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História

Os caminhos internos e externos de Maria Lúcia

História de: Maria Lucia Braz de Aguilera
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 29/12/2006

Sinopse

Neta de imigrantes europeus, Maria Lúcia Braz de Aguilera alternou sua juventude entre as visitas à fazenda da família e o colégio interno. Ambientada na infância pelas discussões políticas em sua casa, foi na escola religiosa que questionou os costumes da época. Casou-se, viajou e morou fora do Brasil por um tempo. Como avó, reviveu o amor materno.

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História completa

P/1- Bom, antes de mais nada, boa tarde.

R- Boa tarde.

P/1- Obrigada por estar aqui com a gente, por ter disponibilizado algumas horinhas, aí, do seu dia, pra gente te ouvir. Eu queria que você começasse dizendo, assim, seu nome completo, a data e o local do seu nascimento.

R- Bom, meu nome é Maria Lucia Braz de Aguilera, antes era Maria Lucia Vieira Braz. Eu nasci em Porciúncula, uma cidadezinha do norte do Estado do Rio, no dia 28 de janeiro de 1944, um pouco antes de terminar a Segunda Guerra.

P/1- E o nome dos seus pais e avós?

R- Bom, o nome do pai é (Nírio?) Coutinho Braz e o nome da mãe é Néia Lanes Viera Braz. O pai do meu pai, João Francisco Braz, era conhecidíssimo na região porque foi a primeira pessoa que, na época da Guerra, construiu uma usina. Foi a maior usina do Estado do Rio de algodão e processamento de cereais, arroz... E, então, ele é super conhecido naquelas redondezas, muito respeitado. E foi uma figura, assim, de importância bem grande. Era uma pessoa ótima. Eu tenho lembranças imensas do meu avô. É uma pessoa muito grande pra mim. O meu avô materno era daqueles coronéis, né? Então, lá naquela época, quando eu era muito criança, era muito engraçado porque todo mundo, assim, decidia quem, a vida das pessoas. Então, tinha reunião dos coronéis nas fazendas. E às vezes eu acordava, era criança, acordava três horas da tar... da noite e via o pessoal chegando com aqueles lampiões, sabe? E o pessoal a cavalo pra decidir as coisas sobre a política. Então, a política era feita ali, na sala das fazendas. E eu achava aquilo, assim, muito interessante. Uma das melhores lembranças que eu tenho da minha vida. Isso acontecia do lado da minha mãe. Então, meu avô paterno era uma pessoa muito influente na política da região. Então, governadores. Todo mundo que era eleito, a gente já sabia até quem ia ganhar. Quer dizer, hoje eu vejo isso sendo mais velha, né? Mas naquela época, era voto de cabresto, era a coisa mais engraçada do mundo. Então, são as lembranças, dessa época da minha infância, que eu guardo muito, dos meus dois avós, muito queridos. Mais marcante a figura do meu avô paterno e do meu avô materno, que das minhas próprias avós, que faziam um carinho, um biscoitinho, essas coisas. Mas eles eram pessoas muito presentes na minha vida. Foram pessoas muito presentes e era muito gostoso. Eu gostei de ter nascido lá, gostei de ter sido criada tomando banho de cachoeira. Nas férias, quando eu vinha pro Rio de Janeiro, eu contava os dias pra voltar pra fazenda. E é isso.

P/1- E esse seu avô que era da usina, como é que era o nome da usina de algodão?

R- Usinas Braz, tá? Foi a maior rede, na época da Guerra, foi (concedida?). Uma loucura, porque inclusive eu tenho fotografias, que o meu avô tenha pensado em construir essa usina imensa. São oito galpões. Ainda está em pé, até hoje, em Porciúncula. E todo mundo dizia: "mas, é uma loucura, não está se vendendo café, como é que esse homem faz..." Foi inaugurada em 1939. Diziam: "como é que esse homem, em plena guerra, faz um empreendimento desse, investe tanto dinheiro, né?" Aí, depois, ele ficou muito bem. O meu avô, quando morreu, era sócio do Lúcio Coelho da Braspérola, de linho, dessas coisas todas. Aí, ele morreu e os filhos, logicamente, venderam tudo e foram passear com o dinheiro, né?

P/1- É tradicional?

R- Então, essas coisas da vida, né?

P/1- E a usina, ainda existe parte fabril?

R- Existe. Existe. Eu tenho fotografias da inauguração da usina, do Governador do Estado. Eu não estou te dizendo? Que o Edmundo Macedo Soares, Tenório Cavalcanti, essa turma do tempo que vocês nem eram nascidos, nem devem conhecer, iam na nossa casa, ficavam ali, com a gente. Então, nessas cidades pequenas, assim, do interior, tem aquele clã, aquele grupo. E meus avós faziam parte desse grupo. Essa usina existe até hoje. Na inauguração, foram os Ministros, o Governador do Estado. Tenho todas as fotografias. Houve a Princesa do Algodão. Mas era muito interessante, é muito engraçada. E a minha avó, a esposa do meu avô, foi uma figura, assim, muito interessante, porque ela morreu com 103 anos. Ela era chamada de Dona Maricas. Então, ela era, assim, considerada patrimônio nacional de Porciúncula, porque ela de registro tem 103 anos. Agora Deus sabe quando ela nasceu, né? Porque acham que ela teria tido muito mais, né? Então é isso.

P/1- Que benção, né?

R- É. E morreu lúcida, morreu ótima, morreu dormindo, votou no Fernando Collor de Mello, ela era participante (risos). Então, ela fazia política. Minha família sempre foi assim, muito engraçado. Às vezes, eu vejo essas novelas da televisão e eu acho graça, né, desses coronéis. Digo: "olha, mas é uma coisa, assim, pra mim, tão engraçada" É como se eu estivesse revendo a minha infância, de bem menina, de 5 anos, de 3 anos, né? Essas histórias, assim, discutidas, as pessoas iam em caminhões. Chega lá, estava aquela urna, né? Tinha uma cédula, assim, já marcadinha e minha avó ensinava o pessoal a desenhar o nome. Era toda uma empresa pra política, né? E era muito engraçado. Engraçado, eu gosto muito dessa parte da minha vida. Depois eu vim pro Rio. Com 7 anos fui interna no Colégio Sion, de Petrópolis. E era um ambiente totalmente diferente do ambiente da fazenda. Um ambiente, assim, muito sofisticado. Eu era considerada a caipirona lá da... do colégio. Aí, depois, eu acabei líder do colégio. Achei que essa história tinha que acabar. E no final, eu fiz 13 anos de Sion. Então eu quem decidia as coisas. E ficou, assim, como um revanchismo da minha parte. Então, a caipira virou a líder da sala dela, né? Umas coisas engraçadas.

P/1- Maria Lucia, você sabe a origem dos nomes da sua família? De onde eles vieram? Se eles têm imigração, se é só brasileiro?

R- Meu avô, ele veio… o sobrenome Braz vem do pessoal que trabalhava com brasas, que faziam e forjavam as coisas, né? Meu avô, ele perdeu a mãe com... 14 anos de idade. E os irmãos já tinham vindo pro Brasil. Então, mandaram uma passagem. Ele veio com 14 anos, imigrante, no porão de um navio. Só que quando ele chegou, o irmão dele, mais velho, não estava esperando no cais, né? Então, meu avô ficou sentado ali, dias. E aí, um senhor sírio, que estava levando uma mala, disse: "eu posso lhe ajudar." Aí ele disse assim: "lógico, pode". E esse senhor levou o meu avô pra casa. E ali na Rua da Alfândega, tinha aqueles casarões. Essa história é contada pelo meu avô. Contava pra gente quando a gente dizia assim: "eu estou morrendo de fome". Dizia: "não, você está sentindo fome, você não está morrendo de fome". Ele contava sempre a mesma história. Então, (ela deu uma sopa?), parece que o meu avô quase desmaiou. Ele ficou ali trabalhando com fazendas, com esse sírio. E ficou ali um tempão, até que ele fez acho que 20 ou 21 anos e ele resolveu, por conta própria, ser caixeiro viajante. Então, ele comprou, assim, uns tecidos e foi viajando. E acabou parando em Porciúncula, onde conheceu a minha avó. Então, ele brincando, que a primeira fazenda que ele comprou, se ele deitasse, os pés saiam fora da propriedade. E ele fez um armazém, então ele vendia secos e molhados, vendia fazendas. E a minha avó ficava danada porque as pessoas paravam e diziam assim: "ó, quero fazer um terno". Aí, meu avô falava: "eu vendo a fazenda". Aí, diziam: "mas eu não tenho costureira". Aí, meu avô: "mas, minha mulher faz". Só que minha avó nunca tinha feito nada, né? Minha avó ficava louca. Minha avó aprendeu a costurar. Então, eles foram se ajudando, e fizeram uma fortuna imensa. Depois disso, imagina, que em 1939, meu avô faz a maior fábrica, né, usina, de todo o Estado do Rio. Então, a vida dele, o começo, foi assim. Que por parte de mãe, o meu avô, os meus bisavós vieram da Alemanha, vieram da Baviera. E aí vieram, foi vovó suíça, que nós chamamos, que era muito loirinha, de olhos azuis, e vovó... E ficaram morando em Porciúncula. E vovó também, ela é descendente do General (Leandres?), um general de Napoleão, tá? Que tem até uma avenida com esse nome. E vovó veio depois. Mas, vovó veio criança, da França. E tinha muitos franceses, muitos alemães, que se juntaram ali. Muitos italianos que vieram ficaram em Porciúncula, Santa Clara, Purilândia. E, aí foram ganhando dinheiro, fazendo a vida. E todos eles conseguiram se dar muito bem na vida. Meu avô falava alemão, minhas tias mais velhas também falavam. Mas na época da Guerra, eles foram proibidos de falar, porque, por exemplo, moravam na Tijuca e quando saiam na rua eram apedrejados. Então, meu avô proibiu que se falasse alemão em casa. Meu tio, inclusive, estava na Alemanha, e tinha estudado na Alemanha. O único filho do meu avô. E a minha mãe e a minha tia, que é gêmea de mamãe, não falavam. Falavam um pouco de francês, mas alemão era proibido, porque cada vez que tinha alguma confusão, eles apedrejavam a casa e minha avó tinha que sair. A minha avó contava isso chorando, sabe? Tinha que comprar leite, essas coisas, pras crianças, pros filhos, né? Aí tinha que pedir aos vizinhos, porque eram alemães. Não eram os alemães. Imagina, a minha avó francesa, meu avô veio bebê, recém-nascido, e não tinha nenhuma ligação. A não ser meu tio, que foi estudar na Alemanha e ficou. E voltou um pouco antes da guerra. Então, é mais ou menos por aí essa história.

P/1- E quantos irmãos vocês eram lá na fazenda? Você, seus pais tiveram quantos filhos?

R- Três.

P/1- O nome deles?

R- Eu sou a mais velha, Maria Lucia. Meu irmão, João Francisco Braz Júnior, em homenagem ao meu avô, que faleceu em 92. Eu te contei, num acidente perto de Leopoldina, nós vimos da fazenda. Um carro na contramão, uma dessas cegonhas que transportam carros, né? O rapaz parece que estava bêbado, pegou e matou meu irmão na hora. Foi uma coisa, assim, muito triste pra mim. Minha mãe começou a morrer desde esse dia, porque minha mãe adorava meu irmão. Minha mãe faleceu no dia do meu aniversário, em 2004. Eu passei meu aniversário enterrando mamãe. E a minha irmã menor, Maria Cláudia. Ela mora em Brasília e nós quase não nos damos, porque ela tem um tipo de vida diferente, e a família ficou assim... Com a morte do meu irmão, quando uma pessoa morre numa forma assim tão trágica, a família toda parece que morre junto. Então, cada um vai pro seu lado, cada um pensa de um jeito. Com a minha mãe começou, sabe? A mamãe doou as jóias dela todas. Não queria mais saber de nada, só ficava na igreja rezando, se separou de meu pai. A minha irmã também se... Olha, foi uma coisa, assim, meia confusa. A minha irmã, que já estava pra divorciar, acabou divorciando. Ela era casada com um primo do meu marido, do Equador. Mudou para o Brasil, veio tomar conta das fazendas, entendeu? E com o tempo, houve, assim, uma série de atritos entre a minha irmã e meu pai e então a gente não se fala. Então, tem algum tempo que eu não vejo a minha irmã.

P/1- E em Porciúncula, como que era essa casa de vocês? A casa que você vivia, que você viveu até os 7 anos, né?

R- É. Era a melhor casa que tinha, né? A do meu avô está maravilhosa porque a minha tia herdou e reconstruiu a casa como a casa era. Então a casa está linda, a casa de Porciúncula. E a nossa casa, o papai fez uma casa muito boa. E então, quando chegavam, isso que eu te disse, o Governador, o presidente da Siderúrgica Nacional, Edmundo Macedo Soares, o Tenório Cavalcanti, que a gente achava graça, né? Porque tinha os seguranças, e nós íamos pra outras casas. Aliás, nós íamos pra outra casa porque a casa ficava só com os políticos, né? Então era a casa que tinha pra hospedar, porque não tinha um hotel bom, não tinha nada. Era a nossa casa que hospedava. Eu achava muita graça porque o Tenório usava um robe, assim de seda vermelho. Eu achava aquilo tão chique, sabe? E ele usava, assim, sei lá, era um lenço no pescoço pra levantar. Então pra mim, imagina uma criança de 3, 5 anos, nunca tinha visto aquilo. Achava, assim, um barato.

P/1- O Getúlio Vargas não freqüentava a fazenda?

R- Não, o Getúlio não. Porque o meu pai era da UDN [União Democrática Nacional]. Você nem sabe o que que é isso, né? (risos)

P/1- Ele era do...

R- Ele era do Brigadeiro Eduardo Gomes. Aí, o Eduardo Gomes ía e todo mundo balançava lencinho branco pro Eduardo Gomes, que era candidato à Presidência da República. Essas coisas, pra vocês, vocês nem devem desconfiar que em 1953, 1954, entendeu? E era uma coisa, assim, interessante. Eu perdi um pouco da minha infância porque eu vim pro Sion, de Petrópolis, ser interna. Então, eu só saía em julho e em dezembro. Papai tinha um teco-teco, um aviãozinho, ali em Manguinhos, ali na entrada da Avenida Brasil, aí eu ia pra fazenda. Meu pai ficava na fazenda, trabalhando com meu avô. Depois, quando eu fiz 15 anos, sei lá, mais ou menos por essa época, aí meu pai mudou pro Rio, é nós moramos ali no Leme. Meu pai comprou um apartamento na Avenida Atlântica e resolveu vir pro Rio negociar (carros?), já se separou do meu avô, foi outro tipo de vida. Aí, eu já não ia mais pra fazenda. Ficava no Rio direto.

P/1- E na fazenda, ainda...

(interrupção na gravação)

R- Porque eu queria história do meu avô, então ela me deu uma porção de coisas. É até bom falar, porque aí resgata a memória do meu avô. Tem reportagens de jornal sobre o meu avô. Muito interessante. O Braz, João Braz.

P/1- João Braz.

R- O outro era mais João Francisco Braz .

P/1- O João Braz que é o da usina, né?

R- É, da Usina Braz. Nossa, bastava você dizer, era o Braz, assim, naquela época, pôxa, tudo parava.

P/1- E nessa casa da fazenda, ainda em Porciúncula, você morava na fazenda, mesmo, ou morava na cidade?

R- Não, morava na cidade. Sempre morei na cidade.

P/1- Como que era a cidade? Qual a origem de Porciúncula, você sabe?

R- Você sabe que eu não sei. Parece que é de Doutor Porciúncula, eu não sei. Um tataravô meu, por parte de José de Lanes Dantas Brandão, por parte de minha mãe, foi que fundou essa cidade. Então, chamava-se Santo Antônio dos Macacos, entendeu? Por isso que todo mundo, agora não tem nada a ver, mas naquela época todo mundo era parente de todo mundo. Ou era Vieira, ou era Braz, ou era ________, ou era Lanes. Então, todo mundo... E ali tinha, isso que era engraçado, o médico era francês, o Doutor Bretel. O outro era alemão. Era todo mundo estrangeiro, era gozadíssimo. E meu pai me conta, né, que a primeira mulher que ele viu de calça comprida e andando a cavalo era a mulher de um Doutor Bretel, uma francesa. E aquilo era o fim, né? Quando o meu pai era pequeno, né, uma mulher andar a cavalo e de calça comprida, como homem. Então, já peguei uma Porciúncula mais adiantada. Hoje não tem nada a ver. Hoje perdeu a identidade. Qualquer coisa, mas antigamente era uma cidade... A usina dava vida, então empregava muitas pessoas. O pessoal marcava o tempo, porque cinco horas da tarde tocava aquele pui, pui, sabe? Fazia aquele barulhinho, aí, quer dizer, empregava uma cidade inteira. Tinha escritórios aqui no Rio, de exportação de café, tá? E então era uma coisa muito grande. E então, depois que em 1959 meu avô morreu, eles mantiveram a usina até uns quatro anos depois. Também a produção de algodão, porque o algodão acaba com a terra. Então não tinha ____ mais onde comprar algodão, tá, pra processar. Porque eles vendiam fardos de algodão. Meu avô morreu muito jovem. Pra época era, meu avô morreu com 72 anos, de câncer. Então, ele estava começando um negócio da Braspérola, com o Lúcio Coelho. O escritório era em Londres até. Meu avô sempre, assim, idade pra ele não era empecilho pra ele começar nada, entendeu? Isso que eu sempre admirei no meu avô. Vai fazer uma fábrica na guerra? Vou. Vai começar uma coisa com 70 anos? Vou, entendeu? Meu avô era uma pessoa que não se prendia a essa história de idade. Eu já estou velho. Nunca vi. Nenhum dos dois. O meu avô, pai de mamãe, esse que era alemão. Alemão porque nasceu na Alemanha. Ele morreu, com 97 anos, em cima de um cavalo. Ele caiu no chão. Enfartou, morreu. Então, as pessoas, era engraçado hoje. Não tinha nada de terceira idade. Eu tenho uma amiga que fica furiosa, disse: “Meu Deus, eu dançava com os meus sobrinhos, agora tem que ir pra baile de terceira idade”. Então, não havia essa divisão. Todo mundo se dava com todo mundo. E era muito engraçado. Você ia pra festa, dançava com sobrinho, dançava com não sei quem. Não havia essa divisão tão grande entre a juventude e uma pessoa... Ah, fulano é da terceira idade. Fulano só pode fazer isso. Eu não sei. Agora acho que estão resgatando essa história, né?

P/1- Mas por que você acha que aconteceu isso? Esse distanciamento entre as gerações?

R- Eu não sei. Eu acho que foi falta de, eu acho, eu até vou falar uma coisa, assim, estranha. Nós conversávamos muito. Então, quando não tinha televisão, não tinha essas coisas, meu avô trouxe uma televisão. Aí tinha os “televizinhos”, ali na Barão de _______. onde é a Seguros Bradesco, hoje. Toda aquela casa que dá o fundo pro (Colégio?) Lafaiete, e a do lado era a casa do meu avô. Então, eu acho que perdeu muito porque as pessoas sentavam, tinha os saraus. Olha que eu tenho 61 anos, né? Mas, tinha mais tempo pra conversar. A vida era menos estressante. Então, por exemplo, havia diálogo. Então, filho falava com o pai tudo o que acontecia. Depois do almoço ou no jantar, o pessoal sentava nas varandas. Todo mundo conversava. Então, havia maior (participação?) entre as pessoas mais velhas e os jovens. Então, não era assim. Se bem que, em determinados assuntos, viravam: "vocês vão ter que sair da sala". Mas em outros não. Você podia, sabe? Era um negócio, assim, acolhedor. Eu acho que falta diálogo, eu acho que falta tempo, tá? É careta uma pessoa... Eu, agora, estava até brincando com uma amiga minha, porque eu levantava. Chegava uma pessoa, tinha que levantar. Falavam: “Levanta que é mais velho”. Levanta que é mais velho. Então, toda vez que eu vou ao metrô, que ninguém me dá o lugar, eu digo: "ó, levanta, já levantei pra muita gente". Entendeu? Então, existia toda uma história que, assim, de... parece antagônico, mas não é. Ao mesmo tempo que você tinha toda a liberdade de participar, de conversar, havia um respeito. Hoje, por exemplo, uma pessoa mais velha não sabe; naquela época já não, era uma pessoa que tinha experiência de vida. Então, você escutava. Então, era assim. Engraçado, né, porque hoje você, eu vejo, eu falo as coisas pra minhas filhas. Estou ultrapassada, entendeu? Mas, não é que eu esteja ultrapassada, eu já passei por aquilo, eu já sei o que que vai dar. Quer dizer, não é igual. Mas, mais ou menos, vai por aí, né? Então, acho que os jovens não escutam mais. Até pra contestar, entendeu? Vou escutar, pensar e se... De cara, é contra. Você está entendendo? "Ah, pô, careta". Não sei o quê. Nem se dão ao trabalho, acho que está faltando, agora, pras pessoas, raciocinar, porque está tudo pronto. Eu estou com um problema com negócio de computador nesse dedo. Então, cada vez que o progresso, é uma coisa... Acho ótimo, acho que a vida é mais, ficou mais fácil. Minha avó, por exemplo, fazia sabão pra lavar roupa. Sabão feito de soda cáustica e alguma coisa. E a roupa ficava branca. E não tinha produto nenhum de limpeza, era tudo natural, minha avó fazia manteiga, fazia o pão. Quer dizer, eu acho o progresso uma coisa importante. Mas, ao mesmo tempo traz poluição, traz a falta de diálogo. Você nunca via ninguém escutar: "está estressado". Nunca escutei dizer que era estressado. Estressa, eu acho, assim, há pouco tempo. Então, a mulher, também, trabalhando, eu acho ótimo, porque eu trabalhei. Mas ficou faltando muito, eu acho que ficou faltando muito diálogo da família. Eu acho isso importante. Por exemplo, tinha os famosos “jantarados” de domingo. Então, reunia todo mundo. Era uma coisa, assim, de mais de 50 pessoas, em volta da... As crianças ficavam num pátio, numa mesa grande, jogando perna de frango uma na outra, porque era uma coisa muito farta, né? Tinha muita comida. E todo mundo conversava. Então, se agregava mais. Eu acho que havia um diálogo nos encontros de domingo. Também você tinha empregada que ficava em casa domingo, nos famosos “jantarados”, né? As empregadas, coitadas, tinham só licença pra ir à missa. "Posso sair às seis horas da tarde?" Aí, iam à missa, mas é que elas iam namorar. Não iam à missa coisíssima nenhuma, né? E voltava. Eu acho que já há um preconceito da pessoa mais jovem de achar que tudo que é antigo ou não presta, ou está ultrapassado. Como se não dissesse nenhuma experiência, não acrescentasse nada à vida das pessoas.

P/1- E na sua casa quem que exercia essa... como que era o diálogo e quem que exercia mais, assim, a autoridade, a ordem? O pai ou a mãe?

R- Bom, até meu avô morrer, era meu avô, tá? O meu avô era a pessoa. Era a última palavra, era do meu avô. Então, se falava, por exemplo, toda vez que eu aprontava alguma, a primeira coisa que eu fazia era sentar no colo do meu avô. Porque ali eu estava protegida, entendeu? Agora, depois não, depois, meu pai. Meu pai sempre foi uma pessoa muito machista, uma pessoa muito dura e uma pessoa, assim, de horário pra ver televisão, horário pra comer, horário pra levantar. Meu pai é uma pessoa muito triste. Acho eu, né? Um ser humano muito bom, mas muito triste. Por exemplo, uma vez nós vínhamos do Rio, da fazenda pro Rio e estava tocando, assim, um... Eu teria 14 anos, meu irmão 11. Não, 17. Meu irmão nem podia dirigir até, estava com 14 anos. Tocando samba, a gente tinha que aprender aquelas músicas de carnaval. Meu pai deitou atrás. Então, meu pai sempre foi muito preconceituoso e meu avô não. Meu pai disse: "Que é isso? O que que está havendo? Cantando música de crioulo. Por que que não vão morar no morro?”. Então, meu pai sempre foi e é uma pessoa, extre... Ele é daqueles: “cada macaco no seu galho”. Então, meu pai foi uma pessoa que podou muito as asas dos filhos. Meu pai tem 85 anos e é uma pessoa toda plastificada, tem uma namorada de 35. É que o meu pai é viúvo, né? E então, ele infantilizou muito os filhos, sabe? E a própria mulher. Minha mãe não sabia assinar um talão de cheques, não sabia nada. E, meu pai, sempre que a gente queria dar “voada”, ele “crec” nas asas. Por isso, a figura do meu avô é uma figura muito mais presente na minha vida, o meu avô. Engraçado, o meu avô entendia isso. Meu avô entendia. A minha avó, uma vez, eu estava sentada, era na época da ________, estava começando a usar minissaia. Então, a mulher dele. Eu sentei, e lógico, a minissaia vem aqui, né? Eu tinha 18 anos e a mãe da mamãe ficava assim: "ham, ham". Aí, minha avó veio: "o que é bonito é pra ser mostrado". Cabeça ótima essa da minha avó que morreu com 103 anos, entendeu? E eu acho, assim, podendo julgar, os meus avós mais modernos que meus próprios pais. A minha mãe, no final, depois da morte do meu irmão, ela já se humanizou um pouco. Ela já aceitou, por exemplo, que minha filha engravidasse sem ser casada. E antes, isso era um... Enquanto que os meus avós, pra eles nunca essas coisas tiveram importância. Não sei se porque eles tiveram origem européia, né, viam... Era engraçado, os modernos eram eles, sabe? Falava assim: "Fulana ficou grávida". Aí, minha avó falava: "É mesmo? Está gostando de ficar grávida?". Minha avó não queria saber se ela estava casada, se não estava casada, entendeu? Enquanto a minha mãe, muito mais moça, já tinha uma série de preconceitos. O meu pai, Deus me livre, ninguém nem podia aproximar daquela menina mais. Ele dizia: "essa menina é muito travessa, não quero que vocês andem com ela". Por quê? Ela namora já, terminou um namoro, começou outro. Imagina. E meu avô, engraçado, né? Agora, eu conversando, assim, com vocês, eu percebi. Aliás, eu já tinha percebido isso. Meus avós muito mais abertos com os netos, então, assim, uma coisa, nossa, uma loucura. Bom demais, bom demais.

P/1- E, provavelmente, então, nessa família com esse pai e essa mãe um pouco mais reacionários, você teve uma educação religiosa, também?

R- Tive.

P/1- Muito? Como é que era?

R- Muito. Bom, eu passei 13 anos dentro do meu colégio de freira. No Sion, nós tínhamos uma coisa que chamava-se missa obrigatória. Então, as freiras morriam de rir. Morriam de raiva. De rir, não, de raiva, né? Porque nós acordávamos às 5 horas da manhã. Aquele frio maluco, maluco. E o Sion é de origem francesa. Era uma coisa muito engraçada, até vou dizer aqui, o papai tinha que dar permissão pra eu trocar de calcinha todo dia, tá? Porque se não, eram umas calças aqui. Eu tinha que botar, assim, num banquinho pra arejar e vestir a mesma calça. Então nós conseguimos tomar banho... eu tinha licença pra tomar banho todo dia. Mas, naquele frio louco e de água fria. Porque o banho era três vezes por semana, só. Então, quando tinha missa, nós tínhamos que levantar 5 horas, tomar banho, ir em jejum pra missa. Aí começava a desmaiar todo mundo. Tomávamos café, 8 horas. E tínhamos aula de 8 ao meio-dia, em silêncio profundo. Meio-dia o almoço, em silêncio. 15 minutos pra conversar. Voltávamos à aula uma hora da tarde, até às cinco. Às cinco, estudo dirigido, tá? E depois do estudo dirigido, dormir. Isso foi minha vida dos 7 aos 18 anos. E eu nunca, engraçado, né, como uma pessoa de 18 anos conseguiria viver dentro, era uma prisão aquilo. Era uma prisão. Eu tinha que botar minha saia assim pra conseguir ver o meu rosto. Porque não podia ter espelho. Não podia usar talco, uma série de coisas. E aí, eu tive uma religião católica muito rígida. A minha mãe, nossa, nem falar. Quando meu irmão morreu e eu tinha umas coisas, assim, estranhas comigo, contestava muito, nas aulas de Escritura Sagrada, nas aula de Religião. Aí, falava da papisa Joana, da Inquisição. Ah, eu sempre gostei, eu sempre fui maluca. Eu era a primeira da classe, então eu tinha todo o direito de infernizar as aulas de religião. Então, foi uma educação católica, e toda a minha família é muito rígida. Então sou meio a ovelha negra da família. Todos os meus questionamentos não batiam com nada que a Igreja Católica pudesse me responder. Quando meu irmão morreu, ficou pior. Porque eu contestei Deus, foi aquela, sabe aquela história toda que você fala: “por que morreu, devia, té, té, té, té”. Aí, me emprestaram uns livros. Aí, eu comecei a ler. Depois, eu comecei a freqüentar o templo de Vargem Grande, do budismo. Porque eu passei um ano no limbo, com a morte do meu irmão. Porque meu irmão não era um irmão. Meu irmão era um amigo, entendeu? Era um amigo, sabe? Amigo, aquele amigão. Disse: "estou tendo filho". Ele disse: "espera aí, fecha as pernas porque eu estou indo pro Rio". O meu marido estava pro Norte. Minha última filha inclusive, essa Andrea. Então, eu comecei a achar que respondiam mais as coisas, as perguntas que eu tinha sobre a vida, no kardecismo. E a paz, eu encontrei no budismo. No relaxamento, na meditação, entende? Eu não entenderia nunca uma vida sem reencarnação. Eu não, eu não sei se existe. Mas, eu a... eu acho que, se não existir, pra mim, muita coisa não se explica, muita coisa não aceito, né? Mas sempre respeitei. A minha família toda é católica. Minha mãe dizia: "minha filha, você ainda vai àqueles lugares que os homens usam saia?”. Digo: "vou". Mamãe botava água benta pra eu tomar, sabe? Essas coisas. Mas, eu me sinto bem porque eu não sei, mas eu acho que as minhas, respondeu muito bem as perguntas que eu me fazia, sabe? Não sei.

P/1- Maria Lucia, como que era o dia-a-dia na escola, no Sion? O dia-a-dia no Sion?

R- Horrível.

P/1- Que tipo de aulas você...

(Interrupção na gravação)

R- Empobreceram muito.

P/1- E como. Vamos lá? Vamos voltar? Vamos pôr no cantinho? Quer ajuda?

R- Isso depois vai ser cortado, né? Não vai ter.

P/1- Não, a gente não gravou. Agora a gente vai retomar. Retoma pra gente um pouco seu  ambiente no Sion, né, que você estava falando do banho frio, da disciplina religiosa. Como que eram as aulas? Que tipo de aula que você gostava? O que que você odiava? Que tipo de aluna você foi?

R- Bom, eu fui uma aluna brilhante, por incrível que pareça, né? Porque eu tinha que ser brilhante, se eu não fosse brilhante, meu pai morria. Porque meu pai é um ser extremamente vaidoso, então os filhos dele tinham que ser os primeiros em tudo. Bom, Latim eu nunca sei pra que que servia. Eu odiava Latim. Apesar que, assim, eu era muito boa em Português. Muito boa em Matemática. Eu gostava das matérias de História, de Ciências. A única coisa que eu dizia: "Mas por que que eu estou aprendendo Latim? Por que que eu tenho que aprender tudo isso?". E o Sion ainda é uma educação de base muito boa, porque nós tínhamos aula, as aulas eram em francês, não é? Grande parte das aulas. Não, as aulas não eram em francês, as aulas eram em português. Mas, no recreio e nas assembléias, nós só falávamos francês. Então, deu uma base muito boa. Muita coisa, agora conversando com a minha filha, eu achei que depois o estudo ficou muito reduzido. A gente sabia tudo, os rios todos da Ásia, a quantidade de rio que tinha na China. A divisão da África, que hoje já mudou toda e eu já não sei nem pra que lado vai. Mas era uma coisa muito mais complexa, né? E os nossos professores eram ótimos. O _____ (Lacome?) era Diretor do Museu Nacional, então, Imperial de Petrópolis, Nacional. Não, Imperial de Petrópolis, então nós tínhamos aulas no Museu. Era uma educação finíssima, a melhor educação do Brasil. Além de sentar, não podia cruzar a perna, tinha que sentar assim, sabe? Não podia ficar com a coluna... As aulas eram todas escritas com caneta, a tinta, não podia rasurar. Nós tínhamos que ter uma letra perfeita. Tínhamos que fazer reverência pra Notre Maire, pra, a princesa estudava lá, a filha de D. João, acho que foi D. João ou D. Pedro. Estudava lá, a Maria da Glória. E era um colégio muito rígido. Boa educação, só podia, não podia falar, nós tínhamos aula de etiqueta, tá? Todo mundo sentava com a mãozinha assim. Uma coisa que chamava-se Economia Doméstica, que era a aula mais fútil do mundo. Então, você tinha que saber como que é botava o talher, como é que não botava, o que que fazia, como é que mandava nas empregadas, organização de uma casa. Isso era aos sábados. Mas, em compensação, as freiras eram… hoje as minhas amigas dizem que nós ficamos fazendo reverência, nós nos encontramos até hoje com essa turma do Sion. Mesmo quando a gente faz uns almoços, umas coisas assim. _____ a gente fez reverencia a vida inteira e estamos fazendo reverência até pros filhos agora, né? Porque era, assim, uma coisa muito rígida. Nós andamos na fila com as mãos pra trás, pra ficarmos com as costas retas. Não se podia falar. As aulas eram... Quer dizer, pra você ter uma idéia, a última da classe tinha média geral 8,5. Eu formei no Clássico, média geral 9,9. Eu tenho minhas medalhas lá. Como eu consegui isso, não sei. Todo mundo estudava, era uma competição, assim, e eu, a gente levava essa história muito a sério. Era uma competição muito grande quem era melhor, quem tirava as melhores notas. Não sei se é porque nós não tínhamos o que fazer. Televisão, nem de longe. O cinema era assim, passava uns filmes antigos, quando o rapaz, mocinho, ia beijar a mocinha, a freira botava um pedaço de papel na frente, assim, aí tapava o beijo. Era uma coisa assim. E por outro lado, nos tornou, assim, muito ingênuas, não preparadas para a vida. No sentido de que todo mundo é bom. No princípio, pra mim, todo mundo é bom, todo mundo diz a verdade, não há trapaça, ninguém rouba. Então era a ilha da fantasia. Tinha uma caixa de achados e perdidos que o que todo mundo encontrava, um grampo, colocava lá. E você não pegava o grampo porque como os grampos são todos iguais, você não sabia se era seu ou não. Havia um princípio de honestidade, de palavra. Palavra era uma coisa muito séria. E acho que nós carregamos isso com a gente até hoje. E eu tive muita decepção. Quando eu saí, imagina, eu fui fazer arquitetura e eu levantava assim, na Urca, e dizia assim: "bom dia, professor". E todo mundo morria de rir, às gargalhadas. Eu chegava numa porta, tinha um rapaz beijando uma menina atrás de uma porta. E foi, assim, muito chocante. Foi, assim, foi um impacto muito grande. As minhas colegas também disseram: "o mundo que nós fomos criadas", que era essa ilha da fantasia, porque nós não saíamos do colégio e o mundo aqui fora. Porque nós já pegamos a época do Jango, também. Depois pegamos o golpe militar, né, depois toda essa época. Eu tinha uma amiga, Heleninha Cunha, o pai dela era dono de jornal do... Que jornal era? Um jornal da tarde, mas eu esqueci o nome. Bocaiúva Cunha, ele tinha um jornal. E ela era uma menina totalmente apagada. Um dia, eu vou no DOPS [Departamento de Ordem Política e Social], pra tirar um nada consta, pra eu viajar pro Equador, e descubro que Heleninha Bocaiúva Cunha, aquela coisa magra, inexpressiva, tinha raptado o embaixador da... como é que chama?

P/1- Americano.

R- Americano. E ela era louca. Ela me pediu uma casa, nós tínhamos uma casa em... na Tijuca, foi do meu avô Braz. Eu digo: "Heleninha, eu não tenho casa". E era a casa pra esconder o embaixador. Agora, você imagina a loucura da Heleninha. Como é que chamava? É jornal famosíssimo do pai do Bocaiúva Cunha que depois se casou com a ___________. Ele...

P/1- Não era sócio do Samuel Werner não, né? ____________

R- Não. Era o Bocaiúva Cunha o dono desse jornal. Como é que chamava? Alguma coisa da Tarde.

P/1- Última Hora de São Paulo, Jornal da Tarde, não, Diário da Tarde, né?

R- Será que era, será que era Última Hora? Eu acho que era Última Hora.

P/1- Última Hora era do Samuel Werner, talvez ele fosse sócio.

R- Era do Bocaiúva Cunha.

P/1- Era mais politizado, né?

R- Como?

P/1- Que era mais politizado, era um jornal mais...

R- É. Tinha aquele, também, que era do Carlos Lacerda, como é que chamava? Eu agora estou meio assim.

P/1- Tinha vários, né?

R- Vários jornais. Não era só Jornal do Brasil, O Globo. Não. Eles tinham um jornal que era do Carlos Lacerda, a favor. Jornais, geralmente, seguiam uma linha.

P/1- Jornal da Noite, tinha o Diário da Noite. Não era?

R- Tinha sim.

P/1- Diário da Tarde, Última Hora.

R- Engraçado. Tinha umas coisas, assim, que esse do Bocaiúva, era do Bocaiúva nessa época...

P/1- Diários Associados, que tinha aqui, tinha em São Paulo, que era do Assis Chateaubriand.

R- Não, não era. Era uma coisa, era assim, um dos bons jornais. Mas, só saía à tarde. Porque tinha essa história. O jornal saía de manhã. Tinha o Correio da Manhã, que o meu avô adorava ler. Olha, tinha uma série de jornais. Tinha jornais que só saiam à tarde. Se ele comprava um jornal de manhã, depois saía um anúncio ____ da tarde, era o Jornal da Tarde. Esse Bocaiúva era da tarde. E essa Heleninha, ser inexpressivo, era a mentora do seqüestro. Então, quando eu cheguei lá no DOPS, eu vi uma mulher com cabelo todo assim, digo: "meu Deus, o que que a Heleninha está fazendo aqui?". Ela: "você conhece?". Meu pai me deu o maior cutucão, né? Porque nós temos outra amiga, que é a Lúcia Bonfim, hoje ela está no Marrocos, ela trabalha na diplomacia. Ela disse: "a Heleninha está tão doida, trabalhávamos todas no Jornal do Brasil, inclusive o Gabeira." Que o Gabeira era o maior garanhão, na época. Todo mundo, ele namorava todo mundo. E a Heleninha era apaixonada pelo Gabeira. Dizem que estava o embaixador numa casa em Santa Teresa preso e a Heleninha, de biquíni, tomando sol. Isso ela vigiando o embaixador, né? E toda a polícia de binóculo vendo a Heleninha de biquíni. Eu quase morri de rir, diz que era a coisa, assim, mais idiota. Eu não vi, porque eu fui embora do Brasil em 70. Então, eu peguei 1968, aquela história toda. Os cavalos invadindo a universidade, invadindo a igreja, a... como é que chama? A Candelária. Todo mundo deitado no chão, com as camisetas, né? Então, se a camiseta era verde, você fugia pela rua da Assembléia, se era branca, era pela Sete de Setembro. Uma série de bobagens assim. Aí, meu tio, que era do DOPS, disse assim: "olha, vou te falar uma coisa, hein, da próxima vez, não ________". Uma vez eu fiquei presa, eu tive que sair, olha, eu fiquei até onze da noite, assim, pela Senador Dantas, com aquelas baionetas, assim, eu passando. Aí, meu pai disse: "olha, você tira essa calça jeans, essa camiseta, vista roupa de mulher, se você não quiser parar na prisão, porque vai ser a última vez, quer dizer, que eu te livro". Todo mundo queria uma coisa boa, né? Eu parti de um colégio, sumamente elegante, com pessoas alienadas, pra um meio totalmente maluco, que era salvar o Brasil. Queriam... Não tinha nada a ver porque não salva, as coisas continuaram do jeito que estavam e continuam. Mas, sabe, o pessoal era muito participante na política, né? Todo mundo falava. Isso tinha, também. Reunia, assim, você falou do diálogo, das famílias. Nossa, política era uma coisa discutida, assim, sabe? E todo mundo sabia de tudo, e o filho era contra fulano. Nós éramos mais politizados, havia mais diálogo, havia mais reunião de família. Todo mundo sentava, sabe? Cada um... Um primo queria mandar prender o outro porque estava falando que o Costa e... aquele homem que tem cabeça, esqueci o nome dele. Castelo Branco era anão de porão. Então, era gozado, era uma coisa assim. Isso eu não vejo mais, né? Minhas filhas nunca sentaram depois do jantar pra conversar. Aí. todo mundo liga a televisão ou liga o computador. Por isso que eu falei que eu não tenho e-mail, não tenho mais nada. Vou esperar ficar mais velha pra me hipnotizar, sabe? Enquanto eu tiver perna, eu vou andar. Vou viajar porque eu adoro. Pra Machu Picchu, pra Índia, pra esses lugares assim, eu fico enlouquecida. Quando eu não puder mais andar, eu vou. E aí, eu acho que falta muito isso. O pessoal come correndo. Cada um vai, um vai pro computador, o outro vai conversar com a fulaninha. Celular, então, eu fico irritada, porque toca sem parar, o almoço inteiro, o jantar inteiro. E a pessoa está jantando e está falando no celular. Eu não sou contra nada disso. Eu acho que ficou demais, não sei não, uma opinião minha. E perdeu essa coisa. Fica em casa porque... eu sempre desejei muito essa hora do jantar, pra gente fazer um apanhado do dia. Não consegui, não. Depois as minhas filhas foram. Tanto que minhas filhas, depois que fizeram 21 anos, foram morar sozinhas. Diz que não queriam ser filhas cangurus.

P/1- [risos]. Mas, Maria Lúcia, só pra gente entrar um pouco nessa coisa da sua família, específica. Nesse universo do Sion, você ficou até os 18 anos lá, né?

R- Lá.

P/1- Não teve momentos, assim, de revolução, nessas meninas todas, de _________. Sempre foram super obedientes?

R- Nunca. Não. Super obedientes, o que a freira falava, estava falado. Mas, você não levantava os olhos pra uma freira daquela. Elas tinham tal poder, que eu não sei como é que elas... Bom, tinham tal poder que tiravam a saída, né? Que era a coisa pior do mundo. Você tinha todas as festas. Você imagina, no final, você dizia sábado. Aí, ia pra um cabeleireiro, pra fazer aqueles bolos de noiva e as mechas. Passava o sábado inteiro, que todo mundo ia arrumado pras festas. Pra ir a uma festinha. Olha, no sábado à noite, né? Domingo, você acordava, sua mãe te carregava pra missa. Aí, tinha um almoço da família. E, às três horas da tarde, você tinha que estar na Praça Mauá, subindo no ônibus pra Petrópolis. Olha, aquela subida pra Petrópolis era dolorosa. Todo mundo ia chorando. "Pô, eu queria namorar mais o Fulano". Ou: "aquele rapaz que eu conheci nunca mais eu vou ver". Então ninguém arriscava perder uma saída dessa, não obedecendo às freiras. Então a gente fumava. Ah, tinha a revolução das fumantes. Mas as freiras também fumavam (risos). Depois que eu descobri. Todo mundo fumava. Aquilo era de uma hipocrisia, também, no final. Porque eu era boba, era a mais moça da minha turma. Mas, agora, já soube que tinha uma freira, _____ Helenita, que vivia levando a gente pra passear e comprava maço de cigarro pros trabalhadores do sítio, mas porque ela fumava, entendeu? Então, nós íamos atrás de umas moitas de bambu, que tinha lá, durante o recreio, mas isso já com 17, 18 anos. Fumávamos e comíamos pasta de dente, então o cigarro era _____. Mas nunca houve revolução. Nós aceitávamos isso tudo que as freiras diziam numa boa, tá? Houve muito caso de homossexual... Assim de meninas, né? De lesbianismo, houve, assim, porque as pessoas ficavam tão confinadas ali, né? E as freiras separavam, eram expulsas. A disciplina era muito rígida. E muitas coisas não entendia o porquê. Não entendia, por exemplo: uma vez eu era criança, estava brincando de pique esconde, agarrei numa amiga minha e disse: "te peguei". Pronto. A freira botou uma pra lá, outra pra cá. Depois, anos mais tarde, que eu fui descobrir o que que a freira andava pensando com aquele “te peguei”, entendeu? Muita maldade, mas só na cabeça delas, a gente era gente fina. Éramos bobas demais

P/1- E nessas festas que vocês iam, esse lazer esporádico, de sábado, assim, como que eram, pra paquerar, adolescentes, pra tirar uma linha, fazer um footing? O que que acontecia? Como vocês se vestiam?

R- Bom, a gente ia, “produzidíssimas”, né, com aqueles cabelos. Cada qual produzida, cada qual querendo ser a mais chique, a mais bem vestida. E era, geralmente, festas em casas de famílias, né? E aí nós não tínhamos acesso, assim, ao sexo masculino. Então, nessas festas, a gente conhecia alguém que não conhecia. Porque os primos dos primos convidavam, entendeu? Você não conseguia namorar, porque você, quando voltava dali a um mês, a pessoa já estava namorando outra que não era interna, né... Ou, então, nas missas do Forte de Copacabana, sabe? Tinha muito essa história. Então, a gente saía, e era uma coisa assim, ficava olhando, olhando, aí tirava pra dançar e dançava. Não podia dançar mais de duas músicas porque era compromisso. Então, se você ficasse, acabasse a música, você continuasse conversando e a pessoa, sabe? Como é que chama? Dançasse a segunda, já todo mundo olhava: "ih, ó, acho que vai dar namoro”. Então, essas histórias todas. Mas não havia nenhum tipo de intimidade, sabe? Beijo era uma coisa, assim... Pra nós! Pra nós que vivíamos internos. Pra nós. Porque já, depois da história de 1960, com a pílula. Minha irmã tinha um namoro totalmente livre. Coisa que eu não tinha. Minha mãe dizia assim: "não se deixe usar pelos homens". Entendeu? "Um homem não pode usar uma mulher, porque ele não está querendo nada com você, apenas te usar." Usava um termo horrível, dizia assim: "está te usando como uma privada". Eu tinha pavor, entendeu? Então, botava as coisas em um, o sexo em um grau tão, assim, baixo, que você já ficava... Eu me lembro. Eu me casei com 26 anos, virgem. Imagina. A minha irmã, com 18 anos, já estava aí, dando os pulinhos dela, pra baixo e para cima e se enchendo de pílula. E eu fiquei tão, assim, traumatizada que, quando eu descobri pílula na bolsa da minha filha mais velha, com 17 anos... Mãe gosta de ser enganada, né? Eu tive um ataque. Eu desmaiei. Eu falei: "eu não acredito". Ela falou: "mamãe, pega não sei o quê na minha bolsa". Aí, eu vi e fiquei dura. Olha como essa história marcou a minha vida de... Aí, meu marido entrou e a minha filha disse: "mãe, não são minhas, é da Bete, que eu estou guardando". E eu quis acreditar. Quer dizer, você guarda um ranço muito grande da educação. Eu acho que esse ranço, que eu guardo, não é da época do meu avô, da minha avó, que sempre foram _______, é do colégio das freiras. É das freiras, entendeu? Porque, por exemplo, de não admitir mulher separada, de... sei lá, até hoje, eu tenho amigas minhas que os maridos se mandaram. Elas assim: "gente, a gente tenta, até tenta". Olha como essa coisa traumatiza. Diz que quem fez, estudou no Sion, tem que fazer, se eu estudei 18 anos, tem que fazer o triplo de análise. Porque foram mulheres separadas com 32 anos, que nunca conseguiram nem namorar. Porque existe alguma coisa dentro e isso eu encontro em mim também, que diz não. A gente não se sente bem. Olha que coisa engraçada. Por mais que racionalmente diga: "é bobagem, hoje o mundo mudou". Além de eu não me sentir bem, eu acho que eu sou até uma pessoa, assim, um pouco, sei lá, crítica com as pessoas que têm, assim, muitos namorados, que casam muitas vezes. Eu digo: “eu não conseguiria”. Entendeu? Então eu acho que isso eu devo muito ao colégio. Eu tenho uma amiga que ficou viúva. É uma mulher linda, Teresa. Ficou viúva com 50 anos. Ela disse: "Deus me livre, marido é um só pra vida inteira". Quer dizer, isso é uma coisa que acho que todas nós trouxemos do colégio. Que não foi legal, entendeu? Não foi legal. Eu acho que podou muito essa parte da sensualidade, pra gente foi muito difícil, assim, quando nós nos encontramos, conversamos essa parte, assim, do casamento, entendeu? De você ter que ficar lá, dura igual a um pau, entendeu? Não mostrar que você também gostaria de certas coisas. Se liberar. Foi um trabalho forte, eu acho. Isso foi uma história muito grande que nós tivemos no colégio. Porque o sexo sempre era pintado, pelas freiras, como uma coisa suja. Suja. Nós éramos usadas. Um homem não queria nada com uma mulher. Não existia uma gota de amor, tá, no sexo. O homem só queria extravasar os seus instintos mais baixos. Era, quer dizer, _______. Então, você, como uma pessoa de amor próprio: "não, eu não estou aqui pra deixar homem extravasar seus instintos mais baixos". E eu achava... eu me lembro que uma amiga minha, quando casou, disse: "Maria Lucia, a parte mais triste do casamento é a hora da cama, né?”. Eu falei: "é?". Ela falou: "é horrível, a gente tem que agüentar aquele homem, não poder abrir a boca". Aí, quando eu casei, eu falei: "eu sou louca, deve estar acontecendo alguma coisa errada comigo, porque eu estou achando bom." Entendeu? Pra você ver como eram as coisas. Era nesse esquema. Ela estava tão pior do que eu. Ela tinha tanto santo pra beijar no sutiã, que nós, quando dormimos juntas, eu digo: "ih, meu Deus do céu, não vai dar certo no casamento, se ela for beijar tanto santo, nessas medalhas, que o homem vai até dormir, né?". Ela achava horrível.

(Interrupção na gravação)


P/1- Bom, Maria Lucia, você estava falando desses ambientes que você freqüentou, né? Desses momentos que vocês podiam sair, as festas, que vocês super se produziam...

R- Gastávamos a maior parte nos produzindo, que o tempo de lazer, né? Porque as festas eram assim, começavam oito horas e meia noite, estourando, tinha acabado tudo. Tinha, assim, algumas festas no Monte Líbano, que eram bailes. Mas, a gente nunca ia sozinha. Sempre ia um irmão, um primo, alguém, não... E ele levava: "com quem vocês vão?". Então, sempre tinha um responsável pela história, né? Então, nunca havia essa liberdade, você sair sozinha, os namoros eram su... pelo menos no meu caso, eu estou falando de mim, eram vigiados. Eu ia casar, meus pais já eram separados, e eu ia casar em março, e meu pai foi visitar minha mãe, eram nove horas da noite, estava sentada na sala com todas as portas abertas, e a mamãe se deitou. Foi ver televisão, deu uma cochilada. Quer dizer, qualquer pessoa poderia chegar ali, né? Meu pai foi lá, passou, dois meses antes do meu casamento, acordou mamãe e disse assim: "escuta, já começou a entregar Maria Lucia pros homens antes da hora?". Então eu tive esse tipo de educação, por parte dos meus pais. E acredito, minhas amigas todas. Porque a gente comenta, assim, agora que nós nos reunimos, né? A gente sempre se reúne, a gente sempre se dá. Acho que foi a única turma do Sion. Nós tivemos uma história de vida juntos. Então, a maior parte já perdeu irmão, perdeu os pais, então nós nos reunimos, nós somos agora mais unidas. Porque houve uma época que a gente se distanciou porque estava criando filhos, agora nós perdemos o emprego, como diz uma amiga minha. Umas ficaram viúvas, outras se separaram, os filhos cresceram. Então, a gente se reúne sempre. Então, nos papos todos, de forma geral, é como sempre havia, assim, uma solteirona cuidando da gente. Uma tal Tia Maria, que ia atrás da gente o tempo todo. Não havia esse espaço, assim, pro namoro. E a própria, o meio que nós fomos criadas no colégio, você se sentia mal. Sua autoestima não te deixava fazer uma série de atitudes, entendeu? Porque você dizia assim: "eu não quero ser usada". Nós tomamos isso, assim, pra qualquer relacionamento antes do casamento, como o homem está nos usando, entendeu? E não que pudesse ser uma coisa que pintou o amor e deixou rolar. E, todas nós, acho que foi uma coisa  muito marcante, essa história na vida de todo mundo. Nessa faixa. Eu formei em 1963, no Sion, né? E foi uma coisa assim. Então, era a coisa mais pura do mundo, era uma bobagem, era aquele negócio de dançar. De vez em quando, o rapaz dava assim, roubava um beijo. Era umas besteiras.

P/2- E apesar de ter vivido no internato, né, durante esse tempo, você teve uma vivência de Petrópolis? Que é uma cidade muito particular, né?

R- Nunca. Eu não conheço Petrópolis. Eu não conheço Petrópolis. Eu vivi 13 anos em Petrópolis, e dizer assim, eu conheço o D' ngelo, a Confeitaria D' ngelo, que meu pai me tirava. Porque no primário a gente não podia sair. Como meu pai estava no interior até eu fazer 11 anos, eu às vezes saía cada 3 meses. Então, ia lá, e havia uma pizzaria, uma casa de massas italiana, Fasano. Acho que era Fasano. Não me lembro bem o nome. E almoçávamos. Só isso e o Museu Imperial. Então, nunca conheci Petrópolis. Porque Petrópolis pra mim era chegar na rodoviária, pegar o ônibus e vir pro Rio. Então, não tenho... E, aliás, durante muito tempo, eu não quis nem voltar a Petrópolis. A minha irmã tinha horror, porque Petrópolis significava prisão, significava obediência cega e total às freiras, entendeu? E uma série de coisas. Eu patinava muito bem. Então, todo mundo ri, porque diz que quando eu patinava, eu tenho uma coisa assim, eu abria a minha alma. Então eu me imaginava em Hollywood, com Gregory Peck, patinando, com milhões de holofotes em cima de mim. Então, diz que eu virava o cabelo, sempre patinei muito bem, rodopiava. Então, eu fugia na fantasia, deu pra entender? Quando a realidade ficava tão dura, no recreio não podia falar. Então, eu patinava, e todas as minhas colegas, hoje, ri. Eu rodopiava, mas eu não estava nem ali, eu ultrapassava os muros do colégio, tá? Eu estava em outro lugar. E acho que muita gente deveria fazer isso. Então, eu ía, voltava, e me imaginava uma grande atriz, aquela história toda, né? Então, ajudava a levar, quer dizer, uma loucura, né?

P/1- E nessas suas idas ao Rio, né, que a sua família estava lá, você tinha contato com outras realidades diferentes da sua?

R- Não. Como papai diz, cada macaco no seu galho, né? Então, todo mundo era rico, todo mundo era bem de vida. A gente só saía com as pessoas do nosso nível, tá? Mas isso não era dito. Pior que não era dito. Então, você saía com a sua amiguinha, filha do Fulano, do Beltrano e do Sicrano. Nós não tínhamos acesso a nada que não fosse daquela, de uma faixa social, deu pra você entender? E as empregadas. Mas as empregadas eram empregadas, né, que a gente morria de pena. A gente tinha muita pena. Mas que foram criadas pra servir, fazer o quê? Então, é triste, mas era a maneira que a gente via as coisas. Eu, por exemplo, era amicíssima das empregadas, contava caso. E hoje eu penso, que crueldade, né, uma pessoa igual a mim, eu dar a minha roupa usada, meus sapatos, entendeu? Porque o pagamento, praticamente, era em forma de dar as coisas. A minha avó, a minha mãe, pegavam meninas pra criar. E eu penso assim: elas deviam ter sonhos. Agora mais velha, penso eu. Mas, na época, era tão natural eu usar uma blusa, compro uma blusa, mas lelé da cuca, usar duas vezes, dar pra outra pessoa e achar que ela tinha que ser muito grata. Porque elas não tinham salário. Salário era muito pouco pra elas comprarem. Então, as empregadas: "ah, muito obrigada, muito obrigada". Sapatos usados. Hoje eu questiono muito essa história. Porque eu digo: “pôxa, se eu tinha ilusões, se eu tinha sonhos, se eu queria me vestir com o melhor, não é? Elas também deveriam querer ter um dinheiro pra ir numa loja comprar uma roupa, pelo menos, nova, pra ser posta pela primeira vez”. Tanto que hoje eu brinco muito com a minha manicure, porque eu nunca dou gorjeta, nunca dou nada. Então ela disse assim, pra mim: "por que que a senhora não dá?". Digo: "Porque eu não dou esmola. Quando eu puder, eu vou, te compro um presente, na loja, e vou te dar". Aí, ela disse assim, que você vai ser a primeira pessoa a usar. Então, há pouco tempo, eu dei uma sandália pra ela. Porque eu me questionei muito isso depois, nessa segunda fase minha, assim, mais velha, pensando na vida, que a gente começa a rever as coisas sob outro ângulo. E eu digo assim: "mas, espera aí, a Maura, ela tinha 16 anos, ela devia ter, não interessa que ela foi criada pela minha mãe, não interessa que ela foi criada desde os 5 anos". Que a mamãe pegava aquelas criaturas, botava numa bacia no quintal, matava os piolhos, cortava o cabelo, dava vestidos meus, entendeu? Pra ser usado, que nós tínhamos a mesma idade. Faço idéia a revolta que a pessoa devia sentir. Ou será que ela se acomodava com aquela situação? Aí, fico me questionando, entendeu? O prazer que eu sentia de me dar as coisas, quando pessoas da minha idade não tinham um salário pra ir lá comprar. Quer dizer, uma blusa, que não seja da, era lelé da cuca, era o must aquela época dos hippies e tudo. Era uma loucura. Mas vamos dizer que fosse uma blusinha nova na feira, mas comprada por ela, com gosto dela, entendeu? Não tinha essa... Fico pensando, isso era muito cruel, sabia? E eu fico pensando assim. E, por isso que você falou. Eu não questionava. Pobre, pra mim, tinha Fusca, geladeira e, assim, um pouquinho de dinheiro no banco. Eu nunca pensei em favela. Favela, pra mim, era uma coisa abstrata, entendeu? Nunca pensei. Não sei se é porque não se falava tanto, né? Não sei você, eu não tinha contato com a pobreza. Nós não tínhamos contato com a pobreza. Eram os motoristas, as festas, as festas das embaixadas, entendeu? Eu não sei porque que a pobreza nunca foi uma coisa gritante, assim, na minha vida. Na fazenda, tinha milhões de empregados. O meu avô sempre foi muito farto, todo mundo comia muito bem, comprava aqueles vestidinhos de chita. E as próprias pessoas, eu acho que naquela época, não tinha, assim, grandes... não sei. Não se sentiam, assim, como gente, deu pra entender? Com direito a certas coisas. E o assunto triste, hoje eu vendo, eu me acho até cruel de ter feito uma coisa dessa. Porque eu digo: "puxa vida, todos os meus sonhos, né, minha sandália do Nunes". Custava uma fortuna mandar fazer uma sandália no Nunes, que era ali no final de Ipanema. Nossa! Meus mocassins do Motinha, nossa. E dava, assim, quando não usava mais, né? Nunca aquela mulher ou aquelas mulheres puderam ter nada delas, assim, tudo já foi de segunda mão, né? E isso foi uma coisa assim. Não tínhamos... Olha, você agora me chamou a atenção num ponto: eu não via pobre. Não via. Não via miséria, não via favela, não via nada. Também, não tinha muito tempo pra ver, né? Passei a minha vida toda prisioneira. Vinha pras festas, voltava. Depois eu saí em 1963, fui fazer faculdade, arquitetura. Acabei não formando, porque o meu marido ganhou uma bolsa de estudos pros Estados Unidos, pra fazer pós-graduação. E quem teve que abrir a mão da faculdade fui eu. Porque ou eu casava ou ficava. E aí, depois, quando eu quis voltar, eu já voltei 5 anos depois e fui fazer outras coisas da vida.

P/1- E como foi que você escolheu a faculdade de Arquitetura?

R- Você sabe que foi estranho? Porque eu sempre gostei muito de casa, de decoração. Eu, desde pequena, tive assim, na minha própria casa, eu gostava de mudar os móveis de lugar. Acho que a gente já nasce com essa história, né? De fazer plantas, sabe? Eu via aquelas revistas americanas. Aí, eu vi, digo: "mas que bonito essa lareira". Aí, desenhava. E fazia essa história toda. E quando eu formei, meu pai queria que eu fosse dentista ou médica. E foi uma forma de contestar... de... Queria ser contra meu pai, falei: "não vou ser dentista, nem médica, não quero nada disso". Aí, resolvi fazer, vou fazer aquele negócio, aquele negócio que é de casa, aquilo que tem casa. É, arquitetura. Eu não queria parte de engenharia. Eu queria era parte da beleza, do funcionamento da casa. Era, assim, quase uma decoração, quase se fosse decoração, arquitetura de interiores, né? E eu gostei bastante. Fui colega da Solange Medina, da Julinha Serrado, que hoje estão aí, bombando, né? E eu larguei isso tudo. Enfim...

P/1- E como é que foram esses seus anos de faculdade? Que tipo de universitária você foi?

R- Bom, eu sempre fui muito boa aluna, tá? Até ri, que eu encontrei com a Solange numa dessas casas, na Casa Cor, que a Solange bota almofadas de seda pura pra piscina. Eu digo: "Solange, você lembra do Del Negro, que falava que você só fazia é... decora...arquitetura". Que agora ela faz decoração, né? Porque ela deixou e partiu pra decoração. Ela também não formou. E ela dizia pra tirar fotografia, porque não funciona. Aí, ela morreu de rir, falou assim: "mas você era brilhante né?". Você era brilhante o quê? Eu nunca consegui. Ninguém consegue me explicar como eu, sendo brilhante, segundo os professores, eu tenha abandonado. Eu tenho umas coisas na minha vida, assim. Eu tenho umas sabotagens que eu fiz comigo mesmo que eu não entendo. Eu não sei o porquê eu fiz. Porque ele dizia assim: "Solange, você só serve pra tirar fotografia". Porque não vai botar almofada de seda pura em piscina. Eu falei: "e você continua igual, né?". Ela morreu de rir, quando teve a Casa Cor em São Conrado. E, não sei o porquê, mas era assim, eu gostava do meu marido, eu tinha sido noiva de um rapaz antes, que eu gostava muito, mas não era do nosso nível. Então, não deu pra casar. Depois, eu conheci meu marido, que foi um amor mais calmo, mais racional, entendeu?

P/1- Você conheceu ele aonde?

R- Faculdade.

P/1- Ele fazia faculdade com você?

R- A faculdade. O outro também, na faculdade. Os dois. Então, eu achei que eu ia me dar bem. Então, foi um casamento mais com cabeça, tá? Um casamento, assim, sabendo que é uma pessoa que a gente tem muita afinidade. Nós gostamos das mesmas coisas. Ele é arquiteto. Por exemplo, quando a gente ia fazer a nossa casa, tínhamos pouco dinheiro, moramos nos Estados Unidos. Então, a gente fazia qualquer besteirinha, assim, aí saímos da casa e abrimos de novo, pra ver o impacto que ia dar a arrumação dos móveis, né? Então, foi uma coisa muito legal. Ele é uma pessoa muito boa. Não foi, assim, o amor da minha vida, mas também não sei se o outro teria sido, né? Porque os grandes amores são aqueles que a gente não chega até o final com eles, né?

P/1- E você chegou, esse primeiro namorado que você teve, foi durante muito tempo? Esse namorado, esse noivo, que você teve antes do seu marido, foi logo no começo da faculdade? Como que foi isso?

R- Foi, no primeiro ano de faculdade. No primeiro ano de faculdade, ah, tem uma história muito estranha. Antes ... eu sempre fui noiva. E foi a coisa mais engraçada do mundo. Porque nós estávamos fazendo uma viagem à Europa, depois que formei no Sion, aí conheci um argentino no navio. E aí, acabei ficando noiva do argentino. Ficamos noivos e aquele namoro, mas eu ainda estava no colégio, ainda estava nos três últimos anos. Eu tinha 16 anos. Eu achava um barato usar aliança. E o argentino fazia tudo o que eu queria. Aí, eu digo: "ah, eu quero uma, uma aliança de brilhante, da Amsterdã _____" ou alguma loja dessas, não da Natan. Natan tinha naquela época. Não, (Krauss?), (Krauss?) da ____________, joalheria famosíssima, na esquina de Santa Clara. E o argentino comprou. O argentino tão louco que me deu. Aí, não pediu licença a ninguém, fiquei noiva com 16 anos, e achava um barato. Saía mostrando pra todas as minhas colegas, assim, a aliança, no colégio, era: ("ah, tá?"?) E tudo ia muito bem, ia casar com o argentino que era do nosso nível, tá? O pai dele  tinha uma fábrica de ________ e arandelas, em Buenos Aires. E estava a família toda super feliz. Aí, eu fui, como essas coisas estranhas da vida, no primeiro, no terceiro mês, no primeiro mês de faculdade, eu fui correndo, porque eu tinha uma prova e esqueci a aliança em cima da pia. E aí, esse rapaz estava no último ano, no sétimo andar. As meninas falaram: "ah, vamos pro sétimo andar, pra conseguir marido". Porque o negócio de entrar pra faculdade, também, era pra conseguir marido. Digo: "ah, eu sou noiva, quero conseguir marido nada". Aí fomos pra lá, né? Aí, ele saiu da sala de aula e disse: "que bagunça é essa?". Aí falei: "O senhor me desculpe, viu? Nós estamos fazendo barulho". Mas ele estava gozando. E, olha, tão boba que eu não sentia, assim: "senhor, me desculpe". Aí, ele ficou encantado, me achou assim: "nossa, que...", ele brincando, "que tesouro, essa menina não existe; pedir desculpa porque achou que, realmente, estava dando uma bronca, né?". E aí, começamos a namorar. O argentino na Argentina, e a noiva do argentino e ele, aqui. E a minha mãe fechando os olhos, e ele passando como amigo do meu irmão, aquela história toda. Só que eu comecei a ficar apaixonada por ele. E essa história toda, e aí ele não era do nosso nível, ele era peruano. A família dele era pobre, aquela história toda e pãrãrãpã. E a família toda foi contra, e eu era menor de idade. Ele foi embora pro Peru. Hoje nós somos grandes amigos, a gente sempre fala, ele nunca casou, e a gente sempre ri, né, porque diz assim: "meu marido morre de ciúmes". Ele disse: "olha, nunca encontrei uma mulher tão louca quanto você, por isso que eu nunca casei". Mentira. Ele nunca quis casar. E aí, depois, ele foi, eu sofri muito, aquela história toda. Mamãe sabotava os porteiros pra queimar carta. Sabotava, desculpe. Comprava os porteiros. Toda a vez que chegava as cartas do Peru, minha mãe queimava. Então, a gente não tinha muita comunicação, assim, pro exterior, como hoje, você pega o telefone e fala com a pessoa, manda um e-mail.
Era uma coisa louca, você sentava, queria falar com algum país, pedia à telefonista. Ficava todo mundo sentado, esperando, até completar a ligação. Era um horror, não é? E aí, ficava, não podia sair de casa, até a ligação ser completada. E aí, a gente acabou, nós nos vimos depois, 21 anos depois, num aeroporto, em Lima. Eu, indo pra França, trocando de avião em Lima, porque, essas coisas, por isso que eu falo que tem certas coisas na minha vida que o kardecismo explica, que eu fui descobrir que a mamãe tinha escrito uma carta pra ele, dizendo que eu já tinha outro namorado, uma série de coisas. No aeroporto. Ele foi deixar um amigo e eu, que nem tinha nada a ver com a história, acabei me encontrando, e a história toda se desfez, sabe? Porque a gente começou a conversar e saber que houve uma pequena trama ali. E, depois, nos tornamos amigos. E ele sempre liga, eu ligo pra ele. Meu marido morre de raiva, mas é um amigão. Ele está no lugar do meu irmão, agora. Ele era amicíssimo do meu irmão. E, depois, casei. Depois, na faculdade, mesmo, ele estava no último ano, ele formou. Nós fomos namorados dois anos. Aí, a gente tinha uma aliancinha, assim, comprada, de ouro, bem baratinha, sabe? Aí, terminei com o argentino. Aí, conheci meu marido, e a minha mãe não queria porque também era estrangeiro, mas era filho do cônsul. A família do meu marido é Montalvo. Montalvo foi um grande escritor do Equador, foi um dos _______, que eles chamam, da Independência contra García Moreno. E, já a família do meu marido tinha nome. Aí, eu disse: "olha, se eu não casar com ele, eu vou descer, fazer assim primeiro com um cara, assim, a primeira coisa que eu encontrar, o primeiro que eu encontrar, eu vou pra cama". Aí, minha família achou que eu já tinha 25 anos e era doida o suficiente pra isso, né? E aí, pronto, aí casamos. E deu muito certo. Mas o outro, também, foi uma fantasia, né? Porque eu não sei se teria dado certo. A gente tem uma afinidade muito grande de papo, mas não sei.

P/1- Maria Lucia, e como que era, assim, o ambiente cultural da sua época de faculdade? Que que você freqüentava?

R- Era péssimo. O cultural? Não, tinha a oficina, tinha opinião, tinha...

P/1- Então, que que você fazia?

R- ...os teatros, tinha as coisas. Eu não entendi bem a sua pergunta. Porque havia muita liberdade. Você chegava na sala e, se você não batesse, tinha um pessoal transando em cima da mesa. E aquilo me chocava muito, pessoal dizia palavrão, então era um ambiente totalmente diferente do que eu fui criada. Não tinha uma colega minha naquela história, entendeu? Mas o pessoal fazia muito teatro, nós sentávamos no chão, tinha aquela história de paz e amor, rolava muita maconha. Eu, por acaso, nunca fumei maconha, mas rolava muita maconha. O pessoal era muito, assim, lia muito, entendeu? Era mais intelectualizado, mais participante e muito criativo. E havia esses movimentos de teatro, começou a surgir a bossa nova, aí tinha as reuniões na casa da Nara Leão, que era ali em Ipanema, no final de Copacabana, né? Mas, muitas dessas coisas eu não participei porque a minha mãe não me deixava, não era ambiente pra mim, tá? Então, eu não tinha uma participação muito ativa nessa vida de faculdade. Quando o pessoal ia estudar lá em casa, a gente pegava, sentava, assim, no sofá e ficava a noite inteira olhando pra cara da gente. Porque todo mundo tinha que estudar na minha casa, não podia ir pra casa de ninguém estudar. Porque as meninas não eram confiáveis, e muito menos os rapazes, né? Quando um rapaz se oferecia pra me dar aula, dar aula porque eu estava com problema de desenho geométrico, eu estava com problemas. Meu pai disse: "esse rapaz vai te dar aula a troco de quê?". Eu digo: "porque ele é meu amigo de faculdade, papai, ele é até noivo". "Ah, um noivo querendo te dar aula. Ah, não. Tem alguma coisa errada nisso. Ele quer se aproveitar de você." Então, era, assim, umas mentes poluídas, né? Então, eu falei na maior inocência: "pôxa, papai, ele é até noivo, não quer nada comigo". Aí, meu pai disse: "É pior. Ele é noivo. Quer te dar aula, de graça? Então alguma coisa, aí, tem". Então era uma coisa muito... eu não posso falar muito desse ambiente de faculdade porque eu não freqüentei.

P/1- E você casou em que ano e onde?

R- 1970.

P/1- Você casou onde?

R- Casei na embaixada do Equador porque meu marido é equatoriano e meu pai sempre tinha todas as vírgulas... no Equador já existia o divórcio. E se eu fosse morar em qualquer país do mundo, papai queria um país que pudesse haver divórcio. E casei aqui, foi a segunda pessoa, eu e a filha do Fontoura que casamos aqui nessa Igreja Santa Inês. O meu casamento foi uma beleza. O Guilherme Guimarães fez o vestido e era uma coisa, assim, de louco. Imagina, um vestido curto. Curto, não. Comprido, mas sem cauda. Véu curto. E a Igreja era toda enfeitada com uvas e aqui na minha cintura, mamãe caiu dura, tinha uma faixa verde musgo e grená amarrando. Mamãe caiu dura. "Não aceito, não aceito, não aceito. Noiva com cores". Mas é pra combinar com as uvas da Igreja, né? Então foi uma coisa, assim, de louco. Dia 9 de março de 1970.

P/1- E você casou e foi morar nos Estados Unidos?

R- Não. Eu casei. E aí, o meu sogro era cônsul do Equador no Brasil. Foi aí que eu conheci meu marido. Ele estava nos Estados Unidos. Aí, meu marido conseguiu pro meu marido fazer um curso nos Estados Unidos. Ainda não era pós-graduação, um curso nos Estados Unidos. Aí, nós fomos fazer e ficamos um ano nos Estados Unidos. Aí, meu sogro teve um câncer e o médico disse que ele ia durar só 5 meses. Aí, partimos para o Equador. Dos 5 meses, ficamos 5 anos morando no Equador e foi um choque. Aquilo foi um choque na minha vida. Nossa. Foi uma época, assim, terrível porque era um país sumamente atrasado, eram as mulheres de um lado, os homens do outro, uma bebedeira, uma coisa horrorosa. Você pegava, assim, o pessoal te dava uma garrafa de uísque na entrada. Eu não estava acostumada com isso. Pegava outra na saída. Então, como eu era brasileira e detestava conversar com as mulheres, porque eu achava que não tinham nada pra me dizer, ia conversar com os homens. As mulheres achavam que eu era brasileira leviana, né, e outras palavras mais, né? Então foi uma época, olha, quando eu consegui me livrar do Equador, eu dei graças a Deus. Eu voltei pro Brasil. Meu sogro morreu em novembro. Aí, nós ainda ficamos uma temporada, meu marido tinha uma firma lá, eu digo: "ah, eu não agüento mais". Quando eu cheguei em Quito, tinha boi no meio da rua. Andando, assim, pastando. Eu nunca tinha visto aquilo na minha vida. Era um atraso aqueles ônibus de pau, as mulheres entravam porque não tinha dinheiro, né? Entrava com aquele peru debaixo do braço, aquelas índias. Aí, assim, “tic tic tic” era o peru querendo comer, eu tinha rabo de cavalo, com aquelas bolinhas, o peru... Então, era um choque, assim, foi um choque na minha vida, tremendo. Morava num edifício ótimo, porteiro eletrônico. O Equador, socialmente, em leis, era muito mais adiantado que o Brasil, porque lá já a minha empregada ganhava décimo terceiro, já tinha carteira assinada, tinha divórcio, tinha uma série de coisas. Mas é, assim, as pessoas muito atrasadas. Quando meu sogro morreu, tive que ficar um ano de preto, coisa que eu não fiquei nem pelo meu avô. Então foi, assim, uma coisa horrível. Eu cheguei no enterro, né? Três dias pra enterrar porque faz frio, né? Teve tanta missa, tanta coisa, digo: "quando é que vai ter esse enterro?". Nunca mais que enterravam. Eu tinha um lenço __________ que eu estava usando, preto e branco. Aí, todo mundo me olhou  assim. Eu falei: "Ué, agora o que que eu estou? Porque eu estou de meia preta, sapato preto, toda com tailleur preto, que que eu tenho de diferente?". Era o tal lenço preto e branco na cabeça. Muito, foi uma época muito triste da minha vida. Não gostei. Eu não soube aproveitar, eu não soube  entender o país. Não aceitei. Passei 4 anos e meio questionando, brigando com todo mundo, entendeu? Chamando as mulheres de atrasadas e aquele machismo todo. Olha, foi assim... A minha primeira filha é equatoriana, não tem a mínima saudade. Eu tomei horror. E a minha irmã casou com um equatoriano, primo do meu marido, também. Casou duas vezes no Equador. Agora, a terceira vez, ela casou com um brasileiro. Minhas sobrinhas moram em Quito, e eu não tenho, assim, boas lembranças dessa época, não.

P/1- Você nunca trabalhou fora?

R- Trabalhei.

P/1- Com que você trabalhou?

R- Eu dava aula no IBEU [Instituto Brasil Estados Unidos]. Depois que eu voltei, eu comecei a dar aula no IBEU. Lá no Equador, eu não tinha condição, porque eu tenho até minha carteira de identidade analfabeta. É uma carteira de identidade amarela. Não conseguia fazer amizade porque eu não conseguia conversar com as pessoas. As pessoas tinham umas idéias tão... sei lá, pequenininhas. Eu não conseguia falar, falavam só de filhos, de casa, aceitavam o marido ter duas famílias. Aceitavam uma série de coisas que eu não aceitava, aquilo pra mim era uma coisa, assim, muito doida. O marido falava, calava a boca. E o peito do frango era, uma vez eu estava assim, né? Aí, estava com vontade de comer o peito, eu fui lá e botei pra mim, né? Quando eu botei pra mim, todo mundo caiu duro: "você não vai dar pro seu marido?". Eu digo: "porque que eu vou dar pra ele, eu estou com vontade". Então, eu estava até grávida. Então, foi uma época, assim, que eu poderia, eu acho agora, que eu podia ter usufruído mais do Equador, se eu fosse mais dócil. Imagina, criada no colégio de freira, com os pais assim, ali em cima. De repente, eu me rebelei contra aquilo tudo. Depois que eu casei, então, eu virei uma pessoa que só eu mandava na minha vida, porque eu nunca tinha tido a chave da minha casa. Então, eu fiquei uma pessoa muito assim, sabe? Eu penso assim, dane-se quem não pensa. E até hoje, eu acho que eu sou muito radical, eu sou muito... eu acho que eu sou, até, muito invasora. Então, se não pensa igual a mim, está errado. Minhas filhas é que dizem: "mamãe, se não pensa igual a você, está errado". Porque eu sou muito, eu comecei a questionar muito, sabia? Depois que eu voltei do Equador, eu comecei a questionar muito. Por que que eu tenho que aceitar isso? Por que que essas mulheres tem que ter, aceitar o marido ter duas famílias? Por que que o marido tem amante e essas idiotas não abrem a boca? Quase que eu fiz uma revolução lá, entre as mulheres casadas. Então, foi uma época que tinha nada a ver comigo. Depois eu voltei, fui ao Peru, fui a Machu Picchu, fui toda aquela civilização inca: "ai, eu podia ter aproveitado no Equador". Meu marido dizia assim: "Em Roma, viva como os romanos". Mas, pra mim era sumamente difícil, televisão era preto e branco, tinha umas coisas, uns programas horrorosos. Eu não sei porque eu tive, assim, de frente eu bati contra o Equador, entendeu? Eu chorava. Tanto que uma vez eu fui ver o Tarcísio Meira, um filme do Tarcísio Meira, num pulgueiro. E o Tarcísio Meira falava inglês, ai meu Deus, eu fiquei... Cangaceiros não sei o quê. Eu chorava. Eu só queria vir embora. Eu nunca me conformei de morar no Equador. Eu fiquei o tempo todo que o meu sogro ficou doente. Era assim, e as pessoas, acho que pela própria, eles foram muito dominados pelos espanhóis, né? Então, eles querem ser espanhóis. Ninguém, todo mundo com cara de índio, então tem aquelas touradas, as mulheres se vestem de espanholas, botam aqueles negócios na cabeça. Então, eu digo: "vocês são muito amiguinhos de quem escravizou vocês tanto, né?". Porque eles não são amigos dos índios, eles são amigos dos invasores, que, no caso, seriam os espanhóis. E a gente não. Conta piada dos portugueses. Eu posso falar que o meu avô era português, né? Eles não. Ele tem loucura pra ser espanhóis. Eles levam, assim, uma vida, como se morasse na Espanha, entendeu? Eles não são muito... Agora, eles estão mais voltados pras raízes. Mas, na época que eu morei lá, não. São só... Falava os cholos. Os cholos eram as pessoas que eles não consideravam puríssimos, né? Às vezes, aparecia um lá, de olho azul, falavam assim pra mim: "nós não nos mesclamos". Quer dizer, nós não nos misturamos. Então, eram pessoas que tinham vindo da Espanha, só casado com pessoas... Quer dizer, assim, uma coisa. Por exemplo, rico, lá no Equador, era o rico que mandava o filho estudar em Miami. E o pobre era o miserável. Aí, eu senti o desnível grande. Nessa época eu senti. Por exemplo, a minha empregada, ela tinha que andar dois passos atrás de mim. Era minha melhor amiga. Ela aprendeu português e cantava música da Maria Bethânia. Então, ela falava português. Quando minhas amigas brasileiras iam me visitar e contavam uma piada, ela ria. Vilma. Somos amigas até hoje. Ela foi minha empregada o tempo todo que eu estive lá. E ela, por exemplo, um dia eu dei uma sombrinha, talvez eu tenha tomado mais consciência, ela veio na chuva, porque ela não podia entrar debaixo da sombrinha com a minha filha, que tinha que ser chamada de senhorita Daniela, com 2 anos de idade. Eu: "Vilma, você ficou maluca? Por que que você está toda molhada e a Daniela está sequinha?". "Senhora, eu não posso entrar embaixo da mesma sombrinha que a senhorita Daniela." Olha que coisa louca. "Mas por que, Vilma?". "Senhora, não faça isso, eles vão dizer que a senhora não tem educação. Eu não posso me portar da maneira que a senhora quer, na frente das visitas." Então, dizia: "ô, Vilmita, vem cá e tudo, toma um chocolate". Não podia falar na frente das visitas. Ela tinha que ser tratada como um capacho, ali se tratava as empregadas como capacho. E acho que aí que eu comecei a questionar, também, a história das empregadas que mamãe criava, que não tinham sua roupinha nova, entendeu? Não tinha salário. E eu não gostei do Equador. Hoje, se seu voltasse com a cabeça que eu tenho, talvez eu pudesse ter tirado mais proveito. Porque eu adoro, assim, mexer com essas coisas antigas. Eu teria dado uma ótima arqueóloga, entendeu? Porque eu gosto. Eu passei em Machu Pichu, ninguém sabe o que que eu passei. Passei um mês lá peneirando as coisas, escrevendo, tomando anotações, entendeu? Fazendo um milhão de coisas. Mas, na época eu não... eu já bati tão de frente, que eu nem vi o que é que eu podia usufruir no tempo que eu estive lá.

P/1- Você teve a oportunidade de conhecer outras regiões pobres, também, né, que você falou, não? Além da América Latina. Você foi pra Índia, não?

R- Mas, a Índia é diferente. Porque eu fui pra Índia rica. Eu fui pra Índia pra ____________. Então, você vai pra Índia e vai pra um lugar maravilhoso, que você tem tudo. Você aprende a fazer massagem, aprende tudo. Você não tem nem vontade de voltar, tá? Então, você conhece uma Índia light. E quando eu fui pra Índia, já fui com a cabeça, meia assim, da história do carma e das castas. Então, eu não vi aquilo na pobreza. Porque o indiano, ele não se sente pobre. Ele aceita a história. Se falar pro indiano que ele vai reencarnar, ele morre de chorar. Ele leva um susto. Aquilo, pra ele, já está na consciência dele, porque ele, também, não tem essa necessidade que nós temos. Digo: "gente, como é que esse pessoal se enfia nesse rio imundo?". As nossas necessidades de ocidentais é diferente da deles. Eles não têm as ambições que a gente tem. Pra eles tanto faz ter uma televisão de tela plana, de ter um computador ou não ter, aquilo não é a felicidade deles. Eles são muito mais virados pra eles. Então, o que você vê na pobreza, pra eles não é pobreza, entendeu? Eles têm uma maneira diferente de ver a vida. Eles são super calmos, eles são tranqüilos e eles aceitam, entendeu? Lá na Índia, você não vê as pessoas acharem assim: “eu sou pobre, o fulano é rico”. Não. Não tem isso, entendeu? Não tem e é todo mundo... Cara assim: "ah, televisão, ah tá?". É outro tipo de vida. Uma vida muito mais interiorizada. Pessoa tem outra, outra, não sei. Eu não sei porque eu não tive tanto tempo pra passear como turista, não posso julgar. Mas a impressão que me dá é que você vai naquelas lojas, com aqueles ______ maravilhosos, aquele pessoal compra. São mais estrangeiros. Indiano está na dele, curtindo o pôr-do-sol, a natureza, fazendo ioga, levando outro tipo de vida interior.

P/1- E os filhos, quando vieram, Maria Lucia?

R- Bom, a Dani, tudo planejado. Não, a Andrea não foi planejada. A Andrea foi pre... A Daniela... quero contar uma coisa que foi muito engraçada. A Daniela, eu queria que nascesse em janeiro, de preferência, dia 28. Ela nasceu dia 18 de janeiro, tá? Aí, dois anos depois de casada, vi que o casamento... Quando eu casei com o meu marido, eu, lógico, só tive um, então casei com ele, mesmo, né? Só foi ele. Eu queria ver, assim, que as coisas estivessem muito estabilizadas antes de ter um filho, que eu achei que era uma responsabilidade muito grande. Então, Daniela veio dois anos depois do nosso casamento, em 1972. E aí, foi uma criança muito problemática, muito difícil, eu em outro país. Aí, realmente, eu pensei: “vou ficar só com uma filha, tá?”. Não queria mais ter filhos de jeito nenhum. Porque eu fui pra 43 quilos, a Daniela não dormia, eu esterilizei a casa inteira. Queimava (asmão?), esterilizava, porque tem muita... Porque no Equador tinha uma vantagem. Tudo era importado. Então você falava assim: "eu não acredito". Então, era porcelana rosenthal, fazendas francesas, linhas francesas, entendeu? Então, Daniela teve tudo do bom e do melhor, bonecos importados. E tinha aqueles sprays pra botar na mão das pessoas, máscara. Então, tudo que era pra criança, eu comprei do bom e do melhor, porque no Brasil nem tinha. Então, ela pegou a _________ bactéria. Teve e foi uma criança muito doente. Então, não quis mais ter filho. O caso da Andréa 7 anos depois, que a diferença é muito grande. Nem estava pensando, não estava me cuidando pra não ter filho e estava num período meia separada do meu marido. Então não estava mais tomando pílula, não estava mais nada. A gente estava questionando o casamento. E eu estava na praia, era um dia de Ano Novo. E eu adorava ir pra ver essas coisas de macumba, ali no Leme, onde tinha aquelas coisas, tinha umas sete mulheres com uvas, com tudo e teve essa tal que me disse, olhou assim pra mim e falou, aquilo foi, eu achei estranhíssimo, eu ficava só comendo as uvas, né? Aí, ela disse, na hora a rolha da champanhe bateu, ela disse: "olha, você vai ter uma filha e vai dedicar a Nossa Senhora da Conceição". Falei: "é ruim, eu estou até separada". Aí, a Andréa nasceu no dia 24 de setembro. Porque aí, houve todo aquele negócio do Ano Novo, então dia 3 de janeiro eu fiquei grávida da Andréa. Então, a Andréa veio assim, descobri que estava grávida com três meses. Foi uma gravidez maravilhosa. A Andréa foi uma menina, essa da criança, super saudável, não me deu o mínimo problema com doença. Foi um bebê, assim, tranqüilo, sabe? Não foi todo aquele problema que eu vivi com a Daniela, de doença e morre, não morre, desidratação. Com a Andréa, não tive nada.

P/1- E como é que foi essa história com a Unimed? Foi da Andréa, conta pra gente.

R- Ah, você quer saber da história da Andréa?

P/1- É, com a Unimed.

R- Bom, nós sempre tivemos diversos planos. Porque na minha época, quando eu tive filho, não existia plano de saúde, essa coisa e tal. E os médicos diziam assim: "ah, vai custar 16 mil reais". Sem cesárea, né? Depois você tinha aquele susto. Você passava um ano juntando dinheiro, desde que engravidava, pra poder ver se conseguia pagar o médico. Então, meu marido entrou pro Patrimônio Cultural e eles tiveram diversos planos. Com a Unimed, foi o nosso plano melhor. Passado um tempo, a Andréa era da Amil, e aí nós sempre, porque quando o meu marido fez operação de catarata, há muitos anos que a Unimed é nosso plano. Inclusive no próprio (Ifam?), quando querem mudar, é aquela briga, porque foi o que melhor nos atendeu. Já teve Sulamérica. Sulamérica, né? Já teve Amil, já teve Golden Cross. E o pessoal marca muito que quer Unimed, porque, sabe? Foi, assim, o que menos problema deu. Tudo o que você quer, pede. Eu operei de varizes. Tudo o que eu quis. Meu marido de catarata. E a Andréa era da Amil. E acontece que a minha filha tinha muita vontade de ter filho, tá? E tentava engravidar, essa coisa toda. Um dia ela estava... trabalha na Secretaria com a Rosinha, Rosinha Mateus, com a governadora. Ela estava no edifício central, e ela chegou e disse, ela começou a ver que estava descendo sangue, e ela disse assim: "meu Deus, que é isso?". Ela estava grávida, ela nem sabia que estava grávida. Então, ela foi para aquele banheiro do Bob's, chamou o pai pelo celular e disse: "papai, eu estou tendo uma hemorragia, eu não sei o que eu tenho, compra uma saia, porque minha...". E todo mundo ajudando, né? "Compra uma saia e venha pra cá." Então, meu marido ligou pra Amil. A Amil mandou que fosse pra Beneficência Portuguesa. Isso era uma hora da tarde. Aí, a Andréa chegou às três horas, lá. Meu marido deixou a Andréa lá, num quarto particular, tudo bonitinho. Quando ele voltou, às cinco horas, a Andréa estava em choque. Tinha perdido o pulso, não tinham dado nenhum medicamento a Andréa. Então, aí ele tocou aquela campainha, Andréa não respondia, estava gelada, a cama estava toda cheia de sangue. Nem um soro puseram na menina. Aí, o médico, quando examinou, disse: "isso é um aborto, e nós não fazemos aborto aqui". Aí, meu marido falou assim: "não, mas eu não acredito que a minha filha, que quer ser mãe, tenha provocado um aborto, deve ser uma coisa assim...". Aí, mandaram aquele negócio de resgate Amil, né, que ela fosse pro Barra D'or, aquela coisa toda. E Andréa ficou e foi uma coisa, assim, muito traumática pra ela. Então, a Amil depois não quis pagar uma série de coisas. Aí, ela começou com um processo, ela é advogada, adora processar todo mundo, né? Processar a Amil e está ganhando, mas agora está num impasse: se foi a Beneficência Portuguesa ou se foi a Amil. Quem foi culpada da falta de atendimento dela. Aí, ___________falou: "porque que não vai pra Unimed?" ."Ah, porque é caro." Aí, meu marido diz: "ah, eu pago a diferença". Então, ela foi pra Unimed e falou assim: "agora, eu quero, também, todos os requisitos". Então, em 2004, a mamãe morreu, no dia do meu aniversário e a Andréa foi pra... a mamãe tinha dado uma passagem pra ela passar férias na Espanha, mas ela já era da Unimed. Então, na Espanha, ela falou: "ninguém merece, né, eu em Madrid, num hospital". Ela teve outro aborto. Então, ela ligou, de graça, isso ela falou na entrevista dela pra Unimed, no Rio. Ela teve todo o atendimento, foi lá uma ambulância levá-la pro hospital, tudo pago, ela não teve nada, entendeu? Nenhum momento eles fizeram um questionamento: “não, isso não pode”. Depois, ela veio pro Brasil louca, né? Porque minha filha, na Espanha, num hospital. Só que depois ela veio, quando chegou o ano passado, em julho, ela engravida novamente. Gravidez de risco. Então, ela começou com acompanhamento, aquela história toda, ela fez todos os exames possíveis, imaginários. Assinava, a Unimed autorizava, assinava, a Unimed autorizava. Nunca teve problema. E foi até o quinto mês, de repouso. Depois do quinto mês, ela teve um princípio de aborto, aí ela foi internada no São José, ficou 2 meses e meio no São José. Tudo que você possa imaginar, ultra-sonografia diária, Doutor Felipe Brandão, que agora está com a... acho que é Brandão Matoso, eu não posso dizer o nome dele certo. Não sei como é que ele chama. Acho que é Matoso. Está com uma clínica, assim: "vamos, essa criança vai nascer". Aí, todo mundo se juntou. Nós chamamos de casa de festas São José, porque foi Natal, eu me lembro, meu Deus, dia 20 de dezembro, a Andréa teve outra hemorragia, perdeu dois litros e meio de sangue, enlouquecida, com uma árvore de Natal debaixo do braço, aqueles montes de roupa caindo, procurando quarto pra Andréa, que ela já estava tempo demais no hospital e ela não podia ficar em área que fosse de doença infecciosa, né? Um quarto maravilhoso, que ela quis, a Unimed aprovou, com um varandão, uma suíte imensa. E nunca, e aí ficou até o médico queria que a criança chegasse ao dia 3 de março. Mas depois, quando foi dia, na noite de 15 de fevereiro, ela teve outra hemorragia. Aí, começou a correr risco, ela e a criança, né? Porque ela não podia entrar, ela tinha placenta prévia total, não podia entrar em trabalho de parto. Aí, ela fez... ela não fez uma cesária, ela fez uma cirurgia, porque a placenta estava enroscada no útero. Havia perigo que ela perdesse o útero. Então, ela demorou duas horas e meia. Por isso que ela escreveu a carta pra Unimed agradecendo. E depois nós fomos muito bem atendidos, pudemos ficar lá num quarto, esperando a Andréa, a Unimed também disse que não teria problema, tá? Que era um quarto lá do hospital. A Andréa só saiu do hospital com Vitória, tá? Porque a Vitória foi pra... estava com... eles já estavam preparando a criança pra nascer, mas ela teve um probleminha. O estômago ainda não estava formado, tinha 33 semanas. E o pulmão, também, ela estava com dificuldade, né? E a Andréa ficou encantada. A Andréa ficou tão encantada que ela escreveu uma carta, agradecendo à Unimed. Daí, foi que ligaram lá pra casa, pedindo pra fazer uma reportagem com ela. Foi a história. E a Vitória também é da Unimed. Já tem o “planozinho” dela na Unimed.

P/1- Como que é ser avó?

R- É um luxo. Sabe por quê? Olha, foi o melhor presente que a vida me deu, ser avó. Eu acho ser avó, assim, um luxo. Se eu soubesse, é melhor que ser mãe. Pra você ver, assim, uma coisa, porque você, quando fica mais velha, você pensa... você tem outra cabeça. Cabeça muda. Esse negócio de dizer que a gente não muda, muda sim. Muda muito. Então, você renasce com a criança, entendeu? Você se sente, assim, mãe, mas mãe mais velha. Lógico que é filha da minha filha. Mas, aquele ser te dá, assim, uma força de vida. Você vê aquele bebezinho, aquela explosão de vida, aquela coisa. No caso dela principalmente, né, ela sobreviveu a uma coisa tão... nós lutamos tanto. Eu ligava pra ela assim: "Andréa, está com sangue?". Eu tomei horror de sangue. E ela: "não, mamãe, hoje não tive sangue”. Ela ficou o tempo todo com as pernas pra cima e cabeça pra baixo. Dois meses e meio. Tomava banho só assim. Então, eu não se foi porque foi tão difícil. Eu não se é todo mundo que é avó, assim. Eu fiquei “babona”. E eu senti que remocei por dentro com o nascimento da Andréa. Ó, da Andréa. Freud explica. Porque eu adoro a Andréa. Adoro as minhas duas filhas, mas a Andréa... tenho muita afinidade com ela. E aí, eu acho que o nascimento da Vitória foi assim uma, sabe? Foi assim, levou um ar fresco, alguma coisa de nova pra nossa casa. Até fez, assim, uma mudança. Sabe quando precisa mudar alguma coisa, entrar vida nova, ar novo. E eu, sabe, foi assim, reavaliar muitas coisas. Agora eu tenho mais paciência. Antigamente eu era irritada com choro de criança, hoje eu acho graça. É como se estivesse vendo a história das minhas filhas de novo. Tivesse vendo o mesmo filme, mas agora com paciência, sabe? Porque, antigamente, eu queria sair, eu queria ir pro reveillon, a criança estava com insolação, ai que horror. Então, agora não. Agora eu já tenho mais estabilidade emocional. Se bem que a minha filha é uma mãezona. Foi, eu digo pra ela: "você foi a mãe que eu não fui pra vocês". Ela senta pra brincar. Nunca vi a minha filha perder a paci... Eu não. Eu era uma mãe assim: "ai, meu Deus, inauguração do Meridian, perdi". Eu toda cheia de purpurina. Porque eu tinha aquela inauguração, era, os convites eram, como se chama? Muito contados. Eu tinha ganho do meu pai, pra ir. E a idiota da babá levou a Andréa pra praia e ficou a tarde inteira na praia, enquanto eu ficava no cabeleireiro. Quando eu cheguei em casa, a Andréa estava com insolação. Aí, eu passei o reveillon, em vez de passar no Medi..., lá no Mediterranée. No Mediterranée, não. Como é que chama? No...

P/1- Meridian.

R- No Meridian. Eu passei procurando farmácia e médico. Toda cheia de purpurina e vestido comprido. Então, eu acho que a Andréa foi a mãe que eu não fui. Porque ela não reclama de nada.

P/1- E como que é a sua vida hoje, Maria Lúcia? O que que você faz? Como é seu cotidiano?

R- Bom, vamos ver como que é a minha vida hoje. Bom, depois que eu parei de trabalhar, a minha vida ficou, assim, meia monótona, né? Mas, eu tenho muitos médicos. Eu tenho, todo dia, um programa com médico. Porque como diz a minha amiga que é meu prazo, é prazo de validade. Hoje mesmo eu vim. Eu estou com tendinite aqui. Inflamação no dorso espinhoso do braço direito. Tanto é que fui fazer uma terapia. E eu fui, então todo dia eu tenho um médico. À parte, de eu ter o médico, caminho. Eu faço ginástica. Eu leio demais, adoro ler. Eu prefiro ler do que ver televisão. Então, eu tenho quatro livros me esperando. E toda sexta-feira, eu tenho um compromisso com o Centro Espírita, que eu trabalho, porque eu sou médium. E domingo eu vou meditar em Vargem Grande com os budistas. Isso me lava a alma. É uma coisa, assim, que vicia. Até vicia, sabia? O dia que eu não vou, o domingo que eu não vou passar parte da manhã lá, meditando e respirando, eu sinto falta. E saio com as minhas amigas do Sion, vamos..., a gente se reúne, vai a um chá, vai... Aquela vida de dondoca, né? Vai almoçar fora. E o meu, eu queria ir trabalhar com o pessoal, fazer alguma coisa mais útil, né? Queria trabalhar com pessoal de doenças terminais em... como se chama? Em Brás de Pina, que eu nem sei onde é. Mas a minha terapeuta vetou. Porque eu não posso, eu não tenho estrutura emocional pra trabalhar com doente terminal porque eu sou muito elétrica. Eu tenho que trabalhar com criança. E tem um instituto chamado Renascer, em Minas, que eu pretendo ir pra lá, já comprei uma casa lá, pra passar uma temporada. E lá, a gente está, também vai fazer uma “onguezinha” pra crianças, sabe? E é mais ou menos por aí. Eu estou levando uma vida meia de perua, sabia? Meio inconseqüente.

P/1- Você mudaria alguma coisa na sua vida hoje?

R- A gente se acomoda tanto, sabia? Se acomoda tanto. Eu acho que eu tinha que ser mais humana. Eu sou uma pessoa, assim, muito na minha, tá? O que que eu mudaria em mim? Eu acho, quer dizer, o que que eu mudaria em mim? Eu acho que eu devia ter uma atividade social, acho que eu devia de... eu acho que eu sou um pouco fútil. Um pouco bastante fútil, entendeu? Sou fútil? Eu não sei, eu gosto, por exemplo, de ir a bons jantares, eu gosto de olhar vitrines bonitas, eu gosto de um cabeleireiro. Eu acho que eu deveria empregar melhor o meu tempo. Fora, as minhas leituras, meus trabalhos, minhas pesquisas, porque, como eu te disse, eu sou kardecista. Então, eu estou sempre questionando, lendo, pesquisando, assisti... E a gente faz um trabalho de estudo, reúne um grupo de estudos, a gente discute. O que eu Parapsicologia, se é se não é. Fora esse grupo de estudos, o que que eu mudaria na minha vida? Eu ia procurar ser mais humana.

P/1- E na sua história, você mudaria alguma coisa?

R- Nada.

P/1- Tudo o que você viveu você faria igual? Viveria igual?

R- Não. Mudaria assim, eu teria sido mais questionadora com meus pais. Eu fui muito submissa. Eu teria... não teria aceitado, por exemplo, tanto... É tudo uma questão de época, entendeu? Eu nunca teria, por exemplo, quando eu me separei do meu marido pra questionar casamento, eu fiquei trancada dentro de casa. Não podia falar com um homem, entendeu? Foi um horror. Gente, isso era 1900 e o quê? 1981. Não, 1977. Então, a minha família sempre foi aquela família muito rígida. Meu pai sempre foi muito rígido. E eu acho que eu fui um pouco covarde, em relação ao meu pai, que eu deveria ser mais questionadora, que eu não deveria ter parado minha faculdade, aberto a mão. Não deveria. Isso é uma das grandes coisas que eu acho que eu... Eu sempre fiquei no final da fila, sabe? Sempre primeiro o marido, depois os filhos, depois... e isso. E hoje, eu sinto, assim, eu sinto um pouquinho de solidão, realmente, porque todo mundo foi à vida. Meu marido tem a carreira, ele tem a... como é que chama? Os amigos, os interesses, entendeu? As minhas filhas, uma é engenheira, trabalha, vai trabalhar agora na Petrobrás, é evangélica, tem o grupo dela. A Andréa tem o grupo dela. E eu fiquei, assim, muito sem pé, sem mãe. Outro dia, meu marido disse: "por que que você não amplia os horizontes?". Aí, eu me senti tão mal, quando ele me disse isso. Eu me senti tão, senti tão, assim, pequena. Então, eu acho que isso é uma coisa que eu mudaria. Eu formaria, eu teria feito outra faculdade. Eu me arrependo, sim, de quando eu voltei dos Estados Unidos, o que que tinha? Eu tinha uma filha pequena. Por que não fazer uma faculdade de novo? Sinto falta. Mas sabe o que que é? A vida estava boa. Havia dinheiro, havia farra, né? Aí, você não pensa que você vai en... então, eu sei lá. Não sei. Eu me acomodei. Eu me acomodei ao colégio, me acomodei ao meu pai, à maneira dele de ser. Hoje nós brigamos à beça. Hoje nós parecemos cão e gato, porque eu digo as coisas pra ele. Desde que mamãe morreu, aconteceu uma coisa, perder a minha mãe foi uma das piores coisas da minha vida. Com tudo que a minha mãe, mas o arquétipo de mãe é uma coisa tão forte, tão forte. Quando eu perdi a mamãe, eu perdi o meu chão. Então, muita coisa que eu não diria pro meu pai, hoje eu digo. Tanto que a gente, agora, só se escreve por carta. Está gozadíssimo. A gente manda carta de Guanabara, ele mora em São Conrado. Então, eu acho que essa história com o meu pai não ficou bem resolvida, não. Porque se tivesse ficado, depois da morte da minha mãe, não teria dito tantas coisas que eu disse pra ele. Isso eu mudaria, sim. Eu acho que eu fui covarde, que poderia ter feito uma faculdade e que eu me acomodei muito ao dinheiro. A não ter que fazer força. Força até que eu fiz, porque quando não tem empregada, minha casa brilha igual como se tivesse cinco ou seis empregadas. Mas, força, assim, de bater de frente: “não, isso eu quero, eu penso assim e assim vou fazer”. Eu calava a boca: "ah, não quero briga". Sabe? "Não, deixa." Eu fui sabe aquela que diz: "ah, está bom, penso assim, deixa ficar". Eu acho que isso não foi legal em mim.

P/1- E qual que é o seu sonho?

R- Ih ______.

P/1- Você tem um sonho ou tem muitos?

R- Muitos.

P/1- Fala um deles pra gente.

R- Hum, eu tenho diversos. Bom, meu sonho? Meu sonho, primeira coisa é minha paz, que eu tenho muito pouca. Eu tenho uma situação muito conflitiva com a minha família. Então, eu gostaria muito que eu pudesse conviver melhor com meu pai e com a minha irmã, que eu não vejo há alguns anos, tá? Isso é um sonho: que a gente voltasse. Mas, é um sonho quase impossível. Porque quando a gente volta, as coisas acontecem do mesmo jeito e ela é uma pessoa difícil. E eu sonho muito, assim, em ter muito tempo, ainda, de vida pra curtir ainda a minha neta. Eu quero ter uma velhice saudável, que eu possa... Eu quero escrever um livro, eu quero escrever alguma coisa, entendeu? Eu quero viajar muito, ainda, porque eu adoro esses lugares exóticos, estranhos. Engraçado que eu não aproveitei no Equador, fazer pesquisas. Eu gosto dessa história. Eu gostaria de viver, assim, como a minha avó viveu. Morrer dormindo. Esse é meu sonho. E ter uma vida útil, não ficar assim, sabe? Paralítica. Eu quero viver a vida. Meu sonho é a vida. Poder viver, até o final, bem. Não interessa quanto tempo dure isso, não. Mas viver bem, como a minha avó viveu.

P/1- O que que você achou de conversar com a gente aqui?

R- Ótimo. Esqueci. Como eu lhe disse, no princípio, a gente acha até que, fica assim, meia tensa. Depois é como Big Brother. Você esquece, fala todas as bobagens que vêm na cabeça, que te perguntam. Mas, achei ótimo porque eu fiquei..., vocês são pessoas ótimas, me deixaram super à vontade. Eu falei tudo o que eu quis falar. Respondi. Vocês me perguntaram. E podem ter a certeza que fui, assim, extremamente franca, que, aliás, isso é uma das qualidades que eu tenho, que eu estranho muito nas pessoas. Eu sempre jogo muito de frente. Às vezes eu quebro tanto a cara, quebro tanto, espero uma apunhalada nas costas e levo tanta.

P/1- E da Unimed convidar uma pessoa, que é cliente, pra participar do projeto de história, que que você acha desse movimento.

R- Eu acho fantástico. Eu não sabia que existia. Pois eu acho maravilhoso. Eu não falei com você, ali no intervalo, que eu achei o trabalho de você um barato. Se eu tivesse a idade que vocês têm, essa oportunidade, pôxa, era tudo o que eu queria fazer na vida, não é? Porque, por exemplo, meu marido trabalha com a memória. Se a gente não tem memória, a gente não tem passado, não tem nada. Então, acho preservar a memória uma coisa, assim, muito importante. Quer dizer, trabalho pela memória não podia ser nada que fosse contra não preservar a memória, né? Porque são histórias. E cada história é uma história, né? É uma vida, uma experiência. Eu achei graça de uma amiga minha porque ela disse assim: "eu nunca coloco botox, porque cada ruga que eu tenho é uma experiência vivida".  Eu digo: "não, você bota suas experiências no papel, e bota botox pra não ter ruga". Ela ficou danada comigo, morreu de rir. Porque aí todo mundo participa, entendeu? Porque você lê. Tem aquele livro do “Perdas e Ganhos”. Eu adoro ler aquele livro, que eu me encontro tanto ali. Por isso: "pôxa, olha que engraçado, essa história também tem alguma coisa de mim". Aí você aprende, tira lições com as pessoas, né? Porque o ser humano é muito rico, não é? Quer dizer, nós uma vez estávamos fazendo um problema de Parapsicologia, um exercício e começamos a descrever a Pedra da Gávea. Não teve uma descrição igual. Cada uma se fixou num ponto. E era a mesma pedra. Um via uma cor, outro prestava atenção que tinha uma saliência maior. Das 39 pessoas nenhuma chegou a escrever igual à outra. Então, eu acho que a maneira de ver a vida é muito isso, né? A gente saber passar pela vida, curtir, e tirar, se puder, né, tirar umas lições. Se não puder, o que é que vai se fazer.

P/1- Deixa pras próximas, né?

R- Voltar não dá, a gente já está no páreo.

P/1- Ou fica pra próxima encarnação, né?

R- É.

P/1- Pro espírito.

R- Sinceramente, é tudo de bom. Porque a vida a gente não ensaia, a gente já está vivendo.

P/1- Maria Lucia, muito obrigada por você ter vindo.

R- Falei à beça, né? Coitados de vocês.

P/1- Não, imagina.

R- Não estão com os ouvidinhos, aí, doendo, não?

P/1- Não, de maneira alguma. Obrigada. Espero que você volte pra casa feliz.

R- Espero que tenha ajudado vocês em alguma coisa.

P/1- Ajudou sim.

R-Que vocês tenham tirado proveito.

P/1- Com certeza.

R- Tenha alguma coisa interessante que vocês possam aproveitar.

P/1- Muitas coisas. Depois, você vai receber esse material, também.

R- Ah, que ótimo. E se vocês quiserem mandar alguém na minha casa, pegar as fotos.

P/1- Nós vamos. Vamos mandar, sim.

R- Me dê só tempo de procurar.

P/1- Está.

R- Vou procurar no feriado.

P/1- Roberta ou Rodrigo, com certeza, vão procurar.

R- Então, olha, vou te contar é muito interessante, viu? Acho que valeria a pena.

P/1- A gente escaneia e depois a Keila _______.

R- Tem meu endereço, não tem?

P/1- Tem seu telefone.

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