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História

"Os Beatles me levaram para música"

História de: Flávio Venturini
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 20/07/2005

Sinopse

Flávio Venturini cresceu ouvindo sua mãe cantar e convivendo com músicos que se hospedavam na pensão de sua mãe. Aprendeu a tocar acordeão, mas decidiu-se pelo piano. Logo vieram os Beatles e Flávio começa a tocar. Nesta entrevista, ele fala de sua formação musical e como foi tocar em bandas como O Terço e com integrantes do Clube da Esquina.

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História completa

P/1 - Flávio, eu queria que você começasse dizendo seu nome completo.

 

R - Flávio Hugo Venturini.

 

P/1 - Local e data de nascimento?

 

R - Eu nasci em Belo Horizonte em 23 de julho de 1949.

 

P/1 - O nome completo dos seus pais?

 

R - Hugo Venturini e Dalila Vieira Venturini.

 

P/1 - Qual era a ligação dos seus pais e avós com a música? Existia alguma ligação?

 

R - Não era uma família exatamente de músicos, não. Eu me lembro que a minha mãe gostava muito de música e cantava muito pra mim, isso é umas das coisas que eu me lembro na infância. Ela sempre falava de alguma canção que ela gostava, ela cantava; ela estava ali trabalhando, ela estava cantando. O meu pai já não era tão ligado em música; gostava, mas da maneira dele. Estava sempre no trabalho, não ficava muito em casa, não.

 

P/1 - E essas músicas que ela cantava, o que era? Eram músicas infantis? Que tipo de músicas eram?

 

R - Não, eram as músicas dos cantores brasileiros: Chico Alves, Nelson Gonçalves, esse grandes cantores do passado. Carmem Miranda, ela sempre saía com alguma canção que ela cantava. Coisas mineiras, as modinhas mineiras. Ela tinha esse acervo na cabeça, ela estava sempre cantando alguma canção.

 

P/1 - E tinha um rádio ligado? 

 

(PAUSA)

 

P/1 - Eu estava te perguntando em relação ao rádio. Já que ela cantava muito, de onde vinha esse conhecimento?

 

R - Tinha aquelas radiolas antigas lá na minha casa; tinha um som bom demais, aquelas que tinham um falante pro chão, embaixo. Eu me lembro de uns discos, me lembro de um disco de Chopin que eu particularmente adorava, que tinha Polonaise Militar, tinha um disco de Schumann e lembro de um disco de Luiz Gonzaga que eu era apaixonado, era um disco [de] canções do Luís Gonzaga. 

Tinha uns discos de tango, de sei lá, Trio Irakitan, era uma coisa que eu gostava. Gostava de bolero, mais tarde eu me lembro também de um disco de Bossa Nova. Foi a primeira moderna que eu me lembro de ter visto na música brasileira, foi uma coisa tão diferente, do Ronaldo Bôscoli, se não me engano; tinha Lobo Bobo, era uma das que eu gostava. 

Mas eu tinha essa relação com rádio, um dos primeiros presentes que a minha mãe me deu foi um rádio. Eu me lembro que eu andava com esse rádio para tudo quanto era lugar, viajava, levava o rádio. Era um rádio portátil já, era muito moderno para época, um rádio portátil desse tamanho, umas pilhas imensas, mas eu ouvia aquilo o dia inteiro. (risos) Eu me lembro de uma canção do Moacir Franco, Suave é a Noite, que eu adorava; Rita Pavone, Johnny Metz cantando Tonight, que era uma coisa que eu chorava. Toda vez que eu ouvia essa música eu chorava, não sei por que; saía correndo pela rua, me dava uma coisa louca quando eu ouvia Tonight. Outro dia fui ouvir a gravação, não senti nada. Falei: “Hum, que engraçado.” Achei bonita, mas essa é coisa de infância, a gente descobrindo a música mesmo.

 

P/1 - Quantos anos você tinha?

 

R - Isso eu devia ter dez, doze anos. Mas aí veio a primeira grande coisa que me amarrou mesmo, foi os Beatles. Eu tinha já toda essa informação de criança, de canções que gravitavam em torno da minha cabeça, mas quando eu ouvi uma música dos Beatles eu pirei mesmo. Eu acho que foi a primeira vez que eu senti que eu podia ser feliz. (risos) 

Eu sempre descrevo assim, a primeira vez que eu ouvi uma canção dos Beatles era aquele compacto que fez sucesso com I wanna hold your hand e She loves you do outro lado. Aí eu comecei a ir atrás dos discos, foi uma coisa muito forte mesmo a coisa dos Beatles. 

Atrás disso, vem… Naquele tempo entrava, como hoje… Os estrangeiros entram muito no Brasil, mas aí começava a entrar várias bandas de rock da época, dos anos 60. Eu comecei a ouvir tudo aquilo misturando com essas coisas que eu ouvia aqui. Eu ia muito para o interior, ia muito para Bambuí, que é a terra dos meus pais e aí eu comecei a ouvir muita música, comecei a comprar discos. 

Eu me lembro que uma coisa que eu adorava era Tropicália. Eu fui mais ligado na Tropicália do que na Bossa Nova. Eu acho que eu descobri mais a Bossa Nova quando eu mudei para o Rio de Janeiro, muitos anos mais tarde. E eu gostava muito, tinha os discos do Caetano, do Gil, dos Mutantes. 

Essa coisa toda dos Beatles eu acho que me fez realmente, me levou para música; tinha aquele sonho de um dia tocar em algum grupo, alguma banda, sei lá. Até que um dia eu comecei a tocar em baile. Eu também queria ser jogador de futebol na época, jogava bola o dia inteiro e comecei a estudar à noite para jogar bola durante o dia. Sentou atrás de mim um amigo, um grande amigo até hoje; um ator aqui de Belo Horizonte, chamado Kimura. Ele tocava uma gaitinha, sentava atrás de mim; tinha um piano no corredor da escola e a gente, nos intervalos, ficava ali fazendo um som. Eu tinha começado a estudar piano um pouquinho, tinha ganhado um acordeom. O primeiro instrumento tinha sido um acordeom que a minha mãe me deu também, que foi a minha iniciação mesmo com a teoria musical, porque eu tinha aulas. Meu pai tinha um restaurante e nesse restaurante tinha um piano, tinha som à noite; tocava um trio, Piano Bar mesmo. Eu ia para lá de tarde, começava a tocar. 

Engraçado, eu tinha aquelas revistinhas do Beatles porque eu era fã mesmo, daqueles de comprar revistinha de fofoca, “Paul McCartney está namorando não sei quem”, aquelas coisas. (risos) E vinham umas letras dos Beatles, só que não saíam os discos originais no Brasil. Sempre eles faziam umas coletâneas, demorou a discografia dos Beatles a sair inteira no Brasil. Então tinha umas músicas que eu não conhecia, não tinha a melodia e estava ali à letra, aí eu fazia uma melodia para aquelas letras que eu não conhecia. Hoje eu vejo que já era uma veia do compositor, porque como eu não tinha canção, eu inventava.

 

P/1 - E quantos anos você tinha nessa época?

 

R - Eu tinha uns quinze, dezesseis. Meu pai acabou me dando o piano quando viu que eu ficava ali tocando a tarde inteira. 

Eu comecei a estudar piano, entrei na Fundação de Educação Artística aqui em Belo Horizonte e abriu um mundo novo para mim. Não só a teoria, de conhecer outros músicos, inclusive Toninho Horta fazia parte da turma de teoria musical. E aí eu comecei a ir aos festivais, porque a Fundação de Educação Artística promovia os Festivais de Inverno da época. Foi uma época maravilhosa, acho, para todos os músicos que puderam fazer os cursos e frequentar o Festival de Inverno dessa época.

 

P/1 - Qual era essa época?

 

R - O final dos 60, para começo dos 70. Eu lembro que no primeiro Festival de Inverno que eu fiz eu tive aula com Rogério Duprat de cara, e na primeira aula ele colocou o Yes. (risos) Aquilo ali para a gente era muito novo e estava começando, era informação atrás de informação. Ali eu tive aula com Walter Smetak, que foi um grande bruxo, músico fantástico, criador de instrumentos que influenciou muito o grupo Uakti, inclusive; com Ernst Widmer, que é um grande maestro suíço que trabalhava com a Escola de Música da Bahia, que era uma escola muito importante na época. E [com] Bruno Kiefer, um mestre da harmonia. 

Ali eu fui conhecendo muitos músicos e nesse meio tempo rolava os festivais de música. Eu continuava tocando em baile, tinha largado o futebol e resolvido que eu queria ser músico. Primeiro eu estava tocando em conjunto de baile, aquela história que eu comecei a contar do Kimura - eu saí por uma outra via dali, eu entrei no conjunto de baile que ele tocava. A gente tocava em bailezinhos em Belo Horizonte, Hora Dançante. Quando eu saí do Exército, eu entrei num outro grupo de baile também. 

 

(PAUSA)

 

P/1 - Flávio, eu queria que você falasse um pouquinho, voltando para a sua infância, sobre a rua que você morava nesse período dos doze anos. Você poderia descrever o bairro como que era? O que é que você se lembra?

 

R - Eu nasci ali perto da Praça Sete, atrás do Cine Brasil, onde é hoje o Banco de Londres, não sei. A minha mãe tinha uma pensão, mamãe sempre mexeu com isso; meu pai tinha restaurante. Mas a minha infância mesmo foi passada ali na esquina de Rua Tupis com Rio de Janeiro, atrás da Igreja São José. Minha mãe tinha uma pensão ali de oitenta quartos, que tinha um quintal imenso que era meio o meu mundo. Eu vivia muito ali naquele quintal e adorava pular muro para roubar jambo do vizinho e brincar com a garotada. Uma coisa legal que tinha nessa pensão é porque tinha cinema. Eu me lembro que ela tinha um paredão atrás e a gente às vezes tinha sessão de cinema, o pessoal projetava filmes ali. É uma primeira relação com a arte, eu lembro que eu gostava muito e...

 

P/1 - Quais filmes você via na época?

 

R - Eu não me lembro, é uma coisa muito antiga. Tinha muito cinema na rua na época. Eu lembro que eu ia muito à Praça Raul Soares ver cinema ao ar livre, tinha muito naquela época. 

Tinha um lugar ali, onde é um outro mercado, sem ser o outro Mercado Municipal que ele era depósito, onde se guardava os bondes da cidade. Naquela avenida eles colocavam um telão e passava cinema também, era uma coisa que eu gostava muito. Mas era uma vida muito de brincadeiras, depois é que eu comecei mesmo a sair mais de casa. Eu era um garoto muito caseiro. 

 

(PAUSA)

 

P/2 - Flávio, quantas pessoas eram em casa? Era uma família grande?

 

R - Não, eu tenho só mais um irmão com a minha mãe, o Cláudio, que é oito anos mais novo que eu. O Cláudio nasceu em 1958. Meu pai tinha sido casado antes, ele ficou viúvo e casou com a minha mãe, então ele tinha quatro outros filhos, mas que não moravam com a gente; o mais novo, que morou um tempo, é o Antônio. O Antônio foi que me deu meu primeiro violão, eu me lembro que foi uma outra primeira relação com a música. 

O Antônio talvez seja o único irmão da família que eu me lembro que tinha alguma relação com a música; não era violonista, mas ele gostava de ter um violão e tocava e acabou me dando esse violão também.

 

P/1 - E de brincadeiras? Você gostava de subir em árvores para colher jambo e o que mais?

 

R - Eu sempre gostei de futebol, gostava de bater bola, essas coisas. Gostava muito de cinema. Eu morava ali perto, morava na Rua Rio de Janeiro com Tupis - era do lado do Cine Tupi, então eu ia muito a cinema; muito desenho animado, era uma coisa que eu gostava, e escola. Eu sempre fui um garoto muito tímido, muito quieto, muito no meu canto, acho que tem a ver um pouco com a introspecção que me levou para a música. 

Futebol foi uma descoberta mesmo na minha vida, porque acho que me libertou um pouco de ficar em casa. Eu tinha uma irmã que morava no Padre Eustáquio e eu ia pra lá e passava o dia inteiro jogando bola. Tinha os campos de várzea, campo do Cruzeiro do Sul, do Paulistano e eu tinha já a minha turma. Eu tinha um sobrinho que na verdade é como se fosse irmão, porque ele tinha um ano a menos que eu, que era o Gilson; ele foi como um irmão para mim. A gente jogava bola o dia inteiro e ele foi o meu companheiro de ouvir Beatles também, quando a gente descobriu os Beatles.

 

P/1 - E quem comprava os discos pra você?

 

R - Eu mesmo comprava os discos. Tinha uma loja na Rua Espírito Santo, eu não me lembro o nome mais, tipo um grande magazine onde a gente sempre encontrava os discos dos Beatles. Gostava às vezes de sair para pescar também, tinha uns amigos que iam muito aqui para o Rio Paraopeba pescar e era uma coisa que me divertia também. Eu sempre gostei muito de mato; eu sou um garoto de cidade, mas que sempre adorou ir pro mato. 

Como a minha família é de Bambuí, eu ia muito para Bambuí. Minha mãe não tinha muito tempo porque cuidava da pensão e ela deixava eu ir. Com sete anos, eu pegava um trem na estação de Belo Horizonte, ali na Central mesmo, e aí [ia] para Bambuí. Chegava lá às cinco da madrugada, sozinho, com minha mala.  Só não gostava muito de passar perto de cemitério que tinha. Eu morria de medo, passava de olho fechado pelo cemitério. No quarteirão do cemitério, eu ia de olho fechado para não ver. Coisa de criança mesmo.

 

P/1 - E essa pensão que a sua mãe administrava, como era? Como eram as pessoas que viviam na época?

 

R - Eu me lembro que sempre tinha uma relação carinhosa para com os hóspedes. Tinha um hóspede que era um grande maestro de Belo Horizonte - eu não vou me lembrar o nome dele, infelizmente. Ele tinha um piano no quarto e minha mãe falava que eu com quatro, cinco anos… Ela me pegava às vezes dormindo com o ouvido na porta do quarto dele, eu ficava ali ouvindo música até dormir. Ele ficava estudando, tocando, sei lá. Eu já gostava de música.

 

P/1 - Você acha que a sua primeira lembrança de alguma relação musical vem dessa história?

 

R - Eu acho que sim, talvez tenha sido por aí, porque que tinha uma pessoa que tocava em casa. Engraçado que o [Alberto] Guignard morou nessa pensão da minha mãe e eu me lembro dele; me lembro que ele me retratou garoto e nos deu esse quadro, que sumiu com o tempo. Esse quadro está perdido no mundo. Eu sei que esse quadro se chamava O Menino do Terninho. Eu estou de terninho azul marinho e ele ficava me dando bombons, balas pra ficar quietinho lá e ele me retratar. (risos).

 

P/2 - Flávio, onde você estudou?

 

R - Eu estudei… Deixa eu me lembrar. O nome das escolas, eu não consigo me lembrar mais. Aqui na Paraná, como chama como chama aquela avenida atrás da Paraná?

 

P/2 - Olegário Maciel.

 

R - É, Grupo Olegário Maciel. (risos) Estudei ali no grupo, depois eu estudei no João XXIII. Estudei também… Acho que era Paulo VI, um outro colégio aqui mais no Centro. E por último, quando eu já estava jogando bola e eu fui estudar à noite, eu fui para o Anchieta. 

Eu estava meio com medo de pegar Exército, começaram a me falar: “Você vai pagar exército pesado.” Aí eu falei: “Vou fazer o curso para o CPOR [Centro de Preparação de Oficiais da Reserva], porque eu não vou passar mesmo”, aí passei. (risos) Fiz o CPOR, que foi legal também pra mim porque lá eu conheci o Vermelho, que foi um grande parceiro na minha vida. A gente concorreu para fazer o hino do CPOR e ele conseguiu fazer a letra, porque eu não consegui, e o hino do CPOR até hoje é dele. (risos)

Logo que eu saí do Exército ele bateu um dia na minha casa e disse: “E aí, você é o aspirante Hugo?”, tenente na época. (risos) “Eu sou Castro Moreira, vamos fazer música?” Ele veio até morar com a gente um tempo, ele é de Barbacena. Foi um parceiro que me ajudou muito a entrar na música mineira e foi aí que a gente descobriu os festivais.

 

P/1 - Você sente uma influência? Ele chegou a te influenciar de alguma forma?

 

R - É, o Vermelho tinha uma formação muito clássica. Ele estudou em colégio de padres alemães que ouviam muito barroco, muito clássico. Ele me trouxe uma informação de música erudita muito legal, ele me ajudou a sair. Uma influência grande que eu tenho na minha música é a influência da música barroca. Acho que ele foi importante e como primeiro parceiro também, a gente acabou mais tarde fazendo o 14 Bis. A gente descobriu os festivais, a minha primeira música em parceria com ele se chama Espaço Branco e a gente ficou em primeiro lugar no Festival de Música Estudantil. A música foi defendida pelo grupo O Terço na época e aí já é uma outra vertente na minha vida.

 

P/1 - Então quer dizer que este encontro aconteceu no Exército?

 

R - Aconteceu no Exército, mas a gente já se conhecia de vista. Depois mesmo que ele soube que eu trabalhava com música, que eu tocava em grupos de baile. Ele bateu na minha casa e a gente começou a trocar ideias, cada um com uma informação. Foi um encontro muito importante na minha vida, musicalmente.

 

P/1 - E você continuou no Exército? Como foi sua relação com o Exército?

 

R - Não, eu saí. Eu só fiz um estágio que você fazia para ser promovido a tenente, mas eu não tinha nenhuma intenção de seguir carreira militar. Eu só acho que foi uma coisa legal porque eu era um garoto muito fechado e o Exército te joga em um mundo real. E também foi bom porque tinha muito esporte. Como eu fazia artilharia, a gente viajava para acampar aqui perto em Água Limpa, aqui perto de Belo Horizonte. Eu gostava um pouco daquilo, fiz muitos amigos, amigos que eu tenho até hoje. Foi legal.

 

P/2 - Flávio, como foi esta passagem, sair do Exército e iniciar uma carreira profissional como músico?

 

R - Quando eu saí do Exército eu toquei em uma banda de baile que se chamava Os Turbulentos, que já era uma das melhores de Belo Horizonte. Concorria com uma outra chamada Gárgulas, na época era uma rivalidade danada e a gente tocava nos melhores bailes da cidade. E ali eu cantava de tudo: música internacional, música brasileira, cantava muito Beatles.

 

P/2 - Você só cantava?

 

R - Cantava e tocava órgão. Mas logo, logo eu fiz uma outra banda com o Vermelho. Eu já tinha conhecido o Vermelho, aí a gente começou a compor e a descobrir o outro lado da música. 

Teve um festival em Belo Horizonte que eu considero importantíssimo, não só pra mim como também para todos estes compositores que participaram, ele se chamava Festival Estudantil da Canção. Eu também não me lembro o ano exato, acho que foi 1970. Esse festival foi na antiga Secretaria de Saúde, hoje Minas Centro. E nesse festival, só pra se ter uma ideia, tinha Milton Nascimento e Márcio Borges com Clube da Esquina 1, que não foi classificada. (risos) Toninho Horta com duas músicas - uma era Liana, eu acho, eram duas músicas muito lindas. Tinha Túlio Mourão, com Refracters, Tavinho Moura com Como Vai Minha Aldeia, Lô Borges e Beto Guedes juntos cantando Equatorial, que pra mim foi a melhor coisa do festival. Tinha Sirlan e estes principais membros do Clube da Esquina já estavam ali fazendo música num nível muito alto.  

Aquilo pra gente foi uma descoberta, porque a gente estava um pouco mais verde do que esta galera. A gente estava começando a compor, mas isso incentivou muito a gente, ter visto a música mineira ali, no embrião na coisa do Clube da Esquina. Ainda não tinha saído o disco Clube da Esquina e nisso conhecemos várias pessoas e ficamos mais amigos do Beto, porque a gente tinha ficado apaixonado pela música Equatorial, e o Beto se tornou um amigo muito querido. A gente começou a tocar juntos e a minha mãe tinha essa pensão; já era outra, perto do colégio Arnaldo, aí amanhecia e o Beto já estava lá tomando café com a minha mãe. Ele acordava cedo e ia pra lá para tocar, porque tinha uma garagem onde a gente fez um estúdio.

Nessa garagem, mil coisas aconteceram. Teve um show chamado O Fio da Navalha, que eu acho que também é uma parte da história do Clube da Esquina; esse foi show foi praticamente criado e ensaiado lá nesse estúdio. Eu me lembro do dia que nós fomos buscar o piano do Lô lá em Santa Tereza e eu fui ajudar a carregar e o piano caiu na minha mão. Eu fiquei com três dedos desse tamanho e falei: “Ah, eu não vou ser músico mais” (risos), mas graças a Deus foi só ali naquela hora. E ali a gente tocava, o Lô vivia lá, o Beto vivia lá, o Toninho. Ali eu conheci aquele grande sucesso do Toninho, Beijo Partido; ele tinha acabado de compor e a gente ficou o dia inteiro tocando aquela música. O Lô chegava com aquelas canções maravilhosas. 

O Beto, na época, não terminava as músicas dele. Ele tinha uma fita, a famosa fita do Beto, que ele guardava a sete chaves onde ele tinha milhares de melodias lindas, mas ele nunca terminava, não tinha letra, era só pedacinho. Eu me lembro que o Vermelho foi um dos que ficou: “Beto, você tem que terminar uma canção”. O Beto, “Ah, eu não gosto de letra.” Até [que] ele encontrou o Ronaldo Bastos, também... (risos). Daí a gente começou até a sonhar com uma banda: eu, Beto, Vermelho, tinha o José Eduardo, que é um outro compositor que eu considero importante dessa época, o Heli, baterista, também já freqüentava lá; meu irmão Cláudio começou a ver todo mundo tocar e ficar fascinado por aquilo, começou a tocar com o Lô. 

A gente fez esse show, O Fio da Navalha, porque nisso continuou a coisa dos festivais. Depois desse festival FEC, em que eu conheci todo mundo, aconteceu da gente começar a se encontrar. Tinha um futebol na casa do Toninho Horta, um dia o Sirlan me levou lá e eu acabei de conhecer todo mundo mais pessoalmente e ficamos amigos. Por coincidência, o Lô estava lá nesse dia, porque ele já morava no Rio com o Milton e já estava no processo, criando o Clube da Esquina com o Milton; e também logo o Lô já partiu para um disco solo. 

Nesse meio tempo, o Sirlan, que era um cara muito meu amigo na época, que também faz parte da história do Clube da Esquina, foi classificado para o Festival Internacional da Canção - foi o último Festival Internacional da Canção -, e convidou a mim e ao Beto para tocar com ele. Eu me lembro que foi muito legal. Foi a música Viva Zapatria, foi uma das músicas classificadas e ficou até o final do festival. Eu tocava órgão, o Beto tocava baixo, o Sirlan tocava violão e o arranjo era de César Camargo Mariano. O Maracanãzinho lotado, com 25 mil pessoas; aquilo foi um impacto muito grande para mim.

 

P/1 - Você tinha quantos anos?

 

R - Isso foi 1970, 1971, então eu tinha 21 anos.

 

P/2 - E de quem era a letra?

 

R - A letra é de Murilo Antunes, que ficou meu amigo, começamos a compor nesse época. Na coisa do Sirlan eu conheci o Murilo e nesse mesmo dia do futebol eu conheci a galera toda. O Rio também foi uma grande descoberta para mim, porque aí eu conheci o meio musical dos festivais do Rio, gravamos com Sirlan. 

Nesse meio tempo, tinha saído o Clube da Esquina e foi realmente um tapa na cara total. A gente ouviu e não acreditou, eu senti a mesma coisa a mesma coisa que eu senti quando eu ouvi o primeiro disco dos Beatles, foi muito emocionante. Eu me lembro até hoje, e talvez por causa disso até hoje a música que eu mais gosto seja a primeira música do disco, Tudo que Você Podia Ser, do Lô e do Márcio. O disco é muito lindo e eu acho que mudou a cabeça de muita gente no mundo inteiro. 

Eu cheguei a ir um dia na gravação do Clube da Esquina porque a gente tinha essa coisa de tocar com o Beto, ele já estava também lá gravando com o Milton e com o Lô. Um dia eu fui ao Rio e eles estavam lá, gravando. Eu me lembro que entrei no estúdio e eu não conhecia o Milton ainda; conheci todo mundo que estava tomando café lá embaixo, conheci o estúdio. E tempos depois, em uma outra ida ao Rio, o Lô já estava gravando o disco do tênis e a gente estava lá por causa do Sirlan, gravando Viva Zapatria; Lô mal me conhecia e me chamou para gravar, eu e o Vermelho. Eu me lembro que foi uma coisa muito generosa dele, me lembro com muita alegria disso, porque a gente ficou muito feliz de entrar no estúdio, pra gente era uma coisa, estúdio da EMI, um estúdio grande, maravilhoso. A gente gravou no disco do tênis com o Lô e continuava sonhando em fazer uma banda com o Beto, porque a gente tocava muito juntos.

 

P/1 - Só voltando um pouquinho a gravação do Clube da Esquina 1. Você descreveu que entrou no estúdio e ficou de espectador. Qual foi a sua ...

 

R - Eu não cheguei a ver um gravação, não. Eu não era tão amigo deles, íntimo pra ficar ali e não queria incomodar. Eu fui mais para conhecer e encontrar com o Beto. Ele falou: “Vem cá, para vocês conhecerem” e aí mostrou todo o estúdio, apresentou as pessoas. Eu lembro que eu conheci o Novelli, conheci o Wagner Tiso nesse dia, o Fredera, o pessoal do Som Imaginário, que a gente já conhecia dos shows do Milton... Na época daquele primeiro disco do Milton que ele gravou com o Som Imaginário. A a gente tinha meio que conhecido o trabalho do Milton ao vivo. Era muito lindo aquele disco. Eu fiz só esse primeiro contato e voltamos a Belo Horizonte, continuamos tocando e fazendo os shows O Fio da Navalha

Nesse disco do Lô, do tênis, a gente gravou uma música dele e do Márcio que chamava Fio da Navalha e acabou que começamos todos a querer fazer um show e todo mundo querendo mostrar música nova. Eu morava perto do teatro Marília e falei: “Vamos fazer aqui no teatro Marília um show.” Desse show o Lô participava, o Beto, o Toninho, o José Eduardo, eu, o Vermelho, o Heli - não sei se eu estou esquecendo alguém. Era uma coisa muito louca, porque a gente era muito desorganizado. A gente não sabia o que era o showbiz, fazer um show, mas tinha uma verdade muito grande, porque era todo mundo muito novo fazendo música já de muita qualidade. Foi muito legal, foi muito emocionante. Todo mundo chorava, cantava as músicas; alguém foi buscar o Toninho porque ele estava chorando lá no fundo, porque ele não queria… Aquelas coisas. (risos)

 

P/1 - E por que era desorganizado?

 

R - Porque ninguém tinha ninguém para orientar a gente, não tinha. 

 

P/1 - Como que acontecia o show? Tinha uma abertura?

 

R - Eu nem sei quem produzia isso, na verdade. Tinha o Tavinho Moura, esqueci de falar com o Tavinho. Eu nem sei quem produzia, eu sei que a gente conseguiu alugar o teatro e fazer, mais tarde a gente até fez isso mais organizadamente. Fizemos até no Palácio das Artes, fizemos no [Teatro] Chico Nunes. Era sempre um encontro de compositores que mostravam a sua música e o Marcinho batizou de Fio da Navalha, precisa de um nome, não é?

 

R - Vocês chegaram a fazer quantos shows desse? Você lembra?

 

R - Eu me lembro desse primeiro do teatro Marília, eu me lembro de um em Caxambu, que foi um desastre. (risos) Eu me lembro de um em Montes Claros que foi outro desastre, mas a gente não estava nem aí, era tudo farra, entendeu? Eu me lembro que fui de trem com o Lô e o pessoal foi de ônibus. Não tinha muito público, ninguém conhecia a gente. Depois a gente fez no Chico Nunes e começou a ser mais legal, aí já tinha público. Depois fizemos no Palácio das Artes, aí a coisa já estava mais organizada. (risos)

 

P/1 - E o que você chama de “um desastre”?

 

R - Eu falo um desastre assim: não tinha público, era mal organizado, mas ao mesmo tempo era maravilhoso, era muito emocionante. Pra gente era uma realização conseguir fazer um show, todo mundo junto, a gente sabia que aquilo ali era importante pra gente. A gente sabia que a gente estava fazendo uma coisa boa, essa consciência a gente tinha; todo mundo sabia o valor que tinha, acho que isso é que é legal.

 

P/1 - Voltando só um pouquinho aos encontros. Você falou um pouquinho como você encontrou o Vermelho, como você conheceu o Milton. Eu queria que você explicasse um pouquinho mais como você conheceu os Borges e, posteriormente, o Milton Nascimento.

 

R - Dessa época que eu comecei a conhecer o Beto, aí a gente conheceu toda essa galera na casa do Toninho, começamos a ficar amigo de todo mundo. Eu fui várias vezes na casa do Lô em Santa Tereza, o Lô foi várias vezes na minha casa. Eu morava em um apartamento perto da Praça Raul Soares que tinha um terraço onde a gente tocava, jogava bola, às vezes ficava ali tocando, então começou a ter uma troca musical com todo mundo. 

Eu tinha uma mania de gravar as coisas. Até hoje eu tenho um acervo que eu estou querendo recuperar porque eu tenho gravado o primeiro show dos 14 Bis, os ensaios do show do Beto A Página do Relâmpago Elétrico; o primeiro show do O Terço eu tenho gravado, uma banda que o Melão tinha aqui que fazia uns shows, chamava Zorra, eu tenho gravado. Eu tenho todas as minhas composições gravadas. Eu tinha essa mania, que eu acho que é uma mania muito saudável, porque é muito legal quando você pega uma gravação antiga e você vê o momento da composição, o frescor daquilo. E isso me ajudava a ter contato com as pessoas também. 

Por que a gente entrou nesse assunto?

 

P/1 - Eu te perguntei sobre o momento que você conheceu os Borges ...

 

R - O Lô foi nesse dia que a gente ficou tocando na casa do Toninho. 

O Lô, nessa época, ainda estava mais no Rio. Eu estreitei minha relação mais com o Lô quando ele me chamou pra gravar no disco do tênis e depois o Lô voltou a ficar mais em Belo Horizonte. Ele morou no Rio um tempo, depois que gravou o disco do tênis; a gente se encontrou, eu fui à casa dele e nessa época eu comecei a ir mais a Santa Tereza. Às vezes a gente ia lá, ficava lá tocando, se encontrava, ia a um bar. Eu estava sempre tocando com o Beto, às vezes o Lô aparecia, daí inclusive veio a minha saída para São Paulo. Aquele festival que eu falei que eu fui classificado, por uma coincidência da vida; a minha música foi defendida pelo grupo O Terço. 

Na época, a Polygram deu quatro artistas para interpretarem músicas do festival e os artistas escolheriam a música. O Terço escolheu a minha música e do Vermelho e a gente se conheceu. Mais tarde, eu ainda não conhecia o Milton, mas o Guarabyra perguntou ao Milton se conhecia algum tecladista e ele falou: “Olha, o Beto fala muito do Flávio.” Sem me conhecer, o Milton me indicou pra tocar no grupo O Terço. Na verdade, era para gravar um disco com o Sá e Guarabyra; O Terço também participava desse disco, então foi um reencontro. Eu fui pra São Paulo, reencontrei o grupo O Terço, saí de Belo Horizonte em janeiro de 1974 para gravar esse disco e lá fiquei com o grupo O Terço. 

Eu tinha um sonho de gravar um disco com a nossa banda sonhada que era eu, o Beto, Vermelho, o José Eduardo e o Heli, mas essa banda acabou não acontecendo. Nisso, o Beto se casou e a [gravadora] EMI chamou o Beto pra gravar um disco que se chamou A Página do Relâmpago Elétrico, que eu considero um disco histórico também da música mineira. 

Eu estava tocando no O Terço, com a banda no auge e eu saí por causa desse disco. Era tão importante pra mim realizar esse sonho de tocar com essas pessoas, que eu deixei o grupo O Terço, voltei a Belo Horizonte, fiquei uns seis a oito meses aqui, a gente foi para um sítio, ensaiamos. Eu morava em um outro sítio em São Paulo, o Beto ia pra lá pra gente ensaiar, são esses ensaios que eu tenho gravados. Eu trabalhava no estúdio da Transamérica, levava a galera pra lá e a gente ensaiava. Depois viemos para Belo Horizonte e fizemos o disco, mas o Beto falou que realmente não iria mais fazer a banda, ele ia seguir a carreira solo dele e fez esse disco que eu considero meio de banda e eu acho o melhor trabalho do Beto até hoje, A Página do Relâmpago Elétrico. E aí eu fiquei meio assim: “E a nossa banda, como nós vamos fazer?” Voltei a São Paulo e eu estava com uma relação muito grande com a cidade, tinha morado alguns anos lá, e lá a gente acabou formando o 14 Bis.

 

P/1 - Antes de entrar no 14 Bis, eu queria só voltar um pouquinho à Página do Relâmpago Elétrico. É um disco muito progressivo, eu queria voltar ao seu contato com isso. Você falou do disco do Yes que você ouviu pela primeira vez. O que mais você ouviu de progressivo? 

R - Nesse começo dos 70, como eu te disse, na primeira aula com o Rogério Duprat ele me mostrou o Yes e a gente começou a consumir essa música, que era muito forte na época. Todo mundo, toda a garotada que viveu nessa época acho que tem essa influência. Eu gostava muito do Emerson, Lake & Palmer por causa dos teclados, mas teve uma banda que particularmente mexeu muito com a gente, que foi o Genesis. Eu me lembro que eu e o Vermelho, a gente estava junto e descobriu o Genesis em uma loja um dia, nos apaixonamos e começamos a ouvir desesperadamente. O Beto, como vivia com a gente, a gente ficou louco para mostrar pra ele. A gente mostrou pro Beto e o Beto falou “Não gostei, não.” Dois dias depois o Beto só escutava o Genesis e o filho dele chama Gabriel em homenagem ao Peter Gabriel; o Beto se tornou também um fã aficionado. 

O Genesis foi uma banda que influenciou muito, porque é uma banda que tem muita harmonia e a música mineira tem isso, então eu acho que a gente se identificou muito com aquela influência clássica e erudita que eles tinham. Eu digeri isso na minha música, foi uma influência grande e eu levei para o grupo O Terço. Quando eu comecei no grupo O Terço, eles vinham de um período que no começo era uma banda bem folk que tocava nos festivais de música brasileira, MPB, depois eles passaram para uma coisa mais hard rock e quando eu entrei, levei uma linguagem progressiva que deu supercerto na época. 

Eu acho que O Terço foi a grande banda de rock progressivo no Brasil de todos os tempos. O Mutantes também foi, mas eles tinham uma coisa mais ampla, mais MPB, tinha humor também. Eu acho que o Mutantes foi a banda mais importante de todos os tempos, no geral, mas O Terço também foi uma banda muito legal.

 

P/2 - Você poderia contar mais alguma coisa da sua passagem no O Terço? Quantos discos vocês gravaram?

 

R - Eu só gravei dois discos no O Terço. Eu gravei o Criaturas da Noite, que foi o disco que estreou o estúdio da Vice e Versa em São Paulo - hoje é o estúdio da Trama, na [Rua] Alves Guimarães. Foi uma coisa muito legal, porque a gente tinha uma vontade muito grande de fazer um som novo e a gente investiu tudo: dinheiro, tempo, energia e aconteceu. 

A banda aconteceu mesmo, fez sucesso no Brasil inteiro. Pena que na época era muito difícil o acesso aos meios de comunicação. A gente tem pouquíssima coisa, acho que não tem imagem; a gente está tentando recuperar algumas coisas que tem na Rede Globo para esse retorno agora e está difícil. Tinha um programa do Nelson Motta chamado Sábado Som e um outro filme que foi feito, alguma coisa assim. Tinha um contato muito legal com o Rogério Duprat, que era um mestre. Ele fez vários arranjos, a gente estava o dia inteiro ali com ele. Sá e Guarabyra estavam também sempre por perto; foram pessoas que influenciaram, que deram a maior força. 

Foi um período muito legal, mas eu nunca cortei a relação com Minas Gerais, eu vinha todos os fins de semana. No primeiro ano, quase todo fim de semana eu vinha para Belo Horizonte. Aos poucos eu fui ficando mais lá, mas acabei voltando.

 

P/2 - A sua parceria com Murilo Antunes, que já dura desde a época do Viva Zapatria. Nessa época você compunha com ele ainda?

 

R - No O Terço a gente gravou, tem uma música com o Murilo, chama-se Cabala. Nós vamos inclusive regravar agora, nessa reunião atual. Mas a gente compôs algumas coisas nessa época. Talvez a gente se intensificou mais depois que eu saí do O Terço.

 

P/1 - Você sentiu problemas pessoalmente com a censura? Estava naquele momento da ditadura militar...

 

R - Eu não me lembro de censura exatamente a nossas músicas, não. A gente sentiu o peso da ditadura sim, morando em São Paulo de 1974 a 1978. A barra era muito pesada, a gente era muito parado na rua, eu com cabelos imensos e aquela cara de hippie. (risos) Teve uma ocasião em que pararam a gente na saída de um show, dando geral na rua, a gente sabia de presos políticos. 

No ano em que eu servi [ao] Exército - foi em 1968, para você ter uma ideia - o meu comandante foi o Otávio Medeiros, que é considerado um dos caras mais duros da ditadura, que foi chefe do SNI no período mais duro da ditadura. Então a gente sabia de muitas histórias de presos políticos, de tortura, a gente estava consciente do que estava acontecendo.

 

P/1 - E você sentiu de alguma forma? Muitos músicos dizem que a própria repressão ajudou a criar de alguma forma subterfúgios para passar pelos censores.

 

R - Eu acho que a música era uma válvula de escape, você vê a riqueza da música brasileira dessa época. Eu acho que você ir a um show do Milton... Eu vejo muitas pessoas falando hoje que gostam do Milton, mas às vezes não sentem a força que foi na época. Porque é diferente mesmo: na época, todo mundo foi embora - Gil, Caetano estavam em Londres, Chico estava na Itália. Eu me lembro que os grandes artistas que seguraram a barra mesmo foram Milton Nascimento e Gal Costa. Eram os shows mais incríveis que você conseguia ver na época, eram esses dois.

 

P/1 - Em que sentido que eram incríveis pra você?

 

R - Os shows do Milton eram uma catarse, a juventude ficava pirada com o show do Milton. Seria como hoje ver aos shows de grandes bandas de rock, era o show do Milton Nascimento na época. E a Gal vinha com toda aquela coisa da sensualidade, da liberdade, do amor livre, da alegria baiana, então eram válvulas de escape mesmo. E o rock era também, nos shows do O Terço a gente sentia isso, que era muito legal para o jovem ir ao show de rock nessa época.

 

P/1 - Havia outras bandas? Quem mais fazia esse tipo de trabalho?

 

R - Tinha os Mutantes, mas eles já haviam se diluído bastante. A Rita já tinha saído, mas o Sérgio Dias continuou, o Arnaldo também tinha saído, tinha tido problemas e os Mutantes já não tinham a mesma força, mas era uma banda que continuou. E tinha varias outras bandas de rock acontecendo. No Rio tinha o Vímana, Veludo Elétrico, o Som Imaginário, que já era uma coisa diferente, porque o Som Imaginário tinha uma grande riqueza de MPB; ele misturava o pop, mas com grandes músicos. Toninho Horta tocava no Som Imaginário, Wagner Tiso, Fredera. Robertinho Silva, Luis Alves, Naná foi do Som Imaginário, então era um celeiro de grandes músicos. Mas eu sei que não era tanta coisa que acontecia, em quantidade não tinha tanta coisa assim.

P/1 - Mas O Terço está tendo agora uma volta na sua vida, não é?

 

R - Quando eu fiz cinquenta anos, em 1999, eu fiz um show, gravei um DVD com convidados. E quando eu fiz o show em São Paulo, eu quis convidar o O Terço, foi muito emocionante o retorno. A gente sentiu que O Terço tinha uma química muito forte. Eu falo que a gente se sentia acima do chão, os quatro, quando a gente entrava no palco, e a gente sentiu isso de novo.

 

P/1 - Quem são eles?

 

R - O Terço é Sérgio Hinds, um dos fundadores, guitarrista; Sérgio Magrão, baixista que depois eu levei pro 14 Bis e está no 14 Bis até hoje; o Luis Moreno, que infelizmente faleceu, a gente perdeu o Moreno há dois anos, e eu. Isso é a formação da minha época, porque O Terço inicial era Sérgio Hinds, Jorge Amiden, que era um grande compositor e Vinicius Cantuária, que era baterista. Agora resolvemos chamar um baterista e fazer esse retorno, os ensaios estão sendo maravilhosos e a gente vai gravar brevemente um DVD.

 

P/1 - Eu queria voltar um pouquinho a época do Clube da Esquina 2. A gente já falou do Clube da Esquina 1.

 

R - A gente saltou aí, um hiato grande...

 

P/1 - Agora vamos voltar aí em 1978.

 

R - Dessa turnê do Beto eu acabei de conhecer o resto do pessoal, aí eu conheci o Milton. Quando eu saí do O Terço e gravei A Página do Relâmpago Elétrico, comecei a viajar com o Beto. Eu fazia uma participação especial, cantava algumas músicas minhas; cantava Nascente, já existia Nascente. Só fazendo mais um parêntese, eu compus Nascente quando vim do Rio de Janeiro, quando vim daquela viagem do Viva Zapatria. Eu acho que a emoção foi tanta de ir ao Rio, conhecer tudo aquilo, que quando eu voltei eu compus Nascente

O Beto gravou Nascente, foi o primeiro a gravar. É uma gravação que eu considero também maravilhosa, eu acho lindo, com arranjo de Toninho Horta; o primeiro arranjo de orquestra do Toninho Horta foi o arranjo do Nascente

Da turnê do Beto, eu estreitei a minha relação com o Milton e comecei a ficar muito próximo do Bituca. Eu morava em São Paulo, mas vinha e às vezes ficava na casa dele. A gente tocava, viajava às vezes. 

O Milton começou a preparar o Clube da Esquina 2 e me convidou pra participar, gravou Nascente lindamente com arranjos do Francis Hime. Eu lembro que o Milton me perguntou quem eu queria que fizesse o arranjo e eu tinha acabado de ver um filme chamado Lição de Amor, em que a trilha era do Francis Hime, ele tocava um piano lindo. Eu falei: “Ah, eu quero o Francis.” O Milton satisfez as minhas vontades, chamou o Francis Hime, que fez um arranjo lindo, a gente cantou junto. Eu me lembro que foi uma das músicas que tocou muito do Clube da Esquina 2, foi meio que a música de trabalho do lançamento do disco, Nascente. 

Mas eu não ia participar do show. Os convidados do show eram Beto Guedes e Lô Borges. Aí aconteceu o show em Vitória e eu não sei mais onde e de repente eu recebi um telefonema da Monique Gardenberg, que na época era empresária do Milton - na verdade, o empresário era o Paulo Pila e a Monique Gardenberg era assessora - dizendo: “O Lô parece que não vai mais participar da turnê, abandonou a turnê por algum motivo pessoal, teve um problema. O Milton está te convidando para integrar.” Na verdade, era para participar de um show aqui no Palácio das Artes do Clube da Esquina 2. Aí fui, ensaiei com o Milton rapidamente e fizemos. 

Foi um dos momentos mais bonitos da minha vida que eu me lembro, porque a gente contou um Nascente tão lindo, mas tão lindo, que eu me lembro que a plateia ficou realmente chapada, a gente também. Eu cantei Criaturas da noite e cantei Nascente com o Milton e imediatamente eles me convidaram para participar da turnê inteira. Eu fiz participação especial junto com o Beto Guedes na turnê, que foi uma turnê nacional, eu me lembro que o Milton fez até São Luís e a gente foi. 

Foi muito legal, era uma banda daquelas, sempre maravilhosas que o Milton escolhe. Continuamos muito amigos. Eu tinha participado do disco Clube da Esquina 2 também como músico em algumas faixas e aí eu [me] integrei ao Clube da Esquina de vez.

 

P/1 - E você considera um movimento, o Clube da Esquina pode ser chamado de movimento pra você? Um movimento musical?

 

R - Eu não acho que seja um movimento no sentido político, ideológico. Eu acho que estético, eu acho que sim, como uma coisa estética; foi uma coisa muito diferente de tudo no Brasil. Eu acho que em termos musicais, literários foi uma coisa muito diferente, muito original, muito rica que Minas deu ao Brasil, ao mundo.

 

P/1 - Quais os elementos que você encontra na música do Clube da Esquina? Essa colcha de retalhos, porque são várias influências… Para você o que é o Clube da Esquina?

 

R - Eu acho que é uma coisa de contemporaneidade, talvez até mais do que os baianos fizeram, ou mesmo a Bossa Nova, que tinha uma direção mais do jazz. Eu acho que o Clube da Esquina misturou aquele caldeirão de coisas que estavam acontecendo no mundo nos anos 70 de uma maneira muito bonita e ao mesmo tempo muito mineira, todo mundo reconhece. As pessoas vêm falar assim: “Mas a música de vocês é diferente.” 

Tem uma coisa que essa coisa aqui das montanhas mesmo, que corre por aqui. Eu vejo isso até hoje nos compositores novos que aparecem, em Minas sempre teve essa vertente rock forte, você… As bandas de rock que aconteceram, importantes - Skank, mesmo o Sepultura que dentro do estilo deles conquistou o mundo, muitas bandas de rock sempre tiveram. Mesmo na época do Clube da Esquina, eu me lembro que tinha bandas de rock como Haystack Needle, que era uma banda que o Melão fazia. Tinha umas bandas de rock importantes, Tarkus, tinha essa vertente rock pesado. Minas sempre teve isso também, mas eu acho muito mais importante essa coisa que o Clube da Esquina abriu, abriu as portas para o mundo.

P/1 - Muitos dos compositores, dos integrantes com os quais eu tenho conversado, falam bastante da influência da música de igreja, da música litúrgica, das procissões, dos cantos...

 

R - É, tem um detalhe muito importante da minha infância que eu esqueci de falar, eu fui coroinha na Igreja São José. Como eu morava ali atrás, minha mãe, sempre muito católica, me levou pra lá. E a coisa que eu mais gostava era de ficar na missa das oito da manhã, porque era a missa das crianças e tinha música. Eu sempre ficava perto do coro das crianças ali, uma organista tocando e aquilo me fazia muito bem, eu já gostava de ficar ali ouvindo música. Música de igreja tem essa coisa, é meio barroca. Minas têm muito isso, as modinhas mineiras, eu me lembro que eu gostava muito de ouvir modinha mineira, são aquelas músicas que ficam na memória. 

 

P/2 - Flávio, depois que acompanhou a turnê do Clube da Esquina 2, a sua banda, que era o seu sonho inicial, não tinha sido formada ainda, não é?

 

R - Pois é, eu não estava ainda com nenhum objetivo. A gente se dispersou um pouco com a coisa do Beto ter saído. Sem nenhuma mágoa, posso dizer que foi uma grande decepção, porque eu admiro o Beto demais, continuo amigo dele, sempre fomos muito amigos. Mas o Beto era uma figura importantíssima e ele deixar o projeto pra gente foi uma grande decepção, embora a gente continuasse amando ele, a música dele - tanto que eu continuei gravando com ele, fizemos A Página do Relâmpago Elétrico e tudo. 

Durante a turnê do Milton, como eu cantava com ele, na época, o diretor da EMI, o Odail Lessa - que era daqueles diretores que só tinham no passado, que só investiam no lado artístico da gravadora - ele possibilitou que o Milton gravasse o Clube da Esquina 2, um disco duplo que na época ninguém imaginava e com um artista novo, embora o Milton tivesse feito aquele sucesso todo com Travessia, mas era uma coisa ousada na época. 

O Odail Lessa me viu cantando. O Milton Miranda também era diretor da EMI, mas o Odail Lessa era diretor artístico, era aquele cara que tinha realmente uma relação com o artista, pessoal. Ele me convidou; ele acompanhou a turnê do Milton em alguns lugares, me viu cantando e me convidou pra gravar um disco na EMI. Aí falei com ele: “Claro que eu tenho vontade de gravar um disco meu, mas eu prefiro gravar uma banda que eu estou criando”, aí entrei com o projeto de uma banda que foi o 14 Bis. 

A gente já tinha meio que armado a banda; a gente não tinha tocado ainda, só tinha um demo que a gente tinha feito. Eu me lembro que no demo tinha Espanhola, que nunca foi gravada pelo 14 Bis a não ser no final, num disco ao vivo; tinha Perdido em Abbey Road, que é uma música em homenagem aos Beatles, minha e do Vermelho; tinha também O Vento, a chuva e o teu olhar e uma música instrumental chamada Blue, que era uma composição minha.

 

P/2 - E como você e Vermelho escolheram os outros dois? Como é que foi isso?

 

R - Nisso a gente já tinha meio que armado a banda. Eu chamei o Magrão ,que era baixista do O Terço, ele já tinha saído do O Terço também. Meu irmão já estava tocando muito bem, estava tocando com o Lô. O Lô chegou pra mim um dia e falou: “Olha, seu irmão está tocando muito bem. Se você bobear, eu vou roubá-lo” (risos). Eu falei: “Não, vem cá, vamos tocar com a gente.” E tinha o Heli Rodrigues, que já era baterista desde o projeto do Beto. 

Formamos o 14 Bis em 1979. Nessa coisa de formar o 14 Bis eu me mudei, morava em um sítio em São Paulo e mudei para o Rio de Janeiro, onde eu moro até hoje. Agora estou voltando para Belo Horizonte, depois de 26 anos no Rio de Janeiro.

 

P/1 - Voltando ainda um pouquinho atrás, eu queria que você falasse da sua participação no espetáculo Missa dos Quilombos, que você fez com Milton e com Fernando Brant. Como é que foi, que memórias você tem?

 

R - Dessa amizade com o Milton, ele me convidou pra participar desse projeto e foi uma coisa muito legal, porque era um projeto diferente. Foi um projeto onde eu fui só como músico mesmo. A gente participou da gravação que foi feita no Caraça, foi uma coisa incrível, um astral maravilhoso.

P/1 - O que é o Caraça?

 

R - O Caraça é um parque ecológico que tem aqui perto de Belo Horizonte. Foi um colégio, uma escola famosa do passado onde vários presidentes do Brasil inclusive estudaram. Tinha uma biblioteca considerada uma das mais importantes, que foi infelizmente perdida num incêndio e hoje é como se fosse um mosteiro. Lá está preservado, é um lugar turístico também e tem uma igreja muito linda.

 

P/1- E por que vocês fizeram lá?

 

R - Foi uma ideia do Milton, que eu me lembre. O Milton tem essa relação religiosa grande e a gente gravou o disco dentro da igreja.

 

P/1 - E você participou como instrumentista?

 

R - Participei como instrumentista e a gente fez várias apresentações, inclusive na Espanha em Santiago de Compostela, que foi superemocionante também, foi mágico mesmo. Era uma comemoração, se não me engano, dos quinhentos anos da descoberta das Américas, foi uma festa que a Espanha fez. Teve esse show em Santiago de Compostela e depois até fizemos aqui em Belo Horizonte, São Paulo, no Rio e em vários lugares.

 

P/1 - O que você se lembra de gravar dentro de um igreja? Qual foi a sensação? Surgiram experiências diferentes em função do ambiente?

 

R - Eu adoro igreja. Eu sou um católico não praticante, mas eu tenho um respeito muito grande por qualquer religião e pelos templos em geral. Eu tenho essa coisa de igreja, não é à toa, aquilo ali é um templo e rola uma energia ali muito forte. Eu lembro que eu ficava tocando ali… Como foi em Santiago de Compostela, ficar tocando em frente aquela igreja milenar, foi uma emoção muito grande. Mas no Caraça foi muito bonito e ver a voz do Milton ecoar dentro daquela igreja foi uma coisa fantástica.

P/1 - Mais uma pergunta sobre o Clube da Esquina 2. Em relação ao Clube da Esquina 1, com os músicos com quem eu conversei, eles contaram muito como foi aquilo, de você chegar em um estúdio lá no Rio da EMI e ter todos os instrumentos a disposição. E de como foi todo o processo criativo muito vivo, muito feito naquele momento. Você sente que isso aconteceu no Clube da Esquina 2?

 

R - É, eu acho que continuou um pouco. O Clube da Esquina 2 já foi gravado em outro estúdio, no novo estúdio da EMI, mas nesse estúdio onde foi gravado o Clube da Esquina 1, eu gravei A Página do Relâmpago Elétrico com o Beto e tinha essa coisa. 

Nessa época, as gravadoras tinham os instrumentos, instrumentos que na época a gente não conseguia ter. Você chegava à gravadora e tinha um piano Fender, tinha um órgão Hammond, várias guitarras, vários baixos importados e violões e era uma festa para os músicos. Um instrumento bom faz a cabeça de qualquer músico e mesmo o ambiente de estúdio… Eles usavam aqueles mesas, as mesmas mesas que os Beatles gravavam no estúdio da Odeon, eram bem semelhantes. Eu conheci o estúdio da Odeon, não os de Londres, mas o dos Estados Unidos, os de Los Angeles e eram todos parecidos, então era uma festa pra gente encontrar aquilo. Infelizmente eu não participei da gravação do Clube da Esquina 1, mas eu imagino, pelo som que eles fizeram, o que rolou ali.

 

P/1 - Mas no Clube da Esquina 2...

 

R - No dois também foi muito legal. O Milton tinha sempre essa coisa de trazer os amigos. É uma coisa difícil de acontecer hoje, a gente poder gravar um disco e estar perto dos amigos, de todos os músicos que ele curtia, [que] ele queria em volta dele. Isso se traduziu em um clima que eu acho que se traduziu na música também.

 

P/1 - Vocês estavam no estúdio e as pessoas iam chegando? Como era esse movimento?

 

R - Iam chegando. Eu lembro que o Milton tinha [uma] coisa de coro que às vezes vinha um ônibus de Belo Horizonte, gente pra cantar uma música. (risos) Coisas da época mesmo. Vinham os amigos de Três Pontas do Bituca, amigos do Rio, amigos de Belo Horizonte. Nessa eu fiquei muito amigo do Ronaldo Bastos, nessa coisa da produção. O Ronaldo era, na época, o produtor dos discos.

 

P/1 - E quando saiu o disco, o que foi que você sentiu quando viu o resultado?

 

R - Foi muito emocionante. Eu sempre falo que [tem] uma coisa engraçada na minha vida, que eu acho que a gente não tem noção no momento que está acontecendo, da importância. A gente curte e tudo, mas depois talvez a gente veja a importância que teve. 

O Clube da Esquina 2 saiu nas rádios, como eu disse, com uma música minha. Embora eu já tivesse participado de bandas como O Terço, para mim era muito importante sair o Clube da Esquina nas rádios [com] uma música minha - eu cantando com o Milton, foi uma felicidade muito grande.

 

P/2 - Você teve uma música sua com O Terço, a 1974, que foi coreografada pelo Royal Ballet do Canadá. Como foi essa emoção de ver sua música dançada?

 

R- Sim, isso veio da minha relação com o Grupo Corpo. Eu sempre fui muito amigo do pessoal do Corpo, tive duas namoradas no Grupo Corpo. (risos) Uma delas foi a Zoca e eu admirava muito. 

O primeiro ensaio do Grupo Corpo que eu fui ver, que foi o Maria, Maria, eu chorei o ensaio inteiro, do começo ao fim. Era muito linda aquela trilha do Maria, Maria, porque principalmente aquela trilha instrumental, com o Milton cantando, era absurdamente bonita e o balé era lindo, era uma coisa, pra época, incrível. O Corpo, até hoje… Não é a toa que é uma das grandes companhias do mundo. Nessa relação, eu sempre fiquei muito ligado nessa coisa da música dançada. 

Eu esqueci o começo da pergunta.

 

P/2 - Eu perguntei como foi quando você viu a sua música sendo coreografada, como foi?

 

R -  Ah, sim. Desse começo do Maria, Maria, eu conheci o Oscar Arraes, que era o coreógrafo que criou o Maria, Maria e O Último Trem. Na época, eu já estava no O Terço; parece que o Oscar gostou do meu trabalho, pegou essa música e coreografou. Foi coreografada pelo Royal Ballet do Canadá, teve apresentações no Brasil, depois na Europa também. 

Foi legal, porque me incentivou essa coisa da música instrumental, que eu sempre tive. Não é a toa que agora eu vou gravar um disco instrumental; em todos os meus trabalhos, no O Terço, no 14 Bis, na minha carreira solo, eu sempre gravo músicas instrumentais. Já participei do [Festival] Free Jazz com meu trabalho instrumental, também participei do Heineken, convidado pelo Uakti numa participação: Milton, Uakti, Andy Summers do The Police e foi muito legal. É uma vertente diferente no meu trabalho e que eu quero investir mais.

 

P/1 - Entre as duas existe alguma preferência, alguma diferença das duas vertentes no seu trabalho?

 

R - Eu adoro ser um compositor de canções, de baladas. Ultimamente eu estou começando a fazer as minhas letras e isso é uma coisa que eu também estou descobrindo. Eu estava conversando com o Márcio Borges ontem e ele falou que a maturidade traz isso: coisas que a gente sempre quis fazer, de repente a gente começa a fazer e bem. Mas a música instrumental também era um grande sonho, fazer um trabalho sério que eu possa inclusive levar para fora do Brasil. Mas eu prefiro acho que a balada, a canção. 

 

P/1 -  Você tem uma passagem acho que pelo cinema como compositor de trilhas, eu queria que você falasse um pouco sobre isso.

 

R - A minha primeira relação com o cinema foi quando eu estava no O Terço e o Sylvio Back me convidou e ao O Terço para fazermos uma trilha daquele filme Aleluia, Gretchen, então a gente fez essa trilha. Foi o único longa que eu fiz na minha vida e foi uma coisa meio assim, a gente não tinha muita noção do que era fazer uma trilha. Ele aproveitou do momento da banda e eu acho que foi legal pra época. 

Depois eu fui casado com a Lea Zagury, que é uma cineasta. A Lea trabalha com cinema de animação, ela é uma das criadoras do Anima Mundi e ela me levou para a Embrafilme, que tinha na época um núcleo de criação com muitos cursos, inclusive o pessoal do Royal Ballet do Canadá vinha. Eu fiz vários cursos, na época, de música relacionada a cinema e fiz algumas trilhas; fiz também para alguns curtas de amigos dela. Recentemente, eu fiz para um filme chamado Retrato Pintado, de um cineasta do Ceará, um curta também. É uma história sobre um fotógrafo lambe-lambe e foi premiadíssimo em vários lugares. 

Os filmes da Embrafilme foram todos premiados, mas eu nunca tive uma relação maior. É sempre uma coisa assim, alguém me convida, mas é uma coisa que eu tenho o maior prazer em fazer quando sou convidado. Eu gosto muito de cinema de animação, principalmente, mas eu tenho vontade de fazer uma trilha original para um filme, acho que é uma viagem muito grande. 

 

P/1 - Tem algum filme que tenha te influenciado em especial, alguma trilha em especial, de algum compositor?

 

R - Eu adoro trilha de filme. Eu sempre cito Cinema Paradiso, que é uma coisa meio clássica, todo mundo gosta - inclusive o Murilo Antunes fez uma letra pro tema principal de Cinema Paradiso, mas na época a gente não consegui autorização para lançar; seria no meu disco Noites com Sol, que se chama Paraíso. Mas eu adoro trilhas de cinema.

 

P/2 - Você ficou quanto tempo no 14 Bis? E como foi essa coisa de ter realmente uma banda formada?

 

R - Fiquei oito anos no 14 Bis. Foram muitos shows, muita coisa aconteceu, foram oito discos, o último ao vivo. Já durante o 14 Bis eu senti, como compositor, vontade de mostrar outras coisas. 

Em 1982 eu gravei o meu primeiro disco solo: foi o disco Nascente, que eu considero um dos discos mais importantes da minha carreira solo. Em 1985 eu gravei o Noites com Sol e dois anos depois o Beija-Flor. Saí do 14 Bis em dezembro de 1988 e parti pra carreira solo mesmo. 

Foram maravilhosas todas as coisas que aconteceram com o 14 Bis, muito bom, mas eu tenho essa coisa, eu vou seguindo o meu caminho. Não que eu não descarte a possibilidade, assim como eu estou fazendo um revival do O Terço, por que não mais tarde fazer do 14 Bis? Quando eu ouço o que a gente fez redescubro mil canções lindas, coisas que não fizeram sucesso, porque tem essa coisa de que os discos são pouco conhecidos. No fundo, as pessoas conhecem o sucesso, o que tocou no rádio e às vezes não sentem a importância que foi o trabalho, porque às vezes as melhores musicas ou coisas inusitadas estão ali guardadas.

 

P/2 - E as parcerias dessa época, você as manteve na carreira solo?

 

R - O meu primeiro parceiro foi o Vermelho, a gente compôs muito durante o 14 Bis; o Murilo foi logo o parceiro seguinte, é meu parceiro até hoje. Com a coisa do Clube da Esquina, eu comecei a compor com Márcio Borges e Ronaldo Bastos, foram meus parceiros constantes durante o 14 Bis. Durante os últimos tempos, o Ronaldo se tornou mais presente porque eu estava ali no Rio, muito mais perto dele; o Marcinho estava lá em Mauá, às vezes a gente compunha, eu estou inclusive devendo umas parcerias com o Marcinho, porque eu o adoro, adoro todos. E tinha o Brant que nunca tinha composto comigo, então no meu mais recente CD, Porque Não Tínhamos Bicicleta, finalmente eu compus uma música com o Brant que se chama Trator. 

Fora isso, eu tenho alguns parceiros espalhados, amigos. Alexandre Glasefer é um parceiro que se tornou constante nos últimos tempos e alguns outros; Juca Filho é um parceiro que eu gosto muito, que foi parceiro muito do pessoal do Boca Livre. Eu gosto de compor músicas com pessoas novas e recebo milhões de poesias de todo mundo, mas eu acho que parceria tem que ter algo mais para você fazer uma coisa legal mesmo com uma pessoa.

 

P/1 - E como é o seu processo criativo? De onde vem aquela fagulha?

 

R - É muito intuitivo, eu sempre fui um compositor muito fluente. Essa coisa que eu falei de gravar, eu tenho um acervo imenso de composições. Claro que peneirando isso a gente vai fazer uma seleção, mas eu tenho muita coisa inédita que ainda pretendo recuperar. 

Era sempre uma coisa de ir para o instrumento, principalmente o piano, e tocar. De manhã, gosto muito de acordar, ir pro piano e tocar e às vezes vou sem a intenção de compor. É muito sentar ali, começar a tocar, brincar com o instrumento, aí pinta uma idéia e eu sempre gravando, senão eu não lembro. E não é só a questão de não lembrar: eu acho que você compor é um momento muito forte. Muitas vezes, mesmo você gravando a música, nunca vai ser tão bonito quanto aquele momento em que você compôs. Às vezes eu sinto muito que tem músicas minhas que as pessoas falam: “Que linda essa gravação!”  Vou ouvir o momento em que eu compus e eu acho mais bonita ainda. É uma coisa só minha mesmo, só eu vou entender aquilo, porque é a emoção pura, é o momento em que baixou ali e é isso. 

A música pra mim é muito intuitiva, ela não é muito racional. Eu não penso: “Vou compor isso aqui, esse acorde.” É claro que depois que eu compus eu procuro burilar, trabalhar, melhorar ao máximo a composição. Mas às vezes vem inteirinha - primeira parte, segunda parte, vai saindo e é uma coisa muito legal isso.

 

P/1 - E com as parceiros, como é esse processo?

 

R - Com os parceiros, a princípio, era uma coisa muito de eu mandar a música e eles mandarem a letra. Foi um processo que aos poucos eu fui modificando porque vamos dizer… Claro, são sempre pessoas maravilhosas, mas às vezes o cara escreve uma coisa que você não está sentindo. Eu muitas vezes eu admiti, assumi essas letras porque eram boas, mas às vezes não diziam o que eu queria dizer. 

Com o tempo eu passei a compor mais junto com o Murilo, a gente tem composto muito junto, aí eu comecei a interferir também com palavras, com ideias. Com o Ronaldo… Com o Marcinho a gente compôs juntos poucas vezes. Ultimamente, eu tenho ficado muito presente quando componho com a outra pessoa e tenho começado a fazer as minhas letras.

 

P/1 - E você se inspira onde, em que fonte para fazer as suas letras?

 

R - Como eu sou muito romântico, sempre as minhas músicas falam da minha vida sentimental, da minha visão sentimental e otimista da vida. Eu sou muito assim. Embora às vezes a gente fale de muitos outros assuntos, eu acho que essa crônica da vida da gente, pra mim, sempre foi o mais importante. A música é uma maneira de contar a minha história.

 

P/2 - Tem essa coisa de escolher uma música para determinado parceiro?

 

R - (risos) Tem! Tem música que eu falo assim: “Isso aqui é a cara do Marcinho, isso aqui é a cara do Ronaldo, isso daqui é a cara do Murilo.” Mas foi difícil arrumar uma [com] a cara do Brant, porque eu nunca tinha feito música com ele. Acabei mandando um rock pra ele, mas o Brant sabe tudo, não é? (risos)

 

P/1 - Eu queria voltar um pouquinho em 1991, quando você fez um show no Circo Voador, com Toninho Horta. 

 

R -  (risos) Na verdade, eu amo tanto esses músicos do Clube da Esquina que dá vontade de fazer um disco com cada um. Eu posso dizer, eu já gravei muito com Tavinho Moura, muito com Beto Guedes, gravei com o Lô, com Milton, Toninho Horta. Com o Túlio Mourão talvez eu não tenha gravado, mas já fiz show, então eu tenho uma relação com todos, muito prazerosa. Mas pra mim, fazer um show com Toninho Horta foi uma aula de música, porque eu o considero o Toninho Horta um mestre. 

Eu me lembro quando o Toninho estava fazendo a trilha daquele filme Dona Olímpia de Ouro Preto; eu fui um dia no estúdio da Bemo, de repente me deparo com aquelas canções e chorei a noite inteira. 

O Toninho é um gênio da música e nessa época coincidiu das nossas carreiras poderem se encontrar. A gente fez um show maravilhoso no Circo Voador, foi um dos shows mais lindos que eu já fiz. Graças a Deus nós gravamos esse show e se transformou em um disco, que por coincidência eu estava ouvindo esses finais de semana. É muito legal porque tem uma verdade ali; tecnicamente ele não é perfeito, mas traduziu não só a emoção da gente como da plateia. Até hoje as pessoas me perguntam, tem quinze anos esse disco e as pessoas me perguntam: “E aquele show do Circo Voador? Que lindo que foi aquilo!” Eram quatro mil pessoas todos os dias, cantando as músicas, vibrando e pra mim uma aula de música. Aprender as músicas do Toninho é aula de harmonia, é muito legal.

 

P/2 - Sobre as suas gravações, eu queria saber duas coisas: qual recurso você usava pra gravar os seus ensaios e se você ainda recorre a esse seu acervo.

 

R - O problema hoje é tempo, porque a vida da gente hoje é muito corrida. (risos) Eu até acho que esse é um dos motivos de eu estar me mudando para Belo Horizonte e ir morar onde eu vou morar. Um condomínio fora de Belo Horizonte, no mato é um recolhimento que eu preciso justamente para compor o tanto de projetos que eu tenho hoje em dia para fazer. 

Hoje em dia eu tenho uma gravadora, tenho um selo onde eu sou a mola mestra. Eu quero gerir os meus projetos, embora a gente tenha outros artistas, então esse acervo é muito importante para esse meu projeto de gravar várias coisas e eu não tenho muito tempo. 

No começo eu gravava em [fita] cassete mesmo, então a maior parte do meu acervo é em cassete. Eu devo ter trezentas fitas cassete para ouvir, peneirar e digitalizar isso. No passado, eu tinha muito aquela coisa de gravador de rolo, então eu tenho algumas coisas em sete e meio, em quinze [polegadas]. Tenho também aquele gravador cassete de fita dupla, tem algumas coisas que por um período eu usei naquilo. Nos últimos tempos eu comecei a gravar em MD, tenho um outro acervo em DAT e agora um outro acervo em Pro Tools, pra você ver como é muita coisa. 

De coisas minhas e de shows que eu tenho gravados, como eu te falei, tem shows do Beto Guedes, show do 14 Bis, do O Terço, tem composições, tem jam sessions na minha casa com artistas, tem muita coisa. Não quer dizer que eu vá lançar tudo, mas é legal você ter isso guardado e não perder, digitalizar com certeza. 

Eu tenho um acervo de fotos. Uma outra coisa que eu sempre fui foi fotógrafo amador, mas muito ligado à foto de natureza. Eu também fotografei anos e anos em slides e isso também está se perdendo, eu tenho que digitalizar. Haja tempo pra fazer isso!

 

P/1 - Quer dizer que, além de futebol, você também tem essa paixão por fotografia?

 

R - Eu gosto muito de fotografia. Eu gosto de cinema, mas não me atrevo a sair por esse ramo. A fotografia é uma coisa que eu nunca deixei fazer e hoje eu continuo, passei para o mundo digital. (risos)

 

P/1 - E você busca inspiração nas imagens também?

 

R - Busco. Eu me lembro que na época do meu disco instrumental tem uma música que eu me inspirei em uma foto, chama-se Jardins das Delícias. Eu sempre tenho essa de morar em sítio; eu tinha tirado uma foto que é muito alaranjada e essa cor me inspirou essa música.

 

P/1 - E a partir da foto então você compôs a música?

 

R - É, eu fiz a música.

 

P/1 - Eu queria que você falasse sobre o seu disco Noites com Sol, que é o disco que te deu o seu primeiro disco de ouro.

 

R - Eu acho que foi um disco importante como reafirmação da minha carreira solo, porque é sempre difícil recomeçar. Eu nunca tive medo, mas depois de sair do O Terço e do 14 Bis, duas bandas que fizeram muito sucesso e encarar a carreira solo foi uma missão, vamos dizer assim, mas eu, tranquilo. Eu nunca busquei o sucesso, é bom você fazer sucesso, mas nunca foi o meu objetivo. Claro, eu sempre quis ganhar dinheiro, viver da minha música, mas eu nunca traí os meus objetivos, sempre fiz a música que eu faço mesmo. 

A minha carreira solo não foi uma coisa que a princípio não fez muito sucesso, embora o meu disco de 1982 ao vivo, que foi o primeiro disco que eu gravei depois que eu saí do 14 Bis, tenha sido um show de muito sucesso. Foi no Riocentro, foi um festival, Rio Show Festival, com doze mil pessoas contando as minhas músicas.  Tinha um show do Beto Guedes também, do Guilherme Arantes, foi na mesma noite. 

Aconteceram momentos muito legais, mas os meus discos nunca venderam muito; eu sempre tive público, isso é uma coisa que eu não posso reclamar, foi um público fiel que acompanhou o meu trabalho. Mas o Noites com Sol foi um reconhecimento na indústria fonográfica; na época, eu estava em uma gravadora pequena, que era a Velas, do Ivan Lins e do Vitor Martins e a gente vendeu mais de cem mil cópias. E era uma guinada na minha carreira também em termos sonoros, o disco foi produzido pelo Torquato Mariano, que foi um produtor que pegou a minha música e de repente trouxe pros anos 90, atualizou em termos de arranjo, de sonoridade. 

A gente como compositor às vezes fica muito ligado emocionalmente às músicas, eu acho que produtor é uma coisa muito importante. É uma faca de dois gumes, produtor pode estragar um trabalho como eu já vi vários, o cara quer interferir demais no trabalho do artista, mas tem aquele cara que de repente dá um frescor ao seu trabalho, que te aponta novos caminhos e o Torquato foi isso pra mim. Um músico que eu admiro muito, inclusive no trabalho solo, é um grande músico em níveis planetários e é um grande produtor também, uma pessoa que continua muito presente no meu trabalho.

 

P/2 - E essa ideia do selo como surgiu, como se chama?

 

R - Essa idéia do selo é antiga, inclusive quando eu fiz um curso de crescimento espiritual chamado Avatar, em que a gente fazia várias criações de coisas que você sonhava para sua vida. Eu acho até engraçado isso, porque tem uns dez anos e até hoje estão acontecendo coisas na minha vida que eu criei nessa época. 

Eu me lembro que uma das coisas que eu criei era que eu queria ter uma gravadora. Era um sonho mesmo e até meio inimaginável, mas eu criei isso e aconteceu isso. Aconteceu porque eu voltei para a EMI-Odeon e foi uma volta às multinacionais depois do sucesso com Noites com Sol e Beija-Flor. Eu voltei para gravar um disco, o Torquato Mariano, [que] inclusive era o diretor artístico, me chamou e eles queriam que eu fizesse um projeto baseado nas músicas do Clube da Esquina. 

Fiz com o maior prazer porque era uma coisa que eu sempre quis fazer. Como te falei, eu sempre tive relação com todos e sempre amei essas músicas, então pra eu fazer um disco em que homenageava o Clube da Esquina tinha tudo a ver também, embora eu tivesse um trabalho pra mostrar de composições. Naquele momento a gente fez esse disco e inexplicavelmente a gravadora arquivou esse disco, jogou na prateleira e não divulgou. A gente não fez um clipe, a gente não fez um programa de televisão, o que eu fiz foi por minha conta própria. E foi uma grande decepção porque eu tinha voltado com todo o gás para a gravadora; um amigo meu dirigia a gravadora, mas ele não pôde fazer nada e eu acho que ali já estava o começo da grande crise da indústria fonográfica. 

Foi uma grande decepção pra mim não ter acontecido nada com o disco, um disco que eu considero importantíssimo para a minha carreira. Aí resolvi sair, rescindi o contrato com a EMI, ainda fui para a Som Livre fazer um disco, que foi Linda Juventude. Foi um DVD onde eu comemorava 25 anos de carreira e cinquenta anos de idade, que foi também muito bem, vendeu bastante, até hoje está em catálogo.

Mas nesse ponto eu já estava meio que assumindo as rédeas da minha carreira. Eu já tinha criado meu escritório, já tinha uma pessoa importante na minha carreira, a Fabiane Costa, que começou a trabalhar comigo nessa época do Noites com Sol e aos poucos se tornou minha empresária, minha sócia. A gente foi trazendo tudo para o meu controle: a minha editora, que eu já tinha desde a época do 14 Bis, eu tenho a editora Caramelo Edições Musicais, o meu escritório de shows. Criamos a gravadora e eu montei um estúdio lá no Jardim Botânico, no Rio de Janeiro, perto da minha casa. Fizemos o selo Trilhos, que lançou o meu disco Porque Não Tínhamos Bicicleta e mais alguns artistas.

 

P/2 - E essa volta para Belo Horizonte? Você vai dirigir o selo daqui?

 

R - Pois é, eu sempre gostei muito de Belo Horizonte. Tinha uma paixão muito grande pelo Rio, desde criança. A minha paixão pelo Rio não vem dessa época da musica, não, é desde criança que eu ia lá e tinha uma paixão pela cidade. O Rio foi uma cidade que me acolheu, posso dizer que o lugar onde eu tenho mais público no Brasil é no Rio de Janeiro, não é nem em Belo Horizonte, nem em São Paulo. As cidades onde eu tenho mais público: Rio, São Paulo, Belo Horizonte, Belém, Salvador e Brasília são as cidades que tem essa química, tem cidades que parece que te adotam. Mas eu nunca deixei de vir a Belo Horizonte, sempre venho ver a família. 

Tem uma coisa que eu sempre sinto quando venho a Belo Horizonte. Andava na rua e falava assim: “Gente, esse é meu povo”; me dava essa sensação de ver as pessoas, é diferente. Acontece que eu fiquei doente um ano, peguei uma infecção hospitalar. Foi uma doença difícil de curar porque foi uma osteolemelite, é uma infecção óssea que é uma coisa demorada de curar e isso me trouxe muito de volta à família, aos amigos e a Belo Horizonte. Na verdade, eu estava meio com planos de morar em Salvador, sair do Rio já era uma coisa que eu queria mesmo. 

Acho que o Rio é uma cidade importante para o meu trabalho, mas é uma cidade que foi se tornando violenta. É uma linda cidade, mas eu queria uma cidade mais tranquila para morar.

 

P/1 - Isso é uma coisa que volta e meia acontece na sua vida. Você tem essa relação forte com essa coisa de morar de morar em sitio.

 

R - Eu tenho.

 

P/1 - Por que?

 

R - Não sei, talvez pela origem da minha família que eram fazendeiros; meus avós, mesmo a minha a mãe morou muito no interior, então desde criança eu tenho esse gosto pela natureza. E essa minha volta a Belo Horizonte foi como um presente depois de tudo que eu passei; foi um ano de muito sofrimento, mas de muito crescimento espiritual também. 

De repente, eu achei a casa dos meus sonhos aqui perto de Belo Horizonte, em um lugar onde eu sempre imaginei morar. É perto da cidade, vou estar perto dos meus amigos, vou estar perto dos músicos daqui. A maioria do pessoal, não só do Clube da Esquina, mas músicos novos que eu fiz como amigos, como Claudia Cimbleris, que é uma pessoa também influente no meu trabalho, uma arranjadora que eu admiro muito. Eu vou estar perto dessas pessoas e não vou cortar minha relação com o Rio de Janeiro, meu escritório ainda vai estar lá. 

 

(PAUSA)

 

P/2 - Eu queria que você falasse um pouco sobre cada um dos parceiros.

 

R - Vamos começar pelo Murilo Antunes, que foi meu primeiro parceiro. Murilo é um grande amigo e foi um parceiro importante, a gente fez uma das músicas mais importantes da minha carreira que foi a Nascente, Besame e um monte de outras composições importantes. É um cara que eu sempre vou estar perto, porque a gente ficou muito amigo. Acho que o Murilo foi uma das pessoas que me ensinou também essa coisa de letra, essa relação com a poesia. Foi uma coisa muito legal na minha vida sempre, um amigo muito querido. 

Claro, vou falar do Milton, que foi uma pessoa que mesmo por trás sempre influenciou a minha carreira, desde o momento que ele, sem me conhecer, me chamou para participar do grupo O Terço, do disco de Sá e Guarabyra que deu no O Terço, até o momento em que a gente ficou amigo e participei do disco Clube da Esquina 2 e excursionei, participei de projetos dele, como a Missa dos Quilombos. Posso até dizer que a gente não se encontra tanto quanto eu gostaria, porque o Milton é sempre uma pessoa muito atarefada, está sempre em milhões de projetos. Teve também aquele momento difícil da vida dele e é uma pessoa que eu amo demais. Eu sempre falo pra ele que a pessoa com quem mais eu sonho na minha vida é o Milton. Eu não sei de onde vem essa ligação, sei lá se de outras vidas - eu acredito nessas coisas todas -, mas eu sempre sonho demais com o Milton e sempre sonhos muito fortes. Eu sinto que a gente tem uma ligação espiritual, embora a gente não seja amigo de um ligar para o outro toda hora, mas é sempre muito bom quando eu estou com ele, é uma pessoa que amo demais e admiro mais ainda como artista. 

O Beto foi talvez o primeiro grande amigo do Clube da Esquina, que é outro artista que eu admiro. Na verdade, se eu for falar de admiração, eu sou fã de todos, acho todos geniais. O Beto é um dos mais geniais, é um artista que eu acho que as pessoas que gostam do Beto sabem o valor que ele tem. O Beto mostrou pouco pelo tanto que eu acho que ele tem a mostrar. As coisas que eu já vi esse menino fazer quando a gente começou a tocar… É um cara que toca todos os instrumentos, que compõe com uma sensibilidade absurda; como pessoa, é de uma integridade que eu admiro muito. Tem lá uma maneira meio doidona de viver, de ser que… Eu acho que isso é um charme da vida dele, e é um grande artista. 

O Lô, o que dizer do Lô? Um cara genial que eu acho tão genial quanto o Milton. Não é a toa que eles fizeram o Clube da Esquina 1, a genialidade que o Milton tem por um lado o Lô tem para o outro, que entrou com aquelas harmonias novas. É novo pra qualquer cara do mundo que for ouvir as harmonias do Lô vai falar que ali tem uma coisa diferente, tem um cara que criou alguma coisa, então é outro grande artista. 

Tavinho Moura é um músico que é outro gênio já ligado à terra, à cultura. Um cara que pesquisou a cultura mineira e brasileira, o cara é uma enciclopédia das tradições brasileiras e mineiras e um compositor surpreendente. Tocar com o Tavinho também é uma aula, porque as harmonias do Tavinho são absolutamente inusitadas, é muito difícil aprender as harmonias do Tavinho. (risos) Tem uma música que eu gravei do Tavinho Moura que é Noites de Junho, que eu fico louco pra tocar, mas eu fico pensando: “Até aprender essa harmonia aqui é uma coisa.” 

Toninho Horta é outro gênio, é maravilhoso. Um músico que pegou a música mineira, trouxe o jazz que ele sempre incorporou a isso, influenciou gente do mundo inteiro. E aí não dá pra falar de todo mundo: tem gente como Telo Borges, tem o pessoal do 14 Bis, o Vermelho eu acho um grande compositor, é um cara que eu acho que falta fazer um trabalho para mostrar o lado de compositor dele, da grande influência erudita que ele tem. Ronaldo Bastos, um letrista maravilhoso, que foi importantíssimo no Clube da Esquina. O Márcio [Borges] é o criador, é o grande criador do Clube da Esquina com o Milton, talvez tenha sido a pessoa que descobriu o Milton. Eu acho o letrista mais surpreendente, fazer letra com o Márcio é sempre um mergulho em uma coisa que você jamais imaginaria, ele faz aquelas letras geniais dele. Os Borges são um celeiro de craques, de músicos, então eu acho que é muita riqueza junta. 

Que bom que está acontecendo essa coisa do Museu do Clube da Esquina. Tem que preservar mesmo, tem que mostrar pras novas gerações o que isso significou, porque isso vai influenciá-los também. Eu vejo a nova geração de músicos mineiros com a curiosidade deles em saber o que aconteceu, em aprender as músicas, em conhecer a gente, em ir aos shows e sonhar com o Clube da Esquina 3, que é o sonho de todos os fãs; que o Milton volte a fazer isso. Quem sabe ele faça isso um dia? Tomara. E tem uma nova geração de gente que está agregada ao Clube da Esquina, novos compositores maravilhosos. Minas é muito rica, a cultura mineira é uma coisa que só dá orgulho na gente.

 

P/2 - Essa coisa de ter o irmão oito anos mais novo, você se preocupava com o que ele ouvia, em ensiná-lo a tocar? Você teve influência na carreira dele?

 

R - Só uma coisa: eu não falei do Brant, desculpa. O Brant é o pai de todos. Começar com uma letra chamada Travessia, não precisava saber mais nada. Desculpe, a pergunta… (risos)

 

P/2 - Sobre o seu irmão...

 

R - O Cláudio, eu sempre quis que ele fosse músico, quando eu já estava ligado a música e ele não queria muito na época, era garotão. Mas quando ele me viu tocando no O Terço e começou a conhecer o pessoal... Ele sempre foi muito ligado no Lô, aí ele acendeu uma luz. E tem aquele papo que o Lô virou pra mim e falou: “Seu irmão está tocando muito.” Eu não sabia, ele escondia de mim, mas aí eu dei a primeira guitarra, dei a segunda guitarra, chamei pra tocar comigo e a gente tem uma coisa muito bonita juntos, tocando. 

Ele sempre me surpreendeu muito como músico, é um excelente guitarrista e está me surpreendendo agora como compositor. O Cláudio está compondo muito bem. A gente tem um estilo muito parecido, a voz é parecidíssima, e como compositor eu acho que ele tem umas influências minhas, mas também de todo esse pessoal do Clube da Esquina, porque ele também conviveu com muita gente.

 

P/1 - Voltando só um pouquinho ao que você disse, que você acha importante essa iniciativa do Museu do Clube da Esquina. Você acha que isso está trazendo esse valor, enfim à tona para as novas gerações e está inspirando novas pessoas, jovens músicos? Como você está sentindo esse retorno?

 

R - Eu acho que sim, porque teve uma época [em] que aliás se falou muito disso, que se valoriza muito os movimentos que aconteceram no Brasil da MPB, da Tropicália, da Bossa Nova e se falava pouco do Clube da Esquina. 

Eu lembro que na época se citava muito uma declaração do Caetano que eu não sei exatamente o teor exato, mas em que ele dizia que ele achava o Clube da Esquina mais importante que a Tropicália, em termos musicais. Eu concordo plenamente. Eu fui um fã da Tropicália e acho que em termos musicais não dá pra comparar a riqueza do que se foi feito aqui. Acho que a Tropicália foi muito mais importante em termos estéticos, políticos; uma coisa de postura, de atitude. Tem músicas maravilhosas, mas eu acho mais importante - se não mais importante, pelo menos com a mesma importância. O que era dado, talvez… Falava-se pouco do Clube da Esquina e nos últimos anos eu tenho notado que está se falando mais. Este movimento é importante para resgatar isso e levar esta informação para as novas gerações.   

 

P/1 - Bom, Flávio. Pra gente encerrar queria saber, num resumo geral, que sonhos que a sua carreira trouxe na sua vida e continua trazendo? Coisas que pelo fato de ser músico te trouxeram algo?

R - É, cada vez mais eu acho que escolhi a carreira certa. Posso dizer que as coisas sempre aconteceram naturalmente pra mim. Acho que nunca foi difícil pra mim, porque eu sempre fui pelo caminho certo. 

Às vezes, as pessoas falam: “Você nunca estourou com artista.” Eu nunca procurei isto, tenho procurado achar o caminho certo. Claro, às vezes a gente tropeça aqui, tropeça ali, mas isso tem me trazido sempre felicidade, sempre realização. A música pra mim é tudo na minha vida, me trouxe os amigos, os amores, os bens materiais, e a felicidade de estar fazendo o que eu gosto.     

 

P/1 - Flávio, está ótimo. Muito obrigado pelo seu depoimento. 



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