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Operária da paz

História de: Lia Diskin (Leonor Beatriz Diskin Pawlowicz)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/04/2010

Sinopse

Para Lia Diskin, argentina estabelecida em São Paulo desde o início dos anos 1970, falar de sua história é também falar de seus princípios de trabalho e de vida. Ao se lembrar da infância e do ateísmo do pai, ela alude ao início de um fascínio pelas questões espirituais; ao se recordar dos problemas sociais que presenciou quando da chegada ao Brasil e da primeira viagem à Índia, ela localiza os momentos de percepção de que a filosofia de que estava imbuída precisava resultar em ações. Assim, criou ao lado do marido, Basílio, um centro pedagógico para crianças em condição de abandono e a Associação Palas Athena, por meio da qual trouxe “gigantes” como Dalai Lama ao país, a fim de divulgar e valorizar a cultura de paz. Além de se preocupar com os outros, Lia se diz também uma operária de si mesma, trabalhando, a cada dia, para se tornar uma pessoa melhor.  

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História completa

Sou conhecida por Lia Diskin, mas meu nome completo é Leonor Beatriz Diskin, hoje, de Pawlowicz. Eu digo hoje, mas na realidade nos últimos 36 anos, porque me casei nos anos 70. Nasci em Buenos Aires na Argentina, eu nasci no centro de Buenos Aires, numa região muito acessível e, nas minhas lembranças, muito acolhedora pela quantidade de parques que rodeavam minha casa. Eu nasci em 1950, em 27 de outubro.

Por mais que eu tenha nascido de pai argentino, o meu pai nasceu na Argentina, mas os pais dele eram russos. E minha mãe era búlgara, sempre falou um espanhol com grande dificuldade, com muito sotaque. Então, todo meu habitat sempre esteve permeado pelo fato de ser estrangeiro, de uma condição de estrangeira, por mais que houvesse uma nacionalidade, inicialmente da Europa, sobretudo a Europa Oriental, era uma referência constante dentro de minha educação, dentro de minha formação.

O meu pai se criou como ateu e eu mesma, na evolução da família, não tive nenhum tipo de formação religiosa. Entretanto, os recintos religiosos, os espaços religiosos, sempre me despertaram uma imensa curiosidade. Eu tinha uma babá, que era muito cristã, e perto de minha casa havia uma igreja, então, ela ia todos os dias para a igreja, ela passava, ficava dez ou 15 minutos. E esses espaços, com essas figuras de santo, com esse silêncio extraordinário que há nesses claustros, despertavam realmente a minha curiosidade de saber o que se fazia ali dentro.

Eu cheguei ao Brasil com 21 anos. Eu saí da Argentina durante a época da ditadura, não porque eu militasse em movimentos de esquerda extremista, porque nunca havia exercido a violência, utilizar o instrumento do terror como meio de expressão política ou de expressão ideológica. Eu já estava casada, mas Basílio, meu esposo, estava fazendo certos estudos nos Estados Unidos, ele se dedicou à questão de estrutura do papel. E eu vim aqui, sempre no sentido de que, quando ele terminasse os estudos, viria para o Brasil e depois retornaríamos os dois para Buenos Aires. Mas terminamos ficando aqui mesmo.

Mais tarde, Basílio já tinha chegado, é que começamos os primeiros encontros filosóficos, literários, culturais na nossa própria casa. E lá na Nove de Julho, em São Paulo, também tive minhas primeiras experiências com o que é a realidade da exclusão. Por quê? Porque esse sobrado estava exatamente em frente à Igreja da Lorena, exatamente em frente à Igreja da Lorena e, na Igreja da Lorena, havia um grupo de mães – eu estou falando de 74, 75, 76 – havia um grupo de mães que tinham as suas crianças que esmolavam na rua e, não me pergunte por quê, porque realmente eu não sei, chegou um dia que as crianças maiores tocaram a campainha e começaram a pedir esmola na própria avenida ou coisa assim. Eu entendia, naquele momento – já nutrida pelo espírito gandhiano, nutrida pela advertência gandhiana –, que a esmola termina construindo, em última instância, uma relação não igualitária entre ambas as partes. Então, comecei a oferecer comida, comecei a oferecer sopa. Mas depois não era apenas sopa, era também trocar alguma roupa que estava muito deteriorada, e depois foi tomar banho, e depois foi começar a ensinar...

Conclusão: os meninos tomavam banho e saíam com roupas novas, mas o que acontecia? No dia seguinte, voltavam com a roupa velha, e iam com roupas novas, e voltavam com as roupas velhas. Teve um momento que eu simplesmente criei coragem, atravessei a avenida e me dirigi para as mães e perguntei por que não deixavam que as crianças usassem as roupas que a gente tinha comprado para elas, que eram limpinhas. E uma delas, com absoluta sinceridade, coisa que eu agradeço até os dias de hoje, ficou olhando e me perguntou: “Mas você pensa que alguém vai dar algum dinheiro para alguém que está totalmente limpinho e bem vestido?” Isso causou grande impacto para mim, era óbvio que ela tinha razão. Aí comecei a compreender que esse não era o melhor caminho para poder criar uma condição melhor para esses meninos e comecei a pensar no Centro Pedagógico, no que hoje é o Centro Pedagógico, um lar para crianças em condições de abandono que fossem encaminhadas pelo juizado de menores.

E aí começamos o Centro Pedagógico, e foi tendo a trajetória de crianças que entendíamos que teriam que nascer com princípios da dignidade absolutamente preservados. E até os dias de hoje estou absolutamente convicta que o que faz um ser humano, o que permite que esse ser humano apresente todo seu potencial, é manter intacta a sua integridade, manter intacta a sua dignidade como criatura humana.

Quando eu cheguei lá, na Índia, foi uma experiência muito marcante da minha vida. Não só pela profundidade que se pode alcançar em compreensão do que é a gente, do que é o universo, de como se está dando essa relação gente/universo, mas também por coisas totalmente inusitadas na minha biografia pessoal como, por exemplo, ver pessoas com lepra, eu jamais tinha visto leprosos na minha vida. Lá existiam populações inteiras morando, vivendo da caridade humana e em condições subumanas, eu nunca tinha visto. Então, também foi um impacto perceber como uma cultura que é capaz de tamanha altura, tamanho refinamento, não foi competente em criar condições de humanidade básica e fundamental para seus próprios filhos. Como que se dá isso? Como pode acontecer um pensamento tão desconectado da realidade? Estar afastado da realidade? Como esse pensamento não se traduziu em práxis?

É aí que a Palas Athena, que depois toma sua forma conceitual, institucional, legal, tem por mote “filosofia em ação”. Ou seja, filosofia que não se traduz em ato, filosofia que literalmente se mantém como expectadora de um processo, mas não está disposta a pagar o preço de participar do processo, bom, literalmente isso não se pode chamar de filosofia, pode se chamar de diletantismo, até de literatura, mas não de filosofia. Filosofia é um compromisso. Se formos à origem da palavra, o amor é um compromisso, o amor não é algo que possa estar dissociado do enredo da vida.

A mobilização que existe, por parte da sociedade civil, no Brasil, me atrevo a dizer, não existe em outro país no mundo. Mesmo no relatório oficial do programa da Unesco de cultura de paz, apresentado nas Nações Unidas, o maior número de ONGs [Organização Não Governamental] ou de grupos de ação, grupos da sociedade civil que tiveram uma ação concreta, um projeto concreto levado a cabo, nesse relatório, a maior quantidade de centros de ações são os brasileiros. Então, eu vejo uma grande oportunidade, vejo uma condição muito singular no Brasil para isso. O que nos falta um pouquinho é metodologia no trabalho. Nós ainda somos muito confiantes no improviso, nós confiamos muito no que Deus dará. Claro que vai dar, sem sombra de dúvida, mas não joga o fardo para ele, por favor, trabalhe um pouco mais sistematicamente e mais metodologicamente a tua parte. Deus dará lá na frente.

Posso dizer que é a Lia que se vem trabalhando, isso sim eu posso dizer, trabalhando interiormente. Há um repertório de práticas, chamem de espirituais, chamem de meditativas, que permitem acompanhar como é a qualidade do pensamento, não o conteúdo do pensamento, qual é a qualidade do pensamento. Então, a essa altura de minha vida, com 57 anos, eu consigo ver isso, eu consigo internamente ver isso e eu trabalho. Então, eu posso dizer que a Lia é uma operária, uma operária que às vezes sai tranquila, confiante, conseguiu um bom dia, uma semana boa, construtiva, com nutrientes, e outra que se sente absolutamente fracassada, porque ainda essa parte tenebrosa é muito dura. Eu sei que se pode trabalhar.

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