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História

Os caminhos de Inácio ao Morro dos Prazeres

História de: Inácio Alves de Souza
Autor: Valdir Portasio
Publicado em: 09/06/2021

Sinopse

Infância entre famílias adotivas. Trabalho na construção de Brasília. Mudança para o Rio de Janeiro. Moradia no Morro dos Prazeres. Papéis de liderança na comunidade. Filhos.

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História completa

Projeto Memória Morro dos Prazeres: Esse Morro tem História. Realização Museu da Pessoa. Entrevista de Inácio Alves de Souza Entrevistado por Paula Ribeiro Rio de janeiro, 6 de julho de 2002 Código: MP_CB010 Revisado por Ana Yassuda P/1 — Boa tarde seu Inácio. R — Boa tarde. P/1 — Gostaria de começar o seu depoimento, pedindo que o senhor me dê o seu nome completo, o local e a data de nascimento. R — Local, Morro dos Prazeres... P/1 — Não. O senhor nasceu aonde? R — No Estado da Paraíba. P/1 — Então conta um pouquinho. Quando o senhor nasceu? Que data? Qual a sua data de aniversário? R — 27 de abril de 1941. P/1 — Em que cidade? R — São João do Cariri. P/1 — Seu nome todo, qual é? R — Inácio Alves de Souza. P/1 — E os seus pais? Como era a vida lá na Paraíba? Moravam aonde? Como era sua cidade? R — Na época, a minha cidadezinha era pequena. Meu pai era oficial de justiça, e minha mãe era doméstica. Aliás, eu nem cheguei a conhecer ela muito, porque quando ela faleceu, eu estava com cinco anos de idade. Aí meu pai — era eu e mais dois irmãos — fez de nós três cachorrinhos vira-lata: “Oh. Fulano. Você quer criar esse menino?”. Então, eu fui bem criado por uma família. Eles queriam o melhor de mim, e não aproveitei mais porque eu cismei de casar. Senão eu estaria lá ainda. O outro irmão foi embora para o Triângulo Mineiro. O outro ainda mora pra lá mesmo. Não tenho notícias de nenhum dos dois. O do Triângulo Mineiro por um acaso uma vez me escreveu uma carta, que era pra eu arrumar negócio de batistério, sei lá, que era pra ele casar. Então eu tive que mandar aquilo. Tem outro irmão da família que era eu, meus dois irmãos e uma mulher — eu tive quase duas famílias. Tem um outro irmão, com outra mulher, mas do mesmo pai. ____ eles mandaram pra lá. Aí, quando eu casei, o meu pai — aquele que me criou com a idade de cinco anos — também se casou, num sábado. E eu fui morar com ele na segunda feira. A gente foi almoçar lá, e ele tinha uma mercearia — não, era um depósito — e fornecia também pros vizinhos, comerciantes dali. O negócio dele era que a gente estudasse. Ele era um semianalfabeto. Agora, inteligência pra comandar os negócios dele, ele tinha. Aí, quando eu casei, ele ainda falou comigo: “Inácio, não precisa arrumar um trabalho, não. Você fica aí na mercearia com a gente”. Digo: “Não. Eu já arrumei família, então eu tenho que procurar o meu caminho”. Aí foi quando eu casei, e passei um ano e pouco depois de casado lá na casa dele mesmo. Depois falei: “Vou em Brasília”. Foi na época que estavam construindo Brasília. Eu não sabia nem onde era Brasília. Só tinha ouvido falar o nome. Aí eu estava almoçando um dia e aí falei pra minha falecida esposa: “Oi. Eu vou a Brasília”. E ela perguntou: “Mas você está sonhando? O almoço fez mal a você?”. Eu disse: “Espera aí”. A rodoviária era pertinho de casa, e aí terminei o almoço, tomei um café, fumei um cigarro e fui pra rodoviária. Quando cheguei lá na agência, perguntei: “Tem passagem pra Brasília hoje?” Aí o rapaz disse: “Pra hoje não tem. Tem uma reserva aqui, mandou reservar. Se você quiser tentar, você traz tua mala, e vamos aguardar.” Aí, cheguei em casa e nem arrumei a roupa, nem nada. Fui botando dentro da mala de qualquer maneira, e fui pra rodoviária. O carro saía às três horas da tarde. Quando faltavam dez minutos para as três horas, o cara não apareceu. E o cara da agência disse: “E aí. Quer viajar nesse carro, viaja agora”. Eu disse: “Vamos agora.” Aí viajei pra Brasília. P/1 — Mas por que você escolheu Brasília? R — Não sei por quê. Acho que foi pela curiosidade. A gente escutava muito de Brasília, de construção, não sei o quê. Brasília em si começou pequena. E Brasília hoje ainda é pequena. Ali é o Estado de Goiás, e dentro daquele pedaço do Estado é que eles formaram Brasília. É a capital federal hoje, que antes era aqui em Niterói. Aí eu apanhei o ônibus e rodei. Eu cheguei dentro de Brasília... Eu lembro que o ônibus ia parando, e alguém que já conhecia Brasília ia saltando do ônibus e ia embora. E eu estou lá no ônibus, que chegou na rodoviária. Muita gente saiu e eu estou bem sentadinho lá. Aí o motorista perguntou: “Você vai pra onde?”. E eu respondi: “Brasília”. Ele disse: “Nós já estamos dentro de Brasília”. Perguntei: “E agora? Pra onde é que eu vou?”, ao que ele disse: “Nós vamos até o Núcleo Bandeirantes, que lá é a agência.” Chegamos lá no Núcleo numa sexta feira, mais ou menos às seis horas da tarde. Não tinha onde deixar a mala, e eu não conhecia nada. Aí mandei o rapaz da agência guardar a mala e ele disse: “Tem que arrumar um trabalho aí, não sei aonde.” E eu perguntei “Como é que vai ser que eu vou andar, que eu não conheço nada aqui?”. E aí eu segui pela mesma rua, fui num botequim tomar um café. Mas sempre olhando pra trás, pra ver se a agência estava muito longe. De repente, eu até voltaria pra dormir lá, naquele quarto depósito deles. Aí eu cismei de atravessar a rua. Fazer um passeio. Entrei em outra agência, uma agência lá do Ceará. Aí o cara: “Oh, Inácio.” E eu pensei: “Ué. Quem me conhece aqui? Não conheço ninguém aqui.” Aí cheguei lá fora, e reconheci o Cambará, que perguntou: “Chegou quando aqui? O que está fazendo aqui?” Respondi: “O que a gente vem fazer aqui em Brasília? Trabalhar.” Ele disse: “Cadê tua mala?”, e eu falei “Tá lá na agência.”, ao que ele me respondeu “Vai apanhar lá”. P/1 — O senhor ficou quanto tempo em Brasília? R — Três anos. P/1 — Então, vamos vir para o Rio de Janeiro. Como é que chegou no Rio de Janeiro? R — Pro Rio de Janeiro eu vim porque já tinha um irmão que morava aqui em Laranjeiras. Aí eu escrevi pra ele que queria vir pra cá. Ele trabalhava num açougue aqui na rua das Laranjeiras. Lá tinha um apartamento então eu dormi... Era um açougue e quitanda. E não tinha só ele. P/1 — Que ano era esse? R — Era o final de 1968 pra 1969. Cheguei, e ele disse: Vai procurar trabalho. Falei: “Vamos deixar terminar esse ano, e quando for para o ano, vou procurar trabalho”. Quando foi o dia 12 de janeiro, no primeiro lugar que eu procurei serviço, encontrei. Aí fiquei lá. Foi aonde eu conheci o Ulisses, hoje falecido, que é o pai do Flavio. A gente trabalhava junto, e ele falou: “Vamos morar lá no morro?”. Eu respondi: “Que morar em morro. Você é cabrito pra morar em morro? Morro é pra cabrito”. Mas ele não esqueceu daquela ideia, ficou sempre com ela. Ele dizia: “Vamos pra lá.” Aí, quando foi num domingo, falei: “Eu vou aparecer nesse morro de vocês, pra ver como é”. Eu peguei um táxi ali na rua Alice e vim aqui. Aí ele começou a contar coisas dele, que já morava aqui há mais tempo. Nessa época, ele era diretor da Associação dos Moradores. Ele disse: “Tem um rapaz que está alugando um barraco ali. Não vai lhe cobrar caro. Eu conheço ele”. Respondi: “Eu não quero morar aqui, cara”. E ele falou: “Vem morar aqui com a gente.” E eu terminei alugando o danado do barraco. O proprietário se chamava Irineu. Ele era funcionário da Companhia de Transportes Coletivos do Rio de Janeiro (CTC), e trabalhava nesses bondes. E aí, eu pensei: “E agora?” Aluguei esse barraco, e não tinha nada. Tive que comprar tudo, e minha família não estava aqui, mas lá no Norte. Eu andava sozinho. Aí eu comprei tudo de novo, porque o barraco não tinha nada mesmo. Então eu escrevi pra minha mulher, mandei dinheiro para ela vir. Eu não fui buscá-la. P/1 — E a família veio? R — Veio. P/1— Qual foi sua primeira impressão quando o senhor subiu aqui no Morro dos Prazeres, com essa vista da cidade? R — A vista em si, nós não tínhamos. Era só mato. Tinha umas vielazinhas, uns barracos de estuque caindo aos pedaços mesmo. Não tinha nada. Esta subida aqui não tinha, era a vielazinha muito ruim. Não subia carro aqui. E eu continuei trabalhando lá. Depois, logo no ano seguinte, houve a eleição pra nova diretoria. Aí eles disseram: “Eu vou te botar na chapa como secretário”. Respondi: “Eu, secretário? Entendo muito pouco de secretariado. Agora, se você arrumasse como tesoureiro, até que sim”. Porque eu já tinha trabalhado como tesoureiro, então dava mais jeito. Responderam: “Não, você vai ser secretário”, e eu disse: “Tudo bem. Já que querem me botar, bota.” E aí botaram. E fui eleito. P/1 — Quem era o presidente? R — Na época era o José Bernardo. P/1 — Presidente José Bernardo e o senhor... R — Eu era secretário dele. Aí eles trabalhavam para o Banco Itaú. E não paravam no Rio. Só viajavam. E aí eu terminei assumindo ali como secretário. O tesoureiro eu despachei, porque o cara chegava para trabalhar embriagado e não dava certo. E aí assumi a vaga de secretário, tesoureiro e presidente. Na gestão de José Bernardo. P/1 — Isso era que ano? R — 1979, por aí. P/1 — E qual era o maior desafio da Associação dos Moradores daqui dos Prazeres? Qual era o maior desafio na sua época? R — Nós aqui tínhamos um trabalho muito árduo, muito desafio. Porque para qualquer um que entrasse ali ou que entre hoje a tendência é melhorar. Quando eu assumi como secretário, passei dois anos, depois retornei como tesoureiro, por mais dois anos. Depois me forçaram a ser presidente. Fiquei mais... Quase quatro anos de gestão. Mas a nossa tendência sempre foi — de quem entrou antes, ou de quem entre hoje; de qualquer um — é procurar melhorar de uma forma ou de outra. Porque quando eu cheguei aqui, nós não tínhamos água, não tínhamos luz. Tinha um reloginho de luz lá embaixo, na rua Gomes Lopes. Eu morava ali de aluguel, num canto. Comprei um barraco com muito sacrifício. O meu antigo barraco, que eu fiz, tinha um relógio, que era pra me fornecer luz. Mas eu tinha rádio, tinha televisão e não podia usar nada. A luz não prestava. Quando ficava sobrecarregado, não dava pra ligar nada. Então eu comprei esse barraco e aí sim: dava para usar os aparelhos que tinha. P/1 — E sua família veio? R — Veio. P/1 — Aqui tem um pedaço do morro conhecido como “Morro dos Paraíbas”. R — É aqui, onde mora o Flávio. P/1 — Por que isso? Por que esse nome? R — Hoje é misturado. Mas antigamente ali só morava paraibano mesmo. Aí, conforme vem aqui na mina, só mora mineiro. Você não encontra um paraibano ou um cearense ali não. É só mineiro. Eles residiam aqui. Aí tem o outro lado: “Você mora aonde?”. Porque naquela época tinha que pagar uma taxazinha de água. “Você mora aonde?” “Eu moro lá na Cava”. P/1 — Aonde? R — Eles davam o apelido de Cava. É onde mora hoje o Chicão, o Zé Fabiano, um bocado deles. Então a gente só botava água pra eles lá, numa conversa muito boa. Porque eles compraram o terreno, então eles não faziam parte do morro: eram independentes. A gente falava muito: “Eu moro no morro. Eu tenho meu terreno, comprei”. E, no fim, compramos e ficamos sem água. Para a gente botar água lá que era uma luta desgraçada. Eu acho que uma bombinha desse tamanho, naquela época nós tínhamos aqui 2500 moradores. Era um trabalho muito árduo. Os manobreiros — que eram dois, de carteira assinada pela Associação dos Moradores — trabalhavam durante o dia e durante a noite. Quando queimava uma bomba, a gente tinha que ir de casa em casa, para arrecadar um dinheirinho pra mandar consertar a bomba. Aí veio a eleição. Eu era presidente na época, e chegou aqui o Fernando Carvalho, que era deputado federal. Antes dele, veio um representante do Brizola. Esse representante do Brizola tinha perguntado: “Qual a prioridade de vocês aqui na comunidade?”, e eu disse: “Olha, rapaz. Aqui nós estamos precisando de tudo. O Brizola pode dar um pouco de cada coisa?” Sentamos, conversamos e ele disse: “Depois das eleições a gente conversa”. Digo: “Olha, não voltem mais. Não precisam nem voltar. Não tem papo”. E aí apareceu o representante do Fernando Carvalho, que morava em Laranjeiras. Ele esteve aqui e disse: “Olha, eu sou representante do deputado Fernando Carvalho, e a gente queria ajudar vocês um pouco. Qual é a prioridade de vocês?”. Eu disse: “Em primeira mão, eu quero uma bomba nova. Não quero bomba usada, que nós já temos duas que não prestam mais. Se tiver condições e quisessem construir a parte de cima dela...”. Conversamos, e ele disse: “Vamos marcar uma reunião com você e com o Fernando.” No dia marcado, eu fui e disse: “A prioridade é essa e essa. Pode fazer?” Ele disse: “Eu não estou aqui pra prometer. Estou aqui pra fazer.” Aí mandou a bomba... Não a encontrou aqui no Rio, e mandou buscar em São Paulo. Ele mandou os tijolos, e nós começamos. Aqui tem fotos da gente, na época em que estávamos construindo aquela parte de cima. P/1 — Tinha muito desses mutirões? Vocês faziam muitos mutirões? R — Na época, fazíamos. P/1 — Como é que era? Por exemplo: vamos fazer uma obra. Como é que funcionava? R — Funcionava do seguinte jeito: tem trabalho na tua casa pra fazer, e você não quer pagar. Aí você fazia uma feijoada, uma comida qualquer lá, botava umas bebidas e as pessoas diziam: “Vamos lá na casa de Fulano. Vamos fazer umas coisas, um trabalho na casa dele.” Às vezes, umas coisas foram feitas na Associação desse jeito. A gente fazia lá uma comida, e trazia o pessoal pra trabalhar. Mas, no caso, depois de mais ou menos 15 dias, a bomba chegou. Aí ele veio... P/1 — Fernando de Carvalho, não? R — Fernando de Carvalho, deputado federal. Na época ele era presidente da Caixa de Valores. Um cara com quem tive muito contato. Depois, eu perdi a minha agenda e perdi o contato com ele também. Acho que ele não deve se lembrar mais de mim. P/1 — Ele se candidatou? Conseguiu se eleger? R — Elegeu. E nós fomos a muitas folias que ele patrocinava na época. P/1 — Seu Inácio, eu queria que o senhor me recuperasse um pouquinho. Quando o senhor chegou aqui, como era o Casarão? Quais são as suas lembranças do Casarão quando o senhor chegou aqui, no final da década de 1960? R — Quando eu cheguei aqui, esse Casarão ainda era ótimo. Ainda era bom. Até funcionava uma igreja, aqui embaixo. Não tinha família. Depois que veio morar uma família aqui, justamente pra tomar conta do Casarão. Dizem que o dono era o Barão de Petrópolis mas eu não o conheci. Mas depois o Casarão foi se deteriorando, sem ninguém fazer nada, e o próprio dono não se incomodava. Esse pedaço de terra que a gente vê aqui, até a pista, faz parte desse Casarão. E a gente não chamava a construção de Casarão. Chamavam de a Casa dos Padres, porque aqui havia missa, casamento e batizado. Esses padres faziam parte da Assunção, mas sempre dava assistência aqui. Todos os dias tinha gente para confessar, batizados. Aí foi tudo se deteriorando, os padres também não tinham mais tempo de ficar aqui e saíram. Então veio uma família morar aqui, e dessa família também os donos não cuidaram da construção, e foi tudo se deteriorando mais, cada dia mais. E então foi que a Prefeitura chegou, e veio fazer a restauração. Tiveram que demolir tudo, porque isso aqui não tinha. Era assoalho de madeira... P/1 — O teto? R — O teto. Todo esse chão aqui era assoalho de madeira, então foi preciso quebrar tudo. As janelas não existiam mais. Está tudo restaurado. Só tinha alguns móveis, conforme está, e aí a Secretaria da Habitação veio, fotografou tudo, levou as fotos e guardaram as informações. Então que começaram as obras. Esses marceneiros fizeram aqui esse trabalho. Tinham as fotos de tudo como era antes, e fizeram peça por peça. Essa janela não foi mexida em nada. É original. Só aquela ali foi feita. Daquela não aproveitou nada. E mais algumas aí foram só restauradas, com a troca de peças que já estavam estragadas, porque essa madeira é boa e não se acaba assim. P/1 — Essa madeira o senhor acha que é original ainda? R — Essa aí é. P/1 — Aqui do segundo andar. R — É. E no andar de baixo também tem. Aquelas portas tiveram algumas peças trocadas, mas a maioria tudo é original. Só foram limpas e envernizadas. P/1 — O senhor trabalhou nessas obras? R — Trabalhei. P/1 — Fazendo o que? R — Eu aqui trabalhei como carpinteiro. Eu era quem fazia o assoalho pra botar essas lajes, fazia andaime pro pessoal trabalhar. Andaimes pra esses marceneiros fazer o trabalho todo. P/1 — Quantos anos de obra? Quanto tempo de obra? R — Eu mesmo só trabalhei nove meses aqui. Mas, no Casarão em si, foi mais de um ano de obra. P/1 — Como é para o senhor hoje, voltar e ver o Casarão do jeito que está e como era? R — Isso pra mim é uma coisa que não dá nem pra falar. Como antes era tudo destruído, hoje você chega aqui e nem acredita no que era esse Casarão. Você diz: “Será que é verdade que esse aqui é aquele mesmo Casarão?” E é aquele mesmo, só que foi restaurado. P/1 — E como é que era a relação da comunidade com o Casarão? Vocês vinham aqui às vezes antes, quando estava abandonado? As crianças brincavam, as crianças entravam aqui? Como é que era? R — Aqui era... A Associação de Moradores não tinha nada a ver com o Casarão. Isso aqui era um pedaço praticamente abandonado. A garotada vinha brincar aqui dentro. Eles falavam que aqui em cima tinha uma velha coruja, não sei o quê. P/1 — Era uma senhora que morava aqui? R — Era um casal. P/1 — Eu ouvi dizer que era mal assombrada. É isso? R — Eu não acredito nessas coisas. Pode até existir, mas não acredito em assombração. Pra mim, o mal assombrado é na verdade esse pessoal que não tem nada o que fazer e fica aí de bobeira. P/1 — E sobre esse nome, “Morro dos Prazeres”. Você sabe alguma coisa sobre o nome? O que você acha desse nome? R — Eu não sei por que eles colocaram esse nome: Morro dos Prazeres. Não sei mesmo. Quando eu cheguei, já era Morro dos Prazeres, e Morro dos Prazeres continua. E vai continuar assim. Hoje a gente chama desse jeito porque não dá pra mudar. É morro mesmo, e chamo de morro. P/1 — E há quantos anos o senhor está aqui? R — Desde 1970. P/1 — Seus filhos nasceram aqui? R — São dois, e nasceram aqui. P/1 — O que significa para o senhor o Morro dos Prazeres? R — Eu tenho minha casinha lá fora, no Estado do Rio, mas moro mais aqui nos Prazeres do que lá. Porque aqui foi onde eu me adaptei com todo mundo, e aqui eu me sinto bem. P/1 — Como é que é um dia seu hoje, da sua vida? R — Meu dia hoje está bom, relativamente. Saúde e dinheiro a gente arruma. O mais importante, pra mim e pra você, é ter saúde. O resto só vem pra aumentar. P/1 — Está bom. Então, pra finalizar, o que o senhor achou desse projeto memória, de recuperar antigas histórias da comunidade e do senhor ter dado o seu depoimento? R — Eu diria a você que tem gente mais antiga do que eu aqui, que deveria ter vindo pra falar, porque realmente eles sabem mais do que eu sobre esse morro. P/1 — Mas o que o senhor acha desse projeto de memória, de a gente recuperar história da comunidade, a história aqui do Casarão? R — Isso é ótimo. Em parte, ou em todas as partes, porque é algo que está recuperando uma coisa do passado. Quem vier amanhã, vai dizer: “Mas isso aqui era assim mesmo?”, e a resposta é de alguém, que falou que era. E, por isso, terá de se assumir que era mesmo aquilo lá. No meu caso, eu não vou dizer que isso aqui era um mar de rosas, porque não era. Mas hoje está sim. Está até ótimo. P/1 — Em que sentido o senhor acha que melhorou? R — Em tudo. Aqui a gente não tinha creche, não tinha água, não tinha luz, não tinha esgoto. Tínhamos uns valões imundos, que só traziam rato e outros bichos, e a gente é que tinha que limpar pra tirar a sujeira de nossas portas. Todo domingo a gente fazia mutirões pra limpar as valas. P/1 — Mas o que é que motivava vocês a fazerem isso? R — A gente não estava gostando daquela sujeira em nossa porta, e não tinha como limpar sozinho. Então juntava um grupo de quatro a dez pessoas e aí combinávamos: ”Domingo vamos fazer essa vala aqui.” E limpávamos aquela vala. Aí vinha eu, que não morava aqui nessa parte, mas na outra, e me convidavam a limpar: “Vamos limpar aqui, que no próximo domingo nós vamos pra sua parte.” E assim iam quase todos os domingos: um domingo num lugar, um domingo no outro. Só pra conservar limpo. P/1 — E o Carnaval aqui? Como é que era comemorado? R — Era bom. Numa certa época foi fundado um bloco. Mas esse bloco não chegou a escola de samba, não sei por que. P/1 — Como era o nome? O senhor lembra? R — Bloco Carnavalesco Acadêmicos dos Prazeres. Eu fazia parte também desse bloco, como diretor do patrimônio. P/1 — Quando é que foi fundado? O senhor se lembra? R — Não lembro. P/1 — O senhor lembra de algum sambinha? R — Não. P/1 — Não lembra de nenhum sambinha? R — Eu até sei alguns, mas pra cantar não. P/1 — E aí vocês saiam daqui, iam desfilando pelo bairro? Como é que era? R — A gente ia desfilar em Santa Cruz, em Realengo e por toda aquela região. Aqui nos Prazeres mesmo, a gente saia desfilando só no último dia de Carnaval. No sábado, domingo, segunda e terça, todos os desfiles eram fora. P/1 — Você participava dessa folia? R — De todas, e não podia ficar de fora. E está pra renascer de novo, o bloco. Só que ele agora vai vir como escola de samba. Vamos unir Prazeres, Guararapes, Canarinho, Lapa (que também é bloco) e vamos formar uma escola de samba. P/1 — Então, agradeço o seu depoimento. Muito obrigada pela participação. R — Obrigado a você. --- FIM DA ENTREVISTA---
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