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História

Os gregos gostam de festa

História de: Melpomene Perides Lawand
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 08/12/2014

Sinopse

Melpomene é nome de uma musa grega e de uma senhora descendente de gregos que migraram para o São Paulo na década de 20 fugindo da guerra entre gregos e turcos. Ao contar sua história ao Museu da Pessoa, esta simpática senhora relembra a infância passada no centro de São Paulo, os corsos do Carnaval na Avenida São João e a alegria da comunidade grega na cidade. Conta os colégios onde estudou, a rigidez da família em relação aos namoros e como perdeu o pai aos 16 anos. Ela relembra as dificuldades para criar os seis filhos e o problema da vista que a deixou parcialmente cega.

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História completa

Meu nome é Melpomene Perides Lawand. Nasci em São Paulo, no dia 9 de agosto de 1928. Nasci na Rua São Caetano em São Paulo e vivi lá até muitos anos. Meu pai gostava desse nome porque era de uma musa da Grécia. Ele dizia a deusa da beleza, meu pai tinha muito orgulho. Porque as minhas outras irmãs são o nome da minha avó, mas eu sou a terceira filha, já deu pra escolher um nome diferente. Meu pai Nicolau Miguel Perides e minha mãe Maria Perides. Em 1923 vieram pro Brasil, lá pelo mês de julho, uma coisa assim. Porque lá estava aquela guerra entre otomanos, os ortodoxos, aquela briga de turcos e gregos, então a cidade onde eles moravam pertence à Turquia, naquele corre-corre eles quiseram fugir logo e o trem, sei lá como foi, foi pra Síria. Naquele tempo os barões estavam fugindo de São Paulo, aquela época, revoluções que tinha em São Paulo, então eles alugaram essa casa grande porque eram oito pessoas que vinham, na Rua Brigadeiro Tobias, perto da estação da Luz. A primeira irmã, a mais velha é Atina, nome da minha avó; a segunda é Vitória. Eu, Melpomene, meu irmão também levou o nome dos avós, Miguel Nicolau Perides. Meu pai tinha loja de tecidos na cidade. Meus avós paternos, ele e os três filhos eram barbeiros, irmãos do meu pai. Antigamente barbeiro era como dentista, ele arrancava os dentes, ele fazia curativo, essas coisas, era tipo farmacêutico, uma coisa assim. E meu pai já não, meu pai vendia tecidos, uma loja de tecidos. Em casa era assim, a gente tinha que fazer o serviço de casa, naturalmente.

Nós estudamos, as minhas irmãs estudaram, mas meu pai queria que elas parassem de estudar pra começar a costurar, já de pequena, não tinha 15 anos a minha irmã já foi: “Ah, não quero costurar”. No fim elas foram aprender costurar, elas duas e as minhas duas primas. Aprenderam a costurar e a minha irmã era a melhor costureira, foi maravilha, foi uma escola muito boa que eles foram. O professor era italiano e fizeram um curso muito bom de costura. E toda roupa a gente fazia em casa, não comprava nada pronto naquele tempo. Nasci na outra casa. Esse palacete logo largamos. Os irmãos foram casando, já ficou só minha mãe e meu pai, comprou essa casa na Rua São Caetano, alugou. Lá já era só loja. Nós quando mudamos, mudamos pra Rua Mauá, perto da Rua São Caetano. É uma casa grande, casarão também grande, que tem o porão embaixo, atrás um quintal grande. Era tudo mato, era pedra, minha mãe fez um jardim maravilhoso. Parreira de uva de um lado, embaixo era tudo hortelã, salsinha. E nesse outro lado era roseira, flores, margaridas. Mas minha mãe sempre estava plantando, mexendo na planta, ela gostava muito de mexer na terra. E tinha forno à lenha, ela mandou fazer forno porque ela gostava de fazer os assados, os cabritos, tudo no forno à lenha. Naquele tempo não tinha gás, era fogão de carvão. E tinha uma espiriteira pra fazer cafezinho, uma espiriteira é como de gás agora, pequenininho assim, punha-se álcool, uma espiriteira, só pra fazer cafezinho, mas o resto era no fogão de carvão.

Comecei a estudar com seis anos. Depois de lá passei pro primeiro ano no Grupo Escolar Prudente de Morais, também nunca minha mãe segurou a mão pra levar, a gente ia sozinho, nem irmão, ninguém levava. E chegando na Avenida Tiradentes tinha os guardas que atravessavam, porque lá tinha os bondes. Mas tinha guarda que atravessava a gente. Mas nunca que eles ficavam preocupados: “Mas como que ela vai atravessar a avenida?”. Porque lá da escola, do grupo, tinha os meninos, até meu irmão foi um desses que fica apitando pra gente atravessar, pra parar o bonde. A avenida com três ruas assim que atravessam, íamos e voltávamos sozinhos. Estudei lá os quatro anos do primário, depois eu fiz no São José o preparatório, admissão que diz hoje, pra entrar no São José, na Rua da Glória, e fiz o ginásio lá. Lá tinha educação artística, também tinha religiosa, Colégio São José de irmãs, minha mãe gostava por causa disso também. E tinha também uma hora de bordado, ensinava coisas. As brincadeiras eram as de rua. Ali era na rua, quando morávamos na cidade. Olha, boneca que eu tinha era uma só de pano que eu usei, acho que a vida toda eu tive boneca de pano. Mas minha mãe fazia uns vestidinhos bonitinhos. Acho que boneca que eu tive, de louça eu não tinha. Minhas irmãs tinham, que naquela época elas ganhavam de louça. Já eu não, era de pano, e nem estava triste, estava bem contente com aquilo. Meu irmão tinha muitos carrinhos, bicicleta. Eu tive minha bicicletinha, dessas pequenininhas, depois de grande eu não tive bicicleta, não, meu irmão que teve.  Bordávamos muito, à noite, ouvindo rádio, a gente bordava, gostava muito de bordar junto com minhas irmãs. Tricô! Segundo ano, o casaco de tricô fui eu que fiz. Como a gente aprendia. Quer dizer, acho que a minha mãe terminava as mangas, tudo, mas o tricô mesmo, o casaco do segundo ano primário, eu que fiz. Oito, nove anos? Brincar de calçadinha. Cantar de roda, essas músicas de roda, a noite toda. As mães sentavam nas cadeiras lá fora, todas as mães, e nós brincávamos de roda, de cantar, de passa-passa, aquelas brincadeiras que tinham antigamente. Os bailinhos, as festinhas. Se tinha no vizinho, no sei o quê, meu pai não gostava, mas nisso ele deixava, porque eram amigos do meu irmão, eram pessoas conhecidas, vizinhos. No carnaval, os amigos do meu pai tinham carro, então, tinha um filho só pequeno e carro antigamente era grande, que podia subir pessoas, não era apertado, pequenininho como agora. Então nós subíamos junto. Fazíamos vestido de fantasia de carnaval, de chita, aqueles vestidos de chita e subíamos lá, ficar de pé lá atrás. Eu com o meu irmão ficávamos no meio, minhas irmãs sentavam atrás no carro, abriam o capote. E serpentina, confete. E íamos na Avenida São João, o corso era na Avenida São João. Mas isso quando nós morávamos ainda na Rua Mauá, eu era pequena. Íamos no corso, cantando, jogando serpentina, cantando, o carro para e fica dançando. Mas umas músicas diferentes, gostosas mesmo. Eram quase só parentes nossos naquele tempo.

Depois da Segunda Guerra Mundial começaram a vir muitos gregos, começaram a vir os gregos novos. Enquanto meu pai era vivo a gente tomava parte. Depois meu marido, eu casei com um árabe e ele, diferente do meu pai, não gostava de passear, não gostava de sair, não gostava, completamente diferente. A gente ficava mais em casa. Minhas irmãs casaram, a primeira foi morar em Santos, o meu cunhado era muito legal e a gente ia, se ela não estava em São Paulo nós estávamos lá. Recebia a gente, recebia bem, fazia festa, íamos às praias, tudo, meu cunhado gostava muito. De manhã já ele que preparava a mesa, ele sabia fazer as coisas, fritar já os peixes (risos). E a gente já levantava e ele já estava fazendo tudo, arrumava a mesa com flores. E quando eles vinham, se nós não estávamos em Santos ela estava em São Paulo, era toda semana quase. Essa não teve filhos. A segunda quando casou morava perto de casa, o namorado dela, o noivo, casou, ficou morando em casa, teve filhos, netos, começamos a brincar com a primeira neta, primeira e segunda neta. Meu pai faleceu, a primeira neta quando nasceu, ela não teve dois anos e ele faleceu de repente.  Ele tinha 71 anos. Meu tio foi chamar ambulância uma hora da madrugada, fomos na casa da sogra da minha irmã, ela morava na outra travessa, eles tinham telefone. Não sei como foi, chamaram ambulância, veio, minha mãe lá chorando. “O que foi?” Eu fui dar água benta para ele achando que água benta ia servir. A gente trazia água benta da igreja, 6 de janeiro tem a festa de batizado de Jesus, então a gente trazia pra casa água benta. Eu comecei a dar água benta, mas ele não bebeu. Veio a ambulância, a minha mãe falava: “Dá uma injeção pra Melpo, a Melpo está gritando, chorando muito”. Eles vieram: “Eu não estou doente, não quero injeção”, vieram aplicar injeção em mim, sei lá. “Eu não sou a doente, meu pai que está doente, dá injeção pra ele”. A gente gritando. Foi muito difícil essa morte. Eu tinha dezesseis anos.

Eles não deixaram a gente paquerar ninguém, quando tinha homem que ia vir em casa, depois que casava meu pai recebia. Mas meu pai não gostava, de repente vem e recebe porque já casou. A gente era muito presa, não podia, tinha que esperar. Íamos nas festas, no baile da 25 de março, um baile bonito, a gente fazia vestidos bonitos, estamos lá elegantes, bacana, ficava tudo sentado perto do meu pai. Se o moço vinha pedir pra dançar, se ele deixava a gente dançava, senão... só com parentes que pode dançar, mas outra pessoa. E ele ainda fazia a gente passar vergonha. Meu pai era legal, mas de vez em quando ele falava: “Ah, elas estão tudo doente, não dá pra dançar”. Estamos no salão dançando toda hora e de repente pra aquele camarada não: “Elas estão doentes, não dá pra dançar”. Mas naquela época acho que era mais, levar taboada, essas coisas existiam. Minha tia, casada com meu tio era síria. Então um dia ela veio pra minha mãe: “Tem um moço muito bom, tem um moço não sei o que lá”, eu falei: “Ih, não quero saber de nada”. Eu não queria saber, sei lá. E logo trouxeram, uma noite trouxeram ele, só pra ver se vinha, ele começou a frequentar. Vinha frequentar, jogar baralho, não sei o que lá, não sei o que lá, então tudo pra casar, pra ficar noiva, não sei o que lá, foi assim tudo. Já tinha 20 e poucos anos já. As minhas irmãs já eram casadas, já tinha muitos netos. Quando casei tive quatro filhos, no último, que eu nem estava querendo mais, mas vai, aconteceu. Fui no médico, fazia tratamento e logo que ele me viu falou: “Ih, acho que é gêmeo. Tem gêmeo na família?”, falei: “Não tinha, mas a minha irmã depois de quatro teve”. Mas eu falei: “Eu costumo ficar gorda, já sou gorda, em dois ou três meses já fico grandona”. Ele falou: “Não, vai ser”. Tirou chapa, naquele tempo radiografia, chapa, vai ver eram dois. Aí, cheguei em casa chorando, meu marido ainda não estava trabalhando, estava em casa: “O que foi?” “Ai, vai ser gêmeos”. Ele falou: “Então, nós temos na família”. A tia dele, a prima dele, Fulano, a família do meu marido tinha muitos gêmeos. Ele todo alegrão, eu: “Ah mais dois agora, que coisa!”, uma delas é essa, uma das gêmeas. A mais velha é Elvira Maria, nome das duas avós, Elvira, minha sogra, Maria minha mãe. A segunda, Dionéia, é nome grego. O terceiro o meu marido escolheu, é Jorge, só que ele pôs o avô dele, Jorge Angelo. O quarto eu que escolhi, Diógenes. E as duas quando nasceram, todo mundo quis dar palpite. Ele trouxe uma lista. Eu queria Cristina e Cristiana, Claudia e Claudete, eles: “Ah não, não, não”. Pôs Eliana e Cristina. Ele queria separado porque elas não são iguais.

Meu pai já tinha morrido quando eu casei, eu estava de luto. E o noivado só, nossa, fiz um vestido lindo, rendado, muito bonito. Só que não fui fazer cor de rosa, naquele tempo tinha que ser cor de rosa, eu fiz um cinza de renda chantily, mas a moça pôs por baixo flor rosa e um cinza por baixo, ficava furtacor, ficou lindo, todo decotado com uma flor, bonito. Mudei daquela casa, que era da minha irmã.

Como eu levava muito tombo nessa idade, perdi a visão, não estou enxergando muito, levava tombo, meu filho comprou uma casa, fez uma casa que da garagem pra cima tem dez degraus, mas lá em cima, nos quartos, banheiros, cozinha, tudo sem degrau nenhum. E o meu quarto perto do banheiro, o banheiro assim junto.  Ele não gostava que eu trabalhasse. Mudei pra Vila Matilde e haja trabalho também com essas crianças. As meias brancas, camisetas brancas e o terraço era pequeninho, a minha casa lá era tudo terraço grande, aqui era tudo pequeninho, mas aprendi e deu pra viver.

A primeira filha foi boazinha, era boazinha a menina. Só que ela começou a ter, tipo um ano ela já começou a ter, que todo mundo estava com gripe japonesa, como chamava? Um surto que deu pra todos e eu não peguei. O médico disse que quando a gente está amamentando a gente não pega essas doenças, tudo bem. Essa minha filha pegou. Passou mal, minha mãe, meu marido, todos tiveram, eu não fiquei. Fiquei cuidando dela, essa menina toda vida tossindo, cuidei dela até os 12, 13 anos, até mudar na Talarico. E ia levar em tal médico, outro médico, tratamento. Vai ver, agora eu vejo o que era? Meu marido fumava e ele queria no quarto. Eu falava: “Vai fumar no terraço”, abrindo a porta é o terraço: “Você quer que eu saia na rua?” “Não, pode fumar”. Agora que eu vejo, a bronquite dela era cigarro.

Desde que eu operei eu perdi a visão. Eu fiz esse tratamento de pele, eu estou com câncer no braço, não posso tomar sol, não posso ir na praia, não posso ir nada. E depois eu comecei a perder a vista. Eu ia sempre no mesmo médico, oftalmo, 17 anos com o mesmo oftalmo. As minhas duas filhas vinham de Londrina, elas estão em Londrina agora, e íamos nós três. Falei: “Doutor, vai precisar operar esse?” “Vai precisar” “Então olha, cada vez estou ficando mais jovem, então vamos o quanto antes” “A senhora vai ter coragem?”, eu falei: “Se precisa operar. Se não precisar é melhor, mas se precisar, cada vez eu estou mais jovem, então trata logo”. Ele operou, tudo bem. No fim perdi as duas vistas.  Fiquei três anos sem enxergar. Do único olho que sobrou. E eu sempre bordando, costurando, fazendo tricô, comida.

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