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História

Os Bailes da vida

História de: Cecília Furia
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 08/02/2021

Sinopse

Ascendência espanhola; mãe da avó morreu de febre amarela em 1988; Avó veio pro Brasil com o pai; Cecília nasceu perto da Avenida Paulista, em São Paulo. Foi criada pela avó. Teve um namorado que assobiava para chamá-la para passear, era um código deles; Conheceu o marido num baile na Poli; teve muita enxaqueca; Participou de movimentos da juventude ligados ao social; Fez o primeiro ano de História na PUC SP, depois foi para Maria Antônia; Começou a lecionar no 3º ano; perdeu 2 bebês; Sofreu um acidente onde um dos filhos ficou em estado grave; Teve herpes; tem artrose; Se trata com um geriatra; sempre foi muito ativa, gosta de sair, encontrar pessoas, conversar; Confia que a felicidade está em cada um.

História completa

Nasci em 1940 em São Paulo, pertinho da Avenida Paulista em uma maternidade que existia naquela época, a minha mãe tava vendo o filme O Vento Levou no cinema quando deu o sinal de que eu tinha que nascer! Então eu fui criada mais com a minha vó, meu pai e minha mãe eram muito presentes, mas eu ficava na casa minha vó. Minha vó se apropriou de mim, assim de uma certa forma. Ah, eu me lembro de um bailinho na casa pequena, a sala não era grande, assim, e não sei como apareceu um rapaz mais velho, não como ele apareceu lá, e ele me tirou pra dançar. Gente, eu me senti poderosa. No fim eu vim saber que ele era bailarino, no teatro, nas peças, musicais, ele ensaiava os artistas. Gente, eu me senti a rainha da dança, porque como é importante um cara que sabe conduzir a mulher. Era só com um toque, ele me fazia rodopiar que era uma... – isso aconteceu isso e depois aos 52 anos outra vez, que eu tive duas oportunidades assim – mas eu fiz coisas que eu nunca pensei que eu saberia fazer, porque eu era um pouco inibida, eu era molequinha nas atividades, mas eu nunca fui assim... engraçado, eu sou muito saliente em algumas coisas, em falar, me expor, mas eu não... eu, eu, eu, sou tímida no fundo, não gosto de certas exposições. É curioso, eu mesma acho engraçado, que eu sei que eu tenho uma fase de timidez, assim, ou de me expor em certas situações, pra outras não. Se tiver que falar com o presidente da república – Deus me livre, esse eu não quero (risos) – eu não tenho. Mas eu, pessoalmente, tenho um certo acanhamento, assim, né. E ele me fez... foi um bailinho excepcional, sabe, foi assim uma coisa que eu voltei rindo, né. E a gente nem tinha paquera, paquera porque nós éramos todos os amigos da rua. Tive, tive um namorico com 11 anos, o rapaz tinha 16, nossa senhora foi uma coisa... ah que sofrimento quando ele foi embora porque os tios eram embaixadores e ele foi pra África do Sul com o tio, porque tinha outros irmãos e ele foi. Ai que sofrimento perder meu namorado. Eu me lembro que eu tinha um cachorrinho, um basset, e ele, então quando ele queria, ele assobiava Ceci Bon – que é uma música francesa, tava na moda – aí eu dizia “vou passar com o negrinho”, aí chamava meu cachorro, o basset, né, e saia e nos encontrávamos na esquina para ficar namorando, caminhando e o meu cachorro era muito engraçado, daqueles basses assim possessivos, e se a gente demorava um pouquinho ele parava e ficava olhando, enquanto a gente não andava ele não andava também, e quando a gente começava a andar, ele andava, ele dizia assim, meu marido quando namorou comigo, dizia “Deus não te deu um irmão mas te deu um cachorro chato que benza Deus”, mas era assim. Mas a gente ia nos bailes, nos bailinhos que tinha todo domingo na Politécnica. Eu ia nesses, tinha outros que iam em outras faculdades. Eu frequentei e foi onde eu conheci meu marido, né. Aí eu ainda tava no colegial quando eu o conheci lá no nos bailinhos da Poli. E a gente tinha esses bailes que também era muito gostoso, era um modo... e a bebida mais forte que existia era a bendita cuba-libre, que era coca-cola com... enfim, era gostoso. E aí eu comecei a ter muitas hemorragias dali pra frente até os 45 anos, comecei a cada vez aumentar o meu ciclo que sempre foi regulado, ficou muito desregulado, muito assim, e aí precisava fazer a histerectomia. Aí eu tava com muita... um dia eu tava dando aula, meu Deus do céu, esse é uma hemorragia... Eu tava na cadeira, “gente o que eu faço? Como é que eu saio dessa sala de aula?”, aí eu falei “acho que vou pedir um blusão pruma aluna pra amarrar”, mas não, se for pedir eu vou chamar atenção, aí eu fiquei, enfiei a cadeira, peguei meus diários de classe, saí assim, falando. E quando a minha colega entrou eu falei “não senta na cadeira! Espera o intervalo pra mandar limpar”, né. Aí tive que vir correndo pra casa, me trocar, me vestir outra vez, porque eram hemorragias muito fortes e isso provocava anemia. Eu tava sempre muito cansada, muito sem... tanto é que em cinco, seis anos depois que eu voltava no meu ginecologista ele me fazia – acho que tava lá na ficha “anemia” – me mandava fazer exame de anemia que eu já não tinha mais nada. Mas foram hemorragias muito fortes. Os meus dois abortos também, eram assustadores. O meu marido é que ficava branco, porque era tanto sangue... Quando eu tive no Servidor a primeira vez, virgem maria, todo mundo queria me dar lugar e eu não queria porque eu tava pingando, aí me puseram em uma maca, inundei, e aí eu tive que atravessar o hospital com um lençolzico de nada, o pessoal me olhava com uma pena “acho que essa aí tá nas ultimas”, porque era muito sangue. Me dava uma fraqueza, uma fraqueza horrível, horrível, horrível. Foi o período assim, mais irritante da minha vida porque eu me sentia muito fraca, eu não tinha vontade de fazer nada, assim, né. E depois esses negócios de dorzinha aqui, dorzinha acolá, dor de artrose que pega aqui pega acolá. Mas eu entrei em menopausa aos 45 por causa de ter operado. E aí eu tomei pílula durante muitos anos, tomei pílula até os 65 anos pra reposição hormonal. O meu médico dizia “você não tem histórico de câncer, não tem nada, pode continuar”. Mas eu lia que não devia, outro dizia que devia, que era melhor pra mulher. Então assim, eu parei uma vez, fiquei uns meses sem, mas me senti mal, com ondas de calor, não sei o que, aí voltei, mas depois aos 67 eu parei de vez com a pílula. Eu sofri muito com a menopausa, tive muitas ondas de calor, muito... não foi uma menopausa fácil, eu to vendo a minha filha não sente nada, acabou, eu não. Eu tive muito mal estar, foi muito desconfortável a minha menopausa. Então foi muito sofrida minha menopausa, não foi uma menopausa fácil, não. Foi bem desagradável. Aí né, começam as dorzinhas de artrose, tive alguns problemas de dores de artrose, de joelho, de não sei o que. Lógico que os outros também são o centro, mas eu sou centro de mim, eu é que sei o que eu to sentindo, como que eu devo reagir e mandar às favas o que me incomoda, se não tem jeito de consertar. E com isso eu realmente consegui continuar levando a minha vida na velhice muito bem. Fazia mil coisas até o ano passado, aí com a quarentena parou tudo, mas por curiosidade, eu gostei, eu acho que eu fazia muita coisa também porque pessoa idosa tem que fazer pra não ficar fechada em casa, né, cada dia eu fazia uma coisa diferente, era uma vida muito acelerada. Agora não posso fazer, então... eu achei que foi muito saudável a quarentena pra minha família.

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