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História

Orgulho de ser são-paulino

História de: Henri Couri Aidar
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 23/09/2013

Sinopse

Depoimento de Henri Couri Aidar para o projeto História em multimídia do São Paulo Futebol Clube, concedido em março de 1994. Henri aidar fala sobre a origem libanesa da família e o estabelecimento no interior de São Paulo, mais precisamente na cidade de Olímpia. Fala sobre a vida no interior, a juventude e como, logo cedo, já foi se afeiçoando e aproximando do esporte. A mudança para a capital e a possibilidade de acompanhar ao vivo o clube do coração, o São Paulo Futebol Clube. Os estudos na área jurídica, os primeiros empregos e a aproximação com a diretoria do tricolor paulista, onde ocuparia futuramente todos os cargos. As dificuldades do clube durante a construção do estádio do Morumbi e a emoção por esse sonho ter sido conquistado. Os desafios e conquistas durante a gestão como presidente do clube e as lembranças de uma vida dedicada ao futebol.

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História completa

P- Bom, Dr. Henri, eu então gostaria de começar a nossa entrevista, pedindo que o senhor me dê seu nome completo, o local e a data de nascimento.

 R- Henri Couri Aidar. Nasci na cidade de Olímpia, no interior do estado, no dia 29 de junho de 1921.

 P- E o nome e local de nascimento dos pais.

 R- Meu pai nasceu em Baskinta, no Líbano, e minha mãe nasceu em Beirute, também no Líbano. Meu pai veio para o Brasil com dezesseis anos de idade, terra estranha, costume estranho, língua estranha, e aqui ficou.

 P- Em São Paulo?

 R- Interior de São Paulo. Depois ele retornou ao Líbano para rever os pais, isso em 1914, antes da Primeira Guerra, e lá estava quando deflagrou a Primeira Guerra Mundial, e ele ficou de certa forma preso lá. E aí conheceu a minha mãe. Casaram-se em 1916 e em 1919, quando terminou a guerra, ele veio, retornou pro Brasil, que ele tinha aqui propriedades, parentes, tudo isso, mas houve um fato muito interessante com meu pai. Ele, quando veio no navio, ele trouxe apenas sessenta Aidares no navio, que vieram pro Brasil. Tanto, meu pai faleceu com 89 anos de idade, e foi um fato extraordinário, porque ele se tornou padrinho de quase todos os filhos daqueles que embarcaram com ele.

 P- Qual era a atividade desenvolvida pelo seu pai aqui em São Paulo?

 R- Meu pai era comerciante, ele trabalhava com café, vendia café, comprava café. Era comerciante, tipicamente um comerciante.

 P- Na cidade de Olímpia?

 R- Na cidade de Olímpia. Ele começou em Santa Rita do Passa Quatro, depois foi pra Olímpia.

 P- E sobre os seus avós? O senhor tem alguma memória de histórias contadas?

 R- Não, nada, nem os conheci. Eu só me lembro que em 1963, eu resolvi com minha mulher, a gente resolveu fazer uma viagem ao Líbano. Eu cheguei pro meu pai e disse: “Pai, eu vou pra sua terra”. Ele disse assim: "Que cê vai fazer em Olímpia"? (risos)

 P- Que ótimo!

 R- “Não, eu vou pro Líbano”.

 P- Ele era naturalizado brasileiro, o seu pai?

 R- Era.

 P- Como era o nome dele?

 R- Miguel Couri Aidar. Era tipicamente o caboclo brasileiro, não dispensava o feijão com arroz, com a pimenta, com a farinha, tudo isso... Radicou-se aqui no Brasil e adquiriu todos aqueles costumes de vida, comércio, tudo. Foi um pai extraordinário (risos).

 P- Mas o senhor diria que, em termos de educação, havia alguma tradição, algum costume libanês que foi...

 R- Não, meu pai era autodidata... Não tinha curso nenhum, tudo isso, mas conhecia, conhecia o mundo, conhecia a história, e nos transmitia esses conhecimentos. Olha, a primeira fábula de La Fontaine que eu aprendi foi meu pai que me citou. Um exemplo de vida, tudo isso.

 P- E agora sobre a cidade onde o senhor nasceu. Como era Olímpia, como era a vizinhança, que rua que vocês moravam?

 R- A cidade era pequena. Uma cidade pequena e só havia grupo escolar, não havia outro curso. E eu estudei no grupo, terminei o grupo, fiquei um ano me preparando pra fazer... A gente tinha que fazer admissão para entrar no ginásio, e Olímpia não tinha ginásio. Eu fui fazer admissão, fui fazer a admissão em Barretos. Fiquei o primeiro ano em Barretos, interno, fiz o primeiro ano, depois me transferi aqui para o Liceu Rio Branco. E aí eu terminei o ginásio, fiz, naquela época a gente fazia cinco anos de ginásio e dois anos de pré-médico, pré-jurídico, pré-politécnico. Fiz pré-jurídico e depois prestei concurso, fiz o vestibular aqui pra Faculdade de Direito de São Paulo. Sem cursinho, sem nada. Não havia nada disso. A gente tinha um corpo docente fora de série, extraordinário, corpo docente do Liceu Rio Branco. Professores extraordinários. Tanto que nós fomos fazer o pré-jurídico em dezesseis alunos e entramos, nos 32 primeiros lugares dezesseis alunos entraram.

 P- Voltando um pouquinho pra Olímpia, como era a sua casa, o interior da sua casa, por exemplo, em Olímpia?

 R- Aquelas casas do interior, com pé-direito enorme, o quarto, a sala, a dispensa, a cozinha que a gente gostava muito, porque o pessoal fazia, mamãe fazia seus doces, a gente ia lá raspar, pra comer a raspa do doce.

 P- Doces árabes?

 R- Hein?

 P- Doces árabes?

 R- Não. Era marmelada, doce de leite. Doce árabe ela não fazia. E árvores frutíferas, né? Fruta-do-conde, manga, mamão, laranja, mexerica... Com uma garagem, eu me lembro que meu pai comprou um carro em 1929, um Chevrolet, chamava Ramona, um negócio assim, e quando veio a crise de 29, não havia duzentos réis pra comprar um litro de gasolina, então o carro ficava na garagem e servia de guarda-louça pra guardar coisas lá e tal. Não havia as bombas, naquela época os carros eram abastecidos com umas latas desse tamanho de gasolina, porque só depois é que foi instalada uma bomba lá em Olímpia, foi uma novidade, quando foi instalada a bomba todo mundo foi ver, mas não havia eletricidade pra tocar a bomba. Então o pessoal ficava na mão, tocando aquela manivela. Era uma vida muito diferente, uma vida calma. Quando alguém de Olímpia vinha pra São Paulo, era uma curiosidade geral, todo mundo queria saber no retorno, se você estava na sua casa todo mundo ia fazer uma visita pra ouvir algo sobre São Paulo. Eu me lembro também que naquela época, acho que foi em 1935, os primeiros jogos abertos do interior, do Baby Baglioni, foi... Foi em Monte Alto, parece. É, foi um pessoal de Olímpia que praticava esporte, que tinha qualquer coisa foi pra lá, foi uma coisa tremenda, construiu-se em Olímpia a primeira quadra de bola ao cesto. Bola ao cesto, era tudo novidade, mas tinha o futebol, que Olímpia era... Tinha um time até bonzinho, jogou com os uruguaios que jogaram aqui em São Paulo e jogaram lá. E eu desde cedo era apaixonado, mas a minha casa era uma casa comum, muita cordialidade, e morávamos lá papai, mamãe, quatro irmãs e eu, e eu acho que são essas coisas da infância que a gente guarda. Lembro-me mais, às vezes minha mãe ficava louca da vida comigo porque depois do almoço o pessoal saía, eu espalhava açúcar na mesa lá e catava lá as moscas, botava num vidro pra ia pescar lambari lá no rio (risos). Eu gostava muito de pescar. Então uma vida calma...

 P- E a vizinhança? Também tinha muito descendente, muito libanês, muito imigrante ali?

 R- Não. Meu vizinho da frente era um senhor de descendência italiana, Vicente de la Magna, era um maestro. Ele tinha... Ensinava música, tinha lá uns músicos, e até animava o coreto à noite aos domingos, e circo, e ele que... Eu me lembro que fui aprender piano com ele, piano não, violino. Fui aprender violino com ele. Meu vizinho de frente, seu Vicente de la Magna. Do outro lado o Sr. Dante Sgaldo, cujo neto hoje é professor da faculdade aqui de medicina. O outro lado esquerdo era o Sr. Orlando de Barros, que tinha um gosto assim, meio extravagante. Ele guardava na casa dele uma jibóia enorme que era pra comer ratos (risos). Então foi uma infância tranquila, de lazer, de estudo e o colégio único, era o grupo escolar que eu me lembro de todos os professores, todos eles. Depois que fui pra Barretos fazer... Mas uma vizinhança tranquila, gente boa, com aquele costume de interior de à tarde botar a cadeira em frente à casa, porque tinha a casa, tinha um jardinzinho na frente e tinha o muro. Então o pessoal à tarde sentava lá comentando as coisas, mas não tinha televisão de maneira que os assuntos sempre eram os mesmos, repetitivos não tinham nada de novo, a não ser quando chegava o jornal.

 P- E o futebol, o senhor jogava futebol nessa época?

 R- Jogava, jogava, mas era muito mau jogador. Mas acompanhava os jogos do Olímpia, tudo isso, tinha time de futebol. E eu era apaixonado pelo futebol de São Paulo... E do Paulistano, quando o Paulistano extinguiu o futebol eu senti, tinha quanto? Nove anos. Para mim acabou, acabou o Paulistano. Aí depois foi fundado o São Paulo Futebol Clube e eu fiquei alucinado por aquilo. Fiquei acompanhando, eu conhecia aquilo... E as minhas irmãs estudavam, duas delas, as mais velhas, estudavam aqui em São Paulo. E eu mandei uma carta pra elas pra que me mandassem, arrumassem um distintivo do São Paulo. E realmente me levaram um distintivo do São Paulo lá. Hoje não é nada, mas naquela época era um troféu que ninguém tinha lá. Eu punha aquilo, punha na camisa, tirava, era uma relíquia pra mim. E acompanhando o São Paulo.

 P- E acompanhava como, ouvindo os jogos no rádio? Como é que era?

 R- O primeiro jogo eu ouvi em rádio de galena.

 P- O que é rádio de galena?

 R- Não era o rádio atual. Não tinha as válvulas, não tinha... Você ligava o fio lá dentro e botava aqui, como esse áudio que tem hoje, cê tá entendendo? Mas depois veio o rádio comum, nem todos tinham rádio... Lembro-me que numa padaria tinha rádio, uns palmeirenses, palestrinos entendeu? E a gente lá ia assistir. Saía briga, discussão, tudo isso. Teve uma época até interessante, em que o São Paulo ganhava da Portuguesa, que tinha um bom time, a Portuguesa... E perdia pro Palmeiras. E a Portuguesa ganhava do Palmeiras. Então havia um equilíbrio muito interessante na época. Eu seguia pelos jornais, se bem que os jornais dedicavam uma coluna, duas colunas, quase nada. Mas a Gazeta Esportiva, que toda segunda-feira publicava... Só saía uma por semana. Segunda-feira. Depois passou a sair aos sábados também. Então eu acompanhava, eu ia à estação, que distava da minha casa, quanto... Uns dois quilômetros, esperar o trem chegar à noite pra comprar a Gazeta Esportiva...

 P- Pra ler sobre o São Paulo.

 R- Pra ouvir sobre o São Paulo. Tanto que eu cheguei a São Paulo em 1935, numa quinta-feira ou sexta-feira, e no domingo fui ver o São Paulo jogar. Ainda com o velho esquadrão de Luizinho, Zarzur, Friedenreich, vi o Friedenreich jogar, e a hora que eu cheguei ao campo, era na Floresta, Nossa Senhora, “aquele é esse, aquele é aquele” e tal, foi um jogo São Paulo e São Cristóvão.

 P- Foi o primeiro jogo que o senhor assistiu?

 R- Empate de um a um, gol do São Paulo foi feito por Zarzur, nunca mais esqueci, e pelo São Cristóvão o gol foi do Dodó, os dois eram centro médio. Na ocasião eram centro médio. Foi o primeiro jogo. Depois não perdi mais jogo, acompanhei o São Paulo em tudo, era apaixonado pelo São Paulo.

 P- Mas, por exemplo, o seu pai torcia pra que time?

 R- Acontece, minha filha, que eu fiz a família toda são-paulina (risos). Todo mundo passou a torcer pro São Paulo pra me agradar, pra me ver contente. Então papai ficava contente, claro. No fim da vida dele, quando havia uma vitória boa do São Paulo, ficava contente, ele era o primeiro a me telefonar pra me cumprimentar, tudo isso. Todos... A minha mãe, todo mundo virou são-paulino.

 P- Agora sobre a sua ida para Barretos, o senhor estudava...

 R- Eu estudava. Na ocasião eu me lembro, primeiro dia, eu sempre digo... Passamos agora, dia quatro de fevereiro, nunca mais esqueci a data: quatro de fevereiro de 1934, eu saí de Olímpia pra ir pra Barretos. Peguei com meu pai uma jardineira, jardineira era um ônibus todo aberto com aquela dificuldade, e levava, saia de Olímpia às sete horas e nove horas chegava numa cidadezinha, Itambé, essa cidade sumiu em razão de uma tromba d’água. Sumiu a cidade, e às onze horas chegava a Barretos. Então levava quatro horas para ir de Olímpia a Barretos, hoje em meia hora você vai. Então fui lá eu estudei, estudei, fiz a admissão uma semana depois, estava bem preparado, passei foi tudo bem para mim e lá em Barretos me entrosei com a turma logo. Que eu não conhecia ninguém, “caipirão”, nunca tinha visto uma cidade pavimentada, e aquilo pra mim... Eu ficava com inveja, dizia: “Olímpia não tem isso, precisava ter também”. E a diversão lá em Barretos, aos domingos depois do almoço no colégio, a gente ia a uma chácara do Chico Moura, o dono da chácara, pagava duzentos réis, hoje não tem referência para duzentos réis, não sei o que seja, nem um palito de fósforo hoje custa mais do que duzentos réis, e ficava o dia todo na chácara chupando jabuticaba. Não podia trazer, mas podia ficar lá.

 P- E o futebol nessa época da sua vida? O senhor já era mais velho, continuava... O senhor vinha a São Paulo assistir...

 R- Continuava acompanhando, e quando, nas férias, chegava em Olímpia a gente fazia jogos lá, tudo isso. De rapaziada, meus amigos. E lá em Barretos, no colégio, o futebol não era muito difundido, mas era o bola ao cesto. Então eu organizei um time tal e fomos jogar em Olímpia (risos), contra o Olímpia. E eu sempre gostei muito de esporte. Não pratiquei, mas gostei muito, futebol e bola ao cesto, muito, muito.

 P- O senhor jogava ou não jogava? Era mais de administrar...

 R- Jogava porque eu era o dono da bola (risos).

 P- E qual foi o seu primeiro emprego Dr. Henri?

 R- Eu tinha nove anos e fui trabalhar na... Num cartório. Auxiliar de cartório. Para defender uns cobres, eu não me lembro bem se eram quinhentos réis por semana, mas era dinheiro pra burro, Nossa Senhora! E fiquei lá, trabalhei lá uns dois, três anos até que fui pra Barretos. Depois vim para São Paulo. Papai me mandou aqui com sacrifício, porque ele tinha perdido tudo na crise de 1929, então eu sentia isso. Mas aí passei... Quando eu ingressei na faculdade comecei a trabalhar no departamento jurídico do Sindicato dos Trabalhadores das Indústrias Químicas e Farmacêuticas de São Paulo. Há um fato muito interessante nisso. Depois me formei, passei a ser advogado e depois chefe do departamento jurídico, mas eu fui durante onze anos presidente da Petroquímica União, cujo sindicato dos empregados era o Sindicato dos Trabalhadores das Indústrias Químicas e Farmacêuticas de São Paulo. Então foi o primeiro contato que eu tive com o Sindicato, e eu comecei a dizer que: “Eu estudei muito a história de vocês. Vocês tinham uma sede ali na 25 de Março, 144, o telefone era 336852” etcetera, e o pessoal ficou daquele jeito. O presidente, disse eu, era o senhor Galvão... “Mas como é que o senhor sabe?” E eu dizia: “Eu estudei, procurei ler tudo isso”, mas eu sabia, eu vivi tudo aquilo. Aí depois ainda como estudante de Direito, eu já namorava minha mulher, eu dizia que quando eu ganhasse dois contos eu me casaria. Até então eu não podia. Daí, para ganhar duzentos mil réis a mais eu, as terças e sextas-feiras, eu trabalhava no escritório de advocacia aqui na Praça da Sé, eu ia até a estação do Norte a pé, e pegava o trem de subúrbio às seis horas e ia pra São Miguel Paulista, e lá chegava às 07h45min, uma hora e quarenta e cinco, e ia à subsede do sindicato e dava aula de alfabetização de adultos. Saía de lá quinze para as dez e pegava o trem às dez horas, e quinze para meia noite eu chegava à estação do Norte e subia ali o Brás até a Praça da Sé a pé e depois pegava o bonde Vila Buarque até a Aclimação e tudo isso. Então a minha vida foi dura, viu? Foi dura pra burro, mas foi boa. Tenho gratas recordações dessa época, fiz boas amizades conheci também o outro lado da vida e me dava bem com esse pessoal, com aqueles operários. Não quero revelar o nome, mas eu alfabetizei na época um operário que se tornou vereador por São Paulo (risos).

 P- Agora me conta um pouco como era São Paulo, o senhor se lembra da primeira impressão que teve ao chegar pela primeira vez em São Paulo?

 R- Era um negócio de deixar a gente extasiante, né?

 P- Como é que era a cidade?

 R- Uma cidade deslumbrante, e eu às vezes estudava, não tinha recursos também para comprar livros, então estudava muito na Biblioteca Municipal, onde é a biblioteca hoje, só que era pequenininha e lá eu ficava estudando e às vezes eu ia pelo centro para passear, para ver amigos e tal, e principalmente para eventualmente ver um carro com a placa de Olímpia (risos).

 P- Ah, é saudosismo?

 R- É. Saudosismo... Ficava... Saudosismo, quando vinha para cá minha mãe pegava numa caixa de sapato e botava ali pé-de-moleque, doce de leite tudo e tal e a gente consumia aquilo na pensão pelo tempo que desse, mas eu não jogava a caixa fora, aquela caixa representava algo de mim, algo de minha cidade, Olímpia, e... Cada coisa que a gente faz! E quando eu voltava para Olímpia eu levava a caixa e largava lá.

 P- Como é que era... O senhor se lembra de algum fato já de estar em São Paulo, o primeiro contato... De... Coisas, de ouvir falar sobre o SPFC?

 R- Me lembro. Eu acompanhava tudo no São Paulo, e quando o São Paulo fez aquela fusão com o Tietê, foi 1935. Sumiu, depois fez aquela fusão com o Estudante e aí nasceu novamente o São Paulo. Eu acompanhei aquilo, fiquei entusiasmado, o sacrifício do pessoal também. O velho Porfírio da Paz sacrificou o seu patrimônio pelo São Paulo, para pagar as coisas do São Paulo, então eram homens que a gente ficava admirando pela dedicação que tinha pelo time. E eu...

 P- O senhor assistia aos jogos? Assistia jogos?

 R- Assistia, não perdia jogo do São Paulo. Agora vou te dizer, às vezes eu pagava ingresso, às vezes a gente passava por lá, quando não tinha dinheiro, você ia de qualquer jeito, tinha que dar um jeito. Ou então entrar no final do jogo, depois que abriam os portões. Assistir o jogo do São Paulo.

 P- O senhor se lembra de algum jogo que tenha lhe marcado, ficado na memória nessa época?

 R- Eu lembro, foi seis a zero do São Paulo sobre o Palmeiras.

 P- E foi quando esse jogo?

 R- Foi... Foi em 39, 38. Foi uma beleza! O São Paulo ganhou de seis do Palmeiras e no domingo seguinte perdeu de quatro a zero da Portuguesa (risos), mas foi um jogo que me marcou. E um jogo entre São Paulo e Corinthians, o São Paulo devia ser campeão em 39 e estava ganhando de um a zero e caiu uma tempestade, lá no Parque São Jorge, caiu uma tempestade tremenda, suspenderam o jogo e o jogo continuou pelo tempo restante na terça-feira. A gente tinha aula, tinha tudo isso e ninguém foi, estava todo mundo no jogo e o Corinthians empatou e foi campeão. Qualquer coisa assim, um a um, com um gol ilegal que os são-paulinos choram até hoje, do Carlinhos, né? Fez o gol com a mão. Mas eu me lembro de todos esses jogos.

 P- O senhor tinha um ídolo? Quem era o jogador que o senhor assim... Idolatrava algum jogador naquela época do São Paulo?

 R- Eu não tinha um jogador específico, acompanhava muito o futebol. Eu tinha um amigo lá de Olímpia, Sílvio, que tocava muito violão e às vezes, de vez em quando, se reunia muito na pensão na Praça João Mendes, aqui perto, e aí eu conheci o Raffa, o Jorge que tinha sido até jogador de Olímpia. Eu não tinha na ocasião um ídolo específico do São Paulo, mas eu achava uma injustiça quando o São Paulo perdia (risos). O São Paulo tinha uns nomes que não eram conhecidos, e ia jogar com o Palmeiras de Nascimento, Carneiro e Junqueira, Dunga, Dula e Tufi, e o São Paulo perdia e eu achava que era injustiça, sempre achava que o juiz tinha roubado. Agora depois... Depois não, depois a gente ficou acompanhando quando o São Paulo se reestruturou no começo da década de 40 e montou um esquadrão, começou a disputar títulos, aí tinha jogadores que a gente adorava, inclusive o Leônidas, o Guilei (?), o Sastre, o Pardal, Teixeirinha, Zezé, Zarzur... E via ainda no São Paulo da Floresta de 35 aqui o Orozimbo, que era um lateral extraordinário, que depois foi pro Fluminense e ficou lá como funcionário administrativo do Fluminense. Eu seguia tudo isso... Tudo isso, e eu me lembro mais tarde, quando nós fomos pela primeira vez campeões brasileiros, o Zé Ermírio me ligou e perguntou: "Como é que você vai, vai com a delegação?". E eu falei: “Eu vou”. E então: "Não, mas você pode ir comigo no domingo, eu vou de avião vamos passar no Rio, pegamos Heleno Nunes e vamos lá para Belo Horizonte". E eu falei já está aceito o convite e realmente fui a Congonhas, era um jatinho dele, e fomos ao Rio, pegamos Heleno Nunes e voltamos. Estava um tempo horroroso, não podia descer e o Almirante Heleno Nunes, que era presidente da CBF começou a sentir-se mal. Então tivemos que voltar para o Rio e o Zé me disse: "Olha Henri, não quero ser culpado da história, vou ficar em São Paulo e se você quiser continua com o avião". E eu falei: "Eu vou ainda que tenha que descer de pára-quedas! Acompanhei todo esse campeonato e não vou assistir ao último?”. Mas o avião desceu. De maneira que foi uma emoção pra mim extraordinária, não morri aquele dia não morro mais.

 P- Agora, antes de começar a falar um pouco mais do seu elo maior com o São Paulo, eu só queria perguntar: o senhor acabou dando aula de alfabetização, acabou juntando e casou, né?

 R- Casei.

 P- Casou, né? E como é que é o nome da sua esposa e filhos?

 R- Norita Castex Aidar. Ela foi minha colega no Rio Branco, eu fazia o Pré-Jurídico e ela fazia o Normal. Nós namorávamos, namoramos três anos. Com quatro anos, ficamos noivos e casamos.

 P- Ela torcia para o São Paulo também? Ou não? Tinha que ser...

 R- Torcia. Acompanhava. Porque quando eu me casei eu estava no quarto ano de Direito ainda. Quando meu filho nasceu eu estava no quinto ano, faltava, meu filho nasceu em agosto, faltavam quatro meses, dois meses para eu colar grau, e eu me lembro que estava no Municipal, com toga e tudo, e fazia sinal para minha mulher que estava na hora de amamentar o meu filho (risos).

 P- O senhor pode dizer o nome completo dos seus filhos e a data de nascimento?

 R- Carlos Miguel Castex Aidar, nasceu no dia 25 de agosto de 1946. E Nora Castex Aidar, nasceu no dia 17 de outubro de 1958. Há doze anos de diferença entre os dois.

 P- Eles torcem também pro São Paulo?

 R- Hein?

 P- Eles torcem também pro São Paulo?

 R- Todos. Um foi até presidente.

 P- Tá bom. Agora pra a gente engrenar realmente na história do São Paulo, quando é que o senhor entrou na vida mais ativa em relação ao clube, em que ano? Em que situação? Como é que foi isso?

 R- Bom, eu era estudante aqui, quando já estava em São Paulo. Então já havia um negócio de uma forma mais concreta. Torcia... Torcia, acompanhava, isso, aquilo e tal, fui sócio do São Paulo, e fui me interessando por todos os assuntos do São Paulo. Eu ia ao Pacaembu e sentava ao lado, perto de alguns diretores, discutíamos, falávamos sobre o São Paulo, até que eu recebi um convite, uma comunicação, não, antes, um convite para ser diretor. Diretor não, advogado adjunto do São Paulo junto à justiça desportiva.

 P- Partiu de quem esse convite?

 R- Do titular na ocasião, quem me transmitiu foi o Dr. Estelita Pernet, mas naturalmente foi Cícero que estava. Então eu passei a advogar lá junto à justiça desportiva, fui feliz e fui convidado para conselheiro do São Paulo.

 P- Isso em que época, Dr. Henri?

 R- Hein?

 P- Em que época o senhor está falando?

 R- Eu ingressei como conselheiro em 1956. E depois tomei parte em várias comissões, comissão pró-estádio, tudo isso, até que em 63 fui convidado para ser diretor. Eu criticava muito o São Paulo: “A diretoria tem que contratar, tem que fazer isso”; era torcedor. Aí a diretoria, de uma forma muito inteligente: “Vamos acabar com essa crítica aqui”; convidou-me para integrar a diretoria como diretor de futebol, e eu fui. Aí que eu vi que uma coisa era estar lá dentro e outra coisa era estar fora, né? Compreendi. Então eu fui diretor do departamento de futebol, fui secretário, fui vice-presidente e fui presidente. Então eu acho que ocupei todos os cargos lá do São Paulo.

 P- Então pra gente começar, assim, do comecinho, como era essa comissão pró-estádio, como era a sua atuação dentro da comissão?

 R- A comissão pró-estádio era uma coisa extraordinária. Acho que só São Paulo... Hoje existe o Morumbi por causa dessa comissão. Justiça seja feita, o Manoel Raymundo Paes realmente foi um grande lutador por essa comissão. O São Paulo tinha duas contabilidades: uma do futebol propriamente dito e outra da comissão pró-estádio, que era para a construção do estádio. Então o futebol, a comissão pró-estádio, que tinha recursos, tinha dinheiro em banco, não como o que existe hoje, mas tinha recursos disponíveis, o dinheiro era todo canalizado para a construção do estádio, tudo. O São Paulo não fez um contrato de trinta metros sem ter o dinheiro em caixa, e o futebol pendurado em bancos, precisando de dinheiro, aval dos diretores, uma coisa aquilo... E a comissão pró-estádio não dava um tostão para o futebol porque sabia que não retornava. Claro que não retornava, era o São Paulo devendo pro São Paulo! Mas a torcida não queria saber, a torcida queria jogadores, queria tudo isso. Aí tivemos muita sorte com o Cícero, com o Laudo Natel, com o Marcelo Klascko, e com o Manoel Raymundo, que integrava a comissão pró-estádio. O Marcelo era tesoureiro e não dava um tostão. O São Paulo não tinha dinheiro para pagar o ordenado da comissão pró-estádio: "Vocês que são diretores de futebol que se virem nos bancos”, e toca a gente a fazer papagaio, papagaio em banco. E o dinheiro da comissão pró-estádio, que era o dinheiro resultante de publicidade, de aluguel de placas, de venda de cativas, tudo isso, era exclusivamente para fazer, para terminar o estádio, e foi graças a isso que saiu o Morumbi. Nós fizemos o estádio sem um auxílio oficial, quer municipal, estadual ou federal. Absolutamente nada, nada. Foi vendendo idéias e com a credibilidade que a diretoria tinha.

 P- Mas o que significava pros dirigentes do São Paulo naquela época construir um estádio? Qual era o significado? Vocês estavam imbuídos de quê para...

 R- Era a reafirmação de que o era o maior quadro do mundo, o maior time do mundo, o maior clube do mundo e precisava ter um estádio. Porque o Palmeiras tinha um estádio, o Palestra Itália, o Corinthians tinha outro lá pequeno, então o São Paulo veio com um sonho mirabolante. A ponto do nosso sócio já falecido Frederico Menzen, que ele tem uma frase muito bonita, dizia: "O São Paulo é tão grande que não cabe num sonho só. Tem que ser realizado". E essa foi a realização de gente abnegada, gente dedicada. E eu me lembro de que na inauguração do estádio, em 1970, o presidente Médici foi convidado e esteve lá. Lá na tribuna foi oferecido um coquetel, ele disse o seguinte... Ele gostava de futebol, Nossa Senhora! Ele disse o seguinte: "Tivesse no Brasil mais pessoas com esse espírito e com essa dedicação, o Brasil já teria há muito tempo saído da fase de subdesenvolvimento". Foi gratificante essa idéia do presidente reconhecendo o trabalho da gente, né? Porque terminou, não se devia um tostão para ninguém, nada disso, houve aquela... Aquela idéia do Paulistão, da venda, daqueles sorteios. Isso foi feito, e deu... Os recursos foram suficientes, aí cedemos uma parte daquilo para o Santos, para o Palmeiras, para o Corinthians, mas a beleza do fato foi que ao término, no momento que o dinheiro foi suficiente para terminar, o Laudo enviou um ofício ao ministro Delfim Neto devolvendo a patente, que não precisava mais, então nós devolvemos a patente de autorização ao ministério. Uma coisa muito bonita, né? Coisas intrínsecas, mas que emocionam a gente que orgulham a gente, a realidade é isso.

 P- Como é que se formou essa mística do São Paulo tão grande, tão importante? Foi conquista de títulos? Foi...

 R- Hoje?

 P- Não, nessa época que já...

 R- Em 1970? Acontece que nós entregamos o estádio pronto em 1970, fomos campeões em 70 e 71. Não éramos campeões desde 53, dezessete anos. Foi o tempo exato que levou a construção do estádio, dezessete anos.

 P- Mas eu só pediria ao senhor para voltar antes disso, no momento em que se disse: “Vamos fazer o estádio”. O que estava por trás? Porque o clube se achava tão importante, precisava ter uma sede tão importante?

 R- Porque há uma máxima que corre entre o são-paulino que o São Paulo não é melhor nem pior do que ninguém, é diferente. Então, exatamente por esta filosofia o São Paulo tinha que ter uma casa que seria orgulho não só do São Paulo, mas de todo o Brasil. Porque você há de convir que hoje quem construiu estádio construiu, quem não construiu não constrói mais. O São Paulo fez aquele estádio já com essa idéia para ser um palco para espetáculos de futebol e pra espetáculos. Nós já tivemos shows lá ultimamente... Shows, nós tivemos até vestibulares lá. Então, foi um estado de espírito.

 P- Identificando com a cidade...

 R- Com a credibilidade. Eu lembro que fui para Olímpia passar uma Semana Santa e o Poy era um dos nossos grandes vendedores de cadeira cativa. E eu levei quarenta cadeiras cativas e vendi lá em dois dias pro Poy. E todo mundo comprava porque acreditava. Olha, o pessoal comprou as cadeiras na planta, sem saber onde se localizava, sem saber para onde ia esse dinheiro. Então foi essa credibilidade tremenda e a qualidade de seus diretores, o Hélio Cícero, o Laudo, o Marcelo, o Manoel Raymundo, o Piragibe, esse pessoal difundia respeitabilidade.

 P- Como é que se formou esse quadro de dirigentes? Quais são os critérios...

 R- Cada um de um lado. Quem aspira cargos no São Paulo não recebe. Não tem. É um reconhecimento próprio do São Paulo pelo trabalho que o sujeito tem. Porque é um ônus, a gente vai trabalhar é um ônus, mas ninguém pede cargo. Todos os cargos que eu ocupei no São Paulo eu recebi esse comunicado: “Olha, você vai ser tanto”. “Mas como?” "Vai ser e acabou!” Eu estava em Paris, minha mulher estava acabando de chegar ao hotel e toca o telefone. Era do Brasil, Dallora e o Dr. Maris, disse: "Olha, é só para te comunicar, não tem retorno. Acabamos de lançar o Carlos Miguel candidato a presidente do São Paulo" e desligaram o telefone (risos). Eu falei, eu pensei: “Eu não acho que não deve e tal, tal”, mas foi isso. Pelo trabalho que ele desempenhou no São Paulo como diretor do Departamento Jurídico, pelo relacionamento que ele fez no meio desportivo nacional. Então no São Paulo tem, eu acho que até um mérito, quem pede cargo não recebe, quem vai atrás de cargo não recebe.

 P- Deixa eu lhe perguntar: como é que o clube empolgou a torcida nesses anos que vão, assim, desde quarenta e pouco até o último campeonato aí, que foi o último...

 R- Eu vou te dizer: as cores do São Paulo. Era o único clube que representava São Paulo. Você sabe que o São Paulo começou a crescer, a torcida começou a crescer a partir de 40, mas ainda estava na cabeça de todo mundo a revolução de 32, ainda estava latente, mordendo, tudo isso. Depois, na ditadura Vargas, nós tivemos aquele presidente da CBF, um parente do Getúlio... Quem era? Não me lembro, e aqueles maroteiros que eles faziam nos campeonatos brasileiros da bolinha quente, bolinha gelada nos sorteios e os paulistas sempre perdiam.

 P- O quê que era isso? Eu não sei.

 R- Uma bola assim para tirar quem vai mandar o jogo qualquer coisa, já era combinado entre eles, uma bola gelada era dos cariocas, então o sujeito enfiava a mão lá e pegava a bola (risos)...

 P- E o São Paulo sempre perdia?

 R- Sempre! Não só o São Paulo, o estado, a seleção paulista sempre perdia, mas ganhava no campo lá, então tudo isso foi acirrando os ânimos, a realidade é essa, e empolgando...

 P- Em 1945, 46 o clube foi bicampeão, né?

 R- Fomos.

 P- O senhor se lembra disso?

 R- Só não fomos tricampeões em 1947 por causa do Palmeiras.

 P- Que não deixou.

 R- De maneira que é um estado de espírito. É o que eu te falei, o São Paulo não é nem melhor nem pior, só é diferente.

 P- Mas aí o senhor fez uma travessia num deserto de muitos anos. A torcida compreendeu isso ou a torcida queria matar todo mundo?

 R- Perfeitamente, eu fui diretor do departamento de futebol, eu peguei o quadro. Nós estávamos no Rio-São Paulo com treze partidas sem vencer e fui lá e tal. Fomos jogar a última partida seria contra o Fluminense porque dois dias depois o São Paulo embarcaria para a Europa numa excursão. E em meia hora estávamos ganhando de dois a zero, mas daí deu “revertério” e tal, aí perdemos. Depois fizemos dois, três dias depois, fomos para a Europa e jogamos contra os campeões, isso em 63... É 63. Aí fomos para a Europa, disputamos doze jogos contra os campeões de tudo. O último jogo foi contra o Milan, e ganhamos todos as partidas, voltamos invictos da Europa. Dessas coisas que acontecem.

 P- E aí começou a mudar a sorte ou ainda teve que esperar muito pra ser campeão?

 R- Não, teve, teve... Fiquei treze... Em 1963... Sete anos, de pastor (risos), sete anos num jejum desgraçado. Mas depois começou, depois com a construção do Morumbi, certa independência econômico-financeira começou a dar certo. Claro que a gente recebia críticas tremendas, viu? Mas é só você não deitar, tirar das críticas as lições interessantes e necessárias, e procurar corrigir. Agora, se você se afundar por causa de uma crítica não tem jeito.

 P- Quem era o presidente quando o senhor foi convidado a ser...

 R- Diretor do São Paulo? Cícero. Era um homem extraordinário, eu ainda recebi uma última procuração dele. O São Paulo tinha um jogo importantíssimo, era 63? Não, 57, contra o Corinthians. Mas nós tínhamos quatro semanas antes jogado em Ribeirão Preto, e um jogador nosso que era de Barretos, o Marreco, foi expulso de campo e o julgamento foi adiado e adiado. No dia vinte e três... Vinte e dois de dezembro eles marcam o julgamento. O presidente do Tribunal de Justiça Desportiva era o Dr. Maximiano Ximenes, que era diretor e conselheiro do Corinthians. Então naquele julgamento, eu defendendo o Marreco, fazendo o diabo lá, e houve então uma... Um empate, três a três. Não, quatro a quatro, quatro absolvendo e quatro condenando por uma partida, não havia então aquela suspensão automática. Normalmente o que se esperava era que o presidente desempatasse a favor de uma pena mais leve, mas o Maximiano desempatou condenando, tirando o jogador do jogo que seria dia vinte e sete. Foi uma calamidade, o homem imprescindível para o time. Aí mexemos, o Cícero, o Laudo, eu, o Manoel, conseguimos com que a Dona Sara Kubitscheck, o presidente do país era o Juscelino Kubitscheck, fizesse com que o CND, presidido pelo Stalin Soares, se reunisse extraordinariamente no dia 26, um dia depois do Natal, e eu tinha que ir lá fazer a defesa. E eu com medo de haver qualquer coisa, peguei o trem no Natal, dia 25 (risos), minha mulher não entendeu muito isso. Fui pro Rio e chegamos lá e CND deu provimento ao nosso recurso, e o Amauri, o Marreco o nome dele era Amauri, ficou liberado, jogou fez o primeiro gol, ganhamos do Corinthians de três a um e fomos campeões.

 P- Isso em que? Cinquenta e sete?

 R- Hein?

 P- Cinquenta e sete?

 R- É, cinquenta e sete.

 P- O senhor costumava assistir aos jogos... O senhor sempre ia aos jogos?

 R- Sempre, sempre, sempre.

 P- Por que?

 R- Me sentia bem, gostava. Eu gostava de sentir, de sentar com o povão. Ia, discutia, fazia, eles sempre me respeitavam.

 P- E até hoje o senhor vai?

 R- Não vou mais. Sabe porque? Essa violência no futebol que existe afasta a gente. Eu gosto de futebol bonito, gostoso... Hoje não dá prazer. Está melhorando agora, né? Mas quando você vê os resultados manobrados, como acontece no Rio, e até aqui, parece que há qualquer coisa. Que interesse que tem? Está todo mundo sendo laqueado na sua boa fé, na sua confiança, e o futebol vai perdendo a sua credibilidade. É uma pena. Eu me lembro da Copa do Mundo, acompanho futebol desde 30, da primeira Copa do Mundo, 30, 34, 38, que o Brasil quase declarou guerra à Itália (risos). O Gagliano Neto, que aprontou com aquele pênalti do Domingos [da Guia]... Uma seleção de 38 extraordinária. Duas seleções, uma pesada e uma leve, que foi daqui a França de navio. Eu me lembro de todos os jogadores da seleção, todos, os dois quadros. O quadro pesado e o quadro leve. A gente acompanhava aquilo de uma forma... Depois a Copa de 50, né? Assisti a todos os jogos de 50, inclusive o célebre dezesseis de julho. Eu não sabia onde estava quando terminou o jogo, não sabia. Eu estava com a minha mulher lá, saímos do Maracanã debaixo de uma garoa forte, quase chuva, e fomos a pé até a cidade, mas arrastados, num desânimo, você não acreditava... Deus do Céu. Foi um negócio tremendo. Eu imagino por aí o que passou o pessoal do Atlético Mineiro em 78. Nós chegamos lá completamente condenados, quer dizer, os jornais: o Atlético como campeão brasileiro. Nós estávamos com jogadores que davam medo, Viana, Antenor, gente sem nenhuma possibilidade de enfrentar. Aí tinha aquele problema do Serginho e do Reinaldo. O Serginho tido sido suspenso por quatorze dias... Quatorze meses. E eu cheguei no estádio, depois daquela peripécia do avião desce não desce, vai não vai. Cheguei. Eu me lembro que o Feola reuniu os jogadores no vestiário e disse: "Olha, os jornais estão aí, o campeão é o Atlético, e acho que com exceção do presidente e eu ninguém acredita em vocês. Então vocês é que vão ter que responder, eu não sei se vão ter força moral e intrínseca para vencer". E o pessoal do Atlético com espiões - a gente tinha deixado a porta entreaberta, "Serginho vai jogar", e ele estava suspenso por quatorze meses. "Serginho vai jogar, Serginho não vai jogar". Então a gente botava a camisa no Serginho e falávamos "o Serginho vai jogar", e tirava a camisa do Caio e botava no Reinaldo e aquilo causou uma revolta no Caio, esse fato ocorreu umas duas ou três vezes, até que o presidente do Tribunal Superior de Justiça Desportiva, Dr. Moacir, eu estava com o bolso cheio de papel, não diziam nada, era jornal tudo isso, mas eu disse: "Dr. Moacir, eu sei que o senhor está com um efeito suspensivo pro Serginho, posso ver?" E ele disse "O senhor não vai ver, o senhor não é autoridade aqui, autoridade é o árbitro, eu vou mostrar pra ele, e eu vou mostrar para ele o efeito suspensivo" - que não tinha nenhum - "na  hora que ele entrar em campo". "Mas então eu vou permitir que o Reinaldo jogue", eu disse, e então ele falou: "O problema é seu, aqui o senhor não é autoridade, não vou lhe mostrar." E criou uma confusão, a imprensa lá e tal. E depois, antes de começar o jogo me botaram na tribuna e estava lá o Dr. Alysson Paulinelli, então Ministro da Agricultura, que me disse: "Aidar, você vai perder o rumo de casa hoje", e eu arrasado, porque o nosso quadro, nosso time não tinha chance. E terminou o jogo, eu entrei na hora de bater os pênaltis, eu entrei lá com essa veia saltada, tem uma fotografia que mostra isso aí. Eu voltei para a tribuna para receber, aí fui irreverente, passei perto do Alysson Paulinelli e disse a ele: "Ministro, de agricultura o senhor pode entender, mas de futebol o senhor não entende nada"(risos). E o Aureliano Chaves, na hora que me entregou a taça me disse: "O senhor sabe que eu gostaria de entregar essa taça para o Atlético", e eu falei: "Eu compreendo governador", ele era governador de Minas, "Mas no ano que vem eu estarei aqui, vou receber essa taça e o senhor vai ter o prazer porque estará como vice-presidente da república" - ele já havia sido escolhido - "e o senhor não vai fazer distinção entre um Estado e outro". Olha, e eu andei dando coice estupidamente, viu? Eu não sabia... Mas eu estava revoltado, né?

 P- E depois disso quais foram... Quando é que o senhor foi ao campo pela última vez?

 R- Acho que faz uns cinco anos.

 P- Então o senhor não acompanhou esses campeonatos mais recentes, 89?

 R- Como não acompanhei? Fora de campo.

 P- Mas a emoção é a mesma?

 R- Não. Você sentar ao lado do torcedor a emoção é outra. Eu me lembro, uma vez eu estava na tribuna e do meu lado estava o Monsenhor Bastos, outro grande são-paulino. E ele estava louco da vida, porque o Pedro Rocha estava numa fase horrorosa, e eu era presidente do São Paulo. O Monsenhor Bastos: "Ô, Aidar, você não tem outro pra botar no lugar do Pedro Rocha?". Monsenhor Bastos ficava desse jeito. Falei: "Monsenhor, só se for o senhor"(risos). Você vê que coisa, desrespeito a ele. Na hora você já tá aborrecido, e vem um companheiro dizer isso: "só se for o senhor". Me lembro, o São Paulo estava sem jogar, sem ganhar há muito tempo, então o pessoal cismou, não sei que, tem mandinga, tem isso, tem aquilo, vamos trocar o gramado, vamos tirar as coisas. O Gino me telefonou uns dois dias depois cedo em casa: "Dr. Aidar, está cheio de esqueleto, de macumba, aí enterrado no gramado. O que é que eu faço?" Falei: "Olha, os nossos você deixa, o dos inimigos você tira"(risos). O que é que eu ia fazer? Tem essas passagens que são gozadas. O Monsenhor Bastos, um homem extraordinário, de uma fé... Extraordinário. Ele era doutor da Igreja. E o pessoal estava ruim, estava apanhando, não ganhava e tal, então tinha um benzedor lá na Penha, e o Oto Glória, acho que foi... Oto Vieira, chegou: "Dr. Aidar, os jogadores gostariam de receber uma benzedura desse...". Eu disse: "Espera um pouco, o vice-presidente do São Paulo é o Monsenhor Bastos, tem que falar com ele". "Mas...". "Tem que falar. Não vou deixar vocês fazerem isso sem conversar com o Monsenhor Bastos. Vou tentar convencer o Monsenhor". Falei com o Monsenhor. Mas... "Henri, você tá é louco, como é que vai fazer isso?". "Mas eles estão há tantas partidas sem ganhar, estão desesperados, e eles estão com fé nisso". "Besteira, e não sei quê...". Aí foi lá e fez uma preleção bonita, depois me pegou do lado e disse: "Se eles quiserem, deixa, porque não vai fazer mal" (risos). Futebol faz isso.

 P- E deu certo?

 R- Deu. Mas essa de sapo, rato, galinha enterrados lá... Tem que enfrentar tudo isso.

 P- Tem tudo isso, né? Agora o senhor pode me dizer de que ano a que ano foi sua primeira gestão no clube?

 R- Eu fiquei como vice-presidente em 68, e o Laudo era presidente. Depois o Laudo foi indicado para... Pro governo do Estado, ele se afastou e passou a presidência pra mim. Então eu terminei o mandato dele como presidente. Depois eu fui eleito por dois períodos.

 P- De que época a que época?

 R- Foi de 69, 68, à abril de 78. De 70 a 78.

 P- Como era uma campanha pra eleição do senhor, Dr. Henri?

 R- Era muito calma.

 P- Como é que era? Me fala da primeira campanha pra presidência.

 R- No São Paulo, naquela época, a oposição era muito fraca, tudo isso, e os conselheiros conheciam a gente, confiavam na gente e tal, não era campanha acirrada. Só depois é que passou a ser... Já na campanha do meu filho, que pra mim foi surpresa, eu não sabia, fui surpreendido em Paris com a história, correu normalmente, a reeleição dele, normalmente. Depois a partir de 86 para cá é que começou... Quando o São Paulo cresceu e passou a ter dinheiro, passou a ser cobiçado (risos). Mas hoje... O São Paulo tem uma grande sorte, com todos. Tanto os diretores da situação como da oposição... Da situação hoje que era oposição, né? Todos têm trabalhado pelo time, todos têm...  Acima de divergências pessoais, eles levam em consideração o São Paulo. Esse talvez tenha sido o grande segredo do São Paulo.

 P- Nessa época em que o senhor foi presidente, nesses dois, três biênios, né? Qual foi... O senhor comprou jogadores de nome?

 R- Comprei.

 P- O senhor pode citar um e como foi o processo de compra?

 R- Pedro Rocha, Forlán, Toninho Guerreiro... O Pedro Rocha, parece, Darío Pereyra, que deu um trabalho tremendo. O Pedro Rocha, eu apareci em Montevidéu, me disseram onde era a casa dele, fui lá, nem me esperava, nada disso, estava lá a senhora dele. E eu disse a que vinha. E disse: "Mas já falou com o Pedro?". Falei: "Não, mas ele tá chegando aí..." Pedro Rocha é um gentleman, né? E realmente, meia hora depois ele chegou, estava tomando café e contei, ele ficou contente, no São Paulo, tal. "Só que é meio difícil, no Peñarol o senhor tem que falar com fulano", e fiquei falando com um, com outro. Com o Darío Pereyra havia uma lei proibindo a transferência de jogadores que não tivessem completado vinte anos, não podiam ser transferidos porque eles estavam visando a Copa do Mundo. Então, em razão disso, o que eu fiz lá: conversei com o Ministro de Esportes de lá, com o Ministro da Justiça, com o presidente da Federação Uruguaia, com os diretores de quase todos os clubes. Um diretor de um grande clube lá que daria autorização numa assembleia, desde que eu comprasse... Como chamava, um jogador... Mutalera, porcaria de jogador. Mas a base foi muito difícil, Nossa Senhora! Tentei modificar a lei, no fim eu ajudei muito o presidente do Peñarol, ele tinha uma empresa de pesca, facilitando aí... Você não queira saber o que é feito...

 P- Eu gostaria de saber.

 R- O comércio, facilitando a venda dele, do pescado dele pro Brasil, não foi brincadeira, viu? E eu tava hospedado lá no Hotel Plaza, na praça de Montevidéu, de repente vejo uns cretinos lá, com uns cartazes: "Fuera Aidar, retorne a su pátria!". Porque o Darío era um ídolo lá, é um ídolo. Mas no fim deu tudo certo. Eu tinha um colega, um grande jurista, e era conselheiro do Peñarol e também da Federação Uruguaia de Futebol. Eu fui falar com ele. "Tô perdido aqui, não aguento mais". Ele disse: "Mas ele quer ir, o Darío?" Falei: "Quer. E mais, é do Nacional. Vai enfraquecer o Nacional e vocês, o Peñarol...". "Não, eu não viso isso", e tal, não sei o quê... Mas ele me ajudou muito. Ele que me arrumou as audiências com as autoridades. No fim não houve tanta pressão das autoridades, a pressão era dos presidentes de clube. Talvez alguns tivessem algum interesse inclusive de empurrar algum jogador deles, mas foi tudo bem, graças a Deus.

 P- O senhor durante este período teve alguma realização durante sua presidência, que mais tenha lhe marcado, lhe sensibilizado? É claro, sem desmerecer as outras, mas alguma que...

 R- Nós tivemos muita coisa. O parque aquático nós iniciamos, no São Paulo tem uma coisa: não existe o personalismo, ali é difundido entre toda a diretoria, entre toda a coletividade. Quadras de tênis, melhoria do Morumbi, só sei que ia inaugurar o Morumbi e não tinha placar, não tinha iluminação. Eu saí com o Galvão, nós fomos na Phillips e eu levei até uns prospectos internacionais pra mostrar: "Vocês iluminaram na Holanda, iluminaram... E aqui em São Paulo, vocês não iluminaram um estádio". "É tal, não sei que...", olha, depois dessa conversa, desse assédio horroroso, eles resolveram fazer uma espécie de leasing e nós pagaríamos o leasing com publicidade no estádio, no fim ficamos com aquilo. O negócio no São Paulo foi palmo a palmo. E é por isso que a gente se orgulha de ser são-paulino. 

 P- E em termos de jogadores, o senhor tinha uma relação muito próxima a eles?

 R- Tinha, muito boa.

 P- O senhor foi muitas vezes padrinho de casamento, batizou muito filho...

 R- Já fui solicitado de madrugada... A mulher do jogador disse "Doutor..."

 R- Era difícil... O Gérson, quando quis ir embora, dia primeiro de maio, ele telefonou pra minha casa. Disse: “Doutor, eu posso ir na sua casa agora?”. Falei: “Pode”. Vieram ele e a mulher. "É, doutor, eu sou muito grato ao São Paulo". Realmente, quando ele veio da Copa do Mundo, antes de ir ele estava meio desmoralizado, e nós contratamos o Gérson, e ele ficou com a imagem dele muito elevada. Oferecemos um jantar pra ele, demos um relógio, tal. Ele ficou com os olhos marejados, por aí você vê. Ficou todo contente e tudo... Eu me dava muito bem com ele. Ele foi com a mulher dele lá em casa. A senhora dele era uma senhora distintíssima. Mas o sogro dele era um... Era um diabo. Ele chegou: "Doutor, terminou a minha casa em Niterói...”. Porque o Gérson vivia para a mulher e para as filhas, duas filhas. Não era dado a farras, não bebia, não era da noite, só fumava, mas só. O resto era exemplar. Ele chegou: “Eu não posso mais. Eu quero usufruir o que eu construí e quero encostar o corpo, e não vou encostar no São Paulo”. "O que é que você quer, Gérson?". "Quero ser vendido prum clube do Rio". "Que clube?". "Tem que ver". Falei: "Ó, pro Rio só te vendo pra dois clubes: Fluminense ou Botafogo". Pro Botafogo com o aval do Xisto Toniato, que era o dono de tudo aquilo. E pro Fluminense não há problema. "Tá bem". Ele foi. No dia seguinte, dia dois de maio, que ele não viajava de avião, às dez horas ele me telefonou pra Casa Civil. Era o Gérson: "Doutor, tô aqui no Fluminense, isso aquilo, tal, não sei o quê... Ah” - ele me disse - "quanto é que o senhor vai pedir pelo passe?". Na minha casa ainda! "Não sei, você que vê". "Vocês me pagaram 900 mil cruzeiros e eu dei dois campeonatos pro São Paulo". "Não, você não deu. Você ajudou, você ajudou". "E... Acho que se eu vender por 900 mil eu já fiz o que tinha que fazer?". "Não. Você disse que depois eles chamavam o Pelé de crioulo. Depois do crioulo ser o maior do Brasil, se eu te vender por novecentos você fica como o Agenor aí". Isso dá, não dá... "Quanto o senhor quer?". "Quero quatro milhões". "Mas... Quatro milhões!" Ele foi lá, fizemos a transação com o Fluminense, no fim vendemos o Gérson por três milhões e mais um empréstimo de um jogador do Fluminense que veio para a ponta direita, que se não desse certo o Fluminense daria mais 200 milhões. Foi tudo certo, mas ele foi de uma honestidade para com o São Paulo...

 P- Pra gente ir encerrando a nossa entrevista, como é que hoje o senhor escalaria um time do São Paulo? Hoje.

 R- Nunca me meteria nisso.

 P- Não? Por que?

 R- Porque eu acho que nós temos um técnico fora de série. Com algumas de suas escalações eu não concordei, mas verifiquei que eu estava errado. Tanto estava errado que o São Paulo está aí: bicampeão do mundo, com uma série de títulos. Eu acho que o dirigente e o torcedor não devem meter a colher na panela, a panela é do técnico. Ele é que sabe o que faz. 

 P- Mas se tivesse então que montar um time do seu sonho, de todos os tempos do São Paulo?

 R- Do São Paulo? Varia, né? Goleiro, seria o Jurandir. Ou o Zetti, que está numa forma extraordinária. Nós teríamos dois backs, Mauro e Bellini, tanto que foram pra seleção. Lateral esquerdo tivemos, já falei, o Orozimbo, que foi um homem extraordinário. Hoje muda, mudam as posições, né? Um volante, o Zé Júlio era mais garra, mas não era, não tinha a técnica dos atuais. É difícil, viu? Lateral direito... O volante teria que ser o Cafu mesmo. O lateral direito, Zezé Procópio. E a linha, um Careca, um Luizinho, que faleceu agora, o Waldemar de Brito que foi um centroavante fora de série... Um ponta esquerda, Canhoteiro, também fora de série, e Sastre. E na reserva o Pelé (risos)!

 P- Tá bom então, muito obrigada então Dr. Henri.

 R- Falei?

 P- “Tá” jóia.

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