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História

Oportunidade para todos: um projeto de vida

História de: Francisco Roberto do Nascimento (Chico Roberto)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 28/02/2009

Sinopse

Comunidade Indígena em Roraima. Estudou em internato. Mudança para capital do Estado. Jogador de futebol. Esporte como abertura de caminhos. Concurso no Banco do Brasil. Atuação na Instituição em toda a Região. Comunidades Indígenas. Pecuária. Agricultura. Política. Participação na história de Pacaraima. Solidariedade. Valor da amizade. Reflexão sobre a vida.

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História completa

P/1 – Boa tarde, Chico. Pra começar, eu gostaria que você dissesse o seu nome completo, local e data de nascimento.

 

R – Meu nome completo é Francisco Roberto do Nascimento, nasci em Boa Vista, Roraima, e vim aqui para Surumu com três anos de idade, em 1958.

 

P/1 – Nome dos seus pais?

 

R – José Fernandes de Freitas e Rosália Nascimento de Freitas.

 

P/1 – Seus pais são da onde?

 

R – Meu pai nasceu em Boa Vista, minha mãe nasceu numa comunidade indígena chamada Xiriri, na área indígena Raposa Serra do Sol. A minha mãe foi interna, chamávamos de internato, localizado na terra indígena Raposa Serra do Sol.

 

P/1 – Queria que você contasse um pouco mais da sua história, da origem da sua família e falasse do seu registro também.

 

R – Como eu vinha te falando... a minha mãe vivia num internato chamado São Marcos, terra indígena também. São Marcos fica aproximadamente perto de Boa Vista. É onde nasce o rio Branco, que nasce de dois rios chamados rio Uraricoera e rio Tacutu. Ali, onde nasce o rio Branco, antigamente os holandeses e os ingleses entravam pela Guiana Inglesa pra vir buscar ouro, já no Brasil, naquela época. Então, o que fizeram? Os indígenas formaram um forte junto com o Exército, o forte São Joaquim, que é justamente pra fazer o policiamento das pessoas consideradas invasoras naquela época. E lá, a Igreja Católica fez um internato. Minha mãe, por ser indígena, morava nesse internato. Ela tinha 3 anos quando a minha avó morreu e ela ficou como interna até os 10 anos de idade. Quando o Marechal Rondon esteve aqui na região para fazer a demarcação, ele pediu que minha mãe, como outras pessoas, fossem entregues às famílias que morassem em Boa Vista para continuarem os estudos. A Igreja Católica sempre foi muito ligada à causa indígena e minha mãe foi entregue a uma família de posse, morava em Boa Vista, família Souto Maior, para que criasse minha mãe. Eu chamo de Vó Coema que foi quem, na realidade, criou minha mãe.

 

P/1 – Nome da sua mãe?

 

R – Rosália, chamam de “Dona Rosa”. E, por essas coisas do destino, minha mãe foi pra Boa Vista e depois veio morar no Surumu, aqui, na época Vila Pereira Surumu. O meu pai foi quem veio trazer o primeiro motor de energia para cá. Eu vim para cá com 3 anos de idade e fui estudar na Missão São José. O que era a Missão São José? Era um internato como o que tinha lá em São Marcos, acho que dos padres jesuítas que fizeram esse internato e a gente daqui estudava. Tinham aproximadamente 150 pessoas que eram internas, quem tomava conta era a madre e os padres. A gente que era da Vila também estudava lá. Eu vim pra cá, com meus pais, com essa função.

 

P/1 – Deixa só eu entender: Como é que sua mãe conheceu o seu pai? Foi quando ele veio trazer energia?

 

R – Não, ela conheceu em Boa Vista. Ela sendo criada pela Vó Coema, por essa família. Ele também morava em Boa Vista, o apelido do meu pai é “Zé do Hangar”. Por que Zé do Hangar? Antigamente, a dificuldade em Boa Vista era muito grande e só tinha um, dois aviões. E o avião que vinha de fora, de Manaus, era de 15 em 15 dias. Aqueles aviões pequenos que a gente chama de “teco-teco”. E o papai trabalhava em um desses hangares. Então: “Quem?” “O Zé”. “Que Zé?”. “O Zé do Hangar”. E aí ficou “Zé do Hangar”. E mamãe conheceu o papai lá em Boa Vista. Ela saiu dessa casa onde foi criada já casada com o meu pai. Foi quando meu pai foi trabalhar na atual CER, Centrais Elétricas de Roraima, na época não sei como era. Mas era uma empresa do governo responsável pela geração de energia elétrica no interior. Então, mamãe casou com papai e, como aqui não tinha luz, o papai foi destacado para cá, para ser o responsável pela energia elétrica daqui, no Surumu.

 

P/1 – E você teve quantos irmãos?

 

R – Eu tenho seis irmãos.

 

P/1 – Qual o nome de...

 

R – Eu sou o mais velho, Francisco. Tem o Roberto, o Rodolfo que hoje mora aqui e é vereador, Sebastião, Jefferson e a Mônica.

 

P/1 – O que eles fazem?

 

R – Eu sou aposentado do Banco do Brasil, já. Fui prefeito por duas vezes aqui do nosso município. O meu irmão segundo, o Roberto, é funcionário da Prefeitura Municipal de Boa Vista, é tesoureiro. O Rodolfo tá como vereador hoje, é morador daqui, tem um carrinho que ele trabalha, de taxista, essas coisas todas. O Sebastião trabalha nas Centrais Elétricas de Roraima, em Boa Vista. A Mônica é antropóloga, é funcionária concursada do Governo do Estado. O meu irmão Jefferson é agrônomo e professor da Universidade Federal de Roraima e é doutor em Antropologia. Ele chegou agora de Maringá, recém-formado, acabou o doutorado dele.




P/1 – O seu pai trabalhava na empresa...

 

R – Sim, como mecânico de avião. Primeiro mecânico de avião daquela época, Território Federal de Roraima.

 

P/1 – E a sua mãe fazia o quê?

 

R – A minha mãe é doméstica, de casa.

 

P/1 – Também, com tanta criançada aí...

 

R – Pois é [risos]. 

 

P/1 – Eu queria que você falasse um pouco da sua infância. Foi aqui a sua infância?

 

R – A minha infância foi aqui.

 

P/1 – Então, conta um pouco da sua casa...

 

R – Eu vim para cá com três anos. Eu estudava na Missão São José, como te falei, que era uma escola dos padres. Eu não era interno, morava na vila e estudava lá a 1 quilômetro daqui. E eu fui criado aqui, fiz até o primário. Era a melhor escola do Estado, na época, do Território, porque nós tínhamos os melhores professores. Os professores daqui eram do Clero, todos tinham formação. Eram aqueles que estudavam pra serem padres e vinham para cá naquele período de arrependimento, se queriam seguir ou não. Eram formados em Teologia, nessas coisas todas. Então, nós tínhamos os melhores professores. Eu lembro que eu dei aqui, mesmo naquela época que a gente chamava de primário, eu dei Latim, Inglês. Nós tínhamos uma escola muito boa aqui. Eu só saí pra ir pra Boa Vista quando não tinha mais o que estudar aqui, naquela época era até a quinta série do primário. Mas, a minha infância foi aqui, brincando nessas ruas. A luz aqui é de 6h da tarde às 9h, era só o período que a gente tinha luz. De dia tinha meia hora de luz de manhã e à tarde, que era pra funcionar o rádio telégrafo, aquela época a gente não tinha telefone. E eu lembro que eu ajudava o papai. Eu fui balseiro aqui, aqui não tinha essa ponte. Então, papai fez uma balsa de tambores com umas tábuas em cima.

 

P/1 – E você tinha quantos anos quando era balseiro?

 

R – Ah, 13, 14 anos. Eu lembro de noite, às vezes, a gente brincando o carro chegava do outro lado do rio, o cara dava o sinal: “Francisco, vai atravessar fulano”. Eu já ia chorando, primeiro porque eu tinha que largar a brincadeira [risos], segundo com preguiça. E era na corda, a gente tinha que puxar na mão, e isso tudo.





P/1 – E o que era a brincadeira?

 

R – Ah, brincadeira aqui, a gente brincava de “bandeirinha”, de “geral”, não sei se vocês conhecem...

 

P/1 – Não, conta pra gente!

 

R – “Bandeirinha” é o seguinte: Você traça uma linha aqui no meio, fica, por exemplo, cinco de um lado e cinco do outro. Uma bandeira de cada lado. E esse daqui tem que roubar a bandeira de lá sem ser “triscado” por ninguém. O “geral” você deixa um... Por exemplo: Esse pau aqui você marca ele e fica alguém contando. Então, eu vou contar até 31, quando chegar 31 eu grito: “31, alerta!”. E some todo mundo. Eu não posso deixar que ninguém chegue aqui, “trisque” nesse pau sem eu, vamos dizer assim, sem eu te tocar. É essa nossa brincadeira. E “papagaio”, bola de gude, que a gente chama de “peteca” aqui. Todas essas coisas... Brincar de carrinho, como a gente não tinha dinheiro, fazia aqueles carrinhos de lata de leite ninho. Você pega a lata de leite ninho, fura com um prego, na frente e atrás, põe um aramezinho aqui, tá aí o cordão e você puxa. São os nossos carrinhos. De pião, a gente tira madeira e faz o pião na mão. Pescar... Essa foi a minha infância aqui. Tirar leite, ir pro curral, sair no lavrado, no campo, para pegar o porco, correndo. Antigamente as fazendas aqui não tinham cerca. “Balar” passarinho. A gente descobriu que quando está chovendo muito e a gente espanta os passarinhos que estão sentados nas árvores, eles começam a voar e, como a pena molha, fica fácil da gente pegar eles [risos]. Tudo isso a gente fez.

 

P/1 – E que tipo de passarinho que tem aqui, os nomes, você sabe?

 

R – Aqui tem o Corrupião, a Pada Pada, a Rolinha, o Sangue-de-Boi, o (Pé-de-Ciloura?), o Sanhaçu. A nossa fauna aqui é muito rica, muito rica mesmo.

 

P/1 – Fala um pouco mais sobre a flora daqui também, os nomes das...

 

R – Aqui a gente tem algumas frutas bem regionais: Mirixi, tem Mirixi de galega, fora Manga, Banana, Araçá, Goiaba, Ata, que pra vocês é Pinha, tem o Dão, que só tem aqui em Roraima. Taperebá, que lá pro Nordeste é Cajá. Jenipapo, que é uma fruta indígena. Tem tudo isso de fruta e a gente se deliciou por muito tempo. A gente aqui não precisa plantar manga. Em todo lugar tem fruta e ninguém plantou. Um joga uma semente ali, outro ali, e isso vai nascendo. E essa terra era muito rica, rica em pecuária. Nós abastecíamos o mercado de Boa Vista e Manaus, naquela época, com gado da região. Essa questão de terra indígena que foi tirando mais um pouco dos pecuaristas daqui, mas a região Surumu e Cotingo, que é daqui pra frente, era rica em pecuária.

 

P/1 – Só voltando um pouco. E nessa época que você era criança, tinha alguma lenda que vocês contavam, histórias?



R – Ah, tem essas lendas indígenas do pajé. O pajé é um curandeiro. Por exemplo: O que reza pra ti ficar boa de alguma doença que você tem, ou que te coloca, por exemplo... Eles falam assim: “Ah, fulano fez mal pra sicrano”. Ele te colocou alguma macumba para você perder a namorada, adoecer ou uma coisa desse tipo. A gente chama de “rabudo” também. O “rabudo” é um indígena que... Assim, vai uma menina, ele quer pegar a menina lá e faz um medo, ou pro pai da menina, ou pra menina, então...

 

P/1 – Tinham essas histórias aqui...

 

R – Tinham essas histórias aqui.

 

P/1 – Você falou que tinha entrado na escola, né? Eu queria que você falasse um pouquinho dessa escola. Porque nessa região, como é que era a escola? Você lembra, assim, fisicamente mesmo? O material escolar...

 

R – Ah, eu lembro. Ainda existe a escola. Eu lembro bem da merenda que recebíamos. Tinha um emblema que é uma mão assim, tinha Aliança para o Progresso, tinha o emblema dos Estados Unidos. E a Aeronáutica ajudava também. Como era dos padres, a gente recebia aqueles tambores de leite em pó, ou vinha em saco. O resto era arroz, mingau. A gente fazia mingau de arroz com esse leite que a gente tomava. E os alunos eram pessoas carentes que vinham de Boa Vista que ou não tinham mãe, ou não tinham condições de estudar, ou os indígenas aqui da região. Como o papai tinha um pouquinho mais de posse, a gente recebia essas pessoas quando não estavam internas, elas moravam na casa da gente ou com algum fazendeiro aqui perto. Nós devíamos ter uns 250 alunos naquela época estudando na escola. Até porque só existia esse povoado, a sede de Pacaraima não existia. Desde aí, eu tive um sonho de um dia, passando a município, ser prefeito. Porque, na minha mente, eu precisava ajudar aquelas pessoas que estudaram comigo, que hoje ainda estão aqui, que são Tuxaua, ou um diretor de escola, alguma coisa. Eu tive um pouquinho mais de sorte de ter saído e estudado na capital.

 

P/1 – Uma curiosidade nessa escola: A língua. Vinham pessoas de comunidades diferentes, línguas diferentes ou era a mesma língua?

 

R – Tinham comunidades diferentes, mas a língua materna eles só estudavam entre eles, na escola aqui a gente não estudava. Mas, entre eles, eles falavam a língua materna.

 

P/1 – E quais eram?

 

R – Mais o Macuxi e o Uapixana. Tem o Taurepangue que é mais para perto de Pacara, mas aqui predominava o Macuxi e o Uapixana.

 

P/1 – Então, você estava nesta escola e teve de ir pra Boa Vista para estudar?



R – Para Boa Vista estudar, fazer o Ginasial.

 

P/2 – Com 13 anos, mais ou menos?

 

R – Isso, 13, 14 anos. Agora, eu nunca deixei de vir para cá. Nas minhas férias eu voltava pro Surumu. Eu lembro quando eu chegava aqui, a mamãe me internava três dias no hospital. Eu ia tomando aquilo que a gente chamava de “purgante”, remédio pra verme, tudo [risos]. Eu ficava três dias internado no hospital para tirar as impurezas. Voltava pra casa, a nossa alimentação básica era carne, peixe, pesca e o leite que era tudo farto, aqui.

 

P/2 – Você foi sozinho? Como foi isso?

 

R – Eu fui morar justamente com a pessoa que criou a minha mãe, embora a nossa casa existisse lá em Boa Vista. Mas, como papai tava para cá e eu era o mais velho, eu fui morar com a pessoa que criou a minha mãe, lá eu estudava.

 

P/1 – E como foi?

 

R – Eu lembro que aqui eu jogava bola, era bem aqui o campo de futebol. E eu cheguei lá e ficava olhando os outros jogarem bola, porque ninguém me conhecia... Aqui, em 1968, veio o Exército Brasileiro, que hoje tem o seu destacamento em Pacaraima. Veio e ficou aqui sediado. E, um certo dia, eu estava lá, jogando bola, isso, num ano. Sabe aquela criança que tá vendo o picolé, quer chupar e não pode? Era o meu caso, eu ficava olhando aquilo lá e tal. Um dia faltou alguém lá e um amigo disse: “Tu não sabe jogar bola? Não quer entrar?”. Ele me viu jogando bola e eu, nunca mais, eu saí do time. Passou e ele me convidou para ir treinar num clube que é de Boa Vista e existe até hoje, que é o Baré. Para você ver o destino: Eu saía daqui do Surumu pra Boa Vista, eram dois dias de viagem, de carro. Eu saía daqui para ir ver o Baré jogar. E, de repente, eu me vejo treinando naquele time que eu gostaria de jogar. Aquilo, para mim, foi um sonho.

 

P/1 – Que posição você jogava?

 

R – Escute lá. Aí, um dia eu tô lá, aqui tinha um cabo do exército chamado Ribeiro e ele me viu jogar aqui. Quando ele me viu lá, ele me chamou e disse: “Tu não é aquele neguinho lá do Surumu?”. Eu disse: “Sou”. Ele disse: “Você não quer ir treinar no Baré?”. Aquilo para mim era um sonho. Eu disse: “Eu quero”. Aí, eu cheguei lá, ele formou o time dele de base e tudo. Quando terminou o primeiro tempo ele me chamou e disse: “Que posição tu joga?”. Eu disse: “Qualquer uma”. Ele virou e disse: “Tu não joga é nada, tudo não sabe nem a posição!” [risos]. “Mas, onde você quer?”. “Meio de campo”.  Aí, eu entrei no meio de campo e passei 20 anos jogando nesse time. Mas eu comecei assim [risos]. Meu primeiro treinador foi ele e me disse isso: “Tu não joga é nada! Tu não sabe nem a posição!”.



P/1 – Você conseguiu fazer algum gol?

 

R – Ah, consegui! Eu tenho uma história. Eu sou muito orgulhoso da minha vida de atleta porque eu, saindo daqui, participei de provas com o João do Pulo, eu cheguei a jogar com o Zico, o Garrincha, com Carpegiani, com Junior, com esse pessoal todo eu joguei. Então, eu tenho muito orgulho de tudo isso.

 

P/1 – Depois eu peço autógrafo [risos]. Como é que foi, você tinha que trabalhar?

 

R – Eu fiz Ginásio e fui ser professor de Educação Física, até por causa do esporte. Eu passei a jogar no melhor time de Roraima. Eu fui ser titular desse time, que era o melhor time de Roraima, com 15 anos; eu fui, assim, o “Ronaldinho Roraimense”. No Ginásio eu comecei a fazer Atletismo, participei de jogos escolares em Brasília, fui em Minas, conheço quase todo o Brasil participando de jogos. Ou pela AABB, Associação Atlética Banco do Brasil, ou pelo Baré, ou pela própria escola onde eu estudava. Depois eu fiz um concurso pra Polícia Militar, fui para Minas Gerais fazer um curso de sargento pra Polícia Militar. Na realidade eu passei pra oficial, só que oficial eram cinco anos, eu já era casado e tinha uma filhinha de 2 anos de idade. Eu não quis ficar separado muito tempo e fiz a opção pra ser sargento. Passei um ano como sargento. Quando eu retornei fiz o concurso pro Banco do Brasil, passei e fiquei.

 

P/1 – Só um minutinho, você conheceu sua esposa nesse período, então?

 

R – Não, eu já conhecia a Jussara, mas ela não me conhecia. Porque Boa Vista era muito pequeno e eu costumo brincar com ela o seguinte: O Sexto Batalhão de Engenharia veio sediar-se aqui e chegaram muitos homens. Então, o mulherio não prestava atenção nos homens da terra, só queriam saber... Ela diz que não [risos]. O primeiro casamento dela, na época ele era tenente do Exército, mas eu já a conhecia porque ela jogava basquete. E eu jogava, só que ela é um ou dois anos mais adiantada do que eu. Eu a admirava e ela não sabia nem da minha existência. Ela era da ala feminina do Baré, mas na época eu não jogava no Baré, eu era juvenil e ela já torcia, por exemplo, pelo time titular, porque ela tinha um namorado, aquela coisa toda. Então, ela não me conhecia, mas eu já a conhecia. Eu casei, ela casou e foi embora. Primeiro foi para Maceió e depois foi pro Rio, depois veio para Belém. Foi quando ela retornou, em 1988. Foi aí que a gente se encontrou.

 

P/2 – Mas aí, você casou com outra?

 

R – Casei com outra e ela casou com outro.

 

P/2 – Quem?

 

R – A Cândida. Tenho uma filha com ela que mora em Fortaleza hoje, é fisioterapeuta. Ela tem um casal, Ananda e Daniel. Ele é dentista e a Ananda é arquiteta. E a gente teve duas filhas: Tuana e Tainá. Mas isso já foi em 1988, que a gente se encontrou.

 

P/1 – Qual o ano vocês se casaram mesmo?

 

R – 1988. E foi assim, foi um mês. A gente se conheceu e foi morar na mesma casa. Porque ela sempre foi muito decidida, eu não. Eu tinha três namoradas e não terminava com nenhuma. Ela não, foi decidida. Chegou e disse: “Olha, se você quiser, vamos logo, senão cai fora”. E fomos morar juntos e estamos até hoje.

 

P/1 – Em Boa Vista?

 

R – Boa Vista. 

 

P/1 – E como é que foi a ideia de prestar concurso no Banco?

 

R – Como eu jogava no Baré, ele tinha muitos funcionários do Banco, na época eram seis. E eles sempre pediam para mim: “Poxa, Chico, faz o concurso do Banco”. Mesmo sem ser funcionário do Banco eu já jogava pela AABB e o Gerente sempre insistia. Aí, eu fui, fiz o concurso do Banco do Brasil e passei.

 

P/2 – Em que ano foi isso?

 

R – Em 1981. Eu ingressei no Banco em 30 de setembro de 1981. Eu tava na PM quando fiz o concurso pro Banco.

 

P/1 – E você tinha ideia do que era trabalhar em banco?

 

R – Tinha porque esses meus amigos, que eu já jogava junto, trabalhavam no banco. 

 

P/2 – E qual foi a sua primeira função no Banco?

 

R – No Banco eu assumi numa cidadezinha chamada Caracaraí, fui ser escriturário. Com seis meses de Banco, eu fui para Fortaleza fazer meu curso de Caixa. De Fortaleza eu retornei, nem fui pro caixa, fui ser coordenador de Caixas, na época, acho que era assistente o nome, não me lembro como era. Mas, aí, eu fui ser Fiscal do Setop [Secretaria de Estado de Transportes e Obras Públicas]. O que era? Era fiscal do setor que cuida de agricultura. E eu fiquei sendo fiscal. Depois vim para Boa Vista, cheguei a supervisor e tudo. Mas eu nunca quis largar. Por exemplo: Quando eu tava vivendo com Jussara, ela sempre gostou muito de interior e o banco você sabe que é um quartel. Então, eu disse para ela: “Ou eu sigo a minha carreira bancária ou eu vou ser fiscal, que aí a gente tem como viajar pro interior, a gente pode sair final de semana. Se eu seguir a carreira do banco, eu não vou poder ficar aqui em Boa Vista o tempo todo”. Ela disse: “Ah, eu não quero sair daqui”. Então, eu escolhi ficar como fiscal do banco porque eu tinha como ir pro interior, fazer os gostos dela e tudo. Porque eu acho que o dinheiro é bom, mas não é tudo na vida da gente. E a gente escolheu junto essa vida. Eu tô por aqui até hoje, até mais por causa dela que gosta, apesar da formação que ela tem, mas a gente escolheu essa vida. 

 

P/1 – Mas nessa função, que era ligada à agricultura, você tinha acesso a comunidades?

 

R – Sempre tive.

 

P/1 – Como era isso?

 

R – Por eu ser daqui, fui criado praticamente numa comunidade indígena, com os indígenas. Então, para mim era mais fácil chegar com lavrador, agricultor, sempre foi mais fácil. Eu nunca tive problema. Eu via colegas que tinham problemas, vi fiscal que, para ir em determinado lugar, tinha que ir acompanhado de um policial. Eu nunca tive esse problema. Até porque eu conhecia. E o esporte em si me ajudou muito porque eu podia até não conhecer o cara, mas o cara me conhecia. Eu tive exemplos de amigos muito fortes. Eu lembro que um dia eu cheguei numa casa para fazer uma fiscalização e o rapaz disse: “Olha, eu não tenho nada para lhe oferecer para comer”. Eu disse: “Não, mas o senhor come o quê?”. Ele disse: “Não, eu só tenho um feijãozinho com maxixe e quiabo, é o que eu vou almoçar. Eu não posso oferecer para o senhor só isso”. “Mas por que não? Eu sou igual ao senhor”. E eu sentei. Quando eu sentei, ele disse: “Tu não é o Chico Roberto que joga no Baré?”. Eu disse: “Sou”. “Poxa, eu fico escutando no rádio você jogando”. Para mim aquilo era tudo. Aquilo, para mim, no almoço, pelo que ele disse para mim, não teve dinheiro que pagasse aquilo. Quer dizer, ele ficava me ouvindo eu jogar, num radinho, lááá no pé da serra.

 

P/2 – Mesmo depois que você entrou pro Banco você continuou jogando bola?

 

R – Continuei. 

 

P/2 – Como era essa coisa de visão de mundos tão diferentes?

 

R – É até bom porque, numa cidade pequena, você fica famoso e todo mundo te conhece, além do Banco ser uma vitrine, porque todo mundo vai ao banco. Antigamente aqui só tinha Banco do Brasil e era só uma agência. Além de eu estar exposto ali no caixa, ou atendendo mesmo na agricultura, eu jogava no Baré. Então, todo mundo te conhece. Eu lembro que uma ocasião um rapaz, lá em Caracaraí, veio fazer o cadastro no Banco. Eu fiz o cadastro dele e ele tava com uma restrição. E ele já tinha ido ao Banco e, por causa dessa restrição, um colega parece que não atendeu ele bem. E eu disse para ele: “Não, hoje eu vou resolver o problema”. Eu fui na propriedade dele, fiz a fiscalização dele, eu vi que ele não tinha condições de pagar. Foi numa época, não sei se vocês lembram, que tinha um slogan que dizia assim: “Plante que o João garante”. O João era o Presidente João Figueiredo, que mandava dar empréstimo mesmo. E o rapaz tinha tido o problema e nunca tinham resolvido. Então, eu fiz um laudo dizendo que ele não tinha condições de pagar, não adiantava o Banco ficar com despesa indo lá e todo mês o fiscal ia lá e não ia resolver nunca, porque ele não tinha condições de pagar. Eu fiz o laudo e disse: “Não tem problema. Um dia, se você tiver condições, você vai lá e paga”. E isso aconteceu. Seis meses depois ele teve condições, foi lá e pagou, tiramos a restrição dele. E quando eu tô fechando o dossiê dele, ele jogou uma nota dentro, tipo R$ 50 hoje. Eu chamei ele no balcão e disse: “Olha, esse dinheiro é seu”. Ele disse: “Não, poxa, eu vim aqui várias vezes e nunca resolveram o problema...”. “Não, o Banco me paga pra fazer isso. Está aqui seu dinheiro”. “Não, Seu Chico, não leve a mal, eu queria agradecer”. Eu disse: “Não, você me espera aí, daqui uma hora eu saio e a gente almoça junto”. “Tá bom”. Ficou lá e almoçou, tal. Passaram dois anos, eu vim aqui na BR-174, de onde vocês vieram e, naquela época, uma ponte caiu. E eu estava de moto a serviço do Banco. Parei, fui lá e tudo. Aí, o sargento do BEC [Batalhão de Engenharia da Construção] disse que eu não podia passar. Voltei, retornei e fiquei lá. Chegou um rapaz e disse assim: “Tu vai pra onde?”. Eu disse: “Vou pra Boa Vista”. Ele disse: “Tu aguarda aí que eu vou te atravessar”. Eu fiquei calado. Ele chamou quatro soldados e disse: “Tu sabe nadar?”. Eu disse: “Sei”. “Tu vai pegar a corda, tu vai cair na água, tu vai puxar a canoa, que nós quatro vamos aqui”. Era uma corredeira muito grande, forte; a canoa era uma canoa que o Exército tem de salvamento, de cortiça. E a moto era pesada. Era muito arriscado. E eu fui. Quando chegou do outro lado, eu chamei ele e disse assim: “Por que você fez isso comigo?”. Ele disse: “Você lembra do Banco do Brasil, lá em Caracaraí?”. Eu disse: “Lembro”. Ele disse: “Eu fiz aqui porque você fez por mim lá”. Era o dito cujo que eu tinha atendido lá. Para mim, não tem dinheiro que pague essas coisas. Essa amizade, esse conhecimento, eu trago daqui, dessa comunidade, da convivência da gente. Eu trago conhecimento das pessoas do esporte e do próprio Banco do Brasil.

 

P/1 – Você se aposentou, né? Nesse tempo de Banco, o que viu de maiores mudanças? Porque, pra gente que é novo aqui no lugar, a gente nem tem ideia do que tem ocorrido aqui.

 

R – Geralmente quando Roraima sai na mídia é por ter acontecido alguma coisa ruim, acontece muito isso. Se você chegasse a Roraima há, por exemplo, 25 anos, Roraima tem uma divisão muito clara. Você que veio na BR, Roraima tem dois momentos: Antes e depois da BR-174. Há 25, 30 anos, não existia 1/4 do que existe hoje em Roraima. E o Banco participou muito disso: do comércio, das exportações de madeira, do próprio desenvolvimento do garimpo, porque aqui, uma época, foi muito garimpo. Eu vi cenas no Banco, em Roraima, que a gente só vê em filme de faroeste: As pessoas chegarem sentadas em cima daquele saco de dinheiro para depositar. Por quê? A maioria era de pessoas vindas do Nordeste, do Maranhão, do Piauí. O que acontece? Eles vêm para o garimpo, ganham dinheiro e retornam pras famílias. Eles depositavam no Banco. Eles vendiam o ouro nas lojas e vinham pro Banco do Brasil depositar o dinheiro, pra família ou para abrir uma poupança, alguma coisa assim. E eu via gente entrar com sacos de dinheiro na mão, sentar na fila, sentados em cima de saco de dinheiro. Então, o Banco ajudou muito nesse sentido. O problema é que o garimpo, sem ser organizado, beneficia muito pouco, beneficia o cara que é comprador. O cara que é garimpeiro, de 1.00 garimpeiros, 100 deles resolvem a vida, o resto só fica na desgraça. Por exemplo: Se aqui é um garimpo, aqui fica a prostituição, a destruição. Por quê? Porque não é uma coisa organizada. O garimpeiro, como ele ganha fácil, ele gasta fácil. São raras as pessoas que tiram proveito daquilo que ganham. Mas, o Banco do Brasil ajudou muito o setor madeireiro, o arroz irrigado. Eu, por exemplo, como fiscal do Banco, iniciei todos esses arrozeiros que hoje estão com esse problema de terra. Mas, o Banco foi responsável, todos eles passaram por financiamento no Banco do Brasil. Alguns se deram bem e outros não, como em toda profissão, em todo empreendimento. Isso é normal.

 

P/1 – E sobre os problemas, mesmo? Quando eles começaram, como que foi isso?

 

R – Antes?

 

P/2 – Você falou que antes aqui tinha pecuária e tal, e que depois veio a demarcação da terra indígena. Conta um pouquinho dessa história.

 

R – Deixa eu te falar. Aqui na época, o território que tinha pecuária, era essa região aqui, de Surumu, Cotingo. Por quê? O pasto, você vê que é fácil, um pasto que a gente chama de “pé de serra”, que é verde praticamente o ano todo. Não tinha grandes doenças, aqui não tinha aftosa. O gado era um gado em abundância. Só pra você ter ideia, deixa eu voltar um pouquinho atrás. Aqui, essa Fazenda Depósito que hoje é uma fazenda de arroz, se chama Depósito, por quê? Porque o gado vinha de outras regiões e reuniam-se aqui. Por exemplo, 1.000 cabeças de gado. Daqui, a gente saía tocando, levando esse gado de cavalo até o rio Urariquera, aquele rio grande que vocês passaram. De lá é que os motores vinham de Manaus. Vinham Manaus – Boa Vista, Boa Vista – aqui, para embarcarem, levar esse gado. 1.000, 2.000 mil cabeças de gado, uma vez por ano. Geralmente a gente fazia isso no mês de julho, que é um mês de inverno aqui e que os rios estão cheios. Então, o que nós fazíamos? Daqui, levava pra Boa Vista, deixava o que era consumido em Boa Vista e, daí, iam para Manaus. Com esse problema de demarcação, os fazendeiros começaram a sair. Por isso que eles foram embora, eles mudaram de região por causa desse problema de demarcação de terra indígena.

 

P/1 – Que ano foi mais ou menos?

 

R – Isso se acentuou de uns dez anos para cá, mas há uns 20 anos já se ouvia essa conversa. Por exemplo, têm indígenas que hoje tem 86 anos e contam, pra gente, que desde a infância já ouviam falar de demarcação de terra indígena. Foi por isso que os fazendeiros se afastaram daqui da região. Se é certo ou errado, não sei. Cada um julga da sua maneira, né?

 

P/1 – Uma curiosidade, antes de você falar dos problemas do conflito. Aliás, por que tem esse nome aqui, Raposa da Serra do Sol? Por que exatamente esse nome?

 

R – São regiões. Tem a região da Serra do Sol e tem a região da Raposa. É onde inicia e termina a área.

 

P/1 – É a junção do nome?

 

R – É, é a junção.

 

P/1 – E os problemas: Como começaram, como que estourou isso?

 

R – É sobre a demarcação...

 

P/1 – Sim. Para chegar nesse último conflito, que a gente tava conversando há pouco.

 

R – Essa terra, na realidade, foi demarcada no Governo do Fernando Henrique Cardoso e nunca foi homologada. Quando houve a homologação pelo Presidente Lula as pessoas que, de fato, tinham que sair, que eles chamam de “branco”, começaram a questionar. Só que aí, só estavam praticamente os “arrozeiros”, a maioria dos fazendeiros já tinha saído. E virou esse conflito, eles acham que não devem sair, questionam a área, a posse da terra, e gerou todo esse conflito.

 

P/2 – Quanto tempo eles estão aqui, os arrozeiros?

 

R – Eles estão aqui, no máximo, há 20 anos.

 

P/1 – E o Banco, porque aqui é uma área indígena. Como é a relação do Banco com essas pessoas? Como é que eles vêem o Banco?

 

R – O Banco é muito importante aqui, muito importante. Hoje tem Banco em Pacara, graças a Deus, foi na nossa gestão que trouxemos o Banco para cá.

 

P/1 – Que ano foi isso?

 

R – Isso tem quatro anos, final de 2004, início de 2005. Mas, a autorização para ser criada a agência tem uns 6 ou 7 anos. É porque teve um problema da posse do imóvel, transferir pro Banco, fazer o contrato, essas coisas todas, e demorou um pouco. Mas, foi na nossa gestão, na época eu era vice-prefeito, que a gente conseguiu, por eu ser funcionário, saber os caminhos, que a gente conseguiu a agência bancária para Pacaraima. Mas, o Banco é muito importante, você já imaginou você vindo de Uiramutã, que é um município daqui, pra ir em Boa Vista, receber a sua aposentadoria que pode ser, por exemplo, um salário mínimo, você vai gastar mais da metade para receber. Hoje, você vem em Pacaraima. Pros arrozeiros também, eu tive a felicidade de acompanhar desde o início toda essa lavoura de arroz. Tudo isso é desenvolvimento do Banco do Brasil. Mesmo no Banco, através da Fundação Banco do Brasil, eu operacionalizava os projetos da Fundação Banco do Brasil e a gente teve a felicidade de fazer projeto indígena, por exemplo, capacitação pras pessoas indígenas e fazer capacitação fora do Estado. Tudo isso, ligado ao Banco. E a minha formação, até como pessoa, eu devo muito ao Banco.

 

P/2 – Chico, como começou o seu envolvimento com a Política?

 

R – Para você ver como são as coisas: Por solicitação de uma indígena. Eu estava em um aniversário, em uma comunidade indígena, e a professora Natalina, que hoje é coordenadora do Departamento Indígena da Secretaria de Educação Estadual, disse pra mim: “Chico, nós precisamos que você procure a Política para que possa nos ajudar”. E eu me envolvi. Foi quando Pacaraima passou a município, eu fui ser vice-prefeito e depois eu fui ser prefeito, atendendo a essa solicitação indígena.

 

P/1 – Mas você lembra da eleição em si, quando você: “Pô, venci”. Como foi isso?

 

R – A primeira vez eu me candidatei para ser vereador por Boa Vista. Aqui tem uma urna e naquela ocasião eu não me elegi por oito votos. E na urna daqui do Surumu eu tive 95% dos votos da região. Embora não tenha ganhado, eu me considero um vencedor. Depois foi a criação do município, eu fui ser vice-prefeito, fui prefeito por seis meses. Fui para uma eleição, perdi a eleição pro atual prefeito. Depois, ele foi cassado, eu assumi. Depois eu tornei a sair. Agora, a gente foi parceiro do candidato a prefeito, até porque eu não podia me candidatar, e a gente ganhou do Seu Paulo César, que é o atual prefeito. Mas eu vou continuar nessa luta.

 

P/1 – Vou fazer uma pergunta besta, mesmo. Os índios votam?

 

R – Votam.

 

P/1 – E discutem, debatem?

 

R – Discutem, debatem, escolhem candidato, tudo.

 

P/1 – É?

 

R – Eu devo ter 80% dos votos indígenas.

 

P/1 – Mas, a primeira vez que você se candidatou, você teve que falar em público. Você já tinha esse negócio todo de falar em público, foi tranqüilo?

 

R – A gente aprende. Até porque no Banco, eu fui mestre de cerimônias. Não tinha lá e eu tive que aprender. Eu também tive a satisfação de receber o presidente do Banco do Brasil, doutor Alcir Calliari. Como eu falei anteriormente, eu fazia os projetos da Fundação Banco do Brasil e, naquela ocasião, ele me convidou para ir trabalhar em Brasília, na Fundação Banco do Brasil. Eu não quis, nunca quis sair de Roraima. Eu não segui carreira no Banco porque eu não quis sair daqui, eu preferi ficar como escriturário, como fiscal, para não ter que sair daqui de Boa Vista.

 

P/1 – No tempo em que você estava como prefeito, quais foram as maiores mudanças que você conseguiu implementar?

 

P/2 – Em que ano que Pacaraima virou município?

 

R – O município tem 12 anos. Vocês vão conhecer Pacaraima. Pacaraima era uma vila e, quando passou a município, veio o asfalto, vieram as instituições. Hoje, Pacaraima tem Banco do Brasil, representação da Caixa Econômica, tem asfalto, faculdade, hoje tem seis cursos superiores. Nós temos faculdade à distância, um quartel, Receita Federal, Polícia Federal. O crescimento foi muito grande com a criação do município. Embora ainda haja essa questão de terra, que é muito delicada e muito complexa para ser entendida. Mas, eu me orgulho como prefeito. Por exemplo: Eu saí, agora em abril, e deixei nos cofres da prefeitura 23 milhões em projetos. Essas obras, essas casas aqui que vocês estão vendo, essas ruas, tudo já fui eu que deixei. Eu sempre procurei puxar a sardinha pro meu lado, pra questão indígena, eu deixei projetos de creche aqui no Surumu, nessas comunidades indígenas como Contão, Taxi e Boca da Mata. E cuidar, também, da sede do município que é onde está a maior população. Meu maior sonho seria transformar as comunidades indígenas auto-suficientes para não serem dependentes do governo. Porque eu acho que eles têm capacidade, eles têm terra, água, têm tudo. O que precisa é desenvolvimento de política. Por exemplo, você quer ver um negócio?  

 

(troca de fita)

 

P/2 – Chico, além da questão da terra, tem também a coisa do ponto estratégico que fica Pacaraima, da proximidade com a fronteira. Como que é isso?

 

R – Em 1968 começou um conflito entre a Venezuela e a Guiana Inglesa. Foi quando o Exército veio para cá. Pacaraima não existia justamente por causa dessa questão estratégica, de ser fronteira. De início, o Exército veio pra cá por causa desse conflito Venezuela - Guiana. Nós estávamos no meio disso aí tudo e o Brasil ficou como mediador. Depois, por causa de Santa Elena que, do ponto de vista de estratégia mesmo, foi que começou Pacaraima. O Exército saiu daqui e foi para lá, por causa dessa questão de fronteira. Tanto que o projeto inicial da BR-174 passava aqui dentro. Depois que foi modificado por causa de Pacaraima. E essa questão de Segurança Nacional, que tanto se fala em mídia nacional: “Ah, não pode ser demarcado em área contínua por causa da Segurança Nacional” e não sei o quê. Eu vejo de outra maneira. A terra indígena é terra da União, então quem tem que dar segurança é a União. Se não tem Segurança Nacional, a culpa é da União, eles que coloquem o Exército para ser guardião da nossa fronteira.

 

P/2 – Eles acham que se a terra for contínua a fronteira fica mais vulnerável...

 

R – Fica desguarnecida. Eu discordo, porque a terra é da União. Então, o Exército brasileiro é quem tem que vir para cá tomar conta.

 

P/1 – Mas é o contrário, não é? Se não tiver continuidade você abre brechas...

 

R – É por isso que eu te digo, essa é uma questão muito... [risos].

 

P/1 – É político isso, é um pouco político?

 

R – É. Muito, muito. E eu não sou contra. Para mim, a terra seria melhor se ela não fosse contínua. Agora, eu não vejo impedimento dela ser contínua e fazer alguma coisa. Eu não posso ficar de braços cruzados por ela ser contínua. Eu tenho como trabalhar com os indígenas. O que falta, vou tornar a dizer, são políticas públicas continuadas. Eu sou um prefeito, a minha cor é vermelha. Se o outro entra, eu não quero mais que a minha cor seja vermelha, eu já troco pra amarela. Então, aquilo que tava dando certo para mim, eu já não sigo. É assim que os políticos vêem. É falta de políticas sérias, de continuidade. Vamos dizer assim, se o branco sabe plantar arroz, por que eu não posso ensinar o indígena? O arroz ou outra cultura dele. Por exemplo, politicamente a gente vê no Nordeste aquilo que a gente chamava “Voto dos Coronéis”. Hoje está acabando. Ou “Voto da Seca”. O cara não fazia o açude lá que é para ter aquelas pessoas na mão, entendeu? Essas coisas têm que acabar. Eu vou tornar a dizer pra você, tenho um sonho para que as comunidades sejam auto-suficientes, que elas aprendam a plantar, a colher, que elas tenham a vida delas, independente.

 

P/1 – O que seria, então, um DRS [Desenvolvimento Regional Sustentável] indígena?

 

R – Indígena? Por exemplo, a produção da farinha, da mandioca. Você vai ensinar lá o indígena. Ele, com a comercialização da farinha, vai ter o caminhão dele, vai ter a alimentação melhorada e tudo. Nós temos vários tipos de DRS que podem ser feitos. O artesanato, todo mundo procura artesanato indígena. A própria verdura sem agrotóxico, sem nada, todo mundo não quer hoje? Não é moda no mundo todo? Nós podemos fazer, nós temos terra e água.

 

P/1 – Deixa eu voltar, então. Em relação ao tempo que você estava no Banco, o que você destacaria como os fatos mais marcantes na sua vida?

 

R – A gente participou naquela época, eu não me lembro o nome, mas era tipo DRS hoje no Banco do Brasil. Eu não tô lembrado o nome, mas eram projetos de produção de alimentos e participamos de vários. Como é que é o nome, meu Deus do céu? Eu não tô lembrado. Mas, na área comercial, por exemplo, trazia os grandes comerciantes como clientes do Banco do Brasil. Qual a imagem do Banco? “O Banco do Brasil só vive cheio. Não abro conta lá porque eu não vou ficar na fila”. Então, nós fomos os pioneiros em desenvolver um trabalho e trazia os grandes comerciantes da cidade para o Banco do Brasil, dando a eles um atendimento exclusivo. Isso, para mim, foi muito importante no desenvolvimento para o Banco com relação à captação de recursos. Porque os nossos grandes comerciantes não tinham conta no Banco, por causa das dificuldades. Ele achava que o Banco era muito sério, só vivia cheio e não iria abrir conta por conta disso. E foi quando se desenvolveu um grande trabalho, pegando os grandes comerciantes e trazendo tudo pro Banco, dando a eles um atendimento exclusivo. Isso melhorou muito o Banco do Brasil.

 

P/2 – Eu queria só que você contasse a historinha curtinha do nome de Pacaraima.

 

R – Pacaraima, na realidade, é Paracaima que, em indígena, quer dizer: “rio que nasce na serra que nasce no mato, na mata que desce”. Quando vieram fazer as demarcações, os limites, a pessoa que foi escrever colocou Pacaraima. E aí, ficou. Eu ainda pensei em fazer o plebiscito porque eu era o prefeito, pra ver se ficava o Paracaima e não Pacaraima, mas a dificuldade ia ser grande, teria que mudar muita coisa e eu preferi...

 

P/2 – Foi um erro de registro no nascimento do município [risos].

 

R – Foi, um erro no registro do município. E com relação a essa questão indígena eu tenho muito orgulho de ter um registro indígena, eu tenho duas filhas que têm registro indígena. O nome é Tainá...

 

P/1 – E como funciona o registro, onde que registra?

 

R – Você vai na Funai [Fundação Nacional do Índio] que expede o registro indígena, porque a Funai é a tutora dos indígenas.

 

P/1 – Então, quando nasce qualquer criança aqui na comunidade indígena tem que ir na Funai?

 

R – Além do registro civil você tem que pedir o registro indígena. Por exemplo: Tainá quer dizer “os primeiros raios de sol”. E Tuane é “princípio da vida”, que são as minhas duas filhas, Tuane e Tainá.

 

P/1 – Que lindo... Chico, olhando sua trajetória de vida: Esporte, Banco, Política... O que você diria que foram as principais lições na sua vida?

 

R – A solidariedade com as pessoas. Eu não me considero político, eu quis um cargo de prefeito para poder fazer algumas coisas para aquelas pessoas que cresceram junto comigo e que não tiveram a oportunidade que eu tive. Eu tive um pai que teve condições de me mandar para Boa Vista para estudar. Eu tive condições de ser um funcionário do Banco do Brasil, estudei, iniciei uma faculdade, embora não tenha terminado porque eu me envolvi no Banco. Quando eu passei no Banco, não precisava ter um curso superior. Você passou no Banco, você estava com a sua vida feita, porque o salário do Banco era muito bom e tudo. E eu, felizmente ou infelizmente, eu não sei, pensei dessa maneira. E eu tive essa oportunidade de ser funcionário do Banco. Mas quando eu optei pela carreira política foi pra fazer alguma coisa por essas pessoas. Eu não me considero um político, eu quis ter alguma coisa nas mãos para poder fazer algo. Ainda hoje, penso dessa maneira. Ainda não fiz o que gostaria, que é ver uma ou duas comunidades indígenas independentes. A gente tem muito o que aprender com a questão indígena. O que sai na mídia não é a realidade do que a gente vê. Existe muito... A gente é enganado muito na maneira que eles decidem as coisas...

 

P/1 – Dá pra falar um pouco sobre isso?

 

R – Por exemplo, reuniões. Eles têm a pauta deles e, por exemplo, quando é a minha vez de falar, nenhuma pessoa dali reclama, ou então pede a palavra, interrompe. E outra coisa, eles decidem tudo em reunião. Eu vi uma assembleia indígena aqui e é o seguinte: Eram 3h da manhã, era para ter terminado às 11h. Como se prolongou ninguém reclamou, ninguém se levantou. Se fosse nossa, todo mundo teria ido embora. E, assim, por exemplo: Eles fazem as festas deles. Se o Tuxaua achar que a festa não está indo bem, pode ser a maior festa que tiver, e ele decidir que às 23h vai acabar, acaba e ninguém diz nada, ninguém reclama.

 

P/2 – O que é o Tuxaua?

 

R – Tuxaua é o capataz, gerente, o que manda na comunidade.

 

P/2 – Como é uma festa indígena?

 

R – É mais ou menos como as nossas só que dança lá o forró “pé-de-serra” que a gente chama. A bebida é mais caxiri, uma bebida típica deles. Mas é mais ou menos como a gente. Hoje tem luz elétrica, teclado. Antigamente, não, era lamparina mesmo, o cara na sanfona e forró até o dia amanhecer. 

 

P/2 – Então, quando a gente pensa em lições, você pode ter tirado muito disso dessa relação com as comunidades.

 

R – Eu aprendi muito, principalmente agora como Prefeito. Nas reuniões e nos planejamentos que a gente participava. Por exemplo: A Prefeitura faz o atendimento médico nas comunidades indígenas. A gente sai da sede do município e vai atendê-los lá na comunidade. E na comunidade já tem um agente de saúde. Esse agente de saúde, quando a gente chega, vai passar tipo um relatório: Quantas pessoas o dentista vai atender, quantas o médico vai atender, quantos preventivos ele tem que fazer. Ele faz tipo uma triagem e questões. Dependendo do cronograma, você faz avaliações desses atendimentos. E os indígenas são muito sinceros, eles dizem abertamente o que eles pensam e acham. Não têm rodeio, como a gente tem, para não magoar fulano, sicrano, a gente faz, né? E eles não, eles dizem para você. E acabou dali, tá resolvido. O problema ficou ali e acabou. Eles são assim.

 

P/1 – Chico, a gente tá quase já fechando e queria saber um pouco de você. O que você acha dessa ideia que o Banco do Brasil teve de comemorar os 200 anos através desses depoimentos que estamos colhendo, a partir dos biomas brasileiros...

 

P/2 – Das histórias das pessoas...

 

R – É muito louvável. Até quando eu soube, eu soube por acaso, com a Suzi. Eu disse: “Eu não vou lhe perdoar se você não me chamar quando o pessoal do Banco...”. Porque ela tinha feito contato aqui na Vila com uma outra pessoa, que não é daqui, que tá aqui há pouco tempo, que não iria contar essas histórias aqui. Eu disse para ela: “Eu não vou te perdoar se você...” [risos]. Até porque a gente é daqui, a gente conhece; por coincidência, a gente é funcionário do Banco, a gente viu o Banco crescer. Por exemplo: Eu lembro que quando eu era chefe dos caixas eu chegava no Banco 5h da manhã e saía às 8h horas da noite. Eu era do tempo que lançava a conta corrente naquelas fichas grandes, naquelas máquinas. Depois vieram os relatórios, eu trabalhei no CPD [Centro de Processamento de Dados] do Banco, então, eu participei de todo esse desenvolvimento do Banco. Eu passei uma época fora, quando eu fui vice-prefeito. Quando eu voltei pro Banco, praticamente eu entrei no Banco de novo. Mas, nesse curto espaço de tempo eu vi o Banco se transformar, vi...

 

P/2 – Implantador...

 

R – Implantador, vi tudo! Vi inspetor [risos]. O inspetor, antigamente, não falava nem com a gente, né? A gente tem lembranças, assim, de muitas coisas do Banco. O Banco, para mim, me ensinou muito, muito. E tenho o maior orgulho de ter sido funcionário do Banco.

 

P/2 – Você se aposentou pelo Banco?

 

R – Eu aposentei, agora em agosto de 2007, pela Previdência. Quer dizer, na realidade eu vou ficar esperando ou completar o tempo de serviço ou a idade. Só que a gente sai do Banco, eu fiz a opção de sair. Porque, se eu continuasse no Banco, eu ia ganhar menos do que fora.

 

P/1 – E depois que você saiu como é o seu dia a dia? O que você faz atualmente?

 

R – Eu tenho me dividido entre a minha casa em Boa Vista e aqui em Pacaraima, para não perder esse contato. Eu tenho intenção, ainda vou ser Prefeito aqui, para terminar um projeto de vida que eu tenho. Não para mim, mas para satisfazer a vontade de fazer alguma coisa, principalmente pelas comunidades indígenas.

 

P/1 – O que você acha de ter contribuído com o seu depoimento?

 

R – Eu preferiria que vocês depois avaliassem esse meu depoimento [risos] porque eu sou suspeito de...

 

P/1 – Mas você gostou...?

 

P/2 – Como você se sentiu em contar essa história?

 

R – Ahhhh, eu me senti “o cara” por ter participado dessa história do Banco. Eu tive a satisfação, também, eu não lembro bem, foi alguma comemoração do tempo do doutor Alcir Calliari. Teve uns projetos que a Fundação Banco do Brasil desenvolveu em Boa Vista, como a revitalização de onde Boa Vista nasceu. Eu também participei, com o doutor Alcir, de todas essas coisas. Então, para mim... Ainda mais esses 200 anos, para mim é tudo. Eu nem imaginava estar participando porque eu estava fora do Banco. Algumas pessoas me falaram, até me convidaram, teve um jantar, alguma coisa, na AABB e eu não fui, não dei muita atenção. E agora, Deus me colocou nesse caminho para participar da história dos 200 anos do Banco. Tenho amigos por esse Brasil todo: São Paulo, Potirendaba... Todo o Brasil nós fizemos amigos como funcionário do Banco.

 

P/1 – Chico, é isso. A nossa equipe agradece muito o seu depoimento. Obrigada.

 

P/2 – Obrigada.

 

R – Eu que tenho que agradecer vocês. Infelizmente vocês vêm correndo, não dá tempo pra gente passear, tomar um banho...

 

P/1 – Vamos ver, quem sabe?

 

R – Quem sabe...

 

P/1 – Obrigada.

 

P/2 – Obrigada.

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