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História

Os causos acontecidos de Moisés

História de: Moisés Justino da Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 14/03/2008

Sinopse

Mestre Griô residente em São Sebastião das Águas Claras (MG), Moisés narra em seu depoimento a vida de um Brasil ainda bastante diferente do país no qual Belo Horizonte e outras capitais são grandes cidades. Tendo trabalhado de entregador de leite, andou de bonde, se perdeu no mato e viveu outras histórias ainda muito rurais, de um país que começava a se urbanizar. Cheio de causos, Moisés conta histórias incríveis como a da cabaça que ia sozinha buscar pinga para o seu dono.


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História completa

A minha vida inteira foi só trabalhar. O meu nome é Moisés Justino, sou do dia 9 de setembro de 1931. Nasci no município de Esmeralda, chama Caracóis. Eu não tive um segundo para ir na escola. Não fui. E minha mãe podia ser professora. Ela tinha boas letras, entendia bem de leitura. Mas e o tempo? Tinha que trabalhar, o salário do meu pai era muito pouco. Então ele vivia viajando com tropa, ficava 15, 20 dias viajando com burro carregando cachaça, carregando produto que lá não tinha. Ia longe buscar sal, querosene, aqueles pico de querosene, para lá para o Arraial. Isso aí eu assisti muito pouco, porque de repente ele morreu.

 

Aí, com a idade de sete anos, eu vim para Belo Horizonte. Trabalhei com leite, entregando leite, sabe? Eu era pobre, não frequentei a escola. Foram muitos anos vendendo leite em Belo Horizonte. Belo Horizonte era Curral Del Rey, ainda, não chamava Belo Horizonte. Era Curral Del Rey. Antigamente, o povo tinha muita oração forte, sabe como é que era? Um poder, de santo, né? E tinha um senhor que tinha uma oração muito forte. Ele ia lá no mato, mexer, cortar lenha... E ele gostava de um molhinho, né? Que quase nós todos gostamos, né? Como ele não podia sair lá do serviço na roça, ele mandava a cabaça ir buscar cachaça para ele. Uma coisa impressionante! Você vai duvidar, mas é verdade. Você vê que uma cabaça não tem perna, mas ela ia rolando, ia lá. Era uma oração forte. Igual tinha benzedor, que benzia uma tempestade e apagava fogo com a benzeção. É uma oração, né? Aí a cabaça ia lá, o vendeiro sabia, botava cachaça ali ela voltava. Ninguém mexia. Todo mundo sabia! Era pouca gente naquela época, quase todo mundo conhecia uns aos outros. Então ninguém se envolvia naquela cabaça!

 

Eu sempre acordava quatro horas da manhã. Eu pegava a carroça, morava lá no Salgado Filho, no Mato da Lenha. Antigamente chamava Mato da Lenha, depois que passou a ser Salgado Filho. Então aí a gente chega lá no entreposto, que era na Avenida do Divino com Contorno, Barro Preto. Eu pegava o leite ali, entregava no Hospital Felício Rocho, ia entregando leite por lá mesmo, no começo dele. Hoje eu passo lá falando: “Gente, que prédio aqui, sô, eu entreguei leite no começo dele!”

 

Aí eu cansei, sabe como é que é? Eu vou falar: eu cansei de mexer com aquilo, muitos anos com aquele trem. Saí, abandonei, aí fiquei um pouco à toa. Depois um moço lá falou: "Não, não, você vai trabalhar comigo lá no estado." Eu entrei para o estado, em Macaco. Mas lá o movimento do povo era somente com lenha, carvão, né? Eles transportavam lenha para abastecer a Maria Fumaça, que era a máquina do trem de ferro. Então eles trazia lenha, carvão, e era tudo na base de tropa de burro, no lombo de burro. Então eu fui conhecendo, apanhando aquele conhecimento com aquele povo ali. Com tropa, lenha, muita lenha.

 

Antigamente a gente saía de Belo Horizonte na máquina para ir para o Rio. Era tocada a lenha, tocada a água, lenha. Soltava em cima da gente uma fumaçada lá dentro. Aquele carvão desinfeliz. Eu fui daqui de Belo Horizonte para o Paraná. A gente tinha um chão lá dentro do sertão, bem do sertão mesmo, lá do Paraná. Menina, o vizinho mais perto nosso era um dia de viagem dentro do sertão. Eu era rapazinho novo, falei: "Ih..."  Já estava começando a arranjar uma namoradinha aí, sô. E eu lá dentro do sertão. Mas não tinha nada, sô. Só vivia caçando. Nós plantamos muita roça, sabe?

 

Bom, eu sei que não era mentira deles porque o pessoal antigo não sabia falar mentira, né? Se eu tivesse uma gravação igual vocês têm para gravar, ou mesmo uma memória, ou pudesse ler para escrever, ou alembrar agora, porque tem muito tempo, né? O homem contava caso a noite inteirinha para a gente. Só caso de coisas. Esse homem, ele tinha 136 anos de vida e ele andava melhor do que eu, roçava melhor do que eu. Porque ele tinha técnica, ele era técnico, né? Ele tinha a tecnidade daquilo, sabia. E a véia também dele também.

 

A gente tinha que ranchar num lugar. Você pensa que você dormia assim em colchão? Não, que colchão! Era esteira. Era esteira no chão. E lá tinha esses pernilongos que parecia até um helicóptero, grandão. Puxava a gente! E tinha também o fumo. Eu fumava cigarro de papel e lá a gente tinha que fumar aquele cigarro de palha mesmo. Tinha aquele fumão grosso! Aí a gente puxava uma tragada daquele cigarro, vinha aquilo que saía zunindo, porque aquela fumaça eles não gostavam de jeito nenhum, que era fumaça brava daquele cigarro, né? Os pernilongos saía doido. Ai, sofri demais, gente! A gente também caçava. Você ia mais na parte da tarde ou da noite, e entrei dentro do sertão. E achar o lugar de volta? De jeito nenhum, não achava. Eu achava que eu estava indo embora, mas estava cada vez entrando mais dentro do sertão. Veio a noite, né, que lá era mata.

 

Até que encontrei minha roça. Eu vivia sozinho lá, em deserto. Só tinha a roça e muito porco, muita galinha. Cheguei lá já de noite, já escurecendo. Eu falei: “Poxa, que alívio.” Eu dormia no colchão de palha. Eu fiz um lugar que bicho nenhum não me pegava. Lá eu já tinha muita guaritana, esse palmito Jussara. A guaritana é que fazia telhado da casa com as folhas dela. E eu rachei muito aquele palmito jussara, parecia uma tábua, né? Eu só tinha que rachar ela. Aí fiz aquilo. Tinha muita palha, fiz aquele colchão grande, né? Colchão de palha. Vocês nenhum não conhece. Não alembra disso. Vocês nunca usou esse tipo de coisa, né? Antigamente era por a palha… E aquela chaleira garrada ali com a água quente para você tomar chimarrão. Não tinha café, não tinha nada desse negócio não, era chimarrão. Porque no Rio Grande do Sul, Paraná, tudo é o chimarrão, né? Ih, eu gamei naquele trem!

 

Lá também não tinha luz não, o fogo me alumiava. Você não podia deixar o fogo apagar não. E você pensa que tinha fósforo? Não. Você pensa que tinha esse negócio de lamparina, não tinha, querosene, não, nada disso, era só o fogo mesmo! Você acendia, você andava longe com a taquara acesa. Alumiava o lugar para ir buscar água na bica. Para dar banho, a gente tomava banho de caneco. Quer dizer, eu não tomava banho de caneco. Antes era, porque antigamente era bacia, né? Vocês não alembra disso.

 

Depois começou a surgir o colchão de capim. Como eu era muito amigo de um senhor, ele era delegado, sabe? Como eu era muito amigo dele, quando eu casei, ele me deu um colchão vindo de São Paulo. Colchão de mola. Um colchão, ninguém tinha isso lá no Macaco, não! É, colchão de mola. Eu digo que é. E todo mundo admirava, porque um colchão com a mola só, era um colchão bom, bacana. Durou muito tempo. A gente podia trocar o pano dele.

 


Apesar de a gente ser analfabeto, mas a gente fica conhecendo, né? Os outros estão brincando com uma coisa que a gente já sabe. Da natureza eu sei como é que se planta uma planta, eu sei como é que toca, trata de uma criação. É diversas coisas que a gente sabe para ensinar esses meninos mesmo, né? Quer dizer, isso aí é o que eu estou falando, desses causos às vezes um é invento, né? É causo de pescador. E agora essas outras coisas do boi, da cabaça carregando cachaça, isso aí tudo é verdadeiro!


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