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História

Os desafios do mercado varejista

História de: Marcio Millan
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 23/02/2021

Sinopse

Vinda para São Paulo. Contratação no Grupo Pão de Açúcar. Áreas de trabalho na empresa. A instalação das Mini Boxes. Funções desempenhadas e as mudanças no campo do varejo. Sonhos e realizações.

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História completa

P1: Márcio, a gente começa pelo princípio. Seu nome completo, local e data de nascimento. 

 

R: Meu nome é Márcio Millan, eu tenho 54 anos, sou de abril de 1949, do dia 19, moro no condomínio Suíço da Cantareira em Mairiporã.

 

P1: Você nasceu aonde, em que cidade?

 

R: Eu nasci no Paraguaçu Paulista, uma cidade do interior do Estado de São Paulo.

 

P1: E o nome dos seus pais?

 

R: Meu pai chama Francisco Millan Filho, espanhol, a minha mãe é Romula Manoel Jacobim Millan, síria, sou descendente de sírio com espanhol.

 

P1: E eles também eram da mma cidade de onde você nasceu?

 

R: Eram da mesma cidade.

 

P1: Como foi sua infância no interior de São Paulo, tendo um pai espanhol e uma mãe com ascendência síria?

 

R: A disciplina do espanhol é muito forte, né, eu acho que é uma coisa que me incorporou na minha vida, mas meu pai era muito exigente em relação à disciplina de horário, das tarefas. Ele tinha como hobby, e naquela época podia, a caça. Ele tinha duas cachorras e essas cachorras eram tratadas com o maior carinho, com maior cuidado, inclusive quando ele viajava pro Mato Grosso para caçar, ele pagava passagem para que os cachorros viajassem no banco e tivessem a mesma comodidade que ele tinha. E eu era o responsável para manter o treinamento dos cachorros, eu nem sabia naquela época, mas para que os cachorros tivessem uma atividade. Quase toda a tarde tinha que levar ao campo para que eles sentissem o faro da caça, para que eles corressem no campo e mantivessem a forma física. Naquela época nem se falava disso, né?

 

P1: Quer dizer que disciplina era uma coisa que você tinha desde menino?

 

R: Desde pequeno... E sinto hoje  que essa disciplina foi muito mais dura do que deveria ser. E eu acabei incorporando isso na minha vida profissional e também, no futuro, no esporte. 

 

P1: Márcio, quando você veio pra São Paulo e por quê? 

 

R: Eu vim pra São Paulo em 1968, 1969, por aí, porque eu já tinha terminado os meus estudos. Na realidade eu vim pra cá porque eu tava saindo do seminário e vim pra cá pra conhecer, uma vez que eu vinha estudar teologia aqui. Um dos padres que tinha um pouco de dúvida a meu respeito se eu ia mesmo seguir, vamos dizer assim, a vida religiosa, ele falou: “Ó, você vai comigo, vai dar uma olhada lá conhecer o local e ver se conhece a cidade, porque depois você vai ter uma vida diferente”. Eu vim pra cá conhecer o local e, na volta, eu acabei não voltando mais pro seminário, enfim, eu voltei pra cá pra trabalhar aqui e terminar os meus estudos em São Paulo. 

 

P1: Que ordem você pretendia seguir?

 

R: Padre mesmo. Na minha família, eu tenho um primo padre que ele é da Igreja Sagrado Coração de Jesus em Belo Horizonte. Então, a minha família tinha duas correntes: a minha mãe quis que eu fosse padre e os meus tios, irmãos da minha mãe, queriam que eu fosse militar. Eu acho que eu acabei atendendo um pouquinho cada um, né? Acabei estudando no seminário, vim pra São Paulo, terminei, me formei, lecionei e foi até um pouquinho de militar nesse período. 

 

P1: Quando você optou por não seguir a carreira religiosa, você voltou pra São Paulo pros estudos ou continuou...

 

R: Não, não, voltei pros estudos, terminei o 3° grau, naquela época chamava-se “normal”, você terminava os estudos e já podia lecionar na escola primária e se você fizesse outros estudos, você poderia lecionar no segundo grau. Foi os estudos que eu continuei, entrei na faculdade na área de Matemática. Eu fui lecionar Matemática um período.  

 

P1: E você ficou vivendo aqui em São Paulo sozinho?

 

R: Não, eu fiquei morando com a minha irmã. Ela tinha vindo antes para trabalhar no Bradesco, e ela chegou a me chamar pra trabalhar no banco, eu fiquei uns dois meses no banco, mas não era o que eu queria e acabei saindo também. 

 

P1: Fala um pouquinho da sua trajetória da escola até você chegar ao Pão de Açúcar. O que você fez nesse meio tempo?

 

R: Quando eu estava fazendo a faculdade, terminando a faculdade e lecionando, o meu tio ele tinha uma relação bastante grande com a época que se chamava Polícia Rodoviária, que era a (DNR?) e ele me motivou pra que eu entrasse na polícia. E eu acabei entrando, até um período de escola, e nesse período de escola, eu tinha uma formação superior, então foi muito rápido isso. No período seguinte, que seria como se fosse um estágio, você colocar em prática aquilo que você atendeu, enfim, fui parar no Palácio do Governo e no Palácio do Governo eu fiquei como segurança particular do governador Abreu Sodré. Também não era o que eu queria. Na época tinha um primo meu que trabalhava no Pão de Açúcar e ele me convidou pra vir aqui. E lecionar, eu também achava que não era aquilo que eu queria. Vida militar, eu não via futuro porque eram muita gente e eu já tinha prestado um concurso e não tinha ido lá grandes coisas, embora achasse que a minha formação tinha condições pra isso, enfim, e não era o meu caminho. E me convidou pra vir aqui e no dia 07 de fevereiro de 1972 eu comecei a trabalhar. Nesta época, o sistema de recrutamento aqui era um pouco diferente do que é hoje, naturalmente. Mas eu me lembro que o gerente de Recursos Humanos ficava na esquina da Brigadeiro com a Batatais e procurando encontrar pessoas que passavam na rua e convidando para trabalhar no Pão de Açúcar. Então, esse era o processo que a gente tinha em 1972.  

 

P1: Não tinha [entrevista]?

 

R: Não. Não tinha nada disso. 

 

P1: Mas antes de você começar a trabalhar aqui, você já conhecia o Pão de Açúcar? Você já tinha feito compras?

 

R: Olha, eu não tenho essa recordação, essa lembrança. Com certeza eu tinha ido ao supermercado, mas isso não me marcou. Nem as vezes que eu tinha ido e nem a marca dos supermercados. Não me marcou isso até eu entrar no Pão de Açúcar. 

 

P1: Quando você entrou de fato, como foi sua chegada aqui, como era a empresa, o que você vê?

 

R: Quando eu cheguei aqui e passei pelos testes e pelas entrevistas, uma das pessoas que me entrevistou foi o Moscarelli. Quando eu cheguei na área de Processamento de Dados, onde eu fui fazer a entrevista, me entrevistou o Moscarelli, me entrevistou o Clóvis também, que na época trabalhava aqui na informática. O doutor Luís Carlos Bresser Pereira, passei por entrevista com ele. Acho que não é dado que essas pessoas, que estão aqui no Pão de Açúcar hoje,  são por causa deles. Então o processo,  a gente sentia complicado e complexo passar por todas essas entrevistas e hoje a gente vê que o processo de seleção está muito mais evoluído e avançado. 

 

P1: Ao longo desses 30 anos quais foram as áreas que você atuou dentro do grupo?

 

R: Eu entrei na área de Processamento de Dados na época que a gente tava saindo do sistema convencional, que era um sistema de programação por cabos de fios magnéticos, onde você fazia a programação através dos fios, dos circuitos, né? Depois dessa fase, logo em seguida eu peguei a fase que você fazia as programações com os cartões [pair bushing?], você fazia as furações nos cartões. E nós saímos desse sistema e entramos na [Balls], que eram um sistema de computadores mais modernos que tinha na época e foi evoluindo. Acho que uma evolução bastante grande nesse período foi a leitura das caixas de TV hoje, que antigamente eram caixas registradoras e a gente saiu dos tíquetes para uma fita, que era uma fita que só tinha duas leitoras aqui no Brasil. Uma no Pão de Açúcar e a outra na Singer, que era uma daquelas máquinas de costura. E muitas vezes, a gente tinha que sair daqui, porque quebrava a leitura de Campinas, e fazer a leitura nas máquinas de costura Singer. Enfim, depois disso, eu fui pra uma área que era uma área de cálculo de nota fiscal. Que que é essa área? Essa área conferia o cálculo da nota fiscal em si, ou seja, se a quantidade que estava destacado na nota fiscal versus o preço estava correto. Se não havia erro de soma, se não havia erro de cálculo, então era feito essa conferência Depois dessa conferência, a nota fiscal ia pra uma seção que chamava seção precificação, que conferia somente se os preços estavam corretos. Passava um processo de conferência para ver se o cálculo da nota tivesse certo e a gente não pagasse mais do que era devido. Aí essas notas iam pra área de precificação, onde ela conferia se o preço do comprador tinha negociado estava correto e colocava o preço que a loja deveria tá praticando. Voltava pra mim essas notas de novo, se tivesse qualquer correção, eu recalculava a nota fiscal, apontava a diferença e essa nota fiscal ia pra contabilidade para fazer o registro dessa nota fiscal. Então, essa seção chamava-se seção de cálculos de CPD [Centro de Processamento de Dados]. Depois dessa época, o Pão de Açúcar criou uma área que chamou assim, uma área de cadastro e preço. Que que era a área de cadastro e preço? É uma área que foi criada para reunir todos os cadastros da companhia que tinha até o momento, que era o cadastro do produto e o cadastro de fornecedores, ainda em processo manual. A gente tinha tudo isso em fitas, em cardex, tinha uma seção que era muito maior do que essa daqui, né, pra você ter uma ideia, cheia de cardex, onde cada produto ficava numa gaveta, numa ficha, onde a gente registrava todas as alterações de preço, de um lado e do outro lado, tinha a duplicação pra registrar os estoques: entrada do depósito, saída loja a loja, estoque, tudo isso  era controlado manualmente. E essa seção de cadastro, na realidade, ela foi criada para juntar os procedimentos e num futuro ainda do cadastro, foi converter toda essa parte manual num cadastro a nível de computador, onde a gente conseguisse operar numa forma mais racional e não tão manual, como a gente operava até aquela data. 

 

P1: Na sua opinião, quer dizer, você tem uma trajetória aí bem burocrática, quais foram as renovações que você acha que foram assim definitivas?

 

R: Olha, como a gente já falou hoje  o processo de alteração de preços, que eram feitas de forma manual, ótica, que acho que poucas pessoas conhecem isso, que eram a matriz e que você rodava com álcool, né, pra poder fazer a reprodução disso. Outra renovação bastante grande nessa parte burocrática foi trocar todas essas fichas manuais por blocos ou por cadernos e isso deu uma agilidade muito grande no Pão de Açúcar e com certeza no varejo, porque a gente sempre estivemos à frente do varejo em relação a isso. Boa parte do meu início aqui foi nessa parte administrativa, essa parte burocrática e que eu fazia não só aqui em São Paulo, mas eu fazia nas regionais quando o Pão de Açúcar adquiria. A primeira regional foi em Brasília, em seguida veio Belém. E depois eu entrei na área comercial por meio de dica. Só que antes d’eu entrar para área comercial, eu passei por uma fase que nós chamamos aqui de “operação giro rápido”. Operação giro rápido era uma operação, um movimento que nós fizemos aqui dentro do Pão de Açúcar, onde a gente tentava passar conceitos pros encarregados de loja para agilizar a movimentação da mercadoria, pra não ter excesso de estoque, a quantidade certa e a hora certa que o cliente ia comprar. E depois dessa fase transitória, eu fui pra área comercial. Nessa área comercial, eu fui pra regional do Rio de Janeiro, quando fiquei lá até mais ou menos, 8 anos, foi onde o Pão de Açúcar começou a operar com seu orçamento reduzido na época, que eram os minis-boxes.  Então eu vi essa renovação no varejo, que foram os minis-boxes. E junto com os minis-boxes, quase que em paralelo, veio o super-box, que eram lojas grandes, que eram grandes minis-boxes, ou que tinham uma área maior que um minis-boxes. Então, eu passei por essas renovações. 

 

P1: Você percebia diferenças dessas regionais da relação com o consumidor com essas lojas do Rio de Janeiro e de São Paulo? Existe essa diferença? 

 

R: Não, existia o costume. Só que nessa época, nós não dávamos atenção pro consumidor como nós damos hoje. Quer dizer, o consumidor naquela época, ele não tinha o tratamento que tem hoje . Hoje  nós damos uma importância muito grande. É o mais importante, mas na época não tinha qualquer relação com o consumidor, não tinha esse respeito que tem hoje, o consumidor era tratado como uma pessoa comum, não tinha serviço, essas coisas todas.

 

P1: Como esses serviços foram introduzidos no cotidiano dessas lojas?

 

R: Eu acho que a partir do momento que começou a aumentar a competitividade no varejo, acho que o Pão de Açúcar começou a enxergar isso como diferencial e começou a ouvir e dar a atenção ao consumidor. Até porque antes, a tradição do consumidor era muito diferente do que é hoje, pelo processo de transformação. Todo mundo conhecia todo mundo da loja. Talvez hoje essa atenção que a gente despense de uma forma diferente, na origem ele tinha outra. Era o conhecimento que tinha a operadora de caixa tinha com o cliente que ia todo dia na loja, e que no fundo esse relacionamento sempre existiu. Eu acho que o formato dele é que veio se evoluindo. Quando a gente fala que não dava tanta importância, talvez a exigência também do consumidor foi muito maior do que a própria criação do Código de Defesa do Consumidor. O próprio consumidor começou também a procurar seus direitos. Eu acho que isso foi uma revolução muito grande no varejo. 

 

P1: Se você pudesse colocar algo que tenha lhe marcado muito nos seus altos de 30 anos no grupo, o que você colocaria?

 

R: Olha, eu colocaria assim: os minis-boxes, acho que foram uma mudança muito grande na minha trajetória, porque eu participei desde o primeiro momento da definição da linha, da definição dos equipamentos, da exposição, do treinamento das pessoas e do grande crescimento que teve esse tipo de supermercado. Acho que isso marcou muito. Outra coisa que marcou também foi o momento que eu saí dos mini-boxes e fui pra loja de conveniência, a Express. É outro tipo de loja, outro tipo de produto, outro tipo de consumidor, uma loja totalmente voltada para inovação. Nós tínhamos produtos nessas lojas que o Pão de Açúcar nem comercializavam. Enfim, passamos a estar na dianteira com relação ao atendimento, à variedade, com relação ao atendimento e ao serviço! Me lembro a primeira vez que a gente colocou a primeira máquina de xerox nesse tipo de loja foi uma revolução! A imprensa foi lá ver como tinha uma loja de supermercados que tinha posto de gasolina, posto de alimentação e que também tirava xerox, e depois essa loja passou a também passar fax. Alguém precisava passar fax, ia na loja e passava o fax. Então, acho que isso marcou muito a minha vida. Outra coisa que marcou foi o momento que a companhia passou um momento de dificuldade, um momento, não sei se posso dizer isso, um período de briga com a família, onde houve um enxugamento. Então todas aquelas lojas que eu basicamente tinha ajudado a abrir, que eram os mini-boxes, eu fui a pessoa que fui fechar. Nós fechamos basicamente fora de São Paulo todos os mini-boxes. Então isso marcou muito, junto com o Tambasco, renegociar com os fornecedores aquilo que nós devíamos, nossa dívida com ele, manifestar que a gente ia fazer o pagamento e que a gente queria um parcelamento, e também que o fornecedor não parasse de fornecer para nós, porque a gente estava com a loja estabelecida e o fornecedor querendo receber e a gente sem condições de fazer o pagamento. Mas eu acho que foi uma experiência muito boa, a gente teve vários fornecedores que naquele momento souberam entender a situação e tão com a gente até hoje. E outros fornecedores que, infelizmente, não souberam entender a situação, alguns deles não são mais fornecedores nossos. 

 

P1: Tem alguma passagem engraçada no seu cotidiano aqui no grupo?

 

R: E, olha, acho que teve várias, o problema é eu recordar. Eu vou me recordar de uma que eu sempre falo pros meus amigos. Não sei se você conhece o Manoel do Café. Quando eu entrei aqui o café era servido de mesa em mesa. Na época a gente achava que eram muitos, mas eram poucos para dar tempo pro Manoel entregar o café. E o pessoal de vez em quando, pra fazer uma sacanagem com o Manoel, eles colavam o copo na mesa. Então, o Manoel chegava para pegar o copo e não conseguia. Ele vinha tão rápido porque ele tinha que atender todo mundo, outros colocavam o copo de cabeça pra baixo, ele vinha colocar o café e derrubava. Essas coisas aí acabaram sendo engraçadas naquela época. 

 

P1: E o Márcio Atleta, como ele surge, como ele de São Paulo entra nessa história?

 

R: Olha, ele nasceu de novo, eu acho. Ele nasceu em 1994, 1995. Eu acho que eu nasci pra várias coisas na vida: eu acho que eu nasci pra minha família, eu nasci pro trabalho de novo... E eu descobri que o esporte – e na verdade, eu estava muito mais preocupado com a aparência física, tava interessado em conhecer um pouco mais a atividade física do Abílio, eu ouvia falar muito, e eu falei: “poxa, acho que eu também posso começar a fazer essas coisas” e aí, acho que eu me descobri. Descobri a origem disso daí também, porque a origem da minha mãe é síria, e eu voltei um pouquinho no tempo  e eu ajudei o meu avô, quando eu tinha 7 anos de idade. O meu avô era mascate, então negociava, vendia cama, mesa e banho e eu ia com ele quando eu voltava da escola com uma cadernetinha que ia anotando as vendas que ele fazia. Então, eu resgatei isso. Meu avô veio da Síria, a Síria se lembra do deserto, deserto se lembra um pouco de sofrimento, não tem água, e depois eu comecei a treinar sem querer que era treinar com os cachorros, então, depois de muito tempo  eu comecei a relacionar essas coisas e via que eu achava que eu tinha um perfil pra isso. E comecei a explorar isso, eu acho que eu trazer uma qualidade de vida não só pra mim, mas também pra minha família, eu trouxe uma disciplina no meu trabalho. Acho que o mais importante foi eu trazer essa disciplina do esporte porque eu queria treinar, eu queria praticar e do jeito que eu trabalhava eu não encontrava tempo. Então ele fez com que eu encontrasse tempo para mim trabalhar, pra mim dedicar mais tempo pra minha família e pra mim fazer o meu esporte, que vamos dizer assim, trouxe uma vida dentro de mim. Acabei lançando um livro, que fala de toda essa trajetória, mas uma coisa que essa companhia sempre demonstrou foi a competitividade que a gente ter com a gente mmo. E você consegue encontrar no esporte essa competitividade, e que se você souber dosar, você pode trazer pro seu trabalho, pro seu dia-a-dia. Então a competitividade de você ser melhor hoje  do que ontem; a competitividade de você ser melhor que seu concorrente, a competitividade de você atender melhor o seu cliente todo dia. Acho que isso eu consegui incorporar no meu trabalho. Com esporte.

 

P1: Tem alguma coisa que você deseje, um plano pra sua vida? 

 

R: Eu tenho um desejo, um sonho, um plano, que eu acho que depois que eu coloquei o esporte na minha vida, eu sempre penso na longevidade. Então, eu me sinto jovem, sinto assim com uma cabeça muito boa, muito tranquila, eu consigo conviver com faixas etárias a metade da minha idade, com pessoas de 25, 18 anos de idade. Eu acho que eu vou conseguir viver muito. O último planejamento que eu estava fazendo era fazer uma maratona quando eu tivesse 91 anos de idade. Então, isso é meu sonho. Eu acho que eu me sinto muito jovem, com muita disposição, com muita vontade e todos esses desafios que o Pão de Açúcar tem passado pra gente, que a gente enfrenta dia-a-dia, eu tenho disposição, durante o dia não sinto sono, não sinto indisposição. As pessoas falam que eu sou um pouco sério, mas eu tô tentando mudar um pouquinho. Acho que eu deveria ter mudado antes, mas tenho muito vigor, muita vitalidade, de tentar continuar crescendo no Pão de Açúcar. Continuar crescendo no esporte também. Pretendo ganhar e vencer algumas provas na minha faixa etária. 

 

P1: Você vai ao supermercado?

 

R: Eu vou todas as semanas ao supermercado, como cliente e como profissional da área que acomoda arroz, feijão, farinha, trigo, café, açúcar.

 

[Pausa]

 

P2: Na área comercial?



R: Uma coisa que vem ao longo do tempo o, a gente mostrando uma evolução, dentro de uma área comercial, toda essa parte de colocar a experiência do merceeiro com a evolução da tecnologia, ou seja, quando eu comecei a comprar aqui, a gente não tinha nenhuma fórmula, nenhum sistema que desse pra gente essa ferramenta que nós temos hoje. Então, era tudo feito basicamente em uma maquinha de quatro operações, onde você fazia as contas, fazia suas projeções, tudo manual. E mesmo o sistema de pesquisa que a gente tinha antes era um sistema muito precário, que não tinha uma informação que você necessitava. Eu me lembro que a grande mudança começou quando nós tínhamos uma reunião semanal com o Abílio, onde ele descia na sala do (Paiá?) e a gente começou a criar as ferramentas de gestão. Criar uma pesquisa, criar uma análise, definir as cestas de concorrentes, estabelecer mix de margens, estabelecer as formas que a gente ia combater esses concorrentes. Acho que essa foi uma fase, éramos 4, ou 5 pessoas que cuidavam de toda área comercial, inclusive o Tambasco, nessa época tava no comercial. Acho que esse foi o primeiro grande avanço na área comercial. O segundo grande avanço foi a introdução dessas ferramentas na nossa gestão de comprar, quer dizer, a gente tem uma situação formulada pelo computador através de fórmulas, onde a gente conseguiu um acompanhamento e um balanceamento melhor de estoques, com um tempo menor, porque o volume de trabalho na área comercial é bastante desgastante. Nesse momento a gente até não tinha uma política muito clara de negociação com o fornecedor. Eu acho que uma outra fase que a gente passou que foi muito marcante foi quando nós introduzimos o conceito de “box”, onde nós começamos a negociar mais fino com o fornecedor, passamos a exigir do fornecedor um respeito maior em relação ao fornecedor em relação ao nosso tamanho, em relação à nossa importância no mercado e não admitir que ele vendesse em situações diferente para o atacado e em condições melhores para nós. Acho que a partir do momento que a gente passou a ter uma política, acho que isso também foi uma mudança dentro do Pão de Açúcar e consequentemente dentro do varejo e que passamos a ter um respeito muito maior. E mais recentemente na área comercial, novas introduções de novas ferramentas de avaliação do fornecedor, que a gente não tinha no passado, a importância do fornecedor para nós, a nossa importância para o fornecedor, e a gente consegue enxergar também a estratégia de cada concorrente nosso. Acho que esse novo momento de a gente ter esses dados e cruzar esses dados, não só com os seus dados internos, mas com os dados dá pra saber a participação do fornecedor dentro do Pão de Açúcar, a participação do fornecedor dentro do mercado interno e vice-versa. Isso é uma outra argumentação que a gente tem pra fazer a negociação.

 

P1: Essa ação da tua área, ela tá aliada aos planos econômicos do Pão de Açúcar, a segurar produtos que estão tendo aumento de preço? 

 

R: É da minha área. Hoje  nós temos essa consciência que além de negociadores, nós temos uma responsabilidade social muito grande, que é conseguir negociar com o fornecedor pelo menor preço possível e repassar isso para os nossos clientes. Em algum momento, que a gente incorporou isso no nosso dia-a-dia, na nossa política, eu acho que isso reforçou ainda mais. Como nós tivemos um curso de um novo jeito de saber negociar, nos passou novas técnicas, eu diria que essas técnicas que foram passadas nos deixou mais seguros, mais firmes, com argumentação maior, com discurso ao fornecedor homogêneo com todos nós. E isso quando você consegue praticar esses pensamentos, você vê o quanto você é superior, ou pode ser superior em uma negociação. O que muitas vezes a gente entrava nos boxes e o fornecedor tinha muito mais dados que você, com aquele volume de negociação, você muitas vezes sentia até inferiorizado. Hoje é cabeça erguida, entra no box e parte para uma negociação segura, já sabendo do que você vai chegar no final. Naturalmente que durante essas negociações você tem excedências, mas você tem pra fazer essas excedências você têm várias ferramentas, vários relatórios que te diz onde você deve chegar nessas negociações, aquilo que é excelente, aquilo que é bom e aquilo que é inaceitável, que nós não podemos aceitar.

 

P1: Márcio, o que você achou de ter dado essa entrevista, de participar do Projeto Memória?

 

R: Olha, eu tô bastante feliz, bastante contente de poder tá contando um pouquinho a história do Pão de Açúcar, num espaço curto de tempo, poder relembrar tudo aquilo que eu vivi, tudo que eu passei. Eu veio de uma família extremamente humilde, eu cresci profissionalmente dentro do Pão de Açúcar, eu me formei dentro do Pão de Açúcar. Acho que tudo que eu tenho hoje  eu devo ao  Pão de Açúcar. A minha família é muito ligado a mim, tá muito junto comigo, a minha mulher me apóia muito, meus filhos me apóiam muito, mesmo nesses desafios malucos que de vez em quando eu passo por aí, mas eu tenho um apoio muito grande e eles sempre tão junto comigo. Eu me sinto, por um lado, gratificado, porque eu acho que eu trabalhei bastante, mas também tive a retribuição do Pão de Açúcar e e hoje  eu acho que eu posso continuar ajudando as pessoas, porque eu tenho uma experiência muito grande no varejo, tenho uma experiência muito grande nos processos, com a parte de negociações – porque eu tenho feito todo tipo de negociações dentro da companhia, nessa fase, que é compartilhar isso com as pessoas que estão chegando, ajudar na formação dessas pessoas que vão fazer essa nova formação do Pão de Açúcar, continuar levando a política nossa de qualidade de vida, não só internamente, mas também passar isso pros nossos consumidores. 

 

P1: Obrigada.

 

R: Eu que agradeço.

 

[Fim da Entrevista] 

 

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