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História

Os desafios da área de Recursos Humanos

História de: Viviane Rodrigues de Paula
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 09/01/2013

Sinopse

Origem da família. Mudanças de residência. Entre São Paulo e Recife. Escola. Primeiros empregos. Intercâmbio na Inglaterra. Bolsa de estudos na Austrália. Trabalho voluntário com refugiados. Entrada no Banco Real. Cultura do banco. Junção do Banco Real com o Santander. Mudanças internas e adaptação. Relação humanizada com o cliente. Eficiência positiva. Principais desafios do dia a dia. Futuro do Santander. Lab RH e atendimento personalizado. Casamento e maternidade.

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História completa

P/1 - Fernanda Prado

P/2 - Gustavo Lima

R - Viviane de Paula



P/1 – Viviane, boa tarde.

 

R – Boa tarde.

 

P/1 – Para começar, a gente gostaria de agradecer de você ter aceitado nosso convite e ter vindo pra cá, para essa entrevista. Para começar mesmo, eu queria que você falasse pra gente o seu nome completo, o local e a data do seu nascimento.

 

R – Eu que agradeço a oportunidade. Muito bacana o teu convite. Meu nome completo é Viviane Rodrigues de Paula. Eu nasci no dia 31 de janeiro de 1972, tenho 39 anos.

 

P/1 – Aonde você nasceu?

 

R – Eu nasci em São Paulo (SP).

 

P/1 – Qual é o nome dos seus pais, Viviane?

 

R – Manoel de Paula e Célia de Paula.

 

P/1 – Viviane, você sabe da origem dos seus pais, da família deles? De onde eles são?

 

R – A família do meu pai, é uma família de ascendência portuguesa - na segunda geração. Meu bisavô era padre, aí ele resolveu que não era o caminho dele - ainda bem, porque eu estou aqui hoje. A família da minha mãe, é uma família do Recife (PE) com ascendência holandesa. É uma família de quatro filhos. Do meu pai, de três filhos.

 

P/1 – Qual era a atividade deles? O que eles fazem?

 

R – O meu pai é empreiteiro, trabalhou com construção a vida toda. Foi, inclusive, um negócio herdado de família. Começou com o meu avô, ele [pai] e o meu tio, meu pai e o meu tio, deram continuidade ao negócio. Está na família há algum tempo. A minha mãe era decoradora. Sempre trabalhou com decoração. 

 

P/1 – Você tem irmãos?

 

R – Tenho uma irmã chamada Amanda. Ela é onze anos mais nova.

 

P/1 – São só vocês duas?

 

R – Só nós duas. 

 

P/1 – Conta pra gente como foi a sua infância aqui em São Paulo. Em que bairro você nasceu?

 

R – Olha, a minha infância foi muito dividida entre São Paulo e Recife. Eu nasci na Maternidade São Paulo. Foram treze residências - a gente mudou bastante. Treze residências com os meus pais. Depois ainda mudei um pouquinho - eu, sozinha. Eu morei em várias regiões de São Paulo, mais concentrada na Zona Sul. A última residência com os meus pais foi em Moema, com dezessete anos, a última vez que eu morei com os meus pais. Eu tive uma infância muito bacana. Apesar de ter sido filha única até onze anos de idade, porque minha irmã veio logo depois. Foi uma infância que eu brinquei muito na rua, embaixo do prédio. Quando era na casa, era na rua; quando era em prédio, embaixo do prédio. Tanto em São Paulo quanto no Recife. Como a família da minha mãe era de Recife, eu ia duas vezes por ano para lá. Passava as férias de julho e as férias de dezembro até fevereiro, mais ou menos, depois do carnaval. Foi uma infância muito bacana, bastante mesmo. Eu tinha muitos colegas de prédio, colegas de escola. Foi bem legal. Eu tenho amigos de infância que até hoje a gente se encontra.

 

P/1 – Do que você gostava de brincar quando você ia à rua ou descia no prédio?

 

R – Eu gostava dos clássicos: pega-pega, esconde-esconde. Esse tipo de coisa. A gente tinha um clubinho. Esse clubinho fazia várias atividades: desde fazer coisas com a mão, artes manuais e vender depois no prédio; ou então fazer atividades que a gente achava que tinha que fazer para a comunidade. Nós éramos bem novinhos. A gente achava também que tinha que fazer alguma coisa para ajudar alguém ou para ajudar os bichos. Na verdade, a gente fazia várias coisas assim. Jogos, a gente brincava muito de jogos: jogos de tabuleiro, desde jogos esportivos mesmo, basquete, voleibol. 

 

P/1 – Como você se sentia nessas mudanças de casa? O que você levava?

 

R – Os meus pais fizeram esse movimento. Por que eu mudava de residência tanto? Não tem nada a ver com trabalho. Era pelo hábito. Como eu falei, minha mãe é decoradora; ela gostava muito das mudanças de ambiente. Quando ela não mudava os móveis, mudava o apartamento. Enfim, sempre mudava alguma coisa de local. Foi muito legal. Eu comento que foi com a filha certa, porque depois que a minha irmã chegou, a minha irmã conheceu uma única residência que é a que eles estão até hoje. Isso foi até os meus onze anos. E, depois, eles fixaram residência. Foi muito legal. Eu acho que eles fizeram isso também porque viram que eu me adaptava muito bem. Eles respeitaram, falaram: “Ela tem esse ritmo, então dá para a gente curtir também esse lado que eles tinham”. Foi muito gostoso. Eu via como uma possibilidade de conhecer novas pessoas. Como sou uma pessoa que mantém muito vínculo; se o meu colega está em outro prédio, não faz mal. Era mais uma rede que eu tinha. Conversava com aquelas pessoas. Aí eu tinha mais um grupo no outro prédio, ou na outra escola. Porque conforme eu mudava também de residência, mudava de escola. Para mim, foi super legal. Eu tinha, realmente, a facilidade de sair. Sei lá, no primeiro semestre, eu estava em uma escola; no segundo semestre, eu estava em uma outra. Mas não tinha problema, eu tinha essa adaptabilidade tranquila. Foi divertido. O resultado disso é que eu acabei gostando muito de decoração. Adoro mudar de casa também. (risos) Gosto muito de mudar o ambiente. Foi legal, uma experiência muito boa. Eu falo com muitas pessoas que falam: “Nossa! Acho eu não conseguiria”. Para mim, foi muito legal.

 

P/1 – Como foi para você que era filha única até os onze anos, chegar uma irmãzinha? Como é essa relação com ela? Como você sentiu essa mudança?

 

R – Eu pedia um irmão ou uma irmã o tempo todo. Sempre quis. Nunca quis ser filha única. Quando os meus pais engravidaram, eu achei muito bacana. Fiquei super feliz mesmo, mas foi uma relação diferente. Como eu era mais velha, o irmão mais velho tende a ter uma relação mais protetora com o irmão mais novo. É natural. E onze anos mais velha, a responsabilidade acho que aumenta. Isso, na época, foi super bacana, porque ela [era] uma bonequinha ali para eu brincar. Com o tempo, se tornou algo mais de responsabilidade mesmo - e é muito o meu perfil. Acabei assumindo a responsabilidade. Hoje nós somos companheiras, porque, hoje, os onze anos já diminuíram muito. Por exemplo, hoje minha irmã já tem filhos, eu também tenho. Então é muito bacana, porque a gente já troca em outro nível. O repertório já é mais comum. Então, é legal.

 

P/1 – Você falou um pouco das escolas, que teve bastante mudança de escola. Mas qual que é a sua primeira lembrança de ir para a escola, de chegar à escola?

 

R – Nossa! Minhas lembranças de escola são excelentes. Excelentes mesmo. Adorava ir para a escola. Adorava! Minha primeira lembrança da escola foi quando minha mãe me deixou em uma escola chamada “Mundo da Criança”. Nem deve existir mais. Eu me lembro dela me deixando, assim, no portão com a minha lancheirinha e eu vi um monte de pessoas vestidas iguais a mim. Eu falei: “Nossa! Todo mundo vestido igual”. Eu não tinha noção do que era uniforme, via aquilo como um grande campo para brincar. Lembro-me de que a primeira coisa que eu vi foi o parquinho. A minha lembrança era essa, a primeira lembrança. Agora, as outras lembranças estão muito ligadas ao convívio. Eu, em alguns momentos, fui sempre líder de classe. Tenho uma coisa meio de querer estimular alguns movimentos. Era para mim um lugar de trocar ideias e não pensar só no conteúdo de escola mesmo. Aquilo sempre extravasava para o mundo externo. Eu gostei de quase todas as escolas que eu estudei, com exceção de uma, que acabou sendo a que eu estudei mais tempo. Uma escola de freiras e só meninas, eu falava: “Não é possível!”. Para mim, não tem nem muito a ver com a minha família. Foi a única lembrança que eu tenho mais ou menos de escola, mas as minhas melhores amizades estão lá também. 

 

P/1 – Teve algum professor do período da escola que te marcou? Alguma mudança - você falou que passou por várias escolas - que foi mais radical, que você sentiu mais?

 

R – Professores, sim. Eu tive a tia Elza, que foi uma professora super bacana de português. Muito inspiradora. Ela tinha um jeito de passar o conteúdo que você viajava junto com ela. Aquilo que a gente chama de dom, ela realmente tinha. Professora da primeira série, eu acho. É, da primeira série. De mudanças, eu acho que teve um ano especificamente que eu fiz o primeiro semestre em São Paulo e o segundo semestre em Recife. Foi o ano em que a minha irmã nasceu e como a família dela [da mãe] está lá, ela combinou com o meu pai: “Vamos para Recife para a Amanda nascer lá”. Então foi um ano que a mudança foi um pouco mais radical, porque, além de mudar de escola, eu mudei de Estado. Mas eu me achava o máximo: “Ah, era de São Paulo e não sei o quê!”. Eu achava super bacana, porque o pessoal vinha naturalmente conversar. A entrada era muito fácil. Não foi no sentido de chocante assim, mas ela foi diferente porque teve outras mudanças no entorno. 

 

P/1 – Como foi desse período em Recife, voltar para São Paulo?

 

R – Ah, foi ótimo! Porque eu gosto de São Paulo e na minha história de vida... Depois vocês vão ver que eu morei dez anos fora do Brasil e passei por vários países. Então, eu tenho uma característica que eu acho que agora, olhando, passados alguns anos: quando eu estou em um lugar, estou em um lugar. Eu estou curtindo aquele lugar. Quando eu estava em Recife, estava super feliz. Estava curtindo, tinha minhas amizades. Quando decidiu voltar para São Paulo, eu falei: “Beleza! Vamos voltar para São Paulo”. Era uma oportunidade de resgatar as minhas antigas amizades. Para mim, também foi super bacana. É aquilo que eu falo: realmente tenho essa flexibilidade e essa sempre foi uma característica minha ao longo dos outros países que eu vivi, e dos outros convívios que eu tive. Foi bem legal. 

 

P/1 – Quando você era pequena, tinha um sonho de ser alguma coisa?

 

R – Você sabe que com dez anos de idade, eu ganhei um concurso da Revista Cláudia? Porque... Eu fiz um “slogan” e eles, depois, estavam tendo dificuldade de me dar o prêmio porque eu era menor de idade. Ali eu descobri que eu realmente, que queria trabalhar com comunicação - que é o que eu trabalho hoje também, ligada a esse meio de comunicação, de pessoas. Eu sempre me atraí um pouco por esse caminho. Não sabia muito bem o que era, mas está ali. Eu não tinha um sonho específico: “Ah eu quero ser, sei lá, aeromoça”; não, eu não tinha nada disso. Mas eu sabia de coisas que me agradavam e nesse sentido, sou muito feliz porque acho que a minha jornada prosseguiu nesse caminho. Eu lembro uma vez, nunca vou me esquecer. Eu tinha 16 anos e fui visitar, acho que era o escritório da Itautec. Estava com uma pessoa e por acaso estava ali, não estava trabalhando, não estava nada. Lembro claramente de eu entrando nesse prédio, não lembro a região, mas lembro de que era tipo 28º andar. Era muito alto e você via São Paulo - meus pais também moram em um prédio que tem uma vista do 18º andar -, eu sempre tive essa coisa da vista alta. Eu lembro que quando cheguei naquele prédio que eu vi aquela vista, eu vi aquelas pessoas trabalhando no computador e nas mesas. Falei: “Nossa! Eu quero trabalhar em um ambiente assim”. Meio chato, mas aquilo me chamou a atenção. Eu gosto, então acho que essa coisa de ligar um pouco a vocação, que eu falei, e um pouco do ambiente. Eu acho que fiz essa combinação. Por exemplo, eu gosto do ambiente corporativo. É um ambiente que me agrada. Foi muito legal, era uma coisa que quando eu era adolescente: olhei, gostei e acho que persegui um pouco isso também. 

 

P/1 – Você se lembra do “slogan” que você fez para a revista?

 

R – Não lembro, mas eu tenho guardado em algum lugar. Eu não lembro, mas tenho. Em algum lugar eu devo ter. Lembro exatamente da idade, e eu nem lembro sobre o que era. E não foi sozinha, eram várias pessoas que ganharam; umas 50 pessoas que ganharam. Não me marcou o fato de ter ganhado. 

 

P/1 – Crescendo assim, na sua mocidade, colegial, o que vocês gostavam de fazer com seu grupo de amigos? Vocês iam ao cinema?

 

R – Eu nunca fui de balada. Nunca fui uma adolescente que gostava muito de balada. De vez em quando, sempre tinha festa, bailinho. (risos) Essas festinhas eu gostava, mas não era uma adolescente que gostava de virar a noite. Eu tinha muita turma, a gente ia para festas. Na época, eu gostava de estar em turma. Reuníamo-nos embaixo do prédio. Íamos muito às festinhas que organizávamos, nas festinhas da escola. Depois comecei a namorar, aí você sai mais com o namorado para ir ao cinema. Viajava bastante com os amigos. Era isso, mais tradicional. Nada de mais. Por exemplo, não ia acampar; só fui acampar uma vez na vida e foi uma péssima experiência. (risos) 

 

P/1 – Como foi o processo de ir terminando a escola e pensando em um vestibular? Como que foi esse período?

 

R – Esse período foi bem importante na minha vida, porque eu tinha um pouco dessa vocação. Sabia mais ou menos o caminho que eu queria, mas via muitas possibilidades. Desde um caminho mais alternativo, por exemplo, uma Publicidade; ou trabalhar em uma agência; ou até uma coisa mais Marketing, em um ambiente mais corporativo; ou, de repente, alguma coisa ligada às relações públicas. Então, quando eu me formei com dezessete anos, só tinha uma certeza: o que eu fosse fazer, eu precisaria de inglês. Tinha estudado inglês em uma escola de bairro e decidi que era muito cedo para entrar em uma faculdade. Isso foi uma decisão muito consciente. Como eu trabalhava desde os dezesseis anos e já estava juntando dinheiro, conversei com os meus pais e falei que eu queria morar fora. Eles falaram: “Tá bom, a gente ajuda você em um primeiro momento, por seis meses. Eu acho que vale a experiência, e depois você faz faculdade”. Seis meses viraram três anos. Foi a minha primeira saída. Eu saí e fui para Londres [Inglaterra], fiquei três anos e trabalhei de tudo: babá, garçonete - que era uma maneira de eu ganhar o meu sustento e, ao mesmo tempo, eu estudava inglês. Foi aí que aperfeiçoei o meu inglês. Passado um ano que eu já tinha aperfeiçoado o inglês, comecei a fazer cursos “pockets” mesmo, assim: Marketing, um curso de Relações Públicas, um curso de Propaganda - um curso disso, daquilo, para começar a sentir um pouco o que eram aqueles caminhos. Minha jornada acabou sendo por três anos. Eu queria fazer faculdade, não dava para fazer fora. Não conseguia pagar e eu falei; “Bom, está na hora de fazer faculdade. Eu vou voltar para o Brasil”. Foi aí que eu prestei vestibular. Me preparei de lá mesmo. Pegava as apostilas do cursinho e estudava. Quando cheguei aqui, no dia seguinte, fui fazer vestibular e já entrei. Foi isso. Ao mesmo tempo, eu entrei na Nestlé para trabalhar. Eu fazia faculdade à noite e trabalhava na Nestlé de dia. Trabalhava com Marketing de chocolates na Nestlé; e, à noite, eu estudava Relações Públicas. Eu comecei a fazer faculdade aqui e tal. Fiz dois anos, e na Nestlé eu estava indo super bem. Só que eu ainda estava com aquilo na cabeça, que eu queria realmente fazer uma faculdade fora. Então, enquanto eu estava na Nestlé, comecei a fazer “applications”, comecei a me candidatar para bolsas de estudo, para faculdade mesmo, fora do Brasil. Eu concorri a várias bolsas e ganhei uma bolsa para “University of Notre Dame”, que tem um “campus” nos Estados Unidos e um na Austrália. Conversei com a diretoria da Nestlé, eu falei para eles que queria ir, e eles super incentivaram. Fechei o meu contrato com a Nestlé, tranquei a minha faculdade aqui no Brasil e comecei a faculdade. Fui para o campus da Austrália. Como eu estava mudando de faculdade, resolvi mudar o curso. Porque como eu estava fazendo Relações Públicas à noite; de dia, eu trabalhava com Marketing. Resolvi que esse era o caminho. Marketing era uma coisa que eu curtia. Eu optei por fazer um curso de Administração de Empresas lá fora com ênfase em Marketing e negócios internacionais. Consegui eliminar algumas matérias e fiz faculdade fora. Era bem puxado. Período integral, bem puxado mesmo. Por eu ser bolsista, tinha que estar entre o “top ten”, estudar bastante. À noite, eu trabalhava de garçonete. Eu trabalhei em padaria. Foi super divertido trabalhar em padaria, para poder pagar os livros. Foi assim durante três anos. 

 

P/1 – Conta pra gente como foi essa experiência. Primeiro, em Londres: chegar lá sozinha, em um lugar diferente. Você falou de fácil adaptação, mas como é de fato chegar a um país estrangeiro - tanto em Londres quanto na Austrália? 

 

R – Ainda têm outros depois. Olha, lembro muito da sensação de eu desembarcando em “Heathrow” [aeroporto em Londres]. Quando cheguei ao aeroporto... Eu já tinha tido a oportunidade de sair do país uma vez: com quinze anos, eu tinha ido aos Estados Unidos, que também tinha sido sozinha com a excursão - mas era sozinha, sem os meus pais. Tinha viajado com meus pais em outros momentos, mas quando eu pisei lá, falei: “Putz! Que legal!”. Era uma coisa que eu queria tanto, e foi um sentimento de conquista. Foi um sentimento muito bacana. O que aconteceu é que na minha despedida do Brasil para lá; eu fiz uma despedida com os amigos no Guarujá, comi ostra e o que aconteceu logo quando eu cheguei lá? Eu fiquei muito doente na Inglaterra por conta da ostra. Os primeiros dois meses foram muito complicados para mim. Porque em um país estrangeiro, eu peguei hepatite da ostra. Eu estava com uma doença séria e eles não sabiam o que eu tinha. Fiquei internada, isolada. Eles achavam que era doença tropical. (risos) Sem falar inglês; porque eu falava, mas falava o básico. Foi uma situação mais delicada assim, mas tudo bem. A sensação de estar lá foi muito boa. Inclusive, eu acabei passando os seis primeiros meses lá e tive uma breve volta ao Brasil. Fiquei três meses no Brasil e depois voltei de novo, porque era uma época que estava tendo a Guerra do Golfo, ou aquela coisa das Malvinas [Guerra das Malvinas]. Sei lá! Estava tendo aquela guerra e o mercado estava muito ruim para emprego. Como meu dinheiro estava acabando - meus pais tinham me ajudado por um tempo-, eu não tinha mais dinheiro. Não tinha como trabalhar, então eu voltei. Aí trabalhei, juntei um pouco e voltei para lá. Lá, nessa segunda vez, eu consegui ficar porque consegui emprego, tal. Aí foi super tranquilo. Mas a sensação de estar em outro país, de novo, foi muito similar à sensação de quando eu mudava de escola, por exemplo, ou de quando eu mudava de prédio. Eram novas pessoas para conhecer. Eram novas amizades, que são amizades que eu carrego até hoje. Foi uma sensação muito boa, de que eu posso. Uma sensação de explorar conteúdos diferentes. Experimentar culturas diferentes. 

 

P/1 – Voltando um pouquinho e aproveitando: você falou do seu primeiro trabalho aqui no Brasil com dezesseis anos. Como que era? Do que você trabalhava?

 

R – Eu trabalhava de recepcionista em uma empresa de computação. Chama-se Compact. Depois de uns seis meses, eu já fui ajudar na área de Marketing, coincidentemente, a fazer a área de eventos lá, porque eles sempre participavam de feiras. Foi muito legal. Trabalhar estava muito associado a essa coisa da autonomia. Meus pais incentivaram. Felizmente, a minha história não era uma história de que eu precisava trabalhar fora para ajudar em casa. Era realmente porque eu queria. Essa coisa da paixão pelo trabalho, a paixão por estar fazendo outras coisas e também um pouco da autonomia que eu achava legal. Então foi isso. Foi muito legal. Fiquei nesse emprego três anos. Três anos? Desculpa. Eu comecei com quinze. Eu falei dezesseis, [mas] foi com quinze anos. Eu fiquei dois anos e meio? Dois anos e meio. Eu terminei a escola junto, e foi aí que eu fui embora. Foi tudo seguido. 

 

P/1 – Como foi o período de faculdade lá na Austrália? 

 

R – Esse foi um período. Nossa! Eu me lembro dessa cena: o avião passando. Assim, a Austrália tem campos muito abertos, tem bastante espaço. Tem muito espaço! Eu olhava para baixo e falava: “O que eu estou fazendo aqui?”. Foi engraçado. Foi uma sensação de: “O que eu estou fazendo aqui?”. Realmente. Eu nunca pensei que teria essa sensação, porque eu enchi o saco durante dois anos para ter uma bolsa. Fiquei atrás, queria, [e] consegui. A sensação de ganhar a bolsa é inesquecível. Lembro do fax - na época, não tinha email - chegando. Eu lia 20 vezes. Pedi para a professora de inglês ler para ver se fazia sentido. Nossa! Foi uma sensação, foi uma das grandes conquistas da minha vida. Fiquei muito feliz. Mas a sensação de chegar lá e olhar aquele vazio, eu falei: “Gente! Tô no fim do mundo”, mas tudo bem! Tinha uma amiga que eu tinha conhecido em Londres, em um período que morei em Londres. Eu tinha conhecido uma amiga australiana e essa amiga australiana estava me recepcionando lá. Então, foi muito legal porque o vínculo de uma jornada já estava se prolongando para outra. Fui muito bem acolhida. A família dela é uma família libanesa. Foi uma família que, nossa! Eu chegava à minha casa e a minha geladeira estava cheia, porque a mãe dela fazia coisa pra ela e para mim. Sabe essas coisas? Foi muito legal mesmo. O primeiro choque foi esse, mas depois eu fui me adaptando. E coisas do tipo: faculdade à beira mar ou as pessoas literalmente saiam para surfar e depois voltavam. Falava: “Nossa! É tão diferente”. Foi muito bonita a experiência. Muito legal.

 

P/1 – Como foi terminar a faculdade e voltar?

 

R – Foi muito legal. Quando eu saí, deixei um namorado aqui - namorado suíço, suíço-francês. Na verdade, eu deixei mais ou menos, mas quando vi, já estava namorando. Achei que eu não estava, mas estava. Quando voltei, o que aconteceu? É que eu voltei direto da Austrália para Belém do Pará (PA), porque o meu namorado estava lá. Ele é um executivo e precisou fazer um estágio por, literalmente, um ano, em Belém do Pará, e a gente já estava separado há tanto tempo. Como era eu que estava voltando; em vez de voltar para São Paulo, voltei direto para Belém. Foi ótimo, porque em Belém eu acabei trabalhando, sabia que ia ficar um ano e aí eu consegui um emprego na Unimed lá. Foi muito legal. Cuidava da Unimed em Belém e Macapá (AP). Então fui direto da Austrália para Belém e Macapá, nesse circuito. Aí, realmente, o choque de cultura grande. Foi maior do que o choque de cultura que eu vivi na Inglaterra ou na Austrália. Talvez porque eu não esperasse. Como eu achei: “Tô voltando para o Brasil, eu tô em casa”, mas é realmente uma diferença cultural grande. Foi uma cidade que me acolheu muito bem, muito bem mesmo. Eu fui muito feliz lá e consegui fazer um contrato de um ano - um pouquinho menos de um ano, porque eles sabiam que eu iria embora depois. Eu tinha que voltar para Londres com meu namorado. Na verdade, ele iria para a Suíça e depois para Londres. Então a volta foi muito legal. E claro: eu estava muito pertinho, ia sempre para São Paulo; meus pais iam para lá. Foi bem gostoso. Estava próxima das pessoas que eu tinha convívio há muito tempo.

 

P/1 – Como foi se desenvolvendo a sua carreira depois desse ano entre Belém e Macapá? Voltou para Londres?

 

R – Pois é, voltei. O Gerrard, meu parceiro na época, recebeu uma proposta. Na verdade, a gente ia sair de Belém, a gente nem ia para Londres. A gente ia para a Suíça por um tempo, ia ficar três meses na Suíça. Da Suíça, eu acho que a gente ia para a Costa Rica, alguma coisa assim, na América Central, que ele ia assumir a presidência de uma unidade lá. Eu ia ser esposa de expatriado mesmo. Era uma coisa que não estava meio... Mas eu falei: “Vamos!”. Por amor, a gente vai. Acabamos indo para a Suíça como estava planejado. Eu fiquei morando três meses na Suíça, acho que um pouquinho mais até, de três a seis meses. Nesse meio de caminho, ele recebeu uma proposta para trabalhar em outra empresa, só que era na Inglaterra. Eu acabei retornando à Inglaterra, mas essa vez agora em outra condição. Fui para a Inglaterra. O que entrou no meio do caminho foi essa minha relação com o trabalho, porque, nessas mudanças, eu percebi que isso ia acabar acontecendo muito na minha vida. Eu ia ter que abdicar um pouco do meu trabalho para estar sempre em função ao trabalho dele. E como eu gosto, de novo, do ambiente corporativo, de construir uma história e fazer parte, essa coisa de “freela” talvez não fosse tanto para mim. Isso impactou. Isso foi um fator que impactou. O que eu fazia? Nesse período, que foi meio ano de Suíça e mais um ano de Inglaterra, mais ou menos isso... Nesse período, em que estava na Inglaterra, eu trabalhava com refugiados da Guerra de Kosovo. Fazia trabalho voluntário, que era uma maneira de estar envolvida em algumas coisas. Aí eu decidi realmente que queria voltar, que não era o caminho. Era uma vida linda, mas não era a minha trajetória. A gente se separou e eu voltei para o Brasil. Isso aconteceu em 2000, exatamente. É, em 2000. Desde então, eu estou de volta. 

 

P/1 – Conta pra gente como foi esse seu trabalho com os refugiados. O que você fazia?

 

R – Era com as crianças. Era na frente de onde eu morava, um órgão da prefeitura. As crianças tinham dificuldade de fala, uma coisa que me chamou muito a atenção. Por causa das bombas, eles perderam a audição. Eles viveram no meio da guerra, então perderam a audição. Eles tinham dificuldade de falar. Basicamente o que eu fazia era brincar com as crianças. Eu não podia ajudá-las a falar o inglês. Obviamente, eu falava o inglês fluente na época, mas por não ser a minha língua nativa... Eu falava inglês com elas, mas não era professora de inglês. O que eu fazia era brincar com as crianças. Dedicava o meu tempo e o meu afeto para acolher aquelas crianças, e muitas vezes as mães. Conversava com as mães também. Algumas tinham mães e outras não. Foi um trabalho muito legal. Eu já tinha feito outros trabalhos voluntários aqui em São Paulo, em comunidades, mas nada tão estruturado. Essa troca era um jeito de passar o meu afeto para eles e receber afeto também, porque eu estava longe de casa. Então, também era uma coisa legal. Eu também era, entre aspas, uma refugiada, mas por opção. Foi muito bacana, uma troca bem legal.

 

P/1 – Depois que você, de fato, decidiu voltar ao Brasil e chegar aqui em São Paulo de novo, como foi a sua chegada? Como você se sentiu? O que você foi fazer primeiro para se estruturar aqui de volta?

 

R – Essa volta, especificamente, dentre as várias outras, foi um pouco mais difícil, porque ela tinha uma quebra sentimental no meio. Eu rompi um relacionamento para estar aqui. Então foi difícil para as duas partes, apesar de ter sido consciente das duas. Foi uma escolha que eu fiz, mas toda escolha tem seu preço. Aquele preço, naquele momento, era uma dor que eu senti. Foi uma volta um pouco mais difícil, mas sempre naquele princípio de que onde eu estou, eu estou bem. Eu sempre procurei ver o lado lúcido de eu estar lá. Tudo bem, eu acabei quebrando um relacionamento por um lado, mas por outro, eu estou de volta com os meus amigos, com a minha família, onde eu conheço, no meu país. Tem um monte de outras oportunidades. Principalmente a oportunidade de eu desenvolver a minha carreira, que era o principal motivo de eu ter me separado. As primeiras semanas, os primeiros meses foram mais difíceis por causa disso, mas foi muito rápido. Eu me lembro de ter voltado em outubro e estavam tendo os programas de “trainee”. Exatamente, agora, olhando, estavam tendo os programas de “trainee” aqui. E lembro, como eu já tinha tido experiência na Nestlé, na Unimed, enfim, na Compact, mas eu falei: “Puxa, um programa de ‘trainee’ pode ser uma opção muito legal”. Porque eu tinha ficado somando essas idas e vindas, de oito a dez anos mais ou menos, oito anos e meio, eu acho, que fiquei fora do Brasil. Querendo ou não, o mercado de trabalho, eu conhecia menos. Então eu falei: “O Programa de ‘trainee’ vai ser uma coisa muito legal. Nesse primeiro ano, eu vou ter uma oportunidade de me desenvolver, uma oportunidade de conhecer um pouco o mercado brasileiro e da empresa que eu vou estar”. Algumas pessoas acharam que era um passo para trás, e eu vi como um passo para trás com dois para frente. Tanto é que isso depois acelerou a minha carreira. Eu fiz aplicação para vários programas de “trainee”. Entrei em alguns e escolhi o da Ericsson, porque, em 2000, era o ano que teve o “boom” das telecomunicações. Eu tinha escutado muito dos meus amigos que isso estava bombando e que esse era o caminho. Falei: “Bom, então vamos para lá”. Escolhi, fui para a Ericsson e fui muito feliz, mas muito feliz. Foi um caminho excelente. Automaticamente, a minha decisão de voltar já foi ligada ao trabalho: eu comecei a engrenar. Desde então eu estou direto, passei por algumas empresas. 

 

P/1 – Como foi esse programa de “trainee”? Como você foi se desenvolvendo nesse momento?

 

R – Esse programa de “trainee”; faz onze anos que eu fui “trainee”, uma turma que se encontra todo ano. Somos muito amigos, padrinhos de casamento um do outro. Nós somos em catorze, nos falamos direto, alguns com mais afinidade, outros com menos. Inclusive, três deles eu vou encontrar na minha casa, jantando, sábado. A experiência em si foi ótima profissionalmente porque eu consegui entender de uma indústria nova. Não sabia nada desse segmento. Tive vários cursos para me desenvolver, e principalmente as pessoas com quem eu me relacionei. O programa de “trainee tinha”, diferente de outros do grupo, nosso, dois poderiam ser rotativos. Engraçado isso, porque normalmente o “trainee” ficava fixo em uma área. Eles escolheram duas pessoas da turma para fazer um piloto onde você ficava em cada três meses numa área. Acabaram me escolhendo. De novo, veio essa coisa de ficar mudando. Eles me escolheram e falaram: “Você não gostaria de fazer esse piloto?”. Eu falei que tudo bem. Foram quatro projetos-desafios que, no final, foram cinco projetos-desafios - cada três meses em uma área. Eu passei por área de processos, por exemplo, que não tem nada a ver comigo. Passei por área comercial também, por área de comunicação, por uma área de novos negócios e depois fiz um projeto específico para uma feira super importante que tem que é a “Futurecom”, que é de comunicações, que eles também pediram para ajudar. Por isso foram cinco projetos. 

 

P/1 – Viviane, conta pra gente o que você trouxe da sua carreira nessas empresas. Como foi a passagem dessas empresas para o mercado financeiro, para entrar no Banco Real?

 

R – Eu passei por algumas empresas. Eu fiquei na Ericsson, depois na Nokia e na Weril, empresa de instrumentos musicais de sopro. Foi muito bacana. O Banco Real já havia me convidado duas vezes. Eu tinha sido abordada uma vez, [e] realmente não tinha interesse. Falei: “Não, não é o momento”. Eu lembro que eu estava na Nokia. Foi uma abordagem meio “en passant”. A segunda vez foi para uma vaga em comunicação interna. Eu fiz o processo, a pessoa me entrevistou. Logo depois da entrevista, eles quiseram continuar o processo e eu declinei. Agradeci, mas vi que não era o ambiente. Eu ainda não tinha me identificado. Era engraçado isso. Na terceira vez, foram passados uns dois anos, um ano e pouco talvez. Eu estava nesse meu último emprego antes daqui, que era a Weril, empresa de instrumentos musicais. Foi muito interessante, porque eu estava lá há seis meses e quando o “headhunter” me ligou, ele falou assim; “Olha, eu queria te falar de uma oportunidade no mercado financeiro”. Eu falei: “Olha, eu estou aqui, estou há pouco... Estou há seis meses. Adoro onde estou, não quero sair”. Ele falou: “Não, só uma conversa”. Eu falei: “Não quero. Não vou perder o seu tempo nem o meu, ‘parari’ ‘parará’”. Ele ligou de novo, insistiu. Falou: “Olha, você veio recomendada”. Eu acho que eles tinham o histórico, um pouco das entrevistas que eu tinha passado lá, e talvez de referências. Ele falou: “Vamos marcar uma conversa”. Aí eu falei: “Tá bom! Uma conversa só”. Fiz a conversa com ele. Ele falou: “Volta ao banco agora com outra perspectiva”. Era uma posição importante. Era uma posição para cuidar de comunicação interna. Aí era “head” da área de comunicação interna e não era funcionária da área de comunicação interna. “Head” da área de comunicação interna, relações com a imprensa e a parte de Serviço de Atendimento ao Consumidor [SAC] também. SAC eu nunca tinha atuado antes, porque na minha jornada; já tinha trabalhado nessas duas cadeiras e em Marketing, mas SAC nunca. Ele falou: “Acho que você vai agregar a sua posição, tal”. Eu fiz entrevista com quem ia ser meu chefe direto, que é o Fernando Martins. Foi uma entrevista super bacana e logo, encadeada, eu já tinha uma entrevista com o Fábio Barbosa. Foi realmente na entrevista com o Fábio [Barbosa] que eu entendi que banco era aquele que a gente estava construindo. Eles estavam construindo na época, não eu - ainda. Eu entendi um pouco a razão de ser de uma empresa e o significado dela. Para mim, engraçado, eu não estava no banco. Nunca associei com banco. Eu não tenho nenhum problema de falar que trabalho no banco. Eu adoro o banco. Acho que é esse o caminho mesmo. Adoro banco não, adoro trabalhar e, olhando para banco, tanto faz trabalhar se eu estou no banco ou em empresa de consumo, porque tinha uma causa por trás. Na conversa com o Fábio [Barbosa], aquilo ficou muito claro. Lembro direitinho: eu saí da reunião com o Fábio [Barbosa], fui para casa e, à noite, o “headhunter” me ligou em casa. Já morreu esse “headhunter” - uma pessoa muito querida. Acabou se tornando amigo. Ele me ligou em casa umas dez e meia da noite. Ele falou assim: “Como foi a conversa com o Fábio?”. Falei: “Você é danado”, foi inevitável. Eu conversei com o presidente da Weril. Contei para ele o que estava acontecendo, e a gente trocou um pouco sobre isso. Falei: “É essa oportunidade e tal”. Ele falou uma coisa muito bonita. Ele falou: “Olha, Viviane, eu já sabia que você ia sair da Weril em algum tempo, porque a Weril era pequena para você”. Na verdade, tinha 300 funcionários. “Você tem um histórico de empresas grandes, tem um potencial para transformar e envolver mais pessoas e eu sabia que isso iria acontecer. Não sabia que ia ser tão cedo, mas isso iria acontecer inevitavelmente e eu acho que você tem que ir”. Foi muito estímulo dele também. Ele me ajudou muito nessa escolha. Foi isso. E eu entrei aqui, na época, no Real [ABN AMRO Real], e agora no Santander.

 

P/1 – Como que foi? Que banco foi esse que eles falaram, que você percebeu e que ajudou a aceitar o convite de vir?

 

R – Eu acho que é um banco... Não era só, ele é ainda, mas, naquela época, tinha uma característica mais forte. Eu olhava o que eu fazia, qual era o impacto que isso tinha? Não só para o banco; mas qual o impacto que isso tinha para a sociedade, ou para a vizinhança, ou para o fornecedor que eu estava me relacionando? Tinha uma coisa de valores. Que tipo de valor e que tipo de geração mesmo a gente estava construindo? Eu nunca tinha escutado sobre isso. Talvez, na minha trajetória, como eu tinha essa coisa do social que eu falo e não da filantropia - estou falando de você se preocupar com seu entorno. Se preocupar com você e se preocupar com o que você está gerando, o impacto que você está gerando e o que você está adicionando de valor. Eu pregava isso na minha vida. A geração de vínculos com os meus amigos de todas as escolas, a geração de vínculos com outras comunidades. Quando olhei isso para um banco, o banco se preocupava com isso. Aquilo tinha a ver comigo, com a minha identidade. Foi isso que me trouxe.

 

P/1 – Você se lembra como foi o começo de trabalho? Os primeiros desafios chegando, como foi o seu primeiro dia?

 

R – Eu me lembro. O primeiro dia, eu lembro especificamente, o Fernando [Martins] me ligou. Pediu para a secretária dele ligar e falou assim: “Viviane”... Ele nem sabe disso, mas vai ficar gravado e eu vou contar isso para ele agora. Ele falou assim: “Viviane, eu te encontro. A gente tem uma reunião na TAM”. Ele queria marcar uma reunião na TAM. Por quê? Por causa da função de SAC que a gente tinha assumido. Ele estava muito ligado nessa coisa da cultura de servir, servir bem, e a TAM tem um histórico muito legal disso. Ele falou: “Olha, você nem vem pra cá, a gente vai direto para a TAM”. Na verdade, ele falou assim: “Eu te encontro direto no heliporto”. Eu falei: “O quê?”. Eu odeio helicóptero. Odeio, odeio! Eu morava em Pinheiros e o Banco Real era aqui na Paulista. Falei para o Fernando [Martins]; falei para a secretária dele: “Fala pra ele que eu vou dormir na minha mãe”. Minha mãe mora em Moema. “Então eu não preciso ir até lá, porque eu encontro com ele direto na TAM”. Não era nada, eu estava em Pinheiros, podia muito bem... Mas eu não queria pegar o helicóptero. O primeiro dia meu foi lá e é muito voltado para essa coisa da cultura de servir. Logo em seguida, eu conheci a equipe. O Fernando [Martins] me apresentou para todo mundo. Eram muitas pessoas. Tinha uma equipe de 150 pessoas, mais ou menos. Talvez menos, 100 pessoas. Foi uma coisa também da dimensão. Foi um desafio que eu estava assumindo, que eu estava crescendo. Foi uma sensação de frio no estômago, mas muito legal. “Vamos em frente que tem muita coisa bacana.” Bem animada, eu estava muito animada e a sensação de entrar no prédio foi um pouco da mesma sensação quando eu desci em Heathrow. Foi aquela sensação de conquista mesmo. “Nossa! Que legal.” Tinha pista, tinha muita coisa para fazer e isso me agrada muito. Com muito espaço também. 

 

P/1 – Como foram se desenvolvendo suas ações no cotidiano com essa equipe nova, em uma área nova? Como você foi crescendo, com o passar do tempo, no Real, até a chegada do Santander? 

 

R – Desculpa, a sua pergunta especificamente é?

 

P/1 – Para você contar as suas primeiras atividades. Como você foi encarando seus desafios, conhecendo a equipe, a área?

 

R – O que chamou a atenção foi o ritmo. Era um ritmo bem... Acho que isso é característico de banco: era um ritmo alucinante. Eu fui me familiarizando. O meu principal desafio... Comunicação interna, eu já conhecia muito bem, já tinha trabalhado com isso na Ericsson. Eu já tinha assumido essa cadeira, era tranquilo. A cadeira de relacionamento com a imprensa, eu tinha ótimos parceiros. Eu conhecia um pouco; um pouco e aprendi bastante junto com esses parceiros. Foi bem legal. A cadeira de SAC era realmente uma cadeira que eu não conhecia, mas foi muito legal porque a visão cliente: escutar o cliente, estar próximo do cliente. Isso, para mim, era uma coisa muito bacana. As atividades, elas corriam em uma coisa do dia a dia. Tinha uma pauleira muito grande por causa da comunicação interna e da imprensa. Era uma coisa que era a agenda do dia. “Vamos lá!” Tinha uma coisa que era mais de médio e longo prazo, que era trabalhar cultura. Essa cultura do servir, que eu falei para vocês, estava muito ligada ao papel e à liderança que eu tinha que assumir junto à área de SAC. Isso foi legal porque eu tinha uma coisa de imediato, e tinha uma coisa de médio e longo prazo. Comecei a experimentar um novo horizonte, e que até então, essa visão um pouco mais de médio e longo prazo não estava tanto no meu “métier”, nas minhas atividades executivas. Essa eu comecei aí. Foi aí que comecei a praticar um pouco da gestão indireta. Eu tinha, entre aspas, o crachá com uma equipe de cem pessoas. É muito mais fácil, principalmente para quem gosta de fazer gestão de equipe. Adoro fazer gestão de equipe; e quando você tem o crachá, naturalmente, tem uma coisa da hierarquia - que eu acho que é banal, mas você tem. Quando você faz a gestão indireta, para fazer esse trabalho de cultura, a gente contava com um grupo multidisciplinar de dezoito pessoas e eram executivos pares meus ou até muitas vezes acima, para a gente desenvolver um pouco dessa cultura de servir, dentro do banco. Ali era uma coisa da crença. Era uma coisa de passar a crença para esse grupo, e o grupo dedicava horas do mês dele para fazer aquele projeto criar forma e para aquilo sair do papel. Foi uma experiência muito diferente, porque era trabalhar em longo prazo e trabalhar com gestão indireta. Foi um enriquecimento importantíssimo para mim. Foi ali, também, que eu comecei a tomar um pouco mais de contato com o que significa transformar cultura e desenvolver cultura. Porque até então a minha carreira toda foi na parte de comunicação e marketing, que eram muito daqui para frente - mas tem uma coisa para trás: “Que cultura é essa? O que a gente está construindo?”. E que tem muito a ver com marca também, que era uma coisa que eu não estava tanto por dentro. Eu tomei muito contato com isso, principalmente porque tinha uma cultura da sustentabilidade no banco. Fui entender o que era aquilo e como se implantou aquela cultura lá dentro. Ali tinha um aprendizado para eu poder transferir para essa tal cultura de servir. Então, se a gente instalou uma cultura de sustentabilidade aqui dentro, o que a gente pode aprender daqui para fazer para cultura de servir? Foi bacanérrimo e, inevitavelmente, eu acabei chegando em cultura organizacional, que é um pouco da parte de recursos humanos. A minha jornada aqui dentro, nesses sete anos, ela passou por isso. Eu comecei na área de comunicação e marketing, onde fiquei dois anos e meio. Em seguida, eu fui para a área de sustentabilidade, onde fiquei três anos. Há dois anos e pouco, eu estou na área de Recursos Humanos [RH], que é um pouco dessa coisa da jornada. Sempre a minha carreira está muito ligada ao batidão do dia a dia, essa loucura, essa correria - e que eu adoro. Eu busco isso. E também um pouco de construção de valor para futuro que é tanto na jornada profissional como pessoal. É como eu encaro a minha vida também. 

 

P/1 – Por que é importante esse desenvolvimento da marca, esse cuidar da cultura? Como você entende uma cultura organizacional? Como você aplica mudanças nela? Como ela funciona no dia a dia?

 

R – Para mim, cultura é um jeito de fazer as coisas. Então, se eu pergunto assim: “Como era o jeito de fazer no Real?”. Claramente a gente tem um jeito diferente de fazer, hoje, no Santander, que a gente aprende coisas dessa mistura com o Real. A gente trouxe algumas coisas e tem um jeito que é um jeito que o Santander sempre teve, que a gente também junta. Cultura é um jeito de fazer. Está muito ligada a essa coerência: o jeito que você está fazendo reflete aquilo que você está falando. Por isso que é tão importante. Como a minha história está muito ligada à comunicação: eu comunicava. Eu falava aquilo. É por isso que, por exemplo, a coisa da credibilidade e da reputação está fortíssima para mim. É um valor. Aquilo que você está falando, de fato, é aquilo que você quer prometer e cumprir. Não importa. Você não precisa ficar falando coisa bonita, mas fala a real. Quando me vi trabalhando cultura, eu vi que era uma oportunidade muito legal de colar essas duas coisas: aquilo que a gente fala e aquilo que a gente faz. Ela é muito importante para uma marca, essa coerência daquilo que você promete e que você faz.

 

P/1 – Como você sentiu na pele essa chegada do Santander? Como foi esse período de junção dessas duas culturas? Como foram se transformando em uma só?

 

R – Foi bacana, porque a mudança é parte da minha história. Eu me adaptei muito fácil. Realmente me adaptei muito fácil. Senti a mudança. Vi claramente a divisão de estilos. Do que vem primeiro, o que é um valor primeiro e o que é um valor secundário. Senti isso, mas também senti que naquele momento que eu senti a mudança de priorização de valores, eu não senti nenhum conflito com aquilo que eu acredito. Por isso que a adaptação foi fácil. Valores que eu ainda acredito. Está também muito restrito a onde eu estou trabalhando. Como eu trabalho com recursos humanos, como eu trabalho com a mudança dentro de RH, de fazer uma coisa completamente inovadora, esses valores para mim são muito fortes. O respeito às pessoas, isso é super forte. E como eu via que aquilo era cada vez mais forte e estava permanecendo, que já vinha um pouco da história, talvez, do Real, ligada à vinda da Lilian [Guimarães] - que era do Real, e vocês entrevistaram. Era do Real, saiu, e voltou para essa fusão. Como eu estava também muito ligada a essa liderança, foi muito bacana. Porque eu via que aqueles valores que eu acreditava também perpetuavam perante essa mudança de banco, vamos chamar assim. Foi uma mudança feliz. Ela aconteceu, eu já estava acompanhando. Sabia, como todos os outros funcionários que ela poderia acontecer. Ela se concretizou no meu período de licença maternidade. Eu, literalmente, saí de um banco e entrei em outro. Isso foi claríssimo, porque a minha licença maternidade foi de quatro meses e meio. Na época, não tinha de seis meses. Eu não tirei férias na época. Então senti o choque do ambiente mesmo. Foi muito interessante, mas foi tranquilo. Não muito me agrediu. Não me agrediu mesmo. Foi bem bacana.

 

P/1 – Quais valores eram esses que você falou que eram os priorizados, que se alinhavam aos seus?

 

R – Tinha uma coisa que a gente fazia no Real, que era muito no coração, no intuitivo. Tinha uma coisa de olhar o dentro e o fora. Tem uma coisa no Santander que é muito bacana que é essa coisa da potência, de ser forte, da solidez. Por exemplo, é um valor: você está bem estruturado e está eficiente, mas não o lado ruim da eficiência, o lado bacana. Porque se você está bem e está estruturado, você consegue prosperar e fazer todo o resto. Isso é uma coisa dessa máquina, dessa coisa de se mover, assim, estruturação, que é mais forte; que a gente não via tanto no Real. A gente via outras coisas no Real, mas que eu falo: “Puxa, isso é legal também!”. Tem a ver com o ambiente. Mas de novo, aquelas coisas que eu acredito continuavam. Que eram: trabalhar a inovação, o cuidado com as pessoas, o indivíduo no centro de tudo que a gente está fazendo. 

 

P/1 – Certo. Dessa sua última frase, tenho algumas perguntas. A primeira é sobre a inovação. O que é essa inovação? Como ela é aplicada no cotidiano? Por que ela é importante?

 

R – Inovação, especificamente, está ligada um pouco no âmbito de dentro do RH. Quando a Lilian [Guimarães] recebeu o convite para entrar no Santander, eu estava em licença maternidade e voltei trabalhando em sustentabilidade, que era onde eu estava quando saí em licença maternidade. Quando a Lilian [Guimarães] me fez o convite para trabalhar com ela, falou assim: “Eu preciso realmente fazer a integração desses dois bancos e eu preciso de alguém para me ajudar com isso”. Além de outros colegas pares meus que também ajudaram. E também criar um RH diferente porque ela já vinha nessa jornada há muito tempo. Eu nunca tinha trabalhado em recursos humanos, eles falavam uns termos que eu nem sabia o que eram as coisas. Aí ela falou assim: “Eu quero fazer um RH diferente. Diferente de tudo que eu construí até o momento”, “Aqui é uma boa oportunidade, porque eu tenho um RH do Real e um RH do Santander”, “A gente quer fazer um terceiro RH”. Então, para mim, inovação estava muito ligada a entender contexto de mundo, entender as tendências e não tendências de banco, tendências de mundo mesmo. O que as pessoas vão precisar, daqui a trinta anos, em um ambiente de trabalho. O que vamos falar? O que nós temos que nos antecipar para poder oferecer para esse indivíduo que vem aqui com diferentes funções. É um indivíduo que é mãe. É um indivíduo que é executivo, que trabalha em uma associação de, sei lá, jornalismo. Faz diferentes coisas e também vem trabalhar. Como a gente atende esse indivíduo nos seus diferentes anseios? Como o campo para explorar várias coisas era muito grande, aquilo me atraiu muito. Principalmente tratar de um tema que nunca tinha estudado antes, que era recursos humanos. Inovação impulsiona e em paralelo, além dessa coisa de construir o futuro, eu tinha essa coisa do dia a dia que era a integração. Eram dois bancos e tal. Isso era a coisa do dia a dia, da correria, da loucura, que eu adoro. De novo, eu estava olhando ao longo prazo e estava olhando ao curto prazo. É um pouco disso.

 

P/1 – A outra coisa que você falou foi da importância das pessoas no centro. Como tratar esse indivíduo? Como humanizar as relações? Por que isso também é importante?

 

R – Eu sempre falo que a sacada é assim: a gente, olhando agora funcionário, eu vou olhar especificamente, talvez até pela experiência que eu tenho nessa área de marketing e comunicação. A gente pega e faz todo um trabalho maravilhoso de segmentação para cliente. Você olha, faz estudos, segmenta. Tem um cliente que é nível "X", que é nível "Y", você faz uma oferta de produtos super adequada para aquele segmento de cliente. Você sabe que você é diferente de você. Você tem um envolvimento e um esforço para isso. É isso que a gente quer fazer com o funcionário, porque tem uma combinação de diferentes papeis e necessidades em 54 mil funcionários, que é enorme. É super vasta. Você trata simplesmente todo mundo igual, os 54 mil. No máximo, você segmenta pelo nível. Porque eu cheguei aqui e me deram um nível: nível 30, nível 45, nível 10. Eu não quero ser um número. Não quero um nível. Precisa ter? Precisa, claro que para algumas coisas, mas não é só isso. Você tem a segmentação pelo comportamento e pela necessidade do cara. Se a gente reconhece isso, o funcionário quando chega aqui dentro e se percebe como indivíduo atento às várias... Você fala: “Puxa, aqui me olham também no meu papel como mãe, ou me olham também nessa coisa de eu ser mais jovem e querer fazer uma carreira não mais em banco, ir para fora, e eles me ajudam com isso. Eles me olham de diversas formas”. Isso eu acho fundamental. Isso é colocar o indivíduo no centro. Eu reconheço você e tenho contato "one to one" com 54 mil, e eu reconheço que você tem uma necessidade diferente da necessidade do Gustavo e estou aqui como empresa para poder tentar te apoiar nessa sua necessidade. Algumas coisas são "standard" [padrão] e outras coisas eu consigo customizar. O cara sentir que no meio de 54 mil, ele é escutado e é olhado. Ele é atendido. 

 

P/1 – Como o funcionário reage perante a esse tipo de tratamento? Como fica essa relação?

 

R – A gente está desenvolvendo isso. A gente não tem isso ainda hoje, esse é o grande foco nosso. Cada vez mais, a gente não tem por completo. A gente tem algumas coisas. Por exemplo, você pega um grupo de jovens, a gente consegue pegar os jovens, fazer deles um segmento e começar a tratar de uma forma muito específica. Entender as necessidades deles e ter produtos e serviços específicos para eles; ou para gestores. Gestor é outro público aqui na organização, e o cara pode ser jovem e gestor. Também tem a combinação de papéis. A gente está começando a pilotar isso e percebe que o cara fala: “Nossa, tem um canal só para mim!”. “Nossa! Vocês estão oferecendo esse tipo de curso só para que é jovem?”, “É, porque a gente sabe que os seus anseios são diferentes. Você contou pra gente. Então a gente também quer te ajudar a se desenvolver nisso”. Eu dei exemplo de dois públicos aqui, mas as combinações podem ser várias e a gente ainda tem que fazer toda uma proposta. Mas quando você fala nesse nível, nossa! O engajamento do cara é outro. De novo, ele fala: “Putz, no meio de 54 mil, eu fui escutado”.

 

P/1 – Outra coisa que você tinha falado é da questão da parte positiva da eficiência. Por que é importante ser eficiente? Como que se dá essa eficiência positiva?

 

R – É como em casa. Sabe essas coisas? Eu vou ter uma vida financeira saudável. Vou ter uma saúde bacana, porque é esse corpinho que vai me levar até os 90. Espero que não seja esse, mas que seja esse com menos dez quilos, que vão me levar até os 90. É essa situação financeira que eu quero daqui para melhor. Quero ter tanto lá na frente. Isso é o negócio lá em casa. Muito bem, se é isso... Isso é o básico. Você estar bem estruturado com suas necessidades básicas mesmo. Quando eu olho a eficiência nesse sentido, é estar bem sólido e forte. Então é um banco que passa por várias crises e está aí, em pé. Tem um monte de banco quebrando. Esse banco raramente chacoalha. Se chacoalhar, perante os outros, é quase nada. Isso é você estar bem. É você estar centrado. Isso é sinônimo de eficiência - mas eficiência do lado positivo. Você estando bem e sólido, consegue pensar em outro patamar. Pensar no futuro, no teu entorno, em como você gera valor. A preocupação do básico, você não tem; porque você se preparou para isso. Fiz uma boa analogia? Ficou claro? É isso. 

 

P/1 – Com tudo isso, quais são os seus desafios hoje? O que você tem a construir? Como está o seu dia a dia aqui?

 

R – O dia a dia é bastante puxado, como era de imaginar. Estou há sete anos e meio no banco. Sempre foi super corrido. Não acho que é mais ou menos antes e depois da integração. São prioridades diferentes, mas a correria é essa. Acho que vai ser sempre assim. Meus desafios agora são muito ligados a essa coisa da segmentação, essa coisa de olhar as necessidades, realmente, em um período de tempo daqui a dez anos e daqui a 30. Estar antenado nisso e já antecipar algumas coisas. Prototipar isso e começar a implantar. Consolidar a mudança que a gente propôs no RH. A gente desenhou uma nova forma de fazer RH, que foi uma forma super diferente. A Lilian [Guimarães] deve ter comentado um pouco aqui. Agora a gente precisa consolidar isso. Ela está muito ligada a entrar nessa fase. Para mim, está muito ligado também a construir essa proposta de banco que a gente tem anunciado. O meu pedaço, entre aspas, está muito ligado à contribuição de recursos humanos e no tratamento com as pessoas. Posso contribuir com outras coisas também, mas eu sei que essa é a minha responsabilidade direta. Esse desafio de fazer essa marca Santander uma marca que as pessoas olhem e falem: “Putz! Que legal que é essa marca”. Para mim é super importante que as pessoas que estejam aqui dentro, voltem para casa e falem: “Eu gosto de trabalhar no Santander”. Isso é um grande objetivo. Super. 

 

P/2 – Você disse que gosta da correria do dia a dia, mas também tem essa preocupação de pensar o futuro. Eu queria que você me dissesse qual é essa função? O que você tem imaginado para o futuro dessa instituição que você está? Como você vê essa sociedade, clientes e funcionários lidando com esse cenário Santander daqui a alguns anos?

 

R – Eu vejo o funcionário como o principal embaixador do Santander. A partir do papel que ele está fazendo aqui dentro, está agregando valor para fora. Mas o funcionário que está aqui dentro, não está aqui simplesmente, pode até ter, vamos ter casos assim sempre: “Ah! Eu vim aqui trabalhei tantas horas, ganhei dinheiro e fui embora. E tá tudo bem porque vou fazer outras coisas, vou para minha outra vida”. Eu vejo, no futuro, o jeito que a gente está construindo, a pessoa que está aqui foi atraída para entrar nesse desafio. Ela escolheu estar nesse desafio. Então sempre que ela faz alguma coisa, ela está fazendo, olhando também como isso está se relacionando com outros públicos. Não sei se foi essa sua pergunta especificamente. Eu vejo no futuro muito isso. Claro, falo que essa proposta clara de empregador. Quando você olha, por exemplo, uma Nestlé, procura um tipo de pessoa. Você olha uma Companhia de Bebidas das Américas [AMBEV], é outro tipo de pessoa. Essa proposta clara de que tipo de pessoas que a gente quer no Santander: qual o tipo de desafio que a gente está oferecendo? Que empresa é essa? É como eu vejo essa clareza no futuro. Eu tenho isso muito claro. A pessoa que vai bater aqui na porta sabe exatamente o que está querendo e quem está aqui dentro também. É um pouco disso que eu vejo.

 

P/1 – Quais são algumas dessas questões do futuro que vocês tentam trazer para hoje, para melhorar essa área de recursos humanos? Você falou de tentar analisar a sociedade daqui a dez, vinte anos para trazer elementos. Quais são alguns desses?

 

R – Esse especificamente que a gente chama de Lab RH, a gente está desenhando ainda. Isso eu tenho em protótipo. O outro que eu falei é a parte da segmentação, ou a parte de fazer um RH onde você não seja atendido por área, mas por indivíduo. Um atendimento por segmento de pessoas, não necessariamente por áreas de negócio. Hoje é um pouco do que a gente está experimentando por aqui.

 

P/1 – Qual é a importância de se pensar no futuro? Trabalhar como você disse: com a correria do dia a dia, mas olhando sempre lá na frente.

 

R – Sempre. A importância é total. Isso está na pessoa, não na empresa. Nenhuma empresa quer pensar só no presente: está na pessoa. Por exemplo, eu sempre forço a minha agenda, de verdade. Ter tempo para resolver os 400 mil pepinos do dia. Resolver coisas que caem mesmo, assim, de paraquedas. Caem e você tem que fazer para o dia seguinte, e tudo bem. Mas eu também sei que naquela semana, pode ser que eu tenha colocado a mão em nada que é para falar de futuro: o Lab, a coisa do segmento ou alguma coisa do “Visão do RH” - que a gente está construindo. Não tive tempo, mas na semana que vem eu vou compensar. Em alguns momentos, é 70-30, em outros é 50-50, em outros é 60-40. Não faz mal, mas ter essa disciplina - essa é a palavra mesmo - para você conseguir ver o que está construindo a médio e longo prazo, e quanto de esforço está colocando para isso. Aí, qual o projeto A, B, C que está fazendo e o que está para apagar incêndio na correria do dia a dia - que ela faz parte e sempre vai existir, nada vai mudar. É assim. E dá. Se você se organiza para isso, assume a liderança para tomar a frente disso. Como executiva, a líder desse banco, eu me sinto responsável por isso. Eu tenho que puxar a minha equipe, puxar meus pares, puxar a minha chefe, para a gente sempre poder olhar à frente e também resolver os problemas do futuro. É meu papel. Como eu valorizo isso, vejo valor nisso, procuro fazer com que essas coisas aconteçam também no meu dia a dia.

 

P/1 – Certo. Retomando agora para uma questão mais pessoal, a gente viu aqui que você é casada. Conta um pouquinho. Como você conheceu o seu esposo?

 

R – Conto sim. Eu conheci meu esposo na primeira faculdade que fiz aqui no Brasil. Na verdade, eu conheci o melhor amigo dele. Ele não fazia faculdade comigo; nós fomos apresentados e ficamos amigos. Nesse meio, nesse longo caminho, ficamos amigos, nos relacionamos um pouco. Mas aí eu fui por um caminho com meu primeiro parceiro, fui morar fora. Quando eu estava morando fora, lembro uma vez que ele me mandou uma carta; não, ele me ligou - eu acho - e falou assim: “Eu estou pensando em morar fora também”. Eu falei: “Nossa! Que legal!”. Dei uma super força. Ele foi para Portugal e acabou ficando oito anos em Portugal. Lembro que ele já estava há tempos em Portugal, quatro anos em Portugal, e aí eu voltei para o Brasil. Foi em 2000, quando eu voltei de vez para cá. Foi muito engraçado isso. Ele voltou de vez para cá. Eu voltei de vez para cá. Ele estava morando em Portugal, eu já tinha feito a minha jornada fora. Eu tinha me separado, ele não sabia que eu tinha voltado e ele me ligou. Falou: “Eu estou te ligando porque eu queria fazer um convite”. Eu falei: “Ah! Que legal!”, “Então, eu queria que você fosse a minha madrinha de casamento”. Falei: “Puxa... Que legal... Ótimo”. “Eu vou casar aí no Brasil mesmo”, “Que bom, eu aceito com o maior prazer. Vamos lá”. Ele falou: “Como eu chego uma semana antes do casamento, para a gente não se ver no altar, vamos marcar de almoçar antes para por o papo em dia”. Eu falei: “Claro, tal”. Aí a gente foi almoçar antes e ele soube que eu estava separada. Ele não sabia até então. Realmente, a gente tinha uma história de longo tempo. Ele falou: “Puxa! Você está separada?”. Eu falei: “Tô”. Tudo bem, ele casou. Ficou três anos casado. Foi quando eu estava na Weril, precisava fazer uma negociação na Grécia e eu passava por Portugal. Aí eu falei para ele: “Olha, eu vou passar por Portugal. Vamos jantar eu, você e sua esposa”. Ele falou: “Ah, que bacana! Vamos sim!”. Foi história mesmo. Eu cheguei em Portugal, ele me buscou no aeroporto, aí eu falei: “E a sua esposa?”, “Então, eu me separei faz três meses. Você não sabia, eu estava com passagem comprada para o Brasil porque queria te encontrar”. Eu falei: “Não é verdade”. Ele falou: “É”. Foi aí que a gente se reencontrou. Realmente é essa a história. A gente se reencontrou e aí eu falei: “Meu Deus! Ele está em Portugal! Lá vou eu ter que ir embora de novo”. Entramos em conflito. Eu falei: “Não vou embora, tal”, “Eu não quero ficar em relacionamento à distância”. Um belo dia eu estou na minha casa em Pinheiros, toca a campainha. Era ele com mala. “Fechei minha produtora aqui, estou pronto e quero entender agora qual é a desculpa, porque faz 13 anos que a gente está esperando”. Eu falei: “É, não tem, né?”. Ele se mudou para cá, então não tem. Foi aí que a gente casou. Nós casamos, temos um filho lindo chamado Théo, de três anos. Realmente foi muito bacana essa jornada nossa, porque tínhamos que não ter nos juntado lá atrás, para nos juntarmos nesse momento de agora. Então, é isso.

 

P/1 – Conta um pouquinho pra gente como foi ser mãe?

 

R – Foi muito legal. Eu estava, ainda ontem, conversando com uma pessoa. Ela falou assim: “Nossa! Deve ser um conflito muito grande ser mãe, executiva. Ainda mais trabalhando no dia a dia de banco, que trabalha tanto”. Falei: “Olha, não é”. Eu adoro. Sou uma mãe sem culpa. Quando eu estou aqui, estou aqui. De novo o princípio, quando eu estou em um lugar, eu estou em um lugar. Se eu trabalho doze horas, catorze horas, não importa. Mas quando eu estou fora e, no caso, especificamente, se eu estiver com o Théo, é com ele. Meu tempo é dele. Não tem “blackberry” [marca de celular], eu estou muito bem. Faço esse acordo comigo mesma. Para mim está muito ligado à qualidade e não quantidade. Eu curto muito ser mãe, gostaria muito de ter mais filhos. Eu sempre falo que, hoje, se você ganhasse na loteria, o que você faria? Eu falo: “Olha, eu continuaria trabalhando as mesmas 12 horas que eu trabalho e teria quatro filhos”. Porque aí tem aquela coisa: está tudo garantido. Está tudo tranquilo, o dinheiro está lá. Está aplicado. Sei que a educação deles está tranquila, que eu tenho um futuro bacana para eles e estou lá trabalhando, que estou feliz da vida. E eu acho que dá para conciliar isso mesmo. É muito da minha característica. Ser mãe é muito bacana. Ser esposa é muito legal. Eu acabei de chegar de férias ontem e foi impressionante porque cheguei, uns 400 e poucos e-mails assim, e eu, como sempre, quando volto de férias, amanhã é bloqueado. Ponho os e-mails em dia, depois eu tenho as semanais com os meus diretos para poder colocar em dia as coisas. Eu percebi, as pessoas falaram: “Você não acessou o e-mail”. Falei: “Imagina! Acessar e-mail. Perder o tempo das minhas férias para ficar acessando e-mail”. Falei: “Não! Eu estava curtindo a minha família, os meus amigos”. Eu estou de volta, feliz da vida, curtindo a volta, os meus colegas. É muito legal conciliar isso. É muito bacana.

 

P/1 – Agora a gente vai para uma parte mais avaliativa, para ir encaminhado para o final. Eu queria que você me falasse, para alguém que veio de trabalho em outras empresas, com uma experiência internacional: como você define o negócio banco? O que é, para você, esse negócio?

 

R – Nossa! O banco está como um provedor mesmo, um facilitador para realizar os sonhos das pessoas. Tem muito essa questão de fazer essa intermediação. Os sonhos matérias, mas, de certa forma, têm a ver com outros sonhos também. É simples assim. Não vou falar de banco como... Claro, ele tem um papel muito importante no país e na sociedade, na economia, mas em um falar muito simples: eu vejo isso como um facilitador dos sonhos dos indivíduos. É como eu definiria.

 

P/1 – Certo. Vendo desse jeito, como vai estar o banco daqui a 30 anos?

 

R – Vai estar muito simples a relação. Eu gosto de falar, está na moda falar isso, mas vou ter que falar, inevitavelmente, como o computador... Quando você olha um “Mac”. A revolução que a Apple conseguiu fazer com a tecnologia. Eu acho que a gente tem uma revolução no sistema financeiro, nesse sentido da facilidade, da agilidade. Dele não ser visto como uma coisa chata, e sim como um viabilizador mesmo. De fato, um viabilizador. Ele ainda não é visto como um viabilizador de sonhos, e eu vejo isso no futuro. É tão fácil e tão simples que viabilizar o meu sonho é muito legal quando tem que passar por um banco.

 

P/1 – Depois de ter contado um pouco da sua carreira aqui pra gente essa tarde, quais que você diria que foram os seus maiores aprendizados nessa sua carreira de banco, nesse seu desenvolvimento?

 

R – Meu maior aprendizado?

 

P/1 – Maiores.

 

R – O que me vem é essa coisa de como você pode construir algo muito bacana e legal quando você conta com o outro. Esse aprendizado de trabalhar em equipe e time. Ter uma gestão de equipe mesmo é um grande aprendizado para mim, que no momento você fala: “Nossa! Como cada um é cada um mesmo? E como você consegue olhando para si próprio a partir do outro?”. Por exemplo, nesses sete anos que eu estive aqui, a coisa da autoconsciência foi fortíssima. O banco investiu demais. O processo de “coaching”, o processo de eu me conhecer melhor. Nossa! Esse é um aprendizado mesmo. Uma consciência sobre o meu impacto. As coisas que eu faço e o que posso contribuir são muito grandes. Isso foi um presente que me foi dado. Essa possibilidade de eu me conhecer um pouco mais. Não tinha tanta noção disso. Mas eu acho que o aprendizado da jornada é essa coisa de você combinar os diferentes e fazer disso uma coisa muito nova. Isso eu vivo na prática. Aqui neste ambiente, especificamente, desse banco, foi onde eu mais consegui fluir nesse sentido. Foi um grande celeiro. Aqui tem muita coisa de ponta, muita coisa nova, muita coisa diferente: consultores, parceiros. Assuntos que você vai a outras empresas, eles nem estão conectados com isso. Minha visão de mundo ampliou demais aqui dentro. Eu já tinha, obviamente, uma visão de mundo ampliada, mas nesse contexto mais corporativo. Foi muito legal.

 

P/1 – E em termos de realizações, como você acha que foi: uma realização marcante?

 

R – Profissional, você está falando? É toda a minha história. Eu não tenho uma... Tenho muito orgulho da minha história. Eu não tenho, é minha história.

 

P/1 – Certo. O que faz você vestir a camisa do Santander? Continuar aqui, de se sentir parte dessa equipe, fazer parte da construção da marca Santander, da cultura Santander?

 

R – “Por que eu fico aqui?”, as pessoas perguntam. “Por que você está no Santander?” Eu tenho uma equipe fantástica. Realmente, eu adoro. A gente voltou de férias hoje e estava falando: “Nossa! Que legal!”. Eu gosto da minha equipe. Eu tenho pares. Nós somos em dez. São brilhantes e tem uma relação tão legal. Tenho uma chefe que eu adoro, e já tive chefes também que eu gosto muito. As pessoas que estão nesse entorno são a razão principal de eu estar aqui. Inevitavelmente, é isso.

 

P/1 – Qual é o seu maior sonho hoje?

 

R – Envelhecer com saúde.

 

P/1 – O que você achou dessa iniciativa do banco de trabalhar com sua identidade, com sua história, através da trajetória de seus colaboradores?

 

R – Eu não sei se eu tenho sonho. Você falou de sonho, não sei se eu tenho sonho - é envelhecer com saúde -, mas tem uma coisa de continuar fazendo coisas diferentes com gente bacana. Não é sonho, eu tenho vários projetos. O que você me perguntou? (risos)

 

P/1 – Eu perguntei o que você acha dessa iniciativa do banco de mostrar a sua identidade, a sua história, através da trajetória dos seus colaboradores que estão aqui todos os dias?

 

R – Fantástico! Super bacana. Tem que mostrar mesmo, porque o que move cada um é diferente. Você vê o Santander por diferentes prismas. Eu tenho certeza que olhando essas 50 entrevistas que vocês vão fazer, vai ter alguma coisa que liga todas essas pessoas. Tem alguma coisa em comum e é o motivo delas estarem aqui no Santander. Acho um trabalho fantástico.

 

P/1 – Enquanto experiência pessoal, o que você achou de ter ficado aí e contado um pouco da sua trajetória de vida pra gente hoje?

 

R – Nossa! Eu fiquei super surpresa. Essa é a palavra. E é muito legal a gente contar a nossa história. É uma coisa meio egocêntrica, assim, mas você reviver a sua história... Eu tenho muito orgulho da minha. Fico feliz da vida, adoro o que eu construí. Olhar para trás é muito combustível para construir para frente. Te dá mais força, mais alicerce mesmo. Essa experiência foi riquíssima. Foi um presente de volta de férias. Tá vendo [o] porquê eu adoro trabalhar aqui? Eu volto de férias e faço essa coisa diferente. Adoro.

 

P/1 – Tem alguma coisa que a gente não perguntou e que você gostaria de deixar registrado?

 

R – Você perguntou bastante. O Gustavo quase não perguntou, mas ele anotou bastante. (risos)

 

P/1 – Está certo então. Em nome da Vice-Presidência de Marca, Marketing, Comunicação e Interatividade, e também em nome do Museu da Pessoa, a gente agradece a sua entrevista.

 

R – Eu que agradeço. Foi uma ótima experiência. Muitíssimo obrigada!

 

[Fim do depoimento]

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