé, agora você foi na reunião, está sabendo tudo e outro pescador que não está participando das reuniões assim como você, qualquer pescador pode ir lá… R - Pode! Porque... P/1 - Sem mesmo o aplicativo? Só essa parte de vender para.... R - Não, sem o aplicativo não pode. P/1 - Por que? R - Porque eles pedem que o seguinte: primeiro eles estão em observação se realmente os pescadores... que esses aparelhos não foram para todo mundo, então se os pescadores se habituam a ficar com esse aparelho, se der certo, os aparelhos vão para todos os pescadores, quem tem embarcação, e vão ver as outras embarcações a forma do aparelho e entregar. Então o que eles sugeriram na reunião, a qual eu fui contemplado, meu barco foi contemplado com esse aparelho e aqui eu falei que tem mais cinco barcos no posto meu, pode agregar no meu aparelho. Se eu ver como aqui a população é pequena e eu ver a dificuldade do meu colega ali, eu posso ir rapidamente na beira do porto e: “O preço é esse aqui colega, eu já estou entregando, mas lá ele quer mil quilos de cação e eu só tenho 500, você quer vender por esse preço?” “Quero!”. Aí eu já...certo? É isso que eles fazem. Agora se a pessoa sair daqui e ir de boca lá, eles não aceitam. P/1 - Não pode ir direto? R - Não, tem que ser no aparelho. E esse aparelho também eles pedem para gente estar usando direto, não importa a quantia de peixe, porque a gente tem que anotar todo combustível, o que a gente gasta, para a partir do momento ,se o barco sair hoje e ficar três dias, aí gastou 500 reais, pronto. Mas o peixe deu mil, é para anotar também, no ano a gente sabe se compensa a gente ficar labutando com barco, labutando com peixe ou não, porque ali vai ter toda a vida do ano, que a gente não tinha, entendeu? P/2 - Você acha isso útil? R - Eu acho! Porque dali vai nascer o seguinte: “É, rapaz, esse ano nós não ganhamos dinheiro não, então a gente vai ter que mudar a estratégia de trabalho.” P/2 - E o que você já descobriu até agora para mudar? Essas informações... R - Exatamente, eu achei que foi muito bom essas informações. Primeiro eu compraria... eu compro óleo, rancho para o pessoal passar dois, três dias no meu barco e o que deu, deu, a gente divide. Eu não sabia se ganhei e nem sabia se estava perdendo, ou se eu estava trocando dinheiro, agora eu vou lá no aparelho e sei que um mês... P/2 - E o que você descobriu? R - Que eu ganho. P/1 - Dé, você… R - Mesmo assim, aí eu vejo: “Olha dia tal do mês…” eu anoto tudo no aparelho, que a gente fez curso e eles ensinaram. “Dia tal do mês naquela pescaria…”, aí eu olho no aparelho mais minha esposa: “Ó a gente, está vendo, ganhou 50 reais de lucro, nesse mês agora, aqui a gente ganhou 100”, uma comparação, né. “Por que a gente ganhou 100 aqui?” Aí a gente tecla e vê: “Ó, naquelas lá nós não ganhamos muito, porque a gente comprou muito óleo, nesse aqui a gente comprou o básico, a gente já ganhou mais e o óleo está lá, sempre sobrando”. Então não adianta, tem que juntar tudo para bater certinho a conta, então esse aparelho é muito bom. P/1 - Dé, agora você trabalha com mais gente no barco? R - Trabalho. P/1 - E você dá aquele vale ou vocês dividem depois que eles… R - Não vale assim, veja bem, na hora só quando o “bicho” pega mesmo, porque tem tudo. Eu compro feira: “É três dias que vai passar?” “É!” “Então o que vocês querem?” “Ah eu quero biscoito, carne, é isso”. Então eu vou no mercado e compro tudo e eles levam. "Ah, mas minha esposa está precisando de 50 reais ou 100 reais, você tem aí, Dé?” “Rapaz, eu não tenho 100 reais não, mas eu tenho 80, 50 serve?” “Não, serve.” “Então está bom!”Aí entrega lá. P/1 - E assim a parte deles entra também nessas contas? Como que é... R - Se ele quiser, mas o peixe em si... no aparelho eles mandam anotar tudo, mesmo que saia, é para gente saber anual o que a gente pescou e o que deixou de pescar. P/1 - Certo! R - E se ele não quiser: “Ó Dé, a minha parte, porque eu já peguei um dinheiro com fulano de tal, então minha parte eu tenho que entregar o peixe lá.” Eles não mandam: “Pode entregar, tira aí, pode dividir e entregar." P/2 - Dé, esse aplicativo, ele tem outras funções também, né? R - Também! P/2 - Tem previsão do tempo? R - Tudo! Previsão de ondas. P/2 - Você usa essas outras coisas? R - Uso! P/2 - Como é que você usa isso? R - É que se o aparelho é pequeno... o aparelho não está aqui, mas assim, a gente digita na internet - isso tudo ele explicou. Então têm uns “botãozinhos” que a gente aperta e vê essas partes tudo. P/2 - Ah eu sei, mas antes você não tinha esse aparelho… R - Não tinha. P/2- Agora você tem! R - Por exemplo... P/2 - O que muda? R - Muda, porque o seguinte… P/1 - A parte do tempo… R - Isso a parte do tempo, por exemplo, o pescador que está no meu barco, antes ele não sabia que a previsão hoje... vamos supor, hoje né, eles estão tentando fazer o “rango” para deitar e escutar um radinho, que escutava a previsão pelo rádio. Então hoje eles já digitam no aplicativo e está vendo ali se daqui a uma hora vem temporal para ficar dois dias, três; eles dali já vem embora. P/1 - Isso aparece no aplicativo? R - Aparece! P/1 - Você já usou alguma parte assim? R - Já e aparece. E também o seguinte: eles mandam ver quantas milhas a antena Vivo consegue ver. P/2 - Como assim? R - Ele quer saber a metragem, a gente já foi até uns quatro quilômetros para fora do mar aí, para ver, porque a partir do momento também que a torre não consegue mais, aí pronto, dá pane e apaga tudo. P/1 - Você acha que tem que fazer como, quando acontece? Continuar e sair, isso? R - Não, aí eles inventaram uma antena para a gente ir mais longe. P/1 - Até quanto vocês estão conseguindo? Você já testou? R - Ah, nós já fomos muito longe, uns quatro, cinco quilômetros para dentro aí e sumiu, nós chegamos… Eu fiquei até com medo que o barco ficou miudinho e nós no meio das baleias e eu com próprio aparelho mesmo, que ela tem uma filmadora também e eu comecei tanto filmar, como tirar foto das baleias, pulava assim. E eu digo: “Rapaz, não encosta mais não, se der uma rabada no barco vai lascar tudo”. P/1 - E não fugiu o sinal? R - Não, agora se vir temporal e nós estivermos lá o sinal some, isso já falamos com eles. P/1 - Ah tá! R - Apaga “tudo” o sinal. P/1 - Mas quando chove ou quando está chegando? R - Quando o tempo está chegando, o tempo ruim, aí apaga tudo. E também o seguinte: se a gente digitou a saída da gente e não fechou, não mandou para a central, nós estamos todos perdidos, apaga tudo, ele dá um apagão. P/1 - Apaga as contas todas? R - As contas todas, que a gente só deixa para fechar... eles pedem na volta. Abriu, anotou tudo que tem e na volta, quando acabar a pesca, mais ou menos limpando o pescado, já sabe mais ou menos quantos quilos. Aí pode fechar para dar o adiantamento. P/1 - Dé, você falou que seu barco conseguiu o aplicativo. R - É! P/1 - Qual foi a escolha, como é que eles escolheram quem ia ganhar e quem não? Você tem ideia? R - Eu tenho ideia que foi mais ou menos assim: veja bem, eles usaram o critério chamando muitos pescadores, colocaram carro de som na rua, né, fizeram uma mobilização, colocaram faixa, vieram na casa dos presidentes da associação, se reuniram com os pescadores, explicaram a situação, para depois começar o curso. Só que eles não forçaram ninguém a ir para as reuniões e nem avisou aqui na palestra que iria ter esse aparelho, eles ficaram quietos. Então só iria ter um curso básico. P/1 - Curso do que eles falaram que iria ser? R - Curso do Projeto 3G. P/1 - Mas não falaram que projeto era esse? R - Era um projeto que eles… P/1 - Como eles anunciavam? R - Eles anunciavam o seguinte... que eu mesmo quando conheci esse projeto um pouco, eles já tinham encaminhado esse projeto para o Guaiú, e tanto que Guaiú tem mais coisa, beneficiamento do que Santo Antônio, porque na época era meu pai que era presidente da associação. P/1 - Aqui em Santo Antônio? R - Aqui, então a associação foi criada têm 12 anos mais ou menos, mas, assim. Como ele é muito envolvido com esses negócio de política, aí tocava lá a documentação e quando chegava a época de eleição ele mesmo fazia as eleições dele, ele mesmo ganhava. P/1 - A associação era para fazer documentação? R - Associação era para fazer documentação e e-mails do órgão da prefeitura e do governo. Como tem a associação em dia, aí vem várias cestas básicas, todas as coisas e outros projetos né, então ele abandonou esse lado, essa associação toda atrasada que tem CNPJ [Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica], têm essas coisas todas, tinha que pagar anual e ele não pagou nada, as taxazinhas e foi acumulando. Até que um próprio (Xepa?) mesmo falou: “O Projeto Redes 3G está indo para Guaiú, já trouxe vários computadores, está com o projeto da ostra, então Santo Antônio está esquecido.” E nós fomos tomando nossa associação: “Ó, está na hora da gente pegar a associação e tentar aí com o (chip?) para ver se vai dar certo.” P/1 - A gente quem? Você? P/2 - E como é que foi? R - Aí sim, esse critério a gente usou. Primeiramente entrou esse meu amigo, do barco: “Ó Dé, como você está com o barco aí rapaz, pega a associação, faz uma mobilização.” P/2 - Aquele seu amigo? R- Sim, o Afonso. P/1- Que dividiu o barco? R- Isso, ele disse: “Faz aí a mobilização, se precisar de alguma força eu lhe dou, precisar resolver algum documento em Porto Seguro eu lhe dou também.” E eu digo: “Rapaz, eu não tenho dinheiro para gastar com isso não, aí eu vou precisar de carro.” "Não, meu carro está a disposição sua aí rapaz, pode pegar, você pode fazer, eu dou todo o apoio.” Aí começamos, ele disse: “Primeiro você faz a reunião com os pescadores e fala que quer pegar a associação.” P/1 - Quem falou isso para você? R- Ele. P/1- O seu amigo? R- O meu amigo, pega a associação… P/1- E aí como foi essa primeira reunião? R- Aí sim fizemos a primeira reunião aqui em casa: “Rapaz, mas seu pai vai ficar bravo com você”. P/1- Quem falava? R- Os meus amigos, né: “Seu pai vai ficar bravo, tem 12 anos ele que fundou essa associação e ele falava que ninguém pega associação da mão dele e não sei o quê.” Ele também, da mesma forma ele usava a associação, ele ganhava na política né, e como tem sempre pescador, ele usava aquele critério. P/1- E quem… Como votava nele? R - Não votava, usava o critério dos políticos de Cabrália: “Ah, você é presidente da associação? “Sou!” “Tem quantos associados?” “Está aqui, eu tenho 100 associados, e esse associados tudo se eu mandar ele vota em você.” Aí os políticos diziam: “Pronto! São 100 votos”, acreditava e realmente dava um trocado a ele. Então ele vivia ganhando e o pessoal começou a cismar com ele, no momento a gente começou a usar esse critério, fazer uma política dessa né, e quem seria o presidente? Aí fulano, ciclano e meu amigo veio, participou da reunião e falou assim: “Rapaz, o presidente que eu estou vendo que deveria ser Dé!” “Ah, mas não sei o que…” e eu quieto. Aí: “Vamos fazer uma votação, vamos chamar a população, os pescadores, e se aceitarem…”. E começamos a fazer várias reuniões e incluímos (Xepa?) no meio. P/1 - Quantos vieram, assim, da primeira? R - Da primeira vieram dez pessoas. P/2 - Foi aqui na sua casa mesmo? R- Foi, porque não tinha ponto, não tinha nada e “Vamos lá, vamos para sua casa!” Dez pessoas e começamos a conversar, começamos a pegar o número de (Xepa?) colocamos (Xepa?) no meio, e disse: “Isso é muito bom e tal.” Como Xepa queria uma representação aqui, que só estava passando as coisas para o Guaiú, então ele disse: “Rapaz, é uma hora de vocês acordarem aí, pega a associação.” Aí (Chip?) disse: “Mas eu acho o seguinte: vamos chamar seu pai, vamos ver o que ele acha, o que ele quer fazer com essa associação, não vamos entrar já assim tomando. Agora se não quiser, nós vamos usar outras armas.” “Tudo bem, quem vai conversar com ele?” “Você que é filho, você conversa.” Aí meu amigo lá de Porto Seguro falou assim: “Entra aqui no carro, 'bora' lá conversar com ele.” Eu digo: “Bora!” Ele estava sentado na porta: “Ó pai, a gente veio aqui conversar sobre a associação.” “Eu não tenho nada para conversar com vocês sobre associação, eu já estou sabendo de tudo que você está fazendo, você está me apunhalando pelas costas. Eu vou lhe dizer uma coisa: em 12 anos você viu minha luta, ninguém tomou a associação.” Aí eu fiquei quieto e ele falou: “Não é agora que você vai tomar.” Mas eu digo: “Eu não quero tomar.” E meu amigo foi e explicou para ele: “Mas Toninho você já está velho, rapaz, seu filho, coloca aí, ele é jovem e tem que levantar os pescadores aqui, eu estou dando uma força aí.” “Não, dê essa força para mim!” “Para você não!” E ele começou a ficar nervoso e eu digo: “Rapaz, o negócio começou a ficar bravo.” E ele disse: “Não vou dar nada não, para você eu não dou nada.” E outra: “Então vamos fazer o seguinte, você lança sua chapa, eu lanço a minha e você vai ver como é que eu vou te derrotar.” P/1- Ele falou? R- É, e eu digo: “Não, tudo bem, você lança a do senhor. Mas o senhor não quer participar da reunião?” “Não! Com você não.” “Então vamos levantar a associação juntos?” “Não! Com você não.” E eu digo: “Está certo então!” E meu amigo disse: “Então você vai lançar sua chapa.” Aí viemos: “Vamos marcar outra reunião.” Nisso já vieram 20 [tosse], sentamos aqui, e formamos a chapa mais ou menos assim. Quem vai ficar do lado dele vamos tentar trazer para cá e quem já está do nosso lado, é do nosso lado mesmo. Aí começamos a chamar todo mundo: “Rapaz, 12 anos.” E Xepa começou também a dar o apoio aqui dentro para gente. P/1- Quando o grupo estava…? R- O grupo pesado, e: “Ó, fulano não fica com ele não” aí o outro fala: “Fulano está”. “Então vai pegar fulano”. Trazia para reunião: “Ah não vou não, não vou mais ficar com ele.” Resultado: fomos formando um grupo, fomos pegando mais um, pegando mais um, que resultou que ele não conseguiu fazer a chapa. P/1 - Dé, só antes da chapa, o que vocês falavam assim que a associação iria servir, ir juntando tanta gente assim? R - O critério que a gente usava era que todo mundo estava cansado do seguinte.. veja bem, a associação, o pessoal já estava chateado, porque ele usava politicamente. Então era uma forma que o pessoal queria dar um basta nisso, que quando era época de eleição, a época dessa agora de eleição, aqui nesse lugarzinho pequeno chove: “Quem é o presidente da associação? Me ajude lá você.” E o pescador: “Vamos fazer uma reunião?” “Bora!” Então ele ganhava o dele, usamos esse critério e o pessoal disse: “Não, tudo bem…” e outra, o critério é o seguinte. A gente queria uma organização. Como? Para vir cesta básica, para vir esse projeto, para vir vários outros projetos. Então a gente unido, a gente consegue uma sede que não tinha, hoje a gente já tem, e outros critérios que vários empresários deram as mãos. Disse: “Olha, se vocês pegarem a associação, eu ajudo vocês. Agora enquanto estiver lá, eu não ajudo em nada, então a associação vai ficar morta.” Porque aqui também tinha uma associação, tem uma associação de moradores e ela está acabada, porque o primeiro dinheiro aí, 50 mil, o presidente comeu, encampou tudo. Aí então a gente usou esses critérios: “Você está vendo o que aconteceu com a de moradores? Então a gente tem que pegar e fazer um negócio aberto, todo mundo, né, para gente tentar resgatar alguma coisa.” E vinha alguma coisa para o pescador. Por exemplo, essas reuniões da Veracel a gente não sabia de nada o que acontecia, eles faziam e abusavam e tal. Aí a gente usava esse critério nas reuniões. P/2- E aí? R - Aí sim o pessoal começou a levar fé e tal: “Não, 'bora'…” e criamos a chapa, fulano presidente. Aí Xepa falou assim: “Agora pega essa chapa e leva para ele, vê se ele aprova.” Ele aprovou o nome de todo mundo menos o meu. P/1- Para quem tinha que aprovar? P/2- O seu pai? R - É para ver… P/1 - Por que? R - A gente não queria criar um conflito, né, se uma briga... Aí Xepa falou assim: “Olha faz essa chapa, vê se ele concorda e não precisa duas; como ele falou que iria fazer a dele, então não precisa duas, aqui é um lugar pequeno, para quê essa briga?” Então fizemos a chapa no meu nome presidente, todo mundo queria que eu fosse presidente. Aí meu nome, claro, em primeiro presidente, ele leu debaixo para cima. P/1 - E você estava lá? R- Não, o pessoal disse: “É melhor você não ir, porque se não…”. Aí levaram o papel e ele leu debaixo para cima, o pessoal conversou com ele, e ele disse assim: “Eu vou ler esse papel, essa chapa aqui debaixo pra cima, porque mais ou menos eu já sei o que está em cima. Então eu aprovo esse aqui, esse, etc. e esse não. Então vamos fazer o seguinte, eu coloco fulano…”. Tinha uma pessoa só que estava do lado dele. “Eu coloco fulano aqui, nessa posição aqui de presidente, o resto eu aprovo, pronto.” E aí o pessoal que estava lá disse: “E aí o que você acha?” “Não, vamos ter que dar essa resposta para você, Antônio, depois.” E ele falou: “Pois é, se você trouxer desse jeito que estou fazendo, aí eu aceito, agora com nome desse aí não” “Tudo bem!” E fizemos outra reunião e colocamos em votação e eu digo: “Ah não, tudo bem, pode colocar o nome da pessoa que ele quer.” “Não!” E o pessoal peitou: “Não, tudo bem, vamos colocar seu nome e lançar essa chapa, vamos para rua.” P/1- E fizeram votação como? R- Fizemos votação com edital e tudo. Xepa veio e a gente fez uma reunião, aí ele viu o movimento dos pescadores. Quando ele batia na porta para tentar colocar a pessoa na chapa: “Não, estou com seu filho agora, você já ficou 12 anos aí Antônio, eu gosto de você, mas infelizmente né, eu estou com seu filho.” E batia na porta de outro, de outro e “Não! Não!” Um belo dia eu fui passando na porta lá e ele falou assim: “Eu quero falar com você.” “Pode dizer!” Ele disse: “Marca a reunião lá com Xepa, que hoje eu vou entregar a associação para você.” "Ah, tudo bem!” P/2 - E o que você sentiu? R - Aí eu falei o seguinte: “Vixi!” Eu até, assim, por não ter tanta intimidade com a associação e sei lá, aí eu digo: “Rapaz, agora vai ser realidade!” Que eu mesmo falava: “Tomara até que não aconteça esse negócio, porque eu pesco e trabalho de pedreiro aí, e faço isso, faço aquilo, eu acho que não tenho tanto tempo para estar em Cabrália e nessas reuniões.” E eu falei assim: “E rapaz, se ele entregar vai criar uma realidade agora” e veio bater aqui em casa. Ele veio entregar os papéis, mandou eu ligar para Xepo e eu liguei e ele disse: “Não, marca para de tarde, que eu estou aí, combina com os pescadores.” Corri, combinei com os pescadores tudo, deu mais ou menos umas 50 pessoas. P/1- Nossa! R- Deu umas 50 pessoas. Por que também deu? Porque as pessoas não acreditavam que ele iria entregar e disseram: “Ah não, eu vou ver.” E todo mundo iria ver o que ele ia falar. Mas rapaz, olha, na reunião ele pediu para falar, mas ele “bateu”, parecia que não era pai para filho não. P/1- É! R - Bateu! E eu digo: “Rapaz!” E o pessoal falando assim, os que estavam do meu lado: “Você fica na sua.” E eu digo: “Rapaz, eu já não estou aguentando mais, eu vou falar também aí.” E ele: “Não rapaz, se não vai dar briga.” E o pessoal deixou ele falar, mais de uma hora ele falando, explicando, depois ele pegou a bolsa, a pasta e bateu em cima da mesa assim e: “Eu estou me retirando” e saiu. Aí Xepa chamou ele: “Não, Toninho não precisa…”. “Não, eu estou me retirando da reunião de vocês que eu não faço mais parte disso…”. “Não, pelo contrário, o senhor ainda é pescador, então a gente precisa do senhor.” P/1- O Xepa? R- É. “A gente precisa do senhor, a presença do senhor é bastante… E também o senhor sabe que não funciona desse jeito, o senhor batendo.” E os papéis ficaram lá, ele não prestou conta, nada e a gente começou a falar: “O senhor sabe que não funciona assim. Eu acho que o senhor deveria pegar esses papéis e levar para sua casa. Nós vamos marcar outra reunião com os pescadores, o senhor vai fazer na próxima reunião uma prestação de contas, que a gente também não pode pegar esse papel que não sabemos o que está aí. Então o senhor vai fazer uma prestação de conta com todo esse período que o senhor ficou com a associação, o que entrou, o que não entrou e o senhor dá uma explicação melhor. Daí nós vamos fazer uma ata, tudo escrita, daí nós vamos partir por fora, que ela está registrada no nome do senhor.” Explicou e ele: “Tudo bem!” Pegou a pasta, levou e a gente: “Pode convocar a votação?” “Pode!” E fizemos o edital, Xepa fez o edital, saímos pregando: “Dia 30 eleição da associação dos pescadores”. P/1- Quando foi isso Dé? Que ano? Só o ano. R- O ano passado. Fizemos tudo e o pessoal foi votar. Na verdade, o seguinte: votaram e também só teve a chapa única, não teve mais nenhuma. P/1 - Você lembra o número de votos? R - Na associação está 45 votos. Aí ele se retirou, fez outro discurso, pediu desculpa e tal, lá vai, estava arrependido de ter feito aquilo, mostrou os papéis, realmente o que tinha era uma pasta assim cheia de ficha e só um cadastrinho desse tamanho. Aí a gente pegou esse papel, fizemos a eleição [tosse], compramos todo livro de atas, tudo de novo. P/1 - E o que é cadastrinho? R - Eram uns livrinhos de ata, assim, que ele dizia que era de ata, mas na verdade ele tinha arrancado várias folhas e o bichinho ficou… Que ele não fazia reunião, não fazia mais nada. Então a gente tem livro de ata, essas coisas todas, reunião, tem o secretário. P/2 - E agora o que vocês estão fazendo pela associação? R - Olha, eu acho que no período de 12 anos para um ano, os pescadores estão de parabéns, porque...e eles estão gostando, porque aí o que a gente fez, a gente partiu para frente do prefeito e conseguimos uma sede própria e hoje já temos uma sede, um lugar para reunir com os pescadores. Segundo, essa associação ela tem uma área no fundo que a gente fez uma reunião com um empresário aí ele doou todo material, dois computadores para associação, deu cimento, lajota, tudo para nós ampliarmos ela, já está tudo em minha mão, ele trouxe de São Paulo... um outro empresário trouxe de São Paulo seis mil livros, porque o outro é amigo dele, o que deu o material, que nós vamos ampliar e fazer uma biblioteca. Ele quer que faça uma biblioteca, então ele doou de São Paulo seis mil livros e a associação não tinha cadeira, nada e ele está trazendo essas cadeiras; os livros ele já trouxe. P/1 - Que livros são, você chegou a ver? R - Já, muito livro, desses assim de comida, de advocacia, tudo quanto é livro, são seis mil livros ele doou. E o outro amigo falou assim: “Então no fundo vai fazer a biblioteca”. Ele está vendo aí, a gente fez um pedido de um telão, ele está vendo se consegue em São Paulo um telão. P/2 - De onde vocês conheceram esses empresários? R - Esses empresários na verdade quem conheceu... por isso que eu digo a facilidade, assim, de um pescador me ver pedindo essas coisa, por causa que foi através da obra, eles vieram, compraram as áreas aqui na praia. Então como eu trabalho também nessa parte de obra, eles me chamam: “Dé, você vai fazer isso para mim?” Então nesse período a gente pega uma amizade muito grande e eu me encaixo ali todo e digo: “Olha sou presidente da associação, me dá uma ajuda aí, vocês falaram que iriam me ajudar, estou precisando.” “Não, tranquilo”. E sempre estou cobrando. P/1 - Esses empresários têm algum negócio aqui? R - Não, só tem casa de morada mesmo, de vir passar tempo aí, final de ano, um mês mais ou menos. P/2 - E como você acha que a cooperativa está conseguindo apoiar o trabalho dos pescadores? P/1 - A cooperativa? P/2- A associação, desculpa. R - A associação eu acho que está apoiando, assim, dessa forma. A gente já conseguiu várias cestas básicas, então essa cesta básica o governo manda e foi por isso que a gente teve que conseguir um ponto o mais rápido possível, com nome e o CNPJ da associação, porque veio a primeira cesta básica e, quando veio a segunda ,veio uma mulher do governo que dizia o seguinte: “A gente não vai poder entregar a cesta básica, porque vocês não tem um local e o governo quer um local da associação.” E vários outros documentos, que era o que... tinha muita gente aí de documento atrasado, essa associação é um ponto de apoio de carteira. P/2- Da ( colônia?)? R- Isso, aqui de apoio de seguro, troca de carteira. Agora mesmo eu consegui: na semana que vem eu estou trazendo o Banco do Nordeste para cá, porque a dificuldade do pescador que tomar empréstimo tem essa carteirinha... ir para Eunápolis, ir ser (plaque?) tirar um documento que se chama DAP [Declaração de Aptidão]. Daí ir para o banco, foto... então tem pescador aqui que só sabe pescar, então não tem consciência. Quando chega lá em Eunápolis não sabe onde é a Serpac [Seção de Registro de Partidos e Candidatos], não sabe onde é o Banco do Nordeste, então eu tive várias reuniões com o Banco do Nordeste, com a Serpac e eu digo: “Eu acho melhor que tenha um ponto lá em Santo Antônio e a gente organiza tudo isso, xerox, documento e vocês vão lá, fazem a palestra e faz o empréstimo do pessoal lá.” P/1 - E esse empréstimo para o que seria? R - Esses empréstimos são para pesca, só diretamente para pesca, por causa que são limitados entre R$2.500,00 o pescador que tem a carteira que está ativo na pesca. Agora eles assinam o documento que tem que ser de utilidade para pesca, como rede, alguma coisa para pesca e dez dias depois que recebe o dinheiro eles querem o comprovante da nota fiscal, se comprou rede, alguma coisa, anzol. Tem que ser da pesca, mesmo que ele já tenha e dá um jeito, se tiver um amigo que dá alguma notinha, ele pode desviar o dinheiro, mas tem que ter o critério da pesca que eles vão ver. P/2 - E o Projeto Pescando com Redes 3G, ele entrou pela associação ou não, como foi? R - Entrou pela associação a pedido nosso, pedido meu. Quando nós ganhamos a eleição, eu só via passando por Guaiú e eles falaram: “Infelizmente vocês não pegaram do começo, então só pode entrar em outra etapa, o que vocês querem lá?” “Não, vamos tentar o cultivo de ostra também” que no Guaiú já tem o cultivo de ostra. “Vamos tentar o cultivo de ostra?” “Bora?” “Então no momento certo a gente avisa.” P/1 - Eles falaram? R - Foi: “No momento certo a gente avisa.” Então o seguinte: tem muitos pescadores aí que não estão muito interligados com o Projeto Pescando com Redes 3G. O Guaiú já está bastante inteirado e o projeto vem dando, facilitando várias coisas como computadores; veio vários computadores para o TeleCentro do Guaiú através do 3G, aquela antena através do 3G; e a gente não tinha nada disso. No caso aqui a gente não conseguiu, pois ficamos nessa briga aí de associação e tal, que eles precisavam de tudo isso através da associação. Então a pessoa cobrando, pedindo isso, aí eu pedi o cultivo da ostra também, que nós estamos fazendo de frente a casa do empresário lá, nós já temos em torno de quatro mil ostras. P/1 - Mas quem passou então as ostras? R - O Projeto Pescando com Redes 3G. P/1 - Ah, chegou aqui o cultivo? R- Isso, o cultivo chegou aqui. P/1 - Agora você achou importante o cultivo, quem mais dos pescadores? R - Ó, aí eles fizeram três, quatro reuniões. P/1 - Quem? R - O pessoal do projeto, o pessoal da ABS [?] fizeram várias reuniões. E o seguinte: por que eles acharam que uma reunião só não era possível, certo? Porque eles tinham que ter o aval primeiro do pescador, se queria esse projeto ou não. Aí através desse projeto pode nascer vários outros que ele não falou, mas que aí seria o primeiro o cultivo de ostra. Então eles fizeram várias reuniões até chegar o momento certo. Eles disseram que não importa, o que no primeiro dia dá 40 pessoas, todo mundo fica querendo saber o que é, mas ele quer saber mesmo quem está interessado no projeto e tanto que no final sobraram só 12. P/1- No começo veio bastante? R - No começo eles colocaram telão, fizeram o curso mostrando como era a criação da ostra… P/2 - Ah, chegou a ter o curso aqui? R - Exatamente. Aí mostrou no telão tudo a ostra, como é que fazia, como é que não fazia e tal. P/2 - Você fez o curso? R - Fiz! P/1 - Era um curso ou uma palestra? R - Não, o curso a gente fez em Cabrália e depois várias palestras, né. E também o curso, assim, como usar também aquele aparelho, que para o projeto de ostra tem um aparelho desse. P/1 - Mas a primeira reunião, que tinha 40 pessoas, você disse que eles vieram com telão… R - Vieram com telão para mostrar tudo. P/1 - Como era… R - Como era, aí também ele trouxe uma parte do projeto. Na verdade teve muita gente logo que falou que esses camaradas vieram para ganhar dinheiro, que iria colocar um “bocado” de ostra aí e depois ele iria levar embora e iria ganhar dinheiro. Então eles fizeram uma parte de cada um, pouquinho para mostrar que não era aquilo. P/2 - O que o pessoal pensava além disso que você falou? R - Eles pensavam o seguinte, muita gente falava assim: “Rapaz, o pessoal vem lá de fora para usar nosso rio, vai encher de ostra, depois das ostras tudo grande, na hora da venda eles vão colocar dentro do carro, ganhar dinheiro e nós vamos ficar chupando o dedo”, um falava assim. Mas eu: “Rapaz!” E eles sempre explicando que não era assim, que saía dessa forma, a associação que iria ficar de parte disso, que iria estar de parte, que iria ter 1% para a associação e iria dividir como faz hoje no Guaiú. Se tem dez, se deu mil reais, dividia entre os dez, só isso. Agora eles têm um ponto de venda, têm tudo, têm os valores, têm os preços. P/1 - Aí no fim… R - No final… P/1 - Das reuniões sobraram? R - 12! P/1 - Esses 12 é que foram para Cabrália? R - Esses 12 não, esse 12 foram, não chegou a ir para Cabrália, ficou aqui mesmo. P/1 - E o curso? R - Aí eles trouxeram vários materiais para cá, como fazia a tela, como fazia a armação para guardar as ostras, para criação. Então foi dado aqui mesmo. Quando eu falo nesse curso foi um aprendizado como armar ela, que nós fizemos três com eles e daí por diante está todo material lá na associação para a gente dar continuidade no projeto, porque eles pedem. Como Santo Antônio ficou por último, eles estão observando ainda se o ponto que nós colocamos se realmente vai dar ostra, porque um ponto que a gente colocou no rio aqui as ostras morreram e num ponto lá em cima perto da barra as ostras cresceram. P/1 - Quem indica o lugar? R - Tem um profissional que ele vem para medir, tem um aparelho que eles trouxeram, que está lá na casa do pescador que mede a salinidade da água. Então tem um técnico que mede para ver se a água é salgada, porque disse que não pode estar muito salgada não, tudo isso eles trazem, o técnico para tudo. P/2 - E além disso você participa do projeto também com o aplicativo instalado no celular? R - É, no barco. P/2 - Faz tempo isso? R - Faz desde o ano passado. P/1 - Então esses 12 concordaram com o cultivo da ostra? R - Concordaram. P/1 - E teve outras coisas que esses 12 se envolveram? R - De…. P/1 - Do projeto, se teve mais coisa além do cultivo da ostra? R - Não, por enquanto esse projeto aí só está no cultivo da ostra, eles ainda estão analisando. Se funcionar, eles querem ampliar com a gente, que a gente já colocou e eles trouxeram as ostras com um centímetro e, com um mês que está lá a ostra, quando a gente deu outra olhada com eles estava com cinco. Então eles acharam que avançou, o local é... aí eu perguntei a ele: “Qual o tamanho ideal para abate?” Ele falou que era com mais ou menos sete centímetros. Então já as ostras lá já dá para... Aí só que o seguinte: eles agora essa semana... o rapaz me ligou, que o seguinte, morreu muita ostra. Aí a gente ligou para ele, eu mandei o pescador que estava lá tirar foto, porque o que aconteceu em cima da tela, onde estão as ostras veio um tipo de uma espuma, que eu acredito muito que essa espuma vai dar por conta das embarcações da Veracel veio para praia e ficou ali em cima. Mas isso em geral, na praia em geral, mas aí também junto da praia ficou ali em cima. A gente chamou esse biólogo, ele levou a amostra, estamos esperando uma decisão dessa amostra e morreu quase as ostras todas. P/1 - Olha só… R - Todas! Morreram as ostras. P/1 - Dé e os 12 estão continuando com o cultivo? R - Estão, estão continuando com o cultivo. Aí eles também trouxeram bonés, camisetas, né, doaram para essas pessoas que realmente estavam incluídas ali no projeto. P/1 - Dé, só a gente está quase terminando. E além de você, eles deram o aplicativo para mais alguém desse grupo? R - Não, só daqui de Santo Antônio o contemplado foi eu. P/2 - Por que só foi você? R - Porque no ato... o seguinte, na contemplação e na reunião que eu participei, realmente participaram seis, comigo na reunião. Todas as vezes de reunião lá participou... P/1- Que iria lá? R - É e eles não tinham embarcação. E nesse seis, comigo sete, quem tinha embarcação só era eu. Foi tanto que eu fiz uma pergunta, porque no momento não daria para outros barcos que tinha aqui, que eu sabia que quando eu chegasse com esse aparelho alguém iria fazer essa pergunta: “Por que?” Aí então os aparelhos, como eles falam que são poucos e ainda estão em fase de experiência, que se der certo, ele acha que, por isso ele pede para o pescador está usando pelo menos esse da embarcação aí está usando. Então eles pedem, se der certo, vai vir mais. P/2 - O que mudou na sua vida de pescador com esses equipamentos, com esse tablet? R - Ah para mim é o que eu acabei de falar né, para mim mudou que a tecnologia avançou através desses tablets aí. Avançou porque lá fora mesmo no barco eu ficava preocupado a quem vender o pescado, e hoje eu consigo falar com os pescadores. Aí se você estiver o pescado, mesmo que não esteja no meu barco, mas eu incluo você e você já não tem preocupação, a venda já é… P/1 - Tem limite para incluir? R - Não! P/1 - Não tem? R - O limite é assim, porque eles já estão interligados lá na central, com várias pousadas. Só se a pousada chegar e falar assim: “Ó, hoje tem que acabar, tem que ficar para amanhã ou para daqui dez dias.” Aí nós temos que aguardar aqui, porque isso também na reunião foi dito que se a gente estivesse do lado de lá, a gente poderia juntar esse pescado e levar para o beneficiamento, para deixar guardado lá, engavetado. Só que aí surgiu... os outros pescadores falaram, assim: “É, mais aí leva o pescado para lá, não vende amanhã e hoje de repente me aparece para vender um quilo ou dois e está lá.” Então a gente resolveu deixar cada qual na sua casa. P/2 - E você já vendeu em Coroa Vermelha? R - Não, ainda não. P/1 - Alguém você acha que vendeu? R - Muito embora também…. P/1 - Alguém vendeu lá? R - De lá de Coroa Vermelha? P/1 - Não, daqui para lá? R - Não! O que muito embora pelo seguinte: não sobra não, aqui vende tudo, e por causa também daqueles atravessadores, vem com o carrinho aí pega, compra tudo e leva. P/2 - E esse aplicativo a gente estava falando né, tem várias funções, tem de anotar quando que gastou, quanto que ganhou…. R - Isso! P/2 - Tem a previsão do tempo, as tábuas de maré. Qual você mais usa? R - Ah, eu gosto de usar bastante a internet, que também tem internet grátis, né. P/1 - No barco? R - É! No tablet também tem internet grátis, então a gente fica… P/2 - E o que você faz na internet? R - Ah eu fico acessando... como eu gosto também de estar interligado no mundo político aí, eu fico acessando as coisas que acontecem aqui em Cabrália, em Porto Seguro, antenado nessas coisas, Jornal Nacional. P/1 - Dé, em relação à associação, o projeto mudou alguma coisa, aconteceu tudo meio junto, mas depois que você trouxe o projeto, essas coisas que você falou, muda alguma coisa para a associação? R - Eu acho que muda, porque quando agrega a associação e vem um projeto desse mesmo que seja agora pequeno da ostra para Santo Antônio agregou na hora certa, porque uma coisa vem puxando devagarinho a outra, entendeu? “Ah foi beneficiado com a associação. Ah mas está vendo aí, com a associação já vem o projeto.” Então uma coisa já vem agregando a outra. P/1 - Certo! E para comunidade em geral, teve alguma mudança essa organização toda de vocês? R - Teve, eu só vejo falar coisas boas porque não tinha, ao longo do tempo, há 12 anos atrás não tinha nada, só os papéis mesmo intocados na gaveta. Então agora a população aqui, como é pequena, então isso divulga muito e a maioria aqui são pescadores, organizamos todas as fichas dos pescadores, tudo, fomos nas casas dos pescadores, conversamos, fizemos várias palestras; aqueles pescadores que estavam com dúvida estamos trazendo, a gente também está interligado com a colônia de Cabrália e a colônia de Porto Seguro. Então quando a gente precisa de algum evento, fazer... agora mesmo, semana passada a gente fez um bingo para arrecadar recurso para a associação. Então a colônia de Porto Seguro doou, a colônia de Cabrália doou. P/1 - E além do projeto agregar para a associação, para comunidade no geral já deu para ter alguma repercussão? R - Eu acho que deu. P/1 - Qual? R - Eu acho que deu na fase que... já é pouca mas deu, porque é na fase já de três vezes que a gente distribui cesta básica. P/1 - Mas o Projeto 3G? R - Não, não é pelo Projeto 3G, isso já parte do governo né, governo federal, que quando a gente encaminha o documento da associação, o CNPJ tudo em dia, aí tem a cota de feira, né, de cesta básica. P/1- E a ação do projeto, ainda... R - Não, a ação do projeto só está aí ainda por enquanto nessa fase de… E, porque a gente já chegou atrasado. P/1 - Certo! P/2 - E quando começou o projeto aqui? R - O projeto chegou aqui tem sete meses. P/1 - Dé, agora em relação aos jovens, como é que você está vendo os jovens aqui nessa comunidade? Como é que está a situação do jovem? R- Ó, eu acho que a situação do jovem aqui é… que eu sempre falo: a gente tem que lutar aqui, eu sou pescador, tenho filho. Eu falo sempre para o pescador: a gente tem que lutar para abrir um acesso, um ponto de várias… Trazer os filhos dos pescadores para a ativa também da pesca”, porque eu acredito muito com esse mundo da internet aí. Eu acho que se a gente não tomar uma atitude, a pesca vai ficar cada vez mais fraca, porque eu tiro isso por mim quando eu falo para meu filho, ele nem olha para o barco que eu tenho aí, ele não quer nem ver. P/1 - Nunca foi com você? R - Não, nunca foi, ele nem quer nem ver, nem sonhar, se for assim para ele pegar o barco e passear ele ainda vai, só para passeio mesmo: “Eu vou lá, mas não me meta nesse negócio de barco não.” Então quer dizer, a gente tem que trazer alguma coisa, puxar alguma coisa para o local para atrair o filho do pescador. P/1 - E os outros filhos de outros pescadores? R - Não, até essa semana a gente estava fazendo uma pesquisa sobre os filhos dos pescadores, assim: “Vamos ver se o meu, o dele, quem está na ativa da pesca” de 50% dos pescadores, dez estão na ativa. P/1 - Dos 50% que vocês conseguiram perguntar… R - Isso! P/1 - Desses só 10%? R - É, só 10% está na ativa. Os outros: “Não vou com meu pai na pesca não, vou estudar e vou embora. Ou senão vou trabalhar aí e vou… Para pesca eu não vou não”. P/1 - O que eles falam da pesca? R - Eles falam por causa da renda, o problema aqui é a renda, que vê o sofrimento e aqui em Santo Antônio eu acho que o sofrimento ainda aqui é maior. P/1- Por que? R - Porque a gente tem um local aqui, chama-se Boca da Barra e a maré quando vaza não passa mais ninguém, não passa barco, não passa mais nada; seca, secou de vez. Então o que acontece: aqui o pescador não tem horário de trabalhar, tem pescador que tem que sair meia noite e só voltar sete horas da manhã; ou, aliás, ir 12 horas. Eu já cansei de fazer isso: pegar meu barco, sair daqui 12 horas e ficar 12, a noite toda até cinco horas da manhã para começar a trabalhar, porque senão a gente perde o horário da maré e o meu barco não sai, seca tudo. P/1 - 12 horas do dia? R - Da noite! Por causa do horário da maré. Então eu digo que o sofrimento dos pescadores ainda é bem pior por causa disso. P/1 - Certo! Dé, e o que vocês já pensaram em alguma coisa para atrair esses jovens? R- [tosse] A gente estava conversando semana passada também com o pastor da igreja, ele tem um projeto que é a construção de uma área e tentar emitir uns documentos para conseguir linhas, agulhas, projeto mais ou menos assim, para atrair esses meninos, para estar fazendo essa parte de costura de rede, fazendo rede. Está trazendo, tirando eles da rua para isso um ponto, um local. P/1 - Rede de pesca? R - Isso! Que aí eles estarão envolvidos né, eles aprendem a costurar e aí eles fazendo esse movimento, a rede, tudo isso aí, eles podem pegar essas redes e vender. Agora se a gente não tomar essa atitude aí, eu acredito que… P/1 - E agora você pensando no seu filho, outra coisa que poderia ser feita nesse sentido, você pensa em alguma possibilidade? R - Sobre a… P/1 - É pensando além de fazer a rede, você falou que seu filho não quer saber, mas… R - É o negócio dele é internet e esse negócios e… P/2 - O que você espera para seus filhos, o que você gostaria que eles fizessem quando eles crescerem? R - Ah, a mãe deles fala: “Você vai estudar na condição da gente e pode ser um advogado.” O mais novinho fala: “Pai quero ser polícia!” Ele só fala assim, na verdade todos eles não falam: “Não, eu vou ser pescador”. P/2 - Nenhum quer? R - Nenhum! P/1 - Você falou que eles gostam da internet, essa coisa da tecnologia, tem algum jeito. Passou pela sua cabeça alguma possibilidade pela tecnologia com o jovem e pesca, puxar pela tecnologia para atrair para a pesca, vocês já chegaram a pensar? R - Assim não, ainda não, porque geralmente quando a gente conversa com o pescador mais velho ele não tem essa mentalidade da tecnologia. Então o papo mesmo é atrair para forma mais... mas não pela tecnologia. P/1 - E para o jovem por enquanto… R - É, eu penso que pelo jovem, por enquanto, ainda não tem essa tecnologia toda aqui não. P/1- Ligado à pesca? R - Ligado assim a pesca não. P/1 - E se você pudesse conseguir alguma coisa para mudar a situação na comunidade, o que você acha que poderia ser feito? R - Na comunidade sobre… P/1 - Relacionado a pesca. R - Aí! Deixa eu ver… P/1 - Além de tudo que vocês já fizeram. R - Não, eu acharia que o seguinte: que se a gente fizesse mais, assim, várias reuniões, o povo... é por causa que é difícil fazer isso, mobilizar o pessoal, ir dar várias palestras mesmo na escola, juntar com alguns professores né, para gente dar várias palestras na escola. P/2 - Palestra sobre o que? R - Sobre a pesca, entendeu. Mas assim, quando eu falo com os professores daqui: “Ah, não vou perder tempo com isso não, não vou mesmo.” Levar, eu mesmo já tentei, já falei, fui na secretaria, falei: “Olha a gente leva três ou quatro pescadores, tira um dia, tem um pátio, coloca as cadeiras e a gente vai e começa a fazer esse tipo de palestra”, porque é o que falta isso aí. Então eu acho que falta isso aí. P/1 - O que você falaria se você pudesse, se eles te abrissem espaço numa sala de aula, numa escola? R - Eu contaria a minha vida, primeiramente, e falaria um pouco da pesca diferente um pouco do que eu falei, porque quando.... e a gente fala aqui, realmente, a pesca fica só no feijão e arroz, por isso que eles caem fora. Mas eu falaria mais coisa contundente que desse para eles entenderem a realidade da pesca, né, que talvez não abandonasse tanto assim a pesca. P/1 - O que de bom da pesca você acha que eles iriam gostar de ouvir? R - Por exemplo, esse aparelhinho 3G, se os barcos têm a tecnologia, eles voltam para a pesca, porque, assim, veja bem, eu mesmo deu o maior trabalho para mexer naquele aparelho, mas na hora que meu filho pegou, ele “futricou” ele todinho e achou tudo que eu precisava. Aí ele virou e disse: “Agora eu vou no barco do senhor porque tem tecnologia.” Aí a gente coloca lá e eu vou dar umas voltas com ele. Ttem vez que eu coloco a rede mais perto, mas aí ele vai, porque está antenado e eu falo: “Anota isso, anota aquilo, anota aquilo outro o custo. Então são essas coisas que têm que passar para o filho da gente. P/2 - Mas ele foi com você no barco? R - Foi! Entendeu? Eu acho que é por aí. P/1 - Está ótimo Dé, só terminando, um sonho, maior sonho seu? Aí, qualquer sonho. R - Maior sonho…? P/1 - É. P/2 - Um sonho que você ainda tenha? P/1 - Independente de qualquer coisa, que sonho você ainda tem? R - Rapaz… P/1 - Para sua vida? R - Para minha vida… eu vou ser bem claro, assim, toda minha vida que eu já contei aqui, hoje a minha vida está...eu não sei se tenho tanto sonho alto, porque eu acho que para mim aqui está uma maravilha... o que eu posso sonhar mais? Eu acho que eu sou parabenizado porque tudo que eu peço a Deus eu consigo. E eu vejo tanta gente mais velha do que eu, que lutou pelo meios errados, que eu fico dizendo: “Meu Deus do céu, hoje graças a Deus eu tenho mais coisas que essas pessoas.” Por exemplo, meu pai mesmo que ficava criticando essas coisas, eu hoje, assim, paro com a minha esposa e converso assim: “Olha, você vê que eu sou, a gente aqui é mais ajudado por pessoa de fora que é amigo, dos que as pessoas de dentro de casa”, tudo que eu tenho hoje é pouco, mas é meu e assim eu tenho uma amizade muito grande com o pessoal, leva muita fé… Não sei, é que eu levo o negócio meio transparente, aberto, verdadeiro, eu não consigo enrolar ninguém. Então o pessoal: “Poxa rapaz, gostei” e pega assim e pronto. Eu peguei agora, estou com uma obra em Santo André que eu não... até hoje eu não conheço ele assim, tem oito dias e ele ontem me falou assim: “Dé, você tem uma carisma de pegar uma amizade tão grande, porque eu nunca fiz isso com ninguém e estou fazendo.” Ele me entregou as coisas, ele não sai para comprar nada, um prego e tudo eu entrego a ele as notas tudo direitinho e ele disse: “Eu não faço isso com ninguém, mas você tem um sangue tão bom que a gente está dando certo.” E eu digo: “É graças a Deus, ainda bem.” E ele: "Eu só não gosto de uma coisa de você!” E eu: “O que é?” “É que toda hora você fica me chamando de senhor, me chama de você logo rapaz, acabou.” E então eu... sei lá, que quando eu estava assim, quando eu estava em Eunápolis o maior sonho meu quando era criança era comprar uma bicicleta, o tempo passou e eu consegui uma bicicleta. Aí depois eu fui sonhando e eu disse: “Rapaz eu vou comprar um carro velho”, eu consegui um carro velho. Aí depois, um dia meu pai não quis me vender aquele barco, mas eu um dia eu vou ter um barco e eu tenho um barco, tenho canoa. Eu digo: “Vou comprar uma rede!” Tenho tudo, tenho rede. Então eu vejo assim: cada dia que passa eu vou melhorando, tenho minha família que, graças a Deus em Santo Antônio, eu sou bastante respeitado, não tenho adversário nenhum, tudo é meu amigo. Se eu tenho é gente que talvez não goste né, mas assim, tudo que eu peço ao meu Deus, eu tenho. Então, o sonho maior é viver bem com a minha família bastante tempo. P/2 - Até casou, né? R - Até casei! Rapaz… casar é problema e assim como ela contou ali: “No almoço, suado, vindo da pesca me pedir em casamento.” Também fiz um festão de arrasar. P/2 - Ah é? R - Fiz um festão, matei um boi: “Vamos matar um boi aí! Dá carne para todo mundo e cerveja”. P/1 - Ela que te pediu? R - Foi, pediu em casamento. “Mas rapaz, nós já não somos casados? Nós vamos gastar mais dinheiro aí? E nós não podemos gastar não.” “Não, nós vamos” então eu acho que assim, tudo que a gente pede… P/2 - Como é que foi seu casamento? R - Olha foi um barato, porque todo mundo ajuda e a gente aqui tem uma relação muito... eu tenho uma relação aqui mais eu e minha mulher assim, todo mundo vem dar um menino desse para a gente batizar, tem muito compadre, muita comadre. Então dia de sábado, domingo, amanhã mesmo, a gente tem muito compadre para visitar e aí eles falam agora na eleição assim: “Próxima eleição você tem que sair candidato, que você vai ganhar com os votos só dos compadres e as comadres.” E eu digo: “Eu não quero saber mais desse negócio não.” Então o casamento foi uma loucura, nós fomos para a fazenda, a gente pediu ao fazendeiro e ele disse: “Dé, leva ela viva, a vaca, amarrada, eu vou lhe dar dois cavalos, você vai montado, amarra dois litros de conhaque, um do lado e um do outro.” Foi uma festa e teve despedida de solteiro. É, me mandei daqui mais meu compadre, montamos no carro dele e “Bora?” "Bora!''. Tem um DVD aí que um amigo meu filmou o casamento e eu digo: “Rapaz para entrar na igreja vai dar problema viu!” E a gente tudo meio esquentado e eu digo: “Poxa…”. P/1 - Você veio direto da despedida para a igreja? R - Foi! Despedida para a igreja e eu já estava atrasado, todo mundo na igreja. Vesti um paletó aqui, arrumaram um paletó e eu digo: “Não vou vestir paletó não.” Aí colocaram uma manga comprida aqui e eu digo: “Até manga comprida ainda vai, mas paletó rapaz, não vou vestir não.” “Não, mas leva, coloca no carro aí'.” Aí amarraram um “bocado” de lata nessa carro e eu saí com esse carro aí, e quando chegou lá, foi pelo contrário, não é a noiva que se atrasa? Então quem estava atrasado era um padrinho meu de consideração e a Kátia já estava na igreja. “Rapaz a noiva já está ali” e eu digo: “Não, calma ,eu estou chegando agora, vou tomar mais um conhaque e daqui a pouco nós entraremos lá.” E aí eu entrei com minha mãe e fiquei, mas alguém falou atrás de mim, que eu não me lembro quem foi e disse: “Olha, seu padrinho de consideração não chegou ainda” e eu disse: “E agora? Vou ligar para ele.” Liguei, como ele participou da despedida de solteiro, ele estava na casa dele, que ele não aguentou mais vestir a calça. Então ele estava dormindo, dormiu ali, teve que sacudir ele, jogar uma água na cara dele. Aí ele levantou e disse: E o casamento?” Então filmaram na hora, aí tinha um rapaz no fundo da igreja que ligou a música da entrada, que eu iria entrar na igreja. P/1 - E a noiva? Estava onde? R - Não, primeiro eu entrei com os padrinhos. P/1 - Ah tá! R - Mas aí como o padrinho não estava, eu fiz aquele acesso de...eu fiz assim, mas rapaz ninguém aguenta e o cara filmou, mas eu já estava assim... e dormindo. E eu digo: “Rapaz eu estou ruim, já estou bêbado” e o pior, o padrinho chegou. Nós entramos e o sermão do padre: “Mais de duas horas, precisa aquilo?” E eu digo: “Ah padre, arruma uma cadeira para mim sentar aí que eu não estou aguentando mais não, minhas pernas não e em pé.” P/1 - E a noiva quando entrou, como foi? R - Ah rapaz, o coração, as pernas começaram a tremer ainda e lá vai e eu digo: “Rapaz, esse negócio aqui não é para mim não”, um “bocado” de gente, meus filhos entraram na frente, né… P/1 - Os quatro? R - Os quatro. P/2 - Foi emocionante? R - Foi! Foi também o primeiro casamento que Santo Antônio já teve desse jeito. Então a população foi toda, foi todo mundo convidado. P/1 - Por que a igreja não… R - A igreja de Santo Antônio, tem uma igrejinha que quando era Santo Antônio miudinho. Então começaram a ampliar uma igreja do lado e quando terminaram o primeiro casamento foi o meu, a igreja de Santo Antônio. Então a inauguração também fez parte do meu casamento. P/1 - Quanto tempo faz isso, Dé? R - Três anos. P/1 - E aí acabamos com essa festa! [risos] Terminamos essa entrevista assim, Dé! P/2- Muito obrigada! R - De nada. --- FIM DA ENTREVISTA ---
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