Busca avançada



Criar

História

Orgulho, controle e acaso: memórias de linhas de transmissão

História de: José Leonardo Carvalho Filho
Autor:
Publicado em: 28/10/2021

Sinopse

José Leonardo Carvalho Filho nasceu em Vitória, no Espírito Santo, em 26 de janeiro de 1961. Descendente de portugueses e holandeses. Seu pai trabalhava na siderúrgica Ferro e Aço e a mãe trabalhava no comércio da família. O casal se conheceu neste estabelecimento. É o menor dos dois filhos do casal. 

A família morava no Jardim América, quando completou 3 anos se mudou para o Parque Moscovo, onde morou até os 8 anos. Nessa época, o seu pai adquiriu uma granja em Domingues Martins e se tornou um grande criador de frango do Espírito Santo.

Sua infância foi brincando na rua, na granja do seu pai e no sítio do avô. Viajava muito para o Rio de Janeiro com a família. Como nem todas as famílias tinham televisão em casa, o seu pai colocava a televisão na varanda para que a vizinhança pudesse ver a novela Irmãos Coragem. Lembra de ter visto o homem pisar na Lua pela televisão. 

Leo é tricolor e frequenta o Maracanã desde 1968 como torcedor oficial. 

Em 1976, se mudou para o Jardim Botânico no Rio de Janeiro. Morava num Rio diferente onde era possível jogar futebol na rua, andar de bicicleta tranquilo, ir à praia a pé.

Frequentou a Escola Santo Inácio até o ginásio onde não se enquadrava pois sofria muito bullying. Após muitas confusões, foi para o Brasileiro de Almeida onde se identificou.  Por influência do tio, foi cursar economia na Universidade Cândido Mendes e mercado de capitais no IBMEC. Nesse período sua rotina era de manhã ia para faculdade, de tarde para o estágio na Fundação Getúlio Vargas e a noite para o curso do IBMEC. 

Após formado, em 1985, as oportunidades que tinha eram no mercado financeiro, mas ele não queria. Seu cunhado o convidou para trabalhar com logística na sua empresa de fornecimento de comida industrial em Guarapari. 

Depois de 2 anos, retorna ao Rio de Janeiro e se emprega como gerente de trainee da Viação Itapemirim. A convite do novo cunhado, foi trabalhar na Quebra Mar, uma empresa de surfwear. Esta empresa também patrocinava sua participação em corridas de moto. Depois da Quebra Mar, em 1988 ele abriu o restaurante Cristóvão, para atender as empresas do bairro de São Cristóvão. 

Após um tempo desempregado, foi trabalhar numa empresa de ticket chamada Cupom Refeição. 

Sempre participou de competições de moto. Depois de 2 anos trabalhando nesta empresa, recebeu o convite do Milton Pânico, de treinar as equipes de FURNAS para os técnicos aprenderem a fazer a inspeção das linhas de moto. Montou uma empresa de treinamento e assinou o contrato com FURNAS.

No final do primeiro mês de contrato, em 1998, passou a ser supervisor de linhas de transmissão e ingressou como contratado na empresa. A partir daí, estudou engenharia, eletrônica, sistemas elétricos e fez pós-graduação em engenharia elétrica em Itajubá. 

Em 2009, foi infectado por uma bactéria que é transmitida pelo carrapato enquanto executava um trabalho de campo. Ficou 50 dias no CTI, sendo 22 deles em coma. Esse episódio mudou seu modo de ver a vida. 

Prestou concurso para Assessor Técnico e ingressou no quadro de funcionários de FURNAS. 

Destaca a emergência da Copa como um trabalho emblemático da equipe de linhas. 

José Leonardo é casado com Andrea há 31 anos. Desde criança sonhou em ser pai e hoje tem dois filhos: Leonardo e Luísa, e espera o nascimento de seu primeiro neto. 

Tags

História completa

Um pequeno excerto sobre a história de José Leonardo 

 

É um trabalho complexo, que tem uma logística complexa. O grande lance de linha de transmissão é a logística. Se você se organiza, você consegue, tem que saber qual é a prioridade [...]

 

Meu pai sempre saiu cedo para trabalhar, a vida inteira, essa é uma recordação viva que eu tenho. Ele acordava cedo, fazia café e ia trabalhar. E minha mãe ficava cuidando da casa, essa era a dinâmica comum, uma cultura típica da minha geração. Meu pai fora trabalhando e mamãe limpando a casa, lavando roupa, cuidando da casa, perturbando a gente porque a gente fazia bagunça. Minha infância, com certeza, não foi só flores, mas no geral as recordações que tenho são boas. Tive uma família legal, estável, de vez em quando fazia uma arte, tomava castigo, normal. 

Lembro-me de que logo cedo nós tivemos uma televisão, meu pai gostava de tecnologia. Igualmente me lembro de estar andando de bicicleta e gritarem para a gente ver o primeiro homem a pisar na lua. Na verdade, eu tenho umas memórias bem legais com televisão. Me lembro quando surgiu a televisão colorida e que o único desenho que passava colorido era o da Pantera cor-de-rosa, passava antes do jornal, então a gente ficava o dia inteiro esperando para ver 10 minutos de desenho colorido. 

E outra lembrança muito legal que tenho em relação a isso é que, como ninguém tinha televisão em Guarapari, meu pai botava a televisão na varanda para o pessoal de lá. Era um povoado de pescadores, pequenininho, chamado Vila Perocão. Na época, passava a novela Irmãos Coragem, e o pessoal vinha todas as noites assistir a novela, todo mundo no muro, sentado na jaqueira, banquinho, cadeira, era muito engraçado. Eu tenho esses flashes daquela galera. E se alguém falasse era uma bronca danada! Porque perdia o som. A televisão, imagina, era uma televisão pequenininha, com o som fajuto. 

Em relação ao rádio a gente tinha uma coisa interessante. Embaixo do nosso prédio tinha a loja de discos mais famosa de Vitória que se chamava Jairo Maia, então, a minha mãe comprava muito compacto e a gente ouvia muito vitrola. Dizem que a primeira música que eu cantei foi uma música do Roberto Carlos, que minha mãe era fã. Tenho lembranças da gente ouvir muita música, não de rádio, mas dos discos. 



Desenho de um círculo

Descrição gerada automaticamente com confiança média

Meu primeiro contato com FURNAS foi como instrutor de motos em linha de transmissão. Foi uma ideia do Milton Pânico Júnior, que conheci por intermédio do meu ex-cunhado. Eu peguei um dinheiro que eu recebi de uma rescisão, comprei três motos, eu já tinha a minha, chamei um amigo, montamos uma empresa e começamos a treinar os funcionários de FURNAS, começamos a ensinar o pessoal a andar de moto pelas linhas de transmissão. Na época, tinha um recurso administrativo chamado AS, uma autorização de serviço. Você fazia todos os trâmites legais, chamava outras duas ou três empresas, mas não tinha ninguém para concorrer à licitação porque não existia ninguém que fazia isso. 

Eu saía toda segunda-feira com os funcionários, ia para o campo e ficava treinando o pessoal a andar de moto pelas torres, e também aproveitando para fazer as inspeções. Às sextas-feiras, eu voltava do campo e o Milton Pânico me chamava para almoçar, só para saber como estavam indo as coisas. No final do segundo mês ele chegou para mim e falou: “Você não quer vir trabalhar comigo aqui”? Eu falei bem assim: “O que eu vou fazer aqui?  Eu sou economista, especializado em área financeira, não entendo nada do setor elétrico”. E ele: “Isso eu te ensino, agora, o seu perfil, eu não tenho aqui”. 

Me tornei supervisor de linha de transmissão. Passei a ser supervisor dos caras que eu estava treinando! Lembro que ele falou assim: “Sua data de início é essa, 12 de outubro”. “Pô, no feriado?” “Qual é o problema, você não quer trabalhar?”. Não esqueço essa frase dele. 

Claro que depois eu fiz muitos cursos de especialização, cheguei a fazer, eu não sei como, uma pós-graduação em engenharia elétrica na Universidade Federal de Itajubá. E em um momento, nos corredores ventilaram que FURNAS ia abrir um concurso, e aí eu comecei a estudar, tinha uma chance de entrar como assessor técnico, que permitia ser qualquer profissão. 

Eu me dediquei, peguei a matéria no edital e fiquei estudando. Certo momento veio a notícia de que não iria mais ter o concurso. Todo mundo parou de estudar, mas eu continuei. Pensei: “Cara, esse concurso vai voltar”, e voltou, e quando voltou eu era um dos únicos que estava estudando. Passei em quarto lugar no concurso público de FURNAS. Me tornei funcionário da casa. 

 

Desenho de um círculo

Descrição gerada automaticamente com confiança média

O dia a dia do supervisor de linha de transmissão é muito importante porque se você faz uma boa inspeção e uma boa manutenção corretiva, a quantidade de problemas é muito menor. A emergência é uma emergência, uma fatalidade, ventou forte e a torre caiu, você não tem como prever isso, agora, eu fico assustado quando eu vejo um mutirão para trocar o para-raios. Eu fico pensando: Como é que deixaram chegar num nível em que precisa de um mutirão para trocar alguma coisa? Estão valorizando a corretiva e não estão valorizando a preventiva, ou seja, as pessoas não estão fazendo seu trabalho, e isso me preocupa. 

Você vai para o campo ver a linha de transmissão, numa área você tem que trocar 80 isoladores e na outra trocam cinco. O que é isso? Uma está fazendo manutenção e a outra não. E esse é o trabalho do supervisor, não deixar chegar a 80. Ele tem que trabalhar para manter a manutenção de energia, tem que trabalhar para a equipe entender isso, o técnico tem que entender que a função dele é importantíssima, é vital, e que ele tem que fazer uma baita de uma inspeção e valorizar isso. 

Supervisão e manutenção não param. Neste momento eu tenho uma equipe fazendo linha viva, trabalhando com a linha energizada, trocando acessórios, trocando isolador, trocando para-raios, acrescentando peças que corroeram. Nós temos uma equipe de corrosão de estrutura trabalhando direto, o ano todo. Nós temos duas equipes fazendo recuperação e manutenção das estradas de acesso, porque nós precisamos chegar nas torres. São aproximadamente 7500, 8000 km de estrada de acesso. Temos equipes de inspeção e de manutenção normal, que estão trabalhando em outros tipos de manutenção de solo, como aterramento de cerca, esse tipo de coisa que a gente tem que manter. 

É um trabalho complexo, que tem uma logística complexa. O grande lance de linha de transmissão é a logística. Se você se organiza, você consegue, tem que saber qual é a prioridade, e o supervisor atua mantendo tudo isso, variando, trocando, conversando, mantendo o trabalho em alta sem que caia na rotina. 

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+