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História

Os caminhos da superação

História de: Sophia Bisilliat
Autor: Nádia Lima
Publicado em: 18/02/2019

Sinopse

Sophia nasceu em São Paulo em 28 de março de 1963, desde pequena enfrentou o desafio de viver em uma família distante dos padrões tradicionais. Filha de pais separados, com irmãos de ambos os lados, sempre foi um enorme desafio para Sophia viver em uma família fragmentada, onde relata ter vivido uma infância difícil. A escola foi um ambiente de muita luta, mas também de conquista e superação, ao lado das amigas, por seu esforço, se colocou entre os melhores alunos da classe. Aos 13 anos começou o ballet e aos 20 já era bailarina profissional, passando posteriormente pelo teatro e circo. Adepta ao uso da bicicleta como meio de transporte, até hoje Sophia trabalha com o corpo em movimento. Sempre muito curiosa, tinha um enorme desejo de conhecer o sistema prisional, até participar do projeto Teatro no Presídio e passar a dar aula no presídio Carandiru. Envolvendo-se assim em um universo ao qual passaria muito anos dedicando sua vida e seu trabalho. Mesmo como mãe de Julia e de Jacques, continuou envolvida em seus projetos dentro do Carandiru. Entre idas e vindas, além do teatro, trouxe amigos e outros profissionais para realizarem atividades como voluntários, tocou ações para reformar escola, organizar desfile de moda, chegando a descobrir talentos aprisionados. Em 2001, com a sua mãe Maureen Bisilliat, o jornalista André Caramante, a arquiteta Ruth Klotzl e os fotógrafos João Wainer e Pedro Lobo, desenvolveram o livro Aqui Dentro. Páginas de uma memória: Carandiru, entrevistando moradores e documentando o seu cotidiano nos últimos anos do presídio. Trabalho fundamental para o Espaço Memória Carandiru. Não mais envolvida com o sistema penitenciário, atualmente Sophia é professora e desenvolve projetos em comunidades, levando a atividade física para as lajes da zona sul.

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História completa

Eu me chamo Sophia Bisilliat, nasci em São Paulo, 28 de março de 63.

Minha mãe trabalhava muito, ela viajava muito e o meu pai era um cara um pouco armagurado. Era uma família muito complicada porque tinha filho dele, filha dela, tudo meio solto por aí e eu era a filha dos dois. Então, tinha certa culpa de eu ser filha de pai e mãe que estavam ali. Cada um estava meio fragmentado e cada um meio jogado num canto, era uma família que realmente não foi muito preparada para ter filhos. Tinha pouco contato com ela, porque ela viajava realmente muito, então ela cuidou pouco da gente, de mim, basicamente. Ela me vestia de forma muito estranha, sempre de preto. Todas as roupas eram pretas e, logicamente, eu comecei a sofrer o maior bullying na escola. Eu era muito estrábica, tinha óculos, eu usava tampão. Então foi uma infância dura, assim, de não ter muita lembrança boa. E aí, com o tempo, eu falei: “Eu vou virar essa página”e comecei a me associar com as pessoas… As melhores alunas. “Eu vou ficar amiga delas”, e aí, virei o jogo totalmente e me transformei na oradora da turma no final, na formatura. Foi bacana. Foi uma conquista para mim porque eu sofri demais.

O meu pai era um cara que eu não sabia muito o que ele fazia. Eu fui saber quando ele teve uma loja. Ai, ele estava mais feliz, porque ele não era uma pessoa muito feliz. Ele tinha uma loja de arte popular brasileira, então ele ia viajar pelo norte a busca de material, chegava com a Kombi abarrotada e aí ele estava feliz. Ele teve uma loja, ele trabalhava numa… Eu não sei, eu nunca soube. Meu pai sempre era um mistério.

O meu pai… Eu vim saber bem depois desse trabalho aqui que ele tinha sido preso durante oito anos na França. Ele tinha 16, 17 anos e ele resolveu lutar pela Resistência contra a França. Ele achou bacana, se juntou com mais três que tinham um avião, não sei direito e começaram a bombardear a França pelos alemãesE quando eu falei que eu ia tinha vontade de trabalhar em presídio, ele logo topou, ele achou legal. Ela não topou, ela achou que aquilo não ia ser legal, se assustou: “Que absurdo”, e aquilo não me importava porque eu ia fazer de qualquer maneira. Ele falou: “Deixa, a vida é dela, ela faz”

Eu comecei com 13 (o ballet) e dali, então, eu nunca mais parei com atividade física. Ai, eu me tornei uma bailarina profissional e dancei até 20 e tantos, ai fui para o teatro, do teatro, eu fui para o circo, comecei a migrar e ir sempre com o corpo em ativa.

O meu irmão namorava a filha do Zaragoza, da DPZ, né? Ela era muito parecida comigo, o cabelo… A gente tinha um cabelo muito grande, todo frisado. Ele quis começar a fazer umas fotos comigo. Aí eu entrei também para a propaganda, comecei a fazer propaganda, que foi muito bom pra mim, porque financeiramente foi ótimo porque os cachês eram muito altos. E o Zaragoza quis fazer, filmar e me apresentou na agência, imagina, me apresentou na agência… Não tinha como não fazer. Era incrível! E ai, nossa, eu fiz muito filmeFiz novela e travou aí, fiz umas duas ou três novelas. Pouco. Eu fiz uma na Manchete, duas na SBT e uma participação na Globo.

Ai, veio a fase do teatro, né, Antunes e Romeu e Julieta a gente fez. Foi legal, foi uma experiência marcante… 

E ai, eu comecei a fazer teatro e ai, começou a chegar perto do Carandiru, né? Eu ensaiava uma peça infantil em Santana, pegava o metrô todo dia e passava na frente daquele lugar, eu falei: “Meu jesus, o quê que é isso?”, parava, olhava e falava: “Nossa, ainda vou entrar ai dentro”.

E aí, num desses momentos, eu falei: “Bom, então vou dar aula de teatro, sou atriz, vou dar aula de teatro”, e aí, comecei a fuçar aqui, fuçar ali, fuçar até conseguir, comecei a ligar, ligar, ligar, um passava para o outro… Eu acabei com o Sérgio Mamberti na Cultura e falou: “Tem um pessoal que chama FUNAP, que é Fundação de Amparo ao Preso e vai lá”. Fui lá, eu era uma menina, eu acho que eu tinha 18, eu falei: “Eu queria dar aula de teatro”. Muitos não entendiam o quê que eu estava fazendo ali. “Mas o que ela tá fazendo aqui, nesse lugar podre?”, e isso foi indo, foi indo e a gente fez uma peça. Aí, esse grupo se dissolveu. Esse grupo se dissolveu e aí, eu continuei, eu falei: “Mas eu quero continuar”, e eu acho que já eu queria vim para o Carandiru, que era mais fácil, porque eu poderia ir mais vezes e porque queria conhecer. Então, a gente foi para o Carandiru, eu não sei como foi esse acesso, mas já era uma turma, tinha músico, tinha uma diretora de teatro e eu era a parte de corpo e cenário, figurino e tal. Aí, foi uma coisa mais consistente, mesmo, foram meses e meses. E aí, a gente fazia ensaios e fazia todo um figurino, conseguia reciclar… Material reciclado, era muito legal, mesmo. Ah, os aplausos e, depois, eles foram falar com eles, né? Todo mundo ia falar: “Nossa, você foi muito bem, não sei o que…”, e eles… Essa semana de ensaio, eu ficava totalmente sem voz, de tanto que a gente tinha que se dedicar… Eu estava grávida acho que da minha primeira filha, mas eu não estava nem aí, sabe, eu estava lá e estava maior… Era trampo, mas era trampo, muito! E além da coreografia, eu ainda tinha que fazer todo o cenário, figurino, tal… Então era assim, uma coisa assim… Mas era muito gratificante, porque a gente saía de lá oito horas da noite e eu conseguia deixar eles fora da tranca um tempão. Então, o finalzinho sempre era o melhor, porque eles ficavam fora da tranca. Era muito legal. E aí, quando a gente saía, a gente andava pelo presídio à noite e eles fora da tranca, então era toda uma sensação assim, sabe? Mas era muito… Foram momentos muito fortes, muito fortes. Tiveram acho que duas ou três apresentações e aí, esse grupo se dissolveu de novo.

E aí, eu comecei a inventar coisas para fazer. Aí, eu comecei a reformar as escolas. Eu sempre fui muito boa para pegar recursos, recursos não, doação. Adoro assim… Não é que eu adoro, mas eu visto a causa. Então, eu comecei a achar material de construção, eu tive uma pessoa que tem muita condição e que me deu muito material. Aí, vamos fazer a enfermaria, a enfermaria tá precisando reformar também… Aí eu fui indo. E aí, eu resolvi oferecer cursos de pessoas que queriam conhecer, porque sabiam que eu trabalhava daqui… Que queriam conhecer lá, falei: “Então, você vai oferecer um curso, porque ir lá por ir, não vai, tem que oferecer um curso disso ou daquilo.  E aí, começou a vir um monte de cursos. Um monte de desenho, e de literatura.

Cada pavilhão tinha uma escola e várias igrejas. Então, tinha igreja de todos os tipos: evangélica, católica, candomblé, todas, todas. Então, na parte de baixo era o convívio em comum, onde eram as igrejas, as escolas, a enfermaria, onde ficavam os funcionários, enfim, a faxina, onde a faxina se reunia, tal. E aí, começou a oferecer cursos, foi ótimo. E aí, o Fernando começou a juntar… O curso dele era assim, ele ficava lá conversando com as pessoas. E eu deixava ele lá e falava assim: “Fernando, daqui três horas eu te pego”, aí já tinha muita coisa para fazer. Aí, realmente eu inventei muita coisa e realmente tinha muita coisa para fazer. E aí, era ver uma obra ali, como se fosse uma empreiteira. E aí, eu resolvi fazer um concurso de música

E a favela é exatamente a mesma coisa, só que eles não têm grades. Não tem grades, mas tem, porque eles ficam lá e para pegar três conduções para vir para o lado de cá, eles não vêm. É muito caro, entendeu? Então é a mesma coisa. Eu estou na favela no Capão Redondo. Mas agora eu trabalho com as mulheres. Trabalho só com as mulheres e as crianças e aconteceu muito por acaso.

 

Agora estou nesse projeto aí, no Treino na Laje, eu quero que ele dê certo. Eu quero que replique em outras comunidades e que as mulheres tenham… não que sejam só mulheres, podem vir homens também, mas é assim, que eles pensem mais neles, na atividade física e pensar um pouco mais saudável, porque vai desde a alimentação até a atividade física, né, até a autoestima e tal.

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